Consumo de orgânicos reduz nível de pesticidas em crianças

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Criança comendo morango

Comida: estudo, realizado nos Estados Unidos, envolveu 40 crianças, com idades de 3 a 6 anos.

Vanessa BarbosaVanessa Barbosa
 

São Paulo – Uma nova pesquisa, publicada na revista científica Environmental Health Perspectives, sugere que a adoção de uma dieta orgânica reduz, significativamente, as concentrações de certos defensivos agrícolas sintéticos no organismo infantil.

O estudo, realizado nos Estados Unidos, envolveu 40 crianças, com idades de 3 a 6 anos, de duas localidades diferentes, um bairro urbano em Oakland e uma região agrícola do Vale do Salinas, na Califórnia.

Ao longo de 16 dias, os cientistas trocaram os alimentos convencionais da dieta das crianças por produtos orgânicos e mediram as concentrações de pesticidas na urina dos pesquenos durante esse período.

Nos quatro primeiros dias, as crianças comeram produtos convencionais, nos setes dias seguintes, a dieta era orgânica, e nos últimos 5 dias, elas voltaram aos alimentos convencionais.

Segundo a pesquisa, os níveis de vários pesticidas que apareciam no teste diário da dieta convencional caíram de 25 a 50 por cento durante a período de alimentação orgânica.

A dieta orgânica foi associada a reduzidas concentrações de compostos formados (metabolitos) quando o corpo tenta eliminar pesticidas.

Conforme o estudo, os metabolitos de dois pesticidas organofosforados neurotóxicos caíram de 40 a 49 por cento. Já os níveis do herbicida 2,4-D (um dos mais comuns e antigos do mundo e um possível agente cancerígeno) caiu 25 por cento.

No entanto, os pesquisadores ressaltam que o estudo não sugere que todos os legumes e frutas não-orgânicos devem ser evitados. “Eles são alimentos saudáveis” disse Asa Bradman, autor da pesquisa, ao  The New York Times.

“Mas há evidências de que a dieta é uma via de exposição a pesticidas, e você pode reduzir a sua exposição ao escolher alimentos orgânicos”, acrescentou.

FONTE: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/consumo-de-organicos-por-criancas-reduz-pesticidas-no-corpo

Folha de São Paulo publica matéria mostrando como descontrole está levando alimentos envenenados para a mesa dos brasileiros

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Venho acompanhando de forma acadêmica a situação do uso de agrotóxicos no Brasil por mais de uma década, e assim não me surpreendo com o conteúdo da matéria que foi publicada pela Folha de São PÇaulo que mostra como o descontrole em relação ao uso dessas substâncias na agricultura brasileira vem resultando no consumo de alimentos contaminados pelos brasileiros.  

E a fórmula mistura descontrole e permissividade, visto que nos tornamos um dos principais mercados para o consumo de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo e que são usados de formas que ampliam a chance de contaminação desde o agricultor que os utiliza até o consumidor dos alimentos que são produzidos nessa teia venenosa.

Agora, para quem acha que os números mostrados são preocupantes, aconselho a ler a matéria com atenção. É que tudo indica que o nível de contaminação é ainda maior, visto que a amostragem é pequena e a capacidade de analisar o que é coletado é para lá de incipiente.

Enquanto isso Kátia Abreu reina livre e soberana no Ministério da Agricultura, onde tenta diminuir ainda mais os já frágeis controles que existem em torno do uso dos agrotóxicos.  Em suma, o que está ruim ainda pode piorar, e muito.

 

Sem controle, alimentos circulam no país com agrotóxico irregular

LUCAS FERRAZ e  EDUARDO GERAQUE DE SÃO PAULO

Documentos obtidos pela Folha mostram que a fiscalização, quando é feita, atinge somente uma fração pequena dos produtos e reprova até um terço deles.

Por exemplo: análise por amostragem da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em alimentos típicos da cesta básica que circularam no Estado de São Paulo em 2014 mostrou que 31% tinham agrotóxicos proibidos ou em quantidade acima da permitida para os produtos.

Editoria de Arte/Folhapress

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O resultado dessa análise revela falhas na cadeia de controle da qualidade dos hortifrutigranjeiros produzidos e comercializados dentro do território nacional.

Um espelho desse quadro é a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais), em São Paulo.

Por esse que é o maior armazém comercial da América Latina passam cerca de 30% de toda a produção nacional de alimentos atualmente.

Durante todo o ano passado, segundo informa documento do Ministério da Agricultura, só duas amostras de bananas foram coletadas ali para monitoramento.

“Não há controle, nunca vi nada. E trabalho aqui há 20 anos”, afirma o feirante Cláudio de Jesus, 39, dono de uma banca de legumes na feira que funciona semanalmente dentro da Ceagesp, na zona oeste da capital paulista.

Esse depósito gigante distribui produtos para supermercados e feiras da capital, além de dezenas de cidades do interior e outros Estados.

“É lamentável essa falta de controle”, afirma a dona de casa Adriana Lima, 29, que faz compras na Ceagesp há quatro anos.

SAÚDE

Potência na produção de alimentos, o Brasil é, por isso, um dos maiores consumidores de agrotóxicos do planeta. Entre as substâncias usadas no país estão algumas potencialmente cancerígenas, parte delas banidas da União Europeia e de países como China e Índia.

Os riscos à saúde vão de irritação na pele e nos olhos a dificuldades respiratórias, malformações congênitas, alterações no sistema hormonal e imunológico e câncer.

Para minimizar os efeitos, lavar bem os alimentos ajuda, mas não elimina todos os resquícios de agrotóxicos.

“É um risco inaceitável. Os gargalos não são acidentais, as autoridades fazem vista grossa”, diz o defensor público Marcelo Novaes, que coletou todas essas informações oficiais para, inicialmente, estudar a situação em Santo André, na Grande São Paulo.

Suas conclusões serão apresentadas nesta semana.

A responsabilidade pelos agrotóxicos é de três órgãos federais: além da Anvisa e da Agricultura, o Ministério do Meio Ambiente também tem atribuição por sua área.

O trabalho de cada órgão, contudo, costuma dar em resultados contrastantes.

As 48 amostras analisadas pelo Ministério da Agricultura em São Paulo em 2014, por exemplo, incluindo as duas de bananas na Ceagesp, foram consideradas satisfatórias.

No mesmo período, a Anvisa detectou 31% de desconformidade nos produtos analisados em supermercados da capital e da Grande SP —muitos, provavelmente, haviam passado antes pela Ceagesp.

QUEM FAZ O QUÊ

  • Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)

> É a responsável por analisar se a quantidade de agrotóxico presente no alimento é tóxico para o organismo humano

  • Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)

> Responsável por fiscalizar estabelecimentos comerciais que produzem, importam ou exportam agrotóxicos

  • Ibama/MMA (Ministério do Meio Ambiente)

> A pasta deve garantir que os agrotóxicos usados na agricultura não estão destruindo o ambiente, como rios e matas nativas

DICAS
> Lavar os alimentos em abundância e retirar a casca
> Vinagre ou desinfetante específico para alimentos matam os micro-organismos
> A melhor saída é conhecer a procedência dos alimentos e, se possível, comprar produtos orgânicos

OUTRO LADO

A responsabilidade pelo controle dos níveis de agrotóxico no país é federal, mas a atividade é compartilhada entre municípios e Estados.

Em ofício encaminhado à Defensoria Pública do Estado de São Paulo, a Ceagesp reconhece que, desde 2009, não realiza monitoramento nos produtos que comercializa, uma média mensal de 283 mil toneladas.

Naquele ano, o órgão assinou convênio com o Ministério da Agricultura, que desde então passou a ser responsável pelo controle.

Antes das duas amostras de banana analisadas no ano passado, a última análise na Ceagesp havia sido feita em 2012, quando foram coletadas dez amostras de quatro culturas (batata, laranja, morango e pimentão).

Segundo o ministério, a prática foi alterada para “garantir maior rastreabilidade e abrangência”, com o monitoramento sendo feito diretamente nos produtores ou no porto de Santos, antes de os alimentos serem exportados.

A Anvisa, que não publicou ainda relatórios sobre as análises feitas em 2013 e 2014, disse que fará a divulgação dos resultados até o fim do ano. Os números mais recentes disponibilizados pela agência são de 2012.

Ao justificar o tempo entre as coletas e a divulgação dos resultados, a Anvisa informa que, em alguns casos, o prazo da publicação de dados nos Estados Unidos, por exemplo, é ainda maior.

A agência afirma que está encerrando os processos de reavaliação de sete agrotóxicos, que começou em 2008, mas não estipula uma data para que isso ocorra. Outros produtos terão que ser analisados também, em decorrência de decisões judiciais.

Sobre a quantidade de amostras que analisa anualmente, a Anvisa afirma que a legislação “não especifica o quantitativo de amostras a serem monitoradas”.

Ainda assim, a agência disse ter monitorado no ano passado os 25 principais alimentos de origem vegetal que compõem a dieta do brasileiro. Em 15 anos, ressalta, foram cerca de 30 mil amostras.

Sobre as diferenças de metodologia da Anvisa e do Ministério da Agricultura, cujos resultados muitas vezes são conflitantes, o órgão sanitário informa que são programas com “focos diferentes e complementares”.

O trabalho da Anvisa colhe amostras nos locais onde a população geralmente adquire os alimentos.

Já o Ministério da Agricultura coleta amostras em propriedades rurais, estabelecimentos comerciais e centrais de abastecimento.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/10/1689919-sem-controle-alimentos-circulam-no-pais-com-agrotoxico-irregular.shtml

Brasil de Fato: MPF busca parceria com a Anac para fiscalizar agrotóxicos

Membros do Ministério Público avaliam a interlocução como estratégica para combater os impactos da pulverização por meio de aeronaves.

 

Da Redação

O Ministério Público Federal (MPF) tem buscdo uma parceria com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para combater os efeitos negativos de pulverização aérea de agrotóxicos. A Agência se responsabilizaria por rastrear, controlar e fiscalizar as aeronaves.

Anac e MPF se reuniram na última quinta-feira (24). Para o Ministério Público, a reunião representa um avanço na articulação com a Anac, que é uma parceira estratégica para ações de combate aos impactos negativos dos agrotóxicos. O assunto do encontro foi implantação de um sistema de rastreamento eletrônico de aeronaves agrícolas.

“Tais informações viabilizariam um controle efetivo das operações, possibilitando não só o incremento da fiscalização da Anac, mas também a geração de dados de grande utilidade para ações de defesa da saúde pública, do meio ambiente, do consumidor, dos trabalhadores e de combate ao crime, inclusive na extensa fronteira nacional”, explicam os membros do Ministério Público que estiveram reunidos com a diretoria da Agência.

Representantes da Anac informaram que estão estudando a viabilidade técnica, que é uma das condições para a adoção das providências requeridas desde maio de 2015, pelo Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos.

FONTE: http://brasildefato.com.br/node/33081

Agricultura orgânica: uma necessidade para as futuras gerações que é negada aos brasileiros todos os dias

Estando em Paris por uns dias, tive hoje a oportunidade de visitar uma das muitas feiras livres que ocorrem na cidade ao longo da semana, onde se vende todo tipo de alimento, inclusive orgânicos. Essa opção pela agricultura orgânica não é apenas um modismo como muitos podem sugerir, pois decorre do aumento da conhecimento científico que é assimilado por parcelas da população de que a agricultura da “Revolução Verde” está criando uma série de doenças com as quais ainda teremos muitas consequências nefastas para as atuais e futuras gerações.20150912_11291420150912_112925

Agora, uma coisa que não se pode deixar de notar é que enquanto nos países centrais há uma claro avanço na demanda por alimentos saudáveis, o Brasil continua aprofundando a opção pelo uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo para sustentar a agricultura ligada ao latifúndio agroexportador.

E no plano regional, não posso deixar de lamentar que haja tão pouco apoio público à agricultura familiar para que essa pudesse se concentrar na construção de uma agricultura que possa produzir alimentos saudáveis. Aliás, se tomarmos o exemplo do tratamento dado aos agricultores do V Distrito, tem governante que acha que comida é algo que surge do nada.

 

Crianças estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos no Brasil

Dados inéditos da USP indicam que entre 2007 e 2014 foram notificadas 2.150 intoxicações somente na faixa etária de 0 a 14 anos de idade; número pode ser 50 vezes maior

Por Cida de Oliveira

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Adoecimento: é comum a pulverização de veneno sem equipamento de proteção

São Paulo – Crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos. Um estudo do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que entre 2007 e 2014 foram notificadas em todo o país 2.150 intoxicações somente na faixa etária entre 0 e 14 anos de idade. O dado, alarmante, não reflete o real, que pode ser 50 vezes maior. Isso porque de cada 50 casos de intoxicação por esses venenos, apenas um é notificado no serviço de saúde.

Os dados, inéditos, foram apresentados pela professora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) durante o seminário Impacto dos Agrotóxicos na Vida e no Trabalho, realizado quarta-feira (2) na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Promovido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, entre outros parceiros que lutam pelo banimento agrotóxicos e das sementes transgênicas no Brasil, o evento integra a programação da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que está divulgando a atualização de seu Dossiê Impactos dos Agrotóxicos na Saúde.

Estudiosa do tema, a professora conta que só entre 1999 e 2009, o Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que foram registradas 62 mil intoxicações por agrotóxicos no país.

“São 5.600 intoxicações por ano, 15,5 por dia, uma a cada 90 minutos. Nesse período houve 25 mil tentativas de suicídio com uso de agrotóxico. O dado é alarmante, representando 2.300 casos por ano. São seis por dia”, afirma Larissa, reforçando para o fato que o dado pode ser 50 vezes maior.

Para o presidente do Consórcio de Segurança Alimentar do Sudoeste Paulista e dirigente da Federação da Agricultura Familiar de São Paulo, José Vicente Felizardo, as crianças sempre estiveram expostas a esses venenos no campo, principalmente na plantação de tomates, que predomina em sua região. Ele conta que até o ano 2000 a contaminação na faixa etária entre 5 e 14 anos ocorria durante o trabalho, quando essas crianças manuseavam agrotóxicos, “temperando a calda” – fazendo a diluição. “Eram comuns mortes de crianças”, conta.

Conforme ele, as denúncias não surtiam efeito. Até que em 2000 uma criança de 5 anos morreu depois de beber agrotóxico. “Ela estava na roça com a mãe. Bebeu agrotóxico. Conseguimos mobilizar a imprensa, mostrando as embalagens. Desde então, a coisa começou a caminhar.”

No entanto, pouca coisa mudou. Segundo Felizardo, crianças pequenas ainda são levadas às roças de tomate pelas mães. “Elas ficam dormindo na sombra enquanto a mãe trabalha. E na hora de pulverizar, a criança é pulverizada junto. Por isso, os números não surpreendem.”

Os venenos afetam também a saúde dos mais velhos. Conforme Felizardo, nos acampamentos de tomate é comum os trabalhadores, ainda adolescentes, desenvolverem depressão e alcoolismo. “Não são raras as tentativas de suicídio, todas sem registro. Na região de Jaú, se a gente ver as pessoas que estão fazendo tratamento de câncer, a maioria está exposta aos agrotóxicos”, conta Felizardo.

O dirigente chama ainda a atenção para o assédio, desleal, da indústria do veneno. Em sua região há poucos técnicos. “Se reunir todos os agrônomos do poder público, temos em torno de 40 técnicos para assistência técnica. Uma empresa na cidade vizinha tem, sozinha, 36 agrônomos, cada um com um carro, que sai a cada propriedade vendendo os agrotóxicos. E a cada 15 dias fazem palestra, faz churrasco e bebida e chama os agricultores para fazer propaganda. É muito diferente a atenção. É desleal.”

Desde 2009, o Brasil lidera o consumo mundial desses venenos, utilizando sobre suas lavouras um quinto de todo o agrotóxico produzido no mundo. Tamanho consumo está provocando uma verdadeira epidemia, silenciosa e violenta, colocando em risco a vida e saúde dos camponeses, trabalhadores rurais e seus familiares, em contato direto com o produto, e a população da cidade, que consume alimentos cada vez mais encharcados.

Estudos epidemiológicos apontam relação entre consumo de agrotóxicos e câncer. Entrevista especial com Karen Friedrich

“Dependendo do tipo de intoxicação que ocorre, o tratamento é apenas sintomático, e dificilmente se reverte uma intoxicação, porque são poucos os agrotóxicos que têm ‘antídotos’. Muitas vezes esses danos podem continuar se manifestando de forma silenciosa até o fim da vida, tendo como resultado, por exemplo, o aparecimento de um câncer”, alerta a toxicologista.

Foto: Fernando Frazão (ABr)

Quando o assunto é agrotóxico e saúde, a discussão tem de ser feita a partir da perspectiva da “prevenção para evitar que um dano à saúde se estabeleça”, diz Karen Friedrich à IHU On-Line. Além da prevenção, frisa, “seria importante incentivar iniciativas como o incentivo às práticas agroecológicas”, já que o Brasil é considerado o campeão de uso de agrotóxicos há sete anos.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Karen explica que alguns fatores contribuem para que agrotóxicos já banidos em outros países continuem sendo utilizados nas lavouras brasileiras. Entre eles, ela menciona a forma como esses produtos são analisados no Brasil, individualmente, sem considerar que durante a aplicação nas lavouras há umuso combinado de vários tipos de agrotóxicos. Além disso, destaca, a estrutura dos órgãos de vigilância e fiscalização é “precária”, o que impede o acompanhamento das populações expostas, para verificar quais são os riscos do contato com essas substâncias. “Outras ações importantes deveriam ser feitas a partir do Estado, para melhorar a capacitação dos médicos e profissionais da saúde, possibilitando o diagnóstico das pessoas contaminadas e, consequentemente, o tratamento, quando possível”, sugere.

Apesar da resistência brasileira em banir esses produtos, Karen informa que instituições nacionais, a exemplo do Instituto Nacional do Câncer – INCA, desenvolvem campanhas e parcerias com o Instituto Internacional de Pesquisa em Câncer – IARC da Organização Mundial da Saúde – OMS, que faz “avaliações e revisões sistemáticas sobre alguns agrotóxicos”. “Os estudos feitos pelo IARC mostram que os agrotóxicos que usamos no Brasil apresentam enorme potencial de desenvolvimento de câncer em seres humanos. Dentre eles, o glifosato foi classificado como carcinógeno humano, assim como o malathion, que é muito usado também em campanhas de saúde pública [pulverizado em campanhas de combate ao mosquito da dengue], e o herbicida 2,4-D, que foi classificado como possível carcinógeno humano”, alerta.

Karen Friedrich possui graduação em Biomedicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, mestrado e doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz. Atualmente é servidora pública do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS da Fundação Oswaldo Cruz e professora assistente da UNIRIO.

Hoje, 24-08-2015, às 9h, Karen ministrará a palestra “Uso combinado de Agrotóxicos e o impacto na saúde”, na abertura do Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, que acontece na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, na Unisinos. A programação completa da atividade está disponível aqui. Na oportunidade também será lançado o Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde.

Confira a entrevista.

Foto: Fiocruz

IHU On-Line – Que discussão é importante ser feita quando se trata da relação entre agrotóxicos e saúde?

Karen Friedrich – Da ótica da saúde, sempre temos de trabalhar com a prevenção para evitar que um dano à saúde se estabeleça. Só que a estrutura dos órgãos de vigilância e fiscalização das populações expostas é precária, e por isso temos poucas iniciativas bem-sucedidas que trabalham com a prevenção e com a promoção da saúde no que se refere aos agrotóxicos. Então, o ideal é que sempre se evite o uso de agrotóxicos, porque deste modo estamos protegendo a população trabalhadora do campo, aqueles que residem no campo e aqueles que consomem alimentos que foram produzidos com agrotóxicos. Portanto, no caso da prevenção, essa deveria ser a medida principal.

Na questão da promoção da saúde, seria importante incentivar iniciativas como o incentivo às práticas agroecológicas, para buscar a produção de alimentos sem o uso de venenos e visando também uma lógica de justiça ambiental e social nos sistemas produtivos. Nesse sentido, a reforma agrária é uma política importante que deve ser fortalecida no país, pois desse modo restringiremos modelos de produção dependentes do uso de agrotóxicos.

A outra vertente, que diz respeito ao tratamento daqueles que já estão intoxicados e que foram expostos ao agrotóxico, deveria se voltar às ações para fortalecer os centros de notificação de agrotóxicos, para poder mapear os locais onde existem maiores casos ou maior propensão ao aparecimento de casos de intoxicação. Por isso, é importante fortalecer as estruturas de vigilância. Nesse sentido, outras ações importantes deveriam ser feitas a partir do Estado, para melhorar a capacitação dos médicos e profissionais da saúde, possibilitando o diagnóstico das pessoas contaminadas e, consequentemente, o tratamento, quando possível. Sabemos que, independentemente do tipo de intoxicação que ocorre, o tratamento é apenas sintomático, e dificilmente se reverte uma intoxicação, porque são poucos os agrotóxicos que têm “antídotos”. Muitas vezes esses danos podem continuar se manifestando de forma silenciosa até o fim da vida, tendo como resultado, por exemplo, o aparecimento de um câncer ou um dano hepático renal bastante grave.

IHU On-Line – Qual é a relação entre o consumo de agrotóxicos e as causas de câncer?

Karen Friedrich – Estudos experimentais científicos tanto com animais de laboratório como com populações expostas, realizados em outros países, mostram uma relação clara entre o uso de agrotóxicos e o aparecimento de câncer. Instituições que têm conhecimento na área de pesquisa de câncer, como o Instituto Internacional de Pesquisa em Câncer – IARC da Organização Mundial da Saúde – OMS, fizeram avaliações e revisões sistemáticas sobre alguns agrotóxicos, e esses estudos mostram que os agrotóxicos que usamos no Brasil apresentam enorme potencial de desenvolvimento de câncer em seres humanos. Dentre eles, o glifosato foi classificado como carcinógeno humano, assim como o malathion, que é muito usado também em campanhas de saúde pública [pulverizado em campanhas de combate ao mosquito da dengue], e o herbicida 2,4-D, que foi classificado como possível carcinógeno humano. Portanto, temos estudos científicos de organismos internacionais e nacionais, como oInstituto Nacional do Câncer – INCA, que estão se posicionando quanto ao risco do uso dos agrotóxicos desenvolverem câncer.

“No dia a dia o ser humano é exposto a uma mistura de vários agrotóxicos”

 

IHU On-Line – Como o agrotóxico ainda é permitido, mesmo depois do resultado dessas pesquisas?

Karen Friedrich – Quando se registra um produto, se coloca a questão de por que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa permite que se use agrotóxicos que causam câncer. Na verdade, quando a Anvisa libera o registro de um agrotóxico, ela faz essa avaliação a partir dos estudos que são apresentados pelas empresas. Então, são estudos experimentais, bem conduzidos, os quais acreditamos serem idôneos, mas que têm suas limitações. A primeira limitação é que eles expõem um único agrotóxico naquele estudo, enquanto no dia a dia o ser humano é exposto a uma mistura de vários agrotóxicos. Por isso os estudos epidemiológicos, que têm sido realizados nos Estado Unidos e Canadá, estão apontando a associação entre agrotóxicos e câncer, porque eles estão estudando o agrotóxico na sua realidade de uso, que considera justamente uma mistura de agrotóxicos.

IHU On-Line – Além do câncer, que outros impactos o uso e a exposição aos agrotóxicos causam à saúde?

Karen Friedrich – Existem aqueles efeitos mais imediatos, que podem ocorrer logo após a exposição. Então, em geral o trabalhador do campo, que está mais exposto ao produto, faz relatos frequentes de intoxicações agudas, que causam dor de cabeça, vômitos, diarreia e até o óbito. Além disso, existem os efeitos mais tardios, que são o câncer, alterações hormonais, alterações reprodutivas, que são relacionadas, cientificamente, ao uso de agrotóxicos.

IHU On-Line – Como o Dossiê da Abrasco está repercutindo entre os setores de saúde e vigilância sanitária no país? Como essa discussão acerca da relação entre consumo de agrotóxico e implicações à saúde tem sido discutida no país?

Karen Friedrich – Dossiê foi lançado no final do mês de abril, e várias instituições, como o Ministério Público e Fóruns Estaduais, têm demandado da Abrasco o lançamento e a divulgação do Dossiê. Para nós, essa tem sido uma surpresa, especialmente quando percebemos que pessoas que trabalham com a área da saúde ou que são representantes do Estado têm poucas informações sobre os danos dos agrotóxicos. Então, o Dossiê traz, de um lado, alguns estudos científicos para contribuir com informações para essas pessoas que trabalham na área da saúde, ressaltando que esses estudos não estão esgotados, porque existem mais estudos apontando os prejuízos dos agrotóxicos. Essas informações podem ser úteis para que os órgãos do Estado tomem ações não só em nível federal, mas também os municípios e os estados possam tomar ações para coibir alguns agrotóxicos em seus territórios.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/546026-estudos-epidemiologicos-apontam-relacao-entre-consumo-de-agrotoxicos-e-cancer-entrevista-especial-com-karen-friedrich

Revolta no paraíso: população do Havai se coloca na frente da resistência a agrotóxicos e organismos geneticamente modificados

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O jornal inglês “The Guardian” publicou hoje uma extensa matéria sobre o conflito que coloca a população das diversas ilhas que formam o estado do Havai e três gigantes do setor agroquímico mundial (Syngenta, Dow, DuPont, Basf e Pioneer) por causa do uso intensivo de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas (Aqui!).

O conflito ocorre em torno dos esforços das corporações em bloquear leis aprovadas localmente para impedir a aspersão de agrotóxicos em áreas próximas a escolas e hospitais, o que está enfurecendo a população que está preocupada com o aumento de nascimentos de crianças com graves problemas de saúde, o que está sendo associado ao uso intensivo de substâncias proibidas na União Européia que incluem a atrazina, o paraquat e o clorpirifós. Em função da experiências com a resistência das plantas a esse coquetel venenoso, as áreas de cultivo nas ilhas havaianas estariam recebendo 17 vezes mais agrotóxicos do que uma área localizada na área continental dos EUA.

Um dos problemas associados ao uso intensivo de agrotóxicos, especialmente via aérea, é a chamada deriva química. É que depende da intensidade e direção do vento, a quantidade de agrotóxicos que chega a áreas habitadas pode aumentar exponencialmente, o que vem acontecendo no Havaí.  Um caso famoso deste tipo de despejo de agrotóxicos sobre áreas habitadas ocorreu numa escola localizada no município de Lucas do Rio Verde (MT), e até hoje seus efeitos sobre as crianças atingidas estão sendo estudados (Aqui!  e Aqui!)

O interessante nisto tudo é notar que no Brasil não apenas estamos em meio a situações bastante semelhantes de impactos negativos associados ao uso de agrotóxicos e semente geneticamente modificadas, mas isto se dá sem que haja uma mobilização semelhante ao que está ocorrendo no Havaí.  E a ausência desta reação não se dá porque os agrotóxicos sendo usados por aqui são menos tóxicos ou perigosos, já que os produtos são basicamente os mesmos, mas porque temos sido negados o tipo de informação que a população do Havaí está demandando nas ruas do arquipélago.

E nunca é demais lembrar que a dublê de latifundiária e senador, e atual ministra da Agricultura, Kátia Abreu, quer escancarar ainda mais o uso de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas para beneficiar o latifúndio agro-exportador.

Agrotóxicos e o apocalipse das abelhas: estudos científicos provam relação direta entre o uso de neonicotinóides e o colapso de colméias

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O jornal inglês “The Guardian” publicou ontem um artigo assinado pela jornalista Alison Benjamin onde são apresentadas as evidências de uma pesquisa científica feita em escala nacional na Inglaterra onde fica demonstrado que o uso do imidacloprid, um agrotóxico da classe dos neonicotinóides, apresentou correlação direta com o aumento da mortalidade de abelhas durante um período de 11 anos (Aqui!). 

Os resultados da pesquisa foram publicados num artigo científico que foi publicado pela “Nature Scientific reports” e que pode ser obtido (Aqui!). Os resultados desta pesquisa contrariam de forma direta a posição do governo inglês que defende que o uso de agrotóxicos neonicotinóides não possui qualquer ligação com o fenômeno conhecido como “distúrbio do colapso das colmeias”. 

É importante que se saiba que outro estudo realizado nos EUA pelas pesquisadoras do US Geologic Survey,  Michelle Hadlik e Dana Kolpin, também encontrou evidências de que o uso de imidacloprid estaria tendo impactos diretos na contaminação de bacias hidrográficas localizadas em diferentes regiões do território estadunidense, podendo causar impactos semelhantes aos observados no estudo realizado na Inglaterra (Aqui!). 

Nunca é demais lembrar que o imidacloprid é vendido legalmente no Brasil sob uma ampla variedade de nomes de fantasia, e que os efeitos observados em outras partes do mundo deverão também ocorrer (se já não estão!) por aqui.

 

Monsanto e seu cafezinho envenenado

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“Agrotóxico é igual a cafezinho”, diz representante da Monsanto

 Audiência pública recebeu a multinacional e organizações da sociedade civil para debater o projeto de lei que prevê o banimento do glifosato e de outros agrotóxicos em Pernambuco; se aprovado, o estado será o primeiro do país livre do agroquímico.

Por Maíra Gomes, De Recife (PE)

 
   

Representantes da empresa Monsanto participaram de uma audiência pública para apresentar as pesquisas desenvolvidas pela companhia e defender o uso de transgênicos e agrotóxicos. Segundo gerente da multinacional presente no evento, “o sal de cozinha pode matar mais rápido que o agrotóxico glifosato”. A atividade aconteceu na Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEP), em Recife (PE), na última terça-feira (18).

A audiência foi motivada pela tramitação do Projeto de Lei nº 261/2015, que prevê o banimento do glifosato e de outros agrotóxicos que já estejam proibidos em seu país de origem.

A posição da empresa, apresentada por Andrea Aragon, gerente de assuntos corporativos da Monsanto, foi criticada por representantes de movimentos populares, estudantes e organizações da sociedade civil que estavam presentes.

O integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Talles Reis, disse que o glifosato já está com uso restrito em mais de 20 países. “Esta engavetado há mais de sete anos um parecer da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que pede a suspensão do glifosato”, denuncia.

Maitê Maronhas, da Articulação do Semiárido (ASA) denunciou os impactos negativos das sementes transgênicas e afirmou que as sementes mais adequadas e adaptadas para o Semiárido brasileiro são as selecionadas por agricultores e agricultoras da própria região, que o fazem há gerações.

O autor do projeto, deputado estadual Rodrigo Novaes (PSD), também criticou a empresa. Segundo ele, não há nenhuma vantagem em desenvolver a economia e manter o emprego “se isso gera o aumento de câncer nas pessoas que consomem estes produtos”, enfatizando a prioridade na saúde.

Impactos na saúde

O representante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Pedro Albuquerque, também membro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), lembrou que o plantio de transgênico já está proibido em vários países no mundo. Além disso, Albuquerque apresentou pesquisas científicas comprovando que o glifosato é uma das causas de doenças como o Mal de Alzheimer, Parkinson, distúrbios na tireóide e câncer. Ele ainda apontou que a maioria dos alimentos consumidos pelos brasileiros vem da “agricultura familiar, que gera mais emprego que o agronegócio”.

O membro Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Pombos, João da Ronda, também apontou sua visão contrária ao afirmado pela empresa, afirmando que os agrotóxicos “fazem mal à saúde”. Ronda apresentou dois trabalhadores rurais contaminados pelo uso do agrotóxico Roundup, que tem como princípio ativo o glifosato e é produzido pela Monsanto.

Após as intervenções da sociedade civil, a representante da Monsanto ironizou a preocupação dos disse que a classificação do glifosato como potencialmente cancerígeno está no mesmo nível do picles, da atividade de cabeleireiro e do cafezinho: “glifosato é igual a cafezinho” e “o sal de cozinha pode matar mais rápido que o glifosato”, afirmou Andrea Aragon, provocando risos entre os presentes.

Resposta da Monsanto

Também pela Monsanto, Pedro Palatinik, gerente de relações governamentais, desqualificou o relatório do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que relaciona o câncer ao consumo de alimentos com agrotóxicos. Palatinik também atacou a Fiocruz, que enviou uma pesquisadora, na semana passada, à Comissão de Saúde da ALEP para debater o mesmo projeto de lei, acusando-a de “fazer provocações na Anvisa”.

Essa foi a primeira vez que a Monsanto aceitou um convite para um debate público em uma Assembleia Legislativa. Andrea Aragon disse que a empresa estará priorizando ações como esta, visando construir a imagem de uma “nova” Monsanto, e tentando recuperar a sua imagem frente ao desgaste que vem sofrendo na imprensa e na sociedade.

Se o projeto de lei que prevê o banimento do glifosato e de outros agrotóxicos seguir sua tramitação normal, e sendo aprovado pelo plenário da ALEP, o estado de Pernambuco será o primeiro do Brasil livre do glifosato.

FONTE:    http://brasildefato.com.br/node/32718

Monsanto Years, o álbum de Neil Young contra a Monsanto e outras corporações poluidoras chegou em minhas mãos!

pedlowski neil

 

Venho ouvindo as músicas de Neil Young desde quando eu tinha 18 anos e ganhei o álbum “Comes a Times” de uma amiga no amigo secreto do final de ano no último ano do ensino médio. De lá para cá, aprendi inglês o suficiente para escrever uma tese de doutorado e para entender os meandros poéticos da música do bardo canadense.

Neil Young está à beira dos 70 anos e eu na beirada dos 55. Apesar de ter visto apenas um show ao vivo dele na terceira edição do Rock in Rio, comprei quase tudo o que apareceu pela frente nesses últimos 37 anos. Agora me chegou às mãos o “Monsanto Years” que comprei na forma de pré-ordem na Amazon. Posso dizer como fã que as críticas sobre certas descontinuidades no álbum são corretas, mas passam ao largo do mais relevante. Monsanto Years não é um álbum qualquer de protesto, mas sim uma síntese do que Neil Young vem dizendo desde que ficou famoso ao tocar em Woodstock em 1969.

Essa faixa é “People want to hear about love” e critica a alienação dos que só querem ouvir músicas sobre amor, e esquecem do poder que as corporações sobre todos os aspectos de suas vidas. Poluição, petróleo, OGMs e agrotóxicos.

Rock on, Neil Young!