Estudo publicado por revista da American Society for Microbiology aponta que o Round Up (glifosato) também diminui a eficiência de antibióticos

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Não bastasse ter sido recentemente ligado à ocorrência de câncer, alterações nas estruturas do DNA e dos cromossomas num estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde, a exposição ao agrotóxico Round Up (glifosato), fabricado pela Monsanto, acaba de ser apontada como sendo também capaz de reduzir a ação de antibióticos. O artigo foi publicado ontem (24/03) pela Revista MBio que é editada pela “American Society for Microbiology”. Segundo, o que mostram os autores do trabalho, a exposição ao glifosato  e outros dois herbicidas (2,4-D e Dicamba) pode reduzir a eficiência de antibióticos como tetracicilina, ampicilina e ciprofloxacina, os quais são amplamente utilizados no mundo para combater infecções.

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Essa junção entre toxicidade e interferência na efetividade dos antibióticos tornam a questão da contaminação por agrotóxicos um dos mais graves problemas de saúde coletiva no mundo. Como o Brasil se tornou já em 2008 o maior consumidor mundial deste tipo de substância química, o que podemos estar tendo é uma simbiose extremamente letal e que até agora recebeu pouca ou quase nenhuma atenção das autoridades sanitárias brasileiras.

Aliás, há que se frisar que a atual ministra da Agricultura, Kátia Abreu, é uma ardorosa defensora de mais uso e menos regulação no tocante aos agrotóxicos. Nesse sentido, qualquer tentativa de aumentar o consumo desses produtos e ampliar a facilidade de certificação terá que ser cotejada com os impactos à saúde humana que esses diferentes estudos estão apontando.

Quem quiser ter acesso ao estudo assinado pelos pesquisadores Brigitta Kurenbach, Delphine Marjoshi, Carlos F. Amábile-Cuevas, Gayle C. Ferguson, William Godsoe, Paddy Gibson e Jack A. Heinemanna basta clicar (Aqui!).

ES: Uma pessoa tenta se matar por dia usando agrotóxicos

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Plantava tomates e usava 4 ou 5 venenos de uma só vez, sem saber direito o efeito de cada um. Não usava proteção até que um dia senti tontura e caí. Meu corpo doía todo, meu coração batia acelerado e meus olhos dilataram  AGRICULTOR DA REGIÃO SERRANA

Texto: Patrik Camporez, Fotos e vídeos: Marcelo Prest

A cada 24 horas, uma pessoa tenta suicídio no Estado ingerindo agrotóxicos de uso agrícola. Foram 404 casos somente em 2012, último ano em que o Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo (Toxcen) divulgou esses dados. Numa conta por 100 mil habitantes, esse é o maior índice do país.

Um dos principais fatores para que estes produtos sejam bastante usados por quem atenta contra a própria vida é a facilidade com que se pode comprar o agrotóxico. A maior parcela desses suicídios se dá em zonas rurais, onde é mais fácil o contato com o veneno, cada vez mais abundante. São em média 20 mortes por ano no Estado. Em alguns municípios percorridos para elaboração desta série de reportagens, A GAZETA constatou que a venda dos venenos acontece livremente, sem a necessidade da apresentação de receituário ou registro das propriedades exigidos pela legislação.

Ainda não se sabe se o uso de agrotóxicos está diretamente ligado aos suicídios, mas especialistas apontam que, em contato com o corpo, alguns venenos agem no sistema nervoso central, podendo levar à depressão. Esse quadro, aliado a uma série de problemas econômicos e sociais, poderia levar ao suicídio, sendo o próprio produto utilizado pelo trabalhador para tirar sua vida. “Por serem consideradas substâncias neurotóxicas, podem sim gerar ou agravar a depressão”, avalia o ex-gerente da Anvisa e atual pesquisador da Fiocruz, Luiz Cláudio Meirelles.

Nos últimos anos, pesquisas realizadas por universidades de diversos Estados, incluindo a Ufes, identificaram elevados índices de suicídio em municípios com alto consumo de agrotóxico. Em 2012, ano em que foi divulgado o último balanço do Toxcen, os casos tentativas contra a própria vida representaram 47,5% do total de intoxicações no Espírito Santo.

Para Meirelles, é papel do Estado agir para evitar que os agrotóxicos sejam vendidos indiscriminadamente. “Tem que ter um papel regulador, pois consumidores, trabalhadores, a população em geral está exposta ao perigo. E o ser humano não tem um sistema imunológico resistente ao uso de tantas substâncias ao mesmo tempo”, explica o estudioso.

Invalidez

“Até hoje, dois anos depois, meu tio não dorme direito e tem alucinações. Por pouco não morreu, hoje não consegue trabalhar”, lamenta uma sobrinha de Antônio (nome fictício, para não expor o trabalhador rural), morador de uma cidadezinha do Norte do Estado que tomou veneno um mês depois de ver o filho morrer contaminado.

Assim como Antônio, cerca de 10% das pessoas intoxicadas ficam definitivamente incapacitadas para o trabalho. Em média, a cada ano cerca de 800 capixabas sofrem algum tipo de intoxicação por uso de agrotóxicos, número que coloca o Espírito Santo em primeiro lugar no triste ranking nacional da contaminação

A perda da memória e a impotência foram as piores sequelas. 30 anos depois da primeira contaminação ainda fico semanas sem ter ereção. É difícil para um homem. Tem muita gente que sofre calado por causa dos agrotóxicos.

Câncer, problemas de visão e impotência atormentam as vítimas

“Trinta anos após à primeira intoxicação, ainda fico semanas sem ter ereção”, desabafa um produtor rural da região Serrana que não quer ser identificado. Além de impotência, a exposição aos agrotóxicos está relacionada a males crônicos como câncer, desequilíbrio hormonal, perda visual, problemas respiratórios e depressão, aponta o Protocolo de Atenção à Saúde dos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos, elaborado pelo Ministério da Saúde.

São doenças que podem se manifestar ao longo dos anos e provocar uma morte lenta e silenciosa. Doutor em Entomologia e pesquisador do Incaper, David Martins explica que é comum o trabalhador rural não perceber que está adoecendo. “Quando a intoxicação é aguda, o trabalhador desmaia e cai. Só que a maior parte das pessoas vai se intoxicando aos poucos. O agrotóxico vai acumulando, um dia as funções do corpo são danificadas”, argumenta.

Experiente pesquisador da agricultura capixaba, Martins destaca que o machismo no campo e resistência ao uso dos equipamentos de segurança contribuem para o agravamento das contaminações. “Tem gente que ainda acha que pode beber ou encostar a mão no veneno. Mas, quando a gente fala que vai afetar a virilidade, o sujeito pensa duas vezes e passa a se proteger”, constata o pesquisador.

A intoxicação crônica caracteriza-se pelo surgimento tardio das doenças, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos. Esse contato com o veneno ao longo dos anos pode acabar em danos irreversíveis.

Intoxicação aguda

Já a contaminação aguda provoca sintomas quase imediatamente após à exposição ao veneno. A pessoa intoxicada pode apresentar lacrimejamento, salivação excessiva, alteração da visão, além de manifestações cardíacas. Alterações neurológicas como fraqueza muscular, tremores, paralisia e convulsões também podem ocorrer. “Por esse motivo pode ocorrer falência respiratória, acarretando a morte”, alerta o mesmo protocolo do Ministério da Saúde.

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Para Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fiocruz, boa parte da população rural ainda não está consciente de que agrotóxico é veneno. “São feitos para matar pragas, mas podem matar seres humanos”, alerta.

FONTE: http://grandesreportagens.redegazeta.com.br/?p=894

Espírito Santo: 274 trabalhadores se contaminaram somente em 2013

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Por Patrik Camporez

Em cada pé de tomate, uma borrifada certeira de veneno. Ao longo do dia, Roberto Matias vai enchendo as plantas com agrotóxico e, ao mesmo tempo, contaminando a si próprio. São 15 anos atuando sem nunca ter recebido qualquer equipamento de proteção dos seus empregadores. “Teve um dia que eu desmaiei na roça. Fui socorrido por um colega e por pouco não morri. Minha memória se foi, assim como minha saúde”, lamenta, esboçando sentimentos de culpa, o trabalhador.

Flagrada por A GAZETA durante a investigação que deu origem a esta série de reportagens, a situação acima retrata a dura realidade vivida pelos trabalhadores do campo capixaba. Oito municípios com altos índices de contaminação foram visitados durante uma viagem de mais de 1.500 quilômetros, sendo que em todos a reportagem apurou uma série de irregularidades no trabalho.

Só para dar uma ideia, o uso irregular dos venenos no Estado resultou na exposição ou intoxicação de 274 trabalhadores somente no ano de 2013. O número representa 28% dos 971 casos registrados pelo Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo (Toxcen) no mesmo ano. Tanto nas pequenas propriedades, onde a família costuma realizar a pulverização, quanto nos médios e grandes latifúndios, onde funcionários fazem o serviço, estima-se que 90% das aplicações são feitas sem nenhuma proteção ou apenas com o uso de parte dos equipamentos de segurança.

Sofrimento

Moradora de Pinheiros, no Extremo Norte do Estado, dona Nilda da Silva lembra com emoção de quando o marido, doente há 10 anos, ainda tinha forças para andar. Hoje, com 73 anos, Emanuel Gomes Ferreira está encostado pela Previdência. “Um ano e meio batendo veneno no eucalipto foi suficiente para a saúde dele complicar. Se ele não saísse de lá, iria morrer”, relata.

De acordo com Paulo Rocha, chefe da seção de inspeção e fiscalização vegetal do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) é quem deveria cobrar, nas áreas rurais, o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Mas essa fiscalização não tem sido realizada. O que mais encontramos no interior são trabalhadores sem proteção”, alerta Rocha. Além do mais, completa ele, tem a questão do clima: “É um kit de equipamento não adequado para o calor. Causa incômodo, e ninguém usa”, critica.

Por outro lado, o MTE alega que fiscaliza, mas admite que dá prioridade aos latifúndios de médio e grande portes. “O maior problema está nos minifúndios, que, em regra, tem regime de agricultura familiar. Quase sempre, não é o trabalhador empregado que está se envenenando. É o pequeno produtor”, afirma Alcimar Candeias, superintendente-adjunto do MTE.

Candeias reforça que a fiscalização nos minifúndios foge das prioridades da instituição. “Hoje, o trabalhador mais desassistido do país é o assalariado. E nosso foco de atuação está principalmente nas propriedades que têm empregados”, justifica.

As irregularidades na aplicação e venda de veneno resultaram, em 2014, na autuação de 79 revendedores e 46 propriedades rurais, feitas somente pelo Idaf. O comércio de agrotóxicos sem autorização e a aplicação em desacordo com a receita agronômica foram as principais irregularidades encontradas.

“Muitas vezes, a loja vende um produto para o café, mas o produtor está usando na pastagem”, exemplifica Paulo Rocha.

Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo. A utilização maciça desses produtos traz como consequências graves problemas à saúde dos trabalhadores e de toda população, além danos à natureza, destruição da fauna e flora, e poluição das águas, solos e do ar.

Medicina natural para cuidar de trabalhadores envenenados

Não são poucos os trabalhadores que fazem uso da medicina alternativa para cuidar das intoxicações ocasionadas pelo uso indevido dos agrotóxicos. Como os postos de saúde quase sempre estão a quilômetros de distância de casa, as plantas medicinais acabam sendo a primeira opção do trabalhador, afirma Dilzete dos Santos, de 48, moradora do distrito de Fátima, em Jaguaré. “Eu me trato com carvão vegetal desde quando me contaminei na lavoura de café, há três anos”, relata.

s intoxicações são tão comuns no Noroeste do Estado, que um casal de terapeutas naturistas abriu as portas do sítio somente para cuidar de agricultores contaminados com o veneno. Fica na localidade de Castelan, interior de São Gabriel da Palha. “Já vivenciamos casos assustadores. Muitas pessoas que nos procuraram não acreditavam que o agrotóxico fazia mal”, dizem Hilário e Angela Matielo.

Há 15 anos atuando com técnicas de desintoxicação, o casal alerta que o nível de veneno é cumulativo no organismo. “Já tivemos um caso de um agricultor que faleceu depois de tanto se contaminar. Quando ele chegou até nós, já estava em uma situação grave, e foi fatal. Antes de morrer, ele reconheceu que aquela situação estava acontecendo por causa dos agrotóxicos, e chorava arrependido”, lembra Hilário.

OFNTE: http://grandesreportagens.redegazeta.com.br/?p=922

O eucalipto e a água

Por Wagner Giron de la Torre 

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Nesta era do poder do dinheiro e da propaganda existem várias coisas que parecem ser mas não são.

O monocultivo do eucalipto é uma delas: parece floresta, mas não é.

Uma floresta de verdade é constituída pela biodiversidade e não por um único espécime, como o eucalipto. Por exemplo, na Mata Atlântica, temos mais de trezentas espécies vegetais por hectare, sem contar com a fauna imensurável.

Em meio aos estéreis eucaliptais, cultivados por grandes papeleiras para produção de celulose, a maior parte delas exportada para os EUA, Europa e China, inexiste ciclo de vida, pois animal algum conseguiria estabelecer habitat no seio de uma plantação de árvores clonadas que não geram alimento e que são cortadas de cinco em cinco anos.

Nos vastos monocultivos industriais que hoje dominam a paisagem do Estado, insetos e animais benéficos como borboletas, besouros, joaninhas, abelhas, anfíbios, tatus, etc., estão praticamente extintos pelo uso intensivo de agrotóxicos, como herbicidas à base de glifosato e formicidas de sulfluramida, que sustentam a expansão em escala oceânica dessa fronteira do agronegócio.

Os pesticidas de sulfluramida, comercialmente conhecidos como Atamex ou Mirex, utilizados em larga escala nos monocultivos, de tão nocivos ao ambiente, fortemente cancerígenos, são proibidos pela Convenção de Estocolmo, subscrita pelo Brasil e por mais de 152 países. Mas, mesmo assim, esses venenos são diuturnamente aplicados, face à omissão dos órgãos fiscalizadores do Estado, em meio aos gigantescos eucaliptais produtores dessas commodities, das mais lucrativas do mercado.

Segundo dados oficiais, em 2014 as commodities de celulose foram as mais exportadas para a China, a um lucro líquido por tonelada de cerca de  600 dólares, atividade das mais rentáveis do setor.

Não sem motivo, o Brasil é o campeão mundial na incidência de agrotóxicos, abarcando 18% do mercado mundial, com descarte, em nosso solo, de 780 mil toneladas a cada ano.

Além da abertura de milhares de quilômetros de estradas clandestinas nos eucaliptais, sem qualquer monitoramento pelo omisso sistema fiscalizatório, essas árvores exóticas têm suas mudas alteradas em laboratório para serem imunes aos efeitos dos pesticidas e para terem crescimento recorde, de cerca de 5 anos entre o cultivo e os cortes rasos, ciclo de manejo curtíssimo, que impede o estabelecimento de qualquer estrutura básica de vida e que expõe milhares de hectares de morros e encostas da região à total desproteção, com aprofundamento da esterilidade do solo e seu processo de erosão.

Estima-se que, em média, cada árvore de eucalipto absorva cerca de 30 litros de água potável ao dia, gerando um desequilíbrio hídrico sem precedentes.

Só no Vale do Paraíba temos cerca de 300 mil hectares recobertos com o monocultivo. No país todo, a produção dessa commodity alcança mais de 5 milhões de hectares. Estamos a falar de bilhões de árvores exóticas.

Até hoje, no Estado de São Paulo, não se consolidou nenhum mecanismo de controle dos danos socioambientais de atividade industrial tão impactante.

Como se disse, imperativos eleitoreiros e econômicos impedem esse necessário monitoramento.

Porém, a crise hídrica que hoje nos cerca, está a exigir não só uma moratória a atividade tão nociva aos ecossistemas, como impõe aos omissos gestores um mínimo de responsabilidade ambiental para imediatamente criar-se sistema básico de controle sobre a expansão irrefreada de segmento industrial tão degradante, que gera pouquíssima ou quase nenhuma renda nas regiões afetadas, deixando, porém, um passivo socioambiental que a sociedade e os sistemas naturais não têm mais condições de suportarem.  No limite, o que se exporta é nossa água, que, sabemos,  está em vias de faltar até mesmo ao consumo humano.

A quem interessa essa lógica?

FONTE: http://gazetadetaubate.com.br/wagner-giron-o-eucalipto-e-agua/

WAGNER  GIRON DE LA TORRE, É DEFENSOR PÚBLICO NO ESTADO DE SÃO PAULO

A fragilidade da Anvisa e o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil

Entrevista especial com Victor Manoel Pelaez Alvarez

 “As agências reguladoras estão em fase de desmanche. Isso faz com que o modelo de regulação e controle seja inviabilizado”, destaca o pesquisador.

Imagine um órgão que tem responsabilidade de fiscalizar o uso de agrotóxicos. Esse mesmo departamento sofre com a falta de corpo técnico qualificado e infraestrutura. É gerado pouco conhecimento cientifico – e há pouco material – que garanta análises de qualidade que poderiam banir substâncias que causem danos ao ser humano e ao meio ambiente. Do outro lado do balcão, multinacionais produtoras de agrotóxicos que lutam com alta tecnologia e grande corpo técnico qualificado contra esse frágil órgão.

Essa é a realidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor da Universidade Federal do Paraná, Victor Manoel Pelaez Alvarez, revela esse cenário. Embora comemore a evolução de um processo que baniu Forato e Parationa Metílica do país, reconhece que a regulação do uso de agrotóxicos precisa melhorar muito.

“O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo e com a maior taxa de crescimento das importações. Veja que o Brasil tem em torno de 45 técnicos que fazem avaliação. Nos Estados Unidos, são 850 pessoas para fazer a mesma coisa”, complementa.

Para Alvarez, mais importante do que repensar a legislação brasileira sobre o uso de agrotóxicos é de fato colocar em prática o que já existe. “Outro problema é que, quando a Anvisa tenta ter critérios mais rigorosos no processo de análise, começa a congestionar em função do grande número de análises que precisa ser feito. Para se ter ideia: há uma fila de 1500 produtos para avaliação, até junho de 2013. É uma fila que cresce com muita rapidez e não há capacidade de avaliação para atender a essa demanda”, destaca. O cenário ainda piora porque, além de deixar a Anvisa de braços amarrados em decorrência do pouco investimento, a Agência é negociada na lógica da lotação de cargos políticos. “O atual governo passou a capturar as próprias agências reguladoras. Isso na medida em que são cargos colocados à disposição de partidos políticos para a barganha política que a gente conhece”.

Como mudar esse cenário e efetivamente reduzir o consumo de agrotóxicos? Além de dar o devido valor à Anvisa, o pesquisador acredita que o debate também passe por novos modelo de produção. No entanto, adverte: “você não consegue introduzir novos modelos agrícolas, novas tecnologias no curto prazo. É logico que se diz que agricultura orgânica não é viável. Não é viável no curto prazo, como não era viável o modelo atual no curto prazo. São escolhas, trajetórias tecnológicas cujo resultado vai se dar no médio e longo prazo”.

Victor Manoel Pelaez Alvarez é graduado em Engenharia de Alimentos, mestre em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Ciências Econômicas pela Université de Montpellier I. Além de professor da Universidade Federal do Paraná, é membro do Conselho Editorial do International Journal of Biotechnology e da Revista Brasileira de Inovação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em dezembro do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa aprovou o banimento dos agrotóxicos Forato e Parationa Metílica. O que são essas substâncias?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Parationa Metílica é um inseticida usado em várias culturas e o Forato é um fungicida e também acaricida usado também em várias culturas. A questão é que são produtos, no caso do Forato, proibido naUnião Europeia. A Parationa é proibida nos Estados Unidos desde 2013, também na União Europeia e na China.

Essa é a continuidade de um processo que começou em 2008, quando a Anvisa colocou em reavaliação 14 ingredientes ativos e que, até hoje, foram quatro desses ingredientes proibidos. Em 2008, as empresas entraram com processo liminar na Justiça para sustar esse processo de reavaliação.

Em novembro, a Anvisa conseguiu derrubar essa liminar e seguir adiante com a reavaliação de produtos. Boa parte desses produtos é o que consideramos como no fim de um ciclo de vida. Foram produzidos há muito tempo e, na medida em que se descobrem efeitos que não se conheciam, adversos à saúde e ao meio ambiente, é natural que esses produtos sejam descontinuados.

No Brasil e também no mundo inteiro, a estratégia das empresas é sempre buscar formas de adiar ao máximo esse processo. E uma das estratégias é justamente o recurso judicial. E até haver o desfecho do processo judicial, as empresas ganham vários meses e até anos.

IHU On-Line – E qual a alegação das empresas na Justiça para suspender esses processos? Defendem que o produto não tem reações adversas ao ser humano e ao meio ambiente?

“O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo”

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Há vários argumentos. Tanto entram com contraprovas como também dizem que aquilo (o processo) é prejudicial à imagem das empresas. O que não faz sentido nenhum do ponto de vista técnico. Mas, tudo é possível. Ainda mais porque todo processo deavaliação toxicológica é polêmico. Não é perfeito, é cheio de limitações, de critérios de subjetividade. Na realidade, a objetividade surge de uma questão subjetiva.

Por quê? Grupos da comunidade científica entram em acordo sobre determinados critérios a serem adotados. Mas, necessariamente, não são perfeitos, pelo contrário. Uma das imperfeições é justamente que o processo de avaliação é feito caso a caso. Ou seja, o efeito de um único ingrediente ativo sobre as cobaias. Acontece que, na vida real, nos aplicadores ou como a população vai comer (ingerir a substância) há um conjunto de produtos, de resíduos de ingredientes ativos. Então, vai usar uma série de ingredientes na sequencia ou em conjunto. E não é feito nenhum estudo sobre o efeito sinérgico da combinação de diferentes ingredientes ativos. Há uma série de limitações, portanto, nas avaliações que são feitas. De qualquer forma, é um grande avanço poder ver que alguns produtos estão saindo do mercado. Veja que é um processo lento. Isso começou em 2008, mas aconteceu mesmo em 2013. Em março de 2008 mesmo, o próprio Ministério Público entrou com uma ação para que a Anvisa de fato retomasse o processo de reavaliação que ficou parado.

E assim a gente entra num outro aspecto que é importante: a falta de infraestrutura regulatória do país. E o Brasil é o segundo maior mercado consumidor de agrotóxico do mundo, é o maior importador de agrotóxicos no mundo e com a maior taxa de crescimento das importações. Só para comprar, veja que o Brasil tem em torno de 45 técnicos vinculados aos três ministérios que fazem avaliação, que é Agricultura, Saúde e Meio Ambiente. São eles que fazem avaliação de produtos. Nos Estados Unidos, são 850 pessoas para fazer a mesma coisa. Lembrando que os Estados Unidos é o maior mercado de agrotóxico. Veja a defasagem em termos de infraestrutura. Nos Estados Unidos, o custo de umregistro de um novo ingrediente ativo que vai ser utilizado em alimentos para consumo humano chega até 630 mil dólares. No Brasil, o custo máximo é de mil dólares. Nos Estados Unidos, há uma taxa de manutenção de registro anual e no Brasil não é cobrado nada.

IHU On-Line – No Brasil, os registros de agrotóxicos não tem data de validade. Uma vez alcançado o registro, passa a valer eternamente. Ou seja, fica a critério do fabricante e de inspeções da Anvisa buscar reavaliações. Qual a sua avaliação sobre essa forma de concessão de registros de agrotóxicos?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Exatamente. O prazo de registro no Brasil é indeterminado. Nos Estados Unidos, são 15 anos. Na União Europeia, 10 anos. Isso faz com que a cada 15 anos, no exemplo dos Estados Unidos, as empresas sejam obrigadas a atualizar os dossiês. Ou seja, os estudos de avaliação toxicológica tanto em relação ao ambiente quanto a saúde do ser humano. Isso é importante porque há uma evolução natural no conhecimento científico, nos testes que são mais sensíveis e assim por diante. Então, há produtos que estão no mercado há décadas e sem esse processo de reavaliação que é tão fundamental. Além disso, o ônus da prova, no caso do Brasil, cabe ao órgão regulador. Assim, é a Anvisa que tem que financiar estudos, mobilizar recursos, que já são extremamente escassos. E, depois, ainda brigar com o processo legal das empresas retardando o processo de avaliação. Veja a fragilidade de nosso processo regulatório.

IHU On-Line – E há perspectiva de se rever esse processo regulatório?

Foto: infobios.com

Victor Manoel Pelaez Alvarez – É preciso situar. O Marco Regulatório brasileiro é de 1989, a Lei de Agrotóxicos foi criada em 89. Ela tinha grandes avanços em relação a um decreto que era de 1934. Qual o grande avanço? Exigir estudos toxicológicos, de impacto ambiental, que não havia antes. E, inclusive, de avaliação do desemprenho agronômico do produto.

Até então, nenhuma legislação do mundo tinha a chamada análise de perigo. Todos processos de avaliação de agrotóxico começam com a análise de perigo. Só que aí há uma fase seguinte, como no caso dos Estados Unidos. O que faz o veneno é a dose. Então, se a gente controlar a dose, podemos minimizar o efeito e fazer uma análise do risco, a probabilidade de causar dano. A análise de risco é um modelo americano.

Ou seja, primeiro se avalia se tem perigo. Se há perigo, vamos avaliar como minimizar isso por uma análise de risco. Assim, se pode recomendar o uso equipamento de proteção individual, determinar dose diária aceitável, ingestão diária e assim por diante. Acontece que alguns produtos podem causar efeitos em doses muito pequenas. Então, é muito difícil esse controle. Nesse caso, a análise do perigo foi instituída por alguns tipos de efeitos. Por exemplo: causa câncer? Não importa a dose, está proibido. Causa má formação fetal, não importa a dose; causa desregulação endócrina, não importa a dose: está proibido.

Bem, está na lei desde 89. Só que uma coisa é estar na lei e a outra é implementar. E aí faltava um grande caminho para chegar lá. A União Europeia substituiu esse tipo de critério agora em 2013. Inclusive, uma série de substâncias que são comercializadas nos Estados Unidos já não podem ser na União Europeia. Isso é um grande incômodo para a indústria de agrotóxicos, que é uma indústria globalizada. São 13 multinacionais que controlam cerca de 90% do mercado mundial. Portanto, não tem interesse nenhuma que haja essa falta de harmonização. Obviamente clamam e defendem que o modelo de regulação dos Estados Unidos é o melhor.

“Não adianta ter oferta de alimento se não há distribuição da renda. E esse é o grande desafio que ainda permanece”.

Outro problema é que quando a Anvisa tenta ter critérios mais rigorosos no processo de análise começa a congestionar, em função do grande número de análises que precisa ser feito. Para se ter ideia: hoje, naAnvisa, há uma fila de 1500 produtos para avaliação, até junho de 2013. É uma fila que cresce com muita rapidez e não há capacidade de avaliação para atender a essa demanda. Em função disso, começam a surgir demandas por uma mudança na legislação por parte do setor produtivo, dos agricultores, etc. E aí a tendência é sempre minimizar, simplificar o problema.

O que está atravancando? É a atitude da Anvisa? Então, tira fora. Ou seja, coloca tudo num órgão só, centraliza na Agricultura, que historicamente em todos os países sempre foi mais flexível, menos exigente com questões ambientais e de saúde. Há projetos de lei justamente tentando retirar o poder de regulação e de decisão do Ibama e da Anvisa. Ou, ainda, de criar uma agência única, mas também no qual se centraliza o poder no que tange a questão de produção e não de saúde e meio ambiente. O modelo atual também não é satisfatório, nem para as empresas e nem para a população. É um modelo que não tem pessoal suficiente, há sempre conflitos de interesses entre os próprios órgãos que não se entendem, é muito pouco eficiente.

O que é mais impressionante é que o Brasil vai na contramão da tendência histórica, em que os mercados mais exigentes são aqueles em que saúde e meio ambiente são variáveis importantes de mercado. E não o produto mais barato. Negligencia essas variáveis e o coloca como uma oposição à produção. Como se a economia estivesse de um lado e as questões de meio ambiente de outro.

Não são variáveis antitéticas, pelo contrário. As sociedades mais democráticas e evoluídas são aquelas em que essas variáveis estão juntas, porque significa qualidade de vida. E o Brasil volta para décadas atrás ao invés de avançar, estar na liderança, na vanguarda do que seja a preservação da saúde e do meio ambiente.

IHU On-Line – Pelo que o senhor tem afirmado, essa legislação brasileira nem foi efetivamente posta em prática. É preciso reformar a legislação que temos ou bastaria apenas colocar em prática o que já existe?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Um aspecto importante, que faz parte da Revolução Verde – que surgiu num contexto pós-guerra, da Guerra Fria – era a disputa ideológica de como é que o capitalismo vai evitar que países pobres se tornem países socialistas ou comunistas. O aspecto alimentar é fundamental. Ou seja, a população tem que ter acesso a alimentação.

Como é que a gente faz isso? A fórmula capitalista era baratear os alimentos. Faço um alimento mais barato, que foi justamente a Revolução Verde, que assim há um aumento na produtividade. Só que para ter um aumento de produtividade teve de haver um uso intenso de insumos agrícolas, fertilizantes, sementes, agrotóxicos. E para isso é necessário investimento, capitalização. E é aí que há uma concentração dessa produção.

É um modelo já excludente, socialmente e economicamente, caro, tem o efeito de redução do custo do alimento pelo menos da produtividade. No entanto, não adianta ter oferta de alimento se não há distribuição da renda. E esse é o grande desafio que ainda permanece. Se boa parte da população consegue ter acesso a alimentos mais baratos, uma grande parte não consegue ter acesso porque não tem renda.

O modelo tecnológico colocado, de uso intensivo desses insumos, demandava um marco regulatório para tentar minimizar os efeitos adversos. E isso também tem um custo. Para difundir esses alimentos a baixo custo, foi feito a retirada de impostos de insumos e agrotóxicos.

No Brasil, os insumos agrícolas em geral, incluindo agrotóxicos, são isentos de IPI, tem redução de até 60% de ICMS, tem isenção de PIS/Cofins, o que faz com que o custo seja muito barato. Então, é muito barato produzir no Brasil. Ainda mais porque hoje tudo é muito importado da China, com baixo custo e pouco controle. E o setor público cobra muito pouco do setor privado para regular aquilo que o setor privado não controla e assim por diante.

Então, o modelo em si já é falido. E isso está ligado a um processo de democratização da sociedade. Existem sociedades mais democráticas em que esse custo acaba sendo privatizado, recai sobre as empresas. Em sociedade menos democrática esse custo é socializado, ou seja, é a população que paga. Que é o que acontece no Brasil. O poder político das empresas é muito forte, no sentido de evitar que haja taxação e impostos sobre esses produtos.

IHU On-Line – Penando nesse sentido, um caminho para reduzir o consumo de agrotóxicos não seria o governo investir em outros modelos de cultura? A produção de orgânicos é uma saída?

“Só se deve usar o agrotóxico de forma corretiva e não preventiva”.

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Com certeza. E isso tudo é investimento de longo prazo. A própria Revolução Verde foi um investimento de longo prazo. Você não consegue introduzir novos modelos agrícolas, novas tecnologias no curto prazo. É um processo lento. Levou décadas até a revolução agrícola de fato se difundir em grande escala, o que envolveu uma grande rede de financiamento público, de pesquisa pública, de extensão rural. Ou seja, da mesma forma, se isso fosse feito com tecnologias agroecológicas ou orgânicas também seria viável. É logico que se diz que agricultura orgânica não é viável. Não é viável no curto prazo, como não era viável o modelo atual no curto prazo. São escolhas, trajetórias tecnológicas cujo resultado vai se dar no medio e longo prazo.

Isso é política publica que passa, por exemplo, por selecionar técnicos para as secretarias de agricultura. Se você seleciona um técnico cujo sistema que conhece está alinhado com o uso de agrotóxicos, não é essa pessoa que vai ter o incentivo de tentar mudar para uma tecnologia menos poluente. Veja que é um grande processo de transformação.

IHU On-Line – E em termos de Brasil, como estamos nesse processo?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Diria que estamos andando para trás em alguns casos. Houve um processo de desmanche do marco regulatório, que foi um avanço com relação aos anos 30. No entanto, esse marco não foi concluído porque não foi implementado de fato. E as agências têm cada vez mais restrições de ações, de incentivo. Para se ter ideia: uma agência reguladora tem o grande desafio que é lidar com a assimetria de informação. Ela regula um setor que é o que desenvolve a tecnologia, é o que tem conhecimento e que investe muito. Para ela conseguir regular, tem que investir muito em capacitação de pessoal para conhecer a fundo aquele setor que está sendo regulado.

A Agência de Proteção Ambiental nos Estados Unidos é a maior agência reguladora de lá. São cerca de 50 agências reguladoras no país, tanto é que chamado de quarto poder. Essa Agência que tem orçamento de certa de dez bilhões de dólares, tem 17 mil funcionários, dos quais três mil são pesquisadores de tempo integral com formação de doutorado. Isso é muito importante para reduzir essa assimetria de informação, pois tem que lidar com profissionais das empresas multinacionais que são altamente gabaritados. Esses funcionários vão gerar um conhecimento que interessa as empresas e que, por sua vez, vão ter muito mais argumentos num processo de litígio ambiental.

No Brasil, não existe esse processo de qualificação das agências reguladoras. Pelo contrário, elas estão em fase dedesmanche. Isso faz com que esse modelo de regulação e controle seja inviabilizado no Brasil.

IHU On-line – Então, sem investir pesado nas agências, tanto tecnicamente como materialmente, não tem como evoluir nesse modelo de regulação?

Foto: Anvisa

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Não, não tem. Pelo contrário, está em franco retrocesso. Até porque o atual governo passou a capturar as próprias agências reguladoras. Existe a captura pelo setor provado, mas, no caso que a gente está vendo aqui no Brasil é a captura pelo próprio governo. Isso na medida em que são cargos colocados à disposição de partidos políticos para a barganha política que a gente conhece. Infelizmente estão num processo de retrocesso, numa involução no que seria o marco regulatório, ou a chamada regulação social.

IHU On-Line – Porque ainda se consome tanto agrotóxico no Brasil? Porque ainda se insiste em substâncias que já foram banidas de outros países?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – São várias causas. O Brasil tem dimensões continentais, é o segundo maior produtor de alimentos no mundo. E não é por acaso. Os Estados Unidos são o primeiro e é o maior consumidor de agrotóxicos. O Brasil é o segundo maior consumidor. E aonde que se consome? 90% dos agrotóxicos são consumidos nas grandes commodities agrícolas para exportação, algodão, milho, café, cana-de-açúcar. O consumo é muito mais pela extensão, não pela intensidade. Ou seja, em quilos por hectare, o consumo de hortaliças e frutas é muito maior do que o da soja. Enquanto que a soja, por exemplo, vai consumir 18 quilos de agrotóxicos por hectare, a maçã pode consumir 60.

O grande consumo se dá pelas grandes extensões de plantio. E não por acaso que, justamente nos anos 2000, principalmente pela forte demanda de milho e soja pela China, o Brasil aumenta muito sua produção. E, obviamente, com isso vai aumentar também o consumo de agrotóxicos. O Brasil também tem vários estados em que se utiliza de suas safras por ano, o que também contribui para aumento do consumo.

E há justamente falta de controle. A fiscalização é extremamente frágil e precária e os impostos que não incidem acabam reduzindo os custos dos insumos. E aí não há um cuidado, por exemplo, em calibrar os bicos injetores, deracionalizar o uso desses produtos e ainda não se faz o manejo adequado de pragas. Ou seja, só se deve usar o agrotóxico de forma corretiva e não preventiva. Mas os agricultores acabam trabalhando numa estratégia de prevenção. E, usando as palavras de um agrônomo da Embrapa Soja: “é como você fazer um tratamento preventivo de um câncer que ainda não teve”. É uma coisa que não faz sentido.

O próprio manejo adequado de pragas, que é essa racionalização, pode levar a redução do consumo em mais de 50%. Então, tudo isso falta ao Brasil. Estamos num processo extremamente precário, com raras exceções. O grande crescimento acelerado de commodities e o custo relativamente barato desses produtos faz com que haja um incentivo a sua utilização e não a sua racionalização. É uma tecnologia de saturação e não de precisão. É o caso da pulverização, que acaba contaminando áreas ao redor. Assim, vemos principalmente casos de contaminação em escolas vizinhas às plantações.

IHU On-Line – Acreditava-se que o uso de sementes geneticamente modificadas poderia reduzir a necessidade de altas cargas de agrotóxicos. Mas, hoje, sabe-se que o cenário não é esse. Correto?

Victor Manoel Pelaez Alvarez – Recentemente avaliamos o custo de produção das grandes commodities, algodão, milho, em comparação com o trigo, que não tem ainda semente geneticamente modificada. O objetivo é ver como evoluíram os custos. Uma coisa interessante é justamente isso: os custos com agrotóxicos permanecem basicamente os mesmos, tanto em culturas transgênicas como não-transgênico, e o que mais aumenta são os custos das sementes. Chega a mais de 200% num período. E são as mesmas empresas, que fornecem sementes e agrotóxicos. Qual é a estratégia? Criaram a primeira geração de transgênico, geração de uma semente resistente ao herbicidaglifosato. Ou seja, passou-se a poder usar o que antes não era usado (já que as sementes não resistiam a essa substância).

Então não houve uma redução e sim um aumento. E ainda mais: com o único uso de uma substância, um único princípio ativo, gera resistência de ervas daninhas, assim como inseticidas geram resistências a insetos e assim por diante. E na sequencia tem que usar em mais quantidade ou tem que usar produtos que já estavam no fim de linha, no final do seu ciclo de vida. E ainda desenvolvem sementes geneticamente modificadas para resistirem a esses produtos que são extremamente tóxicos. Um exemplo é o paraquat, já proibido inclusive na China. E aqui no Brasil a estratégia de fazer uma mistura de glifosato com paraquat justamente para combater o efeito da resistência das erva daninhas.

Tudo aquilo que se dizia que era tecnologia de vanguarda porque iria utilizar só um ingrediente ativo com menos toxidade, de repente, com resistência e uso continuado, tem que voltar atrás no tempo. Há retrocesso tecnológico de usar produtos que, inclusive, já deveriam estar fora do mercado. Na realidade, tudo é uma estratégia de venda e convencimento que vai dar resultado.

Mas dá resultado no curto prazo, na fase seguinte já leva a ter que usar mais agrotóxico, mais agrotóxicos e mais tóxicos. Há alguma exceções como é o caso das variedades resistentes a insetos. Porém, hoje, se não houver uso continuado ou estrutura muito sofisticada de refúgios para evitar que haja uma geração de insetos resistentes em grande escala isso também vai acontecer. E pensar nessas estruturas com a fiscalização e controle que temos hoje Brasil é irreal. As nossas estruturas não tornam viáveis esse tipo de gestão tecnológica. Há outros recursos que poderiam ser utilizados, mas tudo depende de pesquisa e investimento.

Por João Vitor Santos

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/539242-fragilidade-da-anvisa-e-o-uso-indiscriminado-de-agrotoxicos-no-brasil-entrevista-especial-com-victor-manoel-pelaez-alvarez

Dez documentários que irão mudar suas ideias sobre alimentação

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Eles debatem obesidade, uso descontrolado de agrotóxicos, crueldade com animais. E propõem encarar boa comida como parte essencial da cultura humana

Por Constantino Oliveira, no Obvious

Acredito que o ser humano se condiciona a determinados hábitos para facilitar a sua vida diária na sociedade. Criamos rotinas, processos e conceitos sociais para vivermos de forma harmoniosa entre nossos pares e para usufruir de um convívio pacífico e prazeroso. Muito do que fazemos são heranças atávicas de como os nossos pais nos criaram e dos valores que nos foram passados durante a nossa infância. E essa cultura e seus valores estão impregnados no nosso inconsciente, fazendo com que nos comportemos de uma ou de outra maneira. De certa forma, agimos e tomamos decisões nas nossas vidas baseados em crenças e valores das quais não temos consciência e não discernimos.

Assim, a nossa relação com a comida é também exercida, na sua maior parte, de maneira inconsciente. A mesa não é apenas um local para nos abastecer nutritivamente, mas um local de convívio importante. Um local de encontros familiares ou encontro com os amigos. Também é um local para relaxar e se desligar do trabalho, seja sozinho, com uma boa conversa, ouvindo uma música ou um noticiário, ou assistindo à televisão. Nesse sentido, a comida é um elemento agregador e de apaziguamento interno.

A comida também serve como um refúgio psicológico contra o estresse. Para algumas pessoas, quanto mais estressados e ansiosos, maior o desejo de comer. Assim, a comida funciona com uma válvula de escape para as nossas frustrações diárias.

A nossa relação atávica e social com a comida não se refere só à forma em que nós comemos, mas, principalmente, ao que comemos. Desde pequeno, ouve-se que uma criança saudável é aquela gordinha e bochechuda. Já, na mais tenra idade, o indivíduo cria estereótipos que vão se perpetuar ao longo da sua vida. Um docinho como prêmio por ter comido todo o prato, um sorvete pelo mérito de alguma conquista, um lanche em uma franquia fastfood midiática, no final de semana, para sair da monotonia doméstica. Mensagens subliminares que vão sendo incorporadas a nossa percepção sobre alimentação e sobre a nossa relação com a comida.

Dessa forma, chegamos a práticas alimentares que destoam, verdadeiramente, do que o nosso corpo está apto a receber. Somos produtos daquilo que ingerimos, seja mental ou fisicamente, portanto aquilo que lemos, assistimos, ouvimos e comemos é causa, na razão direta, daquilo que nos tornamos. Devemos analisar o tipo de alimento que estamos ingerindo e repensar, distante dos nossos atavismos e das nossas conveniências sociais, o que é melhor para o nosso corpo. Hoje, 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam e, pela primeira vez, essa geração de crianças vem apresentando sintomas de doenças que só existiam anteriormente em adultos.

Longe de querer doutrinar ou propagar ideais vegetarianos ou de qualquer outra forma, penso que o dialogo, mais do que as disputas de filosofias e crenças pessoais, é extremamente relevante. Nunca fiz, nem acredito que regimes, em sua conotação estrita, funcione a longo prazo. Mas, creio que possamos melhorar nossos hábitos alimentares diários. Também entendo que não há uma “receita de bolo” para todos os indivíduos, mas acho que podemos tirar proveito da quantidade e qualidade (tem que filtrar muita coisa!) de informações que estão disponíveis nas livrarias, locadoras e na internet, e nos questionar sobre aquilo que realmente é importante para nós. Hoje, podemos agir melhor informados, diferentemente do que fomos “programados” a pensar durante a nossa vida, seja através da nossa cultura familiar, nossa cultura social, de uma cultura médica totalmente descompromissada ou das informações midiáticas da nossa indústria de alimentos. Podemos discernir melhor sobre o que é importante para uma criança e para um adulto ingerir.

Abaixo, segue a relação dos dez documentários que achei mais interessantes. Alguns desses documentários estão disponíveis nos seus próprios sites e outros se encontram facilmente no youtube ou por outros meios na internet. Boa sorte!

DOCUMENTÁRIOS

1. Muito além do Peso (Way Beyond Weight)

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças que antes só existiam em adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. Todos têm em sua base a obesidade. Esse documentário discute por que boa parte das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo.

2. A Carne é Fraca

Esse documentário mostra aspectos da indústria da carne de aves e gado que normalmente não são divulgados. Através de depoimentos de técnicos ambientais, médicos, pediatras e de jornalistas, ele nos possibilita entender a realidade de como e por que comemos.

3. Terráqueos (Earthlings)

Talvez, desta lista, é o documentário contém as imagens mais impactantes sobre como os animais são tratados até chegarem ao nosso prato. É um documentário sobre a absoluta dependência da humanidade em relação aos animais (para estimação, alimentação, vestuário, diversão e desenvolvimento científico).

4. Forks over Knives (Garfos ao invés de Facas)

Esse documentário talvez seja o que traga o maior número de dados substanciais para a mudança de um novo paradigma alimentar. Apesar dos avanços das tecnologias médicas, o ser humano se encontra cada dia mais doente. Cerca de 50% da população dos EUA toma, ao menos, um remédio receitado e as cirurgias de grande porte viraram rotina. Doença cardíaca, câncer e AVC são as três principais causas de morte no país, mesmo gastando-se bilhões anualmente para combatê-las. Os dados científicos mostrados nesse documentário são impactantes e instigantes.

http://www.alluc.to/documentaries/watch-forks-over-knives-2011-online/329436.html

5. Meet the Truth – Uma Verdade Mais que Inconveniente

Meat the Truth é um documentário que fala sobre o porquê tem se ignorado, repetidamente, uma das mais importantes causas da mudança climática no mundo: a pecuária intensiva. O documentário demonstra com dados estatísticos que a criação de gado gera mais emissões de gases de efeito estufa em todo o mundo que todos os carros, caminhões, trens, barcos e aviões somados. O título é uma provocação ao documentário de Al Gore e o porquê do ex-vice-presidente dos EUA não mencionar coisa alguma sobre o dano ecológico da pecuária intensiva no seu filme.

6. Food Matters (O Alimento é Importante)

Esse documentário é extremamente provocativo sobre diferentes aspectos dos nossos hábitos alimentares. Ele é contrário ao argumento da medicina moderna de que existe uma pílula para cada doença (a pill for every ill). Esse filme propõe educação e não medicação como uma forma de melhorar a vida do indivíduo.

7. Food Inc (Comida S/A)

O documentário concorreu ao Oscar em 2010. É um filme que traça muito bem o perfil sobre como são criados e abatidos os animais pela indústria de carnes, utilizando de excessos de hormônios e antibióticos. Através de entrevistas com pessoas que mudaram seus hábitos alimentares, ele também aponta possíveis soluções.

8. Planeat

O documentário fala da historia de três homens que dedicaram as suas vidas para descobertas de uma dieta alimentar que seria a mais indicada para o ser humano. Ele apresenta uma variedade de alimentos que são verdadeiramente importantes para a saúde e o meio ambiente. Esse documentário serviu de “matéria-prima” para o filme Forks over Knives.

http://planeat.tv/

9. Hungry for Change (Faminto por Mudança)

Dos mesmos diretores e produtores de “Food Matters”, esse é mais um filme que, de forma bem orquestrada, dá importantes argumentos para mudança de hábitos alimentares. Esse documentário mostra que, nós educando sobre o que se come e de onde vem a comida, nos podemos ter o controle da nossa aparência, da nossa saúde e da nossa vida.

http://www.frequency.com/video/famintos-por-mu/78882123

10. Fat, Sick & Nearly Dead (Gordo, Doente & Quase Morto)

Finalizo essa seleção com um documentário leve, mas inspirador. O documentário fala da saga de alguns personagens que, através da mudança de hábitos e da alimentação, conseguiram mudar as suas vidas e contornar doenças físicas e emocionais.

Para assistir com legenda acesse: http://www.methodus.com.br/video/105/gordo-doentequase-morto.html

FONTE: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/dez-documentarios-que-irao-mudar-suas-ideias-sobre-alimentacao/

Agrotóxicos: o lucro que mata a terra e quem dela vive

Por Jacques Távora Alfonsin

AGROTOX
Os desastres ambientais provocados pela aplicação de agrotóxicos no meio rural, por mais conhecidos frequentes, e lamentados, continuam aumentando o número das suas vítimas. Nos dias 27 e 28 de novembro passado, na localidade de Lageadinho, município de Cacique Doble (RS), várias famílias vizinhas à uma área de terras onde eles foram utilizados, sofreram os danosos efeitos dos venenos conhecidos como 2,4-D e Paraquat.

Uma queixa de pessoas que socorreram essas famílias foi levada ao deputado Edegar Pretto, testemunhando a ocorrência de diversos incômodos resultantes daquele sinistro. Dores de cabeça, náuseas, vômitos e diarreia; um bebê com apenas quarenta dias de vida, mesmo depois de medicado, prosseguiu doente; um menino de seis anos apresentou lesões na língua semelhantes às provocadas por queimadura. Internações e exames clínicos,, mesmo laboratoriais, foram feitas na região para diagnosticar as/os doentes e tratar de impedir novas sequelas.

Não só as pessoas sofreram com isso. Pelo fato de a utilização dos agrotóxicos ter sido feita muito perto da nascente e de um riacho, a água dessa fonte natural ficou esbranquiçada como se estivesse com excesso de cloro e passou a exalar um cheiro forte insuportável, sendo impossível saber-se até onde um tal efeito se fez sentir.

Em maio deste ano de 2014, a CNBB publicou o documento 101 (“A Igreja e a questão agrária brasileira no início do século XXI”) no qual desastres ambientais como o acontecido em Lageadinho era previsto como conseqüência inevitável de todo um modelo de exploração da terra que utiliza venenos do tipo lá aplicado, comprovadamente incompatível com o respeito devido a ela, ao meio ambiente e a vida das pessoas:

Mais de 1 bilhão de litros de agrotóxicos são despejados anualmente sobre os solos brasileiros, gerando problemas ambientais de contaminação dos solos e dos corpos de água, com consequências inevitáveis e imprevisíveis para os mananciais superficiais e subterrâneos. Além disso, geram problemas para a saúde, sobretudo para as pessoas que manipulam esses produtos e das famílias que vivem no entorno das grandes fazendas,sobre cujas extensas plantações os aviões despejam esses agrotóxicos. Esse padrão químico-industrial de produção tem evidentes impactos estruturais sobre as interações da natureza, seus micro-organismos, cadeias de biodiversidade, polinizadores naturais, como as abelhas, complexidade dos sistemas ecológicos etc., eliminando-os gradualmente em troca de uma crescente dependência de insumos comprados. O mesmo processo também se dá com a diversidade de policulturas dos alimentos, reduzidas a uma lista pequena, homogênea e biologicamente pobres de espécies de sementes, criadas em laboratórios para se adaptarem à monotonia do padrão industrial” (…) “É cada vez mais evidente a ampliação dos riscos ambientais impostos por esse padrão de crescimento agrícola.” (São Paulo: Paulinas, 2014).

Um estudo anterior, por nós já lembrado nesse mesmo site (“Agroecologia Militante”, de Enio Guterres), mostra como a chamada “agricultura química” – uma forma de uso da terra pouco preocupada com o uso de agrotóxicos – cria um círculo vicioso de dependência do solo para com a sua aplicação. Lembrando herbicidas à base de 2-4 D, justamente o utilizado em Lageadinho, Guterres mostra que, em vez de diminuir essa dependência, esses tipos de intervenções externas agressivas ao meio-ambiente, ampliam um tal efeito funesto, e, consequentemente, elas aumentam também os lucros das empresas internacionais fabricantes desses venenos:

“O uso intensivo de venenos a principal fonte de recursos das multinacionais. É o principal instrumento de exploração dos camponeses e dos agricultores em geral. É o mecanismo mais eficaz de transferência de renda da agricultura para a indústria.” (…) “Os agrovenenos são também os principais responsáveis pela contaminação das águas e do solo e por inúmeros problemas de saúde dos agricultores. São também os responsáveis pela contaminação dos alimentos. O uso intensivo de venenos tem causado vários problemas para as plantas que não são alvo das aplicações. Por exemplo, os pequenos agricultores têm dificuldade de plantar mandioca e uvas onde se usam muitos herbicidas à base de glifosato ou à base de 2-4 D. O uso de venenos na agricultura tem aumentado a cada dia que passa. Os insetos, as plantas e os fungos tornam-se resistentes e exigem doses cada vez mais fortes e venenos cada vez mais perigosos. As sementes transgênicas mantêm a dependência aos venenos, e até aumentam. E não é fácil livrar-se depois que se está acostumado. As facilidades momentâneas cativam.”

Diante de um poder tão desastroso como esse, a primeira coisa que qualquer pessoa se pergunta é o que faz a lei a respeito. Na letra, muita coisa, mas de prático, pouca. O art. 225, parágrafo 1º, inciso V da nossa constituição, por exemplo, prevê o seguinte:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Parágrafo 1º: “Para assegurar a efetividade desse direito incumbe ao Poder Público: V – Controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas,métodos e substâncias que comportem riscos para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente.”

Uma leitura crítica desse artigo, parágrafo e inciso, coloca em questão, no caso de Lageadinho, a velha e polêmica tese de que as conveniências do capital sempre superam as da lei, pois, se os riscos à vida e à saúde das pessoas alcançam danos como os verificados ali, como podem tais venenos ser licenciados à venda? Mesmo se tiverem sido licenciados, qual o poder de fiscalização indispensável para neutralizar os efeitos potencialmente danosos que eles têm, como ficou comprovado nesse sinistro?

Por iniciativa do mesmo deputado que recebeu a denúncia desse desastre, deve acontecer, no início da semana que vem, um encontro com representantes do Ministério Público, para tomada das providências necessárias, inclusive judiciais se for o caso, no sentido de, primeiro, repararem-se os prejuízos sofridos pelas vítimas e depois decidir-se sobre as necessárias à prevenção de sinistros como esse.

O que não deve e não pode mais acontecer é a aplicação da lei prosseguir tão ágil quando serve ao capital e tão lenta quando deveria servir as suas vítimas.

FONTE: http://www.mst.org.br/node/16905

Um terço dos suicídios no mundo é por ingestão de agrotóxicos, diz OMS

Fernando Frazão/Agência Brasil

Facilidade na compra e desrespeito dos tratados internacionais estão entre os principais responsáveis pelo alto número de suicídios no campo

Por Bruno Pavan, Da Redação

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório de prevenção ao suicídio que apontou que, em 2012, mais de 800 mil pessoas cometeram suicídio no mundo, o que significa que uma pessoa se mata a cada 40 segundos.

Publicado em setembro, o documento chamou a atenção para o fato de que um terço dos suicídios no mundo é cometido por conta da ingestão de agrotóxicos. Os casos são mais frequentes nas áreas rurais de países pobres na África, América Central e Ásia.  

O Brasil não fez parte do levantamento, mas, para o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Marcos Antonio Pedlowski, o problema também vem crescendo de forma vertiginosa no país. “O suicídio em áreas rurais vem aumentando muito, é quase uma epidemia”, afirma.

Facilidade no acesso

O relatório aponta que as medidas propostas para diminuir esse tipo de problema passam por fazer cumprir as convenções internacionais sobre a venda, o comércio e o armazenamento de agrotóxicos no mundo.

Pedlowski reforça que muitos agrotóxicos que são vendidos no Brasil e proibidos em grande parte do mundo, possuem ação depressora que diminui o nível de atividade do cérebro. O fácil acesso que os trabalhadores rurais têm desses venenos acabam colaborando para que se cometa o ato do suicídio.

“O relatório reforça que o suicídio nunca é uma decisão definitiva da pessoa, ela sempre passa por um momento de dualidade. Se você tem acesso fácil aos agrotóxicos a pessoa pode se inclinar mais facilmente pela opção de se matar. A partir do momento que o produto sai da loja, não se tem mais controle nenhum sobre ele”, criticou.  

Projetos

Em 2013, a BASF S.A e a Raízen Combustíveis (Shell) foram condenadas a pagarem indenização de R$ 200 milhões de indenização coletiva dos trabalhadores de uma fábrica em Paulínia, interior de São Paulo.

Investigações que duraram anos comprovaram a negligência das empresas com a proteção dos trabalhadores na fábrica que produzia agrotóxicos. A indústria, que pertencia a Shell e foi comprada pela BASF, contaminou o solo e as águas subterrâneas com produtos químicos entre 1974 e 2002.

Os R$ 200 milhões pagos pelas empresas serão utilizados pelo Ministério Público do Trabalho para patrocinar estudos voltados à pesquisa prevenção e ao tratamento de trabalhadores vítimas de intoxicação, de adoecimento decorrente de desastres ambientais, exposição a substâncias tóxicas ou acidentes de trabalho que envolva queimaduras.

FONTE:http://www.brasildefato.com.br/node/30818

Anvisa aprova iniciativa para banir forato e parationa metílica

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta terça-feira (09/12) duas iniciativas regulatórias para propor o banimento dos agrotóxicos Forato e Parationa Metílica. Os dois produtos fazem parte do grupo de agrotóxicos que vem passando por reavaliação da Anvisa para revisar os seus parâmetros de segurança. No processo de registro de agrotóxicos no Brasil, cabe à Anvisa avaliar o impacto destas substâncias sobre a saúde humana, tanto do trabalhador rural como do consumidor.

Por lei, o registro de agrotóxicos não tem data de validade, porém as reavaliações são feitas para rever os limites de segurança do produto diante de novas informações científicas sobre estas substâncias. A Anvisa já havia realizado consultas públicas com a indicação de banimentos destas duas substâncias anteriormente.

Tratam-se de análises rigorosas que busca reunir todas as evidências e trabalhos científicos que apontem dados relevantes para a saúde humana.

Desde 2009, quando a Agência iniciou a reavaliação de 14 agrotóxicos existentes no país, quatro já foram banidos e outros dois sofreram alterações em seus limites e recomendações de uso. A iniciativa regulatória está publicada na edição nº 240 do Diário Oficial da União.

Leia também: Agência divulga resultado de monitoramento de agrotóxicos

FONTE: http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/anvisa+portal/anvisa/sala+de+imprensa/menu+-+noticias+anos/2014+noticias/anvisa+aprova+iniciativa+para+banir+dois+agrotoxicos

 

Relatório anual da OMS lista ingestão de agrotóxicos entre principais formas de suicídio no mundo

WDR Suicide

A Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de publicar o seu relatório anual cujo tema é a prevenção dos suicídios que se tornaram um grave problema em escala global.  Um fator que aparece como uma forma disseminada de suicídios é a ingestão de agrotóxicos. Segundo a OMS, o fenômeno do suicídio associado à ingestão desses venenos agrícolas estaria tendo grande ocorrência em países de economias mais atrasadas onde a adoção de agrotóxicos não foi acompanhada das devidas medidas para dificultar o acesso, controlar a venda de agrotóxicos e pela redução do nível de toxicidade dos produtos sendo comercializados.

Pois bem, apesar do Brasil não estar enquadrado como uma economia mais atrasada, a descrição da OMS para a causa dos suicídios por agrotóxicos também é aplicável por aqui, pois os mesmos sintomas de descontrole e despreocupação estão bem evidentes. E, pior, os representantes do latifúndio agro-exportador capitaneados pela dublê de latifundiária e senadora (e a futura ministra da agricultura de Dilma Rousseff) Kátia Abreu (PMDB/TO), estão pressionando para que as normas existentes sejam completamente fragilizadas.

A questão apontada pela OMS já sido identificada em relatórios produzidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), mas até o momento o governo federal tem ignorado as demandas para maior regulação e, na prática, tem progressivamente cedido às demandas do latifúndio agro-exportador por mais venenos agrícolas. O resultado é que também no Brasil as taxas de suicídio associadas aos agrotóxicos estão sendo ignoradas, o que é particularmente grave dada a posição do Brasil como maior consumidor mundial de agrotóxicos desde 2008.

Quem quiser ter acesso ao relatório da OMS em espanhol, basta clicar Aqui!