Campanha convoca população às ruas contra o uso de agrotóxicos

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As eleições passaram e o Congresso Nacional não poderia ter ficado pior: mais da metade dos seus membros diz se identificar com a chamada Bancada Ruralista. Além de afrontarem os direitos de indígenas e quilombolas, este grupo suprapartidário é responsável pela aprovação de leis que  facilitam o uso de mais agrotóxicos.

No próximo dia 3 de dezembro, data em que celebra-se o Dia Internacional do Não Uso dos Agrotóxicos, a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida convoca os cidadãos brasileiros a se unir para exigirmos comida sem veneno. Para isso, é fundamental que o congresso defenda a saúde da população e a agricultura familiar, responsável pela produção de 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa.

Além disso, a Campanha defende ainda o fim da pulverização aérea, prática utilizada pelo agronegócio, e a reforma política, de maneira a reduzir o peso dos interesses econômicos e viabilizar nossa representação na Câmara e Senado. Os ruralistas defendem os interesses de cerca de 1% dos proprietários de terra do Brasil, que dominam 44% das áreas brasileiras agricultáveis. Esta é apenas mais uma mostra das distorções de representação do nosso legislativo.

Aulas públicas, panelaço, panfletagem, “feira dos envenenados”. Vale um pouco de tudo. A ideia principal da campanha é demarcar a data nacionalmente e ir às ruas mostrar que a luta contra os agrotóxicos se vincula a um governo progressista, e às ideias da reforma política e participação popular.

Atividades já estão confirmadas em diversos estados. Em breve a agenda será divulgada. Contate a Secretaria Operativa da Campanha (pelo e-mail contraosagrotoxicos@gmail.com) para saber mais sobre as mobilizações em seu estado e monte também alguma atividade em sua cidade.

A data

Bophal, Índia. Madrugada do dia 3 de dezembro de 1984. Em uma zona densamente povoada, de 27 a 40 toneladas dos gases tóxicos metil isocianato e hidrocianeto, químicos utilizado na elaboração de um praguicida da Corporación Union Carbide, vazam e se dissipam pela cidade, quando os seis sistemas de segurança não funcionam.

30 mil pessoas, oito mil nos três primeiros dias, morreram devido ao acidente e, ainda hoje, estimativas indicam que 150 mil sofrem de doenças crônico-degenerativas causadas pela exposição aos gases letais.

A Union Carbide, posteriormente adquirida pela Dow Química, ainda se nega a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, dificultando que o tratamento médico adequado fosse dado aos indivíduos expostos. A região nunca foi descontaminada e até hoje representa um perigo à população.

O desastre químico foi considerado o pior da história e a data foi estabelecida pela Pesticide Action Network (PAN) como o dia internacional do não uso de agrotóxicos. A Dow é hoje uma das 6 gigantes do mercado de venenos e sementes transgênicas, e em 2012 faturou U$ 60 bilhões.

FONTE: http://www.contraosagrotoxicos.org/index.php/456-campanha-convoca-populacao-as-ruas-contra-o-uso-de-agrotoxicos

Exposição a agrotóxicos pode causar distúrbios reprodutivos

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Um estudo elaborado pelo aluno de doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente da ENSP Cleber Cremonese observou que grande parte dos agrotóxicos apresenta capacidade de desregulação do sistema endócrino humano, o que altera os níveis de hormônios sexuais e causa efeitos adversos, principalmente sobre o sistema reprodutor. Câncer de mama e ovário, desregulação de ciclo menstrual, câncer de testículo e próstata, infertilidade, declínio da qualidade seminal e malformação de órgãos reprodutivos são alguns dos exemplos dessas complicações. Segundo Cleber, com o aumento do consumo nacional de agrotóxicos, tanto no agronegócio como na agricultura familiar, crescem as evidências de que a utilização destas substâncias não está apenas relacionada especificamente à produção agrícola, mas se transforma em um problema de saúde pública.

 Para avaliar a exposição aos agrotóxicos e os possíveis impactos desta exposição nos níveis de hormônios sexuais de homens e mulheres, além da qualidade do sêmen de adultos e jovens, o doutorando pautou sua sua pesquisa na observação de moradores da área rural do município de Farroupilha-RS. Foram feitos dois estudos transversais, com objetivos específicos, populações e metodologias de coleta particulares. A tese investigou adultos de ambos os sexos, trabalhadores rurais e seus familiares, com idades compreendidas entre 18 e 69 anos. No segundo estudo, participaram da investigação jovens moradores rurais e urbanos, com idade entre 18 e 23 anos.

 Na pesquisa, conforme explicou o aluno, foram coletadas amostras de sangue e sêmen para mensurar níveis de atividade de colinesterases, níveis hormonais sexuais e outros parâmetros bioquímicos, além de parâmetros espermáticos. Também foram aplicados questionários para identificar possíveis fatores associados aos desfechos reprodutivos, além de análises descritivas e bivariadas e regressões multivariadas, realizadas para identificar possíveis associações.

 No primeiro estudo, os homens que tinham maiores contatos com agrotóxicos apresentaram aumento de 14% na concentração de testosterona e redução de hormônio luteinizante (LH) de 20%; a globulina transportadora de hormônio sexual (SHBG) apresentou associação positiva e significativa com os níveis de butirilcolinesterase (BChE). Em relação aos que trabalhavam há mais de 25 anos na agricultura, observou-se uma redução de 20% nos níveis desse hormônio. Nas mulheres que trabalharam nos últimos 3 meses foi constatado menores níveis de prolactina. Na regressão logística, homens usando inseticidas e pesticidas organofosforados, respectivamente, tiveram menor chance de ter a prolactina reduzida. Da mesma forma, foi observada nas mulheres associação inversa entre contato com agrotóxicos autorreferido alto e a chance de apresentar a prolactina reduzida. 

 No segundo estudo, as alterações nos níveis de hormônios sexuais estiveram associadas às características de gestação e nascimento, com maiores níveis de exposição à agrotóxicos e com local de moradia. Quanto aos parâmetros espermáticos, a motilidade foi significativamente menor nos jovens rurais do que nos urbanos, naqueles que relataram contato com agrotóxicos alto e nos que usavam fungicidas no momento da coleta. A morfologia mostrou-se reduzida entre 15% e 32% nos moradores rurais e com maiores contatos com agrotóxicos. Também foram observadas diferenças significativas nas medidas anatômicas sexuais (volume testicular e distância anogenital) quanto ao local de moradia, exposição a agrotóxicos e características de gestação.

 A partir dessas observações, Cleber concluiu que os achados são sugestivos de que exposições crônicas a agrotóxicos interferem na regulação dos hormônios sexuais em adultos, bem como na qualidade seminal dos jovens da área de estudo.

 Efeitos dos agrotóxicos se estendem a problemas neurológicos, respiratórios e hepáticos

 No Brasil, a utilização dos agrotóxicos é extremamente relevante no modelo de desenvolvimento do setor agrícola. Em consequência disso, o país é hoje o maior consumidor mundial das substâncias. Segundo o aluno, o uso destes agentes também têm sido associado ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como Parkinson, distúrbios cognitivos, transtornos psiquiátricos, alterações respiratórias e imunológicas e problemas hepáticos e renais. “Estudos apontam ainda associação entre exposição intrauterina aos agrotóxicos e efeitos teratogênicos, tais como malformações congênitas, aborto e baixo peso ao nascer.”, citou.

 Para Cleber, a exposição crônica aos agrotóxicos, adicionalmente com a falta de proteção pessoal durante manuseio, além da carência e conhecimento no que diz respeito aos riscos do contato e a escassez de programas públicos com objetivo de diminuir o uso intenso e que tragam alternativas no cultivo de alimentos, estão entre os principais problemas associados ao crescente uso dessas substâncias e, consequentemente, ao aumento na ocorrência de desfechos adversos na saúde reprodutiva da população rural, especialmente trabalhadores agrícolas organizados sob o regime da agricultura familiar. 

 Visando solucionar essas questões implicadas pelo uso de agrotóxicos, o aluno sugere a realização de novos estudos para melhor avaliar a exposição da população investigada e outras populações rurais brasileiras, utilizando delineamento longitudinal, que possam melhor medir e compreender a complexidade da exposição crônica aos agrotóxicos e seus efeitos sobre a saúde humana e possíveis implicações nas gerações futuras. “É importante que sejam realizadas intervenções a curto, médio e longo prazo para reduzir ou minimizar os prejuízos à saúde as populações sob risco.”, pontuou.

 Cleber Cremonese possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Saúde Coletiva, ambos pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Sua tese de doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente, intitulada Exposição a agrotóxicos e distúrbios reprodutivos: estudo em trabalhadores rurais, seus familiares e jovens do município de Farroupilha – RS, foi defendida na ENSP no dia 9/10 sob a orientação da Prof.ª Rosalina Jorge Koifman.

 FONTE: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/36658

Publicada nova lista de agrotóxicos altamente perigosos

A PAN – Pesticide Action Network, organização que luta contra os agrotóxicos no mundo, renovou a lista de agrotóxicos altamente perigosos. Os critérios foram atualizados e com isso, a publicação serve como guia para orientar ações pela proibições deste venenos.

Veja matéria sobre o lançamento e veja o relatório completo.

Fonte: http://www.contraosagrotoxicos.org/index.php/noticias/agrotoxicos/443-publicada-nova-lista-de-agrotoxicos-altamente-perigosos

Era só o que faltava: polícia fecha fábrica clandestina de agrotóxicos em São Paulo

Polícia desativa fábrica clandestina de agrotóxicos e produtos veterinários em São Paulo

Produtos do depósito clandestino foram apreendidos pelos policiais (Foto: di,)

Uma fábrica clandestina de agrotóxicos e produtos veterinários foi desativada pela polícia em São José do Rio Preto, São Paulo. Milhares de frascos, com produtos falsificados foram apreendidos.
Quando os policiais chegaram acompanhados de fiscais da Receita Federal e do Ministério da Agricultura, não havia ninguém no local.
A polícia apreendeu uma grande quantidade de galões com produtos agropecuários, além de balanças, máquinas e equipamentos usados na fabricação e embalagens desses materiais. Na maioria dos rótulos, o CNPJ era inexistente.
As investigações começaram há oito meses pela corregedoria da Polícia Civil, que apura o envolvimento de policiais atuando no recebimento de suborno e propina, considerados crime de corrupção passiva.
Os produtos fabricados eram vendidos pela internet e por telefone e de acordo com fiscais do Ministério da Agricultura, podem colocar em risco a saúde de animais e também de consumidores de carne bovina.

A ivermectina é um antiparasitário e algumas composições do medicamento, com alta concentração e de longa duração, podem deixar resíduos na carne, por isso, foram proibidas pelo Ministério da Agricultura.

FONTE: http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2014/08/em-sp-policia-descobre-fabrica-clandestina-de-agrotoxicos.html

Planta com cheiro substitui agrotóxico

Roberto Custódio / Jornal de Londrina
Roberto Custódio / Jornal de Londrina / O doutorando Mateus Carvalho comprovou a redução de 70% na incidência de mosca branca em meio à plantação de tomate
O doutorando Mateus Carvalho comprovou a redução de 70% na incidência de mosca branca em meio à plantação de tomate

Aposta em cultivo consorciado de plantas é alternativa pesquisada na UEL para o controle de pragas que afetam morango e tomate

O cultivo de frutas e hortaliças em consórcio com outros alimentos pode ser um método bastante eficaz no combate de pragas e doenças na agricultura. É o que constataram pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Eles escolheram o tomate e o morango – dois dos alimentos mais suscetíveis a pragas e, portanto, ao uso de agrotóxicos – para mostrar como técnicas alternativas podem ajudar a repelir insetos de forma natural. Os métodos deram certo e já estão sendo utilizados por produtores orgânicos da região Norte do estado.

Em um dos experimentos, o mestrando do programa de pós-graduação em Agronomia Fernando Hata utilizou o plantio de alho com o morango para afastar o ácaro rajado. A praga, que causa o apodrecimento das folhas da planta, foi repelida pelo cheiro forte do alho. “Podemos diminuir em até 50% a população de ácaro com o plantio do alho próximo ao morango. Isso reduz bastante o uso de veneno, se o agricultor tiver uma produção convencional”, comenta o pesquisador.

Fazenda Escola testa mais métodos e plantas

Criar condições para que inimigos naturais das pragas surjam para controlá-las também pode ser uma alternativa para eliminar o uso de agrotóxicos na agricultura. Pesquisador na área de controle biológico conservacionista, o professor de Agronomia Ayres de Oliveira Menezes Júnior, também da Universidade Estadual de Londrina, explica que a estratégia consiste na preservação da diversidade ecológica existente nas áreas naturais. “Se isso for conservado [a natureza], o produtor vai observar que os inimigos naturais das pragas farão o controle. Mas ele precisa ter consciência disso para aproveitar estes benefícios”, afirma o pesquisador.

Outra forma equilibrada ecologicamente de substituir a aplicação de veneno nas plantações é o cultivo paralelo de plantas com outras aptidões, como o apresentado na pesquisa do morango e tomate. Mas o produtor, salienta o professor, pode ir além, usando girassol, mamona e trigo sarraceno, por exemplo, para atrair inimigos naturais das pragas que atingem a cultura principal. Na Fazenda Escola da UEL, a estratégia é utilizada em meio ao plantio de soja e de milho. O trigo sarraceno atrai joaninhas que ajudam a combater pulgões do milho. Já a mamona atrai vespas que se alimentam, por sua vez, de lagartas que atacam a soja.

O professor do Departamento de Agronomia da UEL e orientador das pesquisas envolvendo morango e tomate, Maurício Ventura, observa que outra vantagem da pesquisa é a possibilidade de evitar o manuseio e aplicação de agrotóxicos, a partir destas estratégias.

Isso, destaca ele, ajuda a garantir mais saúde ao agricultor e ao consumidor final do produto.

Hata assinala que, no caso do produtor orgânico, a técnica também propicia um controle melhor sem o uso de agrotóxicos. A alternativa já é empregada por produtores de Pinhalão e Jandaia do Sul.

Ervas

O doutorando Mateus Gimenez Carvalho, por sua vez, plantou coentro e manjericão entre mudas de tomate. O resultado foi uma repelência natural à mosca branca, praga que transmite um vírus que afeta o desenvolvimento da planta. Assim como na outra pesquisa foi o odor liberado pelas plantas cultivadas em consórcio que espantou as moscas. Agora, Carvalho busca uma maneira de afastar outro inimigo dos agricultores – a traça do tomateiro. “Essas [mosca branca e traça] são duas pragas que causam muitos danos ao tomate. Quero me aperfeiçoar nesta pesquisa”, salienta.

O estudante observa que o experimento já realizado ajuda a reduzir em até 70% a mosca branca na produção. Além disso, a contribuição com o meio ambiente é garantida a partir da diminuição no uso de agrotóxicos, prática cada vez mais comum nesse tipo de cultura. “Tem produtor que aplica de duas a três vezes por semana agrotóxicos no tomate, ainda mais quando se cultiva em época de muito calor. A praga cria até resistência e tudo chega ao consumidor final”, alerta.

Quem aderiu à estratégia de Carvalho já relata benefícios. “A técnica ameniza bastante as pragas. Só usamos inseticida em último caso”, afirma Almir Almeida Ramos, que administra uma propriedade rural de Londrina. A plantação de tomate do local passou a contar com coentro desde a última safra.

Estratégia abre espaço para renda extra

Foi na propriedade do agricultor Lauro Wittmann, 52 anos, de Jandaia do Sul, que o pesquisador Fernando Hata viu pela primeira vez o plantio de morango em consórcio com alho. Na época, Wittmann já observava os benefícios da iniciativa no controle de praga e o pesquisador percebeu que a estratégia precisava ser mais bem estudada. “O plantio era sem muita certeza de que daria certo”, lembra Hata.

É por experiência própria, no entanto, que o produtor de morangos conta como o alho é útil para repelir o ácaro rajado. Agricultores conhecidos dele chegaram a tentar usar ervas, como o manjericão, no controle de pragas do morango, mas o resultado não foi semelhante. “As plantas faziam sombras no morango e atrapalhavam o cultivo. Com o alho, não. É algo que não compete com o morango e acaba sendo mais uma fonte de renda”, diz Wittmann. Ele abriu mão do uso de agrotóxicos em sua produção desde 1999 e comercializa o alho produzido com o morango em feiras orgânicas da região.

FONTE: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1446065

Produtores brasileiros têm prejuízos com sementes geneticamente produzidas

Photo courtesy of Shutterstock

Numa daquelas notícias desagradáveis que a mídia corporativa brasileira não gosta de dar, a Reuters noticia que a Associação de Produtores de Soja (APROSOJA), que representa os produtores agrícolas do centro oeste, está reclamando que sementes geneticamente modificadas de milho (o milho Bt) não estão oferecendo a devida resistência contra uma lagarta que está causando graves prejuízos (Aqui!).

Como resultado, a APROSOJA está demandando que a Monsanto, DuPont, Syngenta e Dow adotem medidas compensatórias pelas perdas ocorridas (Aqui!), visto que em vez dos ganhos auspiciosos que foram prometidos, os produtores estão tendo que gastar mais 54 dólares por hectare plantado.

O interessante é que a grande sugestão que a Monsanto está oferecendo é que parte dos plantios seja feito com sementes tradicionais para evitar que as lagartas possam desenvolver resistência às sementes geneticamente modificadas!

Uma consequência dessa situação será o aumento do uso de agrotóxicos, o que vai de encontro à promessa das empresas sementeiras de que as sementes geneticamente modificadas aumentariam a produção e diminuiriam o uso de agrotóxicos. Se isso for propaganda enganosa, eu não sei mais o que seria!

Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0

Pelas abelhas

Campanha internacional criada por brasileiros chama atenção para o desaparecimento de colmeias e seu impacto sobre o ambiente e a segurança alimentar dos humanos.

Pelas abelhas

A maior parte dos cultivos agrícolas depende da polinização feita por abelhas. (foto: Bob Peterson/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

A notícia de que a população mundial de abelhas tem se reduzido pode até ser novidade para alguns, mas não aqui na CH On-line. Esses insetos vêm desaparecendo nos últimos 60 anos e 13 espécies foram extintas do planeta – das cerca de 20 mil existentes. O que parece uma boa notícia para os alérgicos é, no entanto, preocupante para o futuro da humanidade. Por isso, pesquisadores brasileiros lançaram uma campanha global para divulgar o sumiço de abelhas batizada de Bee or not to be? – um trocadilho em inglês com o verbo ‘ser’ (to be) e a palavra ‘abelha’ (bee) baseado na famosa frase de William Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão.”

Ao tentar polinizar vegetais tratados com certos tipos de pesticidas, as abelhas desenvolvem um problema no sistema nervoso que faz com que ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento

Os pesquisadores chamam a atenção para um fenômeno mundial denominado ‘síndrome do desaparecimento das abelhas’, decorrente de um problema no sistema nervoso desses insetos que faz com que eles ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento. Essa alteração está relacionada principalmente ao uso na agricultura de uma classe de pesticidas à base de nicotina, os neonicotinoides. Ao tentar polinizar os vegetais tratados com esses pesticidas, as abelhas se contaminam e desenvolvem o problema.

Em sua página, o projeto pretende alertar a população sobre esse fenômeno e reunir assinaturas em todo o mundo para pressionar autoridades a regulamentar o uso dos pesticidas nocivos para as abelhas. “O uso de pesticidas no Brasil hoje é pouco regulamentado e produz muitos efeitos adversos ao ambiente e às espécies”, aponta o idealizador da campanha, o geneticista Lionel Segui Gonçalves, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) em Mossoró (RN) e diretor do Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte (Cetapis).

Mapeamento colaborativo

Embora as abelhas ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ler mapas e encontrar o caminho de volta para suas colmeias, é exatamente nos mapas que o siteaposta para preservar esses insetos. Na página, é possível baixar o aplicativo Bee Alert, disponível para computadores, tablets e smartphones. O programa, voltado para apicultores, meliponicultores, agricultores e pesquisadores da área, permite aos usuários registrar on-line em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas e assim contribuir para o monitoramento da população desses insetos.

Mapa de ocorrência de abelhas
A página do projeto disponibiliza um aplicativo em que os usuários podem registrar em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas para ajudar no seu monitoramento. (imagem: reprodução)

“O usuário precisa indicar, por exemplo, o nome do apicultor responsável pela colmeia e do proprietário do apiário, além de informações sobre o local, a quantidade de colmeias e a causa das mortes das abelhas”, diz Gonçalves. “Também pedimos, quando possível, dados sobre a perda financeira associada ao desaparecimento, para estimar o impacto econômico da síndrome.”

Segundo o pesquisador, nos Estados Unidos a população de abelhas passou de 5 milhões há sete anos para 2,5 milhões atualmente – uma queda que levou à falência inúmeros apicultores.

O aplicativo já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas

E não são só os apicultores que sofrem com o sumiço das abelhas. Mais de 70% das culturas agrícolas dependem da polinização feita por elas. “Sempre lembro a previsão feita por Albert Einstein quando afirmou que, caso as abelhas viessem a desaparecer, a humanidade desapareceria logo em seguida”, comenta Gonçalves.

O aplicativo, lançado em abril deste ano, já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas – fato bastante preocupante, segundo os coordenadores da campanha. “Desejamos entregar, além das assinaturas por uma regulamentação, dados documentados do impacto dos pesticidas nas colônias das abelhas”, diz o pesquisador. “Assim, o material servirá de apoio para a fiscalização dos pesticidas nas áreas apontadas.”

Além dos dados e assinaturas que estão sendo recolhidos, a página do projeto conta com dicas de medidas que podem ser tomadas pela população para reverter essa situação, como o consumo de alimentos orgânicos (sem pesticidas) e o cultivo de espécies de abelhas sem ferrão em casa.

Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/07/pelas-abelhas

Estudo mostra que 60% dos pães vendidos no Reino Unidos estão contaminados com agrotóxicos

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Um estudo liberado no Reino Unido por um comitê responsável por avaliar a presença de agrotóxicos em alimentos determinou que em 63% das amostras de pães havia a presença de resíduos de pelo menos um agrotóxico, e em 25% a presença de dois destes produtos (Aqui!).  Os produtos mais encontrados nas amostras analisados foram o glifosato (o herbicida mais usado em todo o mundo) e o chlormequat (um regulador de crescimento).

Essa nova descoberta foi minimizada por membros do comitê que indicaram que problemas de saúde não são esperados nas concentrações detectadas.  No entanto,  a Rede de Ação sobre Pesticidas do Reino Unido, que também participou da preparação do relatório aponta que o fato de que os agrotóxicos estão sendo aplicados no nível correto nas culturas agrícolas não tem nada a ver com a condição de saúde dos consumidores, pois a exposição a baixas doses e a contínua exposição a um verdadeiro coquetel de agrotóxicos via alimentos ainda não foram devidamente investigadas pela comunidade científica.

É importante notar que o Brasil hoje ocupa o primeiro lugar no consumo de agrotóxicos no mundo, e não há um programa do mesmo porte do existente no Reino Unido para se ter uma ideia de como anda a contaminação dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. 

Enquanto isso, a banca ruralista comandada pelo dublê de senadora e latifundiária pressiona o governo federal a adotar regras ainda mais frouxas para o uso de agrotóxicos no Brasil!

Pesquisadores demonstram que uso de agrotóxicos neonicotinóides está diminuindo populações de pássaros na Holanda

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Pesquisadores holandeses acabam de publicar um artigo científico na conceituada revista científica “Nature” demonstrando a ligação entre o uso de agrotóxicos neonicotinóides e a diminuição do tamanho de populações de pássaros insetívoros (Aqui!). O agrotóxico em questão é o imidacloprid, um produto considerado altamente tóxico para os seres humanos.

Um dado que explica o efeito letal que o imidacloprid está tendo em populações animais, e não apenas de pássaros como é o presente caso, é que 95% do que é aplicado acaba extrapolando as culturas que teoricamente estão sendo protegidas do ataque de insetos, causando não apenas a morte de insetos-alvo, mas de uma quantidade de espécie mais ampla, incluindo aquelas das quais os pássaros se alimentam. Outro efeito adicional é a contaminação das fontes de água, fato que acaba agravando os efeitos diretos e indiretos sobre os pássaros.

O imidacloprid no Brasil é fabricado por diversas empresas, incluindo a SERVATIS, aquela empresa que em 2008 causou um enorme desastre ecológico no Rio Paraíba do Sul quando deixou escapar outro agrotóxico, o Endosulfan, no município de Resende.

Além disso, o imidacloprid é usado em diversas culturas agrícolas tais como arroz, cana de açúcar, milho e soja, o que aumenta bastante a sua capacidade de causar por aqui os mesmos problemas ecológicos que acabam de ser comprovados na Holanda.