Com 912 liberações em 2025, país amplia uso de substâncias — muitas proibidas na Europa — e aprofunda riscos à saúde, ao ambiente e à sustentabilidade agrícola
Em 2025, o Brasil atingiu um marco que deveria causar mais preocupação do que celebração: foram aprovados 912 registros de agrotóxicos, o maior número da série histórica. Desse total, apenas 162 correspondem a produtos biológicos — uma fração ainda tímida diante do volume esmagador de substâncias químicas liberadas. Os dados, organizados pela consultoria AllierBrasil com base em publicações oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária no Diário Oficial da União, revelam mais do que uma tendência: apontam para a consolidação de um modelo agrícola profundamente dependente de insumos potencialmente nocivos.
Para pesquisadores e especialistas na área, a lista não é apenas um levantamento técnico. O fasto é que entre os produtos liberados estão substâncias que já foram banidas na União Europeia em razão de sua elevada toxicidade, tanto para o ambiente quanto para a saúde humana. Ou seja, o Brasil segue abrindo suas portas para compostos que outros países consideraram perigosos demais para uso em seus próprios territórios, apesar de fabricá-los.
Essa escolha tem implicações diretas e profundas. No plano ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos está associado à contaminação de solos e recursos hídricos, à perda de biodiversidade e ao desequilíbrio de ecossistemas inteiros. Polinizadores essenciais, como abelhas, são particularmente vulneráveis a essas substâncias, o que compromete não apenas a produção agrícola, mas a própria resiliência dos sistemas naturais que a sustentam.
No campo da saúde pública, os impactos são igualmente preocupantes. A exposição contínua a determinados agrotóxicos tem sido relacionada a uma série de doenças crônicas, incluindo distúrbios hormonais, problemas neurológicos e diferentes tipos de câncer. Trabalhadores rurais e populações que vivem próximas a áreas de pulverização são os mais afetados, mas os riscos não se limitam a eles: resíduos químicos nos alimentos fazem com que toda a população esteja, em maior ou menor grau, exposta.
Do ponto de vista da sustentabilidade, o cenário é ainda mais contraditório. A dependência crescente de insumos químicos tende a criar um ciclo vicioso: organismos considerados como pragas agrícolas desenvolvem resistência, exigindo doses maiores ou novos produtos, o que aumenta custos, impactos ambientais e riscos à saúde. Ao mesmo tempo, alternativas mais sustentáveis — como a agroecologia e o uso de bioinsumos — seguem ocupando um espaço marginal, apesar de seu potencial comprovado.
É nesse contexto que o recorde de liberações em 2025 lança uma sombra sobre o discurso oficial. Promessas de incentivo à agroecologia e de redução do uso de agrotóxicos perdem força diante de números que apontam na direção oposta. A política agrícola parece, na prática, reforçar um modelo que privilegia ganhos imediatos de produtividade, mesmo à custa de impactos altamente desastrosos em longo prazo.
Mais do que uma questão técnica ou econômica, o avanço dos agrotóxicos no Brasil é um debate sobre escolhas. Escolhas que dizem respeito ao tipo de agricultura que o país deseja promover, ao nível de proteção ambiental que está disposto a garantir e, sobretudo, à qualidade de vida das gerações presentes e futuras. O recorde de 202 5será lembrado como um ponto de inflexão — ou como mais um passo em uma trajetória que insiste em ignorar seus próprios erros e custos.
Quem desejar baixar o arquivo com a lista completa dos 912 agrotóxicos liberados pelo governo Lula em 2025, basta clicar [Aqui!].
