Rio Paraná está com água de baixa qualidade, mostra estudo

Antes mesmo de lançamento de efluentes, mais da metade das amostras de água do rio Paraná não tinham boa qualidade

Ponte da Integração Brasil- Paraguai, no Rio Paraná

Ponte da Integração Brasil- Paraguai, no Rio Paraná.  Foto: TV Brasil/Agência Brasil

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A região hidrográfica do rio Paraná, que abrange os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal, é a mais populosa e de maior desenvolvimento econômico do país. A partir de 2020, a nascente de seu principal rio, o Paraná, passou a ser receptora dos efluentes secundários da estação de tratamento de esgoto (ETE) localizada em Aparecida do Taboado (MS). Em artigo publicado na sexta (10) na “Revista Engenharia Sanitária e Ambiental”, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Brasil alertam que o lançamento desses efluentes pode causar deterioração da qualidade da água – que já era comprometida – afetando as atividades de piscicultura, turismo e recreação da região.

O trabalho mostra que o rio Paraná, antes do lançamento dos efluentes, tinha mais da metade de suas amostras analisadas (57% – 61%) comprometidas, não atendendo à Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) n° 357/05 para demanda bioquímica de oxigênio e fósforo total, respectivamente. O potencial de impactos negativos está relacionado a esses dois fatores e à presença da bactéria Escherichia coli, indicando que o lançamento pode resultar na deterioração da qualidade da água do rio e comprometer seus múltiplos usos. Já a análise realizada no córrego Rondinha, quando ainda era o receptor dos efluentes da estação de tratamento de esgoto de Aparecida do Taboado, apontou a qualidade da água entre ruim e péssima.

A qualidade da água nestes pontos amostrais foi avaliada por meio do índice da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (IQACETESB), que utiliza parâmetros físicos, químicos e biológicos, como temperatura, turbidez, pH, demanda bioquímica de oxigênio, fósforo total e coliformes fecais (Escherichia coli). A escala do índice compreende as gradações ótima (80 – 100), boa (52 – 79), regular (37 – 51), ruim (20 – 36) e péssima (0 – 19). A qualidade geral do rio Paraná foi avaliada como boa (IQACETESB ≥ 72).

Por que a coleta das amostras precedeu o lançamento de efluentes?

Os autores explicam que a análise foi feita antes do lançamento dos efluentes para poder fornecer uma base documental e subsídios para discussões sobre os possíveis impactos ambientais e sociais da ampliação da estação de tratamento de esgoto, operada pela Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul). Os monitoramentos foram realizados em quatro pontos específicos, no período de agosto de 2019 a fevereiro de 2020. Em junho de 2019, também foi feita uma coleta de amostras em três locais do córrego Rondinha, onde eram lançados os efluentes anteriormente.

Para João Miguel Merces Bega, um dos autores do artigo e doutorando do Programa de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, diante desse quadro é necessário monitorar constantemente a qualidade da água. Isso deve ser feito, principalmente, na área a jusante do ponto de lançamento, onde há empreendimentos turísticos, como um balneário e ranchos utilizados para moradia, locação e lazer.

A princípio, segundo ele, o estudo não terá continuidade. “No entanto, pesquisadores e gestores ambientais podem consultar o artigo e usar os nossos resultados em seus trabalhos. Seria interessante avaliar a qualidade da água do rio Paraná, nos mesmos pontos amostrais do nosso trabalho, para verificar as alterações provocadas pelo lançamento dos esgotos tratados”, sugere.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Privatização da água: ameaça ou solução?

Para docente da Unifesp, distribuição da água pelo mundo ocorre de maneira irregular, mas a solução não passa pela privatização do recurso

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Nova commodity: a bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água) em 2020, colocando o insumo no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral (Foto: 13727445/Pixabay)

O assunto divide opiniões: a água pode ser tratada como uma mercadoria negociável na bolsa de valores, ou deve continuar na posição de recurso natural e bem público? A privatização da água sempre retorna ao debate público em épocas de escassez hídrica, pois sua oferta está diretamente associada à desigualdade social e à falta de manejo adequado. Mas a tendência começa a se desenhar no Brasil neste início de século.

Os defensores do controle dos sistemas de distribuição por entidades privadas baseiam-se no risco de escassez, a longo prazo, argumentando má administração estatal. Os contrários, por sua vez, afirmam que as empresas privadas estão preocupadas apenas com o lucro e ignoram os custos ambientais e sociais das práticas privadas envoltas no fornecimento de água.

A privatização da água se refere ao controle ou manutenção dos sistemas de distribuição por entidades privadas. Por exemplo, quando uma empresa trabalha em parceria com um município para construir e manter uma estação de tratamento de água ou instalação de esgoto. E essa prática, no Brasil, não é tão recente.

De acordo com o historiador Fábio Alexandre dos Santos, docente da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – campus Osasco, a comercialização da água no Brasil remonta ao século XIX, quando a água era vendida em domicílio nas principais cidades e capitais, com os aguadeiros. “Os serviços de distribuição começaram a ser estruturados, aqui e em outros países, acompanhando o aumento da população e das atividades urbanas e, paralelamente, das epidemias, especialmente nas grandes cidades”, explica.

O estado passa então a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano após 1940, atento ao absenteísmo nas empresas associado à disseminação de doenças.

A despeito de algumas ações públicas voltadas à implementação dos serviços de distribuição de água e de esgotamento sanitário nas principais capitais do Brasil, em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi somente a partir da década de 1930 que o Estado passa a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano, com a institucionalização de órgãos de planejamento e execução, a promulgação de regulamentação, a definição de fontes de financiamento.

Os serviços de saneamento, como conhecemos hoje, passaram a englobar a fundação de empresas e mecanismos de financiamento para o abastecimento de água, a exemplo da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), fundada em 1973.

Contudo, o crescimento populacional desordenado acirrou outro problema: a falta de planejamento sanitário. Com isso, mesmo em áreas de classe média urbana, o foco se concentrou no fornecimento de água e não na coleta e no tratamento de esgoto, caso do Plano Nacional de Saneamento (Planasa), de 1971. “Em número absolutos, em 2018 eram 35 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e cerca de 100 milhões sem acesso à rede de coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento [SNIS]. Estes números, por si só, já demonstram o efeito multiplicador da problemática, com encadeamentos para a reprodução de outras formas de desigualdade, sejam elas regionais, de gênero ou de trabalho”, aponta o docente.

Santos percebe que o caráter da água, enquanto mercadoria, vem se modificando ao longo do tempo, assumindo o status de commodity, principalmente em função do discurso que coloca o Estado como ineficiente nessa administração. Não obstante, em 2020, o insumo foi ineditamente negociado pela Nasdaq pela primeira vez na história. Esta bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água), colocando-a no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral.

Para o docente, o maior risco desse novo patamar do insumo é o seu fornecimento não ser assegurado a todos. Nesse contexto, se sobressai a natureza intrínseca à iniciativa privada, que pode se abster de levar água encanada para regiões interioranas e periféricas, um compromisso normalmente assumido por agentes públicos – e passível de cobrança pela população.

Ameaça ainda mais esse cenário a ausência de mecanismos mais claros para regulação da comercialização da água. “Há uma série de caminhos ditos legais pelos quais os agentes privados conseguem acesso aos aportes públicos, principalmente as parcerias público-privadas (PPPs), sendo beneficiados com o compartilhamento dos riscos dos empreendimentos e das concessões”. Por esse motivo, Santos lembra da ocorrência de 2011, quando moradores da periferia de São Paulo fizeram um funcionário da Sabesp de refém, para advertir que essas relações conflituosas podem se acirrar.

O docente opta por uma linha de pensamento que defende a estatização (ou reestatização) de recursos dessa natureza. “É uma tendência global. Assim como tem ocorrido na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, o estado deveria assumir o papel de planejador, executor e financiador do fornecimento de água. É um serviço que envolve direitos fundamentais, que pode aceitar parcerias da iniciativa privada, mas deve ser coordenado pelo Estado, para que não tome a forma de mercadoria”, defende.

Denúncia! BrasilAgro vai desmatar mais de 10 mil hectares de cerrado no norte de Minas Gerais

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Por Chain Reaction Research

A BrasilAgro, empresa imobiliária rural brasileira e produtora de soja, tem planos de converter pelo menos 10.000 hectares (ha) de vegetação nativa do Cerrado para pecuária e produção de grãos, que incluem a perfuração de vários poços de grande capacidade.  A Chain Reaction Research já havia sinalizado anteriormente as operações de compensação da empresa no Brasil e seus riscos comerciais associados.

A BrasilAgro tem se concentrado na aquisição de “terras subutilizadas e improdutivas”. A empresa, que produz soja, cana-de-açúcar, milho e pecuária, gera receita com a limpeza e desenvolvimento de terras e, posteriormente, com a venda dessas propriedades rurais. A BrasilAgro possui 10 propriedades em seu portfólio, e a maioria de suas fazendas está localizada no Cerrado brasileiro, uma savana arborizada e uma área ambientalmente sensível que apresenta altos índices de desmatamento desde 2000 . A maior parte de sua expansão da soja ocorreu em meio ao desmatamento da vegetação nativa no bioma Cerrado, que é rico em biodiversidade com 12.070 espécies de plantas nativas . Além disso, muitas comunidades tradicionais residem no bioma, que é uma importante fonte de água para  todas as regiões do Brasil. As atividades da BrasilAgro no Cerrado expõem a empresa a riscos de negócios relacionados ao desmatamento.

Os 10.000 ha em risco estão na Fazenda Novo Buriti , localizada no município de Bonito de Minas, no norte de Minas Gerais. A área total da fazenda é de 24.212 ha. A empresa planeja remover aproximadamente 10.000 ha e deixar 14.000 ha como reserva, que é mais do que a área legalmente exigida, segundo a empresa.

Figura 1: Grandes áreas não desenvolvidas na Fazenda Novo Buriti (fevereiro de 2022)

Fonte: Aidenvironment, baseado em imagens © 2022 Planet Labs Inc.

Os planos de desocupação geraram divergências entre o Conselho Estadual de Políticas Ambientais, a Superintendência Regional do Meio Ambiente, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais de um lado e a empresa BrasilAgro de outro. Um advogado representante com assento no Conselho questionou o estudo de impacto e o relatório de impacto ambiental apresentados pela BrasilAgro, pedindo mais informações antes de abrir uma votação para aprovar ou vetar o desmatamento.

O desmatamento planejado gerou preocupações sobre a perda de biodiversidade, principalmente de espécies como onças e cachorros-do-mato que os biólogos identificaram anteriormente e não são mencionados no relatório ambiental. Há também preocupações sobre o acesso à água para as comunidades locais.

A BrasilAgro pode correr o risco de perder o acesso aos clientes e ver uma supervalorização de seu portfólio de terras devido aos impactos de sustentabilidade ligados ao desmatamento planejado à medida que o mercado de soja caminha para o desmatamento zero. Em outubro de 2017, um grupo de empresas consumidoras declarou seu apoio ao Manifesto do Cerrado , e a soja de terras recentemente desmatadas poderá em breve ser barrada das cadeias de fornecimento dessas empresas. Além disso, fazendas recentemente desmatadas podem ver menos interesse do comprador, especialmente à luz da próxima regulamentação da UE que proíbe as importações da UE de commodities vinculadas ao desmatamento de florestas após a data limite de dezembro de 2020.

As empresas que compram produtos agrícolas da BrasilAgro enfrentam riscos financeiros e de reputação. Os principais clientes da BrasilAgro para soja e milho incluem ADM do Brasil, Bunge, Louis Dreyfus, Amaggi e Cargill. Além disso, os financistas europeus podem enfrentar risco de reputação. Na publicação financeira da empresa para o trimestre encerrado em dezembro de 2021, Rabobank, Cargill e Santander estavam em uma lista de bancos/afiliados/empresas principalmente brasileiras que prestam serviços financeiros à BrasilAgro. Uma atualização sobre todos os financiadores, investidores e bancos pode ser fornecida pelo CRR mediante solicitação.


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

No “Dia Mundial da Água”, o que afinal nos servem na torneira como sendo água pura?

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Em meio a uma pandemia mortal, efeitos das mudanças climáticas e conflitos militares, hoje se celebra o “Dia Mundial da Água”. Entretanto, no caso específico dos que se beneficiam de rios, como o Paraíba do Sul, que pertencem ao bioma da Mata Atlântica, as notícias não são nada boas. É que a Fundação SOS Mata Atlântica acaba de divulgar um estudo que mostra que apenas 7% dos rios pertencentes a este bioma apresentam água com boa qualidade.

Enquanto isso, aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, continuamos com a questão de qual seria efetivamente a água que nos é servida pela concessionária “Águas do Paraíba” com sendo de “excelente qualidade”.  É que como já divulguei aqui, o chamado “Mapa da Água“, se considerarmos apenas a contaminação por agrotóxicos, a qualidade da água que chega na torneira dos campistas não tem nada de “excelente”.

Como não antecipo que haja um movimento genuíno por parte da “Águas do Paraíba” para oferecer um retrato fiel da condição da água que chega em nossas torneiras, penso que a audiência pública que será realizada no dia 31 de março na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes será uma primeira oportunidade para que o poder público, a sociedade civil organizada e a população possa inquirir os representantes da “Águas do Paraíba” para aperfeiçoar o sistema de tratamento de modo a também remover toda uma classe de poluentes emergentes, incluindo os agrotóxicos mas não se resumindo a eles.

Até que respostas categóricas sejam dadas, fica a pergunta: afinal, o que nos servem na água que chega em nossas torneiras?

Mapa da Água: descubra o que tem na água de Campos dos Goytacazes, mas fique avisado que algumas revelações são assustadoras

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Detecções  acima do limite de segurança na água de Campos dos Goytacazes entre 2018 e 2020:

Substância(s) com o(s) maior(es) risco(s) de gerar doenças crônicas, como câncer:

O arsênio e seus compostos são classificados como cancerígenos para humanos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde. A exposição prolongada ao arsênio por ingestão de água está relacionada com aumento do risco para câncer de pele, pulmão, bexiga e rins, bem como outros problemas na pele e tecidos. O ácido arsênico e o trióxido de arsênio, dois compostos inorgânicos desse elemento, são usados como descolorante, clareador e dispersante de bolhas de ar na produção de garrafas de vidro e outras vidrarias.

Substância(s) que também gera(m) riscos à saúde:

Os trihalometanos são um grupo de compostos químicos e orgânicos que derivam do metano. Ele inclui substâncias como o clorofórmio, classificado como possivelmente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). A exposição oral prolongada a esta substância pode produzir efeitos no fígado, rins e sangue. Os trihalometanos são utilizados como solvente em vários produtos (vernizes, ceras, gorduras, óleos, graxas), agente de limpeza a seco, anestésico, em extintores de incêndio, intermediário na fabricação de corantes, agrotóxicos e como fumigante para grãos. Alguns países proíbem o uso de clorofórmio como anestésico, medicamentos e cosméticos.

O trióxido de antimônio é classificado como possivelmente cancerígeno para o ser humano pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde. Os sais solúveis de antimônio, após serem ingeridos, exercem forte efeito irritante na mucosa gástrica e provocam vômito, além de cólica, diarreia e toxicidade cardíaca. Os compostos de antimônio são usados na indústria têxtil, e fabricação de plástico, adesivo, tinta, papel e borracha. Também são usados em explosivos e pigmentos. O antimônio forma ligas com outros metais, que são utilizadas em chapas de solda, tubulações, rolamentos, armas. O sulfeto de antimônio é usado em fósforos. Outros compostos são usados para induzir o vômito em casos de intoxicação, para tratamento de leishmaniose e em produtos veterinários

A exposição prolongada ao bário gera efeitos adversos nos rins, segundo o ministério da saúde do Canadá. O bário e seus compostos são utilizados na fabricação de diversos produtos industriais, como plásticos, vidros, cerâmicas, eletrônicos, têxteis, lubrificantes, ligas metálicas, sabão e borracha. O sulfato de bário é usado como contraste em radiografias.

Todas as substâncias químicas e radioativas listadas nesta página oferecem risco à saúde se estiverem acima da concentração máxima permitida pelo Ministério da Saúde. Elas foram detectadas ao menos uma vez na água que abastece este município entre 2018 e 2020.

Quando essas substâncias estão acima do limite, a água é considerada imprópria para o consumo. Nesses casos, as instituições de abastecimento deveriam informar a população sobre o problema, assim como sobre as medidas tomadas para resolvê-lo. Leia mais nas reportagens do especial Mapa da Água.

Para facilitar o entendimento sobre os riscos dos casos de contaminação, a Repórter Brasil criou uma divisão entre as substâncias, separando-as em dois grupos de periculosidade:

As substâncias com os maiores riscos de gerar doenças crônicas, como câncer” são as que têm maior evidência de risco à saúde. Elas são listadas como “reconhecidamente” ou “provavelmente” cancerígenas, disruptoras endócrinas (que desencadeiam problemas hormonais) ou causadoras de mutação genética. Essas classificações de risco são da Organização Mundial da Saúde ou das agências regulatórias da União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Austrália (links na descrição de cada substância).

Já o segundo grupo substâncias que geram riscos à saúde” reúne todas as outras que também oferecem risco, segundo a literatura internacional e o Ministério da Saúde. Entre elas estão as “possivelmente” cancerígenas”, além das que podem causar doenças renais, cardíacas, respiratórias e alteração no sistema nervoso central e periférico.

Os critérios para fixar os limites de segurança para cada substância na água são do Ministério da Saúde, assim como a lista de substâncias que devem ser testadas na água de 2 a 4 vezes por ano.

Navegue pelo Mapa da Água.

Os riscos são maiores para quem bebe a água imprópria de forma contínua, ou seja, diversas vezes ao longo de meses ou anos. Casos em que a mesma substância aparece acima do limite nos três anos analisados (2018, 2019 e 2020) foram destacados com o alerta máximo no topo da página.

Os testes são feitos pelas empresas ou órgãos de abastecimento e enviados ao Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), banco de dados do Ministério da Saúde que reúne informações de todo o país.

Confira, abaixo, as substâncias detectadas dentro do limite de segurança nesta cidade:

Detecções DENTRO DO LIMITE DE SEGURANÇA na água de Campos dos Goytacazes (RJ) entre 2018 e 2020:

Substância(s) com o(s) maior(es) risco(s) de gerar doenças crônicas, como câncer:

 

Substância(s) que também gera(m) riscos à saúde:


CONHECER SEUS RISCOS


FONTE:
Resultados dos testes: Sisagua/Ministério da Saúde (2018-2020). Dados baixados em novembro de 2021, não contempla atualizações e retificações feitas desde então. Base do Sisagua atualizada.

Divisão das substâncias em grupos: Organização Mundial da Saúde (International Agency for Research on Cancer), União Europeia, agência ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency) e agências de regulação do Canadá e da Austrália.

Este texto foi inicialmente publicado pelo “Mapa da Água” [Aqui!].

Brasileiros pagam caro para receberem água contaminada em suas torneiras. Tratamento inadequado é a principal fonte de contaminação

Exclusivo: água da torneira tem produtos químicos e radioativos em 763 cidades brasileiras. Em SP e SC água esteve imprópria entre 2018 e 2020; 1 em cada 4 cidades que fizeram testes encontraram substâncias acima do limite.

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Por Ana Aranha, Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Todos nós bebemos pequenas doses diárias de substâncias químicas e radioativas. São agrotóxicos e outros resíduos da indústria que se misturam aos rios e represas. Alguns especialistas defendem que não há risco se elas estiverem dentro do limite regulamentado. Outros argumentam que as doses aceitas no Brasil são permissivas, pois são bem mais altas que as da União Europeia.

Sobre um ponto não há dúvida: essas substâncias são prejudiciais à saúde quando estão acima do limite brasileiro. O consumo diário aumenta o risco de câncer, mutações genéticas, problemas hormonais, nos rins, fígado e no sistema nervoso – a depender do produto.

Dados inéditos levantados pela Repórter Brasil mostram que são esses os riscos oferecidos pela água que saiu da torneira de 763 cidades entre 2018 e 2020. Substâncias químicas e radioativas foram encontradas acima do limite em 1 de cada 4 municípios que fizeram os testes. Entre eles está São Paulo (13 testes acima do limite), Florianópolis (26) e Guarulhos (11).

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Repórter Brasil

  As informações podem ser consultadas por cidade no Mapa da Água, que destaca quais substâncias extrapolaram o limite e explica seus riscos. Os dados são resultados de testes  feitos por empresas ou órgãos de abastecimento e enviados ao Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), do Ministério da Saúde. Os testes são feitos após o tratamento e a maioria dessas substâncias não pode ser removida por filtros ou fervendo a água.

“Se há substância acima do valor máximo permitido, podemos dizer que a água está contaminada”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Uma outra forma de dizer é que essa água não está própria para consumo, como quando um alimento passa da data de validade”. Contaminada ou imprópria, Kummrow confirma que existe risco para quem bebe a água, e ele varia de acordo com a substância e com o número de vezes que ela foi consumida ao longo do tempo.

O risco é maior para quem bebeu diversas vezes ao longo de anos. É o caso de quem mora em São Paulo, Florianópolis, Guarulhos e outras 79 cidades onde a mesma substância foi encontrada acima do limite nos três anos analisados (2018, 2019 e 2020). 

Com impacto silencioso, esses produtos têm dinâmica diferente das contaminações por bactérias, que provocam dor de barriga, diarreia e até surtos de cólera. Os sintomas das substâncias químicas e radioativas podem levar anos, mas, quando aparecem, são na forma de doenças graves. Estudos que associam esses produtos ao câncer, mutações genéticas e diversos outros problemas de saúde são carimbados pelos mais respeitados órgãos de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as agências regulatórias da União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. 

O Mapa destaca o risco para a saúde e as atividades econômicas em que cada substância é utilizada. O nitrato, por exemplo, terceira que mais vezes excedeu o limite, é usado na fabricação de fertilizantes, conservantes de alimentos, explosivos e medicamentos. Ele é classificado como “provavelmente cancerígeno” pela OMS.

água 2Substâncias químicas e radioativas são imperceptíveis e não podem ser removidas por filtros comuns ou fervendo a água

Empresas escondem os dados

Os testes são financiados com dinheiro público e de quem paga a conta d’água, mas os resultados estão trancados a sete chaves. As companhias de abastecimento deveriam informar à população sempre que uma substância aparece acima do limite, como determina a portaria sobre a potabilidade da água. Mas isso não acontece.

A Sabesp, responsável pela distribuição de água em mais de 370 municípios paulistas, incluindo a capital, divulga apenas o que chama de “parâmetros básicos”, como cor, turbidez e coliformes fecais. Nem mesmo pesquisando no site é possível acessar as substâncias químicas acima do limite.

O mesmo problema foi encontrado com Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) e Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).

Nos Estados Unidos e União Europeia, qualquer um pode consultar testes de todas as substâncias presentes na água. E, em muitos desses países, as empresas monitoram um número maior de substâncias e alertam os consumidores em caso de problemas.

“Se contaminantes microbiológicos são encontrados, por exemplo, uma determinação para ferver a água é enviada aos consumidores por e-mail, SMS, rádio etc”, afirma Dorte Skræm, da Danva, organização que representa serviços de água na Dinamarca. Segundo ele, a transparência é total. “Houve um caso [de contaminação] há alguns anos que envolveu 500 mil habitantes, a mídia cobriu e foi usada para informar os consumidores”. 

Avisos assim deveriam ter ocorrido nos 763 municípios que identificaram testes acima do limite. 

“O quadro revelado por esses dados é grave”, afirma Leo Heller, pesquisador da Fiocruz e Relator Especial do Direito Humano à Água da ONU entre 2014 e 2020. “Eles mostram omissões e falhas dos órgãos e serviços que fazem parte de uma importante cadeia de responsabilidades”.

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Estação da Sabesp, empresa nega que resultados acima do limite sejam um problema para a água da capital paulista, mas não divulga esses dados aos consumidores

Contaminação contínua em São Paulo

Quase todos os estados que testaram a água acharam problemas. São Paulo foi o que mais encontrou, com 1.298 resultados acima do limite, mas também foi o que mais testou. Foram 831 mil testes, 45% de todos os realizados no país. 

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A capital paulista traz um retrato preocupante: três substâncias acima do limite, uma delas nos 3 anos analisados. A contaminação contínua, cenário de maior risco, ocorreu em 82 cidades do Brasil.

As substâncias acima do limite estavam em três sistemas importantes que abastecem a cidade. No Guarapiranga, por exemplo, que chega a 4,8 milhões de paulistanos, os trihalometanos excederam o limite diversas vezes ao longo dos três anos.

Os trihalometanos foram o grupo com mais testes fora do padrão em todo o Brasil. Classificado como possivelmente cancerígeno pela OMS, podem causar problemas nos rins e fígado. Esses elementos são usados em agrotóxicos, solventes, anestésicos e extintores de incêndio. Sua principal origem na água, porém, vem do processo de tratamento.

Tratamento que contamina

Ironicamente, as maiores responsáveis pelos problemas com a água no Brasil são substâncias geradas pelo próprio tratamento. Quando o cloro interage com elementos como algas, esgoto ou agrotóxicos, nascem os chamados “subprodutos da desinfecção”.

Eles estão acima do limite em 493 cidades, 21% das que testaram. “Evidente que é importante tratar a água para remover microrganismos, mas não é aceitável eliminar riscos biológicos e gerar riscos químicos”, afirma Heller, da Fiocruz. Além dos órgãos públicos que deveriam fazer o monitoramento, cabe também à indústria e ao agronegócio controlar o despejo de substâncias tóxicas no ambiente. “Mas quem está no centro [empresas e órgãos de abastecimento] é quem deveria garantir a qualidade”.

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Alguém fiscaliza?

A falta de transparência é tamanha que nem sempre os fiscais têm acesso aos dados. Em quase metade dos municípios (48%) as companhias de abastecimento não informaram resultados ao Sisagua. Isso é grave, já que é pelo Sisagua que as secretarias municipais ou estaduais de saúde monitoram a água.

Há problemas até nas cidades que mais testam, como São Paulo. A Sabesp alega que os resultados acima do limite são casos pontuais e que eles não indicam problemas no padrão da água. A empresa informa que faz sua avaliação por uma média móvel, mas não divulga esses dados. Questionada, a Sabesp se negou a enviar os resultados ou os critérios de cálculo da média. Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde admite que também não teve acesso a esses dados (leia respostas na íntegra).

A Prefeitura de Guarulhos negou que existam substâncias acima do permitido, mesmo diante dos dados do Sisagua (leia resposta). Já Florianópolis afirmou estar trabalhando para resolver o problema (leia resposta).

Em alguns casos, fica evidente que a fiscalização não existe. Em Unaí (MG) o mais grave alerta deveria ter soado. Além de ser a cidade que mais teve testes acima do limite (72), havia uma substância radioativa fora do padrão nos três anos: o rádio-228, classificado como cancerígeno e usado em radiografias e outros instrumentos de radiação.

Procurada, a prefeitura admitiu que não havia notado o problema e, depois, afirmou tratar-se de erro de digitação.

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Represa Guarapiranga teve substâncias tóxicas acima do limite geradas pelo processo de tratamento da água nos três anos analisados. Sabesp

Radioatividade e agrotóxicos

As substâncias radioativas aparecem acima do limite em 22 municípios brasileiros, a maioria em Minas Gerais. Elas podem estar na água devido a resíduos da indústria, mas também de forma natural, devido à presença do urânio e outros minérios. Deveria haver uma preocupação dobrada nesses casos, pois elas intoxicam por ingestão e inalação, afirma Viviane Amaral, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No entanto, elas são as menos testadas, apenas 2% do total de testes feitos entre 2018 e 2020.

Nos casos em que é preciso tirá-las da água, Amaral argumenta que a solução mais viável é mudar a fonte de abastecimento, devido ao alto custo do tratamento. É o mesmo caso de diversos agrotóxicos, já que não há tratamento acessível para todos. 

Há 50 cidades com pesticidas acima do limite. Esses casos também deveriam acender o alerta máximo devido a sua periculosidade: 19 dos pesticidas monitorados na água do Brasil são tão perigosos à saúde que foram proibidos na União Européia. Cinco são “substâncias eternas”, tão resistentes que nunca se degradam. 

Apesar do problema, especialistas pedem cuidado para evitar pânico. “Pegar água no poço do vizinho ou comprar água que você não sabe a procedência pode ser pior”, afirma Paulo Barrocas, pesquisador da Fiocruz. A água de garrafa traz ainda o problema do plástico, que também pode liberar substâncias perigosas.

O ideal é evitar a contaminação dos cursos d’água. “No caso dos agrotóxicos, por exemplo, precisamos de rigor na liberação de novos produtos, assim como discutir a proibição da pulverização aérea [por avião]”, afirma Fábio Kummrow, da Unifesp Agrotóxicos já foram encontrados em poços profundos, lençóis freáticos e até mesmo na água da chuva.

Neste ponto, especialistas falam em coro: não há como se blindar do problema da água no Brasil, ele já afeta ou vai afetar a todos, a única solução passa por políticas públicas.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Novo evento no âmbito do ciclo “Questão agrária e água no Brasil: 2011-2018”

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Divulgando o debate programado  para hoje, dia 29/12, às 19h, intitulado *Questão agrária e água no Brasil: 2011-2018*. Este é o sexto de um total de seis textos da Série Brasil Rural, uma iniciativa entre a ABRA e a Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil que reúne uma série de artigos que analisam alguns dos principais desafios e contradições da questão agrária no Brasil.

LIVE 💻 | “Questão agrária e água no Brasil: 2011-2018”

📚 A ABRA e a FES-Brasil convidam você para o a discussão do material num debate virtual com convidados muito especiais:

📌 Osvaldo Aly Jr. – Diretor da ABRA, Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial da UNIARA-SP e autor do estudo;
📌 Gabriel Teixeira – Diretor da ABRA, Professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro e autor do estudo;
📌 Pedro Jacobi – Professor do PROCAM-USP e Presidente do Conselho do ICLEI- Governos Locais para a Sustentabilidade – América do SUL.
📌 Ruben Alfredo de Siqueira – Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT
 

A idade da extinção. ‘Os agricultores estão cavando suas próprias sepulturas’: o verdadeiro custo do cultivo de alimentos no árido sul da Espanha

A sede insaciável de água da agricultura intensiva está transformando áreas úmidas em terrenos baldios, drenando rios e poluindo as águas subterrâneas

Por Stephen Burgen em Tablas de Daimiel para o “The Guardian”

Um pântano sem água é uma visão melancólica. Os peixes estão mortos, os pássaros voaram e um silêncio sem vida paira sobre o lugar. “Tudo o que você vê ao seu redor deveria estar debaixo d’água”, disse Rafa Gosálvez, da Ecologistas em Ação, do mirante do parque nacional Las Tablas de Daimiel . O parque está seco há três anos e onde antes havia espécies aquáticas como patos, garças, garças e lagostins de água doce, bem como pererecas e a doninha-comum, agora a vida selvagem praticamente desapareceu.

Las Tablas de Daimiel é um pântano único nas vastas planícies quase sem árvores de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha . Mas o parque teve sua vida sugada para saciar a sede insaciável da agricultura intensiva.

Sessenta e sete por cento da água usada na Espanha vai para a agricultura, de acordo com a OCDE, mas sobe para 85-90% no sudeste, diz Julia Martínez-Fernández, diretora técnica da Fundação Nova Cultura da Água, que promove o uso sustentável da água.

Guindastes comuns sobrevoam Las Tablas de Daimiel.

Garças comuns sobrevoam Las Tablas de Daimiel. Fotografia: Beldad / EPA-EFE

O ecossistema de Las Tablas depende da água das chuvas, do rio Guadiana e de um enorme aquífero, mas a crise climática fez com que os períodos de seca em Espanha se tornassem mais longos. O Guadiana está a secar, enquanto a agricultura esgotou o aquífero e poluiu as águas subterrâneas com fosfatos e outros fertilizantes químicos. Em 2009, o pantanal estava tão seco que eclodiram incêndios subterrâneos de turfa .

Os 3.000 hectares (7.400 acres) de Las Tablas são tudo o que resta do que, de acordo com o World Wildlife Fund,  foi um sistema de 50.000 hectares de pântanos em Castilla-La Mancha.

Gosálvez diz que a água necessária para irrigar as vinhas, azeitonas, pistácios, cebolas e melões de Castilla-La Mancha excede os recursos disponíveis e, a menos que uma sequência de vários anos de fortes chuvas, a zona húmida só pode ser salva com a transferência de água do rio Tejo – exceto  que o Tejo está sobreexplorado e quase secou há quatro anos .

Grande parte do problema data da década de 1970, quando o governo espanhol embarcou em um plano para transformar Murcia e Almería, no sudeste, na horta da Europa. O plano tinha uma grande falha: não havia água.

O sudeste da Espanha é árido e nenhum dos três principais rios do país corre perto dele. O Douro e o Tejo nascem no centro-norte da Espanha e fluem para oeste no Atlântico em, respectivamente, Porto e Lisboa, enquanto o Ebro sobe no noroeste e deságua no Mediterrâneo quase 400 km ao norte de Múrcia.

A solução foi transferir água das cabeceiras do Tejo através de quase 300km de condutas para irrigar o árido sul.

No entanto, ao invés de satisfazer a demanda, a transferência serviu para incentivar a agricultura intensiva insustentável que levou à exploração de águas subterrâneas, com consequências ambientais desastrosas.

O espetáculo neste verão de milhares de peixes mortos flutuando no Mar Menor, uma lagoa de água salgada em Murcia outrora conhecida por suas águas cristalinas, foi o resultado de fertilizantes poluindo as águas subterrâneas que drenam para o mar. Os nitratos desencadeiam a proliferação de algas que privam os peixes de oxigênio.

“O desastre do Mar Menor é o resultado de uma agricultura intensiva que continua a se expandir de uma maneira não sustentável, tanto em Murcia como em muitas outras partes da Espanha”, disse Martínez-Fernández.

Os pássaros voam ao pôr do sol sobre Las Tablas de Daimiel.

Bolsões de água vistos em Las Tablas de Daimiel em 2020, depois que poços de emergência foram abertos para evitar a eclosão de incêndios. Fotografia: Beldad / EPA-EFE

A vizinha Almería – onde as estufas que formam o famoso “mar de plástico”são visíveis do espaço – produz cerca de 3,5 milhões de toneladas de pimentão, tomate, pepino e melão por ano. Junto com a Granada, abastece cerca de 50% do mercado europeu. Todos os anos, Almería também produz milhares de toneladas de resíduos plásticos ,muitos dos quais acabam no mar.

No entanto, a transferência de água no Tejo não é suficiente para fazer face à crescente procura da agricultura em Almería. Nos últimos 40 anos, o volume de água que chega à cabeceira do Tejo diminuiu cerca de 40%, segundo as estimativas, e continua a diminuir. Portanto, Almería depende cada vez mais da água do mar dessalinizada para irrigação.

Na tentativa de lidar com o problema, em 1985 o governo espanhol trouxe uma nova lei da águapara regulamentar seu uso. Mas foi forçado a conceder que qualquer pessoa que tivesse um poço ou acesso à água tivesse o direito de explorá-lo.

Hoje, o governo reconhece que a situação é insustentável. Teresa Ribera, ministra da transição ecológica, está sob pressão para que a Espanha cumpra os padrões europeus de qualidade e quantidade de água que entrarão em vigor em 2027, e sabe que isso só pode ser alcançado reduzindo a irrigação.

Ao apresentar o plano hídrico quinquenal do país, Ribera reconheceu que os recursos hídricos estão em declínio e partes da Espanha enfrentam a desertificação.

“Neste contexto, os planos de água não podem continuar a apoiar o tipo de práticas que têm levado à sobreexploração dos aquíferos, à contaminação das águas subterrâneas e à deterioração dos nossos rios”, afirmou.

Embora a agricultura responda por apenas 3% do PIB e 4% dos empregos, o setor agrícola tem considerável influência política. Quando Ribera anunciou a redução do volume de água que podia ser transferido do Tejo, houve um clamor dos agricultores.

Lucas Jiménez, presidente de uma associação de agricultores que dependem da transferência, advertiu Ribera “que enfrenta uma batalha na justiça e nas ruas”.

“O problema é que a solução para a questão da água colocará qualquer governo em conflito com vários setores como a agricultura, a hidroeletricidade e os promotores imobiliários”, afirma Miguel Ángel Sánchez, porta-voz da Plataforma de Defesa do Tejo.

“Madrid sabe que isso não pode continuar, mas eles não vão levar o touro pelos chifres e são os governos regionais que têm autoridade sobre a água”, diz Gosálvez.

Uma lagoa em Las Tablas de Daimiel permanece seca mesmo após a estação das chuvas.
Las Tablas de Daimiel permanece seco mesmo após a estação das chuvas. Fotografia: Nacho Calonge / Alamy

“A UE paga aos agricultores para plantar mais, levando a uma superprodução, com o resultado de que o preço de mercado mal cobre o custo de produção”, diz ele.

“Precisamos acordar para a realidade, simplesmente não há água suficiente para atender a demanda de irrigação. Os fazendeiros estão cavando suas próprias sepulturas ”.

Encontre mais cobertura sobre a idade da extinção aqui e siga os repórteres da biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Produtos químicos eternamente tóxicos contaminam o ar de interiores em níveis preocupantes, segundo estudo

Alimentos e água foram considerados as principais formas pelas quais os humanos são expostos ao PFAS, mas o estudo aponta para o risco de respirá-los

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Os especialistas acreditam que os produtos tratados com PFAS, como carpetes, são a fonte dos compostos de PFAS transportados pelo ar. Fotografia: Alamy Stock Photo

Por Tom Perkins para  o “The Guardian”

Compostos tóxicos de PFAS estão contaminando o ar dentro de casas, salas de aula e lojas em níveis alarmantes, descobriu um novo estudo.

Pesquisadores da Universidade de Rhode Island e do Green Science Policy Institute testaram o ar interno em 20 locais e detectaram os “produtos químicos eternos” em 17 locais. Acredita-se que os compostos transportados pelo ar se desprendam de produtos tratados com PFAS (substâncias per e polifluoroalquil), como carpetes e roupas, e se fixem na poeira ou flutuem livremente no ambiente interno.

Os especialistas consideravam anteriormente que comida e água eram as duas principais rotas pelas quais os humanos são expostos ao PFAS, mas os autores do estudo observaram que muitos humanos passam cerca de 90% de seu tempo dentro de casa, e as descobertas sugerem que respirar os produtos químicos provavelmente representa um terço rota de exposição significativa.

“É uma fonte subestimada e potencialmente importante de exposição ao PFAS”, disse Tom Bruton, coautor e cientista sênior da Green Science.

Ling Ling e Tom Perkins.Eu testei minha água da torneira, meus produtos domésticos e meu gato quanto a ‘produtos químicos para sempre’ tóxicos. 

PFAS são uma classe de cerca de 9.000 compostos usados ​​para tornar os produtos resistentes à água, manchas ou calor. Por serem tão eficazes, os produtos químicos são usados ​​em dezenas de indústrias e em milhares de produtos de consumo diário, como protetores contra manchas, carpetes e sapatos. Os fabricantes de tecidos os usam para produzir roupas à prova d’água e são usados ​​em ceras para pisos, utensílios de cozinha antiaderentes, embalagens de alimentos, cosméticos, espuma de combate a incêndios e muito mais.

PFAS são apelidados de “produtos químicos para sempre” porque eles não se decompõem naturalmente. Eles se acumulam em animais, incluindo humanos, e estão ligados ao câncer, defeitos congênitos, doenças do fígado, doenças da tireóide, diminuição da imunidade, distúrbios hormonais e uma série de outros problemas graves de saúde.

Uma análise do Guardian de fevereiro de produtos domésticos encontrou flúor , um indicador de PFAS, presente em 15 itens. Os produtos químicos são tão amplamente usados ​​que é difícil dizer com precisão de onde vêm todos os PFAS transportados pelo ar, embora o novo estudo também tenha detectado sua presença em tapetes e roupas em alguns locais.

O estudo, publicado na terça-feira na Environmental Science & Technology , usou uma nova técnica de medição PFAS para verificar o ar. Ele encontrou níveis particularmente altos em várias salas de aula do jardim de infância e também verificou o estoque de uma loja de roupas ao ar livre, escritórios, várias salas de aula da universidade, laboratórios da universidade e um elevador.

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Um estudo de 2017 encontrou uma correlação entre altos níveis de PFAS no ar e no soro do sangue humano, e o novo estudo usou um modelo que descobriu que os alunos do jardim de infância provavelmente foram expostos a mais PFAS respirando-os do que ingerindo os compostos.

“Isso reforça que enquanto houver PFAS nos produtos que temos ao nosso redor em nossas casas e em nossas vidas, vai haver uma quantidade que vai acabar no ar, vai acabar em pó, e vamos acabar respirando ”, disse Bruton.

Também são notáveis ​​os tipos de PFAS que o estudo detectou. Entre os mais prevalentes estava o FTOH 6: 2, um composto usado em ceras para pisos, protetores contra manchas e embalagens de alimentos. A indústria alegou anteriormente que o FTOH 6: 2 era seguro, mas em maio o Guardian revelou que dois grandes produtores de PFAS ocultaram estudos que sugeriam que os compostos são altamente tóxicos em baixas doses em animais de laboratório e permanecem nos corpos dos animais por muito mais tempo do que antes conhecido anteriormente.

A ciência da indústria, agências federais e pesquisadores independentes agora liga 6: 2 FTOH a doenças renais, câncer, danos neurológicos, problemas de desenvolvimento, dentes manchados e doenças autoimunes, enquanto os pesquisadores também encontraram taxas de mortalidade mais altas entre animais jovens e mães humanas expostas aos produtos químicos .

O novo estudo também encontrou altos níveis de 8:2 FTOH, um tipo de composto que os principais fabricantes de PFAS nos EUA alegaram ter retirado de produção por ser muito perigoso. Sua presença sugere que nem todas as empresas o eliminaram ou que ele está em produtos feitos em países onde o produto químico não foi eliminado.

“Para mim, este é mais um motivo para fechar a torneira da produção e do uso do PFAS”, disse Bruton.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!  ].

Bamburrando com água: gasto da Prefeitura de Campos aumenta em 40%, mesmo em período de pandemia

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Se há algo que não causa espanto é a capacidade aparentemente miraculosa da empresa “Águas do Paraíba” de continuar navegando em mar de almirante, enquanto a maioria de nós pega mar revolto.  Mas a matéria abaixo publicada pelo site jornalístico local, o ClickCampos, me faz pensar que sempre há lugar para novidade.

É que como os leitores do Blog do Pedlowski, em plena pandemia e com a maioria das repartições públicas sendo ocupadas por um número restrito de servidores, a conta da água da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes deu um salto de 40%,, muito acima dos7,14% concedidos pelo ex-prefeito Rafael Diniz e mantidos pelo atual, Wladimir Garotinho.

Como diz a nota do “ClickCampos”, desse jeito a Águas do Paraíba, usando a linguagem dos garimpeiros, vai “bamburrar” , mas não será por acaso, mas sim pela contínua gentileza (usemos essa palavra na falta de uma melhor) dos governantes.

Repasse da Prefeitura para Águas do Paraíba aumenta em quase 40% no governo Wladimir

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Por Fabrício Nascimento para o site ClickCampos

As primeiras atualizações da Prefeitura de Campos no Portal da Transparência trazem dados que acendem o alerta para o contribuinte. Além de não revogar o aumento concedido para a empresa Águas do Paraíba de 7,14%, o Prefeito Wladimir Garotinho já pagou R$ 817.722 para a empresa de água e saneamento do município.

O valor é cerca de 38% mais alto do que o repasse feito pelo ex-prefeito Rafael Diniz no mesmo período em 2020, que foi de R$ 597.366. Cabe destacar que diversos órgãos da Prefeitura de Campos tiveram o seu funcionamento comprometidos em virtude da pandemia do novo coronavírus, o que deveria diminuir o consumo nos primeiros meses do ano.

No mesmo período, misteriosamente a empresa teve uma CPI que a investigaria sendo ‘engavetada’ na Câmara de Campos de maneira inexplicável.

Pelo visto, a empresa que apenas em 2019 teve lucro bruto de R$ 155 milhões na cidade de Campos, deve alcançar resultados ainda melhores em 2021.

Confira abaixo o extrato do pagamento publicado no Portal da Transparência:

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site jornalístico ClickCampos [Aqui!  ].