Será que o impacto ambiental dos centros de dados está finalmente sendo compreendido?

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA – e o público só agora está descobrindo os potenciais efeitos em suas contas de energia

O centro de dados Meta El Paso, agosto de 2026. Fotografia: Brandon Bell/Getty Images

Por Dharna Noor para “The Guardian”

O sentimento anti-data centers está crescendo em todo o espectro político nos EUA.

Mais de uma dúzia de estados consideraram moratórias para centros de dados. Nova York tornou-se o primeiro estado americano a promulgar uma proibição temporária no mês passado. Os progressistas senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez propuseram uma moratória nacional . E até mesmo Greg Abbott, o governador de extrema-direita do Texas, defendeu a proibição do desenvolvimento de centros de dados em áreas rurais de seu estado.

A preocupação com os centros de dados é alimentada por questões ambientais relacionadas ao uso da água e à contaminação tóxica, bem como por receios sobre o tipo de sociedade que as tecnologias de inteligência artificial impulsionadas pelos novos centros de dados estão criando.

Outra das objeções mais relevantes politicamente atinge um ponto diretamente relacionado ao bolso: os centros de dados exigem quantidades enormes de eletricidade, e esse aumento na demanda pode elevar as contas de energia.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026.

Manifestantes participam de um protesto nacional contra centros de dados na Virgínia, em julho de 2026. Fotografia: Evelyn Hockstein/Grupo de moradores de Larbert.

O compromisso exige que desenvolvedores de data centers e empresas de inteligência artificial concordem em cobrir os custos da eletricidade que consomem e da nova infraestrutura necessária para conectar suas instalações à rede elétrica. O problema, segundo os críticos, é que o compromisso não tem força legal. Não é juridicamente vinculativo e não há consequências claras para as empresas que não o cumprirem.

Os grupos ambientalistas não ficaram particularmente impressionados : Patrick Drupp, diretor de políticas climáticas do Sierra Club, chamou a medida, no mês passado, de um “compromisso superficial” para famílias com dificuldades para pagar as contas, e Lena Moffitt, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Evergreen Action, descreveu o anúncio como uma mera “oportunidade para fotos com as grandes empresas de tecnologia”.

Os legisladores e os desenvolvedores apresentaram outras ideias sobre como garantir que os consumidores não arquem com o peso do crescimento da inteligência artificial em suas contas de serviços públicos, desde a implementação de tarifas para centros de dados até a simples proibição da construção dessas instalações até que novas regulamentações – inclusive sobre o consumo de energia – possam ser implementadas.

Em junho, os preços dos serviços públicos nos EUA subiram 4% em relação ao ano anterior, segundo dados federais, superando a inflação. A preocupação não mostra sinais de arrefecimento.


Fonte: The Guardian

A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

Por trás do discurso de “gestão hídrica” e conservação ambiental, seguem sem resposta as contradições envolvendo o Aquífero Emborê, a exclusão territorial e a violência lenta em São João da Barra

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

O greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.

Inteligência Artificial: a nova corrida do ouro que pode nos deixar sem água

Enquanto grandes corporações acumulam fortunas com a expansão acelerada da IA, pouco se discute sobre seus custos ambientais, a substituição do trabalho humano e a crescente captura do próprio fazer científico

O uso disseminado da chamada Inteligência Artificial (IA) é a principal transformação que vem ocorrendo no mundo científico, afetando, por assim dizer, o conjunto da obra. Não se trata mais de usar a IA para realizar correções linguísticas pontuais, mas até mesmo para escrever textos inteiros, incluindo o desenvolvimento de hipóteses e questões de pesquisa.

Os defensores da IA veem esse processo de captura do fazer científico como uma espécie de chegada de uma nova pedra filosofal, pois haveria um ganho não apenas de tempo, mas também na complexidade dos desafios que se poderiam enfrentar na realização da empreitada científica. É como se, do nada, estivéssemos entrando em uma nova idade de ouro da ciência.

A questão que esses apologistas da IA não fazem, nem querem que se faça, é a seguinte: quem ganha — e aí eu digo economicamente — com toda essa aceleração? Claramente, as grandes corporações econômicas que hoje monopolizam a produção dos algoritmos que impulsionam as diferentes ferramentas que cabem sob a sombrinha da IA. São essas corporações que estão especulando com a IA e, por enquanto, amealhando grandes fortunas com a sensação de que temos ganhos produtivos decorrentes dessa corrida.

Por outro lado, quem perde e o que se perde? Os perdedores são, essencialmente, os trabalhadores que estão vendo suas oportunidades de trabalho serem diminuídas pelo uso da IA. Mas pouco se fala sobre os custos ambientais trazidos pelo boom da IA, a começar pelo consumo exagerado de água, em um momento em que as reservas planetárias já estão se escasseando, inclusive no Brasil.

Como em qualquer onda gerada pela máquina capitalista, existe uma certa euforia em torno da IA. E é justamente por isso que precisamos ter um olhar crítico, e não um de mero deslumbre, sobre as ferramentas de IA. Ainda que não se possam ignorar os ganhos pontuais que se obtêm com a IA, o que não se pode esquecer é que o desenvolvimento intelectual humano ainda possui grande potencial de crescimento, e não há sequer necessidade de uma substituição sistemática da capacidade crítica que os seres humanos possuem.

Por isso, como em muitas outras situações atravessadas pela hegemonia capitalista, esse boom da IA precisa ser compreendido pelo que é e pelos custos que carrega. Do contrário, daqui a pouco não teremos água nem para o cafezinho, enquanto os donos das corporações de IA se afogam em suas fortunas.

Por outro lado, a inteligência humana sempre avançou porque aprendeu a construir ferramentas. O problema nunca foram as ferramentas, mas quem as controla, quem se apropria de seus benefícios e quem é obrigado a suportar seus custos socioambientais. A IA pode ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento ou acelerar sua captura pelo capital. A diferença entre um caminho e outro não será decidida pelos algoritmos, mas pela  luta política e pelas decisões que sejam tomadas em sociedade.

Agrotóxico banido, metais e aditivo para plásticos: boias encontram três tipos de poluentes no Dilúvio e no Guaíba

Projeto-piloto foi desenvolvido em parceria da prefeitura de Porto Alegre com a iniciativa privada

Camila Hermes / Agencia RBS

Caravela que ficava localizada próximo à foz do DilúvioCamila Hermes / Agencia RBS

Por Marcelo Gonzatto para a “Gaúcha ZH” 

Um relatório que deverá ser entregue nesta semana à prefeitura de Porto Alegre detalha o nível de poluentes presentes no Arroio Dilúvio e no Guaíba — manancial de onde é captada água que, após tratada, é servida à população. O estudo é fruto de um projeto inovador desenvolvido pela empresa paulista Infinito Mare em parceria com a prefeitura e a Heineken, pelo qual foram instaladas grandes boias azuis em três pontos da Capital.

A análise das algas que se desenvolveram nas chamadas “caravelas” revelou a presença de metais em concentrações muito acima do tolerado, de aditivos usados em plásticos e até de um agrotóxico banido do Brasil desde 2009 por sua periculosidade, o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) (veja detalhes abaixo).

A iniciativa conjunta foi realizada ao longo de três meses no final do ano passado em um ponto do Dilúvio e dois no Guaíba, nas proximidades do Parque do Pontal — a empresa decidiu manter as duas boias localizadas mais ao Sul. A Heineken ajudou a financiar o projeto, que se baseia em uma estrutura inovadora desenvolvida pela Infinito Mare.

As boias circulares têm, na parte inferior, uma espécie de tela na qual naturalmente se desenvolvem algas. Esses vegetais realizam uma dupla função: ajudam a “filtrar” a água, removendo impurezas, e acabam incorporando em sua estrutura partes desses elementos. Assim, ao analisar as algas de forma periódica, é possível fazer um mapeamento de poluentes que passaram pelo local em algum momento. Foram filtrados 330 mil litros de água ao longo do período. As algas captam gás carbônico do ar, ao mesmo tempo em que oxigenam o líquido.

— As algas retiram os elementos da natureza, da água, para crescer e, quando crescem, têm como característica reter vários elementos de forma química e de forma física. Quanto mais crescem, mais acumulam esses elementos. Então, o nosso período (de análise) foi para entender exatamente qual era esse potencial de acúmulo — explica o CEO da Infinito Mare, Bruno Libardoni.

Os poluentes encontrados

De forma preliminar, foram encontrados três tipos principais de poluentes por meio de amostras enviadas à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

  • DDT: agrotóxico associado a danos no sistema nervoso. Usado para combater mosquito transmissor da malária e para conter pragas em plantações, teve o uso agrícola proibido ainda nos anos 1980. No final dos anos 1990, deixou de ser usado para o controle de mosquitos. A proibição total em solo brasileiro (fabricação, importação, venda ou armazenamento) ocorreu em 2009.
  • Metais: ferro, manganês, alumínio e cobre em concentrações, em alguns casos, milhares de vezes acima do que a legislação tolera. As presenças de manganês e alumínio, que podem causar impacto neurológico, estavam 5 mil e 139 mil vezes acima do permitido, respectivamente. Além dos metais, também foi registrada alta concentração de fósforo, nutriente que pode multiplicar o número de micro-organismos e comprometer a qualidade da água. Essas substâncias são encontradas em efluentes urbanos e industriais.
  • Ftalatos: elementos químicos encontrados em plásticos flexíveis, embalagens, cosméticos e outros produtos, com impacto sobre o sistema hormonal humano. Podem se desprender desses materiais e contaminar os cursos d’água em caso de descarte irregular.
Camila Hermes / Agencia RBS
Envolvidos discutem continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazoCamila Hermes / Agencia RBS

A engenheira química Cristiane Oliveira, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e líder do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Poluição Ambiental (Lapam/UFCSPA), afirma que agrotóxicos como o DDT voltaram a aparecer em amostras de água da Capital nos últimos anos. Uma hipótese para isso é que a enchente de 2024 teria lavado solos onde esses contaminantes estavam armazenados há muito tempo e os conduzido até córregos, rios e lagos.

— O DDT é um poluente orgânico persistente, ou seja, permanece no ambiente por vários anos porque é muito estável. Então, pode ser um DDT lançado antes de 2009, mas que estava naqueles sedimentos. Como tivemos muita transposição de solos durante a enchente, pode voltar a aparecer — avalia Cristiane.

Por meio de nota, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que “a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição”, e que “são realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo” (leia a íntegra ao final da reportagem).

Cristiane Oliveira afirma que os métodos de depuração existentes hoje são capazes de eliminar esses contaminantes, mas é preciso seguir monitorando a qualidade da água bruta com atenção.

— A gente tem hoje um tratamento que ainda segura (os poluentes), mas a nossa preocupação é com o futuro. Caso esses poluentes orgânicos comecem a ficar muito elevados, a estação (de tratamento) vai precisar incluir uma operação mais avançada — analisa a especialista da UFCSPA.

Conforme o CEO da Infinito Mare, ainda está em discussão com a prefeitura a continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazo. A empresa já desenvolveu uma iniciativa semelhante em Belo Horizonte, vem atuando no Rio de Janeiro e tem planos para a região metropolitana de Curitiba e Santos, entre outras ações. Recentemente, o projeto da caravela recebeu prêmios como o Design For a Better World, no Brasil, e o IF Design Award, na Alemanha.

— O projeto visa a servir como uma ferramenta para aumentar o potencial de inteligência do monitoramento ecológico, e a gente promover serviços ambientais enquanto realiza esse monitoramento. O objetivo é “ouvir” a natureza e trazer soluções para o futuro próximo — complementa Libardoni.

O que diz a nota do Dmae

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição. O monitoramento segue as diretrizes da Portaria de Consolidação nº 5/2017 _ Anexo XX do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 888/2021, além da Portaria SES/RS nº 320/2014.

São realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo.

Em relação ao projeto-piloto conduzido pela empresa Infinito Mare, a Prefeitura ainda não recebeu o relatório final do estudo. Quando o documento for encaminhado oficialmente, os dados serão analisados e comparados com o monitoramento realizado pelo Dmae no mesmo período e local. O Departamento também realiza monitoramento permanente das águas do Arroio Dilúvio em 11 pontos. De forma preliminar, qualquer interpretação dos resultados do estudo exige avaliação detalhada da metodologia empregada, incluindo critérios de amostragem e forma de expressão dos dados.”


Fonte: Gaúcha ZH

Água na Amazônia: abundância em disputa

Saneamento precário, contaminação, conflitos agrários e o futuro de uma das maiores reservas da Terra

Fot0: Ismael Machado 

Por Ismael Machado*

Em 2010, numa viagem de reportagem ao arquipélago do Marajó para o jornal Diário do Pará, vivi uma das experiências que mais moldaram minha percepção sobre a água na Amazônia. A matéria tinha um título simples e certeiro, bolado pelo editor e parceiro Lázaro Magalhães — Breves pede água boa — mas o que encontramos estava longe de ser simples. Ao lado do saudoso repórter fotográfico Thiago Araújo, percorri comunidades em Breves, onde a vida cotidiana era atravessada por uma contradição brutal: gente cercada por rios e igarapés imensos, mas sem acesso à água potável.

No mesmo ano, produzi outra reportagem sobre a ausência quase total de saneamento na Região Metropolitana. Lembro especialmente de um personagem: Denilson Santos, conhecido como Manel, morador de uma área chamada Livramento, numa zona de fronteira entre Ananindeua, Marituba e Belém. Ele tinha vergonha de mostrar onde a família fazia suas necessidades fisiológicas — um buraco raso cercado por três troncos de açaizeiro. Não havia fossa, não havia banheiro, não havia dignidade mínima garantida pelo poder público. Na mesma reportagem, Maria Gorete Cardoso, à época com 47 anos, informava que apanhava água de uma cacimba comunitária no Curuçambá, em Ananindeua. Ela enchia latas e latas de água, botava numa canoa e voltava remando para sua casa na ilha do Jacineuma.

Naquele período, dados do Instituto Trata Brasil indicavam que a renda média de moradores da Grande Belém poderia aumentar cerca de 12% com acesso adequado à água e saneamento. Passados mais de quinze anos, não é possível afirmar que a transformação tenha ocorrido na escala prometida.

Dois anos depois dessas reportagens, escrevi uma série especial para o mesmo jornal em alusão ao Dia Mundial da Água, com a colaboração do ex-aluno Eraldo Paulino. O trabalho recebeu o primeiro (e único) Prêmio de Jornalismo Científico, iniciativa conjunta do governo estadual e da Universidade Federal do Pará. Entre os dados levantados, havia números alarmantes: cerca de 900 mil pessoas consumindo água contaminada em condomínios da região metropolitana e perdas de quase metade da água tratada devido à precariedade das tubulações. Vejo em meus arquivos as fotos de Thiago Araújo no print em PDF das reportagens e lamento nossa situação atávica.

Em Barcarena, o município industrial, o problema era a contaminação das fontes por conta da atividade das grandes empresas ali instaladas. A série jornalística mostrava que os conflitos pela posse da água já eram grandes no Pará, ladeando a luta pela posse da terra, mas encerrava mostrando iniciativas de recuperação de nascentes em algumas localidades. Uma gota de esperança num rio de problemas.

Revisitar essas memórias jornalísticas hoje é perceber como a crise hídrica e sanitária amazônica não é nova. É estrutural.

A Amazônia ocupa um lugar singular no planeta. A região concentra a maior bacia hidrográfica do mundo, cerca de um quinto da água doce superficial disponível na Terra. Rios de dimensões continentais atravessam a região, incluindo o próprio Amazonas, cuja vazão supera a soma de vários grandes rios globais. Em teoria, seria o território menos provável para enfrentar problemas relacionados à água.

Na prática, porém, a Amazônia tornou-se um dos exemplos mais contundentes de como abundância natural não garante acesso seguro, nem justiça social, nem estabilidade ambiental. A crise da água amazônica não é uma crise de disponibilidade. É de distribuição, qualidade, poder e modelo de desenvolvimento.

O paradoxo do copo vazio às margens do maior rio do mundo

Milhões de pessoas vivem próximas a rios imensos e, ainda assim, dependem de água sem tratamento — igarapés, poços rasos ou captação direta de rios contaminados. Comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas convivem com doenças de veiculação hídrica que seriam evitáveis com infraestrutura básica.

Essa realidade revela uma das maiores dívidas históricas do Estado brasileiro na região: saneamento básico. A cobertura de coleta e tratamento de esgoto permanece entre as mais baixas do país, e a ausência de infraestrutura transforma a própria água disponível em vetor de doença. O problema não é apenas técnico. É estrutural e político.

Capitais regionais como Belém, Manaus e Porto Velho, para ficar apenas nessas três, mas entendendo que o problema é mais amplo, repetem o padrão: crescimento acelerado sem expansão equivalente das redes de saneamento. O avanço urbano não foi acompanhado por redes de água e esgoto na mesma velocidade. O resultado é uma geografia urbana desigual, onde bairros centrais têm abastecimento relativamente regular enquanto periferias dependem de soluções individuais, com poços improvisados ou ligações clandestinas, transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que deveria ser pública.

A abundância natural, nesse contexto, não elimina a escassez socialmente construída.

Se a falta de infraestrutura compromete o acesso, a contaminação compromete a qualidade. A Amazônia enfrenta múltiplas fontes de degradação hídrica simultâneas.

O garimpo de ouro, especialmente o ilegal, libera mercúrio nos rios, contaminando peixes e populações humanas ao longo das cadeias alimentares. Estudos científicos têm identificado níveis preocupantes da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas, com impactos neurológicos, cognitivos e gestacionais.

Ao mesmo tempo, o desmatamento altera o regime hidrológico, aumenta a erosão e o assoreamento dos cursos d’água, enquanto o esgoto urbano não tratado despejado diretamente nos rios agrava a deterioração ambiental. A água, símbolo histórico de pureza amazônica, torna-se vetor de risco sanitário.

Água como eixo de conflitos agrários

No campo amazônico, a água se transformou de recurso natural a elemento central de disputas territoriais. O avanço da fronteira agropecuária, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem modificou e ainda modifica paisagens hidrológicas inteiras. Nascentes são degradadas, cursos d’água desviados e áreas úmidas drenadas para expansão dita produtiva.

Marabá, por exemplo, é alvo de um projeto polêmico. Pedral do Lourenço é um conflito socioambiental e econômico de longa data, centrado na remoção de formações rochosas no Rio Tocantins para viabilizar a navegação de grandes embarcações durante o ano todo, inclusive no período de seca. As obras, planejadas há anos, visam criar uma hidrovia que beneficia o escoamento da soja, por exemplo, mas enfrentam resistência de comunidades tradicionais e órgãos ambientais por conta de impactos à pesca e biodiversidade. O Governo Federal defende a obra como fundamental para o escoamento de soja e minérios e o sempre propalado desenvolvimento regional. A que custo?

Ao longo do tempo, hidrelétricas, portos, hidrovias, mineração e expansão agrícola são frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento regional. No entanto, esses empreendimentos alteram regimes naturais de rios, impactam comunidades e geram novos conflitos socioambientais. Barragens modificam fluxos, afetam a pesca e alteram ecossistemas aquáticos. Estradas aumentam o desmatamento e mudam padrões de drenagem. Projetos de grande escala frequentemente redistribuem poucos benefícios econômicos enquanto concentram impactos sociais e ambientais em populações locais.

A disputa pela água, nesse sentido, é também disputa por modelos de desenvolvimento. O Rio Xingu nunca se recuperou totalmente do impacto do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Eu sei porque vi. Estive lá em Altamira por oito vezes fazendo reportagens durante a construção da hidrelétrica. Havia locais do rio que eram únicos na vivência de peixes chamados ornamentais. Famílias como a de Genilson Gomes da Silva, então com 30 anos, viviam dessa atividade. Não mais. Foi lá que aprendi com Antônia Melo e Dom Erwin Krautler como é complicado lutar contra toda a força do capital e mesmo assim manter a dignidade.

O fato é que comunidades tradicionais frequentemente se veem diante da perda de acesso a fontes que garantiam sua sobrevivência por gerações. Controlar a terra significa também controlar a água e, portanto, controlar modos de vida. Poucas violências são tão simbólicas como essa.

Conflitos socioambientais envolvendo rios, barragens, irrigação e contaminação tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, revelando que a disputa pela água na Amazônia já é uma realidade concreta.

Eventos climáticos extremos recentes mostram que a Amazônia também não está imune a crises hidrológicas. Secas históricas reduziram drasticamente níveis de rios, isolaram comunidades, comprometeram o transporte fluvial e afetaram sistemas de abastecimento. Em outros momentos, cheias intensas provocaram contaminação de poços, colapso de estruturas sanitárias precárias e disseminação de doenças. Também acabo lembrando outra reportagem que fiz, dessa feita para o jornal O Globo, sobre a seca no rio Solimões, em Manacapuru. À época, 2003 ou 2004, se não me falha a memória, essas secas ainda eram relativamente uma novidade vistas com espanto. Deixaram de ser.

A alternância entre extremos — seca e inundação — aumenta a vulnerabilidade de populações que já vivem com infraestrutura limitada. Além disso, o desmatamento regional pode estar alterando o próprio ciclo hidrológico amazônico, reduzindo a capacidade da floresta de reciclar umidade e influenciando padrões de chuva em escala continental.

A água amazônica, essencial para o equilíbrio climático global, também depende da própria floresta para existir.

E aí vem a palavra que soa como doce na boca de políticos e governos. Privatização. Nos últimos anos, mudanças no marco regulatório do saneamento abriram espaço para maior participação privada no setor. Defensores argumentam que investimentos serão ampliados e a universalização acelerada. Críticos alertam para o risco de aprofundamento das desigualdades, especialmente em regiões onde o retorno financeiro é menor e os custos logísticos são mais altos como na Amazônia. E vamos ser sinceros? Talvez se conte nos dedos da mão a efetivação das promessas alardeadas pelos privatistas em qualquer setor.

No caso da água a questão central permanece quase sempre esquecida. Afinal, ela é mercadoria ou direito? A resposta define prioridades políticas.

A importância estratégica da água amazônica ultrapassa fronteiras nacionais. Em um mundo onde crises hídricas se tornam mais frequentes, reservas abundantes ganham relevância geopolítica crescente, a região passa a ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas como ativo estratégico global. Essa dimensão internacional aumenta pressões econômicas e políticas sobre o território, tornando ainda mais complexa a governança dos recursos. E em tempos de Trump, isso sempre nos deve deixar com todos os sentidos em alerta.

O panorama amazônico demonstra que a escassez pode existir mesmo em territórios de abundância. Falta de saneamento, contaminação, conflitos agrários, mudanças climáticas e modelos de desenvolvimento predatórios convergem para produzir vulnerabilidades múltiplas.

Mas não nos esqueçamos. A crise da água na Amazônia não é natural. É resultado de decisões humanas, históricas e políticas. Garantir acesso universal à água potável na região exige proteção ambiental, reconhecimento de direitos territoriais, planejamento urbano, investimento público consistente e governança que priorize populações locais.

Na Amazônia, a água tornou-se, simultaneamente, riqueza, risco e campo de disputa sobre o futuro. O medo é nos afogarmos no mar da ignorância e, numa rima pobre, da ganância.


*Ismael Machado é jornalista com longa experiência na cobertura de assuntos relativos à Amazônia brasileira. 

O mundo entra na era da ‘falência global da água’

UNU-INWEH report on 'Global Water Bankruptcy' | UN-Water

Durante décadas, cientistas, legisladores e a mídia alertaram para uma “crise global da água”, sugerindo um choque temporário seguido de recuperação.

O que está surgindo em muitas regiões, no entanto, é uma escassez persistente, em que os sistemas de água não conseguem mais, de forma realista, retornar aos seus níveis históricos.

“ Para grande parte do mundo, o ‘normal’ acabou ”, disse Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

 “O objetivo não é matar a esperança, mas sim incentivar a ação e o reconhecimento honesto da nossa falha hoje, para que possamos proteger e viabilizar o amanhã”, disse ele em uma coletiva de imprensa em Nova York na terça-feira.

Encargos desiguais

O Sr. Madani enfatizou que as conclusões não sugerem um colapso mundial, mas existem sistemas falidos ou quase falidos em número suficiente, interligados pelo comércio, pela migração e pelas dependências geopolíticas, de modo que o panorama global de riscos foi fundamentalmente alterado.

Os  encargos recaem desproporcionalmente sobre os pequenos agricultores, os povos indígenas, os residentes urbanos de baixa renda, as mulheres e os jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo muitas vezes se acumulam nas mãos de atores mais poderosos.

Da crise à recuperação? 

O relatório apresenta a falência por dívida hídrica como uma condição definida tanto pela insolvência quanto pela irreversibilidade .

Insolvência refere-se à extração e poluição de água além dos níveis de entrada renováveis ​​e dos limites de esgotamento seguro.

Irreversibilidade refere-se aos danos a partes essenciais do capital natural relacionado à água , como zonas úmidas e lagos, que tornam inviável a restauração do sistema às suas condições iniciais.

Mas nem tudo está perdido: comparando a questão da água com as finanças, o Sr. Madani afirmou que a falência não significa o fim da luta. 

“ É o início de um plano de recuperação estruturado : estancar a sangria, proteger os serviços essenciais, reestruturar as reivindicações insustentáveis ​​e investir na reconstrução”, observou ele.

Conta cara

Segundo o estudo, o mundo está rapidamente esgotando suas “reservas naturais de água”: mais da metade dos grandes lagos do mundo diminuíram desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 35% dos pântanos naturais foram perdidos desde 1970, afirmou o Sr. Madani.

O custo humano já é significativo. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como com insegurança hídrica ou com insegurança hídrica crítica.

Cerca de quatro bilhões de pessoas sofrem com a grave escassez de água por pelo menos um mês a cada ano, enquanto os impactos da seca custam cerca de US$ 307 bilhões anualmente.

“Se continuarmos a gerir estas falhas como ‘crises’ temporárias com soluções de curto prazo, apenas iremos agravar os danos ecológicos e alimentar os conflitos sociais”, alertou o Sr. Madani.

Correções de rota

O relatório defende uma transição da resposta à crise para a gestão da falência , baseada na honestidade quanto à irreversibilidade das perdas, na proteção dos recursos hídricos remanescentes e em políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.


Fonte: ONU

Aumento drástico da violência relacionada à água registrado desde 2022

Especialistas afirmam que a crise climática, a corrupção e a falta ou o uso indevido de infraestrutura estão entre os fatores que impulsionam os conflitos hídricos

Vista aérea de casas submersas em Kherson

Casas submersas em Kherson, Ucrânia, após a destruição da barragem de Kakhovka em 2023. Fotografia: AP

Por Rachel Salvidge para “The Guardian” 

A violência relacionada à água quase dobrou desde 2022 e pouco está sendo feito para entender e lidar com essa tendência e prevenir riscos novos e crescentes, disseram especialistas.

Segundo o Pacific Institute, um centro de estudos com sede nos EUA, foram registrados 419 incidentes de violência relacionados à água em 2024, um aumento em relação aos 235 registrados em 2022.

O instituto compilou evidências de centenas de anos de conflitos relacionados à água, incluindo casos em que a água foi um fator desencadeador de violência, uma arma de conflito ou uma vítima de conflito.

“Estamos vendo mais conflitos, e eles são multicausais”, disse o Dr. Peter Gleick, cofundador e pesquisador sênior do instituto. “A crise climática e os eventos climáticos extremos contribuem para isso, mas há muitos outros fatores, como falhas do Estado, governos incompetentes ou corruptos, e a falta ou o uso inadequado de infraestrutura.”

Exemplos recentes incluem tensões entre a Índia e o Paquistão sobre um tratado de compartilhamento de água do rio Indo após um ataque terrorista, ataques da Rússia a barragens hidrelétricas na Ucrânia, destruição dos sistemas de água de Gaza por Israel e protestos sobre o abastecimento de água na África do Sul.

“Em Gaza, Israel sistematicamente transformou a água em arma”, disse Trevor. “Eles atacaram deliberadamente sistemas de água e usinas de dessalinização e bloquearam os reparos. A água potável foi contaminada por esgoto devido à destruição da infraestrutura de esgoto e drenagem pluvial, e pessoas foram atacadas enquanto esperavam ou faziam fila para pegar água.”

“Na África Oriental e no Sahel, a água está se tornando cada vez mais insegura e as pessoas estão se deslocando para novas áreas em busca de água, o que por si só pode desencadear competição e conflito com a população local.”

A política intensificou situações já frágeis em alguns lugares. Gleick afirmou: “O Rio Colorado e o Rio Grande, nos EUA, tornaram-se cada vez mais controversos politicamente nos últimos anos. Existem tratados que datam de 1944 que regem ambos os rios, exigindo que os EUA forneçam água do Rio Colorado ao México e que o México forneça água do Rio Grande aos EUA. Mas, com a intensificação da política fronteiriça durante o governo Trump, essas questões se tornaram mais controversas. Várias pessoas foram mortas no México durante um protesto em uma barragem usada para fornecer água aos EUA, após agricultores se oporem à liberação de água.”

Gleick afirmou que existem algumas disputas menos conhecidas na Ásia Central que podem se agravar. “No Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, há tensões relacionadas à água há algum tempo, e o Afeganistão está construindo um canal muito grande, o canal Qosh Tepa, para desviar água do rio Amu Darya, o qual, se entrar em operação, reduzirá significativamente o fluxo para as repúblicas da Ásia Central.”

Os institutos das Nações Unidas estão soando o alarme e a ONU prevê que a demanda global por água doce excederá a oferta em 40% até 2030. Na terça-feira, o Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde declarou que o mundo entrou em uma era de “falência hídrica”.

A Unesco afirma que, embora aproximadamente 40% da população mundial viva em bacias hidrográficas transfronteiriças de rios e lagos, apenas um quinto dos países possui acordos transfronteiriços para compartilhar recursos de forma equitativa.

Trevor afirmou: “Com o aumento da insegurança hídrica, é necessário implementar tratados transfronteiriços mais transparentes e responsáveis ​​que atendam a todas as pessoas, garantindo seu direito humano à água. É preciso reconhecer mais a necessidade de uma melhor partilha da água, que vá além dos atuais acordos de partilha, muitas vezes voluntários e, portanto, totalmente dependentes da boa vontade.”

Gleick afirmou: “Podemos resolver nossos problemas hídricos – não estou dizendo que vamos resolvê-los ou que faremos isso em breve, mas podemos. Isso inclui os impactos das mudanças climáticas na água, o atendimento às necessidades humanas básicas e aos direitos à água, a resolução dos problemas dos ecossistemas e a redução dos riscos de conflitos por recursos hídricos.”


Fonte: The Guardian

Atlas inclui a cidade do Rio de Janeiro entre grandes cidades do mundo com altos níveis de estresse hídrico

O horizonte de Los Angeles

Los Angeles é uma das cidades globais que enfrenta extrema crise hídrica, agravada pelas mudanças climáticas. Fotografia: Kirby Lee/Getty Images

Por Rachel Salvidge para “The Guardian”

Metade das 100 maiores cidades do mundo estão sofrendo com altos níveis de estresse hídrico, sendo que 39 delas estão localizadas em regiões de “estresse hídrico extremamente alto”, segundo novas análises e mapeamentos.

O estresse hídrico significa que a captação de água para abastecimento público e industrial está próxima de exceder a disponibilidade, frequentemente causada pela má gestão dos recursos hídricos, agravada pelas mudanças climáticas.

A Watershed Investigations e o jornal The Guardian mapearam cidades em bacias hidrográficas sob estresse, revelando que Pequim, Nova York, Los Angeles, Rio de Janeiro e Délhi estão entre as que enfrentam estresse extremo, enquanto Londres, Bangkok e Jacarta são classificadas como altamente estressadas.

Uma análise separada de dados de satélite da NASA, compilada por cientistas do University College London, mostra quais das 100 maiores cidades sofreram com o aumento ou a diminuição da umidade ao longo de duas décadas. Cidades como Chennai, Teerã e Zhengzhou apresentam fortes tendências de seca, enquanto Tóquio, Lagos e Kampala mostram fortes tendências de aumento da umidade. Todas as 100 cidades e suas respectivas tendências podem ser visualizadas em um novo atlas interativo de segurança hídrica .

Cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivem em grandes áreas metropolitanas localizadas em regiões que sofrem com forte seca a longo prazo, em comparação com cerca de 96 milhões em cidades e arredores em regiões que apresentam fortes tendências de aumento da umidade. No entanto, os dados de satélite são muito grosseiros para mostrar detalhes e contexto em escala local.

A maioria das regiões urbanas em zonas de precipitação acentuada situa-se na África subsaariana, com exceção de Tóquio e Santo Domingo, na República Dominicana. A maioria dos centros urbanos em áreas com os sinais mais fortes de seca concentra-se na Ásia, particularmente no norte da Índia e no Paquistão.

Já no sexto ano de seca, Teerã está perigosamente perto do “dia zero”, quando não haverá água disponível para seus cidadãos. No ano passado, o presidente do país, Masoud Pezeshkian, afirmou que a cidade poderá ter que ser evacuada caso a seca persista. Cidade do Cabo e Chennai também já se aproximaram do dia zero, e muitas das cidades que mais crescem no mundo estão situadas em zonas de seca, onde poderão sofrer com a escassez de água no futuro.

Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de riscos na UCL, disse: “Ao monitorar as mudanças no armazenamento total de água a partir do espaço, o projeto Grace, da NASA, mostra quais cidades estão ficando mais secas e quais estão ficando mais úmidas, oferecendo um alerta precoce de insegurança hídrica emergente.”

Na terça-feira, a ONU anunciou que o mundo entrou em um estado de falência hídrica, onde a deterioração de alguns recursos hídricos se tornou permanente e irreversível. O professor Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirmou que a má gestão da água é frequentemente a principal causa da falência hídrica e que as mudanças climáticas raramente são a única razão: “A mudança climática é como uma recessão somada à má gestão dos negócios”.

O Grupo Banco Mundial também tem soado o alarme. As reservas globais de água doce diminuíram drasticamente nos últimos 20 anos, segundo o grupo, que afirma que o planeta está perdendo cerca de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano, o suficiente para atender às necessidades anuais de 280 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população da Indonésia. As perdas afetam as principais bacias hidrográficas em todos os continentes.

Até 2055, a Inglaterra poderá precisar encontrar 5 bilhões de litros de água adicionais por dia para atender à demanda de abastecimento público – mais de um terço dos 14 bilhões de litros de água atualmente utilizados no sistema público de abastecimento, segundo a Agência Ambiental. Outros setores hídricos, como agricultura e energia, podem precisar de 1 bilhão de litros de água adicionais por dia.

Shamsudduha afirmou que o “recurso oculto das águas subterrâneas oferece ao Reino Unido um abastecimento de água mais resiliente às mudanças climáticas”, mas acrescentou que “sem monitoramento contínuo e melhor gestão, corremos o risco de gerenciá-lo às cegas em meio à intensificação do desenvolvimento e às pressões climáticas”.

Partes do sul da Inglaterra sofreram recentemente interrupções no fornecimento de água , que a South East Water atribuiu a tempestades de inverno. No entanto, os órgãos reguladores já haviam notificado a empresa expressando “sérias preocupações” sobre a segurança do seu abastecimento.

Na terça-feira, o governo publicou um livro branco sobre água com o objetivo de reformular o sistema hídrico, incluindo a criação de um novo cargo de engenheiro-chefe, “verificações de inspeção técnica” na infraestrutura hídrica e novos poderes para um novo órgão regulador do setor de água.


Fonte: The Guardian

‘Uma quantidade inacreditável de poluição’: qual é a dimensão da ameaça da IA ​​para o clima?

Defensores da IA ​​afirmam que ela pode contribuir para o combate à crise climática. No entanto, o aumento vertiginoso dos custos de energia e água preocupa os especialistas

Um computador de grande porte consumindo toda a energia de um reservatório.

O custo ambiental do boom da IA ​​é difícil de mensurar, mesmo enquanto dispara. Imagem composta: Alex Mellon para o The Guardian: Getty Images

Por Ajit Niranjan para “The Guardian” 

“Foi de cair o queixo”, disse Wilson, um ex-trabalhador do setor de petróleo e gás do Texas que documenta emissões de metano há mais de uma década e estima que o data center Colossus da xAI estivesse expelindo mais desse gás que aquece o planeta do que uma grande usina de energia. “Uma quantidade inacreditável de poluição.”

Naquela mesma semana, o principal produto da empresa estava causando alvoroço nos noticiários. O chatbot irreverente de Musk, Grok, repetiu uma teoria da conspiração de que um “genocídio branco” estava ocorrendo na África do Sul quando questionado sobre assuntos tão aleatórios quanto beisebol e andaimes. As postagens foram rapidamente apagadas, mas Grok continuou elogiando Hitler , promovendo ideologias de extrema-direita e fazendo afirmações falsas.

Grok de Elon Musk

Grok, o chatbot de IA de Elon Musk, já elogiou Hitler e repetiu teorias da conspiração sobre o “genocídio branco”. Fotografia: Algi Febri Sugita/ZUMA Press Wire/Shutterstock

“É um desperdício horrível, horrível”, disse Wilson, diretor do grupo de campanha Oilfield Witness, apontando para imagens do Mickey Mouse nazista geradas pelo Grok como um exemplo do que o gás fóssil estava sendo queimado para produzir. “Que utilidade isso tem?”

Alguns especialistas temem que os centros de dados possam prejudicar a transição para uma economia limpa, adicionando um obstáculo desnecessário à tarefa inglória de impedir que o planeta aqueça 1,5°C (2,7°F). Outros se mostram otimistas em relação aos custos de energia, argumentando que eles são insignificantes em comparação não apenas com as indústrias poluentes, mas também com o poder da tecnologia de transformar a sociedade.

Qual é a dimensão da ameaça da IA ​​para o clima? E será que ela pode trazer mais benefícios do que prejuízos?

Quando Hannah Daly dirigia modelos para a Agência Internacional de Energia (IEA) em Paris e depois se tornou professora de energia sustentável na University College Cork, na Irlanda, ela dedicava pouco tempo a se preocupar com o custo de carbono dos computadores. Carros, vacas e aquecimento doméstico estavam entre os problemas complexos que consumiam o orçamento de carbono; as emissões dos serviços digitais eram pequenas e relativamente estáveis.

Mas na Irlanda, a demanda computacional por energia atingiu níveis impossíveis de ignorar. Os centros de dados consomem um quinto da eletricidade do país e a previsão é de que esse consumo chegue a quase um terço em poucos anos. A rápida expansão de armazéns repletos de chips, que surgiram em um ritmo mais acelerado do que a rede elétrica consegue suportar, levou à sua proibição efetiva de conexão à rede em 2021.

A trajetória de “crescimento enorme e exponencial” é o que preocupa, disse Daly. “Não sei se a Irlanda é uma exceção ou um prenúncio do que está por vir. Mas é definitivamente um conto de advertência.”

Os centros de dados consomem apenas 1% da eletricidade mundial, mas em breve poderão demandar muito mais. Sua participação no consumo de eletricidade dos EUA deverá mais que dobrar, chegando a 8,6% até 2035, segundo a BloombergNEF, enquanto a AIE (Agência Internacional de Energia) projeta que os centros de dados serão responsáveis ​​por pelo menos 20% do crescimento da demanda de eletricidade nos países desenvolvidos até o final da década.

Parte da demanda está sendo atendida por meio de contratos de longo prazo para a compra de energia renovável – apoiando a expansão da energia limpa mesmo quando a eletricidade que alimenta a instalação é poluente – enquanto algumas empresas de tecnologia assinaram acordos para usar energia nuclear.

Mas, num futuro próximo, os combustíveis fósseis deverão dominar o fornecimento. Os centros de dados da China estão concentrados no leste do país, região com forte presença do carvão. Nos EUA, onde se espera que o gás natural gere a maior parte da eletricidade nos centros de dados na próxima década, o governo Trump usou esse argumento para justificar a queima de mais carvão. “O carvão, bonito e limpo, será essencial para… vencer a corrida da IA”, disse o secretário de Energia, Chris Wright, em setembro, ao anunciar um pacote de investimentos de US$ 625 milhões (R$ 2,7 bilhões).

Um centro de dados da Amazon em Didcot, Oxfordshire.

Um datacenter da Amazon em Didcot, Oxfordshire. Fotografia: Horst Friedrichs/Alamy

Na Irlanda, que está construindo terminais para importar gás natural liquefeito (GNL) e usinas para queimá-lo, o boom dos data centers compensou os ganhos climáticos da expansão das energias renováveis ​​no setor elétrico, de acordo com uma análise que Daly realizou para a Friends of the Earth Ireland no ano passado. Países mais pobres também podem não estar imunes. A energia solar barata começou a substituir o carvão a um ritmo notável no Paquistão, mas os data centers estão prestes a ocupar a capacidade ociosa de usinas de energia desativadas, após o governo anunciar que dedicaria 2 GW de energia à inteligência artificial e ao bitcoin.

“Essa ideia de que o menor custo das energias renováveis ​​por si só impulsionará a descarbonização não é suficiente”, disse Daly. “Porque se houver uma enorme demanda de energia que queira crescer, ela recairá sobre esses ativos de combustíveis fósseis obsoletos.”

Isso significa que usar chatbots para redigir e-mails, escrever ensaios e planejar férias coloca o planeta em risco? As empresas de tecnologia têm resistido à pressão para fornecer dados detalhados sobre o consumo de energia de sua IA, mas estimativas populares giram em torno de 0,2 a 3 watts-hora (Wh) para uma simples consulta de texto e aumentam consideravelmente para “pesquisas complexas” e produção de vídeo. Em uma postagem de blog em julho, o CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou que uma consulta no ChatGPT usa tão pouca energia quanto uma lâmpada acesa por alguns minutos, em consonância com um relatório recente do Google sobre o consumo médio de texto para seu assistente de IA, Gemini.

Os números são insignificantes em comparação com atividades como voar, comer carne ou dirigir um carro. Ainda assim, os céticos se preocupam com a enorme escala da tecnologia – o ChatGPT afirma ter várias centenas de milhões de usuários semanais apenas três anos após seu lançamento – e com o fervor com que as empresas a inseriram em todos os aspectos da vida digital. O Google controla cerca de 90% do mercado global de mecanismos de busca e impôs a IA generativa em sua página de resultados. A ascensão de agentes de IA e serviços nos bastidores deve aumentar ainda mais esse burburinho.

“O que me preocupa é que estamos implementando IA de uma forma que não nos permite ter uma boa noção do consumo de energia”, disse Sasha Luccioni, líder de clima da empresa de IA Hugging Face, que se frustrou com as “divulgações seletivas” de grandes empresas que obscurecem o verdadeiro impacto climático de seus produtos. “Estamos essencialmente operando sob a hipótese de que não é um problema – ou que, se for um problema, será resolvido de alguma forma – em vez de nos anteciparmos a ele.”

Se a IA pudesse pagar suas dívidas energéticas economizando carbono em outros setores da economia? Essa é a tese apresentada em um relatório da AIE (Agência Internacional de Energia) em abril, que argumentou que as aplicações de IA existentes poderiam reduzir as emissões em uma proporção muito maior do que a produzida pelos data centers. Um artigo de pesquisadores da London School of Economics e da Systemiq chegou a uma conclusão semelhante em junho, após modelar cenários nos quais a IA ajudaria a integrar energia solar e eólica à rede elétrica, identificar proteínas alternativas que imitam a carne, melhorar a composição das baterias em carros elétricos e incentivar as pessoas a fazerem escolhas sustentáveis.

“A IA pode acelerar a implementação dessas tecnologias limpas, basicamente acelerando sua posição na curva de inovação e adoção”, disse a coautora Roberta Pierfederici, pesquisadora de políticas públicas do Instituto Grantham da LSE.

As projeções de redução de carbono trazem grandes incertezas – maior eficiência pode levar a um maior consumo, alerta a AIE (Agência Internacional de Energia), e efeitos rebote podem anular os ganhos, como carros autônomos prejudicando o transporte público – mas exemplos já existem. O Google afirma que a IA o ajudou a reduzir o resfriamento em data centers em 40%. A espanhola Iberdrola diz que a IA otimizou a manutenção e o desempenho de turbinas eólicas, aumentando a eficiência operacional em 25%. A francesa Engie afirma ter reduzido o tempo de inatividade em usinas solares usando IA para detectar falhas.

Como outros setores são muito poluentes, dizem os pesquisadores, a IA precisaria reduzir suas emissões em apenas uma pequena fração para compensar o custo de carbono de sua computação, que um estudo recente estimou em 0,1-0,2% das emissões globais, e está aumentando. “No setor de energia, já estamos vendo os resultados”, disse Pierfederici. “Já o setor de carne ainda não chegou lá.”

s defensores da tecnologia limpa não são os únicos que perceberam o potencial transformador da IA.

Quando Holly e Will Alpine decidiram deixar seus empregos na Microsoft no ano passado, sabiam que estavam abrindo mão de uma ótima oportunidade. O casal de millennials desfrutava de salários típicos do setor de tecnologia americano, graças às suas posições nas equipes de IA responsável e sustentabilidade da empresa, com colegas próximos e um trabalho que lhes dava um senso de propósito. Will estava entre as primeiras vozes a pressionar para que se enfrentasse a redução do custo de energia dos data centers.

Mas o trabalho da Microsoft para clientes do setor de petróleo e gás incomodava o casal, que começou a se preocupar mais com as emissões que a empresa possibilitava do que com as que ela produzia. Em 2019, a empresa anunciou uma parceria com a ExxonMobil com potencial para expandir a produção em até 50 mil barris por dia. No mesmo ano, iniciou um projeto digital com a Chevron que, segundo a petrolífera, reduziu em 30 dias o tempo de planejamento de seus poços em águas profundas. Com o surgimento de mais contratos, os Alpines começaram a pressionar a empresa por respostas.

“A resposta da empresa frequentemente apontava para sua própria pegada operacional, o que não é relevante”, disse Holly Alpine, que deixou a empresa com Will para fazer campanha para que a indústria de tecnologia combatesse as emissões que gera. “Após uma campanha interna de quatro anos, na qual recebemos muitas promessas, mas a maioria não foi cumprida, percebemos que a pressão interna não era suficiente.”

Um poço de petróleo no deserto

O diretor executivo da petrolífera Saudi Aramco afirmou recentemente que a empresa incorporou inteligência artificial “em tudo”. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a IA poderá aumentar as reservas tecnicamente recuperáveis ​​de petróleo e gás em 5% e reduzir o custo de um projeto em águas profundas em 10%. As grandes petrolíferas estão ainda mais otimistas. “A inteligência artificial será, em última análise, o próximo boom do fracking na indústria”, disse Mike Sommers, diretor do Instituto Americano de Petróleo, à Axios . Amin Nasser, CEO da Saudi Aramco, afirmou que a empresa incorporou IA “em tudo” em uma entrevista à Bloomberg Television no início deste ano. A maior petrolífera do mundo dobrou seus investimentos em tecnologia de 2023 para 2024, segundo Nasser, e a ampla adoção da IA ​​”aumentou a produtividade e, consequentemente, o número de poços”.

Ao mesmo tempo, a indústria de petróleo e gás afirma que a IA pode reduzir sua intensidade de carbono, por exemplo, analisando dados de satélite para detectar vazamentos de metano. Mas mesmo nesse aspecto, críticos apontam que existe uma lacuna entre as percepções digitais e as ações corporativas. Wilson, que viu “nuvens gigantescas de gás escapando por todos os lados” durante uma recente viagem de campo à Bacia Permiana, disse que a sofisticada rede de satélites da indústria obteve poucos resultados, pois os vazamentos representam um problema pequeno em comparação com as liberações intencionais de metano.

“Eles estão usando isso como desculpa para adiar a ação”, disse Wilson. “Observar o metano do espaço não vai impedir a emissão de metano.”

Talvez ainda mais preocupante do que a expansão da oferta de combustíveis fósseis seja o efeito sobre o consumo. Um estudo publicado em outubro revelou que anúncios gerados por IA superam os criados por humanos, e a facilidade com que podem ser prouzidos reduz drasticamente o custo de incentivar o consumo. O setor de marketing, já familiarizado com anúncios hiperpersonalizados e compras simplificadas, está se preparando para agentes de IA que poderão comprar presentes e reservar voos em nome do cliente. A Tui, maior operadora de viagens da Europa, afirma estar investindo fortemente em IA, à medida que as pessoas recorrem ao ChatGPT para reservar suas férias.

“A narrativa está realmente focada nessa comparação falsa entre a energia usada para operar a tecnologia e os casos de uso positivos”, disse Alpine. “Mas é perigoso omitir os casos de uso negativos.”

Algumas vozes pedem uma pausa, pelo menos até que regras melhores sejam implementadas. Em outubro, o relator especial da ONU para o direito humano à água potável pediu uma moratória no desenvolvimento de novos centros de dados, citando os impactos ambientais prejudiciais. Em dezembro, uma coalizão de mais de 230 grupos ambientalistas nos EUA exigiu uma moratória nacional até que esses centros de dados fossem regulamentados. A Comissão de Serviços Públicos da Irlanda suspendeu sua proibição de fato às conexões à rede elétrica, mas afirmou que 80% do consumo anual de eletricidade de um centro de dados deve vir, eventualmente, de novos projetos de energia renovável.

Outros defenderam que se pressione o setor para que faça o bem. A Espanha, único país a mencionar a IA em uma legislação climática, obriga o governo a promover a digitalização que possa ajudar a descarbonizar a economia. Laurence Tubiana, uma das arquitetas do Acordo de Paris sobre o clima, sugeriu a taxação da IA ​​para gerar os fundos necessários para impedir o aquecimento global.

Os alpinistas, que afirmam não ser contra a IA, mas apenas desejar “limites razoáveis” para a tecnologia, estão pressionando para que o projeto de lei da UE sobre IA classifique os combustíveis fósseis como uma aplicação de alto risco da tecnologia. Eles também querem que os investidores considerem as emissões geradas pela IA na avaliação das empresas em relação a métricas ambientais, sociais e de governança (ESG).

O Google e a xAI não responderam ao pedido de comentários. A OpenAI afirmou que dedica muita atenção à melhor utilização de seu poder computacional, apoia iniciativas com parceiros para atingir metas de sustentabilidade e acredita que a IA será fundamental no combate às mudanças climáticas.

A Microsoft afirmou que a transição energética é complexa e exige avançar de forma ética, com a tecnologia desempenhando um papel importante na descarbonização do setor. “Isso requer equilibrar as necessidades energéticas e as práticas industriais atuais, ao mesmo tempo que se inventam e implementam as do futuro”, disse um porta-voz.

Luccioni afirmou que, em vez de entrar em pânico com a IA, as pessoas deveriam pressionar as empresas para que criem ferramentas que sejam econômicas desde a sua concepção.

“Talvez eu seja um pouco ingênua, mas ainda acredito que a IA pode fazer bem no combate à crise climática – projetando a próxima geração de baterias, monitorando o desmatamento, prevendo furacões”, disse ela. “Há tantas coisas boas para as quais poderíamos usá-la – e, em vez disso, estamos criando sites de mídia social repletos de conteúdo gerado por IA, enquanto data centers são alimentados por geradores a diesel.”


Fonte: The Guardian

Porto do Açu: depois da grilagem de terras públicas, agora é a vez do aquífero Emboré

Concessão de água e terras levanta suspeitas e questionamentos legais

Denúncia aponta grilagem de terras públicas e exploração do aquífero Emboré no Porto do Açu, enquanto moradores ficam sem água / Foto: Reprodução 

Por Redação Ururau

Publicamos (Aqui!) uma denúncia sobre a grilagem de terras públicas no Porto do Açu, com vantagem indevida recebida por Sérgio Cabral quando foi governador do Estado do Rio de Janeiro. Os proprietários rurais jamais receberam as indenizações devidas, em meio a um constante troca-troca de peritos judiciais. Muitos processos sequer possuem sentença. Tudo caminha em direção ao favorecimento escandaloso dos interesses do Porto do Açu.

Como uma cidade do porte e da importância de São João da Barra está há mais de 200 dias sem juiz titular? Além disso, não há servidores suficientes do Tribunal de Justiça atuando na comarca. Mesmo assim, o Porto do Açu vendeu quase todas as áreas, sob o argumento de cessão de direitos de superfície. Até fundos de pensão da Faria Lima, investigados na Operação Carbono Oculto, aparecem como donos das terras.

Agora surge uma nova empresa, chamada “Águas do Porto do Açu” (Falamos da exploração do Aquífero Emboré (Aqui!). Essa empresa recebeu do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) uma concessão para explorar águas subterrâneas do aquífero Emboré. A partir daí, passou a vender água para todas as empresas já instaladas ou que venham a se instalar no Porto, embora a concessionária oficial de abastecimento em São João da Barra e na localidade do Açu seja a CEDAE.

Quem, dentro do INEA, assinou essa concessão? Inicialmente, foram perfurados 44 poços com profundidade superior a 200 metros. Não há fiscalização. O que a diretoria da CEDAE está fazendo que não reivindicou essa exploração, já que a concessão do serviço é da própria CEDAE?

Enquanto isso, a cidade de São João da Barra e o balneário de Atafona ficaram sem água nesta semana. Nesses locais, sequer é permitido abrir poços, por determinação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. É a chamada república do Leblon mandando em tudo.

No caso do Porto do Açu, ninguém sabe ao certo quem é o verdadeiro dono após a saída de Eike Batista. Alguns CPFs aparecem formalmente, mas o controlador real permanece desconhecido.

E quem pensa que a história termina aí está enganado. A empresa Águas do Porto do Açu vendeu o controle do negócio para a Ambipar, que, por sua vez, encontra-se em recuperação judicial. O advogado da empresa é filho de um influente ministro do STJ. Esse mesmo escritório teria ligações com um perito do Rio de Janeiro conhecido como Salomão, apontado como alguém que domina com extrema habilidade a indicação de perícias relacionadas ao Porto.

Dessa forma, após a grilagem de terras públicas, foi grilado também o aquífero Emboré, agora explorado pela Ambipar. As terras continuam pertencendo a proprietários que nunca foram indenizados, os processos não têm avaliação concluída, e a água, que é da CEDAE, está sendo comercializada por agentes estranhos à concessão.

Até agora, apenas Sérgio Cabral e Eike Batista foram condenados por propina. A mídia, porém, nunca tratou desse conjunto de fatos com a devida profundidade. O Porto do Açu e suas práticas permanecem blindados.


Fonte: Ururau