Reportagem sobre resíduos de agrotóxicos na água de consumo em Santa Catarina

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No dia 03 de março repercuti uma reportagem publicada pela Rede Brasil Atual [Aqui!] sobre um estudo feito pela pesquisadora Sonia Corina Hess da Universidade Federal de Santa Catarina do campus de Curitibanos sobre o processo da água de consumo em pelo menos 22 municípios catarinenses.

Hoje tive acesso a uma reportagem (ver vídeo abaixo) onde a professora Hess levanta questões importantes sobre os impactos da transformação do Brasil em uma espécie de lixeira química onde agrotóxicos banidos em outras partes do mundo estão sendo cada vez mais aprovados para comercialização.

Lamentavelmente, o caminho que está sendo adotado pelo governo Bolsonaro e vários governos estaduais é exatamente o contrário do que indica a pesquisadora da UFSC. Um exemplo disso foi a aprovação em tempo recorde de um “pacotinho do veneno” pela Assembleia Legislativa de São Paulo como informou hoje a Rede Brasil Atual.

Não custar nada notar a contradição que está posta neste momento entre as propostas de diminuição da rede hospitalar pública e o aumento do consumo de substâncias altamente tóxicos que estão contaminadas nossas águas e os alimentos que ingerimos cotidianamente. Uma hora dessas teremos uma grave epidemia de doenças causadas por agrotóxicos e não haverá quem as trate. Enquanto isso, o latifúndio agro-exportador e seus aliados nas diferentes esferas de governo continuam com sua folia.

Brasileiros não sabem quais agrotóxicos estão na água que consomem

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Estudos científicos apontam para crescente contaminação da água usada para consumo humano por resíduos de agrotóxicos.

Por Nadine Nascimento para o jornal Brasil de Fato

A produção agrícola responde por nada menos do que 70% do consumo mundial de água. Mas, ao mesmo tempo que depende desse recurso vital, a atividade também contribui para sua degradação. A poluição hídrica causada por práticas agrícolas insustentáveis, marcadas pelo abuso de​ agrotóxicos que escoam para rios, lagos e reservas subterrâneas, é um problema crescente em todo o mundo.

O Brasil, uma potência em agricultura industrial, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Só em 2017, cerca de 540 mil toneladas de ingredientes ativos desses produtos foram consumidas.

Hoje (22) é Dia Mundial da Água. Água potável segura é um direito humano, o que inclui o direito de as pessoas saberem o que tem na água que estão bebendo. A legislação brasileira define que os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal.

Para a professora da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, Gisela de Aragão Umbuzeiro, “a quantidade de agrotóxicos que hoje consta nesta portaria é pequena e não é representativa dos agrotóxicos que estão sendo usados no Brasil e poderiam causar algum efeito adverso”, levando em conta que o número de ingredientes ativos registrados no Brasil, 306, é 11 vezes maior do que os 27 analisados na água para consumo.

Outro ponto importante é a periodicidade dessas análises que ocorrem semestralmente, “elas são feitas muitas vezes fora ou distante da época do uso do agrotóxico na cultura, isso pode contribuir para que os resultados encontrados não correspondam à real situação da presença de agrotóxico na água”, acredita a médica sanitarista Telma Nery.

atrazina está banida da União Europeia desde 2004, mas aqui é o sexto pesticida mais comercializado com quase 29 mil toneladas, apenas em 2017. Ela também é o contaminador mais comumente encontrado na água. “A atrazina tem um importante efeito no sistema hormonal do ser humano, como também nos sistemas endócrino, reprodutor e neurológico. Quando em uma exposição crônica, ela pode trazer efeitos [negativos] nesses sistemas”, diz Nery.

Resistência

Um desafio complexo como a poluição hídrica pela agricultura requer múltiplas respostas. Segundo a FAO, organização ligada a Nações Unidas, em sua publicação “Mais pessoas, mais alimentos, água pior?”, a maneira mais eficaz de reduzir a pressão sobre ecossistemas aquáticos é atenuar a poluição na fonte.

São apontadas políticas de instrumentos regulatórios tradicionais, como padrões de qualidade da água, licenças de descarga de poluição, avaliações de impacto ambiental para certas atividades agrícolas e limites à comercialização e venda de produtos perigosos, entre outras intervenções.

“As grandes corporações são as que mais consomem água. Todo mundo sabe que quase 70% de toda a água disponível é usada para o agronegócio, e a contrapartida do ponto de vista de geração de emprego, de garantia de alimentos saudáveis é inversamente proporcional”, comenta Edson Aparecido da Silva, secretário executivo do Observatório Nacional dos Direitos a Água e ao Saneamento (ONDAS) e assessor de Saneamento da Fundação Nacional dos Urbanitários (FNU).

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Uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos potencializa contaminação de corpos aquáticos e do lençol freatico.

Silva esteve presente no Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), criado em 2018, que reuniu organizações e movimentos sociais que lutam mundialmente em defesa da água como direito elementar à vida. Este Fórum se contrapõe ao autodenominado Fórum Mundial da Água (FMA), um encontro promovido pelos grandes grupos econômicos que defendem a privatização das fontes naturais e dos serviços públicos de água. Entre as corporações interessadas na apropriação desse recurso e que patrocinaram o evento, estavam Ambev, Nestlé e Coca-Cola.

“Esse modelo de desenvolvimento da lógica do capital se sobrepõe a lógica da garantia dos direitos humanos e da preservação dos bens comuns. As articulações dos movimentos populares dos atingidos por grandes empreendimentos, como o caso do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ou da luta do Movimentos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que garantem uma produção sustentável sem agrotóxico e que dá condições dignas de vida para a população do campo, têm que ser cada vez mais fortalecidos”, afirmou Aparecido da Silva.


Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!]

Águas do Paraíba, aquela que não pode perder nunca

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No dia 05 de maio de 2018 descrevi neste blog a situação de minha conta de água cobrada pela concessionária Águas do Paraíba sob o título de “A Águas do Paraíba nunca perde, só ganha”.  Passado quase um ano e no primeiro mês de vigência do “muy generoso” aumento  de 10% concedido pelo jovem prefeito Rafael Diniz (PPS) nos valores que podem ser cobrados pelos serviços de fornecimento de água e tratamento de esgotos em Campos dos Goytacazes, a minha certeza é que para a Águas do Paraíba, do Grupo Águas do Brasil ou “Saneamento Ambiental Águas do Brasil” (leia-se Developer S.A. – Grupo Carioca Engenharia, Queiroz Galvão Participações – Concessões S.A., Trana Participações e Investimentos S.A. e Construtora Cowan S.A.), só é permitido vencer.

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Como cheguei à essa certeza? Pelo simples examinar da conta que recebi referente aos serviços supostamente prestados em fevereiro de 2019 (ver imagem abaixo).

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Como pode ser observado sou tipicamente um consumidor que fica abaixo do consumo de 10 m3 mensais, o que implica na cobrança do valor mínimo que é exatamente de 10 m3.  Mas como em Campos dos Goytacazes prevalece a esquisita equivalência entre água fornecida e esgoto tratado,  o valor da minha conta entre março de 2018 e janeiro de 2019 foi R$ 78,88.   Interessante notar que em janeiro, por motivo de viagem, meu consumo mensal foi de meros 2 m3, o que significou um sobrepreço de 8 m3 de água e esgoto!

Mas com o generoso reajuste concedido pelo jovem prefeito Rafael Diniz, a conta que era de R$ 78,88, agora é de R$ 87,26! E não sei se sou o único a pensar assim, sem que se veja grande melhoria nos serviços prestados pela Água do Paraíba.

O pior dessa situação é que para mim que sou funcionário público e possuidor de um salário acima da média, a majoração concedida por Rafael Diniz pode ser até vista com um agravante na minha impaciência com o que considero uma cobrança exagerada por um serviço que certamente não precisaria ser reajustado neste momento. Mas como ficam aquelas milhares de famílias que hoje contam cada centavo que possuem para pagar todas as contas e ainda terem algum para comprar comida? É que 10% de aumento na conta enviada pela Águas do Paraíba pode ser pouco para uma minoria, mas certamente é muito para a maioria.

E a troco de quê? A única coisa que me vem à cabeça é a manutenção dos lucros fabulosos dessa concessão extremamente generosa para os cofres do Grupo Águas do Brasil.  O problema é que a imensa maioria da população campista não é acionista da empresa e se vê hoje cativa de um monopólio privado de um bem essencial que é a água. Simples assim.

Agrotóxicos contaminam água da chuva e de poços artesianos no Mato Grosso

Pesquisa da Universidade Federal do MT realizada em Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio encontrou substâncias altamente tóxicas em poços localizados em escolas do campo e da cidade

Por Cida de Oliveira para a Rede Brasil Atual

 

REPRODUÇÃO/YOUTUBE

rio juruena no rastro dos agrotóxicosEm 2012, o Brasil despejou sobre suas lavouras 1,05 bilhão de litros de herbicidas, inseticidas e fungicidas. Só em Mato Grosso foram 140 milhões de litros, segundo o relatório de consumo de agrotóxicos em Mato Grosso.

 

São Paulo – Agrotóxicos considerados altamente tóxicos, como a trifluralina, e cancerígenos, como a atrazina, metolacloro e metribuzim, contaminam a água da chuva e de poços artesianos de escolasrurais e urbanas nos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio, na bacia do rio Juruena, no Mato Grosso.

Em quatro de seis amostras de poços foram detectados resíduos dos herbicidas atrazina e metolacloro. Mais da metade (55%) das amostras de chuva continham resíduos de pelo menos um tipo de agrotóxico entre os detectados (metolacloro, atrazina, trifluralina, malationa e metribuzim). O metolacloro foi o mais frequente, detectado em 86% das amostras contaminadas.

A conclusão é de uma pesquisa conduzida por Lucimara Beserra para seu mestrado em saúde coletiva, sob orientação de Wanderlei Antonio Pignati, professor e pesquisador do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Alunos e professores de três escolas rurais e três urbanas desses municípios participaram do estudo, coletando amostras da água da chuva e do poço em cada unidade escolar, como mostra o vídeo no final desta reportagem.

Exceto o poço da escola urbana de Sapezal, localizada no meio da cidade, os demais tinham no entorno plantações de soja, milho, algodão e girassol, em um raio de distância variando de 50 a 1.000 metros. 

A maioria de todas essas amostras contaminadas foi coletada em maio de 2015 e fevereiro de 2016, meses do período chuvoso, que favorece a infiltração de diversas substâncias no solo e nos lençóis freáticos. Maio coincide com o fim da safra agrícola de milho e de algodão, na qual ainda há pulverização de diversos agrotóxicos.

E fevereiro, com o início da colheita da soja e o plantio/colheita da safra de milho e o plantio de algodão, com intensas pulverizações de agrotóxicos. Agosto corresponde à entressafra da soja, período entre uma safra e outra, com descanso e preparação do solo, com pouca ou nenhuma pulverização. E a localização dos poços artesianos foi escolhida próxima a áreas de lavouras com uso desses produtos.

O estado é o maior consumidor brasileiro de agrotóxicos, e o Brasil, o maior consumidor mundial. Em  2012, o Brasil despejou sobre suas lavouras 1,05 bilhão de litros de herbicidas, inseticidas e fungicidas. Só em Mato Grosso foram 140 milhões de litros, segundo o relatório de consumo de agrotóxicos em Mato Grosso, de 2005 a 2012, do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) de Mato Grosso. 

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Ao comparar a contaminação conforme a localização das áreas, Lucimara Beserra constatou que a escola rural de Campo Novo do Parecis apresentou um número maior de amostras contaminadas (76,9%) em relação as demais escolas.

Mas isso não quer dizer que a área rural seja a mais contaminada. Uma nuvem de chuva pode ser deslocada pelo vento do seu local inicial de formação, e os agrotóxicos depois de suspensos no ar também podem sofrer deslocamento pelo vento, podendo contaminar outros lugares nos quais não houve a utilização desses produtos. Há pesquisas mostrando, por exemplo, contaminação por agrotóxicos em regiões do Ártico e da Antártica – onde não há atividade agrícola.

Independente do local, a contaminação depende da persistência de cada agrotóxico. O herbicida metolacloro, princípio ativo que teve maior frequência de detecção nas amostras de chuva, também encontrado nas amostras de água de poços artesianos, é uma substância de alta persistência, além de ser considerado muito perigoso ao ambiente (risco ambiental II).

O tempo de meia-vida do metolacloro na água é de 365 dias e no solo, 90 dias. Tais características, somadas ao alto consumo de agrotóxicos nos municípios, indica os motivos da detecção das substâncias nas três amostras do poço da escola urbana de Campo Novo do Parecis e na alta frequência de detecção nas amostras de chuva contaminadas dos três municípios.

A persistência da atrazina no ambiente é menor, bem como seu índice de solubilidade e volatilidade são menores se comparados ao metolacloro. Entretanto ainda possui potencial de contaminação de águas subterrâneas e chuva, sendo encontrado na água de quatro poços artesianos. Foi o segundo agrotóxico mais detectado nas amostras de chuva. O inseticida malationa, que teve maior concentração detectada nas amostras de chuva, também possui alta volatilidade e é considerado perigoso ao ambiente (risco ambiental III).

O projeto de pesquisa integrado sobre agrotóxicos, saúde, trabalho e ambiente na bacia do rio Juruena foi realizado em parceria com pesquisadores do Departamento de Química e da Faculdade de Nutrição da UFMT, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com apoio financeiro do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso (MPT-MT), por meio da Procuradoria Regional da 23ª Região.

A pesquisa atende assim à demanda do MPT por uma avaliação dos impactos do uso desses produtos à saúde e ambiente nessa região de alto número de ocorrências de violações aos direitos trabalhistas relacionadas ao agronegócio e agrotóxicos.

Para Lucimara Beserra, a contaminação da água da chuva e de poços artesianos expõem relações e processos que tornam a população e o meio ambiente vulneráveis, o que exige atenção e atuação da Vigilância em Saúde nesses territórios.


Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!]

Porto do Açu, um megaprojeto sem rede de água tratada. Teria a de tratamento de esgotos?

O site “Tribuna do Norte Fluminense” publicou hoje uma nota sobre os problemas afetando o megaempreendimento do Porto do Açu por causa da falta de um sistema de abastecimento de águas. Isto estaria deixando as empresas ali instaladas dependentes da empresa pertencente ao irmão de um vereador sanjoanense para adquirir água para suprir as necessidades básicas dos que trabalham no interior do Porto do Açu [1].

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Pois bem, para quem não se lembra a água que deveria estar abastecendo o Porto do Açu deveria estar chegando ao seu interior via um projeto de transposição das águas do Rio Paraíba do Sul e que levaria um montante que deveria suprir as necessidades de uma cidade com 2,8 milhões de habitantes [2]

A coisa não andou e o ex-bilionário Eike Batista provavelmente “esqueceu” de mencionar a existência deste projeto de adução ao pessoal da Prumo Logística Global quando fez a transação que passou o Porto do Açu para as mãos dos operadores do fundo de private equity com sede em Washington DC, capital dos EUA.

Agora o problema está instalado e como bem afirmou o pessoal do “Tribuna do Norte Fluminense“, a ausência de um sistema de abastecimento de água certamente está sendo notado por empresas que estejam potencialmente interessadas em se instalar dentro do Porto Açu.

Um detalhe adicional que deverá gerar mais complicações é que também parece faltar um sistema de tratamento de esgotos dentro do megaempreendimento que Eike Batista rapidamente passou para abater as dívidas bilionárias que resultaram da falência de seu conglomerado de empresas pré-operacionais.

Se a informação que disponho de que além de falta de sistema de abastecimento de água também não há sistema de tratamento de esgotos, a pergunta que surge é a seguinte: para onde está indo o esgoto in natura que é gerado diariamente no Porto do Açu?


[1] http://www.tribunanf.com.br/falta-agua-no-porto-do-acu/

[2] http://www.robertomoraes.com.br/2012/10/agua-do-rio-paraiba-para-o-complexo-e.html

Água de Araraquara (SP) apresenta contaminação por agrotóxicos utilizados na cana-de-açúcar, aponta estudo da Unicamp

Estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou que rios do município de Araraquara apresentam contaminantes agrotóxicos usados na cultura da cana-de-açúcar.

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O estado de São Paulo é o maior produtor de cana-de-açúcar do Brasil e o segundo em consumo de agrotóxicos. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e, apesar disso, pouco se avalia a presença destes contaminantes em água. O cultivo de cana-de-açúcar está entre as culturas brasileiras que mais utiliza agrotóxicos em termos de quantidade de ingrediente ativo.

Por serem substâncias utilizadas com o objetivo de evitar prejuízos às plantações no combate de organismos capazes de diminuir a produtividade, os agrotóxicos possuem características tóxicas específicas para as pragas, mas que podem causar efeitos indesejáveis a outros organismos não alvos mesmo em baixas concentrações.

O estudo realizado por Raphael D’Anna Acayaba, da Universidade de Campinas, teve por objetivo avaliar a presença dos agrotóxicos utilizados no cultivo de cana-de-açúcar mais consumidos no estado em corpos d’água localizados nas grandes regiões de cultivo. Um método analítico utilizando cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial e extração em fase sólida, como preparo de amostra, foi utilizado na verificação da presença de agrotóxicos permitidos para uso no cultivo da cana, sendo sete herbicidas (simazina, atrazina, ametrina, clomazona, diuron, hexazinona e tebutiuron) e dois inseticidas (carbofurano e imidacloprido). Ao todo, oito rios foram analisados em cinco amostras: Jacaré-Guaçu, do Ouro, Córrego Rico, Mogi-Guaçu, São Domingos, Turvo, Pardo e Sapucaí, entre outubro de 2015 e outubro de 2016, totalizando 38 amostras analisadas.

Dois rios de Araraquara foram selecionados para o estudo: o Rio Jacaré-Guaçu, sendo as amostras coletadas no trecho que liga Boa Esperança do Sul a Araraquara e o Rio do Ouro, cujas amostras foram coletadas no ponto da rodovia SP-255, no trecho próximo à Estação de Tratamento de Esgotos (Ete).

O rio Jacaré-Guaçu mostrou a presença predominante de herbicidas, com destaque para o tebutiuron, encontrado em todas as quatro amostras analisadas em concentrações que chegaram a 123 ng L-1, bem acima dos valores máximos preconizados em normativas internacionais. Na Comunidade Europeia, os valores máximos permitidos visando à prevenção de problemas de saúde pública e na minimização de riscos é de 0,50 µg/L para o parâmetro “Agrotóxico total”. As águas do rio Jacaré-Guaçú também apresentaram a incidência de inseticida (imidacloprido) em maior concentração na amostra colhida em junho de 2016. Outros inseticidas foram verificados no rio: imidacloprido, carbofurano, diuron e tebutiuron. Nas amostras analisadas entre março e outubro de 2016, sete dos nove agrotóxicos foram encontrados.

Situação ainda mais preocupante é a do rio do Ouro, por estar dentro do perímetro urbano. Neste rio, houve a predominância do agrotóxico imidacloprido, presente em todas as amostras analisadas em concentrações entre 18 e 62 ng L-1. Em janeiro, março e outubro de 2016, este inseticida foi detectado em concentrações maiores do que o somatório de todos os outros agrotóxicos. O estudo demonstrou, ainda, que as água do rio do Ouro estão contaminadas pelos herbicidas tebutiuron e hexazinona, com concetração que varia de 22 e 81 ng L-1.

Inseticida que apresentou maior incidência nas águas do rio do Ouro, o imidacloprido é da classe dos neonicotinoides de ação sistêmica, já proibido em toda União Europeia por ser comprovadamente danoso à saúde humana, para a biodiversidade e o meio ambiente.

De acordo com o pesquisador Raphael D’Anna Acayaba, muitos dos compostos registrados para uso no cultivo de cana-de-açúcar são neurotóxicos, possuem efeito negativo para a reprodução e/ou desenvolvimento, e são ou possuem potencial de carcinogenicidade, ou seja, de influenciar no surgimento de diferentes tipos de câncer.

No estudo, supervisionado pelas professoras Dra. Cassiana Montagner Raimundo e Dra. Gisela de Aragão Umbuzeiro, o pesquisador aponta que no Brasil, ao contrário do que se verifica internacionalmente, dos 85 ingredientes ativos que possuem uso permitido no cultivo de cana-de-açúcar, apenas sete possuem Valores Máximos Permitidos (VMP) na Resolução Conama 357/2005, instrumento legal que classifica os corpos de água superficiais e estabelece condições e padrões de lançamento de efluentes, e somente 10 são descritos na Resolução Conama 396/2008, que dispõe sobre a classificação e diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas. A Portaria do Ministério da Saúde nº 2.914/2011 que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano, apresenta Valores Máximos Permitidos para apenas 12 dos 85 ativos usados no cultivo da cana de açúcar.

Para Acayaba, “a elevada frequência de detecção nos rios, para alguns dos agrotóxicos investigados, indica um cenário preocupante para a biota aquática. Por esse motivo, os dados de ocorrência poderão ser usados para subsidiar futuras decisões no âmbito do gerenciamento da qualidade dos recursos hídricos”.

Alarmado com esses resultados, o vereador Edio Lopes (PT) apresentou projeto de lei com o objetivo de proibir a pulverização aérea de agrotóxicos no município. “Este estudo reforça nossa preocupação e luta pela proibição da prática, pois até a qualidade da nossa água já foi afetada”, entende.

As informações advêm da pesquisa intitulada “Ocorrência de agrotóxicos usados na cana-de-açúcar em corpos d’água do estado de São Paulo”, de autoria do mestre em Tecnologia e Ambiente, Raphael D’Anna Acayaba, concluída em fevereiro de 2017 e disponível em http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/322582/1/Acayaba_RaphaelD%27Anna_M.pdf.

Assessoria de imprensa do gabinete do vereador Edio Lopes (PT)

FONTE: http://www.camara-arq.sp.gov.br/site/index.php/agua-de-araraquara-apresenta-contaminacao-por-agrotoxicos-utilizados-na-cana-de-acucar-aponta-estudo-da-unicamp/

Brasileiros não sabem se tem agrotóxicos na água que bebem

O sistema nacional de monitoramento de água potável é vergonhosamente inadequado para detectar a ameaça de substâncias nocivas

Por RICHARD PEARSHOUSE E JOÃO GUILHERME BIEBER*

 AGROTOXICOS

 

No mês passado, visitamos uma pequena comunidade rural no norte do Brasil para ver como os agrotóxicos afetam as pessoas no campo. O Brasil, uma potência em agricultura industrial, é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Culturas como a de soja, de milho, de algodão e de cana-de-açúcar são cultivadas com enormes quantidades de agrotóxicos: cerca de 400 mil toneladas por ano. Dos 10 agrotóxicos mais utilizados no Brasil, 4 são proibidos na Europa, indicando quão prejudiciais são considerados para alguns padrões.

Moradores que conhecemos temem os danos que podem decorrer dos agrotóxicos e a retaliação que podem sofrer caso denunciem essa situação. Pediram-nos inclusive para não publicar o nome da comunidade – disseram que um fazendeiro, dono da plantação nas redondezas, havia ameaçado um membro da comunidade por organizar um abaixo-assinado pela redução da pulverização de agrotóxicos. A plantação do fazendeiro alcança casas, seus pequenos jardins e um pequeno campo de futebol; e a área termina a apenas cinco metros do poço utilizado pela comunidade para obter água potável.

O responsável por manter o poço nos contou que estava preocupado com a possibilidade de que os agrotóxicos pulverizados nas plantações de soja afetem o abastecimento de água da comunidade. Ele não sabe se sua preocupação é fundada, porque o governo não fez testes com a água desde que o poço foi instalado há três anos. “Estamos preocupados com a pulverização de agrotóxicos, mas também nos preocupamos com as ameaças, por isso não queremos falar muito sobre isso”, ele disse com um riso sem jeito. “Isso é o que enfrentamos aqui”.

Hoje é o Dia Mundial da Água. Água potável segura é um direito humano, incluindo o direito das pessoas saberem o que tem na água que estão bebendo. Sabemos que os resíduos de agrotóxicos podem escoar com a água da chuva pela superfície e atingir aquíferos que são muitas vezes fonte de água potável.

Alguns países testam regularmente o abastecimento de água potável para verificar a presença de agrotóxicos e disponibilizam os resultados para a população. No Brasil, na prática, isso não ocorre. Fizemos um pedido com base na lei de acesso à informação para obter os resultados dos testes nacionais de resíduos de agrotóxicos na água potável realizados entre 2014 a 2017. Descobrimos que, apesar das obrigações legais, sistemas de abastecimento de água raramente são testados.

Por lei, os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas de água que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal. Mas, a cada ano, uma média de 67% dos municípios em todo o país não envia nenhuma informação ao governo federal – e isso em um país que é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. O governo federal não tem ideia de quão contaminada pode estar a água potável no Brasil, ou mesmo sobre os males que pode estar causando a sua população.

Mesmo nos municípios que enviam as informações, a maioria dos testes está incompleta. Dos resultados apresentados em 2014, apenas 18% refletiam testes completos, realizados duas vezes por ano para detectar todos os 27 agrotóxicos, conforme exigido por lei.

Simplificando: o sistema brasileiro de monitoramento de água potável é vergonhosamente inadequado para detectar a ameaça de perigosos agrotóxicos.

Mesmo com este sistema mal estruturado, as autoridades brasileiras conseguem identificar alguns municípios onde a água potável contém resíduos de agrotóxicos acima dos limites legais. Na verdade, 15% do pequeno número de municípios que apresentaram os resultados dos testes durante este período de quatro anos encontraram pelo menos uma substância acima do limite legal.

Que tipo de substâncias são encontradas? Os agrotóxicos mais comuns não têm nomes muito conhecidos – aldrin, dieldrina, clordano e endrina –, mas todos são danosos à saúde humana. Essa vasta gama de inseticidas foi banida no Brasil na década de 1990, mas são tão persistentes que aparecem na água potável mesmo depois de décadas.

Quem se preocupa com o que está na água conta com poucas opções. Sem um sistema de teste abrangente, a melhor informação vem de estudos acadêmicos. Em 2016, pesquisadores publicaram o primeiro levantamento nacional brasileiro de contaminantes emergentes na água potável. Depois de cafeína – substância que indica a existência de esgoto não tratado –, o segundo contaminante mais comumente encontrado na água foi o herbicida atrazina, presente em 75% das amostras de todo o país.

A atrazina é legalmente permitida no Brasil. Seus níveis residuais na água estavam bem abaixo do limite legal, mas estudos recentes em animais mostram que, mesmo em baixas doses durante longos períodos, a atrazina pode ser um disruptor endócrino, interferindo nas funções reprodutiva, neural e de imunidade.

Pesquisadores detectaram a atrazina acima do limite permitido na água potável em dois municípios rurais no estado de Mato Grosso – Lucas do Rio Verde e Campo Verde. E o carbofurano, outro componente químico perigoso para a saúde humana, foi encontrado acima dos níveis permitidos em amostras de poços de água em Quitéria, uma área rural perto de Rio Grande, uma cidade no sul do país.

O que tudo isso significa? O Brasil usa grandes quantidades de agrotóxicos que comprometem o meio ambiente de seus cidadãos, e as autoridades têm fracassado em garantir que o abastecimento de água potável não esteja contaminado com níveis prejudiciais desses agrotóxicos. E isso é perigoso. O Brasil precisa adotar um sistema de monitoramento eficaz de água potável para garantir que seu abastecimento seja devidamente testado contra agrotóxicos e que os resultados sejam disponibilizados ao público.

 * Richard Pearshouse é diretor-adjunto para a divisão de meio ambiente e direitos humanos da Human Rights Watch. João Guilherme Bieber é consultor da Human Rights Watch.

 FONTE: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/22/opinion/1521719118_790598.html

Metais pesados, hormônios e agrotóxicos estão na água que chega às torneiras

Análises apontam contaminação em amostras de fontes de abastecimento de SP, RJ, SC e CE, inclusive de água que passou por estação de tratamento. E as concentrações vão muito além do limite permitido.
Água contaminada com metais pesados

O controle da qualidade da água para abastecimento público segue uma regulamentação falha, que exclui de sua lista de produtos tóxicos os contaminantes perigosos que vão para o copo da população

Por Cida de Oliveira 

 São Paulo – Medicamentos, hormônios sintéticos, metais pesados como chumbo, cádmio, alumínio e urânio e compostos orgânicos nocivos à saúde e ao meio ambiente, entre eles o agrotóxico glifosato, estão na água aparentemente pura e cristalina que chega às torneiras da população. Provenientes do esgotos doméstico e industrial, além de atividades agropecuárias, despejados em mananciais destinados ao consumo humano, atravessam estações de tratamento que adotam processos inócuos e obsoletos, que seguem protocolos defasados e parâmetros científicos superados.

A advertência é da engenheira química e professora titular do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess. Autora de pareceres técnicos para órgãos públicos, como defensorias e promotorias, a especialista é organizadora de um livro em fase de edição na Editora Expressão Popular, que reúne ensaios sobre poluição e doenças no Brasil. No capítulo de sua autoria, Sonia reúne dados de suas pesquisas, além de outros cientistas nacionais e estrangeiros que apontam para a necessidade de o poder público priorizar políticas relativas ao acesso à água e, principalmente, o tratamento de esgotos.

“No Brasil, coletamos apenas 57% dos esgotos gerados, e tratamos apenas 45% do total. É por isso que a cada verão as praias ficam impróprias para banho, inclusive em Santa Catarina. Quanto mais gente, mais esgoto… Nas regiões de pecuária intensiva, o problema é pior ainda. As águas recebem grandes quantidades de dejetos, resíduos de agrotóxicos e de medicamentos utilizados nas granjas. Também por isto nossos rios estão totalmente poluídos”, explica a professora. 

É destes rios, conforme lembra, que sai a maior parte da água que vai para abastecimento público. “Ou seja, jogamos esgotos sem tratamento nas mesmas águas que captamos para beber depois. As águas que passam pelas estações de tratamento para o abastecimento, em geral, ficam livres de microorganismos patogênicos, mas ainda contêm resíduos de substâncias químicas potencialmente perigosas. Também é triste verificar que nem todo esgoto coletado é tratado. As próprias empresas de saneamento fazem a coleta, para dar fim aos esgotos a céu aberto, e os lançam no ambiente, sem tratamento”, destaca. “Em São Paulo, estado mais rico da federação, dados oficiais mostram coleta de 87% e tratamento de 62%. Ou seja, 25% do esgoto que é coletado não é tratado”.

Conforme o Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, relativo a 2016, apenas 57% do esgoto é coletado no Brasil. E desse total, 74,87% recebe tratamento, conforme a tabela.

tratamento de esgoto no Brasil

Amostras contaminadas

Entre os estudos que constatam a presença de contaminantes tóxicos, que causam doenças graves, em mananciais que abastecem a população de grandes cidades Sonia Hess destaca o realizado na bacia do rio Atibaia, que abastece a população de Campinas (SP).

Ali os pesquisadores identificaram a presença de agentes químicos nas 26 amostras colhidas. São medicamentos como acetaminofeno, ácido acetil salicílico, diclofenaco, os hormônios sintéticos 17α-etinilestradiol, levonorgestrel, 17β-estradiol e progesterona, além de substâncias usadas na indústria plástica, como o bisfenol A e o dibutilftalato, e cafeína, indicador da contaminação de águas por esgotos.

O artigo original pode ser acessado por aqui. “É importante observar que as concentrações de bisfenol A e o dibutilftalato  são superiores ao mínimo necessário para causar efeitos nocivos em seres humanos em animais”, diz Sonia.

Esses hormônios artificiais encontrados pelos pesquisadores, que os químicos chamam de interferentes endócrinos, imitam a ação de hormônios femininos naturais e confundem os organismos, causando distúrbios em animais e seres humanos. Em mulheres, aumenta as chances de endometriose, câncer de mama e de útero. Em homens, crescimento das mamas, redução da libido, impotência e queda na contagem de espermatozoides.

Quanto ao bisfenol A, usado na indústria plástica, há associação comprovada de aumento de células de diversos tipos de câncer, como de mama, próstata e pâncreas, além de alterações endocrinológicas. E o dibutilftalato, da classe dos ftalatos, usados na produção de PVC, entre outros materiais, guarda correlação com alterações endocrinológicas que, entre outras coisas, causam resistência à ação da insulina e obesidade em humanos. Clique aqui para saber mais.

Em 2015, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo em Santo André encomendou à especialista um parecer sobre a qualidade da água tratada que abastece o município. No relatório, ela aponta a presença dos metais pesados cádmio, chumbo, urânio e alumínio, o agrotóxico glifosato e seus derivados, e compostos orgânicos chamados trihalometanos. Ou seja, todos esses agentes tóxicos passaram pelos processos de tratamento.

O relatório, que pode ser lido na íntegra (clique aqui para acessar), lista as substâncias encontradas na água proveniente de três estações de tratamento, suas concentrações geralmente acima dos limites estabelecidos pelo Ministério da Saúde, e as doenças comprovadamente desencadeadas por esses agentes tóxicos.

Para se ter uma ideia, uma amostra de água tratada em uma das estações, a ETA Rio Grande, coletada em março de 2014, auge da crise hídrica no estado de São Paulo devido à falta de investimentos do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no setor, ultrapassou a concentração máxima de chumbo permitida pela Portaria 2.914/2011. A norma, do Ministério da Saúde, regulamenta o controle e a vigilância da qualidade da água para consumo humano, estabelece o valor máximo permitido (VMP) para 64 substâncias químicas inorgânicas e orgânicas, produtos secundários da desinfecção e para 27 agrotóxicos.

“Foi detectada a presença desse metal pesado em concentrações que alcançaram 80% e 140% do valor máximo permitido, respectivamente”, destaca Sonia. 

O chumbo está associado à elevação da pressão arterial, comprometimento da função cardíaca, dores abdominais, alterações endocrinológicas e no sistema reprodutor, anemia, hipotireoidismo, transtornos mentais e doenças renais, entre outras.

Regulamentação falha

A especialista da UFSC chama atenção ainda para falhas na regulamentação do controle da qualidade da água para consumo humano no Brasil. A Portaria 2.914 do Ministério da Saúde, segundo ela, é falha porque exclui de sua lista de produtos tóxicos muitos dos poluentes detectados na bacia do rio Atibaia. “Dentre os ftalatos, apenas o di(2-etilhexil) ftalato está incluso. É evidente a necessidade de revisão, para que sejam incluídos os limites máximos permitidos em águas de abastecimento público, de diversos poluentes extremamente danosos à saúde humana, que ainda não constam na lista das substâncias com monitoramento obrigatório em água potável”, aponta.

A portaria exclui também o alumínio, cujos sais são usados como coagulantes no processo de purificação nas estações de tratamento, que permanecem na água. Ao ser ingerido, se acumulam nos ossos, rins e cérebro. “Há evidências que a substância cause problemas renais, anemia e alterações neuro-comportamentais em humanos após a exposição a doses excessivas. Estudos têm cada vez mais associado a crescente incidência de mal de Alzheimer e de Parkinson ao consumo de água de abastecimento. Para os técnicos que elaboraram a portaria, não havia evidências suficientes que justificassem alteração”, afirma.

Outra classe de agentes tóxicos muito provavelmente presentes na água distribuída à população é a dos trihalometanos (THMs), que podem resultar da reação química entre o cloro usado para evitar a proliferação de microorganismos e a matéria orgânica presente como poluente, caso dos agrotóxicos, por exemplo. Entre os THMs formados estão o clorofórmio, o diclorobromometano, o dibromoclorometano e o bromofórmio, substâncias que foram detectadas em amostras de dois diferentes mananciais de abastecimento de Florianópolis (SC), em Fortaleza (CE) e na rede de distribuição de água potável da Baixada de Jacarepaguá (RJ) em quantidades acima dos limites estabelecidos.

Isso merece atenção porque, já em 1974, estudos realizados nos Estados Unidos associaram a presença desses agentes na água de abastecimento e o desencadeamento de câncer na população.

Sonia defende também a revisão dos limites para nitratos e nitritos, cuja ingestão pode causar sérios danos à saúde humana. Portaria do Ministério a Saúde estabelece limite de 10 mg/L de águas de abastecimento. Porém, essa concentração é suficiente para desencadear doenças graves, como a metemoglobinemia, conhecida como síndrome do bebê azul. Como nitratos e nitritos nas águas provêm da contaminação por esgotos, o único jeito é melhorar os índices de tratamento de esgotos no país”. 

Pesquisas mostram que os nitritos e nitratos, usados como conservantes e antibactericidas, podem se transformar em nitrosaminas, substâncias causadoras de câncer de estômago, entre outros.

“Dá para entender, aos poucos, por que o câncer mata mais de 200 mil pessoas ao ano no Brasil, não é? É uma doença proveniente da poluição, e a água é bem relevante nisto, já que constitui-se no nosso principal alimento. Alternativas para eliminar poluentes tóxicos das águas de abastecimento existem, como a aplicação de ozônio, a ultrafiltração, a nanofiltração e a osmose reversa. Como é possível atualizar os limites para a presença desses poluentes que já foram ultrapassados e não há outros mananciais disponíveis para o abastecimento público?”, questiona Sonia Hess.

Na mira da privatização, água estará em debate

Brasília sediará dois grandes eventos para discutir a ampla e complexa temática da água. De 17 a 22 de março, movimentos sociais de diversos países farão o Fórum Alternativo Mundial da Água – FAMA 2018. O evento é um contraponto ao 8º Fórum Mundial da Água, que vai de 18 a 23 de março. Entidades governamentais, científicas e empresarias vão se reunir em evento que tem a Sabesp e o governo de São Paulo entre os patrocinadores. Na pauta, a consolidação de acordos para avanço da privatização do setor. O encontro é tão estratégico que o governo Temer quer uma força tarefa EBC na cobertura. O Senado terá uma subcomissão temporária para tratar do Fórum. O grupo funcionará no âmbito da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE).

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2018/03/esgoto-hormonios-metais-pesados-e-agrotoxicos-estao-em-amostras-de-agua-que-chega-as-torneiras

Brasil tem 5 mil vezes mais agrotóxicos na água do que países europeus

glifosato

Pesquisa recente da pesquisadora e professora de Geografia Agrária da USP, Larissa Bombardi, sobre o alto índice de agrotóxicos que consumimos no Brasil e os reflexos para a saúde espantam. Mortes por intoxicação e suicídio são alguns dos casos citados pela especialista em seu trabalho mais recente, que resultará no livro Geografia Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil.

O estudo, em fase de finalização, reúne os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país. São mais de 60 mapas entre os anos de 2007 a 2014. O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto, até a década passada, ocupado pelos EUA.

“O glifosato, herbicida mais vendido no Brasil, e causador de câncer é 5 mil vezes maior na água potável por aqui do que na União Européia. Inclusive em algumas praças e parques públicos, ele é utilizado para capinar. Há muitas prefeituras utilizando também à beira da estrada. Por que é seguro aqui e não é lá fora? 30% dos agrotóxicos que são usados no Brasil são proibidos na União Européia”, alerta ela sobre a permissividade brasileira em relação a outros países.

Projeto de Lei em São Paulo

O cenário é realmente desesperador, contudo, alguns sinais de mudança começam a aparecer. A Câmara dos Vereadores de São Paulo aprovou, na última semana, o PL 891/2013, que proíbe o uso de agrotóxicos que contenham em sua composição 20 tipos diferentes de princípios ativos. Entre os elementos vetados, está o glifosato.

Conforme descrito no artigo 1o da lei, “ficam proibidos na cidade de São Paulo o uso e a comercialização de agrotóxicos que apresentem em sua composição os seguintes princípios ativos: abamectina, acefato, benomil, carbofurano, cihexatina, endossulfam, forato, fosmete, glifosato, heptacloro, lactofem, lindano, metamidofós, monocrotofós, paraquate, parationa metílica, pentaclorofenol, tiram, triclorfom e qualquer substância do grupo químico dos organoclorados e que tenha sido banida em seu país de origem”.

Da Redação Ecoguia, com informações da Agência Brasil

Investigação na madrugada

agrotoxicos

Como não encontra dados sobre a contaminação das águas e do solo brasileiros por pesticidas, Jean Remy Guimarães decidiu, em uma noite insone, investigar relatórios franceses sobre o tema. Veja o que ele descobriu.

 Por Jean Remy Davée Guimarães*

Segundo os folhetos de promoção de pesticidas, eles são eficientes, claro, mas também seletivos, e ainda têm o bom gosto de permanecer nos locais onde são aplicados, por terem baixa mobilidade. E mais: caso acabem indo parar onde não devem, não haveria problema, porque eles têm baixa toxicidade. Afinal, são produtos de tecnologia de ponta, aprovados por autoridades nacionais e internacionais, usados em dezenas de países – e há centenas de estudos comprovando sua eficiência e segurança. Uma maravilha!

Já dissecamos aqui, em penoso exercício, as entranhas do processo de avaliação e autorização de pesticidas em órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), cujas deliberações norteiam as decisões dos países membros, que aprovam se a OMS aprovar. Sabemos que os pesticidas não são terríveis apenas contra os insetos e outras supostas pragas devido ao grande número de intoxicações letais e subletais em agricultores. Ouvimos sempre que esses ‘acidentes’ acontecem devido à falta de cuidado na aplicação dos produtos. Que povinho ignorante e teimoso, não é mesmo?

Mas, como a maioria da população vive em cidades e não socializa com agricultores, está mais preocupada com a eventual contaminação dos alimentos que chegam à sua mesa. A cada ano, os relatórios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os níveis de pesticidas em alimentos no país justificam e renovam esta preocupação, já que são tristemente repetitivos – o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (Para) costuma indicar o pimentão, o morango e o pepino como os alimentos com maior número de amostras contaminadas por agrotóxico.  Em 2010, por exemplo, 90% das amostras de pimentão, 63% das de morango e 58% das de pepino tinham resíduos de agrotóxicos acima do permitido, ou continham agrotóxicos não autorizados para aquele cultivo, ou juntavam os dois predicados. Tomate, alface e abacaxi também frequentam as listas dos mais contaminados.

Ouviremos novamente que isto se deve à falta de cuidado dos agricultores e à pouca fiscalização por parte do governo. Irei dormir aliviado, já que os dois problemas têm solução. Epa, mas… se têm solução, por que seguem sendo problema? Pronto, insônia garantida. Ok, se os agricultores e o governo tomarem vergonha, haverá menos resíduos de pesticidas na comida. E, se pararmos de usar pesticidas, não haverá mais resíduo dos mesmos na comida.

Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos?

Será? Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos? Quem sabe já dormi e não percebi, é sonho ou pesadelo, já que os pesticidas ficam quietinhos no lugar de aplicação, coisa que eu também devia fazer para pegar no sono em vez de procurar piolho em pedra. Piolho? Inseticida nele.
 

Descobrindo (a falta de) dados

A estas alturas, já saí da cama e caí na rede. Em poucos cliques, coleciono vários trabalhos acadêmicos sobre níveis de pesticidas diversos em água de rio, água subterrânea, solo e sedimento em diferentes pontos do país. É um pepino ou um abacaxi? Há como descascá-lo? Quem vai cuidar disso, e como? Quanto vai custar fazer algo a respeito, quanto custará deixar para lá?

Agora que acordei de vez, me pergunto: se há relatórios oficiais anuais sobre pesticidas em alimentos no país, deve haver algo parecido sobre pesticidas no ambiente, certo? Claro, o Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo, imagina se não vai haver. E, assim, descobri um método infalível de pegar no sono, que foi buscar por esta informação nos sites do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, da Embrapa. Achei fragmentos, notas, referências, links para conteúdo externo ou um ou outro estudo, mas nada sistemático, muito menos de abrangência nacional. E anual? Fala sério…
 

O caso francês

Mas o pior estava por vir. A dúvida tira o sono, mas a inveja tira mais ainda. Buscando em outros países o equivalente do relatório que meu próprio país me nega, topei com este cruel link francês (a França, de novo…) ao buscar por “pesticides + eau” no site do Ministério do Meio Ambiente, da Energia e do Mar daquele país. São seis documentos completos sobre a distribuição geográfica dos níveis de pesticidas em água de rio e água superficial, a distribuição dos pontos com níveis acima das normas, listas e gráficos com os pesticidas mais encontrados e seus produtos de degradação, links para download (que funciona) de mapas em PDF, planilhas em Excel. Imagine o mapa de um país de área próxima a de um único estado do Brasil, São Paulo, em que são plotados dados de mais de 2.200 pontos de coleta. Considere, ainda, que esses dados são atualizados a cada dois ou três anos. É muita humilhação para um cidadão de um país que está ferozmente empenhado no desmonte da legislação ambiental árdua e timidamente conquistada nas últimas décadas.

Mas chega de autoflagelação, vamos a alguns dos interessantes dados do relatório em questão.

Em 2013, 21,6% das amostras de água subterrânea estavam fora das normas nacionais para pesticidas. Oitenta e cinco compostos de pesticidas ultrapassaram as normas mais de uma vez e 14 ultrapassaram mais de dez vezes. Apenas 30% das amostras não apresentaram níveis detectáveis de pesticidas. A maioria dos compostos detectados em águas subterrâneas foram herbicidas e fungicidas de uso agrícola e/ou seus produtos de degradação. Já em territórios ultramarinos como a Martinica, metade das amostras estavam fora das normas – neste caso, por herança maldita do pesado uso de pesticidas nos cultivos de banana na ilha. Imagino que, ali, os que podem devem ser grandes consumidores de água mineral Vittel e Vichy, importadas da metrópole.

Na Martinica, o relatório revela ainda teores acima dos limites mesmo para pesticidas já proibidos há anos ou mesmo décadas, tais como dieldrin, proibido em 1994, e chlordecona e atrazina, proibidas em 2003.

Já nos cursos d´água da França, os pesticidas mais detectados são o AMPA, produto de degradação do glifosato, presente em 56% das amostras, e o próprio glifosato, registrado em 38% das amostras, seguidos dos diversos produtos de degradação da persistentíssima atrazina, banida há mais de 13 anos.

Se há tanto e tantos pesticidas em água de rio e água subterrânea, eu esperaria que também estivessem presentes na água de torneira. Mas isso é outro relatório, no site de outro ministério, e fica para outro dia.

Jean Remy Davée Guimarães, é professor e pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4885/n/investigacao_na_madrugada