Investigação na madrugada

agrotoxicos

Como não encontra dados sobre a contaminação das águas e do solo brasileiros por pesticidas, Jean Remy Guimarães decidiu, em uma noite insone, investigar relatórios franceses sobre o tema. Veja o que ele descobriu.

 Por Jean Remy Davée Guimarães*

Segundo os folhetos de promoção de pesticidas, eles são eficientes, claro, mas também seletivos, e ainda têm o bom gosto de permanecer nos locais onde são aplicados, por terem baixa mobilidade. E mais: caso acabem indo parar onde não devem, não haveria problema, porque eles têm baixa toxicidade. Afinal, são produtos de tecnologia de ponta, aprovados por autoridades nacionais e internacionais, usados em dezenas de países – e há centenas de estudos comprovando sua eficiência e segurança. Uma maravilha!

Já dissecamos aqui, em penoso exercício, as entranhas do processo de avaliação e autorização de pesticidas em órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), cujas deliberações norteiam as decisões dos países membros, que aprovam se a OMS aprovar. Sabemos que os pesticidas não são terríveis apenas contra os insetos e outras supostas pragas devido ao grande número de intoxicações letais e subletais em agricultores. Ouvimos sempre que esses ‘acidentes’ acontecem devido à falta de cuidado na aplicação dos produtos. Que povinho ignorante e teimoso, não é mesmo?

Mas, como a maioria da população vive em cidades e não socializa com agricultores, está mais preocupada com a eventual contaminação dos alimentos que chegam à sua mesa. A cada ano, os relatórios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os níveis de pesticidas em alimentos no país justificam e renovam esta preocupação, já que são tristemente repetitivos – o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (Para) costuma indicar o pimentão, o morango e o pepino como os alimentos com maior número de amostras contaminadas por agrotóxico.  Em 2010, por exemplo, 90% das amostras de pimentão, 63% das de morango e 58% das de pepino tinham resíduos de agrotóxicos acima do permitido, ou continham agrotóxicos não autorizados para aquele cultivo, ou juntavam os dois predicados. Tomate, alface e abacaxi também frequentam as listas dos mais contaminados.

Ouviremos novamente que isto se deve à falta de cuidado dos agricultores e à pouca fiscalização por parte do governo. Irei dormir aliviado, já que os dois problemas têm solução. Epa, mas… se têm solução, por que seguem sendo problema? Pronto, insônia garantida. Ok, se os agricultores e o governo tomarem vergonha, haverá menos resíduos de pesticidas na comida. E, se pararmos de usar pesticidas, não haverá mais resíduo dos mesmos na comida.

Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos?

Será? Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos? Quem sabe já dormi e não percebi, é sonho ou pesadelo, já que os pesticidas ficam quietinhos no lugar de aplicação, coisa que eu também devia fazer para pegar no sono em vez de procurar piolho em pedra. Piolho? Inseticida nele.
 

Descobrindo (a falta de) dados

A estas alturas, já saí da cama e caí na rede. Em poucos cliques, coleciono vários trabalhos acadêmicos sobre níveis de pesticidas diversos em água de rio, água subterrânea, solo e sedimento em diferentes pontos do país. É um pepino ou um abacaxi? Há como descascá-lo? Quem vai cuidar disso, e como? Quanto vai custar fazer algo a respeito, quanto custará deixar para lá?

Agora que acordei de vez, me pergunto: se há relatórios oficiais anuais sobre pesticidas em alimentos no país, deve haver algo parecido sobre pesticidas no ambiente, certo? Claro, o Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo, imagina se não vai haver. E, assim, descobri um método infalível de pegar no sono, que foi buscar por esta informação nos sites do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, da Embrapa. Achei fragmentos, notas, referências, links para conteúdo externo ou um ou outro estudo, mas nada sistemático, muito menos de abrangência nacional. E anual? Fala sério…
 

O caso francês

Mas o pior estava por vir. A dúvida tira o sono, mas a inveja tira mais ainda. Buscando em outros países o equivalente do relatório que meu próprio país me nega, topei com este cruel link francês (a França, de novo…) ao buscar por “pesticides + eau” no site do Ministério do Meio Ambiente, da Energia e do Mar daquele país. São seis documentos completos sobre a distribuição geográfica dos níveis de pesticidas em água de rio e água superficial, a distribuição dos pontos com níveis acima das normas, listas e gráficos com os pesticidas mais encontrados e seus produtos de degradação, links para download (que funciona) de mapas em PDF, planilhas em Excel. Imagine o mapa de um país de área próxima a de um único estado do Brasil, São Paulo, em que são plotados dados de mais de 2.200 pontos de coleta. Considere, ainda, que esses dados são atualizados a cada dois ou três anos. É muita humilhação para um cidadão de um país que está ferozmente empenhado no desmonte da legislação ambiental árdua e timidamente conquistada nas últimas décadas.

Mas chega de autoflagelação, vamos a alguns dos interessantes dados do relatório em questão.

Em 2013, 21,6% das amostras de água subterrânea estavam fora das normas nacionais para pesticidas. Oitenta e cinco compostos de pesticidas ultrapassaram as normas mais de uma vez e 14 ultrapassaram mais de dez vezes. Apenas 30% das amostras não apresentaram níveis detectáveis de pesticidas. A maioria dos compostos detectados em águas subterrâneas foram herbicidas e fungicidas de uso agrícola e/ou seus produtos de degradação. Já em territórios ultramarinos como a Martinica, metade das amostras estavam fora das normas – neste caso, por herança maldita do pesado uso de pesticidas nos cultivos de banana na ilha. Imagino que, ali, os que podem devem ser grandes consumidores de água mineral Vittel e Vichy, importadas da metrópole.

Na Martinica, o relatório revela ainda teores acima dos limites mesmo para pesticidas já proibidos há anos ou mesmo décadas, tais como dieldrin, proibido em 1994, e chlordecona e atrazina, proibidas em 2003.

Já nos cursos d´água da França, os pesticidas mais detectados são o AMPA, produto de degradação do glifosato, presente em 56% das amostras, e o próprio glifosato, registrado em 38% das amostras, seguidos dos diversos produtos de degradação da persistentíssima atrazina, banida há mais de 13 anos.

Se há tanto e tantos pesticidas em água de rio e água subterrânea, eu esperaria que também estivessem presentes na água de torneira. Mas isso é outro relatório, no site de outro ministério, e fica para outro dia.

Jean Remy Davée Guimarães, é professor e pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4885/n/investigacao_na_madrugada

Acesso à água no Brasil: relatório do Banco Mundial destaca problemas, desigualdades e riscos futuros

Thousands Of Dead Fish Found Near Rio Olympic Sailing Venue

O Banco Mundial acaba de disponibilizar um interessante relatório sobre a situação da água no Brasil intitulado “Retomando o caminho para a inclusão, crescimento e sustentabilidade” . Na prática, esse relatório oferece um raio-X bastante apurado sobre alguns aspectos do acesso, uso e gargalos para o uso da água em nosso país. 

É interessante notar a atualidade dos dados que cobrem várias áreas importantes da questão do acesso à água. Assim, ainda que as visões que emanam do Banco Mundial sejam essencialmente pró-mercado, os dados que estão disponibilizados no relatório podem ser usados para outras finalidades, inclusive por aqueles setores que se interessam por uma efetiva democratização do acesso à água e saneamento no Brasil. Aliás, um fato que o relatório deixa claro é que a condição atual é pouco democrática, já que os segmentos mais ricos da população possuem acesso mai qualificado tanto à água como saneamento.

O texto abaixo é de autoria do Banco Mundial e descreve de forma genérica os principais elementos contidos no documento. A tradução para o português é de minha responsabilidade pessoal.

Aos interessados em baixar o documento,  basta clicar (Aqui!)

Se o Brasil tem cerca de um quinto das reservas de água do mundo, então por que são cada vez mais freqüentes as notícias de escassez?

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Mariana Ceratti/World Bank

Há muitas respostas para essa questão, que vão desde a forma como os recursos hídricos estão geograficamente distribuídos, a degradação das áreas circundantes das bacias hidrográficas, as mudanças climáticas, e a infraestrutura de distribuição deficiente.

Os setores que mais contribuem para o desenvolvimento da economia também são os mais dependentes de água. Por exemplo, 62% da energia do Brasil é gerada através de hidrelétricas. A água é essencial para a agricultura, que é outro importante setor da economia do país. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), a irrigação consume 72% do suprimento de água no Brasil.

Esta dependência significa que quando há escassez de água – como evidenciado pela experiência em São Paulo em 2014 e 2015 – a produtividade dos diferentes setores econômicos pode ficar sob risco.

Estes tópicos e outros tópicos são examinados por novo relatório do Banco Mundial, o Diagnóstico Sistemático do Brasil, que discute como os recursos naturais podem contribuir para o desenvolvimento econômico do país.

“Por alguns meses em São Paulo, não era claro se tais como as indústrias do setor do alumínio, que consomem vastas quantidades de água, poderiam continuar  no mesmo nível de produção de antes da crise”, disse Gregor Wolf, chefe do  Programa de Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial no Brasil.

O relatório analisa os principais aspectos da gestão dos recursos hídricos no Brasil e  os principais obstáculos que devem ser superados a fim de alcançar um modelo sustentável e abrangente de uso.

Água, florestas e cidades

À luz da crescente evidência científica sobre o desmatamento, degradação florestal e de mudanças nos padrões de chuva, o relatório adverte que crises de água, como a que ocorre atualmente em São Paulo. Este fato pode se tornar comum nas próximas quatro décadas. Esses eventos poderiam afetar o abastecimento de água, a produção agrícola e a geração de energia, entre outras atividades. O estudo também destaca que a redução do desmatamento na Amazônia nos últimos anos (em 82%) e novas regras (como o Código Florestal) que foram desenvolvidas para ajudar a proteger os recursos naturais existentes em áreas rurais. Estes são sucessos recentes após décadas de devastação. Há ainda uma crescente necessidade de monitoramento contínuo para garantir que esses recursos não sejam perdidos.

Os setores que mais dependem de água

O Brasil é o segundo maior exportador mundial de alimentos. Em um país onde a agricultura e agroindústria representam 8,4% do PIB, as terras irrigadas aumentaram exponencialmente ao longo da década e se espera que o consumo de água pelo setor deverá continuar subindo. Atualmente, menos de 20% de terras irrigadas tem acesso à irrigação. No setor de energia, usinas hidrelétricas continuarão a gerar a maior parte da energia elétrica do Brasil, mesmo com a diversificação das fontes de energia planejadas ao longo das próximas duas décadas.

O setor mais poluidor

A indústria continuou a ser um dos principais contribuintes para a degradação ambiental no Brasil. De acordo com o relatório do Banco Mundial, os pesquisadores descobriram efluentes industriais, incluindo metais pesados, em corpos de água em diversas áreas metropolitanas. Efluentes industriais são despejados nos cursos de água sem tratamento prévio. Em São Paulo e Recife, por exemplo, isso fez com que os rios no entorno dos parques industriais se tornassem impróprios para o abastecimento humano, fazendo com que as cidades tivessem que buscar água em bacias distantes ou em poços artesianos. O crescimento esperado de complexos industriais, particularmente no Nordeste, vai potencialmente resultar em impactos ambientais de longo prazo, como a poluição e a competição por recursos naturais (principalmente a água).

O acesso desigual à água e saneamento básico

Entre os 40% mais pobres da população, o percentual de domicílios com sanitários ligados à rede de saneamento aumentou de 33% em 2004 para 43% em 2013. No entanto, o acesso ainda é baixo em comparação com a população mais rica. Outras diferenças importantes ficam aparentes nas figuras para cobertura nacional de água (82,5%), as águas residuais (48,6%) e tratamento de águas residuais (39%). A falta de tratamento de águas residuais significa agrupamento que os poluentes são despejados diretamente na água ou em fossas sépticas não regulamentadas, com graves conseqüências para a qualidade da água e, conseqüentemente, para o bem-estar da população.

O que precisa ser melhorado?

Muitas companhias de água sofrem perdas de água significativas (mais de um terço da oferta, é média), de alta têm custos de pessoal e de funcionamento em excesso. O financiamento do setor é baseado em tarifas cruzadas e subsídios, com uma estrutura tarifária obsoleta que é incapaz de gerar serviços mais eficientes e sustentáveis. O resultado: as empresas têm capital insuficiente para aumentar sua cobertura e aumentar a resiliência da sua infraestrutura a eventos climáticos extremos (secas e inundações).

O relatório salienta assim que qualidade de vida dos cidadãos mais pobres do Brasil está diretamente relacionada com a gestão da água e d e outros recursos naturais – e que é urgente a formulação de políticas públicas para aumentar a sua conservação.

‘Água que bebemos é de baixa qualidade. Nossos parâmetros estão ultrapassados’

Fernando Spilki: "Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Marco Weissheimer

Como ocorre em outros grandes centros urbanos do país, a população que vive na Região Metropolitana de Porto Alegre está consumindo uma água de baixa qualidade. Dos dez rios brasileiros mais contaminados, três estão localizados nesta região e desembocam no Guaíba: Sinos, Jacuí e Caí – todos eles fortemente impactados, especialmente por esgoto doméstico. Essa água atende os parâmetros previstos na legislação brasileira, mas estes se tornaram insuficientes para da conta dos desafios do presente, como estamos vendo agora com a situação da água de Porto Alegre. A avaliação é do professor Fernando Spilki, pesquisador do laboratório de microbiologia molecular da Feevale e responsável por um recente estudo encomendado pela Associated Press sobre a qualidade da água da Bacia da Guanabara.

Doutor em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Estadual de Campinas, Spilki aponta o anacronismo dos parâmetros que seguem sendo utilizados no Brasil para analisar a qualidade da água. “Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes. A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável”, afirma, em entrevista ao Sul21. Mas o problema, acrescenta, não se resume à baixa qualidade da água: “Nós fomos acabando com a região ribeirinha dos rios, acabando com as regiões de banhado e com a possibilidade de preservação de água. A qualquer momento em que falta chuva, nosso sistema de abastecimento vai para o buraco”.

O pesquisador alerta para a gravidade desse quadro e chama a atenção para o fato de o saneamento ter saído da agenda mais uma vez: “Todos somos culpados por essa situação: setor público, setor privado e a sociedade como um todo. Nós, brasileiros, aceitamos essa situação. Achamos que está tudo bem. Se tiver água, wi-fi e tv a cabo em casa, não interessa se não tem esgoto. Só interessa quando estoura uma bomba e falta água. Aí viramos todos ambientalistas”.

Sul21: Como iniciou esse trabalho de pesquisa com a microbiologia da água, associada a questões ambientais?

Fernando Spilki: Sou veterinário de formação e trabalho com virologia há 20 anos, desde o início da minha graduação. Eu trabalhava com virologia em animais e humanos. Quando vim para a Feevale, há sete anos, vim com o objetivo de trabalhar com questões ambientais associadas à virologia. Quando comecei a fazer isso, não havia mais do que quatro grupos no Brasil trabalhando com esse enfoque. Temos feito estudos tentando ver em que medida os marcadores que utilizamos para avaliar a qualidade da nossa água dão uma noção da realidade. Nós sabemos, na literatura científica, que o que utilizamos como marcação não está completo. Uma água pode atender quarenta parâmetros das normativas oficiais e ainda apresentar problemas.

"Os marcadores de coliformes fecais não dão mais conta de analisar o perfil microbiológico da água que a gente tem." (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Sul21: Quais são esses marcadores que utilizamos no Brasil?

Fernando Spilki: No âmbito da microbiologia, especificamente, nós trabalhamos com coliformes. Ainda se faz e ainda está previsto fazer análise de coliformes totais e, a partir daí, dar o veredito se a água está própria ou não para consumo pela análise de uma fração dela. Mas, lamentavelmente, esses marcadores de coliformes fecais foram criados e desenvolvidos em um tempo em que a preocupação no Ocidente era com doenças como febre tifoide e cólera, doenças que hoje estão praticamente erradicadas, ocorrendo muito esporadicamente em condições sanitárias muito baixas. Esses marcadores de coliformes fecais não dão mais conta de analisar o perfil microbiológico da água que a gente tem.

De certo modo, o que acontece é que já se desenvolveu toda uma tecnologia nos anos 30 40 para eliminá-los da água. Hoje, se capta a água, elimina-se os coliformes e a gente diz que a água está saudável. É como se tivéssemos inventado o termômetro e seguíssemos analisando tudo pela temperatura. Não é assim. Em medicina, às vezes, a gente tem uma doença crônica e não sabe, o que obriga o médico a realizar outros tipos de exames para descobrir que doença é essa. O mesmo se aplica ao meio ambiente. Nós temos o desenvolvimento de novas técnicas e parâmetros de análise que não são acompanhadas pela legislação. Os setores público e privado, que precisam lidar com essa situação, procuram manter os parâmetros vigentes, o que faz com que toda essa nova tecnologia esteja associada fundamentalmente a um marcador que já não dá conta da situação relacionada à qualidade da água.

O mesmo se aplica ao tratamento de esgoto. A gente mede por um marcador e diz que está tudo bem. Mas não está tudo bem. Já sabemos que, fora desse marcador (dos coliformes fecais), vai passar vírus, protozoário e um monte de bactérias que os coliformes fecais não vão marcar. Essa é a situação que vivemos hoje.

Sul21: Além dos coliformes fecais, quais seriam outros marcadores que deveriam estar sendo levados em conta na análise da qualidade da água?

Fernando Spilki: Em nosso trabalho, nós vemos muitas amostras de água potável e de água bruta de rios, poços e outras fontes onde nós não temos mais coliformes fecais, mas temos vírus causadores de diarreia, criptosporidium (protozoário causador de doenças gastrointestinais) e outros microorganismos que a gente não buscou pelos marcadores vigentes. Temos milhares de exemplos. Isso não vai acontecer só em microbiologia, mas também com contaminantes químicos. Analisa-se um conjunto de contaminantes químicos, previstos na legislação, mas vai passar ao largo um monte de contaminantes diferentes. Esse sistema não é robusto o suficiente para dar garantias quando acontece algo que não se consegue explicar por esses marcadores.

"É sempre o mesmo discurso. O gestor público diz: pelos atuais parâmetros previstos na legislação, está tudo bem". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Sul21: Como está acontecendo com Porto Alegre agora…

Fernando Spilki: Sim, como o que está acontecendo agora em Porto Alegre. A gente começa a investigar e até procura um marcador novo. Você acha e coloca a culpa nele, mas não há garantia que seja de fato ele, pois não se tem um histórico do mesmo. Podem ser múltiplas causas, fontes diversas de contaminação. O problema não é falta de metodologia. Hoje, tanto na microbiologia como na química, há metodologia capaz de apontar o problema para além dos marcadores vigentes hoje. Só que isso não é feito por um motivo muito simples: não está previsto na legislação. É sempre o mesmo discurso. O gestor público diz: pelos atuais parâmetros previstos na legislação, está tudo bem.

É como um médico dizer para um paciente. Meus parâmetros para dizer se você está doente são febre, coriza e tosse. Se você não tem nenhum dos três, está tudo bem. Não é assim que as coisas funcionam, mas no meio ambiente é isso o que vem acontecendo. Há uma determinada lista de parâmetros que é seguida e pronto. Isso até pode servir para o café pequeno do dia-a-dia, quando está indo tudo bem. O dia que acontece algo diferente, me ralei.

Enfrentamos dois problemas graves em nossa regulamentação ambiental. O primeiro, gravíssimo, é como são calculados os índices máximos permitidos desses parâmetros. O mundo inteiro funcionava assim até o momento. Não é, portanto, um pecado exclusivamente nosso. Isso ocorre da seguinte forma: para calcular os índices máximos permitidos, monta-se uma comissão tripartite, reunindo representantes da academia, do órgão responsável pela produção de água e do órgão regulador. Esses representantes se reúnem e, para cada um deles, pergunta-se quanto pode ser permitido para o elemento “x”. O representante da academia avalia que até pode não ser possível, mas o ideal seria ser zero. A companhia de água diz que se for zero o trabalho dela vai ficar muito difícil e propõe que seja 2,5. Aí vem o órgão regulador e diz: vamos colocar 5 porque menos que isso não teremos condições de detectar.

O processo que a gente vê acontecer em países mais desenvolvidos nesta área é algo assim: nós realizamos um estudo ao longo do tempo usando esse parâmetro e verificamos que, quando chega a 1,2, estoura o número de atendimentos no sistema de saúde, por uma doença ligada a esse parâmetro; então, vamos fixar esse índice em 1. Ou seja, a definição é feita a partir do risco. Aqui no Brasil, nós não definimos esses índices a partir do risco, mas sim a partir do que é possível conseguir e do que é possível detectar.

Sul21: No caso do Brasil, essa escolha não passa também pela questão do custo?

"A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

 Fernando Spilki: Essa questão do custo é uma discussão muito interessante. Temos uma riqueza importante neste processo que é a competência da maioria dos indivíduos que trabalham na parte técnica nas companhias de água e de esgoto e também nas agências. O pessoal técnico é excelente. Quando fazemos esse debate aparece o tema do custo. Alguém sustenta que detectar um determinado agente é muito caro. Aí vamos visitar o laboratório com o qual essa pessoa trabalha e descobre que, para outros agentes, eles têm um equipamento que é sete ou oito vezes o preço do equipamento que seria necessário para analisar o agente em questão. Além disso, a técnica que utilizam também é cinco ou seis vezes mais cara. O que falta aí é treinamento e vontade de fazer. Às vezes, não é exatamente a área com que aquele laboratório trabalha.

Outra coisa que acontece, aí no âmbito da gestão, é afirmar que não existe um parâmetro definido para determinada questão ou dizer que nenhum país usa ou só um país utiliza como desculpa para não fazer alguma coisa. Nós evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. Esses parâmetros são insuficientes. A nossa legislação é flácida, permitindo um risco muito maior do que seria aceitável. Ela permite muito mais do que encontramos em legislações de outros países e não estou falando só de Europa. Se compararmos com as legislações de balneabilidade e de potabilidade da água de países como Uruguai, Argentina e Colômbia os nossos parâmetros são assustadoramente altos. Além disso, o que está contido lá dentro não dá mais conta dos desafios emergentes que temos diante de nós neste século.

Há coisas quase tradicionais que já são usadas há pelo menos 20 anos em outros países, baseadas em técnicas fáceis de fazer, com outras bactérias, que nós simplesmente não adotamos em nossa legislação a não ser em momentos excepcionais como agora nos Jogos Olímpicos, quando resolveram adotar enterococcus como parâmetro de avaliação. Esse parâmetro é padrão de balneabilidade nos Estados Unidos. Eles nem usam mais coliformes fecais para analisar a água do mar, só para citar um exemplo. Os parâmetros que adotamos, repito, não dão mais conta da realidade que enfrentamos. O número de surtos de diarreia, que é uma condição endêmica no Brasil, principalmente entre as crianças, é um exemplo disso. É um dos maiores índices de atendimento nas Américas.

Outra coisa que demonstra que esses parâmetros não dão mais conta é que, não raro, encontramos esse tipo de situação que está acontecendo agora em Porto Alegre. De repente, surge um problema que não conseguimos resolver pelos parâmetros normais. Tenho acompanhado as análises que a Fepam vem divulgando. Segundo os atuais parâmetros legais, está tudo ok, tudo dentro do tradicional. Não há nenhuma mudança significativa em relação ao histórico que se tem.

05/08/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com Professor de Microrganismos, Fernando Spilki da Feevale. Foto: Maia Rubim/Sul21

Sul21: Esses parâmetros previstos na legislação brasileira se aplicam integralmente a todos os estados e municípios ou estes têm autonomia para introduzir mudanças?

Fernando Spilki: A legislação estadual pode se sobrepor à legislação federal, cobrando mais coisas ou baixando o limite de determinados parâmetros. Isso acontece. O Conselho Estadual do Meio Ambiente, por exemplo, tem algumas normas um pouco mais restritivas para alguns parâmetros. Mesmo assim, eu diria que, se formos analisar condições de saúde pelos parâmetros atuais, não temos uma situação ideal. As nossas regulamentações são anacrônicas e quando a gente acha que elas vão evoluir, elas acabam aumentando ainda mais os limites aceitos em função de um pedido das companhias ou algo do tipo. Causa-me muita estranheza, nestas discussões, quando alguém diz que não consegue alcançar determinado índice em alguma bacia do São Francisco, por exemplo. Aí, em função dessa dificuldade, se estabelece uma regulação para o Brasil inteiro. Em ambientes urbanos a situação tem se tornado muito difícil, como estamos vendo agora em Porto Alegre.

Sul21: Considerando a relação entre a contaminação causada por esgotos domésticos e a poluição industrial na Região Metropolitana de Porto Alegre, qual é o quadro atual?

Fernando Spilki: Nós fizemos um longo trabalho com a Corsan sobre o rio dos Sinos, onde nós analisamos a parte microbiológica e eles analisaram mais de 200 parâmetros, entre eles muito relacionados a efluentes industriais. No rio dos Sinos, que conhecemos bem, não dá para dizer que há mais nenhum impacto da indústria. Ele continua ocorrendo, mas não é mais tão importante quanto é hoje o impacto do esgoto doméstico no rio dos Sinos. E acredito que essa situação se repete no Caí, no Jacuí, no Gravataí…Esse é o quadro que temos na região metropolitana. No caso de Porto Alegre, o problema pode estar relacionado ao tratamento de rejeitos industriais que é realizado na região do bairro Navegantes, mas se olharmos para a lista do que é entregue para a empresa (Cettraliq) tratar, a gente nota que ali pode ter rejeitos que estejam contaminados com esgoto.

Não vou citar o nome da empresa, mas eu cheguei a ver casos de um conglomerado importante de tratamento de resíduos industriais da Região Metropolitana, que tinha todos os parâmetros para tratamento de rejeitos químicos dentro da unidade, mas o que estava saindo e causando problema eram coliformes fecais. O problema, neste caso, é que os banheiros dessa empresa estavam ligados a um sistema que não era adequado para tratar esgoto doméstico. Sabemos que muitos efluentes de aterros sanitários, usados inadequadamente para resíduos industriais aqui no Vale do Sinos, por exemplo, acabaram sendo levados para tratamento nesta empresa em Porto Alegre. A experiência que temos aqui com esses rejeitos é que eles têm contaminação por coliformes.

O problema aí não é especificamente a contaminação por coliformes. Se está indo carga biológica em um montante alto para lá, isso pode ser um fator causador de crescimento de algas ou bactérias que vão produzir toxinas que podem ser responsáveis pelo problema do cheiro da água. Essa é uma hipótese, mas, repito, só com os parâmetros previstos na legislação atual não há como ter certeza disso.

"A experiência que temos aqui com esses rejeitos industriais é que, muitas vezes, eles têm contaminação por coliformes. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Além desse tipo de contaminação, nós temos outro problema que são as ligações clandestinas. Em 2011, nós fizemos um trabalho na região do Lami e de Ipanema, onde há uma contaminação bastante forte por vírus entéricos e coliformes. Sabemos que há um esforço do poder público para tratar o esgoto naquela região, lançando-o, tratado, mais adiante. Mas tem um probleminha que não conseguimos resolver, que são as ligações clandestinas das fossas sépticas das casas no sistema de esgotamento pluvial. Não estamos falando de um ou dois casos. As pessoas ligam a fossa séptica no sistema de esgotamento da chuva. Como é que se controla isso?

Estima-se que temos 30% de tratamento de esgoto no Brasil, que é um índice baixíssimo. No Rio de Janeiro, onde estão ocorrendo as Olimpíadas agora, a estimativa é de 50% de tratamento de esgoto. Aí vem uma ação de Polícia Federal e diz que esse número está errado e que é apenas 10% do esgoto que está sendo tratado. Além de termos número baixos, eles muitas vezes estão inflados. E temos fontes difusas de esgoto, não mapeáveis, que dificultam a análise. Voltamos à importância dos marcadores. Se tivéssemos uma análise mais ampla que buscasse, pelo menos em situações de emergência, avaliar outros parâmetros, ficaríamos mais seguros.

Sul21: Como você definiria, de modo geral, a qualidade da água que consumimos hoje?

Fernando Spilki: Eu diria que a água potável que sai da torneira ainda é a melhor água que temos disponível. Por incrível que pareça, a legislação para ela, por mais que seja flácida, é a mais restritiva. Ela não tem uma qualidade excelente, mas é uma água segura. O problema é o que pode estar passando, que a gente não tem conhecimento, e essas situações de crise como a vivida agora em Porto Alegre, quando ficamos sem ter uma noção dos riscos. Mas a água potável produzida pelas companhias é ainda a melhor água que temos disponível. Ela é muito mais segura, por exemplo, que a água de poço, que sofre uma contaminação crônica do lençol freático. O poço está exposto o tempo todo a essa contaminação. Temos centenas de amostras de água de poço, comparando com centenas de amostras de água de torneira, que atestam isso. A própria água mineral tem uma situação complicada.

Sul21: Mas parece haver uma desconfiança da população em relação à água da torneira. Quem tem condições econômicas, opta por alternativas como garrafões de água mineral, filtros de barro, entre outras. Você, por exemplo, consome que tipo de água em sua casa?

Fernando Spilki: Eu tomo água fervida. Nós fervemos diariamente uma quantidade de água para beber e para cozinhar. Nós recomendamos esse método em propriedades rurais aqui no Vale do Sinos, por exemplo, onde há muita contaminação da água. Alternativas como o filtro de barro, por exemplo, tem uma eficácia muito discutível, pois ele deixa passar a maioria dos patógenos. Carvão ativado também tem um efeito limitado. Um ozonizador que realmente funcione é muito caro. O ideal é ter bom senso e procurar associar tudo o que é possível

Outro problema que precisaremos enfrentar em um futuro próximo aqui no Brasil é a questão da caixa d’água. Nós já fizemos essa experiência de comparar uma água coletada numa vertente ou num poço com a de uma água que passa por uma caixa d’água. A contaminação na caixa d’água fica se acumulando ao longo do tempo. Alguns dos patógenos com que a gente trabalha duram meses, quiçá anos. É importante lembrar que utilizamos a caixa d’água pelo problema do desabastecimento. Ninguém pode garantir que, daqui a uma semana, não vai faltar água durante algumas horas ou mesmo dias no bairro onde mora. E, muitas vezes, não é por falta de água no rio, mas sim por que o sistema de distribuição não dá conta, pela falta de manutenção preventiva, entre outros problemas. Então, temos problemas estruturais graves não só no que diz respeito à qualidade da água, mas também à quantidade.

"A água mineral é retirada do subsolo e as águas subterrâneas brasileiras estão extremamente contaminadas". (Foto: Maia Rubim/Sul21)

 Sul21: Você também colocou a água mineral na relação de alternativas problemáticas. Qual é o problema exatamente?

Fernando Spilki: A água mineral também enfrenta um problema de parametrização muito grande, pois ela tem uma legislação ainda mais flácida. Para você ter uma ideia, segundo essa legislação, uma em cada cinco garrafas de um lote pode conter alguma contagem de bactérias. É, portanto, um parâmetro muito menos restritivo do que aquele que vale para a água de torneira de uma cidade, onde o que é permitido é uma amostra com valor acima do permitido para cada 1.500 amostras. A água mineral é retirada do subsolo e as águas subterrâneas brasileiras estão extremamente contaminadas. Já mostrei dados de contaminação fecal em encontros que reuniram alguns dos principais geólogos brasileiros e eles me disseram: Qual a novidade? O que você esperava? Você já notou que na garrafinha de água mineral não aparece registro de nitrogênio e fósforo? Os marcadores químicos de contaminação fecal não aparecem no rótulo.

Não estou dizendo que não existam fontes muito menos contaminadas ou não contaminadas, mas o padrão não é esse. Esse é outro problema importante que precisaremos enfrentar. Estima-se que cerca de 60% do consumo de água no Brasil é de água mineral. Quando cito esse dado em algum fórum internacional, as pessoas ficam espantadas.

Sul21: Qual a dimensão do consumo de água via poços?

Fernando Spilki: É muito grande. Aqui na nossa região, por exemplo, há uma facilidade de perfurar poços e encontrar água a profundidades não muito grandes. Muitas prefeituras da Região Metropolitana estimulam que seja feito poço e que ele seja analisado a cada seis meses. Quando produzimos água a partir de um rio precisamos tomar algumas medidas a cada duas horas. É claro que, neste caso, estamos lidando com muito mais gente, mas quem está morando naquele condomínio que abriu um poço está muito mais exposto. O rio ainda é possível tratar, mas como é que você vai tratar uma água subterrânea? Na Inglaterra, as autoridades mapeiam os surtos de diarreia de uma maneira muito mais eficaz que nós, determinando o fechamento de poços quando um problema é detectado. Eles realizaram pesquisas que mostram que a maioria dos surtos de diarreia na região de Londres está associada à água de poço.

Sul21: Considerando o sistema de rios aqui na Região Metropolitana que acabam confluindo para o Guaíba, a situação da poluição melhorou ou piorou nos últimos anos?

Fernando Spilki: O que mais impacta esses rios é o esgoto doméstico. As bacias desses rios foram fortemente impactadas por um processo completamente desordenado de urbanização. A Agência Nacional de Águas e outras instituições estimam que nós estamos em uma das quatro regiões brasileiros com maior stress hídrico em termos de qualidade e de quantidade de água. Quando se fala em stress hídrico as pessoas costumam pensar muito em quantidade, mas nós temos um problema de qualidade da água gravíssimo. Estamos numa região onde pode faltar água, porque estamos muito suscetíveis às variáveis ambientais. Não estou falando que precisamos construir barragens, pois isso tem um custo social absurdo. O que estou dizendo é que nós fomos acabando com a região ribeirinha dos rios, acabando com as regiões de banhado e com a possibilidade de preservação de água. A qualquer momento em que falta chuva, nosso sistema de abastecimento vai para o buraco.

Mas como eu disse, o problema não é só quantidade. A qualidade da nossa água é muito baixa. Dos dez rios brasileiros mais contaminados, três estão nesta bacia da Região Metropolitana (Sinos, Jacuí e Caí). É uma situação muito preocupante. Agora está se falando em mudar o ponto de captação. No rio dos Sinos e no Caí, para falar de dois rios que conheço mais, há lugares com melhor qualidade de água para a captação. Tenho certeza que no Jacuí também há. Mas qualquer um desses rios, assim como o Lago Guaíba, estão sendo impactados de uma maneira muito intensa. O meu medo diante dessas notícias de mudança de ponto de captação é quanto ao futuro. O que vamos fazer? Vamos esperar a situação ficar insustentável de novo daqui 15 anos para daí tomar outra medida ou vamos começar a fazer algo?

Temos 4,5% de tratamento de esgoto na bacia do Sinos, para um milhão e meio de habitantes. Esse índice se resume, praticamente, a dois grandes condomínios aqui de Novo Hamburgo. O resto todo vai direto para o rio, a partir de uma fossa séptica que é drenada pela chuva ou é canalizado diretamente para dentro do rio. A se manter essa situação, não adianta mudar o ponto de captação. A perenidade dessa medida é muito discutível.

"Aqui no rio dos Sinos, oficialmente, há dois anos que a bacia não é fiscalizada e monitorada pelo órgão regulador. (Foto: Maia Rubim/Sul21)

Esse quadro tem uma razão histórica. O plano de saneamento elaborado nos anos 60 e 70 deu conta de tentar universalizar o tratamento e distribuição de água. Essa foi a ideologia imposta pelos militares. Mas eles esqueceram algo importante: que, para termos água para tratar, de qualidade adequada, precisamos tratar esgoto. Isso ficou para trás. Nos anos 2000, começou a se fazer algo nesta direção até que, entre 2011 e 2012, com a crise financeira, esse tema saiu da agenda. Hoje, o saneamento está fora da agenda.

Vejo cidades comemorando que vão evoluir de 27 para 40% de tratamento de esgoto. A gente bate palmas, mas, falando do ponto de vista acadêmico, enquanto a gente não passar de 80 ou 90% de saneamento, lamento dizer, é quase como se não tivesse sido feito nada. Eu sei que a academia às vezes é terrível, quer o melhor, mas não tem como oferecer a melhor concertação social para que isso ocorra. Tenho certeza disso. Mas nós conseguimos avaliar água de torneiro, ao longo do tempo ou em diferentes cidades como já fizemos aqui no Rio Grande do Sul, e relacionar o resultado com a taxa de tratamento de esgoto que tenho em uma determinada bacia. Antes de encostar em algo muito próximo de 80%, os resultados não variam muito. Todo esforço é meritório, mas é preciso ter em mente esse quadro.

A gente entende as dificuldades do poder público. O que não dá para entender é a inação, é ter o recurso e não fazer o mais rápido possível. E isso acontece com a iniciativa privada da mesma forma quando ela está nesta situação. A empresa vive para atender as metas e os números da legislação, para não perder a licença de operação. Todos somos culpados por essa situação: setor público, setor privado e a sociedade como um todo. Nós, brasileiros, aceitamos essa situação. Achamos que está tudo bem. Se tiver água, hi-fi e tv a cabo em casa, não interessa se não tem esgoto. Só interessa quando estoura uma bomba e falta água. Aí viramos todos ambientalistas.

Aqui no Sinos, oficialmente, há dois anos que a bacia não é fiscalizada e monitorada pelo órgão regulador (Fepam). Talvez seja até há mais tempo. Para não falar do que acontece nos meses de verão onde, pelo que sabemos, não há um monitoramento adequado há quase vinte anos. No Litoral, a situação ambiental é gravíssima. Não há estrutura adequada para atender a população que vive ali durante o ano. De repente, essas cidades explodem de gente, sem as mínimas condições de saneamento. A gente sabe que esses órgãos possuem técnicos muito qualificados tentando fazer o seu trabalho no dia-a-dia, mas com uma estrutura completamente sucateada. Nós temos um trabalho junto às lagoas do Litoral Norte. Como era de se esperar, a situação não é nada boa.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/agua-que-bebemos-e-de-baixa-qualidade-nossos-parametros-estao-ultrapassados/

O Diário faz matéria abordando uso de água “comprometida” no Porto do Açu

Água comprometida no Porto do Açu

Transporte irregular é feito em caminhões de combustíveis e salinização

Água comprometida no Porto do Açu

Por Virna Alencar

“As evidências de que a Prumo Logística esteja tendo que recorrer a fontes externas para obter água e manter o Porto do Açu funcionando mostram que algo estranho esteja acontecendo”. A declaração do professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), em Campos, Marcos Pedlowski vai ao encontro à denúncia do ex-prestador de serviço do complexo portuário, João Vanildo da Silva Junior, de que o transporte de água consumida por trabalhadores no empreendimento é feito de forma irregular em caminhões de combustíveis de responsabilidade da empresa Marpem. A denúncia foi publicada em matéria nas edições de quinta (7) e sexta-feira (8). 

Segundo o denunciante, a água, cujo carregamento aconteceria no centro de distribuição da Concessionária Águas do Paraíba, na Avenida Arthur Bernardes, em Campos, seria distribuída para os navios, plataformas e empresas sediadas no complexo portuário sem que os veículos de combustíveis sejam descontaminados. 

Ele disse ainda que funcionários trabalhariam sem qualquer tipo de controle ou documentação na atividade de abastecimento de água e o citado transporte seria feito 24 horas por dia através de dez caminhões de propriedade da empresa contratada. “O problema acontece até hoje”, disse João, que prestou serviços ao empreendimento, no ramo de transporte de cargas, por cerca de quatro anos, tendo se desligado do serviço há mais de um ano. 

João Vanildo enfatizou que não existe água potável na área do complexo portuário devido à contaminação do lençol freático ocasionada pela construção. O caso foi registrado na 134ª Delegacia Legal (Centro), em Campos, na última segunda-feira (4). 

A equipe de reportagem do jornal O Diário contatou a empresa Prumo Logística, responsável pelas obras do Porto do Açu, em vários aspectos. No entanto, a empresa se limitou a dizer que “verifica periodicamente a qualidade da água fornecida aos seus colaboradores, possuindo inclusive laudos que atestam sua potabilidade. A empresa está apurando internamente o conteúdo das notícias veiculadas na imprensa local”, diz a nota. 

A assessoria de comunicação da Águas do Paraíba manteve o posicionamento de que o “contrato de concessão é para atendimento no município de Campos dos Goytacazes”.
A empresa “Marpem” – apontada como responsável pelo transporte irregular de água consumida por trabalhadores do Porto do Açu, em São João da Barra – informou na quinta-feira (7), por meio de nota, que “o transporte de água realizado pela empresa é feito por caminhões apropriados e exclusivos para o devido fim” e que “possui laudos que atestam e comprovam tanto a potabilidade da água fornecida quanto a adequabilidade dos caminhões utilizados para o transporte da mesma”.

Na tentativa de buscar respostas, a equipe de reportagem do jornal O Diário esteve na última quarta-feira (6), no endereço informado no site da empresa (www.marpem.com.br) – Rua Umbelinda Manhães Siqueira, nº 420, em Grussaí (SJB), mas ninguém foi encontrado no local. A empresa informou que passa por mudanças e por isso, o site ainda foi atualizado e os telefones no local não foram instalados. 

Pedlowski fala sobre a salinização

Marcos Pedlowski, que estuda os impactos causados pela construção do Porto do Açu, lembrou que a salinização – incidente ambiental causado pelas dragagens feitas no local no final de 2012 – tem implicações sérias, não apenas para os que trabalham dentro do empreendimento, mas também para milhares de famílias que vivem e trabalham no 5º Distrito de São João da Barra. “Os estudos feitos pela Uenf diretamente na área de entorno do Porto, desde o início de 2013, mostram que o incidente teve um impacto marcante no início, e que apesar das piores condições já terem sido superadas, as alterações continuam”, disse.

Em relação aos problemas de salinização na água dos poços cavados dentro do complexo portuário, o professor informou que podem estar ocorrendo dois tipos de problemas: a exaustão dos poços ou a intrusão salina, seja por água vinda do aterro hidráulico ou pelo avanço das águas oceânicas através do canal de navegação. 

Disse ainda que um relatório produzido pelo diretor do Centro de Pesquisas de Água Subterrânea da Universidade de São Paulo, professor Ricardo Hirata poderia esclarecer quais são as causas de um eventual processo de salinização dos poços. Inicialmente, o professor foi contratado pela LLX para realizar dois estudos científicos sobre o impacto da dragagem sobre a qualidade das águas. 

Segundo o que Ricardo Hirata declarou à Agência Reuters, o primeiro estudo examinaria maneiras de controlar o impacto de futuras dragagens, e o segundo seria uma avaliação do impacto dos depósitos originais para evitar a repetição do problema salinização. “O problema é que os estudos do professor Ricardo Hirata continuam até hoje, sendo tratados como confidenciais, o que evidentemente prejudica o entendimento dos processos que estão ocorrendo nos aquíferos de onde sai à água que estava sendo utilizada dentro do Porto”.

Especialista aponta riscos

O gastroenterologista Dr. José Roberto Crespo destacou que uma água com nível 100% de qualidade – seja para beber ou na preparação do alimento – é vital para o organismo humano. Informou ainda que sua contaminação pode provocar danos de variados níveis. “Existem os danos imediatos como diarréia e infecções, mas dependendo do tipo de substância presente na água as consequências podem ser de longo prazo, como um câncer, podendo levar até a morte”, alertou.

Para um melhor entendimento sobre os riscos provocados pela contaminação da água, o especialista citou o desastre ambiental ocorrido em 5 novembro de 2015, no município de Mariana, em Minas Gerais. O rompimento de uma barragem (Fundão) da mineradora Samarco provocou uma enxurrada de lama que devastou o distrito de Bento Rodrigues, deixando um rastro de destruição à medida que avançou pelo Rio Doce.  “A lama atingiu ambientes aquáticos levando a morte de peixes e de todos os organismos ali encontrados. Assim, nós seres humanos, também somos contaminados por metais pesados, que são nocivos ao organismo”, explicou.

José Roberto enfatizou que a olho nu é possível desconfiar da qualidade, seja pela cor, ou cheiro, mas somente por meio de uma análise laboratorial é possível constatar se há ou não a presença de metais pesados, bactérias, ou fungos.

FONTE: http://www.diarionf.com/noticia-5338/agua-comprometida-no-porto-do-acu

As múltiplas facetas do colapso hídrico no norte capixaba

A edição da Tribuna do Cricaré deste sábado traz novas matérias sobre os efeitos do colapso hídrico que ronda os municípios litorâneos do extremo norte do Espírito Santo.

crise 1

A primeira coisa que transparece da capa do Tribuna do Cricaré é que o problema está disseminado e não atinge apenas as áreas urbanas.  Já a segunda coisa que aparece é que o povo de São Mateus vive uma condição que beira o surreal, pois os cidadãos transformados em consumidores estão sendo obrigados a pagar por água imprópria para o consumo e com tarifa “cheia”.

crise 2

E como demonstra a matéria que noticia a decisão judicial de impor ao Serviço de Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de São Mateus que se resigne a cobrar a tarifa mínima por servir água imprópria, vivemos um tempo de absurdos.  Nesse caso, é absurdo que se sirva água imprópria, e mais absurdo ainda que se cobre por isso.

Algo que não aparece na matéria, mas que já foi noticiado pelo Tribuna do Cricaré, é o plano da Prefeitura Municipal de São Mateus de privarizar o SAAE para supostamente resolver os problemas de investimentos em estruturas alternativas de captação. A concretização desta privatizçaão quase certamente implicará no aumento de tarifas antes da adoção de quaisquer medidas que garantam a entrega de água própria para o consumo. em outras palavras. Essa será a pílula salgada que a população de São Mateus terá de engolir se quiser voltar a beber água da torneira.

O mais preocupante dessa situação é que o norte do Espírito Santo certamente não é o único ponto do litoral brasileiro onde  as cidades estão vivenciando este tipo de problema. E apesar disso não se nota qualquer alarde ou, tampouco, a procura de respostas integradas não apenas na escala local, mas principalmente na regional já que muncípios no extremo sul da Bahia vivem problemas semelhantes (Aqui!)

Protesto das vítimas do TsuLama da Samarco fecha estrada em Regência

Protesto de moradores bloqueia entrada de Regência

 

👤Manaira Medeiros

 

Os moradores de Regência, em Linhares (norte do Estado), bloqueiam o acesso à vila desde às 20h30 dessa quarta-feira (27), por tempo indeterminado. O protesto é uma reação ao anúncio da Samarco/Vale-BHP de que irá retirar nesta sexta-feira (29) a base instalada na cidade após o crime do rompimento da barragem em Mariana (MG), além de encerrar o fornecimento de caminhões-pipa e o cadastramento para pagamento do auxílio-emergencial aos atingidos. A medida irá agravar a situação da comunidade, que perdeu suas principais fontes de renda e enfrenta graves problemas de abastecimento de água.

O bloqueio dos moradores é apenas para funcionários da Samarco e terceirizados. A empresa, quase seis meses após a maior tragédia socioambiental do País, ainda trata com descaso os impactados pela contaminação do rio Doce e do mar pela lama de rejeitos, o que decretou o fim da pesca artesanal e do turismo na vila, deixando as famílias sem fonte de subsistência e alimentação. 

Eles cobram da empresa que o pagamento do auxílio-emergencial definido pela Justiça aos pescadores e ribeirinhos seja ampliado a todos os moradores de Regência. “O crime afetou a cidade inteira”, enfatizou Pablo Ferreira, comerciante e morador da vila há oito anos. Segundo ele, 80% do comércio sofrem prejuízos, muitos estabelecimentos tiveram que fechar as portas, e os imóveis estão desvalorizados à metade. 

Pablo também denunciou que, mesmo entre os pescadores e ribeirinhos, há muitas pessoas sem receber o auxílio. Esse pagamento, como aponta, não deve chegar a 200 pessoas da comunidade, que tem cerca de 900 moradores. “Além de ser uma minoria, há relatos de que pessoas de fora estariam recebendo o pagamento, o que é injusto e revoltante”. 

A comunidade também relata casos de violência jamais registrados na vila antes do crime, inclusive roubos a mão armada e ameaças.

O problema da qualidade da água é outro ponto levantado pelos moradores. O abastecimento feito pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Linhares, como afirma a professora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Vila Regência, Luciana Souza, distribui para as casas uma água com coloração que varia entre ferrugem e azul escuro, com forte odor que lembra vegetação de brejo. 

Ela pontua que, nos últimos dois meses, os casos de crianças e estudantes com sintomas como diarreia, irritação nos olhos e náuseas aumentou consideravelmente na escola que trabalha. Ela cobra que essa coincidência seja investigada.

Na escola estadual e no Centro Educacional Infantil Municipal (CEIM) de Regência, a água do SAAE é utilizada somente para cozinhar. Para beber, os alunos têm disponível água mineral, graças a doações de entidades e movimentos sociais. “Dependemos de atos de solidariedade, a empresa nunca procurou a escola para isso”, afirmou.

A mobilização, além do pagamento de auxílio a todos os moradores, cobra a disponibilização da lista dos contemplados; soluções alternativas para captação de água, que não seja no rio Doce nem como é feito atualmente, no rio Pequeno (separados apenas por uma barragem), recurso igualmente impróprio para consumo humano; fornecimento de água mineral pela Samarco; e mapeamento hidrogeológico urgente da foz do rio Doce. 

O oceanógrafo Eric Mazzei, que é morador de Regência e integrante do Fórum Capixaba de Entidades em Defesa da Bacia do Rio Doce, alerta que a alternativa apresentada pelo poder público de captar água da Lagoa Nova, também não irá resolver o problema. “Primeiro, não há capacidade hídrica para suportar o abastecimento de todo o município, segundo, a lagoa também recebeu rejeitos da lama”, explicou. 

Ele defende a descentralização do uso dos corpos hídricos disponíveis na região para uso das comunidades, medida que garantiria não só um abastecimento de qualidade, como a menor exploração de cada corpo hídrico.

Os moradores, cerca de 150, aguardam a Samarco para uma reunião na própria vila, mas garantem que só deixarão o local após a empresa apresentar medidas efetivas. O SAAE já esteve na área do protesto, garantiu que a água é própria, e se comprometeu a investigar a situação de algumas casas, que serão listadas pela comunidade. 

FONTE: http://seculodiario.com.br/28438/10/moradores-bloqueiam-entrada-de-regencia-por-tempo-indeterminado

Vazamento, ar ou gato? E a difícil arte de reclamar das contas astronômicas da Águas do Paraíba

Venho há algum tempo me deparando com problemas nos serviços prestados pela concessionária Águas do Paraíba, empresa que já me premiou com o abastecimento de conglomerados gigantescos de cianobactérias na água que deveria ser incolor, insípida e inodora. Mas nada me indigna mais do que receber mês após mês contas que simplesmente não refletem o consumo de uma residência habitada boa parte do tempo por eu mesmo e uma gata.

Agora em meio a recessos e férias contava com a possibilidade de que os valores de dezembro a fevereiro voltassem ao que me foi cobrado em julho de 2015. Mas como pode ser observado pela imagem da conta que me foi oferecida pela “Águas do Paraíba”, minhas expectativas foram mais do que infundadas.

aguas do paraiba

Isso mesmo, num período em que a minha residência ficou praticamente fechada fui “premiado” com uma conta de R$ 255,32 divididos de forma salomônica entre fornecimento e tratamento de esgotos (essa é a pior das piadas!).  Isso refletiria o consumo de 23 metros cúbicos de água por 30 dias entre dezembro/15 e janeiro/16, o que é simplesmente pouco possível já que eu estive viajando por 15 dias!

Agora, quais são as possibilidades para que o consumo esteja sendo medido acima de 20 metros cúbicos desde outubro de 2015? As principais possibilidades seriam vazamentos no interior da residência,  a instalação de gatos e algo bem simplório, a leitura de ar pelo hidrômetro como se água fosse.

Aviso que a possibilidade de vazamentos foi negada após a visita de um encanador que eu mesmo contratei para verificar se esse seria a vontade de tamanho consumo. Além disso, restringi ao máximo o consumo para verificar se haveria uma mudança nos valores medidos.  E querem saber a resposta? Nada mudou como mostram os valores colocados em vermelho na imagem acima.

Restam assim as possibilidades de “gato” e de ar sendo medido como água. 

Agora, alguém poderia me perguntar por que não compareci na Águas do Paraíba para registrar uma queixa e solicitar uma inspeção? A explicação é simples: falta-me o tempo necessário para comparecer no setor de atendimento aos consumidores onde diariamente centenas de pessoas sofrem para solicitar os mais variados tipos de serviços.

Entretanto, aproveitando o final das minhas férias  hoje estive na sede da “Águas do Paraíba” para tentar registrar uma queixa. E é óbvio que me deparei com uma sala completamente cheia e uma fila “generosa” na qual esperei até ser ouvido por um gentil funcionário.  O problema é que após ouvir o meu relato, este funcionário me informou que eu não poderia ser atendido porque não havia levado a leitura do hidrômetro do dia de hoje (23/02)!

Entre desapontado e irritado (já que se estava lá para reclamar do nível de consumo, a primeira coisa que uma equipe da empresa irá ter de fazer é ler o hidrômetro!) me retirei do local até que eu possa produzir a tal leitura do dia.

Agora me respondam: como é que fica o cidadão mais comum que não se pode dar ao luxo de ficar indo e voltando para mofar na fila de atendimento da Águas do Paraíba? Não seria esta uma estratégia perfeita para nos fazer continuar pagando por ar ou por gatos instalados em nossas casas? 

Será que sou só eu acho que acha um completo absurdo ter que ver 50% do valor de cada conta apontando para o pagamento de esgoto (seja lá isso o que for) e verificar que bem em frente da sede da “Águas do Paraíba” há um canal histórico como o Campos-Macaé totalmente contaminado pelo despejo diário de toneladas de esgoto sem nenhum tipo de tratamento?

Finalmente,  fico me perguntando qual foi o final da Comissão Parlamentar de Inquérito que seria instalada na Câmara de Vereadores para apurar a qualidade dos serviços da “Águas do Paraíba”. Pelo jeito, tomou um tremendo Doril!canal

Samarco se dispõe a “ajudar” Ufes a analisar amostras de água do Rio Doce. O que será que estão pedindo em troca?

água

Segundo a matéria abaixo, assinada por Pedro Permuy, e publicada pelo site Espírito Santo Hoje, a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) está se  disponibilizando a “ajudar” pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) a analisar as amostras de água coletadas no Rio Doce, afim de estabelecer os níveis de contaminação associadas à passagem do TsuLama que a negligência da empresa causou em Mariana (MG).

Eu só espero que em troca dessa “ajuda” não apareça com contratos de confidencialidade para a UFES assinar, o que representaria um grave prejuízo aos interesses da população que está sendo afetada pela negligência da Samarco.

É que no caso deste tipo de “ajuda” a prática comum das corporações é que a moeda de troca seja a proibição da publicização dos resultados.  A ver!

Samarco quer ajudar a Ufes a analisar amostras d’água do rio Doce

Foto: Fred Loureiro/Governo do ESFred Loureiro/Governo do ES

A fim de que as 2.785 amostras coletadas da Foz do rio Doce, rio São Mateus, rio Mucurici e rio Caravelas possam ser analisadas mais rapidamente, a Samarco Mineração S.A está firmando parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para disponibilizar ajuda que colabore nesse trabalho.

A mineradora diz que pretende efetivar o conchave que ajudará na execução das análises físico-químicas e biológicas da água e do sedimento referente ao diagnóstico dos locais nos quais foram retiradas amostras. A preocupação pode ter vindo na última semana, quando a Ufes divulgou os resultados prévios das análises e pediu prazo de ao menos seis meses para que o relatório final fosse entregue. Os pesquisadores encontraram ferro, manganês, alumínio e cromo com níveis elevados.

Considerado o maior desastre ambiental da história do país, o evento – que aconteceu no dia 05 de novembro de 2015 – foi responsável por matar 17 pessoas, destruir comunidades ribeirinhas e, ainda, extinguir a vida aquática do rio Doce e afetar os animais marinhos. Cerca de três toneladas de peixes mortos foram retirados do manancial e aproximadamente 500 quilos do mar. Além disso, a pesquisa leva a crer que a lama, por ser constituída de partículas finas, é o que está soterrando o que ainda resta dos seres vivos do Doce.

De acordo com o pesquisador da Ufes do departamento de oceanografia Alex Bastos, os estudos mostram o que pode acontecer a princípio. Ele esclarece que a coleta de amostras aconteceu a partir de quatro dias após a chegada da lama de rejeito na foz do rio Doce numa expedição que durou treze dias diluídos em três viagens.

O pesquisador esclarece que o que mais chama a atenção, depois do acúmulo de sedimentos anormal na calha do Doce, é o desequilíbrio que existe entre nascimento e morte da população de fitoplânctons. “Existe um descontrole, principalmente na taxa de mortandade, que está elevada”, pondera. Ele explica que esse contingente pode levar ao desaparecimento de peixes na região, pois os plânctons servem de alimento no primeiro nível trófico da cadeia.

“Como foi observado um aumento na concentração de ferro e nutrientes como nitrato, nitrogênio amoniacal e silício, esses elementos podem ser responsáveis pela alta proliferação e alta mortandade desses espécimes”, conta o pesquisador. Ele destaca que, se antes eram encontradas até 70 espécies diferentes de fitoplânctons, agora, esse quantitativo não passa de 39.

FONTE: http://www.eshoje.jor.br/_conteudo/2016/02/noticias/geral/37907-samarco-quer-ajudar-a-ufes-a-analisar-amostras-d-agua-do-rio-doce.html

Incidente da Samarco e o maior de seus impactos: a escassez e perda da qualidade da água usada para consumo humano

água

Enquanto os principais veículos da mídia corporativa nacional tentam nos distrair com as peripécias de Eduardo Cunha e o seu aceite do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o drama vivido por centenas de milhares de habitantes de cidades que têm no Rio doce a sua única fonte de água potável continua.

A matéria abaixo assinada pelo jornalistas Valquiria Lopes e Luiz Ribeiro do “Estado de Minas” mostra que após quase 1 mês após o rompimento da barragem em Mariana, a situação é crítica e vem piorando com as chuvas que estão arrastando mais lama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), Isto vem causando a elevação do nível de concentração de metais pesados na água que é captada para servir de abastecimento. O principal problema detectado é o aumento da concentração do chumbo, mas também os níveis de ferro, alumínio e manganês estariam elevados.

Essa situação desmente inclusive a assertiva de que a ocorrência das chuvas seria uma espécie de acelerador da “ressurreição” do Rio Doce, visto que a presença de taxas mais elevadas de metais pesados possui efeitos graves não apenas para a população humana, mas para toda a cadeia da vida.

Por essas e outras é que qualquer otimismo em relação à magnitude do incidente ocorrido na barragem de rejeitos da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), bem como a capacidade de recuperação dos serviços ambientais associados à bacia hidrográfica do Rio Doce precisa ser devidamente enquadrado em função dos fatos que continuam emergindo. E a fotografia que surge não é nada animadora para se dizer o mínimo.

Municípios às margens do Rio Doce ainda sofrem com a escassez e qualidade da água

Relatório do Igam revela que qualidade da água piorou nos últimos dias por causa da chuva, que despejou mais lama sobre o rio e revolveu a que estava depositada no fundo. Quase um mês após o tsunami de rejeitos da barragem da Samarco destruir a Bacia do Rio Doce, moradores de cidades atingidas ainda sofrem com desabastecimento

agua

Mesmo depois de a enxurrada de lama da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, já ter chegado ao mar, no Espírito Santo, a população de municípios atingidos pelos rejeitos ao longo da Bacia do Rio Doce, em Minas, continua sofrendo restrições no abastecimento de água. O problema ocorre porque há impedimento da captação normal no curso d’água, que ainda apresenta níveis de metais fora do padrão de normalidade para consumo humano, ainda que com tratamento. De acordo com relatório de ontem do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a situação piorou nos últimos dias, já que a chuva arrastou parte da lama estacionada às margens do rio e precipitou materiais depositados no leito. Nos municípios atingidos, persistem problemas de saúde como casos de diarreia e vômito, devido ao consumo de água de má qualidade.

Um dos mais prejudicados é Galileia, no Leste, com 7,2 mil habitantes. Em Governador Valadares, maior cidade afetada em Minas pelos rejeitos, a população segue enfrentando longas fila para receber água mineral distribuída pela Samarco e que é usada para o consumo humano. Por causa da dificuldade no abastecimento, dezenas de moradores de Valadares bloquearam a BR–116. A manifestação teve início às 22h de terça-feira e durou 50 minutos. O grupo reivindicou a distribuição do produto potável, apesar de empresa responsável pelo abastecimento ter retomado o tratamento da água com o coagulante Tanfloc.

Além de indicar as alterações nos índices de metais e outros elementos, a conclusão do Igam é a mesma em seus dois relatórios: “Não é possível prever quando as condições do Rio Doce retornarão à normalidade, devido às proporções do impacto causado pelo evento (passagem da lama) e a possibilidade de novos revolvimentos ocasionados por fatores externos”, diz o documento. O Igam informou que vai manter o monitoramento.O relatório aponta problemas nos níveis de chumbo, manganês, ferro e alumínio. O mais grave, segundo o levantamento, é com relação ao primeiro elemento, que esteve fora de conformidade em todos os pontos do Rio Doce. “O chumbo é um problema gravíssimo, porque é cumulativo no organismo e pode causar doenças, a exemplo do saturnismo, enfermidade com sérias complicações”, explica o mestre em saneamento e meio ambiente e professor da PUC Minas José Magno Senra Fernandes. Com relação aos três demais índices, foi observado, no dia 20, que os valores estavam acima do limite de classe 2. Este parâmetro serve para indicar águas que podem ser destinadas, entre outras finalidades, ao abastecimento e consumo humano, após tratamento convencional.

Segundo o professor, há pesquisas em andamento que relacionam a presença de alumínio com o desenvolvimento do Alzheimer, doença degenerativa que pode levar à morte. A última análise do Igam mostrou oscilação nos parâmetros de turbidez, mudança associada à ocorrência de chuvas na região. Segundo o documento, os valores dos metais podem cair paulatinamente, com o passar dos dias.

DIARREIA

Enquanto isso, a água transportada em caminhões-pipa e que chega às casas ainda não é considerada de boa qualidade. Por isso, moradores enfrentam longas filas para receber água mineral distribuída pela Samarco e que é usada para o consumo humano. A mineradora atende a uma decisão judicial, que a obriga a garantir o fornecimento de água potável à população nas cidades de Resplendor, Governador Valadares, Itueta, Belo Oriente, Aimorés, Tumiritinga, Periquito e Alpercata, além de Galileia.

De acordo com a secretária municipal de Saúde de Galileia, Meiremárcia Gonçalves Santos, 15 caminhões-pipa cedidos pela Samarco buscam água no município vizinho de Conselho Pena (60 quilômetros distância). A água chega às torneiras em sistema de rodízio, em alguns casos, de até três dias. É o caso da professora Neidiane Magalhães. “O jeito é economizar”, diz Neidiane. Mas, segundo ela, houve moradores que foram obrigados a comprar água, pagando R$ 50 por mil litros.

Também no Leste do estado, Periquito sofre com o problema do abastecimento. De acordo com a prefeitura, foram registrados pelo menos 15 casos de vômito, diarreia e alergia nos últimos dias.

Por meio de nota, a Samarco informou que todas as cidades da Bacia do Rio Doce já tiveram o fornecimento de água potável normalizado, seja por meio de manutenção em estações de tratamento de água desativadas mesmo antes do acidente, ou por contratação de caminhões-pipa e outras ações.

IGAM 0312
FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/03/interna_gerais,713755/municipios-as-margens-do-rio-doce-ainda-sofrem-com-a-escassez-e-qualid.shtml