Organizações pedem que a Anvisa suspenda o uso de 3 agrotóxicos após novas descobertas científicas

Por Yudi Soares para “Terra Brasil Notícias”

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novo fôlego em 2025 após entidades da sociedade civil solicitarem oficialmente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspensão das vendas de três ingredientes ativos amplamente utilizados: glifosato, atrazina e alacloro, em um contexto de recordes sucessivos no consumo dessas substâncias e de questionamentos sobre a integridade científica de estudos que embasaram decisões regulatórias anteriores.

Por que o glifosato está no centro da discussão no Brasil?

Por mais de duas décadas, decisões regulatórias sobre sua segurança se apoiaram em um estudo publicado no ano 2000, cuja independência científica passou a ser fortemente questionada.

Em 2025, veio à tona que funcionários da empresa Monsanto teriam participado da elaboração do artigo de forma não transparente, levando à sua retratação pela revista científica. Como esse estudo serviu de base para pareceres da Anvisa que mantiveram o glifosato liberado em 2020, entidades passaram a exigir reavaliação urgente com critérios atualizados, transparência e maior escrutínio público.

Quais são os números mais recentes sobre agrotóxicos no Brasil?

A discussão sobre o glifosato se insere em um cenário mais amplo de crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil. Em 2024, o Ibama registrou aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados, um aumento superior a 20% em relação a 2023, o maior volume já registrado na série histórica.

Entre esses ingredientes, o glifosato segue na liderança, com mais de 230 mil toneladas vendidas em 2024, seguido de compostos como o mancozebe, que subiu de posição após forte crescimento. Embora os dados do Ibama sejam autodeclaratórios e passíveis de revisão, eles confirmam uma tendência de expansão em volume e faturamento, também apontada pelo Sindiveg.

Quais são os riscos de câncer associados à atrazina e ao alacloro?

Além do glifosato, a atrazina e o alacloro também foram incluídos no pedido de reavaliação apresentado à Anvisa. Em novembro de 2025, especialistas internacionais em saúde classificaram essas duas substâncias como prováveis causadoras de câncer em humanos, aumentando a pressão por medidas de precaução.

A atrazina ocupa lugar de destaque no mercado nacional, com dezenas de milhares de toneladas comercializadas anualmente, o que amplia o potencial de exposição populacional. Diante dessa classificação de risco, as entidades defendem a aplicação do princípio da precaução, com suspensão temporária do uso enquanto uma nova análise toxicológica abrangente é conduzida.

Quais fatores são considerados na reavaliação toxicológica de agrotóxicos?

As entidades que assinam o pedido à Anvisa argumentam que uma reavaliação séria deve considerar não apenas estudos laboratoriais, mas também evidências de campo e impactos cumulativos. Nessa perspectiva, o processo precisa analisar efeitos à saúde humana, ao meio ambiente e às condições de trabalho no campo, de forma integrada.

Para tornar essa análise mais robusta, costumam ser avaliados diversos aspectos científicos e regulatórios, que ajudam a orientar decisões sobre restrições, cancelamentos ou mudanças de uso autorizado:

  • Novas evidências científicas sobre efeitos à saúde humana, incluindo estudos epidemiológicos;
  • Impactos ambientais, como contaminação de solo, água e biodiversidade;
  • Exposição ocupacional de trabalhadores rurais e condições de aplicação;
  • Resíduos em alimentos consumidos pela população e padrões de consumo.

Como o aumento do uso de agrotóxicos impacta a sociedade brasileira?

O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil é acompanhado por preocupações com saúde pública e meio ambiente, como contaminação da água, do solo e dos alimentos. Casos de intoxicação aguda em trabalhadores expostos diretamente e suspeitas de efeitos crônicos na população em geral reforçam a necessidade de políticas de redução e controle mais rigoroso.

Paralelamente, o país registra número recorde de liberações de novos produtos: em 2025, de fevereiro ao início de dezembro, foram autorizados mais de 700 agrotóxicos para uso agrícola, superando 2024. Esse avanço coexiste com iniciativas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que busca estimular práticas agrícolas menos dependentes de químicos sintéticos e fortalecer a vigilância em saúde.

Quais caminhos vêm sendo discutidos para reduzir a dependência de agrotóxicos?

No contexto atual, o debate sobre políticas de redução de agrotóxicos envolve diferentes frentes de ação governamental, científica e social. Documentos técnicos e propostas oficiais costumam apontar a necessidade de combinar mudanças regulatórias com incentivos a alternativas produtivas mais sustentáveis.

De forma geral, são mencionadas três linhas de atuação que podem apoiar uma transição gradual para modelos de produção menos dependentes de pesticidas químicos, conciliando produtividade com proteção à saúde e ao meio ambiente:

  1. Revisão regulatória: reavaliar ingredientes ativos, atualizar monografias, restringir usos específicos ou cancelar registros de substâncias com evidências consistentes de risco;
  2. Estímulo a alternativas: incentivar o manejo integrado de pragas, a agroecologia e insumos biológicos, reduzindo a necessidade de produtos químicos tradicionais;
  3. Transparência e monitoramento: ampliar sistemas de vigilância em saúde, controle de resíduos em alimentos e divulgação de informações acessíveis sobre riscos e usos permitidos.

Fonte: Terra Brasil Notícias

Rios brasileiros estão envenenados por agrotóxicos: estudo detecta 32 tipos de agrotóxicos no Rio Dourados (MS) 

Pesquisa monitora resíduos de agrotóxicos nas águas superficiais dos rios de MS

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Levantamento realizado pelo Laboratório de Análises Ambientais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Agropecuária Oeste), detectou 32 tipos diferentes de agrotóxicos ou produtos de degradação no Rio Dourados, durante o período de 10 de dezembro de 2019 a 11 de dezembro de 2020. O estudo visa monitorar a qualidade da água das bacias hidrográficas em vários rios do Estado e da água potável de alguns municípios.

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O principal objetivo do estudo é monitorar resíduos de 46 tipos de agrotóxicos e e produtos de degradação em amostras de água do Rio Dourados. A partir dos resultados obtidos será realizado um diagnóstico do nível de exposição do Rio Dourados aos agrotóxicos utilizados nos sistemas de produção da região, fornecendo assim dados técnico-científicos para aprimoramento de políticas públicas ambientais. Além de contribuir no processo de avaliação do risco ambiental de agrotóxicos pelas autoridades regulatórias.

Entre os 32 compostos detectados no Rio Dourados, a classificação com base no seu tipo foi de 15 herbicidas, oito inseticidas, três fungicidas e seis produtos de degradação.

Conforme o estudo, as concentrações de agrotóxicos e produtos de degradação constatadas nas amostras de água do Rio Dourados e previstas na legislação como a  Atrazina, Alacloro e Simazina, não ultrapassaram os valores máximos permitidos pela legislação brasileira. 

Contudo, na maior parte dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, os valores Máximo Permitidos (VMP), não são autorizados pela lei brasileira no que se refere à qualidade das águas superficiais. Especialistas que realizaram o estudo alertam para a urgente necessidade de inclusão dos VMP desses agrotóxicos na legislação brasileira.

A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Análises Ambientais da EMBRAPA Agropecuária Oeste, inaugurado por meio de parceria estabelecida por diversas Instituições, entre elas o MPMS por meio da 11ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. O laboratório monitora a qualidade da água das bacias hidrográficas em diferentes rios do Estado, além da água potável de alguns municípios.

O Ministério Público custeou a construção das cinco primeiras fases da Primeira Etapa do laboratório, enquanto a Embrapa executa o projeto de Monitoramento dos Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais do nosso Estado.

Para conferir o estudo completo acesse o link: https://www.embrapa.br/agropecuaria-oeste/.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo site jornalístico “CapitalNews” [Aqui!].