“The Intercept Brasil” circula íntegra de relatório engavetado pelo governo Bolsonaro sobre uso de drogas no Brasil

Publicamos pela primeira vez o estudo sobre drogas que o governo escondeu

LUND-Arte-5-1559333866

Por Tatiana Dias e  Ines Garçoni para o “The Intercept Brasil”

HÁ DOIS MESES, o Intercept e a Casa da Democracia revelaram que o governo esconde desde 2017 o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, pesquisa nacional que investigou o consumo de substâncias lícitas e ilícitas por brasileiros. O estudo, feito pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, foi o maior já feito sobre o tema – foram ouvidas 16.273 pessoas em 351 cidades – e custou aos cofres públicos mais de R$ 7 milhões.

Mas a Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, órgão do Ministério da Justiça responsável por encomendar a pesquisa, decidiu engavetá-la. A alegação oficial é que ela tem problemas metodológicos. Mas, segundo especialistas, o embargo tem outra razão: o resultado contrariou o governo. Conforme o Intercept divulgou em abril, o levantamento mostrou, por exemplo, que só 0,9% da população usou crack alguma vez na vida – um número que está longe do que o governo alardeia como “epidemia”.

O atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, foi um dos responsáveis por embargar o levantamento. Em entrevista nesta semana, ele disse que “não confia” no estudo e que a Fiocruz tem “viés de defender a liberação das drogas. As declarações do ministro fizeram com que o assunto chegasse até ao Jornal Nacional, que divulgou alguns dos resultados publicados há dois meses pelo Intercept (sem os créditos, mas essa é outra história).

Em abril, logo depois que publicamos os resultados da pesquisa, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou a divulgação do relatório – desde que ele não fosse associado à Senad, do Ministério da Justiça. O governo exige que a Fiocruz devolva os R$ 7 milhões da pesquisa, alegando que ela não cumpriu o edital. A Fiocruz diz que cumpriu e, neste momento, o caso está sendo avaliado pela Advocacia Geral da União.

Em abril, quando publicamos a história pela primeira vez, avaliamos que divulgar o documento na íntegra poderia colocar em risco os objetivos da pesquisa e contribuir para que o levantamento fosse definitivamente engavetado pelo governo. Por causa dos últimos acontecimentos, no entanto, decidimos que é interesse público divulgar, na íntegra, o que o estudo mostrou.

Leia o relatório completo:

______________________________________
Esta matéria foi originalmente publicada pelo site “The Intercept Brasil” [Aqui!]

Estadão: Sertãozinho quer ‘desapegar’ do etanol

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL – O ESTADO DE S. PAULO

Com duas usinas fechadas e indústrias à beira da falência, polo tecnológico do setor sucroalcooleiro tenta diversificar sua economia

No norte paulista, costuma-se dizer que Sertãozinho produz e Ribeirão Preto leva a fama. Eliminado o exagero, esse polo tecnológico tem sofrido os efeitos da crise do setor do açúcar e álcool tanto quanto a vizinha mais rica. Duas de suas sete usinas fecharam – Albertina e Pignatta. Sem encomendas grandes desde 2009, as fábricas de máquinas e equipamentos demitiram 2 mil trabalhadores neste ano e vivem um delicado momento financeiro. A receita municipal caiu e arrastou a cidade 4º lugar no ranking nacional de qualidade de vida em 2007 para a 56ª posição, em 2011. 

Sertãozinho procura agora descolar-se do etanol. Quanto mais investimento em subprodutos da cana, mais tecnologia incorporada e maior a chance de seus produtores darem a volta por cima. Nos últimos anos, têm se salvado os usineiros que investiram na cogeração de energia elétrica e os industriais que fabricaram máquinas para os setores químico e de petróleo. “A nossa saída é a diversificação”, afirmou o prefeito José Alberto Gimenez (PSDB), que calcula uma perda de 10% em repasses estaduais em 2014. 

A cidade de 199 mil habitantes vive ainda em ambiente ainda nebuloso. De suas 550 empresas, cerca de 440 são do setor sucroalcooleiro e enfrentam as mesmas mazelas: o subsídio ao preço da gasolina, que tornou menos interessante o consumo de etanol no País, a quebra de safra por causa da seca e a queda da cotação do açúcar no mercado internacional. A ociosidade da indústria local chega a 60%, segundo a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), e são raros os dias em que os sindicatos locais não recebem dezenas de demitidos. 

Na última quarta-feira, três homens esperavam a vez para rescindir o contrato de trabalho no Sindicato dos Metalúrgicos – Paulo Silva Gomes, 61 anos, e os filhos Alessandro, de 37, e Saulo, de 29, todos soldadores da HPB Energia até 21 de agosto. Eles constaram da lista de mais de cem demitidos. “Nos disseram que podiam nos recontratar no futuro. Mas estou muito preocupado”, disse Alessandro, pai de um bebê de 1 ano e 9 meses. “Digo aos meus filhos para não se assustarem. Claro que fiquei sentido. Mas já tive empresa e sei como é difícil levar o negócio adiante”, completou Paulo.

O administrador de empresas Paulo Junqueira, de 37 anos, procura emprego há dois anos, desde que foi demitido de uma multinacional. Casado e sem filhos, faz bicos como consultor enquanto sua mulher mantém um salão de beleza. “(A presidente) Dilma Rousseff acabou com a cidade, mas os usineiros também são culpados porque querem tudo de mão beijada do governo.”

Novos negócios

As usinas locais, neste ano de seca, vão antecipar a colheita em 40 dias e dispensar os trabalhadores temporários no fim de outubro. A saída para duas delas, São Francisco e Santo Antônio, ambas do Grupo Balbo, foi traçada na década passada. O grupo investiu na produção de açúcar orgânico, que deu origem à linha de alimentos Native, de levedura (proteína do açúcar) e na geração de energia. Mesmo com quebra de 8% da safra atual, três projetos continuam em curso: a produção de probiótico, de plástico biodegradável e de cera de açúcar. 

A indústria de bens de capital da cidade sofre queda de 50% no faturamento em relação à década passada. Segundo Antônio Tonielo, presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise-Br), as pequenas quebraram. As grandes estão endividadas porque não há mais reformas de usinas nem novas unidades em construção. 

Para Tonielo, a indústria de Sertãozinho paga caro pelo investimento pesado que fez no setor. Em meados da década passada, empregava 15 mil trabalhadores – 5 mil dos quais já foram dispensados. “A economia de Sertãozinho crescia em ritmo chinês de 2006 a 2008, de 10% a 12% ao ano. Era para termos 20 mil empregados hoje.” 

Boa parte das indústrias tenta diversificar sua produção. A Caldema chegou a fabricar de oito a dez caldeiras para a geração de energia por ano entre 2006 e 2008, quando tinha 600 empregados. Neste ano, fabricou três unidades e executou algumas reformas. Com 30 demissões recentes, sua folha de pagamentos encolheu para 500.

Para evitar uma “sangria” maior, a Caldema foi atrás de novas tecnologias. Fechou um contrato com a americana Foster Wheeler para produzir caldeiras que podem processar qualquer tipo de biomassa. Neste ano, a Caldema também fechou um contrato para produzir a caldeira para a primeira unidade de geração de energia a partir do lixo, em Barueri (SP). 

Comércio

O comércio local não tem para onde correr e espera a recuperação da indústria e das usinas. O faturamento da Loja das Fábricas, fundada há 60 anos, caiu 10%. E a situação não ficou ainda pior porque o comerciante Jayme Moisés, de 87 anos, mantém as vendas “fiado”, com as compras anotadas em cadernetas. 

Domingos Carotine, de 70 anos, calcula queda de 70% no faturamento de sua loja de material de construção nos últimos três anos. Em 2011, empregava 30 pessoas – hoje, são 8. Com as vendas em queda, a receita para manter a loja fundada por seu pai nos anos 40, Carotine mantém o estoque para evitar a perda da freguesia. “Acredito que em três anos pode haver melhoria no movimento. Mas isso depende das eleições de novembro.”

FONTE: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sertaozinho-quer-desapegar-do-etanol,1560052