Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos

País se tornou maior exportador das plumas brancas. No Mato Grosso, indígenas relatam os efeitos dos venenos. Rastreabilidade da cadeia é desafio

Coração do algodão no Brasil pulsa sob efeito de agrotóxicos – DW –  15/05/2025

O cultivo de algodão é o segundo que mais consome agrotóxicos por hectare no Brasil, atrás apenas do tabaco, elevando risco de contaminaçãoFoto: jensotte/Pond5/IMAGO 

Por Heloísa Traiano para a Deutsche Welle Brasil

No cerrado mato-grossense, os povos indígenas no município de Sapezal ainda se lembram de quando eram abundantes as águas e as roças. Mas hoje eles contam que o caju do mato, o pequi e as plantas medicinais diminuíram. Chegaram novas pragas às plantações. Vários tipos de abelhas sumiram e, com elas, a diversidade de méis.

Os rios viraram cemitérios de ovos de peixe, e quem bebe arrisca sentir dor de barriga ou diarreia. As aldeias relatam que a piracema, época da reprodução natural dos peixes, sofre quando se pulverizam os agrotóxicos nas crescentes lavouras de algodão ao redor da terra indígena. E afirmam que os abortos espontâneos aumentaram entre as mulheres.

A região da Bacia do Juruena é o coração da ascendente produção brasileira de algodão. As plumas brancas são a segunda commodity que mais consome agrotóxicos por hectare de lavoura no Brasil, atrás apenas do tabaco. Substâncias tóxicas viajam longas distâncias pelos ventos, e a alta concentração exacerba os riscos de intoxicação humana e contaminação de ecossistemas.

“A gente vê vários aviões passando. Eu observo agora que, quando plantamos, as plantas não ficam legais, porque acabam sendo afetadas,” diz Cleide Terena, presidente da associação de mulheres da Terra Indígena Tirecatinga, lar de nove povos indígenas. “A gente deixou de tomar água do rio e passou a comprar da cidade, por medo de beber água envenenada.”

Produto global, efeito local

No município do Sapezal, onde vivem os indígenas que relataram à organização Operação Amazônia Nativa (Opan) sua percepção dos efeitos dos pesticidas, o consumo de agrotóxicos dividido pelo número de habitantes é de 364 litros por ano, e em dois municípios algodoeiros vizinhos ultrapassa os 600 litros anuais, segundo cálculo pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). No Brasil, essa conta dá cerca de 7 litros anuais.

“Os agrotóxicos usados no algodão são potencialmente mais tóxicos à saúde e ao ambiente. Além disso, são utilizados volumes elevados por hectare, e geralmente por pulverização aérea ou terrestre. Portanto, as comunidades em torno estão expostas a riscos maiores de adoecimento”, afirma Marcia Montanari, professora do Instituto de Saúde Coletiva da universidade.

No ano passado, o Brasil foi pela primeira vez o maior exportador de algodão do mundo, e é o terceiro produtor global. Cerca de 70% do algodão brasileiro vai para o mercado externo, e a estimativa é que o país produza 9 milhões de toneladas na safra 2024/2025, das quais 6,2 milhões do Mato Grosso.

Reduzir o uso de agrotóxicos com “vacinas para plantas”?

Num marco zero da cadeia produtiva global, Sapezal tem a maior área algodoeira do estado e está entre os campeões do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desde 2017, ano com os dados mais antigos disponíveis no site do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso (Indea), o município ganhou o equivalente a 60 mil campos de futebol em plantações declaradas de algodão.

“Antes, quando a gente passava (pelos arredores da TI Tirecatinga) tinha árvores. Hoje está tudo derrubado, e só tem plantio”, continua Cleide, que viveu seus 42 anos na aldeia Serra Azul. “Só tem mato dentro do território mesmo.”

Quase sempre, o algodão é alternado com produções de soja e milho ou cercado por essas lavouras, que também estão entre as maiores consumidoras de agrotóxicos no Brasil. Cada hectare algodoeiro (ou campo de futebol) consome em média 28 litros de agrotóxicos ao ano, em comparação a 17 para a soja e 7 para o milho.

O uso exacerbado se explica pela alta suscetibilidade do algodão a pragas, inflada pela monocultura intensiva que caracteriza a produção massiva de commodities para exportação. No Brasil, o grande inimigo é o bicudo do algodoeiro, que historicamente devasta plantações e hoje registra um período de surto, tendo atingido em 2024 a maior incidência para o Mato Grosso em 12 anos.

Substâncias proibidas no Brasil

Os mais vulneráveis aos efeitos dos agrotóxicos são os trabalhadores rurais e as comunidades indígenas, que entram em contato direto com os agrotóxicos ou vivem em ecossistemas envenenados ao longo de anos. Segundo Montanari, mesmo baixas quantidades de resíduos tóxicos podem gerar danos reprodutivos, oncológicos, neurológicos e psiquiátricos em casos de exposição prolongada.

Na Bacia do Juruena, os indígenas encontram até as embalagens de agrotóxicos vazias nos rios, segundo os relatos reunidos pela Opan entre 2020 e 2021. À mesma época, oito de nove amostras de plantas medicinais e frutas, colhidas na Terra Indígena Tirecatinga e analisadas no âmbito de um projeto entre a UFMT e a Opan, tinham resíduos de onze agrotóxicos.

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Brasil é o maior exportador de algodão, com mais de dois terços da produção nacional saindo do Mato Grosso e rodando por cadeias globaisFoto: EVARISTO SA/AFP

“A soberania alimentar e o modelo de sociedade do povo indígena são também afetados”, diz a indigenista Adriana Werneck Regina, co-pesquisadora do projeto. Ela há três décadas registra os relatos de indígenas sobre os impactos do agronegócio na região.

Os cientistas ainda encontraram amostras de algodão, material hospitalar, ataduras, gases, fraldas, absorventes íntimos, tecido de algodão cru e coadores de café contaminados por 28 tipos de agrotóxicos. Dezessete são proibidos na União Europeia (UE), e dois no Brasil – o carbofurano e o carbendazim, associados aos riscos de câncer, problemas neurológicos e má formação de fetos.

Entre 2019 e 2024, houve quase 1,5 mil intoxicações registradas no estado pelo Ministério da Saúde, das quais 45% por agrotóxicos de uso agrícola – entre elas, 3% ligadas à lavoura de algodão.

No entanto, especialistas avaliam que há grande subnotificação dos efeitos adversos à saúde, para a qual contribuem o medo de represálias, legislações frouxas e falta de controle sobre pulverizações aéreas.

“Há grande insuficiência na fiscalização”, diz o procurador Gabriel Martins, do Ministério Público Federal no Mato Grosso (MPF-MT), que recebeu os dados de intoxicações fornecidos pelo Ministério da Saúde. “Vemos uma preocupação quase nula dos produtores e muito baixa da União, do governo estadual e dos municípios, que querem mais produção.”

Soluções da lavoura à vitrine

Outra deficiência está na rastreabilidade de uma cadeia produtiva global e fragmentada. O algodão brasileiro encontra seus principais mercados em China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão, onde se confeccionam tecidos para lojas de moda no mundo todo, desde o fast fashion até lojas de luxo.

São necessários maiores esforços por varejistas e iniciativas de certificação de produtores algodoeiros, segundo especialistas em sustentabilidade, para rastrear e evitar o uso de substâncias nocivas na ponta inicial da jornada da commodity, mapear riscos a trabalhadores nas lavouras e garantir maior transparência com o consumidor.

“O algodão sustentável é aquele plantado sem uso de veneno e junto com alimentos, o que garante a segurança alimentar de quem planta algodão”, diz Yamê Reis, coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design no Rio de Janeiro, que faz parte da campanha Moda Sem Veneno. “Precisamos de política pública, incentivo fiscal para pequenos produtores e restringir a importação de agrotóxicos.”

Para os defensores da moda sustentável, as soluções para o setor passam ainda pela disseminação entre os consumidores da importância do consumo consciente, o maior uso de fibras recicladas na indústria têxtil e o fortalecimento da agroecologia, que privilegia pequenos produtores e perspectivas de proteção ao meio ambiente.

“Ao contrário da agricultura convencional, algodão agroecológico significa usar fertilizantes orgânicos, não usar inseticidas e fungicidas, diminuir operações mecanizadas e rotacionar culturas”, diz Larissa Roviezzo, consultora em economia circular e sustentabilidade. “Existe uma ideia de que a agricultura familiar é pequena e não pode ser produzida em larga escala, mas isso não é verdade.”

Discussão internacional

Hoje, 82% da produção brasileira é de algodão certificado pela organização Better Cotton Initiative (BCI). O selo é internacionalmente reconhecido por supostamente identificar, para varejistas e consumidores, a produção em conformidade com 28 critérios econômicos, sociais e ambientais.

No Brasil, principal origem do algodão licenciado pela organização, a BCI elabora seu selo com base na certificação Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), e inclui alguns critérios adicionais próprios.

Essa metodologia é alvo de críticos dentro e fora do Brasil, que reclamam da falta de auditoria externa contratada pela BCI e advogam por maior controle quanto ao uso de agrotóxicos.

Em entrevista à DW, a BCI afirmou que o algodão por ela certificado não pode ser chamado de “sustentável”. “O que a gente acredita é que a sustentabilidade não é um destino a que se chega, é algo que a gente almeja”, disse Álvaro Moreira, gerente sênior de parcerias e programas de grandes fazendas. Ele reconhece que o uso de pesticidas segue muito alto no Brasil e é o principal desafio para o setor.

Dentre os critérios da BCI para pesticidas, estão a não utilização de agrotóxicos listados como altamente perigosos e a existência de um plano dos produtores para eliminar até 2028 substâncias definidas como carcinogênicas, mutagênicas ou tóxicas para a reprodução.

Mas, desde 2023, a BCI tem um procedimento para produtores solicitarem o uso, por até três anos, de pesticidas de alto risco ao meio ambiente e à saúde humana. Esse mecanismo vale no Brasil e pode ser pedido na ausência de “alternativas viáveis”, desde que o produtor apresente um plano para a descontinuação gradual.

Em abril do ano passado, a produção de algodão com o selo da BCI foi associada a abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia por uma investigação da organização Earthsight. Nos meses seguintes, a BCI relatou que revisões independentes não detectaram infração dos seus parâmetros nas fazendas citadas e que colocou em prática um plano de ação para endereçar desafios na região.

A BCI diz que a certificação também se baseia em dados disponibilizados por produtores e autodeclarações dos pesticidas usados. Por sua vez, a Abrapa afirmou em nota que fazendas certificadas passam por auditorias de terceira parte anualmente e que tem investido em maior rastreabilidade da cadeia produtiva, inclusive com um projeto-piloto que permite ao consumidor acessar com um QR Code as informações sobre as etapas percorridas pelo algodão.


Fonte: Deutsche Welle Brasil

Agro é tech, mas não é pop: as polêmicas da produção de algodão no Brasil

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante com a agricultura e o cultivo de algodão

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Colheita de algodão na Fazenda Horita, na propriedade Estrondo, Bahia, Brasil, junho de 2023

Por Yamê Reis para a “Carta Capítal” 

Recentemente, o agronegócio comemorou ter alcançado pela primeira vez a liderança da exportação mundial de algodão, superando os Estados Unidos. Desde os tempos coloniais essa liderança vem sendo disputada, num mercado que inclui a Índia e China, como grandes produtores e exportadores globais dessa commodity.

Esse resultado é fruto de um esforço conjunto dos produtores de algodão e da indústria agro-química para conquistar benefícios financeiros para investimentos em tecnologia, isenções fiscais e apoio institucional, que facilitassem sua expansão e consolidação no bioma do Cerrado nos últimos 25 anos.

Tal como a soja e o milho, o algodão é um dos motores de crescimento e rentabilidade do agronegócio, e adquire um status especial e diferenciado dos outros produtos pela “sustentabilidade” a ele atribuída
pelos seus produtores e certificações nacionais ABR e a internacional Better Cotton, com sede na Suíça.

Entretanto, um cultivo em monocultura com uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, com expulsão do trabalhador do campo e sem beneficiar as comunidades locais não pode ser chamado de sustentável, inúmeros estudos acadêmicos nos últimos anos, revelando que o Movimento Sou de Algodão, criado pelos produtores para disseminar a cultura do algodão do agro, é mais um caso de Greenwashing da indústria da Moda.

O caso do algodão brasileiro tomou contornos graves em abril deste ano quando a ONG internacional com sede em Londres, Earthsight, publicou um relatório chamado “Crimes da Moda”. O documento demonstra que as maiores marcas varejistas de moda do mundo, Zara e H&M, usam algodão brasileiro certificado Better Cotton ligado a grilagem de terras, desmatamento ilegal, violência, violações de direitos humanos e corrupção. Por meio de vasta documentação, a investigação rastreou o algodão desde as fazendas SLC e Grupo Horita no oeste da Bahia, passando pelas fiações e confecções asiáticas, até chegarem às lojas da Europa.

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante e sistemática desde o começo dos anos 2.000. A agricultura em escala industrial já destruiu metade da vegetação nativa e temos visto o problema se agravar nos últimos anos com taxas de desmatamento aumentando em 43% em 2023 em comparação ao ano anterior.

A empresa investigada pela Eartsight, SLC, é o maior produtor de algodão do Brasil, e tanto ela quanto o Grupo Horita, um dos seis maiores produtores, têm sua produção ligada a uma série de ilegalidades. Ambas as famílias têm origem no Sul do Brasil e estão entre as mais ricas do país. Líderes da sociedade civil local relataram que é raro encontrar fazendas de soja ou algodão no oeste da Bahia que não sejam resultado da grilagem de terras, e isso pode ser constatado pelos inúmeros registros de processos de disputa de territórios desde o inicio da ocupação do Cerrado em 1970-1980,  desmatamento ilegal, casos de corrupção, violência e negligência do governo estadual.

Apesar das evidências dos fatos revelados no relatório da Earthsight, a Better Cotton certificou a produção do algodão de ambas as empresas e o produto contaminado pela violência e destruição do Cerrado é vendido no exterior como “sustentável”. A conclusão inevitável é de que os processos de certificação são extremamente falhos e ineficientes, não se preocupando com atestados de propriedade legal, monitoramento de desmatamento, e quantidades usadas de agroquímicos e contaminação das comunidades no entorno das áreas cultivadas.

E para piorar ainda mais o caso, a ONG mostrou, nas últimas semanas, revelações surpreendentes de um exfuncionário da Better Cotton sobre a manipulação de dados na plataforma online da certificadora, onde constam mais de 13.000 usuários em todo o mundo. De acordo com a fonte, a  ausência de verificação dos dados e as manipulações são de tal ordem que é possível que algumas quantidades de algodão convencional não auditados sejam inseridas na plataforma como“algodão sustentável certificado”.

Além disso, a Better Cotton raramente verifica as empresas da cadeia de suprimentos quanto à conformidade com suas diretrizes, bastando a autodeclaração dos produtores. Ao que tudo indica, a Better Cotton tem agido preocupada com seu crescimento e resultado financeiro, já que as taxas cobradas de seus clientes e associados são proporcionais aos volumes comprados, ou seja, quanto mais algodão, melhor.

Certificações são uma ferramenta essencial de garantia de rastreamento de origem de produtos sustentáveis, trazem confiança aos consumidores de que a cadeia produtiva é ética, respeita os Direitos Humanos e o trabalho digno. Porém, o que estamos vendo é que no caso da Better Cotton o rigor com os protocolos de auditoria e aprovação de registros de  produtores vem sendo afrouxados em prol do lucro da empresa, em não em nome de fomentar e incentivar cadeias produtivas éticas na indústria da Moda.

Para nós no Brasil, fica o alerta de que, enquanto clientes número um e consumidores de 100% de algodão brasileiro, estamos também submetidos ao descontrole e as fragilidades das certificações ABR e BCI. As marcas de moda associadas ao Movimento Sou de Algodão devem começar a exigir que as fazendas certificadas obtenham aprovação das comunidades para as atividades que os afetam, que o algodão cultivado não esteja ligado a áreas desmatadas antes de 2019, e que as auditorias sejam conduzidas por agentes imparciais.

Marcas de moda comprometidas com a sustentabilidade e a responsabilidade socioambiental devem perguntar de onde vem o algodão brasileiro e como ele foi produzido, mesmo que ele tenha a certificação Better Cotton ou ABR. Vamos fazer a nossa parte e subir a régua da sustentabilidade na Moda.

Yamê Reis é Mestre em Sociologia Política, Coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design-Rio e Docente Embaixadora do Fashion Revolution Brasil.


Fonte: Carta Capital

Livro de Yamê Reis revela como o agronegócio do algodão se apropriou do discurso da sustentabilidade para se esverdejar

Acabo de receber de forma de um gentil presente de sua autora, Yamê Reis, o livro intitulado “O agronegócio do algodão” que foi publicado pela editora “Livros Ilimitados”. O trabalho aborda de forma meticulosa a produção do algodão em grandes áreas de monocultura no Brasil, e as implicações socioambientais que cercam o avanço desta cultura sobre áreas anteriormente ocupados pelo Cerrado, incluindo o uso intensivo de agrotóxicos.

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Um aspecto que merece atenção do trabalho de Yamê Reis tem a ver com a análise que ela faz sobre a apropriação do discurso da sustentabilidade pelo agronegócio cotonicultor para, em que pesem todas as agressões ambientais que acompanharam a transformação do Brasil em um dos maiores produtores mundiais de algodão, formar uma imagem relativamente benigna. Essa imagem supostamente benigna seria então utilizada para isentar as grandes marcas de vestuário para também se apropriar do discurso da sustentabilidade.

Entretanto, com dados empíricos e com uma análise teórica bem definida, o que Yamê Reis demonstra é que a supostamente adesão ao conceito de sustentabilidade por parte do setor cotonicultor não resiste a um exame mínimo das práticas que poderiam ser consideradas como sustentáveis, a começar pelo compromisso de que o monocultivo de algodão não seja causador de desmatamento de vegetação nativa, como no caso do Cerrado.

É interessante notar que este livro é fruto do trabalho que Yamê Reis desenvolveu no âmbito de Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), onde a autora concluiu sua dissertação de mestrado. Yamê Reis também é uma das fundadoras do “Rio Ethical Fashion que, inclusive, terá sua terceira edição em 2022, para discutir o estabelecimento de formas mais éticas de convívio com a Terra e as pessoas.

Quem desejar adquirir uma cópia do “Agronegócio do algodão”, basta clicar [Aqui!].

 

Contra PL do Veneno, petição com mais de 42 mil assinaturas apoiada por ativistas e artistas será entregue a parlamentares na Virada Sustentável

 A campanha contra o uso de agrotóxicos na moda, #ModaSemVeneno terá encontro  dia 20 de setembro às 18h em transmissão ao vivo com parlamentares para pressionar contra o PL 6299/02. Presenças confirmadas  dos deputados Nilto Tatto, Paulo Pimenta e Talíria Petrone da Frente Parlamentar Ambientalista.

Em meio à pandemia do Coronavírus no Brasil, a bancada ruralista vê oportunidade de aprovar o PL 6299/02, conhecido como PL do Veneno. Proposto pela frente parlamentar formada por empresários do agronegócio, o PL impacta diretamente a vida da população, mas foi construído de forma unilateral, sem qualquer diálogo com a sociedade. Os principais argumentos em favor do PL já foram rebatidos por uma série de especialistas. A Anvisa, a Comissão de Direitos Humanos,a Abrasco,a Fiocruz e uma série de entidades já se posicionaram contra a aprovação do projeto.

A campanha #ModaSemVeneno, contra a aprovação do PL, foi lançada em abril lançaram em abril durante a Semana Fashion Revolution pela união das organizações Fashion Revolution Brasil, Instituto Modefica e Rio Ethical Fashion,  especialmente por entender que não estamos no momento para ter um debate amplo com a sociedade sobre as consequências da aprovação do projeto de lei e pela estreita relação da indústria têxtil e de confecção com o agronegócio brasileiro

A petição já ultrapassou  42 mil assinaturas na plataforma Change Brasil e será entregue a representantes da Frente Parlamentar Ambientalista durante transmissão ao vivo dentro da programação da Virada Sustentável de São Paulo, no canal do Youtube do Instituto Modefica, além de divulgação de vídeo manifesto de diversos ativistas como  Paulina Chamorro, Marina Silva e Marina Colerato. Nomes da moda como Dudu Bertonlini, Flávia Aranha,  Feh Simon, Day Molina, Jackson Araújo, Yamê Reis, Elo Artuso e artistas engajados através do movimento 342 Artes também endossam a campanha. A ação tem apoio da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida,bem como de organizações da indústria têxtil e de confecção, como CNTRVCut, além de organizações de base, como Marcha das Margaridas, e mídias ativistas como Mídia Ninja e Design Ativista.

O que o PL 6299/02 tem a ver com a moda?

O algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país. Entre os agrotóxicos mais utilizados está o glifosato, que pode causar diversos efeitos na saúde, como aborto espontâneo e câncer.


A exposição cumulativa aos agrotóxicos deve ser considerada visto que alguns compostos amplamente utilizados podem permanecer presentes em organismos, água e solo por muitos anos. O Brasil é também um grande exportador de celulose solúvel, matéria-prima para a produção de viscose. As culturas de eucalipto e algodão utilizam de 7 a 10 tipos dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil, respectivamente. Entre os mais utilizados está o acefato, na 4º posição, com alto potencial carcinogênico e o Imidacloprido, na 7ª posição, considerado um dos mais fatais para abelhas, polinizadoras importantes, o que gera preocupação tanto do ponto de vista econômico, quanto socioambiental.

Entre os riscos para o setor da moda estão: (i) a desinformação do consumidor; (ii) riscos reais à saúde de trabalhadoras e trabalhadores, incluindo questões de saúde reprodutiva das mulheres; (iii) ameaça à exportação nacional dado novos posicionamentos dos países em relação ao uso intensivo de agrotóxicos.

As petições demonstram a preocupação da sociedade e são utilizadas para pressionar congressistas a votarem contra a aprovação do PL. O grupo organizador irá entregar as assinaturas formalmente à Frente Parlamentar Ambientalista. Assine e compartilhe este abaixo-assinado e junte-se à luta de diversas organizações e indivíduos contra a aprovação do PL do Veneno.

Saiba mais em: https://modefi.co/por-uma-moda-sem-veneno.

Sobre as organizações:

Fashion Revolution Brasil

Fashion Revolution é um movimento presente em mais de 90 países, criado após um conselho global de profissionais da moda se sensibilizar com o desabamento do edifício Rana Plaza em Bangladesh, que causou a morte de mais de 1.000 trabalhadores da indústria de confecção e deixou mais de 2.500 feridos. A tragédia aconteceu no dia 24 de abril de 2013, e as vítimas trabalhavam para marcas globais, em condições análogas à escravidão. A campanha #QuemFezMinhasRoupas surgiu para aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto no mundo, em todas as fases do processo de produção e consumo. No Brasil, o movimento atua há 7 anos e hoje está estabelecido como Instituto Fashion Revolution Brasil realizando ações e projetos que promovem mudanças de mentalidade e comportamento em consumidores, empresas e profissionais da moda. Saiba mais em https://www.fashionrevolution.org .

Instituto Modefica

Fundada por Marina Colerato em 2014, o Modefica é uma organização de mídia, pesquisa e educação que atua pela justiça socioambiental e climática com uma perspectiva ecofeminista. Temos como missão aumentar a percepção sistêmica sobre os problemas socioambientais para promover relações de equidade e justiça entre seres humanos, não-humanos e Natureza. Fazemos jornalismo, pesquisas e projetos de educação de jornalismo socioambiental que evidenciam como as alterações climáticas e a devastação ambiental impactam de forma mais sistemática mulheres e pessoas não-brancas. Nossa pesquisa mais recente, Fios da Moda: Perspectivas Sistêmicas Para Circularidade, salienta as relações entre as fibras têxteis e impactos socioambientais na vida da população brasileira, além de propor uma economia circular para o Sul global. Saiba mais em modefica.com.br.

Rio Ethical Fashion

O Rio Ethical Fashion é um movimento que reúne pessoas para discutir, inspirar, criar parcerias e divulgar os valores da sustentabilidade na indústria da Moda, suas vertentes culturais e socioeconômicas no Brasil e no mundo. O Rio Ethical Fashion é o Primeiro Fórum Internacional de Sustentabilidade no Brasil, com edições realizadas em 2019 e 2020 com as principais lideranças da sustentabilidade da moda global. Nosso objetivo é colocar o Brasil na rota da discussão internacional trazendo o olhar de fora para nossas potencialidades criativas e criando novas oportunidades para nossa indústria, é uma de nossas principais missões. Saiba mais em https://www.rioethicalfashion.com.

As porta-vozes do Fashion Revolution Brasil, Instituto Modefica e Rio Ethical Fashion estão disponíveis para entrevistas. Para maiores informações e agenda de pautas entre em contato com a equipe da Voice 176:

  • Larissa Henrici – lari@voice176.com 
  • ● Nathalia Anjos – nathalia@voice176.com

Movimento Setorial da Moda diz Não ao PL PL do Veneno e cria abaixo-assinado para pressionar o congresso nacional

abaixo assinado

Em meio ao pior momento da pandemia do Coronavírus no Brasil, a bancada ruralista vê oportunidade de aprovar o PL 6299/02. Conhecido como PL do Veneno, sua proposta é flexibilizar o processo de aprovação de novos agrotóxicos, mudar critérios de avaliação, banir o termo “agrotóxico” e encontrar brechas para liberar produtos que a atual legislação proíbe. 

Proposto pela frente parlamentar formada por empresários do agronegócio, o PL impacta diretamente a vida da população, mas foi construído de forma unilateral, sem qualquer diálogo com a sociedade. Os principais argumentos em favor do PL já foram rebatidos por uma série de especialistas. A Anvisaa Comissão de Direitos Humanosa Abrascoa Fiocruz e uma série de entidades já se posicionaram contra a aprovação do projeto. 

O que o PL 6299/02 tem a ver com a moda? 

O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do planeta e o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país. Entre os agrotóxicos mais utilizados está o glifosato, que pode causar diversos efeitos na saúde, como aborto espontâneo e câncer. 

O Brasil é também um grande exportador de celulose solúvel, matéria-prima para a produção de viscose. As culturas de eucalipto e algodão utilizam de 7 a 10 tipos dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil, respectivamente. Entre os mais utilizados está o acefato, na 4º posição, com alto potencial carcinogênico e o Imidacloprido, na 7ª posição, considerado um dos mais fatais para abelhas, polinizadoras importantes, o que gera preocupação tanto do ponto de vista econômico, quanto socioambiental. 

Mas o uso de agrotóxicos não impacta apenas as comunidades próximas. A exposição cumulativa aos agrotóxicos deve ser considerada visto que alguns compostos amplamente utilizados podem permanecer presentes em organismos, água e solo por muitos anos.

Alerta para a moda! O que acontecerá se o PL for aprovado

Desinforma o consumidor: ao retirar as sinalizações de perigo das embalagens, alterando o nome dos produtos para “defensivos agrícolas” ou “produtos fitossanitários” no lugar de “agrotóxicos”, o PL demonstra uma tentativa de apresentar os agrotóxicos como produtos benéficos, e não tóxicos.

Riscos reais à saúde de trabalhadoras e trabalhadores: em 2018um estudo feito com mulheres expostas ao glifosato em Uruçuí, no sul do Piauí, região de cultivo de soja, milho e algodão, estimou que uma em cada quatro grávidas da cidade sofreu aborto espontâneo e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado.
Ameaça a exportação do algodão brasileiro: a Europa e Estados Unidos caminham em um movimento de redução de agrotóxicos, sendo que produtos proibidos lá são os mais vendidos por aqui. Em curto prazo, a mudança deve afetar o próprio negócio de exportação das commodities brasileiras, como enfatizou a pesquisadora da Universidade de São Paulo – USP, Larissa Bombardi, durante o Ciclo de Debates Sobre Agrotóxicos, da Assembléia Legislativa de São Paulo, ocorrido no dia 05/05/2021, a aprovação do PL 6299/02 como estratégia de negócio é um “tiro no pé”.

Apoiados em fontes e dados irrefutáveis, nos posicionamos contra o PL 6299/02 e em favor de uma Moda Sem Veneno. Somos designers, empresárias, professoras, cientistas, estilistas, criadoras, comunicadoras, ativistas, militantes, jornalistas, consumidoras, costureiras, pesquisadoras, etc. Somos pessoas a favor da ciência e da tecnologia como ferramentas de promoção da vida. 

As petições demonstram a preocupação da sociedade e são utilizadas para pressionar congressistas a votarem contra a aprovação do PL. O grupo organizador irá entregar as assinaturas formalmente à Frente Parlamentar Ambientalista. Assine e compartilhe este abaixo-assinado e junte-se à luta de diversas organizações e indivíduos contra a aprovação do PL do Veneno. 

Referências e mais informações sobre o PL 6299/02, acesse: 

Relatório: Fios da Moda: Perspectivas Sistêmica Para a Circularidade;
Dossiê: Impactos dos Agrotóxicos na Saúde;
Publicação :Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia;
Reportagem: Bancada Ruralista retoma PL do Veneno;
Reportagem : Um Aborto a Cada 4 Grávidas;
Entrevista: Glifosato: um provável carcinógeno aprovado no Brasil. 

Articulação : Modefica, Fashion Revolution, Rio Ethical Fashion 

Organizações que apoiam esta petição: 

  • Regenerate Fashion
  • Voice176
  • Design Ativista
  • Mídia Ninja
  • Brasil Eco Fashion Week 
  • Marcha das Margaridas
  • Banco de Tecido
  • Flavia Aranha
  • CNTRV CUT
  • Textile Exchange
  • Think Blue
  • Puxadinho
  • Comas
  • ReRoupa
  • Cooperativa Justa Trama
  • Georgia Halal
  • Joaquina Brasil
  • Jorge Feitosa

Nomes dos parlamentares a serem pressionados :

  • Arthur Lira (PP/AL), líder na Câmara e membro da FPA; (dep.arthurlira@camara.leg.br);
  • Deputado Federal Sérgio Souza, presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) (eleito em 3/02/2021); (dep.sergiosouza@camara.leg.br);
  • 280 membros da FPA;
  • Ministra da Agricultura Tereza Cristina (mais de mil agrotóxicos aprovados na gestão – recorde); (agenda.gm@agricultura.gov.br); 
  • Dep. Luiz Nishimori (PR-PR) (favorável) – (dep.luiznishimori@camara.leg.br); 
  • Luis Carlos Heinze (PP-RS): (sen.luiscarlosheinze@senado.leg.br);
  • Alceu Moreira (MDB-RS): (dep.alceumoreira@camara.leg.br);
  • Celso Maldaner (MDB-SC): (dep.celsomaldaner@camara.leg.br); 
  • Zé Silva (SD-MG): (dep.zesilva@camara.leg.br)

Quem desejar aderir ao abaixo-assinado promovido pelo Setor da Moda, basta clicar [Aqui!].

Relatório analisa impacto socioambiental das principais fibras utilizadas na indústria da moda

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  • O relatório “Fios da Moda”, lançado hoje na Semana Fashion Revolution, traz informações sobre a produção e os impactos ambientais do algodão, do poliéster e da viscose.
  • O Brasil é o segundo maior exportador de algodão do mundo, cultura que consome o dobro de agrotóxicos aplicados no cultivo da soja; maiores impactos são no Cerrado.
  • O descarte também é um problema: só no centro de São Paulo estima-se que sejam descartadas mais de 60 toneladas de resíduos têxteis por dia; o poliéster pode levar até 400 anos para se decompor.
  • O algodão orgânico no Brasil tem tido um crescimento lento, mas promissor; no Nordeste, o cultivo agroecológico contribui para a segurança alimentar.
Por Sibélia Zanon para o Mongabay

Para muito além do preço que se paga por cada peça nova de roupa, existe um custo socioambiental invisibilizado na etiqueta. Desde a produção das três fibras mais utilizadas pela indústria da moda – o algodão, a viscose e o poliéster – até o descarte da peça de roupa há um longo caminho que passa pelo uso do solo, a toxicidade gerada durante os processos de plantio e fabricação, o uso de água e energia, as emissões de gases de efeito estufa (GEE), o descarte de resíduos e a mão de obra envolvida em toda a cadeia produtiva.

O relatório “Fios da Moda”, com lançamento oficial hoje durante a Semana Fashion Revolution, é a primeira publicação brasileira a analisar em detalhes esses impactos. Publicado pela Modefica, plataforma de moda com foco em sustentabilidade, em parceria com a Regenerate Fashion e a Fundação Getulio Vargas, o relatório faz uma avaliação qualitativa e quantitativa do quanto as fibras têxteis têm contribuído para a crise climática e a desigualdade social.

Segundo Marina Colerato, autora do relatório, a escassa produção de informações e dados sobre a indústria da moda no Brasil é ponto de atenção. “Se a gente está vivendo na década final para a questão do clima, para a redução de emissões de CO2, é bastante alarmante que as empresas de grande porte não façam mensuração das emissões de CO2”, alerta a também coordenadora do Modefica. “Se a gente não está produzindo dados, a gente não está olhando para o problema. E se a gente não está olhando para o problema, a gente não vai agir sobre ele”.

O setor têxtil brasileiro compreende todas as etapas da confecção, desde o plantio de algodão até o varejo, e é referência mundial em segmentos como jeans e moda praia. A cadeia produtiva é fragmentada, contando com grande número de fornecedores, o que dificulta a rastreabilidade de impactos causados ao longo das diversas etapas do processo produtivo.

Com cerca de 9 bilhões de peças de roupa produzidas por ano e destinadas sobretudo ao mercado interno, o Brasil faturou US$ 48,3 bilhões em 2018. Como exportador de vestuário, o país ocupa o 83º lugar, mas, quando se trata da exportação de commodities como o algodão, o Brasil é o segundo maior e também está entre os principais exportadores de polpa de celulose solúvel, matéria-prima que vem da madeira e dá origem à viscose.

Segundo a consultoria McKinsey, o setor têxtil representa 6% das emissões globais de gases de efeito estufa e de 10 a 20% do uso de pesticidas. Lavagem, solventes e corantes usados na fabricação são responsáveis por um quinto da poluição industrial da água, e a moda é responsável por 20 a 35% do fluxo de microplásticos para o oceano.

Confecção em Salvador (BA): o setor têxtil brasileiro compreende todas as etapas da confecção, do plantio de fibras ao varejo, Foto: Jefferson Peixoto/Secom.

Algodão consome 28 litros de agrotóxicos por hectare

Entre as fibras mais produzidas, o poliéster representa 51% da produção mundial, seguido pelo algodão com 25%. O Brasil é o quarto maior produtor mundial de algodão e, dentre as fibras produzidas no país, o algodão lidera com mais de 90% da produção. Ainda que tenha a vantagem de ser uma fibra natural, o algodão deixa um rastro pesado no meio ambiente. Segundo o relatório Fios da Moda, trata-se da quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no Brasil, com uma aplicação média de 28 litros de pesticidas por hectare – mais do que o dobro aplicado na soja, commodity que recebe 12 litros por hectare.

“A Abrapa (Associação Brasileira de Produtores de Algodão) é uma das associações que mais está se esforçando politicamente para a aprovação da chamada PL do veneno”, diz Marina, referindo-se ao projeto de lei que regulamenta o uso de novos agrotóxicos. O Brasil já é conhecidamente permissivo em relação ao uso de pesticidas, se comparado a outros países. Segundo o atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, revisado em 2019 pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, dos 160 agrotóxicos autorizados para o cultivo do algodão no Brasil, 47 são de uso proibido na União Europeia.

A pressão pela expansão de áreas de cultivo é outro aspecto que se soma ao custo socioambiental da fibra. Segundo o relatório “Perspectivas para a Agropecuária 2019/20”, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área para o plantio do algodão aumentou 37,1% na safra 2018/19 em relação à safra anterior, atingindo 1,61 milhão de hectares de área. O Mato Grosso e a Bahia respondem por 88% do total da área de cultivo do algodão no Brasil. Isso aponta para uma grande pressão sobre o Cerrado, bioma que já perdeu 55% de sua vegetação nativa e concentra a maior parte da cultura algodoeira por ter suas estações de seca e chuva mais definidas, favorecendo o cultivo em regime de sequeiro, ou sem irrigação, predominantemente praticado no Brasil.

O setor algodoeiro se orgulha por ter mais de 90% da safra 2018/19 certificada no Brasil com o selo Better Cotton Initiative (BCI), que configura a produção responsável de algodão. “O BCI, como o nome já diz, ele é melhor, mas ainda não é bom”, afirma Silvio Moraes, embaixador da certificadora Textile Exchange para a América Latina. “O Brasil está longe de ser um bom exemplo de país com produção sustentável de algodão. O selo BCI garante, na teoria, que o agrotóxico tenha registro e seja aplicado de forma correta, com equipamentos de segurança e tudo mais, mas ele não busca reduzir o uso de agrotóxico”.

Cultura de algodão em Lucas do Rio Verde (MT): campeã em uso de agrotóxicos. Foto: Alan Santos.

Poliéster, campeão em emissões de GEE

A segunda fibra produzida no Brasil é o poliéster, que representa 5% da produção nacional e inicia sua cadeia produtiva com o refino de petróleo e a obtenção da nafta. O uso de combustível fóssil faz dela a fibra campeã em emissões de gases de efeito estufa. Além disso, o poliéster solta microplásticos, que já foram encontrados na água potável, no peixe servido à mesa, e em vários órgãos do corpo humano. Estudo recente indica que as micropartículas das roupas de material sintético podem prejudicar a recuperação dos tecidos pulmonares em pacientes com doenças respiratórias, como a covid-19.

O poliéster reciclado, feito a partir de garrafas PET, cresceu nos últimos anos. A relevância da reciclagem é indiscutível, mas o relatório “Fios da Moda” aponta para o fato de que o problema não é solucionado, mas muda de endereço. Se o material oriundo da reciclagem de garrafa PET não volta para a produção das garrafas, mas é direcionado a outros produtos como o poliéster, as novas garrafas PET que chegam ao mercado continuarão demandando matéria-prima virgem em sua produção.

“PET é um produto bom porque você consegue reciclar”, comenta Silvio. “Ele retorna para o ciclo econômico, mas com algum custo, e às vezes não retorna 100% do material que foi colocado no mercado. Agora, quando você fala do algodão, ele é 100% reciclável. Ou vai ser reciclado na forma de fibra, retornando para o ciclo industrial, ou ele vai apodrecer e virar um composto no fim das contas”, compara.

Viscose, provável motora do desmatamento

Em terceiro lugar no cenário das fibras está a viscose, fibra artificial que tem a produção semelhante à da celulose para papel e usa no processo materiais corrosivos, como a soda cáustica e o ácido sulfúrico. A polpa da madeira extraída de árvores é transformada em fibra de celulose e, então, em fios de viscose. O Brasil está entre os 10 principais produtores de celulose, representando cerca de 11% da produção mundial em 2019.

Quando falamos em celulose, falamos na eucaliptocultura, que ocupa no Brasil território equivalente a 80% do tamanho de Portugal. Tanto a cultura do eucalipto quanto a do algodão utilizam entre 7 a 10 dos principais tipos de agrotóxico vendidos no Brasil, incluindo o glifosato, apontado como altamente tóxico e cancerígeno.

Somando-se a isso, a consultoria Canopy estima que 30% da viscose produzida no mundo é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, incluindo a Amazônia. “Os números do desmatamento ilegal refletem de alguma forma na indústria da moda porque a gente tem uma produção de celulose bastante considerável e baixo rastreamento” afirma Marina. “Ninguém me garante que a celulose solúvel que está saindo do Brasil não vem de floresta desmatada”.

Um comparativo entre as fibras, no que se refere às emissões de GEE, mostra que a produção de viscose tem emissão menor do que o poliéster e 50% maior que as fibras de algodão. As emissões do algodão estão diretamente relacionadas ao uso de fertilizantes químicos, herbicidas, inseticidas e fungicidas, além do uso de operações mecanizadas. Se comparado ao cultivo convencional, o cultivo de algodão orgânico reduz em 58% as emissões de GEE.

Cultivo de eucalipto para celulose em Eunápolis (BA), principal matéria-prima da viscose. Foto: Amanda Oliveira/GOVBA.

Demanda por algodão orgânico brasileiro é maior do que a oferta

De acordo com relatório da Textile Exchange, o Brasil é um dos últimos entre os 19 países produtores de algodão orgânico, com 0,04% da produção mundial. Ainda assim, apresentou incremento de 335% na safra 2018/19. “Nós hoje temos uma demanda de algodão orgânico muito maior do que a produção. Então essa demanda está puxando os agricultores a produzirem mais”, afirma Silvio.

Nos últimos anos, o apoio de ONGs para assistência técnica aos agricultores, a comercialização garantida por contratos e parcerias com instituições e empresas preocupadas com sustentabilidade fortaleceram a cadeia de produção.

O plantio de algodão orgânico no Brasil ocorre predominantemente no Nordeste, dentro dos preceitos da agroecologia. “Eu sou muito defensor do algodão orgânico da forma como é produzido no Brasil ou em alguns lugares do Peru, onde é produzido por pequeno produtor com recuperação do ambiente, muitas vezes de forma comunitária e remunerado por preço diferenciado pelo mercado”, explica Silvio. “O algodão agroecológico orgânico brasileiro, todo ele é produzido em consórcios alimentares. Isso dá para o agricultor segurança alimentar”.

A Paraíba é o estado campeão na produção de algodão orgânico. Desde 2015, o Projeto Algodão Paraíba, iniciativa governamental com parceria da Embrapa, apoia pequenos núcleos de agricultores. “Essa é uma coisa completamente nova”, afirma Silvio. “O que puxava a produção do algodão orgânico eram pequenas empresas idealistas e de repente a gente vê uma iniciativa governamental. Quem dera a gente conseguisse replicar isso em outros estados”.

Colheita de algodão agroecológico na Paraíba. Foto: Governo da Paraíba.

Circularidade na indústria da moda

A metade das empresas do segmento têxtil e de confecção está no Sudeste. Apenas na região central da cidade de São Paulo estima-se que os bairros tradicionalmente conhecidos por formarem o maior pólo produtivo de roupas do país, como Brás, Bom Retiro e Vila Maria, descartam mais de 60 toneladas de resíduos têxteis por dia.

Enquanto o algodão leva de 10 a 20 anos para se decompor, alguns tecidos sintéticos demoram entre 100 e 300 anos e o poliéster pode levar até 400 anos. Segundo o “Fios da Moda”, a reciclagem não é uma tarefa incentivada. Enquanto fazer o descarte dos resíduos não custa nada aos produtores, eles pagam aos catadores entre R$ 0,30 e R$ 0,60 pelo quilo de resíduos têxteis recolhidos.

A aplicação da economia circular na indústria da moda seria uma alternativa para reduzir resíduos e poluição, prolongar o uso das peças e regenerar sistemas naturais. Com os princípios da reutilização, reparo e remanufatura, a reciclagem se apresenta como último recurso. A economia circular inclui ainda a regeneração de terras agrícolas e florestais, diminuição de emissões de GEE, cuidados com o uso e poluição das águas, e valorização das pessoas nas diversas etapas da cadeia produtiva. “A gente não pode deixar de pensar que a economia circular também precisa ser restaurativa e regenerativa para com a sociedade. A gente precisa pensar em restauração e regeneração por princípios: das pessoas, da sociedade e do meio ambiente. Então a gente está falando de regeneração socioambiental”, explica Marina.

Algumas iniciativas caminham nessa direção, como é o caso da Re-Roupa, metodologia para reaproveitamento de tecidos e transformação de peças que é aplicada em oficinas de criação coletiva e capacitação. Também praticado por novas marcas, o conceito de upciclyng prega a reutilização criativa de peças em vez do descarte. O movimento Fashion Revolution busca conscientizar sobre os impactos socioambientais do setor e criou a Brasil Eco Fashion Week, semana dedicada à moda sustentável.

“A questão óbvia quando se fala de sustentabilidade de verdade é a circularidade. Qualquer fibra, qualquer produto que seja usado, ele tem que ter dois fins: ou ele retorna para o ciclo econômico, ou ele retorna para o ciclo natural”, diz Silvio. “Fibras orgânicas sempre vão ser preferenciais. E entre elas, no meu ponto de vista, o algodão, o cânhamo e o linho”, acrescenta.

Imagem do banner: Colheita do algodão em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso. Foto: Clauber Cleber Caetano.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay News [Aqui!].