O veneno começa no berço: agrotóxicos contaminam alimentos destinados a bebês e crianças brasileiras

Estudo do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) identifica resíduos de glifosato, glufosinato, fipronil e outros pesticidas em ultraprocessados para a primeira infância, expondo as fragilidades da regulação sanitária e do modelo agroalimentar brasileiro

Um dos maiores paradoxos do atual sistema alimentar brasileiro é que os produtos destinados justamente ao grupo mais vulnerável da população – bebês e crianças pequenas – também estão sujeitos à contaminação por agrotóxicos. Essa é a principal conclusão do relatório Tem veneno nesse pacote – Volume 4: Produtos para primeira infância, elaborado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), que analisou fórmulas infantis, compostos lácteos, cereais e engrossantes amplamente comercializados no país. 

Os resultados são preocupantes. Dos 12 produtos analisados, cinco apresentaram resíduos de agrotóxicos, demonstrando que a contaminação química ultrapassa as lavouras e chega aos alimentos ultraprocessados destinados à alimentação infantil. O estudo utilizou metodologia capaz de detectar 653 diferentes resíduos de agrotóxicos, além de outras substâncias químicas relacionadas ao processamento industrial, revelando um cenário que deveria provocar imediata preocupação das autoridades sanitárias e das famílias brasileiras.

O produto que apresentou o pior desempenho foi o Mingau de Multicereais Nutribom, da Nutrimental, no qual foram encontradas sete substâncias diferentes, tornando-o o campeão absoluto de contaminação entre os produtos avaliados. Embora o relatório destaque principalmente o número total de resíduos detectados, esse resultado evidencia a exposição das crianças a um verdadeiro “coquetel químico”, cujos efeitos combinados sobre o desenvolvimento infantil ainda são pouco conhecidos pela ciência.

Na segunda posição aparece o Cereal Infantil Mucilon Milho, da Nestlé, que apresentou resíduos de glifosato, glufosinato e pirimifós metílico, além do butóxido de piperonila, substância utilizada para potencializar a ação de inseticidas. A presença simultânea desses compostos em um alimento direcionado a bebês é particularmente inquietante, sobretudo quando se considera que organismos em desenvolvimento possuem maior sensibilidade à exposição química.

Dividindo a terceira colocação estão o Composto Lácteo Instantâneo Ninho Forti+ Fibras, da Nestlé, e o Composto Lácteo Piracanjuba Excellence. No primeiro foram detectados resíduos de fipronil total, fluazuron e dos sanitizantes BAC, BAC-C12 e BAC-C14. Já no produto da Piracanjuba foram encontrados resíduos de fipronil total, fluazuron e 2-fenilfenol, substância utilizada como desinfetante e conservante.

O Cereal Infantil Mucilon Multicereais, também da Nestlé, apresentou resíduos de pirimifós metílico, enquanto o Composto Milnutri Premium, da Danone, e o Meu Papá Cereal Infantil Milho, da Italac, não apresentaram resíduos detectáveis de agrotóxicos nas análises realizadas pelo Idec.

Além da presença de agrotóxicos, o estudo revelou achados inéditos. Pela primeira vez em uma investigação conduzida pelo Idec foram detectados resíduos de insumos farmacêuticos ativos (IFA) em fórmulas infantis, bem como resíduos de sanitizantes em aproximadamente um quarto dos produtos analisados. Também chamou atenção a identificação do butóxido de piperonila em duas amostras, composto conhecido por aumentar a eficácia e a toxicidade de diversos inseticidas.

Mas talvez o aspecto mais grave do relatório seja a constatação de uma importante lacuna regulatória. Segundo o Idec, a Anvisa ainda não estabelece limites máximos específicos de resíduos de agrotóxicos para alimentos ultraprocessados, inclusive aqueles destinados a lactentes e crianças de primeira infância. Em outras palavras, justamente os alimentos consumidos por um público extremamente vulnerável não contam com parâmetros próprios de segurança para esse tipo de contaminação.

O relatório também convida a refletir sobre um problema estrutural. A publicidade agressiva das fórmulas infantis, compostos lácteos e cereais industrializados, associada às dificuldades enfrentadas pelas famílias para manter o aleitamento materno exclusivo, transforma necessidades sociais reais em oportunidades de mercado. Em vez de fortalecer políticas públicas de apoio à amamentação e à alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, consolida-se um modelo alimentar dependente de ultraprocessados produzidos a partir de uma agricultura intensiva no uso de agrotóxicos.

O estudo do Idec, portanto, vai muito além da simples identificação de resíduos químicos. Ele expõe as contradições de um sistema alimentar que transforma bebês em consumidores precoces de produtos ultraprocessados e demonstra como a lógica da produção em larga escala baseada em venenos agrícolas alcança até mesmo a alimentação da primeira infância. Em um país que afirma proteger suas crianças como prioridade absoluta, a presença de glifosato, glufosinato, fipronil, fluazuron, pirimifós metílico e outros contaminantes em alimentos destinados a esse público deveria provocar uma profunda revisão das políticas de regulação sanitária e do próprio modelo agrícola dominante. Afinal, o direito a uma alimentação saudável e livre de contaminação química deveria começar exatamente no início da vida.

Estudo revela dados inéditos sobre alimentação infantil no Brasil

Resultados mostram que 80% das crianças brasileiras até 5 anos consomem ultraprocessados, inclusive bebês

alimentação infantil

A arquiteta Adriana Romero é mãe de dois filhos pequenos. Gabriel, de 3 anos, e Sofia, de apenas 3 meses.  A menina alimenta-se exclusivamente de leite materno e o cardápio de Gabriel  é rico em legumes, verduras, frutas e cereais, sem alimentos ultraprocessados. A família segue as recomendações do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, lançado pelo Ministério da Saúde em 2019 – uma realidade que é exceção no país. Dados inéditos do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) mostram que, em 2019, 80% das crianças brasileiras até 5 anos já consumiam alimentos ultraprocessados, como biscoitos, farinhas instantâneas, refrigerantes e bebidas açucaradas, dentre outros produtos nocivos à saúde. A prática é comum inclusive entre bebês menores de 2 anos, o que pode trazer consequências ao longo de toda a vida, como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares.

Os resultados do ENANI-2019 mostram que, em geral, a alimentação das crianças brasileiras está distante das recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). As prevalências dos indicadores estudados – consumo de ultraprocessados; de frutas e hortaliças; e de água pura – variam entre as macrorregiões e de acordo com o Indicador Econômico Nacional (IEN), salientando as grandes desigualdades sociais do Brasil. Esperamos que os novos resultados possam ajudar a planejar estratégias de promoção da alimentação saudável, bem como o monitoramento da evolução desses indicadores ao longo do tempo”, afirma o coordenador nacional do ENANI-2019, Gilberto Kac, que é pesquisador do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Natural x industrializado

O quadro de alta prevalência de consumo de ultraprocessados é agravado pela baixa ingestão de frutas e hortaliças, que deveriam compor a base da alimentação infantil. “No dia anterior à realização da entrevista com as famílias, 22,2% dos bebês de 6 meses a 2 anos e 27,4% das crianças de 2 a 5 anos não haviam consumido nem frutas nem hortaliças. A situação é mais preocupante na região Norte, onde, na véspera da entrevista, um terço (29,4%) dos bebês de até 2 anos não havia comido nem frutas nem hortaliças e a maioria deles (84,5%) tinha consumido ultraprocessados”, alerta Kac.

Nesse cenário, o coordenador nacional do ENANI-2019 destaca a alta prevalência do consumo de temperos industrializados, como caldos em cubo e molhos prontos. “Um quinto (20,9%) das crianças brasileiras de até 5 anos consome esses produtos em seu dia a dia, o que é preocupante porque são itens ricos em sódio, conservantes e outras substâncias perigosas. Os maiores índices estão nas regiões Nordeste (31,1%) e Sudeste (27,2%) e os menores nas regiões Centro-Oeste (19,7%) e Norte (20,6%). O ideal é preferir temperos naturais, frescos ou secos, como salsinha, coentro, manjericão, orégano, tomilho, dentre tantos outros”, orienta o pesquisador.

Consumo de água pura

O consumo de água pura, que é indicado a partir dos seis meses, no início da introdução alimentar, também chama atenção dos pesquisadores do ENANI-2019. O estudo aponta que a prevalência do consumo de água pura entre crianças de até 5 anos no dia anterior ao do estudo foi de 72,1% no país. “Isso significa que um quarto  (27,9%) das crianças brasileiras nessa faixa etária não consumiu água pura no dia anterior à entrevista”, aponta Kac. As menores prevalências estão nas regiões Sul (47,4%) e Norte (49,1%) e as maiores nas regiões Sudeste (80,4%), Nordeste (79,8%) e Centro-Oeste (77,1%).

Sobre o ENANI-2019

O ENANI-2019 é a primeira pesquisa com representatividade nacional a avaliar, simultaneamente, em crianças menores de 5 anos, práticas de aleitamento materno, alimentação complementar e consumo alimentar individual, estado nutricional antropométrico e deficiências de micronutrientes, incluindo as deficiências de ferro e vitamina A. Foram realizadas visitas domiciliares em 123 municípios brasileiros entre fevereiro de 2019 e março de 2020, totalizando 14.558 crianças menores de 5 anos. O ENANI-2019 foi encomendado pelo Ministério da Saúde e coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), com financiamento da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

SERVIÇO

Webinar ENANI-2019: indicadores de alimentação da criança

7 de dezembro, das 15h às 17h

Assista em www.youtube.com/injcufrj