Por Luciane Soares da Silva
“Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”. A letra dos Titãs é de 1989. E reflete uma condição global das periferias. A cor, o gênero, a falta de saneamento, o excesso de poluição, o lixo. Uma cidade com grandes centros comerciais, carros de primeira linha e casas suntuosas ainda pode experimentar uma condição específica: a precariedade do acesso a cultura. Aqui, não como espetáculo de entretenimento de massas mas como arena de encontro, possibilidade de transformação e momento de reflexão.
O que faz de uma cidade, algo mais do que território de exploração, precariedade e desigualdade?
Nesta semana lemos sobre problemas técnicos que afetam a programação no Teatro de Bolso e do Teatro Trianon. Uma cidade com tão poucas possibilidades para o teatro deveria zelar por estes espaços. E este é um exemplo que pode ser estendido à música, aos parques, a Bienal e outros equipamentos.
Manifesto toda solidariedade aos artistas das mais diversas frentes. Que trabalham na noite, investem tempo e dinheiro próprio. Este silêncio do poder público torna-se inadmissível se reconhecemos que esta não é uma cidade sem recursos.
É preciso fazer do Conselho de Cultura um órgão realmente forte na gestão dos recursos da área em Campos. E o mesmo vale para patrimônio e outros Conselhos. Muitos têm agentes da sociedade civil extremamente engajados mas pouco capazes de fazer valer suas demandas frente a Prefeitura. Que age minando esta potência.
Temos Casas de Cultura, espaços alternativos, Universidades com palcos e auditórios que podem receber peças (e recebem). Mas atores, diretores, seguranças, produtores, músicos, fotógrafos, cinegrafistas e outros profissionais, precisam pagar contas. E a população tem direito a acessar cultura. Formar memória crítica.
O mesmo projeto que não investe em educação também se estende à cultura. E a vida vai, sem árvores, sem transporte, sem qualidade de vida, sem saúde, sem renda e em silêncio.
A cultura em Campos deve acontecer em Santa Rosa, no Eldorado, na Penha, em Goytacazes. Com uma organização básica, a praça pode ser lugar de teatro, de festivais para crianças, espaço para feiras e encontros. Isto torna uma cidade viva, isto anima pessoas a falarem dos problemas da cidade. Manter cada família em sua casa, equivale a manutenção em celas. Onde não há diálogo nada floresce. Temos visto projetos furarem este isolamento urbano. Mas onde está a Prefeitura como gestora?
Ainda devemos lembrar a relação entre economia, criação de renda e cultura. Festivais, teatros abertos, espaços abertos, condições de mobilidade para famílias tudo isto incrementaria a economia. De forma menos centralizada e não dependente dos royalties (com os quais devemos parar de contar). Existe uma classe artística. Ela está mobilizada. Devemos apoiar eventos, iniciativas, manifestos. Viver a cultura como ato político de defesa da cidade.
O voto não resolve todos os problemas de nossa vida em sociedade. É preciso ocupar os Conselhos, investir em uma auto formação sobre cidadania e cultura, ter atenção aos problemas públicos. Mas o voto orienta parte significativa dos processos de alocação de recursos que devem ser geridos a favor do povo. Em resumo, não é possível mudar a vida das pessoas votando no mesmo grupo político.
*Luciane Soares da Silva é professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), onde atua no Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce). É coordenadora do projeto de extensão Web Rádio Maíra.
