Alimentos orgânicos e agroecológicos ganham só 0,02% dos créditos da agricultura familiar

Governo Lula lança programa de incentivo à agroecologia e produção orgânica de alimentos, mas movimentos sociais reclamam de falta de verbas e da captura do orçamento pelo agronegócio

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Por Anelize Moreira e Diego Junqueira|  Edição: Paula Bianchi para a Repórter Brasil 

O governo Lula lança no dia 3 de julho o novo Plano Nacional de Agricultura Familiar e Produção Orgânica (Planapo). A ideia é estimular a produção de alimentos orgânicos e a transição para a agricultura com base agroecológica, que alia agricultura e preservação da natureza. 

Contudo, movimentos do campo ouvidos pela Repórter Brasil veem o anúncio com desconfiança, pois consideram baixos os investimentos e afirmam que o orçamento da União privilegia cada vez mais as commodities agrícolas e os ultraprocessados.

Conhecida como “Brasil Agroecológico”, essa política foi criada em 2012 e tem como principal forma de financiamento o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, Pronaf, que responde pela maior parte dos investimentos do Plano Safra da Agricultura Familiar. Mas apesar do foco que o governo Lula tem colocado na agricultura sustentável desde a eleição, os recursos destinados à produção orgânica são irrisórios, segundo o Painel do Crédito Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

Na safra atual (2023/2024), foram fechados apenas 218 contratos na linha de crédito Pronaf Agroecologia, que financia os produtores orgânicos e agroecológicos. O total aplicado é de apenas R$ 7 milhões, o que não chega a 0,02% do total liberado pelo Pronaf: R$ 49,7 bilhões. As informações da atual safra são parciais e foram atualizadas em 8 de maio.

Somando o Pronaf Agroecologia às outras três linhas de crédito para Agricultura de Baixo Carbono (Pronaf  Semiárido, Pronaf Bioeconomia e Pronaf Floresta), o total chega a R$ 1,2 bilhão, ou 2,5% de todo o Pronaf. Em número de contratos, são apenas 2% dos quase 1,4 milhão de acordos fechados.

O valor chama ainda mais atenção quando comparado aos créditos destinados à agricultura empresarial pelo Plano Safra – R$ 364,2 bilhões, aumento de 26% em relação à safra anterior. Por outro lado, o Plano Safra para a Agricultura Familiar soma ao todo R$ 77,7 bilhões no ciclo 2023/2024. 

“Não dá para dizer que temos um plano à altura [das necessidades] nem no orçamento, nem nas ações. Infelizmente há uma dificuldade orçamentária e uma falta de diálogo entre os ministérios para investir de forma articulada na agroecologia”, diz Leomárcio Araújo, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

O governo federal vem construindo o novo plano agroecológico há quase um ano, desde que recriou a Câmara Interministerial de Agroecologia e Produção Orgânica (composta por 14 ministérios e nove entidades governamentais) e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (formada por 21 instituições da sociedade civil), extintas no governo de Jair Bolsonaro (PL).

“As propostas para esse novo plano do ponto de vista de metas e de orçamento colocadas pelo governo são decepcionantes”, afirma “A expectativa era compensar o tempo perdido e o plano voltar com força. [Mas] já perdemos um ano e meio de governo sem que se tenha conseguido voltar às políticas fundamentais, isso é problemático”, afirma Rogério Dias, presidente do Instituto Brasil Orgânico e integrante da comissão de agroecologia.

Paulo Petersen, da Articulação Nacional da Agroecologia, critica também que mesmo os recursos da agricultura familiar são canalizados para produtores mais capitalizados das regiões Sul e Sudeste. Os dados do MDA comprovam a afirmação. 

Só os estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais concentram 64% de toda a verba do Pronaf. “Defendemos que os recursos sejam destinados à produção diversificada”, afirma Petersen. 

Ceres Hadich, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lamenta que o governo continue culpando a gestão anterior pelo orçamento baixo. O orçamento para o plano Safra deste ano não vai atender as necessidades da agricultura familiar, e seguramente é o que vai acontecer também com o plano de agroecologia”. 

Produção orgânica de alimentos (Foto: Matheus Alves/MST)A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos nem fertilizantes químicos. Já a agroecologia vai além das práticas agrícolas, incorporando princípios ecológicos, sociais e políticos para transformar todo o sistema alimentar (Foto: Matheus Alves/MST)

Plano Safra empresarial X agricultura familiar

Apesar da retomada da política, os movimentos de trabalhadores rurais estão desconfiados se as medidas serão efetivas, já que o governo federal vem perdendo a queda de braço com a bancada ruralista não só no Congresso, mas também no Executivo. 

A diferença entre os investimentos do Plano Safra na agricultura empresarial e na familiar é um dos exemplos. Neste ano, a previsão do plano para agricultura familiar é de R$ 80 bilhões. Já para a linha empresarial, deve passar de R$ 500 bilhões. O MDA informou que só irá se pronunciar após o lançamento oficial dos planos.  

“Estamos falando de disputa de orçamento para diferentes modelos de agricultura. Eles [agronegócio] conquistaram regalias e subsídios ao longo do tempo e mantêm a força. O Executivo tem preocupação de buscar alternativas, mas temos dentro do Congresso Nacional a bancada ruralista, que determina o orçamento e usa evidentemente esta força para segurar o próprio governo”, afirma o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), presidente da bancada ambientalista no Congresso. 

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), braço institucional da bancada ruralista, foi procurada, mas não se manifestou.

Lula tem defendido uma produção agrícola menos destrutiva, ao mesmo tempo em que busca se reaproximar do agronegócio (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)
Movimentos do campo demonstração insatisfação com governo Lula, em razão das promessas do presidente de estimular a produção orgânica (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência)

Neste cenário, o modelo da agroecologia empilha derrotas no Legislativo. Uma das principais foi a derrubada de vetos presidenciais à nova Lei dos Agrotóxicos, apelidada por ambientalistas de “PL do Veneno”. Parlamentares governistas cederam durante as negociações, e o Ministério da Agricultura passou a centralizar o registro e a fiscalização dos produtos. 

“Lembro que em 2016 tínhamos o PL do Veneno, que é do agro, e o PL de Redução de Agrotóxicos (PNARA), que é de iniciativa popular. Em 2018, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, criou um grupo especial para analisar o PL do Veneno e apensou o PNARA,  praticamente matando ali a ideia, porque eram dois projetos completamente antagônicos, com modelos de agricultura diferentes. Dialogamos e conseguimos que eles fossem discutidos em comissões diferentes, mas não adiantou. A FPA avançou e saiu vitoriosa com o PL do Veneno”, relembra Tatto.  

Petersen, da Articulação Nacional da Agroecologia, critica ainda o fato de o governo não interferir nos mercados de alimentos. Segundo ele, oferecer apenas crédito aos pequenos agricultores não resolve a questão principal: melhorar a remuneração pela produção diversificada de alimentos. 

“Por mais baixos que sejam os juros, se não tiver mercados locais, incentivo à produção diversificada e assegurar preços mínimos, não mudará o rumo da agricultura familiar, pois o que remunera bem hoje são as commodities”, diz “Os mercados para alimentos locais estão sendo destruídos e substituídos por grandes cadeias de varejo que comercializam ultraprocessados”, completa.

Nota da redação: O texto foi alterado para atualizar a data de lançamento do novo Plano Safra da Agricultura Familiar, que foi adiada pelo governo federal do dia 25 de junho para 3 de julho de 2024


Fonte: Repórter Brasil

Agrotóxico é bom no prato alheio: recordista na liberação de venenos agrícolas, Jair Bolsonaro comprou orgânicos 158 vezes no cartão corporativo

Favorável ao uso de agrotóxicos, ex-presidente consumia alimentos saudáveis de produtores locais no Palácio da Alvorada

organicosMercado Malunga, em Brasília, produz e comercializa alimentos orgânicos e saudáveis – Reprodução/Instagram

Por Paulo Motoryn para o Brasil de Fato

O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) entrou para a história do país como o que liberou, em média, mais de um agrotóxico por dia, considerando os três primeiros anos de mandato à frente do Palácio do Planalto. A gestão do ex-capitão do Exército autorizou, até o início de 2022, uma média de 1,4 por dia, muitos deles altamente perigosos à saúde e ao meio ambiente e, por isso, proibidos em muitos países.

Enquanto o Executivo “passava a boiada” e batia recordes na liberação de agrotóxicos, o Palácio da Alvorada servia ao então presidente um cardápio com legumes, frutas e vegetais orgânicos. A informação consta na base de dados dos gastos do cartão corporativo de Bolsonaro, que estava em sigilo durante o governo anterior, divulgada pela gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 6 de janeiro.

De acordo com os registros oficiais, os cartões de crédito da Presidência da República foram utilizados 158 vezes em CNPJ’s ligados ao Mercado Malunga, comércio de Brasília que vende uma grande variedade de hortaliças, legumes e laticínios orgânicos produzidos de forma sustentável na Fazenda Malunga, localizada à 70 km de Brasília.

“O Mercado Malunga é uma rede de pessoas, que buscam oferecer uma grande variedade e qualidade de produtos orgânicos para a sua comunidade, buscamos semear a conscientização em relação à alimentação saudável e tecer uma rede colaborativa que acredita que para sermos felizes precisamos cuidar da nossa saúde e do nosso planeta, através da nossa ferramenta mais valiosa, o alimento”, diz o site da empresa.

O valor total gasto com dinheiro público no Mercado Malunga foi de R$ 6.773,24 e, na média, as compras foram de R$ 42,87. A compra mais alta, de R$ 219,88, foi feita em 28 de outubro de 2022. A mais baixa ocorreu em 29 de abril, quando foram gastos R$ 7,99.

Os gastos dos cartões corporativos da Presidência foram publicados pelo governo federal em 6 de janeiro. Dias depois, o Executivo respondeu a uma série de pedidos feitos por organizações, veículos e cidadãos por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação). Até então, o governo Bolsonaro argumentava que deixaria os valores em sigilo até o fim do mandato, seguindo um trecho da própria lei.

Apesar de consumir orgânicos no Palácio da Alvorada, Bolsonaro deu uma série de declarações favoráveis ao uso de pesticidas na plantação de alimentos : “Se estivéssemos envenenando os nossos produtos, o mundo não os compraria. É simples!”, afirmou, em 2019. Os seus ministros da Agricultura, Tereza Cristina, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também acumularam falas defendendo o uso de agrotóxicos.

Outro lado

Como o agora ex-presidente Jair Bolsonaro não tem assessoria de imprensa constituída, não foi possível entrar em contato com sua equipe para buscar um posicionamento para a elaboração desta reportagem. O espaço, porém, segue aberto para manifestações, e o texto poderá ser atualizado.

Edição: Nicolau Soares


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Bancada ruralista: mais veneno e menos orgânico na mesa dos brasileiros

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Não bastando ter aprovado preliminarmente a facilitação da venda de agrotóxicos no Brasil, inclusive os proibidos em outras partes do mundo, a bancada ruralista agora quer impedir o acesso mais fácil à comida produzidas sem esses venenos agrícolas.  É que  regra aprovada na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados vai criar barreiras à comercialização de alimentos orgânicos em supermercados e outros estabelecimentos que comercializam alimentos. De acordo com o Projeto de Lei 4576/16, supermercados, mercearias, varejões e sacolões não poderão mais vender produtos orgânicos diretamente ao consumidor.

Caso o PL volte a ser aprovado, desta vez no plenário da Câmara, só os pequenos produtores da agricultura familiar vinculados a organizações de controle social cadastradas nos órgãos fiscalizadores do governo poderão comercializar os orgânicos.  Pelo projeto, os agricultores familiares poderão vender a produção própria, de outros produtores certificados ou de produtos com a certificação prevista na Lei da Agricultura Orgânica (Lei 10.831/03). A comercialização deverá ocorrer em feiras livres, sejam provisórias ou permanentes, ou em propriedade particular.

O relator desse projeto “barbárie” é o deputado Luiz Nishimori (PR/PR) que, pasmemos todos, também foi o relator do Pacote do Veneno! Em outras palavras, Luiz Nishimori representa  não apenas os interesses dos fabricantes e vendedores de veneno,  mas também dos que vendem comida contendo resíduos de um conjunto de produtos que a literatura científica já determinou serem responsáveis por uma série de doenças graves, começando pelo câncer.

Enquanto isso, países que sediam as empresas que fabricam esses venenos agrícolas estão adotando políticas agrícolas que tornarão obrigatória a produção orgânica de alimentos, a começar pela Dinamarca. Mas mesmo nos EUA,  um dos bastiões do consumo de agrotóxicos, as grandes redes de supermercados estão ampliando a oferta de todo tipo de produtos orgânicos, incluindo laticínios e carnes em geral.

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Comida orgânica sendo vendida num supermercado dinamarquês.  Na Dinamarca, o consumo de comida orgânica aumentou 14% entre 2015 e 2016, fazendo o país um dos líderes mundiais no consumo de produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos.

O problema é que aqui o lobby vencedor é o dos vendedores de veneno e de comida envenenada.  Por isso, reagir a esse projeto de lei que restringe o acesso à alimentos orgânicos não é mera quimera, mas uma necessidade urgente.