Pesquisadores do Inpe apresentam nesta quarta (23) estudo sobre emissões de carbono na Amazônia

Artigo científico na Nature detalha como o declínio na aplicação das leis ambientais influenciou as emissões na maior floresta tropical do mundo

Brazil's greenhouse gas emissions rose 9.5 per cent in 2020 with Amazon  deforestation: study | Technology News - The Indian Express

Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apresentam nesta quarta-feira (23), às 11h, em Brasília, estudo que aponta aumento significativo nas emissões de carbono na Amazônia entre 2019 e 2020. A ministra Luciana Santos participa da apresentação.

A pesquisa, que será publicada pela revista Nature, é assinada por 30 cientistas brasileiros e foi liderada pela equipe do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe.

A apresentação dos resultados será feita pela autora líder da pesquisa, Luciana Gatti, e pelo coordenador de Ciências da Terra do Inpe, Gilvan Sampaio. Os pesquisadores concederão entrevista coletiva após a apresentação.

Serviço

Evento: Apresentação dos resultados da pesquisa sobre emissões de carbono na Amazônia

Data: 23/08/2023, às 11h

Local: Auditório do MCTI – Esplanada dos Ministérios, Bloco E, Brasília

Transmissão pelo canal do MCTI (Link).

Queima pelo WhatsApp e vende no Facebook: redes sociais como ferramentas preferenciais no saque da Amazônia por grileiros de terras

PF encontra suspeita de grilagem (roubo) de terra protegida na Amazônia que foi queimada no Dia do Fogo, em 2019. Reportagem encontrou mais de 150 ofertas suspeitas de áreas griladas no Facebook. Revelações dão sequência a investigação de Dom Phillips feita em parceria com a Repórter Brasil

grilagemÁrea queimada durante o Dia do Fogo na Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, no Pará, que foi anunciada no Facebook (João Laet/Repórter Brasil)

Por Karine Pfenniger e Mariana Abreu (Forbidden Stories) e Daniel Camargos (Repórter Brasil)

Um dos principais suspeitos por organizar o Dia do Fogo – quando fazendeiros do Pará combinaram por WhatsApp e incendiaram a Amazônia em 2019 – estaria envolvido em ao menos quatro tentativas de grilar (roubar) áreas protegidas da floresta queimadas na ocasião. É o que aponta investigação da Polícia Federal, obtida com exclusividade pelo “Projeto Bruno e Dom” – consórcio de jornalistas formado para investigar a pilhagem da Amazônia, e integrado pela Repórter Brasil.

Um dos terrenos queimados em 2019 foi posteriormente anunciado pelo Facebook. A revelação foi feita pela Repórter Brasil em 2020, em parceria com o jornal inglês The Guardian e o jornalista Dom Phillips. Há um ano, Phillips foi assassinado em uma emboscada no Vale do Javari, no Amazonas, durante investigação sobre a exploração da floresta. Para dar sequência ao trabalho dele, mais de 50 jornalistas de 10 países e 16 veículos de comunicação se uniram em um consórcio organizado pelo Forbidden Stories.

Seguindo o rastro de Phillips, o consórcio identificou 52 anúncios suspeitos publicados semanalmente no Facebook com a oferta de terras griladas. A rede social permite a divulgação das ofertas e, assim, tornou-se ferramenta fundamental no esquema de grilagem de terras na Amazônia.

O Dia do Fogo remete à articulação de fazendeiros e empresários do Pará para queimarem ao mesmo tempo áreas de pasto e floresta, ainda no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL). Nos dias 10 e 11 de agosto de 2019, os sistemas de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram 1.457 focos de incêndio no estado, 2.000% a mais em relação ao ano anterior.

Quase quatro anos depois e ainda sem punição aos envolvidos, o avanço das investigações leva ao presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso (PA), Agamenon Menezes. Apesar de investigado, ele continua atuando para transformar áreas protegidas, como a Floresta Nacional do Jamanxim e a Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, em fazendas para engordar bois ou plantar soja.

O esquema de grilagem tenta “legalizar” as áreas ao registrá-las no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – sistema do governo federal no qual donos de terras informam a localização de suas áreas. O simples registro não equivale ao título de propriedade, mas é suficiente para o grileiro obter um documento oficial e, assim, tentar reivindicar a posse. Por ser autodeclaratório e pela falta de controles administrativos, o cadastro facilita a grilagem.

Segundo a investigação da Polícia Federal, quatro fazendas localizadas dentro de áreas de preservação queimadas no Dia do Fogo foram registradas no CAR, por intermédio do sindicato rural de Novo Progresso, após a onda de incêndios. Quem assina os registros como responsável técnico é Wilmar Santos Melo, despachante do sindicato e genro de Agamenon. O relatório da PF foi enviado para o Ministério Público Federal, que não comenta as atividades de Melo e alega que a investigação corre em sigilo.

Desde 2015, Melo registrou no CAR 77 lotes inseridos parcial ou totalmente em unidades de conservação, onde é ilegal constituir propriedade privada, segundo cruzamento de dados realizado pelo consórcio de jornalistas. Isso significa que Melo, o sindicato e Agamenon Menezes podem estar envolvidos na tentativa de legalizar cerca de 75 mil hectares de floresta amazônica protegida nos últimos oito anos – essa área é duas vezes maior que a cidade de Belo Horizonte (MG).

“Em cada município, há talvez duas ou três pessoas que sabem tudo: quem é dono do que, quem está onde, quais são os preços. Também são essas pessoas que cadastram as propriedades no CAR e se ocupam do processo de regularização. Elas meio que controlam esse mercado”, explica a especialista em gestão fundiária do Imazon, Brenda Brito.

Funcionário do sindicato patronal de Novo Progresso fez mais de 600 registros no CAR desde 2015, sendo que ao menos 77 estão inseridos dentro de unidades de conservação na Amazônia (Guillaume Meigniez / Forbidden Stories)

Melo já foi multado por “prestar informação falsa no procedimento administrativo do CAR” de vários lotes no Pará (ele registrou mais de 600 áreas desde 2015). A multa de R$ 111,5 mil, imposta pelo Ibama em 2016, ainda não foi paga e é contestada judicialmente. A reportagem tentou entrevistar Melo por diversos meios, mas segundo seu sogro, ele não quis comentar.

Já Agamenon Menezes confirmou os registros no CAR, assim como suas ligações com Melo, de quem, além de sogro, é patrão. Ele diz que o sindicato tem parceria com o Incra para os registros no CAR e afirmou ainda ser “normal” o cadastro de áreas dentro de unidades de conservação. Sobre os quatro lotes queimados e registrados no CAR pelo sindicato, ele diz que não tem ingerência sobre as áreas e que o sindicato apenas repassa as informações recebidas dos proprietários.

Menezes é um dos investigados pelo Dia do Fogo após ter sido flagrado em um grupo de WhatsApp chamado “Sertão” combinando com outros fazendeiros e empresários a queimada da floresta. Em 2019, a PF realizou busca e apreensão em sua casa e no sindicato.

Investigado por organizar o Dia do Fogo, o presidente do sindicato dos produtores rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, é suspeito de usar a entidade para tentar legalizar terras queimadas (João Laet/Repórter Brasil)

Marketplace da grilagem

(Imagem: Anaïs Caura/ Forbidden Stories)

Uma das 77 áreas de preservação registradas por Melo no CAR se deu em favor de Nair Rodrigues Petry, que ficou conhecida em 2019 por acusar fiscais ambientais como responsáveis pelos incêndios.

Petry foi candidata a vereadora pelo PSDB em Guarantã do Norte, cidade do Mato Grosso na divisa com o Pará, em 2004 e 2016. Adotou o nome político de Nair Brizola, uma homenagem ao político gaúcho fundador do PDT. Em 2019, ela concedeu entrevistas dizendo que os responsáveis pelas queimadas eram fiscais do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). A declaração motivou o então presidente Jair Bolsonaro a determinar investigação da Polícia Federal sobre os agentes públicos, em mais um ato da agenda antiambiental do ex-presidente.

Dias depois da declaração, Petry foi multada em mais de R$ 1 milhão pela destruição da área no Dia do Fogo – são 71 hectares dentro da Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo.

Procurada pela reportagem, Nair Brizola afirmou que é proprietária da terra desde 1994, antes da criação da reserva. “Eu paguei pelo direito de estar aqui!”, ela diz. Também disse que não se lembrava de o terreno ter sido registrado no CAR, embora isso tenha sido feito por Wilmar Santos Melo em 2015.

Reprodução do anúncio feito por Nair Brizola em um grupo de Facebook para tentar vender um terreno dentro de uma área de proteção. Ao lado, cópia do auto de infração aplicado pelo ICMBio (Reprodução)

A investigação de Phillips e da Repórter Brasil em 2020 mostrou que Nair Brizola chegou a anunciar o terreno queimado no Facebook. Essa prática vem se multiplicando na maior rede social do mundo. Em um intervalo de três semanas, a investigação do Forbidden Stories identificou mais de 150 anúncios suspeitos de venda de terras griladas nos estados de Amazonas, Pará e Mato Grosso.

Um dos vendedores que oferecem terras na Amazônia a preços baixos se identifica como João. A equipe do Forbidden Stories fez contato com ele se passando como potencial cliente. Por R$ 1.200 por hectare, um preço três vezes inferior ao preço médio da terra d na região de Almeirim, no norte do Pará. João oferta fazendas que podem chegar a 8.000 hectares (ou mais de 8.000 campos de futebol).

A venda dessas terras é ilegal, por estar em área de preservação, porém está a mostra para todos. Muitas vezes, a terra colocada à venda é vasta, está parcialmente desmatada e não tem título de propriedade. Alguns anúncios oferecem terras a preços muito baixo, como R$ 450 por hectare, que equivale a 10 mil m².

João oferece também outros serviços. “Eu tenho como fazer a derrubada e queima [da mata] no meio de outubro, quando parar de chover. Queima por minha conta”, continua. “Quando chega dezembro e começa a chover novamente aqui na região, joga semente de avião, aí a fazenda está praticamente formada. O principal é derrubar”. Para limpar o terreno e semear o capim, João cobra R$ 800 por hectare.

Ele diz que já foi pedido ao Instituto de Terras do Pará (Iterpa) o título da propriedade do terreno, e envia documentos para provar que o processo está em curso e que, com um pagamento adicional de R$ 400 por hectare, a titulação fica pronta em seis meses. Sem isso, o processo pode levar até 20 anos. Procurado, o Iterpa não respondeu.

Anúncios no Facebook ofertam terrenos suspeitos de grilagem na Amazônia (Reprodução)

A equipe do Forbidden Stories conversou com oito vendedores de terra ativos no Facebook. Vários informaram que não possuíam um título de propriedade, o que é essencial para a venda de terras.

Quando a BBC revelou, em 2021, que o Facebook estava sendo usado para vender terras em Rondônia, a rede social se comprometeu a proibir a venda de terras protegidas na sua plataforma Marketplace.

Contatada pelo Forbidden Stories, a Meta informou que estava analisando os anúncios no Facebook Marketplace para “identificar aqueles que podem violar suas regras”, e reiterou que a plataforma proíbe “a venda de terras localizadas em unidades de conservação” em seus espaços comerciais. “Determinar se uma determinada área pode ser vendida envolve uma análise jurídica complexa, que compete aos tribunais locais”, acrescentou o porta-voz.

*Com pesquisa e análise de dados realizadas por Ruan Martins e Eduardo Goulart (OCCRP)


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Série sobre destruição da Amazônia, que investigou assassinato de Dom e Bruno, é finalista do Prêmio Pulitzer de jornalismo

O correspondente Terrence McCoy e o fotojornalista brasileiro Rafael Vilela formam parte da equipe que realizou a série “The Amazon, Undone”, publicada pelo Washington Post ao longo de 2022.  Nomeada na categoria Reportagem Explicativa, a série revela como o crime, a corrupção e acordos políticos promovem a destruição da maior floresta tropical do mundo

unnamed (2)Gado em uma área próxima a um desmatamento recente em uma propriedade privada no estado do Acre, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

São Paulo, maio de 2023 – Desde 1917, o Prêmio Pulitzer reconhece projetos e pessoas que realizam trabalhos de excelência na área do jornalismo, literatura e composição musical. No dia 8 de maio, os concorrentes e ganhadores da edição de 2023 foram anunciados por meio de uma live no canal oficial do Prêmio Pulitzer no YouTube. A série de reportagens The Amazon, Undone do jornal estadunidense Washington Post, conduzida pelo repórter Terrence McCoy, com participação do fotojornalista brasileiro Rafael Vilela, é finalista na categoria de Reportagem Explicativa. The Amazon, Undone conta detalhes sobre o desmatamento da Amazônia e como os poderes público e político estão diretamente ligados a isso, além de destacar os envolvidos por trás da destruição, as autoridades que permitem que eles operem com impunidade, o papel dos Estados Unidos e as implicações para o planeta, sempre trazendo o olhar dos indígenas para os temas abordados. A série documentou histórias em diversos estados brasileiros como Acre, Amazonas e Pará.

Além do Prêmio Pulitzer, a série foi laureada no George Polk, uma das maiores honras do jornalismo estadunidense, na categoria de reportagem ambiental. No Overseas Press Club, recebeu o prêmio Robert Spiers Benjamin por melhor reportagem em qualquer mídia na América Latina.

Os jornalistas dedicaram mais de um ano à execução do projeto. Entre os que participaram das matérias ao lado de Terrence Mccoy estão Rafael Vilela, Raphael Alves e Alexandre Cruz-Noronha, responsáveis por fotos e vídeos; Júlia Ledur, John Muyskens e Simon Ducroquet, para gráficos; e Cecilia deLago, para relatórios de dados.

Matthew Hay Brown foi o editor principal; outros editores e colaboradores importantes foram Chloe Coleman, pela edição de fotos; Alexa Juliana Ard e Avener Prado, pelo vídeo; Allison Mann, Joe Moore e Matt Callahan, pelo design e desenvolvimento; Kate Rabinowitz, Laris Karklis, Lauren Tierney e Monica Ulmanu, pelos gráficos; Julie Vitkovskaya e Jay Wang, pelo gerenciamento de projetos; Meghan Hoyer e Reinaldo Chaves, pela edição e análise de dados; Vanessa Larson e Martha Murdock, pela edição de textos; e Gabriela Sá Pessoa, pelo apoio à pesquisa.

Para o fotógrafo brasileiro Rafael Vilela, “o jornalismo é ainda uma das poucas ferramentas em uma democracia capaz de ter, ao mesmo tempo, autonomia e potência para abordar certas problemáticas. No caso da crise climática, são muitos interesses estruturais que impedem qualquer tipo de reação efetiva ao desmonte das florestas. Ir a campo e usar o privilégio de ter tempo e recursos para fazer esse tipo de pesquisa em profundidade é altamente revelador para quem participa. A prática jornalística democratiza o acesso a realidades que dificilmente as pessoas ao redor do mundo poderiam conhecer de outra forma. A premiação é um reconhecimento importante para que mais trabalhos como esses possam ser feitos, por iniciativas estrangeiras, mas idealmente cada vez mais também pelo jornalismo nacional”.

Rafael é conhecido por reportagens sobre as crises climática e econômica no Brasil. Em 2020 foi selecionado pelo Fundo de Emergência para Jornalistas da National Geographic, cobrindo a Covid-19. Em 2021 foi vencedor no World Press Photo FotoEvidence Book Award e POYLatam com seu projeto Covid Latam e, em 2022, recebeu o Catchlight Fellowship e o National Geographic Explorer Grant.

McCoy, Vilela e todas as pessoas envolvidas no projeto passaram por momentos de risco. Enquanto construíam as reportagens, o jornalista Dom Phillips e o ativista Bruno Pereira foram mortos a tiros no Vale do Javari, próximo à fronteira do Brasil com o Peru. Terry reconstruiu meticulosamente o crime para o quinto artigo da série, The Killing of Dom and Bruno (O assassinato de Dom e Bruno), expondo a convergência de políticas governamentais, a aplicação fraca da lei e impunidade criminal.

Agentes de fiscalização visitam a casa de um produtor rural para aplicar uma multa pela recente derrubada de floresta amazônica em sua propriedade. Por motivos de segurança, a equipe é sempre acompanhada pela Polícia Militar Ambiental. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post


 Pegadas no cais da casa onde Dom Philips e Bruno Pereira passaram a última noite antes de serem assassinados, próximo à Base Ituí da Funai, no estado do Amazonas, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

“É uma grande honra ser reconhecido pelo Prêmio Pulitzer como um finalista, mas não fui só eu que trabalhei neste projeto: além de uma equipe extraordinária em Washington, meus colegas brasileiros me ajudaram em cada passo do processo, e eu agradeço a todos por isso. O Brasil tem um talento jornalístico enorme, não apenas na área fotográfica, mas também em pesquisa e análises de dados. Fico feliz que eu consegui colaborar com uma equipe tão sensacional.

Espero que esta honra venha para destacar uma crise que continua na floresta amazônica. Nos últimos anos a história da floresta amazônica tem sido uma história de crime organizado, destruição ambiental e uma ausência profunda do governo federal. É uma floresta onde defensores ambientais vivem sob ameaça e jornalistas temem serem assassinados. No ano passado a comunidade jornalística perdeu nosso colega e amigo, Dom Phillips, quando estava em campo com o indigenista Bruno Pereira. Ambos foram mortos quando estavam tentando proteger um recurso ambiental necessário para todo o mundo. Não iremos esquecer nem Dom nem o trabalho dele. Ele foi morto, mas seu trabalho viverá”, finaliza McCoy.

Para saber mais sobre a série, clique aqui.