Belo Monte e o que vi, o que ficou, o que ainda ameaça correr

Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte

Por Ismael Machado* 

Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.

O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.

Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.

Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.

Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.

Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.

Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.

Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.

A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.

Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.

O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.

No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.

 

Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.

Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.

Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.

As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.

Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.

A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.

Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.

Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.

No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.

A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.

Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.

Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.

A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.

Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.

Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.

“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.

Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.

Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.

Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.

Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.

Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.

No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.

As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.

Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.

No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.

A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.

Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.

Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.

É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.

Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.

E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.

Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.

Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.

O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.

O Rio Xingu continua correndo.

E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.

E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.

A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).

A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.

É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.

 

Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.


*Ismael Machado é jornalista

Água na Amazônia: abundância em disputa

Saneamento precário, contaminação, conflitos agrários e o futuro de uma das maiores reservas da Terra

Fot0: Ismael Machado 

Por Ismael Machado*

Em 2010, numa viagem de reportagem ao arquipélago do Marajó para o jornal Diário do Pará, vivi uma das experiências que mais moldaram minha percepção sobre a água na Amazônia. A matéria tinha um título simples e certeiro, bolado pelo editor e parceiro Lázaro Magalhães — Breves pede água boa — mas o que encontramos estava longe de ser simples. Ao lado do saudoso repórter fotográfico Thiago Araújo, percorri comunidades em Breves, onde a vida cotidiana era atravessada por uma contradição brutal: gente cercada por rios e igarapés imensos, mas sem acesso à água potável.

No mesmo ano, produzi outra reportagem sobre a ausência quase total de saneamento na Região Metropolitana. Lembro especialmente de um personagem: Denilson Santos, conhecido como Manel, morador de uma área chamada Livramento, numa zona de fronteira entre Ananindeua, Marituba e Belém. Ele tinha vergonha de mostrar onde a família fazia suas necessidades fisiológicas — um buraco raso cercado por três troncos de açaizeiro. Não havia fossa, não havia banheiro, não havia dignidade mínima garantida pelo poder público. Na mesma reportagem, Maria Gorete Cardoso, à época com 47 anos, informava que apanhava água de uma cacimba comunitária no Curuçambá, em Ananindeua. Ela enchia latas e latas de água, botava numa canoa e voltava remando para sua casa na ilha do Jacineuma.

Naquele período, dados do Instituto Trata Brasil indicavam que a renda média de moradores da Grande Belém poderia aumentar cerca de 12% com acesso adequado à água e saneamento. Passados mais de quinze anos, não é possível afirmar que a transformação tenha ocorrido na escala prometida.

Dois anos depois dessas reportagens, escrevi uma série especial para o mesmo jornal em alusão ao Dia Mundial da Água, com a colaboração do ex-aluno Eraldo Paulino. O trabalho recebeu o primeiro (e único) Prêmio de Jornalismo Científico, iniciativa conjunta do governo estadual e da Universidade Federal do Pará. Entre os dados levantados, havia números alarmantes: cerca de 900 mil pessoas consumindo água contaminada em condomínios da região metropolitana e perdas de quase metade da água tratada devido à precariedade das tubulações. Vejo em meus arquivos as fotos de Thiago Araújo no print em PDF das reportagens e lamento nossa situação atávica.

Em Barcarena, o município industrial, o problema era a contaminação das fontes por conta da atividade das grandes empresas ali instaladas. A série jornalística mostrava que os conflitos pela posse da água já eram grandes no Pará, ladeando a luta pela posse da terra, mas encerrava mostrando iniciativas de recuperação de nascentes em algumas localidades. Uma gota de esperança num rio de problemas.

Revisitar essas memórias jornalísticas hoje é perceber como a crise hídrica e sanitária amazônica não é nova. É estrutural.

A Amazônia ocupa um lugar singular no planeta. A região concentra a maior bacia hidrográfica do mundo, cerca de um quinto da água doce superficial disponível na Terra. Rios de dimensões continentais atravessam a região, incluindo o próprio Amazonas, cuja vazão supera a soma de vários grandes rios globais. Em teoria, seria o território menos provável para enfrentar problemas relacionados à água.

Na prática, porém, a Amazônia tornou-se um dos exemplos mais contundentes de como abundância natural não garante acesso seguro, nem justiça social, nem estabilidade ambiental. A crise da água amazônica não é uma crise de disponibilidade. É de distribuição, qualidade, poder e modelo de desenvolvimento.

O paradoxo do copo vazio às margens do maior rio do mundo

Milhões de pessoas vivem próximas a rios imensos e, ainda assim, dependem de água sem tratamento — igarapés, poços rasos ou captação direta de rios contaminados. Comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas convivem com doenças de veiculação hídrica que seriam evitáveis com infraestrutura básica.

Essa realidade revela uma das maiores dívidas históricas do Estado brasileiro na região: saneamento básico. A cobertura de coleta e tratamento de esgoto permanece entre as mais baixas do país, e a ausência de infraestrutura transforma a própria água disponível em vetor de doença. O problema não é apenas técnico. É estrutural e político.

Capitais regionais como Belém, Manaus e Porto Velho, para ficar apenas nessas três, mas entendendo que o problema é mais amplo, repetem o padrão: crescimento acelerado sem expansão equivalente das redes de saneamento. O avanço urbano não foi acompanhado por redes de água e esgoto na mesma velocidade. O resultado é uma geografia urbana desigual, onde bairros centrais têm abastecimento relativamente regular enquanto periferias dependem de soluções individuais, com poços improvisados ou ligações clandestinas, transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que deveria ser pública.

A abundância natural, nesse contexto, não elimina a escassez socialmente construída.

Se a falta de infraestrutura compromete o acesso, a contaminação compromete a qualidade. A Amazônia enfrenta múltiplas fontes de degradação hídrica simultâneas.

O garimpo de ouro, especialmente o ilegal, libera mercúrio nos rios, contaminando peixes e populações humanas ao longo das cadeias alimentares. Estudos científicos têm identificado níveis preocupantes da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas, com impactos neurológicos, cognitivos e gestacionais.

Ao mesmo tempo, o desmatamento altera o regime hidrológico, aumenta a erosão e o assoreamento dos cursos d’água, enquanto o esgoto urbano não tratado despejado diretamente nos rios agrava a deterioração ambiental. A água, símbolo histórico de pureza amazônica, torna-se vetor de risco sanitário.

Água como eixo de conflitos agrários

No campo amazônico, a água se transformou de recurso natural a elemento central de disputas territoriais. O avanço da fronteira agropecuária, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem modificou e ainda modifica paisagens hidrológicas inteiras. Nascentes são degradadas, cursos d’água desviados e áreas úmidas drenadas para expansão dita produtiva.

Marabá, por exemplo, é alvo de um projeto polêmico. Pedral do Lourenço é um conflito socioambiental e econômico de longa data, centrado na remoção de formações rochosas no Rio Tocantins para viabilizar a navegação de grandes embarcações durante o ano todo, inclusive no período de seca. As obras, planejadas há anos, visam criar uma hidrovia que beneficia o escoamento da soja, por exemplo, mas enfrentam resistência de comunidades tradicionais e órgãos ambientais por conta de impactos à pesca e biodiversidade. O Governo Federal defende a obra como fundamental para o escoamento de soja e minérios e o sempre propalado desenvolvimento regional. A que custo?

Ao longo do tempo, hidrelétricas, portos, hidrovias, mineração e expansão agrícola são frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento regional. No entanto, esses empreendimentos alteram regimes naturais de rios, impactam comunidades e geram novos conflitos socioambientais. Barragens modificam fluxos, afetam a pesca e alteram ecossistemas aquáticos. Estradas aumentam o desmatamento e mudam padrões de drenagem. Projetos de grande escala frequentemente redistribuem poucos benefícios econômicos enquanto concentram impactos sociais e ambientais em populações locais.

A disputa pela água, nesse sentido, é também disputa por modelos de desenvolvimento. O Rio Xingu nunca se recuperou totalmente do impacto do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Eu sei porque vi. Estive lá em Altamira por oito vezes fazendo reportagens durante a construção da hidrelétrica. Havia locais do rio que eram únicos na vivência de peixes chamados ornamentais. Famílias como a de Genilson Gomes da Silva, então com 30 anos, viviam dessa atividade. Não mais. Foi lá que aprendi com Antônia Melo e Dom Erwin Krautler como é complicado lutar contra toda a força do capital e mesmo assim manter a dignidade.

O fato é que comunidades tradicionais frequentemente se veem diante da perda de acesso a fontes que garantiam sua sobrevivência por gerações. Controlar a terra significa também controlar a água e, portanto, controlar modos de vida. Poucas violências são tão simbólicas como essa.

Conflitos socioambientais envolvendo rios, barragens, irrigação e contaminação tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, revelando que a disputa pela água na Amazônia já é uma realidade concreta.

Eventos climáticos extremos recentes mostram que a Amazônia também não está imune a crises hidrológicas. Secas históricas reduziram drasticamente níveis de rios, isolaram comunidades, comprometeram o transporte fluvial e afetaram sistemas de abastecimento. Em outros momentos, cheias intensas provocaram contaminação de poços, colapso de estruturas sanitárias precárias e disseminação de doenças. Também acabo lembrando outra reportagem que fiz, dessa feita para o jornal O Globo, sobre a seca no rio Solimões, em Manacapuru. À época, 2003 ou 2004, se não me falha a memória, essas secas ainda eram relativamente uma novidade vistas com espanto. Deixaram de ser.

A alternância entre extremos — seca e inundação — aumenta a vulnerabilidade de populações que já vivem com infraestrutura limitada. Além disso, o desmatamento regional pode estar alterando o próprio ciclo hidrológico amazônico, reduzindo a capacidade da floresta de reciclar umidade e influenciando padrões de chuva em escala continental.

A água amazônica, essencial para o equilíbrio climático global, também depende da própria floresta para existir.

E aí vem a palavra que soa como doce na boca de políticos e governos. Privatização. Nos últimos anos, mudanças no marco regulatório do saneamento abriram espaço para maior participação privada no setor. Defensores argumentam que investimentos serão ampliados e a universalização acelerada. Críticos alertam para o risco de aprofundamento das desigualdades, especialmente em regiões onde o retorno financeiro é menor e os custos logísticos são mais altos como na Amazônia. E vamos ser sinceros? Talvez se conte nos dedos da mão a efetivação das promessas alardeadas pelos privatistas em qualquer setor.

No caso da água a questão central permanece quase sempre esquecida. Afinal, ela é mercadoria ou direito? A resposta define prioridades políticas.

A importância estratégica da água amazônica ultrapassa fronteiras nacionais. Em um mundo onde crises hídricas se tornam mais frequentes, reservas abundantes ganham relevância geopolítica crescente, a região passa a ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas como ativo estratégico global. Essa dimensão internacional aumenta pressões econômicas e políticas sobre o território, tornando ainda mais complexa a governança dos recursos. E em tempos de Trump, isso sempre nos deve deixar com todos os sentidos em alerta.

O panorama amazônico demonstra que a escassez pode existir mesmo em territórios de abundância. Falta de saneamento, contaminação, conflitos agrários, mudanças climáticas e modelos de desenvolvimento predatórios convergem para produzir vulnerabilidades múltiplas.

Mas não nos esqueçamos. A crise da água na Amazônia não é natural. É resultado de decisões humanas, históricas e políticas. Garantir acesso universal à água potável na região exige proteção ambiental, reconhecimento de direitos territoriais, planejamento urbano, investimento público consistente e governança que priorize populações locais.

Na Amazônia, a água tornou-se, simultaneamente, riqueza, risco e campo de disputa sobre o futuro. O medo é nos afogarmos no mar da ignorância e, numa rima pobre, da ganância.


*Ismael Machado é jornalista com longa experiência na cobertura de assuntos relativos à Amazônia brasileira. 

Na Amazônia, malária esconde casos de dengue, chikungunya e parvovírus B19, mostra pesquisa

Esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação do parasita, no interior de glóbulos vermelhos observados ao microscópio.

Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas.  Foto: Stefan Walkowski / Wikimedia Commons 

Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes. Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque, na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.

Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.

“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.

Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos. Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.

“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.

O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.

“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.

A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.


Fonte: Agência Bori

Donald Trump quer acelerar a extração de riquezas na Venezuela. As organizações de narcotráfico também

A mineração ilegal enriqueceu o regime de Maduro e grupos criminosos, ao mesmo tempo que devastou a Amazônia e seu povo. Os EUA estão se retirando de organizações que visam impedir esses danos

Um jovem mineiro venezuelano trabalha em uma mina a céu aberto em busca de ouro em El Callao, Venezuela, em 29 de agosto de 2023. Crédito: Magda Gibelli/AFP via Getty Images

Um jovem garimpeiro venezuelano trabalha em uma mina a céu aberto em busca de ouro em El Callao, Venezuela, em 29 de agosto de 2023. Crédito: Magda Gibelli/AFP via Getty Images

Por Katie Surma para “Inside Climate News” 

Em um dia de junho de 2022, homens armados atiraram três vezes na cabeça de Virgilio Trujillo Arana na capital do estado do Amazonas, na Venezuela.

Trujillo Arana, líder indígena Uwottüja, dedicou anos à defesa da floresta amazônica contra a mineração ilegal e destrutiva. Esse trabalho tornou-se cada vez mais perigoso com o crescimento da extração ilícita na Venezuela, onde grupos criminosos visavam qualquer pessoa considerada um obstáculo ao lucro. Seu assassinato foi o 32º homicídio documentado de um indígena ou defensor ambiental na Venezuela em um período de oito anos, encerrado em 2022. 

O ataque dos Estados Unidos a Caracas em 3 de janeiro desviou o foco para as vastas reservas de petróleo da Venezuela e para quem controlará e se beneficiará do petróleo bruto. Deixadas de lado nessas discussões estão as crises ambientais e de direitos humanos em curso, que se alastraram sob o governo de Nicolás Maduro — e quem as deterá.

Dezenas de milhares de derramamentos de petróleo contaminaram cursos d’água e água potável, degradaram ecossistemas e deslocaram comunidades. Enquanto isso, organizações de direitos humanos, especialistas das Nações Unidas e jornalistas investigativos documentaram abusos horríveis ligados à mineração ilegal, uma importante fonte de renda para o regime de Maduro e organizações criminosas, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN) da Colômbia. 

Analistas e pesquisadores afirmam que essas organizações e funcionários do governo têm trabalhado juntos para controlar e lucrar com as operações de mineração, frequentemente por meio de violência, impunidade e intimidação.

“A Venezuela é um país que, durante 27 anos, destruiu sistematicamente o Estado de Direito e violou os direitos humanos e ambientais”, afirmou Cristina Vollmer de Burelli, venezuelana e fundadora da SOS Orinoco, uma organização de defesa ambiental focada na proteção da floresta amazônica venezuelana. 

A missão da Venezuela junto às Nações Unidas não respondeu aos pedidos de comentários. 

Ao contrário de alguns outros governos da América Latina, o da Venezuela não está apenas tolerando ou deixando de impedir as economias ilícitas ligadas à destruição ambiental, “está ativamente dirigindo e controlando-as”, disse Vollmer de Burelli. 

A mineração na região serve como fonte de renda e meio para lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, disse ela — e aqueles que se opõem a isso, como Virgilio Trujillo Arana, pagam com a própria vida.

O Arco Mineiro do Orinoco 

Embora a receita do petróleo tenha, por muito tempo, enchido os cofres do governo em Caracas, essa renda começou a declinar por volta de 2014. Maduro voltou-se para a mineração, declarando uma vasta faixa de território ao sul do rio Orinoco como o “Arco Mineiro do Orinoco”, na esperança de atrair investimentos estrangeiros. Mas as empresas internacionais foram dissuadidas pela presença de grupos criminosos transnacionais na região. 

Segundo Vollmer de Burelli, o governo Maduro recorreu então às suas próprias forças armadas em 2018 para “limpar” a área de mineração ilegal. Mas os generais recusaram-se a intervir por receio de um conflito interno sangrento. O governo, então, terceirizou a tarefa para o ELN. 

“O ELN chegou, matou um monte de gente, assumiu o controle das minas, mas nunca as abandonou”, disse Vollmer de Burelli. “Essa é a situação atual no terreno.”

Homens trabalham em uma mina de ouro artesanal na cidade de El Dorado, Venezuela, em 25 de maio de 2025. El Dorado faz parte de uma região denominada pelo governo como Arco Mineiro do Orinoco. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty ImagesHomens trabalham em uma mina de ouro artesanal na cidade de El Dorado, Venezuela, em 25 de maio de 2025. El Dorado faz parte de uma região denominada pelo governo como Arco Mineiro do Orinoco. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty Images

Diversos relatórios da ONU e de outras entidades documentaram como o regime de Maduro administrou ativamente e lucrou com a indústria de mineração ilegal multibilionária, que extrai principalmente ouro, mas também bauxita, diamantes e outros materiais, alimentando a destruição ambiental. 

Para extrair ouro, por exemplo, bombas de alta pressão e máquinas pesadas explodem e escavam leitos de rios. O material é então misturado com mercúrio tóxico para extrair o ouro. O mercúrio é despejado na atmosfera, florestas e rios, contaminando ecossistemas inteiros. 

Os povos indígenas e outros habitantes locais pagaram o preço. 

Estudos revelaram que até 90% das mulheres indígenas no Arco Mineiro do Orinoco apresentam níveis perigosamente altos de mercúrio, o que está associado a problemas neurológicos e outros problemas de saúde . A prostituição forçada e a escravidão sexual aumentaram drasticamente nos arredores dos acampamentos de mineração. Crianças de apenas 10 anos trabalham nas minas sem equipamentos de proteção. Vastos trechos de floresta tropical foram reduzidos a desertos, elevando os casos de malária em mais de 500% em alguns municípios mineiros. E pessoas que resistem ao avanço do extrativismo têm mãos, pés e membros inteiros decepados com facões — ou pior. 

Os territórios indígenas têm sido progressivamente invadidos. As florestas estão sendo devastadas e os rios estão assoreados com sedimentos e substâncias tóxicas, corroendo as culturas e economias tradicionais. As áreas protegidas também não foram poupadas. 

No estado do Amazonas, onde toda atividade de mineração é proibida por lei, existem vastos parques nacionais e terras sagradas para os povos indígenas. O Parque Nacional Yapacana é um desses lugares, conhecido por seu tepui, uma montanha em forma de mesa que abriga formas de vida únicas, as quais evoluíram em isolamento ecológico por milhões de anos.

Em 2019, moradores locais relataram que garimpeiros haviam perfurado o topo do tepui em busca de ouro. Posteriormente, a SOS Orinoco confirmou os danos, utilizando imagens de satélite Maxar de alta resolução.

“Tornou-se o feudo particular deles”, disse Vollmer de Burelli. “Não importa o dano ambiental que você ache que já viu, nada se compara a ver minas a céu aberto escavadas no topo de um tepui.”

Vista aérea dos danos causados ​​pela mineração ilegal e pelos acampamentos de mineração ilegal no Parque Nacional de Yapacana, em 21 de dezembro de 2022. Crédito: Yuri Cortez/AFP via Getty ImagesVista aérea dos danos causados ​​pela mineração ilegal e pelos acampamentos de mineração ilegal no Parque Nacional de Yapacana, em 21 de dezembro de 2022. Crédito: Yuri Cortez/AFP via Getty Images

Autoridades venezuelanas impediram a entrada no país de especialistas jurídicos e de direitos humanos que integravam uma missão de apuração de fatos da ONU. Apesar disso, esses especialistas publicaram um relatório em 2022 que examina a situação dos direitos humanos no Arco Mineiro do Orinoco e em outras áreas, com base em visitas de campo a regiões fronteiriças, evidências documentais, entrevistas com vítimas e testemunhas, dados comerciais e outras fontes.

O relatório documentou quase 2.000 supostas vítimas de violações de direitos humanos e crimes cometidos entre 2014 e 2022, incluindo mais de 800 possíveis mortes violentas. Cerca de um quarto desses assassinatos teriam sido cometidos por agentes do governo.

Um garimpeiro contou a especialistas da ONU que testemunhou membros de um grupo criminoso acusando um menino chamado Manuel de não ter pago a permissão para trabalhar na mina. 

“Disseram-lhe: ‘Se você não colocar a mão no tronco, vou apontar uma pistola de 9 milímetros para a sua cabeça.’ Manuel colocou a mão no tronco e eles a cortaram. Eu via isso acontecer a cada duas ou três semanas. Em um mês, podia acontecer duas vezes. Em cada reunião, eu via os dedos ou as mãos de duas ou três pessoas sendo cortados.”

Em outro caso documentado pela missão, membros de um grupo criminoso acusaram um jovem de 19 anos de roubo de ouro e, em seguida, mutilaram suas mãos, olhos e parte de sua língua.

O relatório também constatou que a violência sexual era generalizada.

“Se um malandro [membro de gangue] gostasse de uma mulher, ele ia atrás dela e ela não podia recusar”, disse um mineiro aos especialistas da ONU. “Os malandros vinham procurar as meninas, e as mães imploravam para dormir com eles, para proteger suas filhas.” 

“A selva tem suas regras”

Duas semanas atrás, a líder indígena Pemón, Lisa Henrito, visitou uma loja em uma cidade do Arco Mineiro do Orinoco. 

“Eu pedi um refrigerante e um biscoito doce, e minha amiga pediu um refrigerante”, disse ela. Então, a amiga pagou o atendente da loja com ouro. 

“Eles têm balanças”, explicou ela. “Como é que se vive num lugar onde o dinheiro é ouro”, acrescentou, “e se resiste a tornar-se mineiro?” 

A pressão sobre os povos indígenas da região obrigou muitos a fugir para países vizinhos. Aqueles que permanecem e se opõem à mineração ilegal correm o risco de serem mortos. Outros que ficam são forçados a se envolver em atividades ilícitas direta ou indiretamente, como a venda de gasolina ou ferramentas de mineração.

“Muitas pessoas morreram de estresse porque não conseguem aceitar o fato de terem que deixar suas comunidades, onde nasceram, onde têm fazendas e onde criam seus filhos”, disse ela. “É uma tragédia para os povos indígenas, porque somos muito ligados às nossas terras.”

Segundo Henrito, as pessoas que se mudam para as cidades na esperança de que o governo as ajude a se integrar à vida urbana acabam mendigando nas ruas e debaixo de pontes.

“Quando um governo falha em proteger seus cidadãos, ele falha como governo.”

— Lisa Henrito, líder indígena Pemón

Ela considera o ataque dos EUA à Venezuela como desconectado das realidades dos povos indígenas, que há muito vivem de forma autônoma e sobreviveram por milhares de anos aderindo a princípios centrados no direito à vida e ao território. 

“Pessoas em todo o mundo estão debatendo se essas ações foram certas ou erradas”, disse ela, referindo-se ao ataque de 3 de janeiro. “As nações indígenas enfrentam desafios semelhantes quando pessoas de fora se impõem sobre nós e tomam nossas terras.”

Sua visão para o futuro é de um país onde a justiça e as instituições imparciais e independentes sejam restauradas na Venezuela. “Quando um governo falha em proteger seus cidadãos, ele falha como governo”, disse ela. 

“Todo governo deve ter regras e respeitá-las”, acrescentou ela. “Nós, como povos indígenas, vivemos na selva, e a selva tem suas regras, e nós vivemos de acordo com essas regras. Pedimos que outros governos façam o mesmo.” 

Não é do interesse dos EUA 

Com a intensificação dos abusos relacionados à mineração ilegal, a cooperação internacional tem desempenhado um papel crucial na documentação dos crimes, na pressão sobre as autoridades e no combate às redes criminosas que operam além-fronteiras na floresta. 

No entanto, o governo Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que trabalhava para conter a mineração ilegal e apoiar as comunidades afetadas. Em fevereiro passado, Donald Trump retirou novamente os Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da ONU, órgão que autorizou a missão de apuração dos fatos na Venezuela. 

E na quarta-feira, Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos de mais de 60 outras organizações e tratados internacionais, muitos deles focados em direitos humanos, proteção ambiental e promoção da democracia e do Estado de Direito. 

O Departamento de Estado dos EUA não respondeu aos pedidos de comentários. Anteriormente, o governo Trump afirmou que essas organizações e acordos não são mais do interesse dos EUA. Questionada sobre a situação e se o governo Trump planejava combater a mineração ilegal na Venezuela, a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, mencionou a prisão de Nicolás Maduro e disse que Donald Trump “intermediou um acordo energético histórico para fortalecer ainda mais a segurança nacional dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e ajudar a restaurar a Venezuela como uma aliada responsável e próspera dos Estados Unidos”.

Desirée Cormier Smith, ex-representante especial para equidade racial e justiça no Departamento de Estado, alertou que essas medidas podem agravar as violações dos direitos humanos e os abusos ambientais na Venezuela e em todo o mundo. 

“Estou profundamente preocupada com o que isso significa para os mais vulneráveis ​​e marginalizados”, disse ela. 

Mineiros preparam um barco para zarpar na cidade mineira de El Dorado, Venezuela, em 24 de maio de 2025. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty ImagesMineiros preparam um barco para zarpar na cidade mineira de El Dorado, Venezuela, em 24 de maio de 2025. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty Images

Em locais como a Venezuela, onde o governo se torna um dos principais violadores dos direitos humanos, os órgãos internacionais de supervisão oferecem uma rede de segurança crucial para grupos marginalizados, proporcionando um dos únicos mecanismos restantes para documentar abusos. Em casos ao redor do mundo, como em Darfur e Mianmar, essa documentação posteriormente ajudou a responsabilizar os infratores.

Segundo Cormier Smith, o foco de Trump na extração rápida dos recursos venezuelanos pode pressionar as empresas a agirem com rapidez e, potencialmente, ignorarem o direito dos povos indígenas de serem consultados sobre projetos que os afetam, agravando a onda de pressões que já enfrentam. 

Uma das organizações da ONU da qual Trump disse esta semana que se retiraria, o Conselho Econômico e Social, abriga o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, que serve como uma plataforma fundamental para os povos indígenas expressarem suas preocupações sobre direitos humanos, direitos à terra e projetos de desenvolvimento. 

Cormier Smith afirmou que é possível que os Estados Unidos deixem de reconhecer ou respeitar as decisões e os acordos firmados por essas instituições, incluindo a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, um tratado fundamental.

A saída dessas instituições e acordos também significa que, daqui para frente, os Estados Unidos não estarão sujeitos à supervisão internacional dessas organizações por suas próprias ações. 

“Não acho que seja coincidência”, disse Cormier Smith. 

No ano passado, o governo Trump eliminou as menções à palavra “indígena” em seus relatórios anuais de direitos humanos, sinalizando que o governo dos EUA não priorizaria mais pressionar outros governos por suas violações dos direitos dos povos indígenas.

A China , a Rússia e outros governos autoritários há muito tempo buscam limitar a supervisão internacional sobre seus atos internos, como o tratamento dado pela China aos uigures. A China, em particular, tem pressionado para reformular as instituições internacionais segundo sua visão, priorizando o desenvolvimento em detrimento da democracia. 

“Este é o sonho da China: que os EUA se retirem de tantas entidades da ONU e organizações internacionais”, disse Cormier Smith. “É um presente de bandeja para eles.” 

Ela e outros ex-funcionários do governo e analistas afirmam que a retirada dos EUA e o ataque à Venezuela refletem uma mudança mais ampla na política externa americana sob Trump — uma mudança que se afasta da promoção da democracia e dos direitos humanos e se aproxima de uma abordagem mais restrita e transacional, centrada na extração de recursos. 

Donald Trump conversou com empresas petrolíferas americanas antes do ataque de 3 de janeiro e, desde então, afirmou que os EUA administrariam a Venezuela. 

“Vamos extrair uma quantidade enorme de riquezas do solo”, disse ele.

Desde a deposição de Maduro, sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a liderança do país. Rodríguez, uma aliada de longa data de Maduro, foi alvo de sanções de diversos países e mantém estreita relação com autoridades acusadas de corrupção e violações dos direitos humanos. 

A SOS Orinoco afirmou em comunicado na quarta-feira que Rodríguez ajudou a transformar o sul da Venezuela “em uma máquina de extração violenta e patrocinada pelo Estado”.

“A substituição de Maduro por Delcy Rodríguez é um mau presságio para o meio ambiente na “Venezuela”, disse a organização. “Tememos que o atual ecocídio continue e piore sob um novo regime.”


Fonte: Inside Climate News

Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Povos indígenas exigem a proteção das florestas tropicais contra as indústrias extrativistas

mapas de extrativismoComunidades indígenas exigem o reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a natureza. Crédito da imagem: Sergio Carranza Basantes/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed.

Por Aleida Rueda para o SciDev 

[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Grupos indígenas e comunidades locais de diferentes regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia, uniram-se em uma reivindicação global pelo reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a preservação da natureza.

O apelo é consequência de um novo relatório elaborado pela Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight, que expõe pela primeira vez, com mapas detalhados, a crise ambiental causada pelo modelo de produção baseado na extração intensiva de recursos naturais.

Os mapas indicam as áreas onde ocorrem atividades de extração de petróleo e gás, bem como mineração, exploração madeireira industrial e agricultura em larga escala nas florestas da Amazônia, da região do Congo, da Indonésia e da Mesoamérica, onde vivem 35 milhões de indígenas.

Um estudo realizado pela Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight produziu mapas detalhados das indústrias extrativas em várias regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia. Crédito da imagem: Earth Insight.

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo”, disse Juan Carlos Jintiach Arcos, secretário executivo da GATC, à SciDev.Net .

“Eles não podem mais dizer que inventamos essas coisas. Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam”, afirmou ele.

Jintiach Arcos, que faz parte do povo Shuar da Amazônia equatoriana, também afirmou que este relatório demonstra que as ameaças aos territórios indígenas não são incidentes isolados, mas parte de um padrão estrutural que se repete em todas as regiões de floresta tropical do mundo.

Esse padrão é evidente nos mapas do relatório, que constituem “uma ferramenta poderosa, pois são uma forma de tornar visível, de forma clara e urgente, o que normalmente fica oculto em documentos técnicos ou bancos de dados dispersos”, disse Florencia Librizzi, vice-diretora da Earth Insight, ao SciDev.Net .

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo (…) Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam.”

Juan Carlos Jintiach Arcos, Secretário Executivo do GATC

Na Mesoamérica , por exemplo, o relatório mostra que existem 3,7 milhões de hectares (Mha) de terras de povos indígenas e comunidades locais ameaçadas pela extração de petróleo e gás, enquanto as concessões de mineração ameaçam 18,7 milhões de hectares desse tipo de terra.

A isso se somam outras ameaças, como o tráfico de drogas, o desmatamento, a construção de megaprojetos e a fragilidade da governança em países como México, Honduras e Nicarágua.

Na Amazônia , onde 250 milhões de hectares são terras habitadas por povos indígenas e comunidades locais, 31 milhões de hectares estão ameaçados por petróleo e gás; 9,8 milhões de hectares por mineração; e 2,4 milhões de hectares por exploração madeireira.

As indústrias extrativas estão presentes em todos os países da Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, mas existem diferenças interessantes.

Por exemplo, a indústria petrolífera representa uma ameaça maior na Amazônia do que na Mesoamérica, mas nesta última, a maior parte da exploração ocorre longe da costa ( em alto-mar). Também se observa que países como Suriname e Guiana têm uma concentração maior de concessões madeireiras do que o resto da região.

Após a divulgação do relatório, as pessoas que vivem nas áreas ameaçadas estão exigindo mudanças. A principal reivindicação é a garantia e o reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, bem como a asseguração do consentimento livre, prévio e informado  (CLPI) para todos os projetos.

“Muitas vezes, empresas ou governos chegam aos nossos territórios sem compreender os nossos processos internos, sem respeitar as nossas formas de governação e tomada de decisões, ou pior, enganando as nossas comunidades para obter uma assinatura ou autorização. Isso não é consentimento”, afirmou Jintiach Arcos.

O consentimento, esclareceu ele, “não busca abrir as portas para as indústrias extrativas, mas afirmar nossa soberania (…) que somos nós que decidimos o que entra e o que não entra em nossos territórios”.

Outra reivindicação diz respeito ao financiamento direto para as comunidades indígenas. “Não estamos falando apenas do dinheiro chegar às comunidades”, explicou Levi Sucre Romero, diretor-geral da Aliança Mesoamericana dos Povos e das Florestas (AMPB). Especificamente, eles se referem a empresas, governos e organizações multilaterais que modifiquem seus modelos de financiamento, fortaleçam os sistemas de governança que sustentam esses territórios e criem mecanismos diferenciados de monitoramento e avaliação que respondam às realidades de cada território.

Para Ivan Brehaut, diretor de programas da Associação ProPurus, dedicada à proteção das florestas, e que não participou do relatório, o documento oferece um panorama muito claro de onde estão as ameaças, não apenas para as florestas, mas também para os povos indígenas em isolamento e em contato inicial (PIACI).

“Para a maioria das pessoas, a floresta tropical continua sendo um espaço vazio, sem população. Mostrar a sobreposição entre as áreas do PIACI e as iniciativas extrativistas ajuda a perceber o nível de impacto causado pelas indústrias extrativistas na vida das pessoas”, disse ele ao SciDev.Net .

No entanto, acrescentou, não haverá interrupção do extrativismo enquanto a economia mundial depender de combustíveis fósseis e enquanto não for reconhecido que as florestas (e seus habitantes, os povos indígenas) “são mais do que apenas uma mercadoria ”.

Evidências de proteção bem-sucedida

O relatório não apenas destaca as ameaças, mas também propõe soluções. Por exemplo, onde há maior reconhecimento dos direitos territoriais e da governança comunitária, a saúde da natureza é preservada e o desmatamento diminui significativamente.

“Um exemplo é a Reserva da Biosfera Maia na Guatemala, onde a sobreposição com as concessões é muito menor, a ponto de o desmatamento em áreas comunitárias ser mais de sete vezes menor que a média nacional”, disse Librizzi.

Para Olo Villalaz, líder da AMBP, isso tem a ver com a forma como as comunidades entendem o cuidado com as florestas.

“Entendemos que a Mãe Terra é um único lar onde todos vivemos e do qual nossas vidas dependem. Sua proteção se baseia no respeito, na espiritualidade e em decisões tomadas coletivamente, onde cada voz — de mulheres, jovens, idosos e autoridades — tem seu lugar”, disse ela ao SciDev.Net .

Líderes indígenas concordaram que, embora pareça não haver como deter o extrativismo na região, existem sinais de esperança: “Não falamos mais sozinhos. Hoje, o mundo começa a entender que sem os povos indígenas não há futuro possível”, afirmou Jintiach Arcos.

De acordo com Librizzi, há claros sinais de progresso devido à crescente colaboração entre organizações indígenas nas três principais bacias tropicais: a Amazônia, a bacia do Congo e o Sudeste Asiático. “Isso está gerando uma voz coletiva mais forte e coordenada.”

Jintiach concordou: “A esperança reside na força organizada do povo, na nossa capacidade de propor, resistir e construir. Não pedimos para sermos incluídos; exigimos ser aliados em pé de igualdade, porque sem nós, a regeneração é impossível.”


Fonte: SciDev.Net

Conferência Mundial do Clima: A utopia não realizada de Belém

Casa de repouso, centro cultural e econômico – a conferência sobre o clima está chegando à Amazônia

Muitas obras estão sendo realizadas em Belém em preparação para a Cúpula Mundial do Clima. Mas isso ainda é fachada.

Muitas obras estão sendo realizadas em Belém em preparação para a Cúpula Mundial do Clima. Mas isso ainda é fachada. Foto: AFP/Anderson Coelho

Por Lea Schlude para o “Neues Deutschland”

A Praça Batista Campos é um oásis verde no centro histórico de Belém, no norte do Brasil, um tanto decadente. O amplo complexo de lagoas é inspirado na paisagem amazônica: pavilhões de ferro fundido delicadamente decorados oferecem abrigo contra a chuva tropical da tarde; samaúmas, com seus troncos altos e esguios, projetam-se dos bambus e mangueiras. Centenas de grous-brancos brincam nas copas das árvores à noite.

A praça é um monumento à Belle Époque de Belém — lar de barões da borracha, figuras literárias e passeantes, famosa por suas extensas avenidas de mangueiras. Com o fim do ciclo da borracha, por volta de 1900, e a chegada de grandes ondas de imigração europeia ao sul do Brasil, a cidade gradualmente perdeu sua importância.

Flávia Do Amaral Vieira convida você para um passeio depois do trabalho. A formada em direito ambiental está desenvolvendo estratégias para a justiça climática a partir da perspectiva amazônica com o Comitê da sociedade civil COP 30. A conferência do clima que acontece aqui em novembro evoca nela sentimentos contraditórios: “Temos uma oportunidade única de chamar a atenção do mundo para a emergência em nossa região”, diz a belenense. “Por outro lado, a COP é um evento de lobby para as indústrias de combustíveis fósseis e minerais.” Ela acusa o governador Helder Barbalho de explorar a cúpula “para o turbodesenvolvimento da região sem levar em conta o meio ambiente”.

Segundo Vieira, ONGs estrangeiras têm demonstrado até agora pouca consciência de que a região é densamente povoada e altamente industrializada. “A selva arcádica desapareceu desde o boom da borracha.” Vinte e oito milhões de pessoas vivem na Amazônia brasileira, a maioria em situação de pobreza. Com a associação “Rede Amazônidas pelo Clima”, Vieira defende o desenvolvimento econômico sustentável com base no modelo de manejo florestal indígena. “Só podemos fazer a diferença se possibilitarmos uma transformação autodeterminada.”

Belém é a capital do Pará. O estado mais pobre do Brasil, com uma área 3,5 vezes maior que a da Alemanha, é também uma das regiões mais ricas em recursos naturais do mundo. As licenças para extração de matérias-primas são detidas por empresas multinacionais da Europa, América do Norte e China. A renda per capita média é equivalente a € 5.500 por ano — metade da renda do sul industrializado do Brasil. O Pará também detém o triste recorde nacional de desmatamento. “Atividades ilegais na floresta tropical são, antes de tudo, um sintoma de injustiça social. As pessoas precisam de meios de subsistência alternativos; só assim a proteção ambiental poderá ser efetivamente aplicada”, afirma Vieira.

Os impactos das mudanças climáticas já são dramáticos: em outubro de 2024, a Amazônia atingiu seu nível de água mais baixo desde o início dos registros. Milhões de pessoas ficaram sem acesso a alimentos, escolas e assistência médica porque os rios — muitas vezes o único meio de transporte — não eram mais navegáveis. Vieira está convencido de que a mudança só pode ser alcançada por meio da cooperação com os países importadores e de investimentos sustentáveis ​​em infraestrutura pública.

A cidade-sede da COP 30 não carece de significado simbólico. Outrora um orgulhoso posto avançado português na luta pela supremacia colonial, Belém é hoje um centro cultural com uma herança indígena afro-brasileira única. A bem preservada fortaleza da cidade foi construída em 1616 para repelir os franceses e holandeses, mas também para esmagar a resistência armada dos habitantes indígenas dos povos Tupinambá e Pacajá. Eles chegaram a ocupar a fortaleza brevemente em 1619. O centro histórico barroco, com suas pinturas coloridas, esconde as atrocidades cometidas contra a população indígena e afro-brasileira. Os vestígios mais antigos de uma civilização avançada, vasos e urnas com delicados padrões geométricos da ilha de Marajó, datam de 400 d.C. e podem ser admirados no museu da fortaleza.

Da muralha da fortaleza, você tem a melhor vista do mercado ribeirinho de Ver-o-Peso, um mercado atacadista e paraíso gourmet ao mesmo tempo. Aqui você encontra todos os tipos de frutas e peixes, licores e óleos feitos de plantas amazônicas, ervas medicinais e banhos purificadores para todos os tipos de doenças, baseados na religião Umbanda, que combina o animismo indígena com o espiritualismo da África Ocidental e o cristianismo.

Amazon e saídas

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começa em 10 de novembro no Brasil – bem no coração de um país onde a floresta amazônica está desaparecendo a um ritmo alarmante. Nossa série mostra a rapidez com que o desmatamento está progredindo – e quais soluções existem para o desenvolvimento econômico sustentável.

Todo primeiro domingo do mês, a cena local se reúne para a tradicional dança do Carimbó, que perpetua a resistência afro-indígena da região. Atrás da banda, estivadores carregam toneladas de açaí fresco. Katia Silene serve peixe frito em sua barraca, acompanhado de uma tigela de purê de açaí com polvilho crocante de mandioca. Ela simplesmente balança a cabeça ao perceber que o açaí, altamente nutritivo, está se tornando um ingrediente de cereal na Europa. Belém foi reconhecida como um polo gastronômico da UNESCO – os ingredientes da culinária regional refletem a biodiversidade única da região: peixe, mandioca, coco, bacurí, tapereba, cupuaçu e, claro, açaí.

Dona Silene espera que a conferência do clima atraia um grande público e boas vendas. “Depois da COP, vou passar alguns dias de férias à beira-mar com meu filho; sonho com isso há anos.” Fora isso, ela trabalha no mercado do amanhecer ao anoitecer, sete dias por semana, desde os oito anos de idade. Com cinco dias de férias por ano.

Como muitos outros na cidade de dois milhões de habitantes, Silene espera que a COP 30 revitalize o centro histórico. Ruas inteiras estão em ruínas, mas oferecem abrigo para pessoas que, de outra forma, não teriam onde morar. O uso de crack é alto. No meio delas, erguem-se prédios altos, para onde a classe média alta se refugiou. O bairro de Nazaré, no centro da cidade, tem os preços imobiliários mais altos e também é a área mais perigosa da cidade. Quem paga aluguel aqui se locomove exclusivamente de Uber ou carro próprio. “Se eu fosse prefeito, teria contratado os muitos jovens nas ruas para trabalhar nas obras da COP e fornecido a eles apartamentos e oficinas. Há muita vaga. Mas nada disso aconteceu”, diz Silene.

Embora o governador Helder Barbalho, do Partido Democrático Brasileiro (PDB), com seu profundo conhecimento em relações públicas, fale muito sobre “desenvolvimento sustentável”, ele se refere principalmente a estradas, pontes e instalações portuárias aceleradas. Com a fórmula mágica “bioeconomia”, ele promove uma economia baseada em matérias-primas com forte crescimento e o mínimo de regulamentações ambientais possível. O plano também inclui o manejo florestal sustentável, mas visa principalmente o agronegócio e a mineração.

Desde a conquista da COP, a cidade tem sido inundada com anúncios de projetos de infraestrutura. Atrás dos outdoors, há canteiros de obras que não serão mais concluídos no prazo. Não há sinal de uma campanha sobre proteção ambiental e metas climáticas concretas. Educar ou envolver a população definitivamente não é um dos objetivos da dinastia Barbalho, que está no poder no Pará há décadas. Seu pai já foi governador, sua mãe é deputada federal e sua esposa ocupa um alto cargo no Tribunal de Contas. Há um ano, houve um escândalo: quando o Ministério Público Federal ameaçou o governo do Pará com estado de emergência em vista do desmatamento recorde, Barbalho demitiu seu ministro do Meio Ambiente. O cargo foi assumido por um jovem protegido que imediatamente desbloqueou dois projetos de construção paralisados: uma barragem e uma estrada na região de Belém, que atravessa uma reserva natural.

Martha Santos abre um dos cocos empilhados em uma cesta ao lado do quiosque que administra com o parceiro há 30 anos. Como muitos vendedores ambulantes e diaristas, ela se desloca diariamente de uma das 42 ilhas da região metropolitana para a cidade. Seu negócio lhe fornece o que precisa para sobreviver. Felizmente, diz ela, sua barraca só foi assaltada uma vez. Ela está cética em relação à COP: além de melhorias estéticas nas principais vias de tráfego e alguns hotéis de luxo em vilas históricas restauradas, ela prevê uma enorme montanha de resíduos plásticos; não há nenhuma unidade de reciclagem na região.

Apenas três prédios públicos foram reformados, incluindo o histórico mercado municipal de São Brás e o antigo cais do porto. Um novo parque de cinco quilômetros de extensão também abrigará o centro de convenções. O sistema de esgoto e a estação de tratamento de águas residuais do distrito central foram inaugurados há duas semanas – em todos os outros lugares, as águas residuais continuam a fluir sem filtragem para o Rio Guamá.

Cinquenta mil convidados são esperados para a cúpula em uma cidade que mal conheceu o turismo internacional. A especulação sobre os preços dos poucos quartos de hotel já está causando indignação na mídia. O governo fretou três navios de cruzeiro para criar mais 15.000 leitos – os danos ecológicos são inevitáveis. As vítimas: moradores dos subúrbios, cujo sustento depende do ecossistema fluvial. Mesmo nas imediações do centro da cidade, a maioria vive da pesca e da silvicultura, individualmente ou em cooperativas que vendem seus produtos a intermediários a preços baixos. Belém fica às margens do Delta do Amazonas, entre a floresta tropical e o maior manguezal costeiro intacto do mundo.

As empresas multinacionais estão satisfeitas com a expansão da infraestrutura às custas do Estado – o plano de investimentos do governo equivale ao equivalente a 743 milhões de euros. Produtores de petróleo e gás , empresas químicas e alimentícias como Nestlé e Coca-Cola, que há algum tempo compram fontes de água na região, têm seus próprios terminais portuários em Belém. Matérias-primas preciosas de todos os tipos e cores saem do porto diariamente – segundo estimativas atuais, isso inclui 40% das vendas globais de cocaína. A rota amazônica ganhou considerável importância desde que a “Guerra às Drogas” dos EUA dificultou a passagem pelo México.

O passeio termina em frente ao marco da cidade, o Teatro da Paz, de cor carmesim . Ele ostenta um sistema de ventilação revolucionário que permitiu aos barões da borracha desfrutar de uma ópera agradável, apesar das temperaturas tropicais. Sua acústica é considerada a melhor de toda a América do Sul. O design de interiores, com sua mistura eclética de artesanato português e indígena, fala das raízes da cidade, mas também de sua utopia não realizada. No elaborado mosaico do foyer, árvores samaúma estilizadas e sapos — símbolos de boa sorte na cultura Tupinambá — entrelaçam a cruz vermelha e branca da coroa portuguesa. Acima dele, pende um imponente lustre de cristal, especialmente criado em Paris com base no modelo de nenúfares da Amazônia. O piso de parquet, feito de madeiras tropicais claras e escuras, é colocado no padrão de um símbolo indígena da paz.

Os requintados chocolates artesanais, que podem ser degustados na cidade e em passeios de barco até a Ilha do Combú, anunciam a transformação que aguarda Belém. Com preços equivalentes a € 5, eles só são acessíveis para visitantes. O salário médio mensal em Belém é de € 500. “Pela primeira vez, discutiremos a importância da Amazônia na Amazônia, e não no Egito, Berlim ou Paris”, disse o presidente Lula na cerimônia. Ainda não se sabe se isso fará diferença.


Fonte: Neues Deutschland

Estudo mostra relação entre exportações de carne bovina brasileira e desmatamento

O Trase mapeia as cadeias globais de suprimentos de commodities agrícolas, fornecendo insights sobre como os mercados consumidores estão vinculados ao desmatamento e outros impactos ambientais por meio de suas importações. Este guia explicativo sobre a carne bovina brasileira apresenta os resultados da nossa análise dos dados mais recentes de 2021, 2022 e 2023  

Desmatamento da carne bovina brasileira

Área desmatada dentro da Floresta Nacional do Jamaxin em Novo Progresso, Pará (Foto: Bernardo Camara/((o))eco)

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para “Trase”

O Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial de carne bovina. Em 2023, produziu 12,9 milhões de toneladas (Mt) de carne bovina, representando cerca de 20% das exportações globais . O setor de carne bovina do Brasil é um dos principais contribuintes para a economia do país, sendo responsável por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e cerca de 8,9 milhões de empregos em 2024. A criação de gado ocorre em todas as regiões do Brasil, mas a capacidade e a produção dos frigoríficos estão concentradas nas regiões Centro-Oeste e Norte do país.

A produção de gado bovino concentra-se nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.
Mapa da produção de gado bovino (toneladas de peso de carcaça) no Brasil por município em 2023.

Desmatamento e produção de carne bovina

A análise da Trase mostra que o desmatamento e a conversão anual de vegetação nativa associados à expansão de pastagens aumentaram de 5,5 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 7,5 Mha em 2023, um aumento de mais de 36% em quatro anos. A produção de carne bovina aumentou 15% no mesmo período, aproximadamente metade da taxa de aumento do desmatamento e da conversão. Juntos, esses números implicam uma maior intensidade de desmatamento (hectares de desmatamento por 1.000 toneladas de produção) em 2023 do que em 2020, especialmente na Amazônia. Por exemplo, em 2020, 893 ha de vegetação nativa foram convertidos para cada 1.000 toneladas de gado produzido. Esse número aumentou para 1.300 ha em 2023, um aumento de 50% na intensidade de desmatamento em menos de 10 anos.

O desmatamento por tonelada de produção de gado aumentou, especialmente na região amazônica brasileira.
Intensidade anual de desmatamento (hectares de desmatamento por mil toneladas de produção) no Brasil e seus principais biomas produtores de gado.

Uma grande proporção do desmatamento e da conversão de pastagens ocorreu na Amazônia. Entre 2018-20 e 2021-23, o desmatamento médio anual no bioma aumentou 54% (300.000 ha). O desmatamento no Pantanal também aumentou, embora partindo de uma base mais baixa, enquanto o Cerrado diminuiu ligeiramente. Desde 2017, o desmatamento brasileiro para a pecuária tem se deslocado acentuadamente para a Amazônia (62% da participação nacional em 2023 contra 40% em 2017). Pontos críticos recentes de desmatamento concentram-se ao longo das rodovias BR-163 e Transamazônica (sudoeste do Pará, norte do Mato Grosso, Rondônia).

A maior parte do desmatamento tende a se concentrar em um número relativamente pequeno de municípios. Apenas 61 municípios no Brasil foram responsáveis ​​por 50% do desmatamento para pastagem de gado em 2023. Juntos, esses municípios são responsáveis ​​por apenas 11% da produção de gado naquele ano. Apenas quatro municípios, Altamira (Pará), Porto Velho (Rondônia), São Félix do Xingu (Pará) e Lábrea (Amazonas), foram responsáveis ​​por 12% do desmatamento e conversão de pastagens no Brasil em 2023. Isso sugere que concentrar ações em pontos críticos poderia reduzir significativamente o desmatamento e a conversão, com impacto relativamente baixo na produção de gado.

Os dados da Trase utilizados nesta análise abrangem o período de 2020 a 2023. Dados de monitoramento por satélite de 2024 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (PRODES) mostram que o desmatamento caiu 31% na Amazônia e 26% no Cerrado. A redução é atribuída às medidas de controle da perda florestal adotadas pelo governo federal desde 2023, em contraste com a política de enfraquecimento da proteção florestal do governo anterior. Esses resultados serão registrados em futuras atualizações dos dados da Trase.

Principais focos de aumento do desmatamento vinculados à produção de carne bovina no Brasil
Taxa de variação anual (%) do desmatamento e conversão para pastagem (2015–2023) nos municípios que responderam por 95% da produção de carne bovina em 2023. Quanto maior o valor, maior o aumento do desmatamento recente.

Mercados e comerciantes

Embora cerca de 70% da carne bovina brasileira seja consumida internamente, a participação das exportações cresceu na última década. A China é o principal mercado exportador da carne bovina brasileira, respondendo por 59% em 2023, seguida pelos Estados Unidos (8%) e pela União Europeia (5%). A China também é o mercado exportador com maior exposição ao desmatamento, aumentando de 124.000 ha em 2015 para 564.000 ha em 2023.

As importações de carne bovina brasileira pelos EUA têm aumentado de forma constante desde 2019 devido ao aumento da demanda. Os volumes aumentaram de 74.500 (2015) para 264.000 toneladas (2023), e a exposição associada ao desmatamento aumentou de 1.700 ha para 52.900 ha.

A participação da UE nas exportações de carne bovina do Brasil caiu nos últimos anos para 3% em 2023. Sua exposição média ao desmatamento entre 2015 e 2023 foi de cerca de 28.000 ha por ano, com uma participação média global de 5%. Em termos absolutos, a exposição da UE ao desmatamento foi de 25.000 ha em 2015 e 27.000 ha em 2023.

As importações chinesas de carne bovina brasileira apresentam a maior exposição ao desmatamento
Participação global anual (%) da exposição ao desmatamento (2015-2023) dos cinco maiores importadores de carne bovina brasileira em 2023.

As três maiores tradings, JBS, Marfrig e Minerva, aumentaram suas exportações em cerca de 43% entre 2015 e 2023, enquanto sua exposição combinada ao desmatamento aumentou 44%. Juntas, elas representam 67% das exportações em 2023 e 54% da exposição ao desmatamento e conversão. De acordo com seus próprios relatórios, as exportações representam 24%, 39% e 57% da carne bovina fornecida pela JBS , Marfrig e Minerva , respectivamente. O volume restante foi consumido internamente. Os resultados mostram que essas três tradings de carne bovina têm considerável influência na redução do desmatamento associado às exportações de carne bovina.

A participação da JBS na exposição total ao desmatamento caiu de mais de 37% em 2015 para 29% em 2023. A participação da Minerva permaneceu praticamente estável no período, enquanto a da Marfrig aumentou de 10% para 12%. Embora sua participação coletiva na exposição tenha diminuído, a exposição absoluta atribuída a esses traders ainda aumentou, refletindo a expansão geral das exportações, especialmente para a China.

JBS é a empresa mais exposta ao desmatamento devido às suas exportações de carne bovina brasileira
Participação global anual (%) de exposição ao desmatamento (2015-2023) das três maiores empresas exportadoras de carne bovina brasileira em 2023.

Compromissos da empresa com desmatamento e conversão zero (ZDCs)

As ZDCs no setor bovino compreendem o Compromisso Público da Pecuária firmado pelos maiores frigoríficos que operam na Amazônia, também conhecido como acordo G4, e o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para carne bovina, que abrange outros frigoríficos na Amazônia. Segundo ambos os acordos, os frigoríficos não podem comprar gado de fazendas com desmatamento na Amazônia após 2009. No entanto, enquanto o acordo G4 compromete as empresas a prevenir qualquer desmatamento, o TAC exige apenas a prevenção do desmatamento ilegal. Há também um número crescente de compromissos corporativos individuais abrangendo o Cerrado e outros estados da Amazônia onde os TACs não estão disponíveis, como Maranhão e Tocantins.

A partir de 2015, a cobertura das ZDCs expandiu-se substancialmente. Em 2015, a maior parte da carne bovina (70%; 1,42 Mt) não foi produzida e exportada sob qualquer compromisso, enquanto o TAC cobriu 25% (0,51 Mt) e o G4, 4% (0,09 Mt) dos volumes de carne bovina. Em 2023, ocorreu o oposto: cerca de 70% da carne bovina foi coberta pelas ZDCs, com os compromissos das empresas aumentando para 40% (1,26 Mt) e o TAC para 29% (0,91 Mt).

Os compromissos de desmatamento zero aumentaram para cobrir a maior parte das exportações de carne bovina brasileira.
Volume de carne bovina exportada por empresas com ou sem compromissos de desmatamento zero e conversão, 2015–2022.

Emissões de gases de efeito estufa

As emissões brutas de gases de efeito estufa associadas às exportações de carne bovina brasileira aumentaram na última década de 168 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015 para 380 Mt CO₂-eq em 2023 – um aumento de cerca de 46%.

A maior parte das emissões provém do desmatamento e da conversão na Amazônia. Em 2023, a Amazônia foi responsável por 73% do desmatamento relacionado a pastagens no Brasil (138 Mt CO₂-eq), enquanto o Cerrado contribuiu com 22% (41 Mt CO₂-eq) e o Pantanal com 3,6% (6,7 Mt CO₂e). As emissões do Cerrado permaneceram praticamente estáveis ​​entre 2015 e 2023, enquanto as emissões do Pantanal praticamente dobraram a partir de uma pequena base em 2015 (2,8 Mt CO₂-eq).

As três maiores comerciantes de carne bovina, JBS, Marfrig e Minerva, têm a maior exposição a emissões. Juntas, elas respondem por 52% das emissões em 2023 (JBS 28%, Minerva 13%, Marfrig 11%). As tendências variam ao longo do tempo: as emissões da JBS são cerca de 10% menores entre 2015 e 2023, a Minerva caiu 13%, enquanto a Marfrig se mantém estável em 10% ao longo dos anos. Embora a participação combinada das três grandes permaneça substancial, essas mudanças sugerem que parte do crescimento das emissões desde 2015 foi contabilizado por outros exportadores. A maioria dos novos contribuintes está no estado do Pará, onde comerciantes como Mercurio Alimentos e Frigol, juntas, responderam por 12% das emissões atribuídas exportadas em 2023, em comparação com apenas 6% em 2015.

JBS, Minerva e Marfrig respondem pela maior parcela das emissões de gases de efeito estufa provenientes da comercialização de carne bovina brasileira.
Participação da empresa nas emissões brutas de gases de efeito estufa (2015-2023) das cinco maiores comercializadoras de carne bovina brasileira em 2023 (inclui apenas a comercializadora conhecida).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Nicolás Martín, Carina Mueller e Jailson Soares.

Explore e baixe os dados da carne bovina brasileira em trase.earth

Para referenciar o conjunto de dados, utilize a citação: zu Ermgassen, EKHJ, Suavet, C., Biddle, H., Su, N., Prada Moro, Y., Ribeiro, V., Carvalho, T., & Lathuilliere, M. (2025). Cadeia de suprimentos de carne bovina do Brasil 2010–2017 e 2019–2023 (Versão 2.2) [Conjunto de dados]. Trase. https://doi.org/10.48650/AYAA-HH56

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). Mapa da cadeia de suprimentos da carne bovina brasileira SEI-PCS v2.2: Fontes de dados e métodos. Trase. https://doi.org/10.48650/CP2S-SP59

Para consultar este artigo, utilize a citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de carne bovina e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/6VK3-2S18


Fonte: Trase

Um terço dos moradores da Amazônia Legal já sente efeitos das mudanças climáticas

Comunidade ribeirinha na Amazônia com barcos encalhados e rio seco durante forte estiagem, evidenciando os efeitos das mudanças climáticas.

Secas prolongadas são alguns dos impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

Agência BORI

As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornar parte do cotidiano na Amazônia Legal. Um levantamento realizado pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive, mostra que cerca de um terço da população da região (32%) afirma já ter sido diretamente afetada. Entre povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, a proporção é ainda maior: 42,2%.

O estudo “Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal” é o primeiro a reunir informações de residentes dos nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), incluindo grupos historicamente sub-representados em pesquisas nacionais. Foram ouvidas 4.037 pessoas entre maio e julho de 2025.

A pesquisa também mostra que a percepção sobre a crise climática é quase unânime na região: 88,4% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas estão ocorrendo no Brasil e no mundo, e 90,6% concordam que já vivemos um aquecimento global. Essa consciência, segundo os autores, reflete a convivência diária com fenômenos climáticos extremos que têm alterado a vida das pessoas e os ecossistemas amazônicos.

Os resultados revelam que o aquecimento global já afeta a vida cotidiana: 83,4% dos entrevistados notaram aumento da conta de luz, 82,4% perceberam temperaturas mais altas e 75% apontaram piora na qualidade do ar. A ocorrência de desastres ambientais, como queimadas e secas prolongadas, foi mencionada por 74,4% dos respondentes, e 73% relataram alta nos preços dos alimentos.

“Enfrentar a crise climática na Amazônia é mais do que uma agenda ambiental — é uma agenda de saúde pública e de redução de desigualdades. Em um momento tão importante, com a chegada da COP30, esse módulo do Mais Dados Mais Saúde tem como intuito trazer dados inéditos, focados nas especificidades locais, para informar políticas públicas que protejam territórios e suas populações, sempre com um olhar para a redução das desigualdades”, afirma Thais Junqueira, superintendente da Umane.

Os efeitos são ainda mais severos entre comunidades tradicionais: 24,1% relataram piora na qualidade da água e 21,4% citaram problemas na produção de alimentos, proporções mais altas que as da população em geral. “Esses grupos estão mais vulneráveis porque vivem em áreas de risco climático e dependem diretamente dos recursos naturais para subsistência”, explica Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora-adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies.

O inquérito também registrou mudanças de comportamento e percepção. Metade dos entrevistados (53,3%) afirmou ter reduzido práticas que considera prejudiciais ao clima, e 38,4% disseram sentir culpa por desperdiçar energia. A separação de lixo é mais comum entre comunidades tradicionais (70,1%) do que entre os demais (59,2%). 

Para a Vital Strategies, os resultados reforçam que a crise climática é também uma questão de saúde pública. “Um terço dos moradores da Amazônia Legal já sofreu impactos diretos do clima, e a maioria depende exclusivamente do SUS. É urgente integrar políticas de saúde e clima para proteger os grupos mais vulnerabilizados”, conclui Pedro de Paula, diretor-executivo da organização no Brasil.


Fonte: Agência Bori

O longo braço do lobby da soja sufoca povos indígenas na Amazônia

Como os gigantes agrícolas do Brasil estão usando a política e os agrotóxicos para expulsar os povos indígenas de suas terras 

Com a construção do terminal de Santarém, em 1998, a empresa norte-americana Cargill lançou as bases para o cultivo industrial de soja no estado do Pará. Foto: Knut Henkel 

Por Knut Henkel, de Açaizal, para o “Neues Deutschland”

Josenildo dos Santos, de 39 anos, é professor da aldeia e, como cacique, uma espécie de chefe da aldeia, representa as cerca de 70 famílias indígenas Munduruku do Açaizal perante as autoridades, na justiça e junto a empresas agrícolas. Estas últimas cultivam soja e milho nas fazendas vizinhas, grandes propriedades rurais, alternando-as. No final do verão, o milho é a cultura dominante na aldeia. A soja tem um ciclo de crescimento de apenas quatro meses , o que complementa as espigas amarelas, que levam de sete a oito meses para serem colhidas.

Especialmente ao redor da cidade amazônica de Santarém , vastas terras agroindustriais se estendem por um planalto. O cultivo de soja começou lá em 1998 – e vem se expandindo continuamente desde então. Isso ocorre frequentemente em terras reivindicadas por comunidades indígenas como os Munduruku em Açaizal. “Os processos judiciais sobre os títulos de propriedade que reivindicamos para áreas onde nossa comunidade vive há cerca de 100 anos estão em andamento desde 2000”, diz dos Santos. “Grandes áreas foram destruídas e plantadas com soja desde então.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começa em 10 de novembro no Brasil – bem no coração de um país onde a floresta amazônica está desaparecendo a um ritmo alarmante. Nossa série mostra a rapidez com que o desmatamento está progredindo – e quais soluções existem para o desenvolvimento econômico sustentável.

O chefe da aldeia representa sua comunidade no longo processo – apoiado pela Igreja Católica. A igreja assessora não apenas o município de Açaizal, mas também pelo menos outras cinco aldeias da região. “Onde quer que os produtores de soja avancem pela Rodovia Transamazônica , as aldeias estão sob pressão e ameaçadas de deslocamento”, explica Gilson Fernando de Jesús Rego, engenheiro agrônomo da Pastoral Rural Católica, em uma noite em Santarém. A rodovia é o elo de transporte mais importante da região.

“Os produtores de soja são muito agressivos, limpando a terra, inventando fatos — eles cultivam soja e pulverizam pesticidas até 15 vezes nos quatro meses entre a semeadura e a colheita.” Rego fala com cautela. Ele se recusa a ser fotografado e só compartilhará um novo estudo sobre conflitos de terra quando for publicado. “O lobby da soja tem um braço longo”, diz ele, em tom de desculpa.

Cultivo de soja no campo de futebol

O início do cultivo de soja no estado do Pará foi a construção de um terminal de soja pela empresa americana Cargill no porto de Santarém. Isso criou a infraestrutura para a expansão massiva do cultivo da planta, cujos grãos também são usados ​​na Europa principalmente como ração animal – em detrimento da floresta tropical. Isso é evidente nos arredores da vila de Açaizal.

Há apenas dez anos, a aldeia, com suas aproximadamente 70 casas, era cercada por uma densa floresta tropical. Pequenos agricultores como Paulo Munduruku caçavam ali, coletando castanhas-do-pará, frutas e plantas medicinais. Mas essa era está chegando ao fim. Hoje, um produtor de soja mora com sua família na aldeia – e continua a se expandir. Há alguns meses, ele exigiu que a comunidade da aldeia desocupasse o campo de futebol. “Ele disse que queria plantar soja lá”, lembra Munduruku, de 62 anos. “Quando eu me opus, junto com um dos meus filhos, ele nos ameaçou. Quase se tornou violento.”

Paulo Munduruku mora em um terreno no centro da aldeia, onde se encontram diversas castanheiras e árvores frutíferas. Ele plantou uma horta para sustentar a si mesmo e à sua família, pelo menos parcialmente. Isso costumava ser muito mais fácil antes da chegada dos produtores de soja. “Hoje, estamos cercados por fazendas de soja que ocuparam terras para as quais solicitamos o título de propriedade.” O ex-cacique recebeu ameaças de morte de produtores de soja diversas vezes porque descreve a situação com clareza.

Burocracia como arma

Este é o caso de muitas comunidades na Amazônia brasileira. Elas frequentemente têm uma relação tensa com as autoridades, que exigem provas de que as famílias vivem na região há muito tempo, que administram o meio ambiente de forma sustentável e que, portanto, têm direito legítimo à terra. Tal burocracia é estranha a muitas comunidades. “Mas sem títulos de terra, é impossível defender a área que habitamos da invasão de sociedades agrárias ou mineradoras”, explica Munduruku, com um gesto de desdém e olhando para seu sucessor, Josenildo dos Santos.

Ambos estão desgastados pela interminável batalha judicial. E veem que os produtores de soja não precisam lidar com tais obstáculos. “Eles compram pastagens de fazendeiros ou pequenos agricultores, mas também deslocam comunidades como a nossa”, critica Santos. “Eles ocupam terras – sem a intervenção do Estado. Pelo contrário: eles até recebem empréstimos.” A razão para isso é óbvia: o lobby da soja tem boas conexões com instituições públicas, pode influenciar significativamente as decisões nos parlamentos regionais e também tem um forte lobby no parlamento nacional em Brasília. O agronegócio controla financeiramente a política brasileira, explica o cientista agrícola Rego.

Moratória suspensa

De fato, os produtores de soja estão continuamente ocupando novas terras. Por um tempo, a moratória da soja acordada em 2006 – destinada a impedir o cultivo de feijão em terras recém-desmatadas – desacelerou essa expansão. No entanto, o acordo foi recentemente suspenso, tornando a soja novamente um dos principais impulsionadores da destruição da Amazônia. As metas climáticas do Brasil são, portanto, prejudicadas, e a população local está sofrendo particularmente com os desertos agroindustriais de milho e soja.

A professora dos Santos está particularmente preocupada com a saúde dos moradores quando agrotóxicos são pulverizados nas imediações da escola. “Náuseas, vômitos e até erupções cutâneas são o resultado. Aqui na aldeia, a maioria está preocupada com os efeitos que os pesticidas podem ter sobre a nossa saúde.” Sabe-se que o glifosato, sob o nome comercial Roundup, é usado no cultivo de soja. Não se sabe se outros agrotóxicos são usados. Os produtores locais de soja permanecem em silêncio sobre o assunto.

No entanto, os industriais agrícolas podem ter desconfiado da presença de uma equipe de pesquisa viajando por Santarém, realizando entrevistas e exames médicos, muitas vezes perto de escolas. Eles visitaram especificamente vilarejos no chamado corredor da soja do estado do Pará, onde o cultivo aumentou significativamente nos últimos anos.

Evidência científica

“Queremos determinar se há alguma mudança na população local”, explica Annelyse Rosenthal Figuerredo, professora da Universidade de Santarém. “Observamos pequenas mudanças nos testes cognitivos e visuais em comparação com o grupo de controle de uma área sem exposição a pesticidas. Também há alterações nas contagens sanguíneas.”

Para Figuerredo, essas são indicações claras dos efeitos negativos do uso generalizado de agrotóxicos. Embora tal descoberta científica não deva surpreender, ela é importante — é a única maneira de as agências governamentais agirem. A comunidade da aldeia de Açaizal espera que o estudo ajude a impor distâncias maiores entre edifícios residenciais e tratores que pulverizam pesticidas no futuro. O estudo ainda não foi publicado. Não está claro se será publicado antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Belém , que começa em 10 de novembro.

“É claro que sabemos que o estudo causará comoção — e que o lobby da soja tentará desacreditar os resultados e a nós, pesquisadores”, diz Rosenthal Figuerredo. “Nós respeitamos isso. Mas já sabemos de várias escolas onde crianças com intoxicação por agrotóxicos tiveram que ser tratadas em postos de saúde.”

O professor e cacique Josenildo dos Santos também quer se basear justamente nesses casos. “Precisamos de argumentos fortes contra os grandes agricultores que colhem mais soja a cada ano”, afirma. Na safra atual, o total foi de 169 milhões de toneladas — mais de 16 milhões de toneladas a mais do que em 2024. Esse aumento anda de mãos dadas com a superexploração da floresta tropical.


Fonte: Neues Deutschland