Incêndios, secas e tempestades de vento tornam vegetação da Amazônia menos diversa, mostra estudo publicado na PNAS

Estudo liderado por brasileiros mostra substituição de espécies por generalistas, sem tendência de savanização; porém, áreas recuperadas são mais vulneráveis

Pesquisa foi realizada com base em 20 anos de monitoramento de campo (foto: Paulo Brando).

Por Luciana Constantino  para “Agência FAPESP” 

Mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de ventos, a vegetação de florestas degradadas na Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração, incluindo espécies arbóreas. A recuperação, no entanto, ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade e aumento de vulnerabilidade a novos distúrbios.

Pesquisa publicada na segunda-feira (20/04) na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas científicas mais citadas no mundo, mostra que há substituição de espécies vulneráveis por outras generalistas, mais resistentes. Indica, assim, segundo os autores, a formação de florestas homogêneas, mas não uma tendência à savanização, como parte da literatura científica vinha apontando. Esse processo reforça a resiliência do bioma.

Por outro lado, o estudo, realizado com base em 20 anos de monitoramento de campo e liderado por brasileiros, destaca que as áreas recuperadas são mais vulneráveis a eventos extremos cada vez mais frequentes no bioma e aos impactos do desmatamento e das mudanças climáticas. Além de intensificar secas e incêndios, o aquecimento global prejudica os serviços ecossistêmicos, como a regulação de água e a captura de carbono.


O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010) (foto: Paulo Brando)

De acordo com os pesquisadores, essa compreensão é fundamental para orientar a conservação florestal e as estratégias de mitigação, especialmente frente a eventos como o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial que provoca alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

“A principal mensagem do nosso estudo é que, mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. Elas são resilientes, mas, mesmo assim, é preciso preservar. No sítio experimental, temos o controle e o fogo não ocorre mais na área, o que não é possível fazer na Amazônia toda”, pondera à Agência FAPESP o biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo juntamente com o engenheiro florestal Paulo Brando.

O trabalho é resultado do pós-doutorado de Maracahipes no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp). Atualmente, ele é pesquisador na Yale School of the Environment (Estados Unidos) e também colaborador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O biológo e Brando têm apoio da FAPESP, respectivamente, por meio de Bolsa de Pós-Doutorado e Projeto Temático.

Acompanhamento

O grupo documentou a perturbação e a recuperação em uma floresta experimental em Mato Grosso, chamada Tanguro, localizada em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. Foram acompanhadas três parcelas de 50 hectares cada – uma de controle sem queima, outra queimada anualmente (entre 2004 e 2010) e a terceira com queimas trienais (2004, 2007 e 2010). Cada uma delas está próxima a áreas agrícolas, que eram utilizadas como pastagem com gramíneas exóticas.

“A escolha do lugar é chave, já que modelos climáticos consideram que a região de transição da Amazônia para o Cerrado será a primeira a sofrer mudanças com os impactos do aquecimento global. Essa pesquisa é inovadora porque integra múltiplos fatores estressantes, como fogo, vento forte e seca, e mostra que a floresta sofreu, se degradou e depois voltou. Mais empobrecida de espécies, porém ainda com características de floresta”, explica o ecólogo e professor do IB-Unicamp Rafael Silva Oliveira.


Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, as gramíneas reduziram drasticamente. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana (foto: Paulo Brando)

Também autor do artigo e então supervisor de Maracahipes no pós-doutorado, Oliveira complementa: “Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. Os modelos criados pelos climatólogos foram úteis para alertar sobre os riscos à Amazônia, mas simplificaram os ecossistemas tropicais, reduzindo-os à floresta ou à savana. Isso ajudou a fortalecer a ideia de um ‘ponto de não retorno’, ainda pouco sustentada por dados de campo. Na prática, a Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades. Ao incorporar esse olhar biológico, mostramos uma Amazônia menos previsível e mais resiliente em algumas regiões do que os modelos sugerem”.

Oliveira também teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Passo a passo

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a recuperação da estrutura e do funcionamento da floresta foi rápida em seu interior, com diversidade de espécies relativamente estável.

Já nas áreas de borda o processo foi mais lento, com riqueza de espécies caindo de 20% a 46%, entre 2004 e 2024. O efeito de borda é uma alteração ecológica que ocorre nas margens de áreas desmatadas, onde a floresta passa a ter contato direto com ambientes abertos, como pastagens, estradas ou lavouras, alterando o clima e a biodiversidade.

Apesar da recuperação de alguns serviços ecossistêmicos, como fluxos de carbono e de água, com o crescimento de vegetação após os incêndios a composição de espécies mudou. Passou a ter mais generalistas, com características de tolerância à seca, mas que estão operando em limiares perigosos. A composição original de espécies não retornou mesmo após 14 anos, principalmente das consideradas especialistas de floresta.

As gramíneas foram fator-chave para promover fogos de alta intensidade e impediram a regeneração de árvores, tendo inicialmente se expandido ao longo das bordas. Foram observadas espécies ligadas a áreas de pastagens, como Aristida longifolia e Imperata sp, de origem africana. Após incêndios de alta severidade, gramíneas invasoras, especialmente Andropogon gayanus, entraram nas bordas, atingindo o pico em 2012.

Com o passar do tempo e aumento da cobertura arbórea (fechamento do dossel), especialmente a partir de 2016, elas foram reduzidas drasticamente, ficando apenas manchas de gramíneas tolerantes à sombra. Para os pesquisadores, isso sugere que os danos causados à floresta não a transformaram em uma paisagem definitiva do tipo savana.

“Olhando para a parte biológica, quando analisamos a composição de espécies de gramíneas na floresta que passou por distúrbios, vemos que são espécies utilizadas em pastagem, como braquiária e andropogon. Se o aumento fosse de espécies nativas, poderíamos dizer que o componente graminoso seria um fator importante na recuperação de florestas degradadas. Além disso, não há chegada de espécies lenhosas de savana. Nosso sítio experimental está a cinco quilômetros de áreas de savana do Cerrado, podendo ter fonte de propagação, e mesmo assim não registramos essa savanização”, complementa Maracahipes, que fez análise da composição das espécies ao longo dos anos no local.

A pesquisa mostrou ainda que a vulnerabilidade da floresta ao fogo aumenta por causa da casca fina das árvores; enquanto a baixa densidade da madeira prejudica mais em tempestades de vento. Nas secas severas algumas espécies operam próximo ao potencial de perda da condutividade hidráulica.

Um ponto que se mostrou importante na regeneração florestal foi a presença de fauna local, sendo mamíferos (como antas e macacos) e aves agentes-chave para promover o reaparecimento de árvores consideradas “especialistas de florestas”, ou seja, com alta densidade de madeira e de vida longa.

Cenário

Mesmo com uma queda significativa do desmatamento na Amazônia principalmente nos últimos dois anos, o bioma vem sofrendo com degradações constantes. O fogo tem sido o principal fator. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal afetou uma área de 1.324 quilômetros quadrados (km²), com uma redução de 35% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a janeiro de 2025). Já a degradação florestal atingiu uma área de 2.923 km² no período.

Nos primeiros três meses de 2026, foi registrado o segundo menor nível para o primeiro trimestre do ano – 399,59 km², o que representa queda de cerca de 7% em relação a 2025. Os dados são do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de alerta de desmatamento em tempo real.

Para este ano, outra preocupação é com a possibilidade de um “super El Niño” a partir do segundo semestre até 2027. Novas projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo apontam para a possibilidade de um fenômeno com potencial para ser o mais intenso em 140 anos. Em 2024, a seca que afetou a Amazônia foi provocada pelo El Niño e seus efeitos vêm sendo estudados até hoje.

“Apesar da resiliência da floresta, a preservação ainda é o caminho que precisamos buscar”, conclui Maracahipes.

O artigo Forest recovery pathways after fire, drought and windstorms in southeast Amazonia pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2532833123.


Fonte: Agência Fapesp

Amazônia no centro do mundo, à margem das telas: por uma cota amazônica no audiovisual brasileiro

Por Ismael Machado* 

Se há um consenso contemporâneo no debate público nacional e internacional, ele atende pelo nome de Amazônia. A floresta (ou o imaginário que se tem dela) ocupa o centro das discussões sobre emergência climática, soberania territorial, transição energética e futuro civilizatório. Chefes de Estado, organismos multilaterais, universidades e corporações globais convergem seus discursos para esse território que representa quase 60% do Brasil e abriga a maior floresta tropical do planeta. No entanto, quando deslocamos o olhar da geopolítica para a cultura e, mais especificamente, para o audiovisual, a centralidade desaparece. A Amazônia, que é centro no discurso global, continua periferia na produção de imagens sobre si mesma.

Esse descompasso revela algo estrutural, onde o Brasil debate a Amazônia, mas raramente a Amazônia debate o Brasil em igualdade de condições. O cinema, a televisão e, mais recentemente, as plataformas de streaming tornaram-se arenas privilegiadas de disputa simbólica. Nelas, constroem-se imaginários, consolidam-se estereótipos e projetam-se visões de mundo. É algo para além do entretenimento. Trata-se de poder narrativo. De capital simbólico e circulação de riquezas.

Historicamente, o setor audiovisual brasileiro concentrou-se no eixo Rio–São Paulo. Desde a consolidação da indústria cinematográfica nacional no século XX até a estruturação contemporânea dos mecanismos de fomento, a maior parte dos recursos, das produtoras estruturadas, das distribuidoras e das redes de exibição permaneceu nesses dois estados, com algumas exceções dignas de nota. Mesmo após a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2001, e do fortalecimento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), relatórios públicos ao longo da década de 2010 reiteraram a concentração majoritária dos investimentos em produções sediadas no Sudeste, frequentemente ultrapassando dois terços do volume total aplicado em longas-metragens.

A Região Norte, por sua vez, permaneceu durante anos com participação residual. Antes da implementação de mecanismos de indução regional, sua presença no volume total de investimentos era frequentemente inferior a 5%. A desproporção é evidente: um território que ocupa mais da metade do mapa brasileiro não ocupava sequer fração equivalente no mapa simbólico das telas.

Essa assimetria não é meramente econômica; é discursiva. Ao longo das últimas décadas, a Amazônia foi reiteradamente representada como exotismo, como estratégia ambiental, como fronteira violenta ou como santuário intocado. Raramente como território urbano complexo, produtor de ciência, arte, tecnologia e pensamento político próprio. Quando a imagem é majoritariamente produzida de fora, consolida-se uma forma de colonialismo interno, onde o centro interpreta e a periferia é interpretada.

A política de descentralização implementada nos anos 2000, sobretudo durante as gestões de Gilberto Gil no Ministério da Cultura e de Manoel Rangel na Ancine (parece que este, sócio de uma grande produtora do eixo Rio-SP, esqueceu o que ele próprio defendeu com sucesso), introduziu mecanismos de regionalização nos editais do FSA. Em diversos programas, aproximadamente 30% dos recursos eram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste conjuntamente. Essa inflexão produziu efeitos concretos: surgiram produtoras estruturadas no Pará, Amazonas, Amapá, Rondônia e Acre; festivais se consolidaram; profissionais foram formados; longas-metragens deixaram de parecer um horizonte inalcançável.

Mas a política tinha limites. Ao agrupar Norte, Nordeste e Centro-Oeste em uma mesma cota, mantinha-se uma disputa interna desigual. O Nordeste, com maior densidade populacional e cadeia produtiva mais amadurecida, naturalmente absorvia e continua a absorver, parcela significativa desses recursos. É de lá (principalmente Pernambuco e Bahia) que muitas produções mostraram a força criativa para além do chamado eixo. Mas é fato que nesse contexto, a Região Norte continuava competindo dentro da própria política compensatória. Houve avanço, mas não equidade.

A reação do eixo dominante não tardou. A descentralização significava dividir orçamento, prestígio e poder. Circularam críticas sobre suposta “fragilidade técnica” de produtoras amazônicas e questionamentos sobre sua capacidade de gerir grandes orçamentos — argumentos que ecoam antigas justificativas utilizadas historicamente para concentrar terra, renda e infraestrutura nas regiões centrais do país. Uma das associações criadas para defender pequenas produtoras praticamente passou a sofrer censura por parte de um grupo autodenominado ‘eixinho’, que impede a discussão sobre cotas regionais em assembleias e grupos de zap. É assim que a banda toca.

O agravante geral é que, em alguns casos, grandes produtoras passaram a abrir (ou pelo menos tentar) CNPJs em estados do Norte ou a firmar parcerias formais com empresas locais apenas para acessar cotas regionais, prática que revela a permanência de uma lógica extrativista também no campo simbólico.

Ainda assim, os resultados demonstraram que a descentralização não significou perda para o setor como um todo. Ao contrário, o audiovisual brasileiro experimentou crescimento, geração de emprego e ampliação de diversidade estética durante o período em que a política regionalizada esteve mais estruturada. O problema, portanto, nunca foi eficiência econômica; foi redistribuição de poder.

Nos últimos anos, alguns sinais concretos indicam que o audiovisual brasileiro começa, ainda que timidamente, a olhar para a Amazônia não apenas como cenário exótico, mas como território de produção. Há centenas de projetos em execução ou em fase de contratação com recursos públicos por meio da ANCINE e do Fundo Setorial do Audiovisual, o que demonstra a potencialidade de uma política de fomento estruturada no país. Dentro desse movimento mais amplo, a região Norte passou a receber investimentos específicos, inclusive via arranjos regionais coordenados pelo Ministério da Cultura (que retorna neste ano de 2026), além de aportes extraordinários como os da Lei Paulo Gustavo e a consolidação anual da Lei Aldir Blanc.

É um avanço inegável. Durante décadas, a Amazônia foi objeto de narrativas produzidas majoritariamente fora dela. O fato de haver hoje dezenas de obras financiadas por editais públicos com produção local, entre curtas, documentários, séries e longas, já altera esse quadro. Mais recursos têm chegado aos estados da Amazônia Legal, fortalecendo produtoras independentes, coletivos audiovisuais e novos realizadores.

O impacto econômico dessa movimentação também é promissor. Em âmbito nacional, o audiovisual movimenta bilhões de reais e sustenta centenas de milhares de empregos diretos e indiretos. Trata-se de uma cadeia produtiva extensa: roteiristas, técnicos de som e imagem, diretores, montadores, figurinistas, profissionais de transporte, hospedagem, alimentação, tecnologia e comunicação. Cada obra financiada ativa uma pequena economia ao seu redor. Em contextos amazônicos marcados por forte dependência da mineração, do agronegócio ou do funcionalismo público, o audiovisual pode representar uma alternativa estratégica de diversificação econômica.

E, no entanto, é justamente aqui que emerge a dimensão crítica dessa positividade.

Se já existem investimentos, eles ainda são desproporcionais diante da centralidade geopolítica, ambiental e simbólica que a Amazônia ocupa no Brasil e no mundo. Se o bioma é apresentado como eixo das discussões sobre clima, biodiversidade e futuro civilizatório, por que a produção de imagens e narrativas a partir de dentro ainda é relativamente pequena quando comparada ao eixo Rio–São Paulo? Se milhares de projetos são financiados nacionalmente, quantos têm origem efetiva na região amazônica? Quantos são dirigidos por realizadores amazônidas? Quantos constroem cadeias permanentes de trabalho e não apenas produções pontuais?

Os recursos que chegam são importantes, mas poderiam ser estruturantes. Poderiam consolidar polos técnicos permanentes em Belém, Manaus, Santarém, Porto Velho, Rio Branco etc. Poderiam fomentar escolas de formação audiovisual articuladas com universidades e institutos federais. Poderiam estimular redes de exibição regionais, fortalecendo circuitos próprios e ampliando a circulação das obras.

A positividade existe, pois há mais editais, mais obras, mais discussão sobre descentralização. Mas a escala ainda não corresponde ao tamanho do desafio histórico. A Amazônia não pode ser apenas tema recorrente de financiamento; precisa ser centro de decisão sobre o próprio financiamento. Não basta aparecer nas telas, é preciso controlar câmeras, roteiros, orçamentos e estratégias de distribuição. Controlar histórias. Se a energia promovida por hidrelétricas polêmicas abastece mais os de fora que os daqui, se uma das maiores mineradoras do mundo, tudo ganha e pouco deixa, se o latifúndio é exercido por maioria de pessoas do sul maravilha, porque então não temos uma compensação maior?

O potencial de geração de emprego e renda é real. O crescimento da cadeia produtiva audiovisual pode significar trabalho qualificado, retenção de talentos locais, economia criativa articulada com turismo cultural e memória social. Porém, para que isso se torne política de desenvolvimento e não apenas política cultural pontual é necessário ampliar volume, continuidade e autonomia regional. É nesse contexto que a defesa de uma cota amazônica específica se impõe como necessidade estrutural. Não se trata de privilégio regional, mas de mecanismo federativo de correção histórica. A Amazônia possui singularidade territorial, ambiental e geopolítica que justifica tratamento próprio nas políticas culturais. Sua sub-representação acumulada ao longo de décadas exige instrumentos mais precisos do que cotas genéricas compartilhadas com outras regiões. Além disso, a fragilidade estrutural da cadeia produtiva local, resultado direto da ausência prolongada de investimentos, não pode ser usada como argumento para perpetuar a exclusão.

Se a Amazônia é hoje epicentro do debate climático global e é um dos alvos preferenciais do atual ocupante da Casa Branca, ela precisa ser também centro de produção narrativa. A soberania ambiental está intrinsecamente ligada à soberania cultural. Não basta proteger a floresta; é necessário proteger o direito de narrá-la. Em um mundo mediado por imagens, quem controla a representação controla parte significativa da percepção pública e, consequentemente, das decisões políticas.

Uma cota amazônica no audiovisual brasileiro significaria mais do que financiamento. Significaria fortalecer instâncias decisórias com presença efetiva de profissionais da região, criar editais exclusivos para a Amazônia Legal, garantir distribuição nacional das obras produzidas e consolidar políticas de formação técnica contínua. Em outras palavras, reconhecer que diversidade territorial não é obstáculo, mas condição de uma democracia cultural plena.

O Brasil que reivindica protagonismo ambiental não pode continuar sendo figurante quando se trata de suas próprias imagens amazônicas. Se a floresta é central para o futuro do planeta, as vozes que nela habitam precisam ser centrais para o imaginário nacional. Permanecer como cenário exótico ou problema a ser resolvido é perpetuar a lógica colonial que marcou nossa história.

Em outras palavras, há razões sim para reconhecer avanços. Mas, diante da dimensão amazônica, o que foi feito até agora parece mais um começo do que um horizonte. E talvez o verdadeiro debate não seja apenas quantas obras já foram financiadas, mas quantas ainda poderiam existir se a Amazônia deixasse de ser periferia decisória e se tornasse protagonista estrutural do (mas não só) audiovisual brasileiro.

A Amazônia já é centro no mapa geopolítico. Está na hora de ser centro também nas telas. Porque não há democracia audiovisual possível enquanto metade geográfico do país continuar assistindo à própria história contada apenas e tão somente por outros.

Ismael Machado é jornalista

A pavimentação da BR-319 trará aumento de riscos de biossegurança, aponta artigo publicado pela Science

Uma equipe de pesquisa coleta amostras em campo para monitoramento epidemiológico em áreas da Amazônia central.
FOTO: Ferrante et. al.
Lucas Ferrante e outros para “Science”
O desmatamento das florestas amazônicas representa riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global ( 1 ). O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro ( 2 ) — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia ( 3 ). Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 ( 3 ), que liga Porto Velho a Manus, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio ( 4 ) em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura ( 5 ). Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas ( 6 )
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes ( 6 ). A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança ( 1 , 6 ).
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis ​​( 1 ). A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais ( 7 ). Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente ( 1 , 6 ). Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil ( 8 ), com circulação confirmada na América Central e na Europa ( 9 , 10 ). Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública ( 6 ).
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil ( 6 ), onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos ( 6 ). Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução ( 11 ), esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais.

Fonte: Science

Reportagem revela como rede complexa de ONGs, corporações, bancos de desenvolvimento e capital filantrópico está remodelando a “bioeconomia” da Amazônia

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva faz um joinha após receber um tradicional cocar indígena do Cacique Raoni Metuktire, chefe do povo Kayapo, durante uma cerimônia em Brasília, Brasil, em abril de 2023. (Foto AP/Eraldo Peres/Alamy).

Por Monica Piccinini para “YourVoiz” 

Uma rede complexa de ONGs, corporações, bancos de desenvolvimento e capital filantrópico está remodelando a “bioeconomia” da Amazônia. Mas, à medida que o dinheiro entra na região, novas questões surgem sobre poder, influência e quem realmente determina o futuro da floresta tropical.

Nos últimos vinte anos, a linguagem usada para descrever a floresta amazônica foi gradualmente mudando. Antes visto principalmente como um ecossistema vulnerável que precisa de proteção contra o desmatamento e exploração, agora é cada vez mais descrito em termos econômicos como um sistema de valor mensurável e importância crescente nas discussões financeiras e políticas.

Grandes instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o World Resources Institute (WRI) e fundos climáticos globais têm sido centrais na promoção dessa ideia, desenvolvendo estruturas que conectam a conservação a abordagens baseadas no mercado.

Alguns dos doadores do WRI incluem Cargill, Bezos Earth Fund, Bill and Melinda Gates Foundation, CLUA, Google, Good Energies Foundation, Ford Foundation, Gordon and Betty Moore Foundation, Meta, Rockefeller Philanthropy Advisors, Skoll Foundation, Oak Foundation, Banco Mundial, Departamento de Estado dos EUA, Walmart e muitos outros.

À primeira vista, o conceito é simples e atraente: uma floresta viva pode valer mais do que uma desmatada, se seu valor ecológico for devidamente reconhecido e valorizado.

Mas essa mudança traz consequências. Quando uma floresta se torna um sistema econômico, ela não é mais guiada pela proteção ambiental ou por prioridades sociais. Em vez disso, ela passa a ser moldada por expectativas financeiras, métricas, metas de desempenho e a necessidade de gerar retornos.

Nesse contexto, a conservação não é mais apenas sobre proteção. Ela passa a se vincular a ideias de eficiência, produtividade e escala.

A Amazônia, em outras palavras, não está apenas sendo preservada, está sendo reorganizada.

A arquitetura oculta

Grande parte dessa transformação acontece fora de vista. Muito antes de os projetos alcançarem territórios ou comunidades específicas, suas bases são lançadas em outros lugares, por meio de planejamento financeiro, parcerias institucionais e estratégias de investimento.

O que está surgindo não é apenas financiamento para conservação, mas um sistema projetado para tornar a natureza investidora.

Esse sistema depende de parcerias entre instituições públicas, bancos de desenvolvimento e investidores privados. Juntos, eles estão construindo estruturas financeiras que transformam a conservação em algo que pode ser financiado em larga escala.

Organizações como a Corporação Financeira Internacional, IFC (membro do Grupo Banco Mundial), o banco brasileiro de desenvolvimento, BNDES, e o banco estatal alemão de desenvolvimento, KfW, são centrais para a construção desses frameworks, estruturando instrumentos que permitem que capital se mova para regiões historicamente consideradas muito arriscadas para investimento.

Mas o financiamento não vem sem condições. Os projetos devem ser mensuráveis, escaláveis e alinhados às expectativas dos investidores.

Isso cria um efeito sutil de filtragem. Iniciativas enraizadas em tradições locais e formas não comerciais de gestão da terra não são explicitamente excluídas, mas muitas vezes têm dificuldade em se encaixar nesses quadros e, por isso, muitas vezes permanecem à margem.

Finanças mistas: o motor da bioeconomia

No cerne desse sistema está a “finança mista”, um modelo que combina dinheiro público, financiamento filantrópico e investimento privado para reduzir riscos e atrair capital em grande escala.

BID, o IFC e fundos como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) são fundamentais no desenho desses mecanismos, muitas vezes trabalhando em coordenação com atores nacionais como o BNDES. A intenção é mobilizar grandes volumes de capital para conservação, tornando projetos financeiramente viáveis para investidores privados.

Na prática, esse modelo redistribui o risco financeiro de forma altamente estruturada. Instituições públicas e atores filantrópicos, como a Fundação Gordon e Betty Moore e alianças como a Climate and Land Use Alliance, normalmente absorvem prejuízos iniciais ou oferecem garantias, permitindo que investidores privados participem com retornos mais previsíveis.

O mecanismo é eficaz em certo sentido: ele traz níveis de financiamento que a conservação historicamente teve dificuldades em alcançar.

Mas isso também levanta uma questão mais profunda: se o risco é compartilhado, quem se beneficia das recompensas?

A influência do financiamento misto vai além do financiamento, ela molda como os projetos se apresentam. Como os investidores exigem previsibilidade, as iniciativas geralmente são projetadas em torno de resultados mensuráveis, como créditos de carbono, commodities certificadas e receitas ligadas à biodiversidade.

Isso pode impulsionar a inovação, mas também pode limitar o que é possível. Projetos focados em saúde ecológica de longo prazo, continuidade cultural ou formas não comerciais de gestão podem ter dificuldade para atrair apoio.

Com o tempo, isso tem um efeito cumulativo. O sistema não financia apenas a bioeconomia, ele a define. Ela determina o que é visível, o que cresce e o que fica para trás.

O risco também assume novas formas. Ele aparece quando narrativas sobre sustentabilidade avançam mais rápido que a realidade no terreno, ou quando pequenos sucessos são amplificados apesar das pressões ambientais contínuas.

Preocupações com greenwashing nem sempre vêm de alegações totalmente falsas. Frequentemente, elas emergem da própria estrutura, de um sistema onde retornos financeiros e reputação estão intimamente ligados.

Nesse processo, a Amazônia não está apenas sendo protegida, mas também atraída para sistemas financeiros que remodelam como a natureza é valorizada e como o sucesso é medido.

Intermediários

No Brasil, certas organizações atuam como intermediárias-chave, como o Fundo Brasileiro de Biodiversidade (FUNBIO), que está no centro desses fluxos financeiros.

Ativa desde 1996, a FUNBIO foi criada com o apoio do GEF e parceiros multilaterais. Opera como um centro financeiro, arrecadando fundos de governos, corporações e instituições filantrópicas, e redistribuindo-os para projetos por toda a Amazônia e Brasil.

Lista de doadores e parceiros do FUNBIO. Fonte: FUNBIO

Esse papel confere a essas instituições influência significativa. Eles não financiam apenas iniciativas, ajudam a determinar quais são bem-sucedidos, quais modelos são expandidos e quais abordagens são priorizadas.

Embora essa concentração possa melhorar a eficiência, ela também concentra o poder de tomada de decisão dentro de uma rede relativamente pequena.

Um exemplo claro é o Projeto de Carbono da Floresta de Suruí, lançado em 2009 e gerenciado em parte pela FUNBIO em parceria com o povo indígena Paiter-Suruí. O projeto foi amplamente visto como um esforço pioneiro para conectar a conservação aos mercados de carbono, mas também revelou algumas das tensões por trás desses modelos.

Com o tempo, alguns líderes comunitários disseram que os pagamentos de créditos de carbono demoraram a chegar e que as decisões-chave estavam sendo tomadas por um pequeno grupo, e não pela comunidade em geral. Ao mesmo tempo, a extração e o desmatamento ilegal continuaram no território, enfraquecendo o impacto do projeto. Para alguns, isso levantou questões difíceis sobre quem realmente se beneficia dessas iniciativas e se o sistema é tão transparente ou justo quanto parece.

As divulgações financeiras ilustram a amplitude dessa rede. Programas ligados ao FUNBIO envolveram financiamento e parcerias com entidades como BNDES, KfW, IDB, Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, Good Energies Foundation, CLUA, Bezos Earth, Petrobras, Eneva, ExxonMobil, Chevron, Vale, Anglo American, Natura, JBS, Heineken e outras, abrangendo domínios público, privado e filantrópico.

Na prática, um único projeto de conservação pode envolver financiamento de bancos de desenvolvimento, setores de petróleo, mineração e agronegócio, doadores filantrópicos e ONGs ambientais, tudo ao mesmo tempo. Essas parcerias em camadas podem mobilizar grandes quantias de dinheiro, mas também criam teias complexas de dependência.

Lista de fontes de financiamento do FUNBIO para 2024.

Filantropia

Fundações filantrópicas tornaram-se indispensáveis para esse sistema, muitas vezes intervindo onde outros não querem ou não podem.

Organizações como a Fundação Gordon e Betty Moore, a Fundação Good Energies (Porticus) e a Aliança para o Clima e Uso do Solo (CLUA) fornecem financiamento em estágio inicial que permite que projetos se desenvolvam e se tornem atraentes para grandes investidores. Sem esse apoio inicial, muitas iniciativas não seriam implementadas.

Pegue o programa ARPA como exemplo. Criada em 2002 e gerenciada pelo FUNBIO, essa aliança tem trabalhado para conservar e gerenciar de forma sustentável 60 milhões de hectares de terra, uma área aproximadamente o dobro do tamanho da Alemanha. Seu financiamento vem de uma mistura de grandes players, incluindo a Fundação Gordon e Betty Moore, WWF, o governo alemão (por meio da KfW), GEF, Anglo American, Amazon Fund, IDB, Banco Mundial, Margaret A. Cargill e BNDES. O próprio projeto é gerenciado e entregue pela FUNBIO.

Parceiros da ARPA. Fonte: FUNBIO

Somente em 2024, a Fundação Gordon e Betty Moore injetou mais de 24 milhões de dólares em projetos no Brasil, principalmente na região amazônica.

Mas a filantropia não é neutra. Ao escolher quais iniciativas financiar, essas organizações influenciam a direção da própria bioeconomia.

Projetos que prometem escalar e se alinhar com abordagens orientadas pelo mercado têm mais chances de receber apoio. Enquanto isso, alternativas, especialmente aquelas focadas em direitos fundiários ou soluções não comerciais, podem ter dificuldades para competir.

O Fundo de Desenvolvimento Econômico Soros, apoiado pela rede Open Society de George Soros , identificou o Brasil como um destino-chave para investimento de impacto, especialmente em áreas como agricultura regenerativa, bioinsumos e soluções baseadas na natureza. Sua abordagem enfatiza a escalabilidade de modelos comercialmente viáveis que vinculam a preservação ambiental aos retornos financeiros, reforçando a tendência mais ampla de alinhar a conservação com estruturas orientadas pelo mercado.

Isso levanta uma questão importante: quem está realmente moldando o futuro da Amazônia? Comunidades locais, governos nacionais ou redes globais de financiadores?

Participação corporativa

As corporações agora estão profundamente envolvidas na bioeconomia.

Empresas dos setores de petróleo, mineração e agronegócio contribuem para fundos ambientais e participam de iniciativas de conservação, muitas vezes como parte de estratégias mais amplas de sustentabilidade.

Esses esforços podem apoiar a restauração e o desenvolvimento local. Ao mesmo tempo, eles operam dentro de uma economia reputacional, onde o engajamento ambiental visível pode melhorar a imagem pública e a confiança dos investidores.

Isso cria uma tensão clara. As mesmas indústrias historicamente ligadas a danos ambientais agora estão ajudando a financiar seu reparo.

Comercialização

A expansão dos negócios baseados na biodiversidade oferece uma das ilustrações mais claras de como a bioeconomia funciona na prática.

Corporações como a empresa brasileira de cosméticos Natura estão construindo mercados globais em torno de produtos derivados da floresta, muitas vezes em parceria com comunidades locais.

O envolvimento da Natura em iniciativas como o programa Amazônia Viva, desenvolvido em conjunto com o IFC o FUNBIO, ilustra como cadeias de suprimentos comerciais podem ser integradas ao financiamento da conservação.

Em um nível, o modelo da Natura demonstra que economias baseadas em florestas podem gerar renda sem desmatamento. Em outra, revela as complexidades de escalar tais sistemas.

À medida que a demanda aumenta, as cadeias de suprimentos precisam se expandir e padronizar. Isso pode pressionar as práticas locais, remodelando-as para atender às expectativas do mercado global.

O equilíbrio entre oportunidade e restrição é frequentemente frágil.

Narrativas sustentáveis sobre carne bovina

A participação dos grandes produtores de carne adiciona outra camada de complexidade.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, por meio do JBS Fund for The Amazon, destaca outra dimensão da bioeconomia: a participação de setores historicamente ligados ao desmatamento, degradação ambiental e violações de direitos humanos. O fundo apoia projetos de conservação e desenvolvimento sustentável, posicionando a empresa como parte da solução de desafios ambientais.

No entanto, um corpo substancial de reportagens investigativas e análises fiscales levantou preocupações contínuas sobre a transparência das cadeias de suprimentos e o impacto ambiental da JBS.

Isso destaca uma contradição mais ampla: as empresas podem apoiar iniciativas de sustentabilidade enquanto continuam práticas que contribuem para danos sociais e ambientais.

Capital de mineração

Um padrão semelhante pode ser observado no setor de mineração, especialmente no caso da gigante mineradora brasileira Vale. A empresa investiu em programas de biodiversidade, projetos de restauração e parcerias de bioeconomia, posicionando-se dentro da linguagem da responsabilidade ambiental.

Mas o histórico ambiental de Vale inclui um dos desastres industriais mais devastadores da história do Brasil. O desastre da barragem das Marianas em 2015, operado por uma joint venture entre Vale e BHP, liberou milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos, causando destruição generalizada e desencadeando reivindicações legais de centenas de milhares de pessoas afetadas.

Nesse contexto, o envolvimento de Vale em iniciativas ambientais e bioeconômicas ganha ainda mais importância. Por meio de entidades como a Fundo Vale, a empresa cofinancia projetos de conservação e desenvolvimento ao lado de instituições públicas e ONGs, integrando-se a estruturas de sustentabilidade que enfatizam a restauração e a resiliência.

Essas iniciativas são frequentemente apresentadas como parte de uma transição para práticas mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, eles convivem com atividades de extração em andamento que têm impacto social e ambiental significativo.

Isso reflete uma tendência mais ampla: iniciativas de sustentabilidade frequentemente acompanham, em vez de substituir, indústrias extrativas.

Web institucional e aceleradores

Organizações como WWF, IDESAM, Conexsus Sitawi ocupam uma posição fundamental conectando finanças e implementação no terreno.

Lista de doadores. Dados das demonstrações financeiras da Conexsus para 2024.

Contratos de investimento para aceleração de negócios. Dados das demonstrações financeiras de 2024 do IDESAM.

Apoiadores do projeto Sitawi. Dados das demonstrações financeiras de 2024 da Sitawi.

Eles projetam projetos, gerenciam o financiamento e trabalham diretamente com as comunidades. Isso lhes confere um papel importante de transição, mas também os coloca em uma posição delicada.

Muitos dependem do financiamento dos mesmos atores que devem responsabilizar.

Novas plataformas como a Amaz e redes ligadas ao Instituto Arapyaú visam expandir negócios baseados na Amazon, conectando-os a investidores, mentores e mercados. Esses aceleradores são frequentemente apresentados como veículos de empoderamento, permitindo que empreendedores locais acessem oportunidades antes inalcançáveis.

Essas iniciativas podem ampliar oportunidades, mas também atraem empresas locais para sistemas globais, onde o sucesso é definido pelo crescimento e retorno financeiro. A participação vem cada vez mais acompanhada de condições.

O Fundo Amazonas

Fundo Amazonas representa um dos maiores recursos internacionais de financiamento para a conservação florestal.

Gerenciada pelo BNDES, recebeu bilhões em contribuições, principalmente do governo norueguês. A gigante estatal de energia do Brasil, Petrobras, também é doadora. A estrutura do fundo canaliza o financiamento climático internacional em programas nacionais, muitas vezes atuando por meio de intermediários como o FUNBIO.

Esse sistema multilayer permite investimentos significativos, mas também introduz camadas de complexidade. A tomada de decisão é compartilhada entre múltiplos atores, tornando a responsabilidade mais difícil de rastrear.

É importante notar que Aloisio Mercadante atua como presidente tanto do Amazon Fund quanto do BNDES.

Quem se beneficia?

No centro da bioeconomia estão os povos indígenas e as comunidades locais.

Seu conhecimento, práticas e relação de longa data com a terra ajudam a moldar muitos projetos que agora atraem atenção global e investimentos. Mas a parcela de benefícios financeiros que chegam a eles frequentemente permanece limitada. Em muitos casos, a responsabilidade de entregar resultados recai principalmente sobre eles, sem uma participação equivalente nas recompensas.

Esse desequilíbrio está no centro do debate sobre a bioeconomia. A bioeconomia está redistribuindo valor ou reforçando desigualdades existentes?

Não existe uma única resposta. Os resultados variam de um projeto para outro, moldados pelas condições locais e pela forma como cada iniciativa é projetada. Mas a própria questão permanece inevitável e cada vez mais urgente.

A bioeconomia amazônica não é uma solução simples. É um sistema complexo e em evolução, moldado por objetivos ambientais, interesses financeiros, prioridades políticas e realidades sociais.

Oferece a possibilidade de direcionar investimentos para a conservação e criar novas vias econômicas que mantenham a floresta de pé.

Mas também corre o risco de enraizar a natureza ainda mais profundamente em sistemas financeiros que há muito tempo são impulsionados pela extração.

A tensão permanece sem solução.

A questão definidora permanece: a bioeconomia, em última instância, servirá à floresta e às pessoas que dela dependem, ou aos sistemas que a financiam?


Fonte: YourVoiz

Belo Monte e o que vi, o que ficou, o que ainda ameaça correr

Imagens de algumas reportagens que fiz sobre Altamira e Belo Monte

Por Ismael Machado* 

Ando revendo, até por conta desse novo espaço criado, algumas das histórias que relatei nesses 35 anos de trajetória profissional. Algumas coisas testemunhadas nessa Amazônia repleta de complexidades. Belo Monte, por exemplo. Durante cerca de seis anos, entre idas e vindas à região do Rio Xingu, por volta de 2008 a 2013, acompanhei, como repórter, a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Não foi uma cobertura contínua, mas uma sequência de retornos — e isso fez diferença. Porque, a cada viagem feita, o que antes era anúncio de desmazelos começava a ganhar forma concreta e o que era dúvida passava a ter consequência direta entre a população local.

O que mais ficou dessas viagens não foram os números do empreendimento, sempre grandiloquentes, mas as vozes de quem seria diretamente afetado por essa obra sonhada desde o regime militar e levada a cabo definitivamente na gestão federal do PT.

Rememoro essas vozes pouco ouvidas. Celso Albertino da Silva, morador de um travessão da Transamazônica, dizia que não se prende um rio como se prende um boi. Não havia ironia na frase. Era uma leitura direta de quem conhecia o comportamento da água. Ele explicava que, ao desviar o curso, o rio encontraria outro caminho. O lugar onde vivia, segundo o projeto, se transformaria numa espécie de cuia — as partes altas permanecendo, o resto submerso.

Em Paratizão, Émerson Nascimento Pessoa não falava de engenharia nem de impacto ambiental. Falava de permanência. “Não tenho vontade de sair daqui.” Tinha três filhos pequenos e uma casa à beira do rio. Ao lado, Silmara Mendes Costa, a Caçulinha, dizia o que talvez fosse mais preciso: sair dali seria uma tristeza. Não havia cálculo nisso.

Os pais de Émerson já tinham ido embora. Deslocados não para outro projeto de vida, mas para não assistir ao que consideravam inevitável. “Saíram antes pra não ver isso aqui perdido”, constatava Émerson. Em vários pontos do Xingu, a decisão de sair antecipadamente aparecia como forma de evitar o testemunho da própria perda.

Mais acima, em Arroz Cru, Francélia Nogueira da Costa insistia numa pergunta que se repetia em diferentes comunidades: o que significava, de fato, a tal “indenização”? Falava-se em assegurar isso às famílias, mas sem clareza sobre como se traduziria na vida concreta de quem sempre viveu da roça e da pesca. Nunca esqueci um casal formado por uma bióloga e um técnico agrícola lá no meio de uma propriedade num travessão da Transamazônica. No meio do almoço que ela fez questão de preparar a mim, ao motorista e ao repórter fotográfico, me endereçou essa resposta quando questionei sobre a indenização da pequena propriedade agroflorestal que eles mantinham há uns dez anos. “Quanto custa o nosso sonho? Qual o valor monetário dele?”. Essa fala me acompanha sempre quando alguma discussão nesse sentido entra em pauta em rodas de conversa.

Ao mesmo tempo, a ativista Antônia Melo denunciava a forma como as negociações eram conduzidas — fragmentadas, diretas, com promessas que circulavam de maneira desigual entre comunidades. Para ela, havia um esforço claro de dissolver resistências.

Na Prelazia do Xingu, Dom Erwin Krautler dizia que o ponto decisivo era impedir a primeira barragem. A leitura era simples: uma vez iniciada, a lógica do empreendimento seguiria adiante.

Enquanto essas falas se acumulavam, Altamira mudava rapidamente.

A cidade recebia trabalhadores, o comércio se movimentava, a promessa de crescimento ganhava corpo. Mas a estrutura não acompanhava. Ali por volta de 2013, o Hospital Municipal São Rafael passou de cerca de 200 atendimentos diários para uma média de 500 em poucos meses. Filas se formavam onde antes havia margem.

Lembro de Elismar Carvalho, dona de hotel, percorrendo hospitais em busca de atendimento e não conseguindo, mesmo com plano de saúde. O relato se repetia em diferentes versões. A cidade crescia mais rápido do que conseguia absorver esse crescimento.

O aumento populacional trouxe também pressão sobre segurança, educação, serviços básicos. A própria Associação Comercial de Altamira, inicialmente favorável à obra, passou a falar em cobranças, em acordos não cumpridos, em falta de planejamento.

No rio, as mudanças começavam a aparecer antes mesmo da conclusão da usina.

 

Na Volta Grande do Xingu, Manoel Juruna dizia não haver compensação possível para a destruição do modo de vida. A preocupação com a redução da água e com a pesca era constante. E não era apenas projeção.

Entre ribeirinhos, a incerteza e o medo eram regras.

Manoel Neves de Araújo sabia que a decisão não passava por ele. “Não é com muita vontade que a gente vai sair daqui.” Albino Pessoa dos Santos, o Fininho, também estava cadastrado para indenização, mas deixava claro: preferia não sair. Manoel Matos da Cruz e Laura de Souza, já idosos, sequer sabiam para onde iriam.

As perguntas estavam todas colocadas ali. Mas as respostas, como na canção de Bob Dylan, ficavam soprando no ar.

Hoje, passados anos da entrada em operação de Belo Monte, é possível olhar para trás e perceber que muitas dessas questões não foram resolvidas, apenas arquivadas no tempo.

A Volta Grande do Xingu convive com redução significativa de vazão em determinados períodos. A pesca, base alimentar e econômica de comunidades indígenas e ribeirinhas, foi profundamente afetada. Espécies diminuíram, rotas migratórias foram alteradas, e a regularidade que organizava a vida ao redor do rio deixou de existir como antes.

Os reassentamentos urbanos, apresentados como solução, trouxeram novos problemas. Muitas famílias deslocadas passaram a viver em áreas com infraestrutura padronizada, distante do rio e das atividades que garantiam sua subsistência. O custo de vida aumentou, a dependência de renda monetária se intensificou, e a promessa de melhoria não se realizou de forma homogênea.

Em Altamira, o ciclo da obra deixou marcas conhecidas. O crescimento acelerado durante a construção, seguido por retração econômica. Parte dos empregos desapareceu com o fim das obras. A pressão sobre serviços públicos não recuou na mesma proporção.

No campo energético, a usina opera, mas as limitações apontadas ainda durante a construção permanecem relevantes. A dependência do regime de chuvas do Xingu faz com que a geração efetiva varie bastante ao longo do ano, distante da potência instalada anunciada.

A energia produzida segue majoritariamente destinada a setores industriais de grande consumo. A relação direta entre o impacto local e o benefício para a população da região continua sendo uma questão aberta.

Nada disso é exatamente novo. Estava, de alguma forma, anunciado nas falas recolhidas ao longo daqueles anos. O que mudou foi o tempo, pois o que era previsão tornou-se condição. E é a partir dessa condição que se projeta o que vem pela frente.

Belo Monte nunca foi um caso isolado. Ela se insere numa lógica mais ampla de ocupação e uso dos rios amazônicos como base para grandes projetos energéticos. Outros rios da região — como o Rio Tapajós, o Rio Madeira e o Rio Tocantins — já foram ou continuam sendo, alvo de propostas semelhantes, em diferentes estágios.

A experiência do Xingu funciona, nesse sentido, como referência concreta.

Ela mostra que os impactos não se encerram com a conclusão da obra. O deslocamento nunca é apenas geográfico. E as compensações financeiras não substituem modos de vida. O que se percebeu é que sistemas urbanos locais dificilmente acompanham o ritmo imposto por grandes empreendimentos. E que os efeitos ambientais se estendem no tempo, muitas vezes de forma irreversível.

Há uma dimensão de Belo Monte não medida em megawatts, cronogramas ou cifras bilionárias. Ela aparece como lembrança incômoda nos alertas que, ainda no período de implantação da usina, foram feitos por pesquisadores, lideranças locais e órgãos públicos, muitos deles ignorados ou relativizados no calor da decisão política.

“Não há na história nenhum registro de construção de barragem que não tenha gerado consequências sérias e irreversíveis para as populações locais”, advertia a antropóloga Sônia Magalhães. Sua afirmação não era retórica. Ela sintetizava um conjunto de incertezas que, à época, cercavam o projeto, sobretudo pela ausência de estudos aprofundados em áreas consideradas sensíveis.

Do ponto de vista ecológico, os dados disponíveis já indicavam um cenário de excepcionalidade. Um estudo conduzido pelo biólogo Hermes Ferreira apontava que a diversidade de peixes na área diretamente afetada pela barragem superava a de todo o continente europeu. Tratava-se de um ecossistema singular, moldado por barreiras naturais como as cachoeiras da Volta Grande do Xingu, que funcionavam como zonas de isolamento e evolução de espécies. Ainda assim, como reconheciam os próprios especialistas, era uma área insuficientemente estudada, o que ampliava o grau de risco. “De qualquer perspectiva que se olhe, social ou ambiental, não se sabe o custo de Belo Monte”, resumia Sônia Magalhães.

Enquanto isso, o consórcio responsável pela obra, a Norte Energia, um grupo formado por diversas empresas estatais e privadas envolvidas na construção de Belo Monte, sustentava que os impactos estavam sendo mitigados dentro do previsto. Em notas oficiais, destacava investimentos em infraestrutura urbana, como a ampliação do saneamento básico em Altamira — onde, até então, apenas 18% da população tinha acesso à água tratada e não havia rede de esgoto estruturada. A empresa também citava ações vinculadas ao Projeto Básico Ambiental (PBA) e ao Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-X), que prometia destinar centenas de milhões de reais à região.

Essa narrativa institucional, no entanto, convivia com uma realidade mais desordenada no território. O avanço das obras trouxe consigo um crescimento populacional acelerado, pressões sobre serviços públicos e transformações sociais abruptas. Próximo aos canteiros, surgiam estruturas improvisadas que evidenciavam esse novo contexto — como a chamada “Boate Xingu”, instalada à margem da floresta, símbolo de uma economia paralela que acompanha grandes empreendimentos. Nossa equipe retornava de uma aldeia quando deparamos com essa ‘boate’ armada à margem da floresta, anunciando ‘modelos’ vindas de São Paulo para a inauguração. Mais ‘Bye Bye Brasil’ impossível.

Para as populações diretamente afetadas, o futuro aparecia como uma violenta ruptura. Povos indígenas da Volta Grande do Xingu temiam a redução drástica da vazão do rio, com impactos diretos sobre a pesca, a navegação e os modos de vida tradicionais. “Tampando o rio, como é que nós vamos ficar?”, questionava José Arara, liderança indígena, ao apontar o leito pedregoso que poderia secar. Entre os Juruna da aldeia Paquiçamba, a desconfiança em relação às compensações oferecidas era evidente. “Prometeram muito e cumpriram pouco”, dizia o cacique Manoel Juruna, reforçando a percepção de que não havia equivalência possível entre indenização financeira e perda territorial.

Entre ribeirinhos, o dilema assumia outra forma com o deslocamento compulsório. Comunidades inteiras seriam inundadas, e a indenização oferecida não garantia a reconstrução das condições de vida. “Poder é poder”, resumia Manoel Neves de Araújo, morador do Paratizinho, ao expressar a sensação de impotência diante da obra.

No campo jurídico, as controvérsias eram igualmente intensas. A Advocacia-Geral da União buscava no Supremo Tribunal Federal reverter decisões que haviam suspendido as obras, enquanto a Procuradoria-Geral da República sustentava que não havia base para tal intervenção. No centro da disputa estava um ponto crucial: o direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da OIT. Para o Ministério Público, consultas realizadas após decisões já tomadas eram “mera forma sem substância”, incompatíveis com o princípio da autodeterminação.

As críticas não se restringiam ao campo social ou jurídico. Especialistas em energia também questionavam a lógica econômica do empreendimento. O pesquisador Célio Bermann argumentava que Belo Monte não se justificava pela eficiência energética, mas pelo volume de recursos mobilizados durante sua construção. Segundo ele, a rentabilidade para grandes empreiteiras estava concentrada na execução da obra, não na geração de energia em si.

Os números reforçavam a desconfiança. O custo estimado do projeto saltou de R$ 4,5 bilhões, em 2006, para mais de R$ 26 bilhões — com projeções que ultrapassavam R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, estudos indicavam que a usina operaria em plena capacidade por apenas alguns meses ao ano, devido ao regime hidrológico do rio Xingu. Durante a estiagem, a produção poderia cair a cerca de um décimo da capacidade instalada.

No campo ambiental, os riscos eram descritos com precisão técnica. Relatórios apontavam para a possibilidade de eutrofização dos reservatórios, com impactos na qualidade da água e na saúde pública. A eutrofização, para os menos afeitos a termos tão técnicos, é o enriquecimento excessivo de nutrientes (especialmente nitrogênio e fósforo em corpos d’água), causando o crescimento descontrolado de algas e cianobactérias. Esse processo, geralmente provocado por esgoto ou fertilizantes, reduz o oxigênio da água, causando a morte de peixes e a degradação do ecossistema.

A redução de até 80% da vazão na Volta Grande do Xingu ameaçava extinguir espécies endêmicas, enquanto a perda de igarapés, fundamentais para a reprodução de peixes, poderia comprometer mais da metade das espécies aquáticas da região. Era um cenário apocalíptico que lentamente foi se desenhando real.

Os próprios técnicos do IBAMA reconheciam limitações nos estudos de impacto ambiental. Em parecer interno, admitiam que análises não haviam sido concluídas com a profundidade necessária, especialmente em relação às populações indígenas e aos efeitos do crescimento populacional. Havia, segundo o documento, um “grau de incerteza elevado” em aspectos essenciais, como a qualidade da água.

Paralelamente, indicadores já mostravam efeitos indiretos do empreendimento. Dados do Imazon apontavam que Altamira liderava o desmatamento na Amazônia naquele período, um sinal claro da pressão territorial associada à obra.

É bom enfatizar, fazendo um extenso parêntesis, que desde pelo menos 2021, vários estudos científicos e análises de indicadores socioambientais mostram que os municípios da Amazônia (e do Brasil como um todo) que mais desmatam tendem a apresentar piores indicadores de qualidade de vida, desenvolvimento social e renda do que aqueles com menor desmatamento. Pesquisas baseadas no Índice de Progresso Social (IPS) — um indicador internacional que considera aspectos como moradia, acesso à educação, inclusão social e bem-estar — revelam que, na Amazônia Legal, os municípios com maiores áreas de floresta derrubada têm pontuações médias significativamente mais baixas no IPS do que tanto a média do Brasil quanto a média regional. Esse padrão sugere que o modelo de desenvolvimento baseado na remoção da floresta não tem trazido melhorias substanciais nas condições de vida das populações locais e pode estar associado à pobreza, exclusão social e baixo progresso social.

Um exemplo emblemático dessa relação é o caso de Altamira, tema principal desse texto, que por muitos anos foi apontado como um dos municípios brasileiros com maiores áreas desmatadas na Amazônia. A intensa pressão sobre a floresta local, historicamente impulsionada por atividades como pecuária e agricultura de corte e queima, se refletiu em desafios sociais e econômicos persistentes e em indicadores de progresso social abaixo da média nacional, conforme levantamentos do Imazon e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O legado de desmatamento intenso ilustra como a simples remoção de floresta dificilmente se traduz em qualidade de vida mais elevada ou desenvolvimento sustentável para as comunidades amazônicas.

E retorno a Belo Monte. O conjunto desses elementos compunha, já naquele momento, um quadro de alertas consistentes. Ainda assim, a resposta institucional frequentemente se apoiava na promessa de que falhas seriam corrigidas em projetos futuros. Como admitiu o então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, havia problemas no processo, mas a expectativa era de que “o próximo seria diferente”.

Na Amazônia, essa lógica recorrente — de reconhecer erros apenas depois de consumados — revela uma constante histórica. Decisões estruturais são tomadas sob incerteza, enquanto os custos sociais e ambientais se tornam evidentes apenas no decorrer do tempo. Belo Monte, naquele contexto, já carregava todos os sinais de um projeto cujo impacto ultrapassaria, em muito, as previsões oficiais.

Celso Albertino, do alto de sua experiência ribeirinha, dizia que a água não se segura.

O que se tentou fazer em Belo Monte foi reorganizar o curso do rio dentro de um desenho técnico. O resultado não foi um rio contido, mas um sistema em permanente ajuste, com consequências distribuídas ao longo dos anos.

O Rio Xingu continua correndo.

E sofrendo novas ameaças. De algo que também já havia sido alertado anos atrás. A exploração de ouro, minério detectado quando da construção de Belo Monte.

E voltamos ao mesmo ciclo, já que a tentativa da mineradora canadense Belo Sun Mining Corp. de instalar o projeto Volta Grande, destinado à exploração de ouro na região de Altamira e de Senador José Porfírio, recoloca a Volta Grande do Xingu no centro de uma nova disputa socioambiental. Após idas e vindas judiciais, decisões recentes restabeleceram etapas do licenciamento do empreendimento, permitindo que a empresa avance no processo de instalação da mina. No entanto, a controvérsia está longe de encerrada. O Ministério Público Federal, organizações da sociedade civil e lideranças indígenas seguem questionando a validade dos estudos ambientais apresentados e, sobretudo, a ausência de consulta prévia, livre e informada às populações potencialmente afetadas, algo que, vale repetir, é um direito assegurado pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição brasileira.

A proposta da Belo Sun prevê a implantação de uma das maiores minas de ouro a céu aberto do país justamente em uma área já profundamente impactada pela Usina de Belo Monte. A instalação de uma mineração em larga escala, com uso de substâncias químicas como cianeto no processamento do minério, amplia o risco de contaminação da água, do solo e da cadeia alimentar. Para povos que já enfrentam a diminuição da pesca e mudanças no regime do rio, a perspectiva de mais um grande empreendimento representa a sobreposição de impactos em um território fragilizado. O histórico amazônico mostra que a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em melhoria estrutural da qualidade de vida da maioria da população local. Insisto nessa tecla, pois como repórter sempre ouvi a frase chantagista ‘ou é isso ou determinado município vai estagnar na miséria eterna’. Sempre foi uma coisa ou outra, no discurso de quem defende sempre os avanços em prol da palavra da moda (progresso, desenvolvimento etc).

A situação em Altamira evidencia, portanto, uma encruzilhada. De um lado, a lógica capitalista de expansão mineral como vetor de crescimento econômico; de outro, a defesa de direitos territoriais, da integridade ecológica e da precaução em uma região já marcada por desequilíbrios produzidos por Belo Monte. A insistência em avançar com um novo megaprojeto na Volta Grande do Xingu, sem que as incertezas acumuladas tenham sido plenamente enfrentadas, reforça a percepção de que a Amazônia continua sendo tratada como fronteira de exploração, e não como território de direitos.

É um filme gasto e repetido. Nas telas outrora verdes hoje cor de terra seca, um bangue-bangue estrelado por John Wayne onde infelizmente os vilões nunca são punidos ao final.

 

Postagem em protesto contra a exploração de ouro pela Belo Sun.


*Ismael Machado é jornalista

Água na Amazônia: abundância em disputa

Saneamento precário, contaminação, conflitos agrários e o futuro de uma das maiores reservas da Terra

Fot0: Ismael Machado 

Por Ismael Machado*

Em 2010, numa viagem de reportagem ao arquipélago do Marajó para o jornal Diário do Pará, vivi uma das experiências que mais moldaram minha percepção sobre a água na Amazônia. A matéria tinha um título simples e certeiro, bolado pelo editor e parceiro Lázaro Magalhães — Breves pede água boa — mas o que encontramos estava longe de ser simples. Ao lado do saudoso repórter fotográfico Thiago Araújo, percorri comunidades em Breves, onde a vida cotidiana era atravessada por uma contradição brutal: gente cercada por rios e igarapés imensos, mas sem acesso à água potável.

No mesmo ano, produzi outra reportagem sobre a ausência quase total de saneamento na Região Metropolitana. Lembro especialmente de um personagem: Denilson Santos, conhecido como Manel, morador de uma área chamada Livramento, numa zona de fronteira entre Ananindeua, Marituba e Belém. Ele tinha vergonha de mostrar onde a família fazia suas necessidades fisiológicas — um buraco raso cercado por três troncos de açaizeiro. Não havia fossa, não havia banheiro, não havia dignidade mínima garantida pelo poder público. Na mesma reportagem, Maria Gorete Cardoso, à época com 47 anos, informava que apanhava água de uma cacimba comunitária no Curuçambá, em Ananindeua. Ela enchia latas e latas de água, botava numa canoa e voltava remando para sua casa na ilha do Jacineuma.

Naquele período, dados do Instituto Trata Brasil indicavam que a renda média de moradores da Grande Belém poderia aumentar cerca de 12% com acesso adequado à água e saneamento. Passados mais de quinze anos, não é possível afirmar que a transformação tenha ocorrido na escala prometida.

Dois anos depois dessas reportagens, escrevi uma série especial para o mesmo jornal em alusão ao Dia Mundial da Água, com a colaboração do ex-aluno Eraldo Paulino. O trabalho recebeu o primeiro (e único) Prêmio de Jornalismo Científico, iniciativa conjunta do governo estadual e da Universidade Federal do Pará. Entre os dados levantados, havia números alarmantes: cerca de 900 mil pessoas consumindo água contaminada em condomínios da região metropolitana e perdas de quase metade da água tratada devido à precariedade das tubulações. Vejo em meus arquivos as fotos de Thiago Araújo no print em PDF das reportagens e lamento nossa situação atávica.

Em Barcarena, o município industrial, o problema era a contaminação das fontes por conta da atividade das grandes empresas ali instaladas. A série jornalística mostrava que os conflitos pela posse da água já eram grandes no Pará, ladeando a luta pela posse da terra, mas encerrava mostrando iniciativas de recuperação de nascentes em algumas localidades. Uma gota de esperança num rio de problemas.

Revisitar essas memórias jornalísticas hoje é perceber como a crise hídrica e sanitária amazônica não é nova. É estrutural.

A Amazônia ocupa um lugar singular no planeta. A região concentra a maior bacia hidrográfica do mundo, cerca de um quinto da água doce superficial disponível na Terra. Rios de dimensões continentais atravessam a região, incluindo o próprio Amazonas, cuja vazão supera a soma de vários grandes rios globais. Em teoria, seria o território menos provável para enfrentar problemas relacionados à água.

Na prática, porém, a Amazônia tornou-se um dos exemplos mais contundentes de como abundância natural não garante acesso seguro, nem justiça social, nem estabilidade ambiental. A crise da água amazônica não é uma crise de disponibilidade. É de distribuição, qualidade, poder e modelo de desenvolvimento.

O paradoxo do copo vazio às margens do maior rio do mundo

Milhões de pessoas vivem próximas a rios imensos e, ainda assim, dependem de água sem tratamento — igarapés, poços rasos ou captação direta de rios contaminados. Comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas, assentamentos rurais e periferias urbanas convivem com doenças de veiculação hídrica que seriam evitáveis com infraestrutura básica.

Essa realidade revela uma das maiores dívidas históricas do Estado brasileiro na região: saneamento básico. A cobertura de coleta e tratamento de esgoto permanece entre as mais baixas do país, e a ausência de infraestrutura transforma a própria água disponível em vetor de doença. O problema não é apenas técnico. É estrutural e político.

Capitais regionais como Belém, Manaus e Porto Velho, para ficar apenas nessas três, mas entendendo que o problema é mais amplo, repetem o padrão: crescimento acelerado sem expansão equivalente das redes de saneamento. O avanço urbano não foi acompanhado por redes de água e esgoto na mesma velocidade. O resultado é uma geografia urbana desigual, onde bairros centrais têm abastecimento relativamente regular enquanto periferias dependem de soluções individuais, com poços improvisados ou ligações clandestinas, transferindo para o indivíduo uma responsabilidade que deveria ser pública.

A abundância natural, nesse contexto, não elimina a escassez socialmente construída.

Se a falta de infraestrutura compromete o acesso, a contaminação compromete a qualidade. A Amazônia enfrenta múltiplas fontes de degradação hídrica simultâneas.

O garimpo de ouro, especialmente o ilegal, libera mercúrio nos rios, contaminando peixes e populações humanas ao longo das cadeias alimentares. Estudos científicos têm identificado níveis preocupantes da substância em comunidades indígenas e ribeirinhas, com impactos neurológicos, cognitivos e gestacionais.

Ao mesmo tempo, o desmatamento altera o regime hidrológico, aumenta a erosão e o assoreamento dos cursos d’água, enquanto o esgoto urbano não tratado despejado diretamente nos rios agrava a deterioração ambiental. A água, símbolo histórico de pureza amazônica, torna-se vetor de risco sanitário.

Água como eixo de conflitos agrários

No campo amazônico, a água se transformou de recurso natural a elemento central de disputas territoriais. O avanço da fronteira agropecuária, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem modificou e ainda modifica paisagens hidrológicas inteiras. Nascentes são degradadas, cursos d’água desviados e áreas úmidas drenadas para expansão dita produtiva.

Marabá, por exemplo, é alvo de um projeto polêmico. Pedral do Lourenço é um conflito socioambiental e econômico de longa data, centrado na remoção de formações rochosas no Rio Tocantins para viabilizar a navegação de grandes embarcações durante o ano todo, inclusive no período de seca. As obras, planejadas há anos, visam criar uma hidrovia que beneficia o escoamento da soja, por exemplo, mas enfrentam resistência de comunidades tradicionais e órgãos ambientais por conta de impactos à pesca e biodiversidade. O Governo Federal defende a obra como fundamental para o escoamento de soja e minérios e o sempre propalado desenvolvimento regional. A que custo?

Ao longo do tempo, hidrelétricas, portos, hidrovias, mineração e expansão agrícola são frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento regional. No entanto, esses empreendimentos alteram regimes naturais de rios, impactam comunidades e geram novos conflitos socioambientais. Barragens modificam fluxos, afetam a pesca e alteram ecossistemas aquáticos. Estradas aumentam o desmatamento e mudam padrões de drenagem. Projetos de grande escala frequentemente redistribuem poucos benefícios econômicos enquanto concentram impactos sociais e ambientais em populações locais.

A disputa pela água, nesse sentido, é também disputa por modelos de desenvolvimento. O Rio Xingu nunca se recuperou totalmente do impacto do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Eu sei porque vi. Estive lá em Altamira por oito vezes fazendo reportagens durante a construção da hidrelétrica. Havia locais do rio que eram únicos na vivência de peixes chamados ornamentais. Famílias como a de Genilson Gomes da Silva, então com 30 anos, viviam dessa atividade. Não mais. Foi lá que aprendi com Antônia Melo e Dom Erwin Krautler como é complicado lutar contra toda a força do capital e mesmo assim manter a dignidade.

O fato é que comunidades tradicionais frequentemente se veem diante da perda de acesso a fontes que garantiam sua sobrevivência por gerações. Controlar a terra significa também controlar a água e, portanto, controlar modos de vida. Poucas violências são tão simbólicas como essa.

Conflitos socioambientais envolvendo rios, barragens, irrigação e contaminação tornaram-se mais frequentes nas últimas décadas, revelando que a disputa pela água na Amazônia já é uma realidade concreta.

Eventos climáticos extremos recentes mostram que a Amazônia também não está imune a crises hidrológicas. Secas históricas reduziram drasticamente níveis de rios, isolaram comunidades, comprometeram o transporte fluvial e afetaram sistemas de abastecimento. Em outros momentos, cheias intensas provocaram contaminação de poços, colapso de estruturas sanitárias precárias e disseminação de doenças. Também acabo lembrando outra reportagem que fiz, dessa feita para o jornal O Globo, sobre a seca no rio Solimões, em Manacapuru. À época, 2003 ou 2004, se não me falha a memória, essas secas ainda eram relativamente uma novidade vistas com espanto. Deixaram de ser.

A alternância entre extremos — seca e inundação — aumenta a vulnerabilidade de populações que já vivem com infraestrutura limitada. Além disso, o desmatamento regional pode estar alterando o próprio ciclo hidrológico amazônico, reduzindo a capacidade da floresta de reciclar umidade e influenciando padrões de chuva em escala continental.

A água amazônica, essencial para o equilíbrio climático global, também depende da própria floresta para existir.

E aí vem a palavra que soa como doce na boca de políticos e governos. Privatização. Nos últimos anos, mudanças no marco regulatório do saneamento abriram espaço para maior participação privada no setor. Defensores argumentam que investimentos serão ampliados e a universalização acelerada. Críticos alertam para o risco de aprofundamento das desigualdades, especialmente em regiões onde o retorno financeiro é menor e os custos logísticos são mais altos como na Amazônia. E vamos ser sinceros? Talvez se conte nos dedos da mão a efetivação das promessas alardeadas pelos privatistas em qualquer setor.

No caso da água a questão central permanece quase sempre esquecida. Afinal, ela é mercadoria ou direito? A resposta define prioridades políticas.

A importância estratégica da água amazônica ultrapassa fronteiras nacionais. Em um mundo onde crises hídricas se tornam mais frequentes, reservas abundantes ganham relevância geopolítica crescente, a região passa a ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas como ativo estratégico global. Essa dimensão internacional aumenta pressões econômicas e políticas sobre o território, tornando ainda mais complexa a governança dos recursos. E em tempos de Trump, isso sempre nos deve deixar com todos os sentidos em alerta.

O panorama amazônico demonstra que a escassez pode existir mesmo em territórios de abundância. Falta de saneamento, contaminação, conflitos agrários, mudanças climáticas e modelos de desenvolvimento predatórios convergem para produzir vulnerabilidades múltiplas.

Mas não nos esqueçamos. A crise da água na Amazônia não é natural. É resultado de decisões humanas, históricas e políticas. Garantir acesso universal à água potável na região exige proteção ambiental, reconhecimento de direitos territoriais, planejamento urbano, investimento público consistente e governança que priorize populações locais.

Na Amazônia, a água tornou-se, simultaneamente, riqueza, risco e campo de disputa sobre o futuro. O medo é nos afogarmos no mar da ignorância e, numa rima pobre, da ganância.


*Ismael Machado é jornalista com longa experiência na cobertura de assuntos relativos à Amazônia brasileira. 

Na Amazônia, malária esconde casos de dengue, chikungunya e parvovírus B19, mostra pesquisa

Esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação do parasita, no interior de glóbulos vermelhos observados ao microscópio.

Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas.  Foto: Stefan Walkowski / Wikimedia Commons 

Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes. Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque, na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.

Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.

“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.

Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos. Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.

“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.

O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.

“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.

A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.


Fonte: Agência Bori

Donald Trump quer acelerar a extração de riquezas na Venezuela. As organizações de narcotráfico também

A mineração ilegal enriqueceu o regime de Maduro e grupos criminosos, ao mesmo tempo que devastou a Amazônia e seu povo. Os EUA estão se retirando de organizações que visam impedir esses danos

Um jovem mineiro venezuelano trabalha em uma mina a céu aberto em busca de ouro em El Callao, Venezuela, em 29 de agosto de 2023. Crédito: Magda Gibelli/AFP via Getty Images

Um jovem garimpeiro venezuelano trabalha em uma mina a céu aberto em busca de ouro em El Callao, Venezuela, em 29 de agosto de 2023. Crédito: Magda Gibelli/AFP via Getty Images

Por Katie Surma para “Inside Climate News” 

Em um dia de junho de 2022, homens armados atiraram três vezes na cabeça de Virgilio Trujillo Arana na capital do estado do Amazonas, na Venezuela.

Trujillo Arana, líder indígena Uwottüja, dedicou anos à defesa da floresta amazônica contra a mineração ilegal e destrutiva. Esse trabalho tornou-se cada vez mais perigoso com o crescimento da extração ilícita na Venezuela, onde grupos criminosos visavam qualquer pessoa considerada um obstáculo ao lucro. Seu assassinato foi o 32º homicídio documentado de um indígena ou defensor ambiental na Venezuela em um período de oito anos, encerrado em 2022. 

O ataque dos Estados Unidos a Caracas em 3 de janeiro desviou o foco para as vastas reservas de petróleo da Venezuela e para quem controlará e se beneficiará do petróleo bruto. Deixadas de lado nessas discussões estão as crises ambientais e de direitos humanos em curso, que se alastraram sob o governo de Nicolás Maduro — e quem as deterá.

Dezenas de milhares de derramamentos de petróleo contaminaram cursos d’água e água potável, degradaram ecossistemas e deslocaram comunidades. Enquanto isso, organizações de direitos humanos, especialistas das Nações Unidas e jornalistas investigativos documentaram abusos horríveis ligados à mineração ilegal, uma importante fonte de renda para o regime de Maduro e organizações criminosas, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN) da Colômbia. 

Analistas e pesquisadores afirmam que essas organizações e funcionários do governo têm trabalhado juntos para controlar e lucrar com as operações de mineração, frequentemente por meio de violência, impunidade e intimidação.

“A Venezuela é um país que, durante 27 anos, destruiu sistematicamente o Estado de Direito e violou os direitos humanos e ambientais”, afirmou Cristina Vollmer de Burelli, venezuelana e fundadora da SOS Orinoco, uma organização de defesa ambiental focada na proteção da floresta amazônica venezuelana. 

A missão da Venezuela junto às Nações Unidas não respondeu aos pedidos de comentários. 

Ao contrário de alguns outros governos da América Latina, o da Venezuela não está apenas tolerando ou deixando de impedir as economias ilícitas ligadas à destruição ambiental, “está ativamente dirigindo e controlando-as”, disse Vollmer de Burelli. 

A mineração na região serve como fonte de renda e meio para lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, disse ela — e aqueles que se opõem a isso, como Virgilio Trujillo Arana, pagam com a própria vida.

O Arco Mineiro do Orinoco 

Embora a receita do petróleo tenha, por muito tempo, enchido os cofres do governo em Caracas, essa renda começou a declinar por volta de 2014. Maduro voltou-se para a mineração, declarando uma vasta faixa de território ao sul do rio Orinoco como o “Arco Mineiro do Orinoco”, na esperança de atrair investimentos estrangeiros. Mas as empresas internacionais foram dissuadidas pela presença de grupos criminosos transnacionais na região. 

Segundo Vollmer de Burelli, o governo Maduro recorreu então às suas próprias forças armadas em 2018 para “limpar” a área de mineração ilegal. Mas os generais recusaram-se a intervir por receio de um conflito interno sangrento. O governo, então, terceirizou a tarefa para o ELN. 

“O ELN chegou, matou um monte de gente, assumiu o controle das minas, mas nunca as abandonou”, disse Vollmer de Burelli. “Essa é a situação atual no terreno.”

Homens trabalham em uma mina de ouro artesanal na cidade de El Dorado, Venezuela, em 25 de maio de 2025. El Dorado faz parte de uma região denominada pelo governo como Arco Mineiro do Orinoco. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty ImagesHomens trabalham em uma mina de ouro artesanal na cidade de El Dorado, Venezuela, em 25 de maio de 2025. El Dorado faz parte de uma região denominada pelo governo como Arco Mineiro do Orinoco. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty Images

Diversos relatórios da ONU e de outras entidades documentaram como o regime de Maduro administrou ativamente e lucrou com a indústria de mineração ilegal multibilionária, que extrai principalmente ouro, mas também bauxita, diamantes e outros materiais, alimentando a destruição ambiental. 

Para extrair ouro, por exemplo, bombas de alta pressão e máquinas pesadas explodem e escavam leitos de rios. O material é então misturado com mercúrio tóxico para extrair o ouro. O mercúrio é despejado na atmosfera, florestas e rios, contaminando ecossistemas inteiros. 

Os povos indígenas e outros habitantes locais pagaram o preço. 

Estudos revelaram que até 90% das mulheres indígenas no Arco Mineiro do Orinoco apresentam níveis perigosamente altos de mercúrio, o que está associado a problemas neurológicos e outros problemas de saúde . A prostituição forçada e a escravidão sexual aumentaram drasticamente nos arredores dos acampamentos de mineração. Crianças de apenas 10 anos trabalham nas minas sem equipamentos de proteção. Vastos trechos de floresta tropical foram reduzidos a desertos, elevando os casos de malária em mais de 500% em alguns municípios mineiros. E pessoas que resistem ao avanço do extrativismo têm mãos, pés e membros inteiros decepados com facões — ou pior. 

Os territórios indígenas têm sido progressivamente invadidos. As florestas estão sendo devastadas e os rios estão assoreados com sedimentos e substâncias tóxicas, corroendo as culturas e economias tradicionais. As áreas protegidas também não foram poupadas. 

No estado do Amazonas, onde toda atividade de mineração é proibida por lei, existem vastos parques nacionais e terras sagradas para os povos indígenas. O Parque Nacional Yapacana é um desses lugares, conhecido por seu tepui, uma montanha em forma de mesa que abriga formas de vida únicas, as quais evoluíram em isolamento ecológico por milhões de anos.

Em 2019, moradores locais relataram que garimpeiros haviam perfurado o topo do tepui em busca de ouro. Posteriormente, a SOS Orinoco confirmou os danos, utilizando imagens de satélite Maxar de alta resolução.

“Tornou-se o feudo particular deles”, disse Vollmer de Burelli. “Não importa o dano ambiental que você ache que já viu, nada se compara a ver minas a céu aberto escavadas no topo de um tepui.”

Vista aérea dos danos causados ​​pela mineração ilegal e pelos acampamentos de mineração ilegal no Parque Nacional de Yapacana, em 21 de dezembro de 2022. Crédito: Yuri Cortez/AFP via Getty ImagesVista aérea dos danos causados ​​pela mineração ilegal e pelos acampamentos de mineração ilegal no Parque Nacional de Yapacana, em 21 de dezembro de 2022. Crédito: Yuri Cortez/AFP via Getty Images

Autoridades venezuelanas impediram a entrada no país de especialistas jurídicos e de direitos humanos que integravam uma missão de apuração de fatos da ONU. Apesar disso, esses especialistas publicaram um relatório em 2022 que examina a situação dos direitos humanos no Arco Mineiro do Orinoco e em outras áreas, com base em visitas de campo a regiões fronteiriças, evidências documentais, entrevistas com vítimas e testemunhas, dados comerciais e outras fontes.

O relatório documentou quase 2.000 supostas vítimas de violações de direitos humanos e crimes cometidos entre 2014 e 2022, incluindo mais de 800 possíveis mortes violentas. Cerca de um quarto desses assassinatos teriam sido cometidos por agentes do governo.

Um garimpeiro contou a especialistas da ONU que testemunhou membros de um grupo criminoso acusando um menino chamado Manuel de não ter pago a permissão para trabalhar na mina. 

“Disseram-lhe: ‘Se você não colocar a mão no tronco, vou apontar uma pistola de 9 milímetros para a sua cabeça.’ Manuel colocou a mão no tronco e eles a cortaram. Eu via isso acontecer a cada duas ou três semanas. Em um mês, podia acontecer duas vezes. Em cada reunião, eu via os dedos ou as mãos de duas ou três pessoas sendo cortados.”

Em outro caso documentado pela missão, membros de um grupo criminoso acusaram um jovem de 19 anos de roubo de ouro e, em seguida, mutilaram suas mãos, olhos e parte de sua língua.

O relatório também constatou que a violência sexual era generalizada.

“Se um malandro [membro de gangue] gostasse de uma mulher, ele ia atrás dela e ela não podia recusar”, disse um mineiro aos especialistas da ONU. “Os malandros vinham procurar as meninas, e as mães imploravam para dormir com eles, para proteger suas filhas.” 

“A selva tem suas regras”

Duas semanas atrás, a líder indígena Pemón, Lisa Henrito, visitou uma loja em uma cidade do Arco Mineiro do Orinoco. 

“Eu pedi um refrigerante e um biscoito doce, e minha amiga pediu um refrigerante”, disse ela. Então, a amiga pagou o atendente da loja com ouro. 

“Eles têm balanças”, explicou ela. “Como é que se vive num lugar onde o dinheiro é ouro”, acrescentou, “e se resiste a tornar-se mineiro?” 

A pressão sobre os povos indígenas da região obrigou muitos a fugir para países vizinhos. Aqueles que permanecem e se opõem à mineração ilegal correm o risco de serem mortos. Outros que ficam são forçados a se envolver em atividades ilícitas direta ou indiretamente, como a venda de gasolina ou ferramentas de mineração.

“Muitas pessoas morreram de estresse porque não conseguem aceitar o fato de terem que deixar suas comunidades, onde nasceram, onde têm fazendas e onde criam seus filhos”, disse ela. “É uma tragédia para os povos indígenas, porque somos muito ligados às nossas terras.”

Segundo Henrito, as pessoas que se mudam para as cidades na esperança de que o governo as ajude a se integrar à vida urbana acabam mendigando nas ruas e debaixo de pontes.

“Quando um governo falha em proteger seus cidadãos, ele falha como governo.”

— Lisa Henrito, líder indígena Pemón

Ela considera o ataque dos EUA à Venezuela como desconectado das realidades dos povos indígenas, que há muito vivem de forma autônoma e sobreviveram por milhares de anos aderindo a princípios centrados no direito à vida e ao território. 

“Pessoas em todo o mundo estão debatendo se essas ações foram certas ou erradas”, disse ela, referindo-se ao ataque de 3 de janeiro. “As nações indígenas enfrentam desafios semelhantes quando pessoas de fora se impõem sobre nós e tomam nossas terras.”

Sua visão para o futuro é de um país onde a justiça e as instituições imparciais e independentes sejam restauradas na Venezuela. “Quando um governo falha em proteger seus cidadãos, ele falha como governo”, disse ela. 

“Todo governo deve ter regras e respeitá-las”, acrescentou ela. “Nós, como povos indígenas, vivemos na selva, e a selva tem suas regras, e nós vivemos de acordo com essas regras. Pedimos que outros governos façam o mesmo.” 

Não é do interesse dos EUA 

Com a intensificação dos abusos relacionados à mineração ilegal, a cooperação internacional tem desempenhado um papel crucial na documentação dos crimes, na pressão sobre as autoridades e no combate às redes criminosas que operam além-fronteiras na floresta. 

No entanto, o governo Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que trabalhava para conter a mineração ilegal e apoiar as comunidades afetadas. Em fevereiro passado, Donald Trump retirou novamente os Estados Unidos do Conselho de Direitos Humanos da ONU, órgão que autorizou a missão de apuração dos fatos na Venezuela. 

E na quarta-feira, Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos de mais de 60 outras organizações e tratados internacionais, muitos deles focados em direitos humanos, proteção ambiental e promoção da democracia e do Estado de Direito. 

O Departamento de Estado dos EUA não respondeu aos pedidos de comentários. Anteriormente, o governo Trump afirmou que essas organizações e acordos não são mais do interesse dos EUA. Questionada sobre a situação e se o governo Trump planejava combater a mineração ilegal na Venezuela, a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, mencionou a prisão de Nicolás Maduro e disse que Donald Trump “intermediou um acordo energético histórico para fortalecer ainda mais a segurança nacional dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e ajudar a restaurar a Venezuela como uma aliada responsável e próspera dos Estados Unidos”.

Desirée Cormier Smith, ex-representante especial para equidade racial e justiça no Departamento de Estado, alertou que essas medidas podem agravar as violações dos direitos humanos e os abusos ambientais na Venezuela e em todo o mundo. 

“Estou profundamente preocupada com o que isso significa para os mais vulneráveis ​​e marginalizados”, disse ela. 

Mineiros preparam um barco para zarpar na cidade mineira de El Dorado, Venezuela, em 24 de maio de 2025. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty ImagesMineiros preparam um barco para zarpar na cidade mineira de El Dorado, Venezuela, em 24 de maio de 2025. Crédito: Pedro Mattey/AFP via Getty Images

Em locais como a Venezuela, onde o governo se torna um dos principais violadores dos direitos humanos, os órgãos internacionais de supervisão oferecem uma rede de segurança crucial para grupos marginalizados, proporcionando um dos únicos mecanismos restantes para documentar abusos. Em casos ao redor do mundo, como em Darfur e Mianmar, essa documentação posteriormente ajudou a responsabilizar os infratores.

Segundo Cormier Smith, o foco de Trump na extração rápida dos recursos venezuelanos pode pressionar as empresas a agirem com rapidez e, potencialmente, ignorarem o direito dos povos indígenas de serem consultados sobre projetos que os afetam, agravando a onda de pressões que já enfrentam. 

Uma das organizações da ONU da qual Trump disse esta semana que se retiraria, o Conselho Econômico e Social, abriga o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, que serve como uma plataforma fundamental para os povos indígenas expressarem suas preocupações sobre direitos humanos, direitos à terra e projetos de desenvolvimento. 

Cormier Smith afirmou que é possível que os Estados Unidos deixem de reconhecer ou respeitar as decisões e os acordos firmados por essas instituições, incluindo a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, um tratado fundamental.

A saída dessas instituições e acordos também significa que, daqui para frente, os Estados Unidos não estarão sujeitos à supervisão internacional dessas organizações por suas próprias ações. 

“Não acho que seja coincidência”, disse Cormier Smith. 

No ano passado, o governo Trump eliminou as menções à palavra “indígena” em seus relatórios anuais de direitos humanos, sinalizando que o governo dos EUA não priorizaria mais pressionar outros governos por suas violações dos direitos dos povos indígenas.

A China , a Rússia e outros governos autoritários há muito tempo buscam limitar a supervisão internacional sobre seus atos internos, como o tratamento dado pela China aos uigures. A China, em particular, tem pressionado para reformular as instituições internacionais segundo sua visão, priorizando o desenvolvimento em detrimento da democracia. 

“Este é o sonho da China: que os EUA se retirem de tantas entidades da ONU e organizações internacionais”, disse Cormier Smith. “É um presente de bandeja para eles.” 

Ela e outros ex-funcionários do governo e analistas afirmam que a retirada dos EUA e o ataque à Venezuela refletem uma mudança mais ampla na política externa americana sob Trump — uma mudança que se afasta da promoção da democracia e dos direitos humanos e se aproxima de uma abordagem mais restrita e transacional, centrada na extração de recursos. 

Donald Trump conversou com empresas petrolíferas americanas antes do ataque de 3 de janeiro e, desde então, afirmou que os EUA administrariam a Venezuela. 

“Vamos extrair uma quantidade enorme de riquezas do solo”, disse ele.

Desde a deposição de Maduro, sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a liderança do país. Rodríguez, uma aliada de longa data de Maduro, foi alvo de sanções de diversos países e mantém estreita relação com autoridades acusadas de corrupção e violações dos direitos humanos. 

A SOS Orinoco afirmou em comunicado na quarta-feira que Rodríguez ajudou a transformar o sul da Venezuela “em uma máquina de extração violenta e patrocinada pelo Estado”.

“A substituição de Maduro por Delcy Rodríguez é um mau presságio para o meio ambiente na “Venezuela”, disse a organização. “Tememos que o atual ecocídio continue e piore sob um novo regime.”


Fonte: Inside Climate News

Nova análise revela a extensão do desmatamento ilegal no Brasil

O Instituto Centro de Vida e a Trase publicaram um novo conjunto de dados sobre licenças de desmatamento que pode ajudar empresas, reguladores e instituições financeiras a gerenciar os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos

A plantação de soja contrastava com o Cerrado brasileiro.Plantação de soja no Cerrado brasileiro.

Por Osvaldo Pereira, Vinícius Silgueiro e Ana Valdiones para a “Trase” 

As regras do mercado global estão agora a intensificar o foco na conformidade legal, juntamente com cadeias de abastecimento livres de desmatamento. Apesar dos atrasos na sua implementação, o Regulamento da UE sobre o Desmatamento levou muitas empresas a investir em sistemas de due diligence para cumprir a sua proibição de produtos cultivados ou produzidos ilegalmente em terras desmatadas. Entretanto, a China, a maior compradora de soja e carne bovina brasileiras, iniciou projetos-piloto de importações livres de desmatamento e conversão , o que aponta para uma crescente procura por cadeias de abastecimento com garantia de legalidade.

No Brasil, os biomas Amazônia e Cerrado estão ameaçados pela expansão das commodities agrícolas. Embora o Código Florestal Brasileiro forneça o arcabouço legal para o uso da terra, a verificação do cumprimento em larga escala continua sendo um desafio. Uma evidência inicial de conformidade é a Autorização para Supressão de Vegetação (ASV) , emitida por órgãos ambientais para permitir a remoção e conversão de vegetação nativa. No entanto, apesar dos esforços recentes para aumentar a transparência e integrar dados, as informações sobre essas autorizações são frequentemente descentralizadas e de difícil acesso, criando uma lacuna significativa de dados. Sem dados transparentes e consolidados sobre as ASVs, é difícil para compradores e órgãos reguladores saberem se uma área específica de desmatamento foi autorizada ou não.

Para suprir essa lacuna de dados, o Instituto Centro de Vida (ICV) publicou um banco de dados sistemático de autorizações para desmatamento de vegetação nativa no Brasil. Essa iniciativa consolida dados disponíveis publicamente sobre autorizações para desmatamento de vegetação nativa, tornando as informações mais acessíveis para avaliar o cumprimento da legislação em regiões impactadas pelo desmatamento no Brasil.

Nova análise revela evidências de descumprimento

A Trase está trabalhando com o ICV para usar esse novo banco de dados e esclarecer ainda mais como os mercados consumidores estão expostos ao desmatamento não autorizado por meio das importações de carne bovina e soja do Brasil. Na primeira etapa deste projeto, comparamos dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as ASVs válidas, a fim de estimar a extensão do desmatamento recente ocorrido sem autorização na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Os resultados mostram uma significativa falta de autorizações públicas para a conversão de vegetação nativa. Tanto na Amazônia quanto no Cerrado, o desmatamento totalizou 26,4 milhões de hectares (Mha) entre 2009 e 2024. Desse total, 22,8 Mha (86%) não possuíam autorizações emitidas para o desmatamento de vegetação nativa, enquanto apenas 3,6 Mha (14%) coincidiam com áreas de uso comum da vegetação nativa. Isso sugere que a maior parte do desmatamento nesses biomas ocorreu sem uma licença registrada e divulgada publicamente (ver nota de isenção de responsabilidade no final).

No Brasil, a maior parte do desmatamento ocorre sem autorização.
Percentual de desmatamento sem Autorização para Supressão da Vegetação (ASV), 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Na Amazônia, as evidências de desmatamento irregular são impressionantes. O desmatamento totalizou 11,7 milhões de hectares entre 2009 e 2024, sendo que 11,2 milhões de hectares (96%) ocorreram sem um Sistema de Vigilância de Manejo (SVM). Além disso, o desmatamento irregular apresenta alta concentração geográfica. Apenas cinco municípios foram responsáveis ​​por 20% de todo o desmatamento sem SVM. Três municípios, Altamira, São Félix do Xingu e Porto Velho, responderam por 13% do total de desmatamento irregular.

No Cerrado, o desmatamento total atingiu 14,7 milhões de hectares no período de 2009 a 2024. Embora a proporção de desmatamento não autorizado seja menor do que na Amazônia, a área absoluta é elevada. Constatamos que 11,7 milhões de hectares (78%) do desmatamento ocorreram sem um Acordo de Vigilância de Manejo (AVM), enquanto apenas 3,2 milhões de hectares (22%) foram abrangidos por um AVM. O desmatamento sem AVM é menos concentrado no Cerrado em comparação com a Amazônia. Nossa análise mostra que 29 municípios foram responsáveis ​​por 20% da área total desmatada sem AVM.

Fiscalização menos eficaz no Cerrado

O banco de dados do ICV também inclui informações sobre Áreas Embargadas – sanções emitidas por agências ambientais federais e estaduais que servem como um indicador adicional de infrações ambientais. Comparamos os dados oficiais de desmatamento por satélite do PRODES para o período de 2009 a 2024 com as Áreas Embargadas para fornecer uma camada extra de evidências de descumprimento.

Grande parte do desmatamento na Amazônia está associada a áreas embargadas.
Percentual de desmatamento associado a áreas embargadas, 2009–2024. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

A análise mostra que 46% de todo o desmatamento na Amazônia coincide com áreas embargadas, o que significa que quase metade do desmatamento não autorizado foi sinalizado por agentes federais.

Em contraste, apenas 8% do desmatamento no Cerrado coincide com áreas sob embargo. Essa discrepância sugere que, embora o descumprimento seja generalizado em ambos os biomas, a fiscalização é muito mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.

A fiscalização é mais ativa na Amazônia do que no Cerrado.
Desmatamento por bioma em 2009–2024 e abrangência da Autorização para Supressão da Vegetação (ASV) e Áreas Embargadas. Os dados incluem apenas os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Gestão de riscos nas cadeias de abastecimento de soja e carne bovina

Na próxima etapa deste projeto, liderado pelo Centro de Inteligência Territorial da Universidade Federal de Minas Gerais, focaremos na produção de soja e carne bovina nos biomas Cerrado, Amazônia e Pantanal, avaliando o cumprimento do Código Florestal e identificando casos ligados ao desmatamento irregular, utilizando dados de Áreas de Vegetação Sustentável (AVS) e Áreas Embargadas.

Esses dados permitirão que as empresas a jusante na cadeia de suprimentos que utilizam soja e carne bovina em seus produtos priorizem a devida diligência e a avaliação de riscos, identificando os municípios com as maiores taxas de desmatamento não autorizado. Para os governos produtores e consumidores, isso fornece um roteiro para direcionar recursos de fiscalização e monitoramento onde são mais necessários. Dados transparentes sobre a legalidade são essenciais para fortalecer a responsabilização e apoiar a transição para cadeias de suprimentos legais e livres de desmatamento.

Aviso: Apesar da sólida estrutura legal brasileira que rege a transparência das informações ambientais, existem limitações quanto à completude, formato e acessibilidade dos dados sobre Áreas de Conservação Ambiental (ACAs) e Áreas Embargadas. Consequentemente, deve-se ter cautela no uso e na interpretação dos resultados desta análise. Informações detalhadas sobre a metodologia desta análise podem ser encontradas aqui .


Fonte: Trase

Povos indígenas exigem a proteção das florestas tropicais contra as indústrias extrativistas

mapas de extrativismoComunidades indígenas exigem o reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a natureza. Crédito da imagem: Sergio Carranza Basantes/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed.

Por Aleida Rueda para o SciDev 

[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Grupos indígenas e comunidades locais de diferentes regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia, uniram-se em uma reivindicação global pelo reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a preservação da natureza.

O apelo é consequência de um novo relatório elaborado pela Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight, que expõe pela primeira vez, com mapas detalhados, a crise ambiental causada pelo modelo de produção baseado na extração intensiva de recursos naturais.

Os mapas indicam as áreas onde ocorrem atividades de extração de petróleo e gás, bem como mineração, exploração madeireira industrial e agricultura em larga escala nas florestas da Amazônia, da região do Congo, da Indonésia e da Mesoamérica, onde vivem 35 milhões de indígenas.

Um estudo realizado pela Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight produziu mapas detalhados das indústrias extrativas em várias regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia. Crédito da imagem: Earth Insight.

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo”, disse Juan Carlos Jintiach Arcos, secretário executivo da GATC, à SciDev.Net .

“Eles não podem mais dizer que inventamos essas coisas. Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam”, afirmou ele.

Jintiach Arcos, que faz parte do povo Shuar da Amazônia equatoriana, também afirmou que este relatório demonstra que as ameaças aos territórios indígenas não são incidentes isolados, mas parte de um padrão estrutural que se repete em todas as regiões de floresta tropical do mundo.

Esse padrão é evidente nos mapas do relatório, que constituem “uma ferramenta poderosa, pois são uma forma de tornar visível, de forma clara e urgente, o que normalmente fica oculto em documentos técnicos ou bancos de dados dispersos”, disse Florencia Librizzi, vice-diretora da Earth Insight, ao SciDev.Net .

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo (…) Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam.”

Juan Carlos Jintiach Arcos, Secretário Executivo do GATC

Na Mesoamérica , por exemplo, o relatório mostra que existem 3,7 milhões de hectares (Mha) de terras de povos indígenas e comunidades locais ameaçadas pela extração de petróleo e gás, enquanto as concessões de mineração ameaçam 18,7 milhões de hectares desse tipo de terra.

A isso se somam outras ameaças, como o tráfico de drogas, o desmatamento, a construção de megaprojetos e a fragilidade da governança em países como México, Honduras e Nicarágua.

Na Amazônia , onde 250 milhões de hectares são terras habitadas por povos indígenas e comunidades locais, 31 milhões de hectares estão ameaçados por petróleo e gás; 9,8 milhões de hectares por mineração; e 2,4 milhões de hectares por exploração madeireira.

As indústrias extrativas estão presentes em todos os países da Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, mas existem diferenças interessantes.

Por exemplo, a indústria petrolífera representa uma ameaça maior na Amazônia do que na Mesoamérica, mas nesta última, a maior parte da exploração ocorre longe da costa ( em alto-mar). Também se observa que países como Suriname e Guiana têm uma concentração maior de concessões madeireiras do que o resto da região.

Após a divulgação do relatório, as pessoas que vivem nas áreas ameaçadas estão exigindo mudanças. A principal reivindicação é a garantia e o reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, bem como a asseguração do consentimento livre, prévio e informado  (CLPI) para todos os projetos.

“Muitas vezes, empresas ou governos chegam aos nossos territórios sem compreender os nossos processos internos, sem respeitar as nossas formas de governação e tomada de decisões, ou pior, enganando as nossas comunidades para obter uma assinatura ou autorização. Isso não é consentimento”, afirmou Jintiach Arcos.

O consentimento, esclareceu ele, “não busca abrir as portas para as indústrias extrativas, mas afirmar nossa soberania (…) que somos nós que decidimos o que entra e o que não entra em nossos territórios”.

Outra reivindicação diz respeito ao financiamento direto para as comunidades indígenas. “Não estamos falando apenas do dinheiro chegar às comunidades”, explicou Levi Sucre Romero, diretor-geral da Aliança Mesoamericana dos Povos e das Florestas (AMPB). Especificamente, eles se referem a empresas, governos e organizações multilaterais que modifiquem seus modelos de financiamento, fortaleçam os sistemas de governança que sustentam esses territórios e criem mecanismos diferenciados de monitoramento e avaliação que respondam às realidades de cada território.

Para Ivan Brehaut, diretor de programas da Associação ProPurus, dedicada à proteção das florestas, e que não participou do relatório, o documento oferece um panorama muito claro de onde estão as ameaças, não apenas para as florestas, mas também para os povos indígenas em isolamento e em contato inicial (PIACI).

“Para a maioria das pessoas, a floresta tropical continua sendo um espaço vazio, sem população. Mostrar a sobreposição entre as áreas do PIACI e as iniciativas extrativistas ajuda a perceber o nível de impacto causado pelas indústrias extrativistas na vida das pessoas”, disse ele ao SciDev.Net .

No entanto, acrescentou, não haverá interrupção do extrativismo enquanto a economia mundial depender de combustíveis fósseis e enquanto não for reconhecido que as florestas (e seus habitantes, os povos indígenas) “são mais do que apenas uma mercadoria ”.

Evidências de proteção bem-sucedida

O relatório não apenas destaca as ameaças, mas também propõe soluções. Por exemplo, onde há maior reconhecimento dos direitos territoriais e da governança comunitária, a saúde da natureza é preservada e o desmatamento diminui significativamente.

“Um exemplo é a Reserva da Biosfera Maia na Guatemala, onde a sobreposição com as concessões é muito menor, a ponto de o desmatamento em áreas comunitárias ser mais de sete vezes menor que a média nacional”, disse Librizzi.

Para Olo Villalaz, líder da AMBP, isso tem a ver com a forma como as comunidades entendem o cuidado com as florestas.

“Entendemos que a Mãe Terra é um único lar onde todos vivemos e do qual nossas vidas dependem. Sua proteção se baseia no respeito, na espiritualidade e em decisões tomadas coletivamente, onde cada voz — de mulheres, jovens, idosos e autoridades — tem seu lugar”, disse ela ao SciDev.Net .

Líderes indígenas concordaram que, embora pareça não haver como deter o extrativismo na região, existem sinais de esperança: “Não falamos mais sozinhos. Hoje, o mundo começa a entender que sem os povos indígenas não há futuro possível”, afirmou Jintiach Arcos.

De acordo com Librizzi, há claros sinais de progresso devido à crescente colaboração entre organizações indígenas nas três principais bacias tropicais: a Amazônia, a bacia do Congo e o Sudeste Asiático. “Isso está gerando uma voz coletiva mais forte e coordenada.”

Jintiach concordou: “A esperança reside na força organizada do povo, na nossa capacidade de propor, resistir e construir. Não pedimos para sermos incluídos; exigimos ser aliados em pé de igualdade, porque sem nós, a regeneração é impossível.”


Fonte: SciDev.Net