JBS, maior empresa de carnes do mundo, não irá cumprir promessa de conter o desmatamento

A pecuária é a principal causa do desmatamento. Múltiplos problemas para atingir as metas de desmatamento zero

“Enquanto a JBS lucra, as florestas queimam”, protesto do Greenpeace contra a empresa de carnes JBS
Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília.A empresa de carnes JBS S.A. provavelmente não conseguirá cumprir sua meta de adquirir carne bovina na Amazônia apenas de origem livre de desmatamento até o final de 2025.

Isso é de acordo com um novo estudo do The Guardian, Unearthed e Repórter Brasil. Aqui, mais de 35 insiders revelam dúvidas de que a JBS seja capaz de atingir suas metas de desmatamento zero. Os fazendeiros e líderes sindicais entrevistados representam milhares de fazendas nos estados do Pará e Rondônia, que foram responsáveis por 66% do desmatamento na Amazônia desde 1988.

O desmatamento para a pecuária para produção de carne bovina é a principal causa do desmatamento na Amazônia. Os cientistas há muito alertam que a destruição da floresta está levando a região a um ponto de inflexão, transformando o pulmão verde da Terra de um sumidouro de carbono em um emissor de CO2.

A corporação global JBS tem capacidade para abater 76.000 bovinos, 14 milhões de frangos e 142.000 suínos todos os dias. O grupo fornece empresas como McDonald’s, Tesco e Walmart, alcançou vendas anuais de 77 bilhões de dólares em 2024 e atualmente planeja estar na lista de ações na Bolsa de Valores de Nova York.

De acordo com os sindicatos de agricultores entrevistados, agricultores e seus clientes, a JBS, assim como os pecuaristas, tem a vontade de que o gado seja proveniente apenas de uma produção livre de desmatamento. Mas a meta é inatingível devido a inúmeros conflitos de terra não resolvidos.

O problema da “lavagem ilegal de gado” (ou seja, rotulagem fraudulenta de gado de neuroesterco como “livre de desmatamento”) também não pôde ser resolvido a tempo. Os fornecedores indiretos, por exemplo, admitiram “limpar” a origem ecológica problemática de seus rebanhos por meio de intermediários. Vários produtores previram que um novo sistema de rastreabilidade também abriria brechas, como o abate em outros locais e a venda da carne – em vez de gado vivo – para a JBS a preços mais baixos.

A JBS negou os resultados da pesquisa ao The Guardian. Nenhuma conclusão pode ser tirada de uma amostra limitada, pois a JBS possui mais de 40.000 fornecedores registrados. Embora os desafios sejam imensos e não possam ser resolvidos apenas por empresas individuais, a JBS possui um sólido pacote de políticas integradas que podem reduzir de forma significativa e positiva os riscos de desmatamento. A JBS ainda não finalizou sua cadeia de suprimentos, mas já registrou mais de 80% de suas compras anuais de gado em uma plataforma web de pecuária transparente e habilitada para blockchain.

De acordo com Adelosmar “Ticão” Orio, do Sindicato dos Produtores Rurais de Tucumã-Ourilãndia, desafios logísticos, como a necessidade de equipamentos especiais, como rastreadores auriculares e sistemas via satélite, impossibilitaram o cumprimento da promessa da JBS até o final do ano. Nem mesmo a JBS sabe como a rastreabilidade deve ser implementada.

Os pequenos e médios criadores de gado estão arcando com a maior parte do fardo, enquanto a JBS e o governo não estão fazendo o suficiente para explicar o novo sistema de rastreamento e fornecer suporte tecnológico. O governador do Pará, Helder Barbalho, admitiu que houve resistência e que os pequenos produtores em particular precisavam de mais apoio.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação em 2024 acusando a JBS de enganar os consumidores com “metas climáticas” para aumentar as vendas.

Em 2022, a organização indígena Apib processou uma rede de supermercados francesa que vendia carne da JBS.

Um grupo bipartidário de 15 senadores dos EUA pediu à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) que rejeite o pedido de listagem da JBS. De acordo com uma carta aberta de 2024, dezenas de reportagens jornalísticas e de ONGs mostraram que a JBS está associada a mais destruição de florestas e outros ecossistemas do que qualquer outra empresa no Brasil.


Fonte: Amerika21

Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa

Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa

Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países 

Luciana Constantino | Agência FAPESP

Um dos pilares da economia brasileira e um dos setores responsáveis pelas maiores emissões de gases de efeito estufa, a produção de carne bovina no Brasil, da forma como é feita atualmente, emite mais do que o dobro do limite necessário para cumprir metas ambientais internacionais. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa publicada na revista Environmental Science and Pollution Research.

O trabalho traz uma avaliação de cenários preditivos de emissões, juntamente com uma valoração econômica. As pesquisadoras calcularam que as emissões do setor podem variar de 0,42 a 0,63 gigatonelada de CO2 equivalente (GtCO2e) até 2030, enquanto o limite para atender à meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) seria de 0,26 GtCO2e. Por outro lado, estratégias de mitigação ao longo da cadeia produtiva poderiam evitar perdas de até US$ 42,6 bilhões e garantir maior competitividade.

A NDC (sigla em inglês para Nationally Determined Contributions) é o compromisso que os países assumiram no Acordo de Paris, assinado em 2015 e que passará por revisão neste ano até a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a ser realizada em Belém (PA).

No compromisso estão as metas de redução de emissões dos países, com diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento, abrangendo todos os setores da economia. O objetivo global é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial (entre 1850 e 1900). Esse limite, no entanto, vem sendo colocado em risco – 2024 foi o ano mais quente da história, com aumento médio da temperatura global de 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O estudo usou como base a NDC em vigor até 2024 – redução das emissões em 43% até 2030 em comparação a 2005. Em novembro, o Brasil entregou à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova contribuição, com o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035 – uma queda de 59% a 67% em comparação aos níveis de 2005.

“Sabemos da importância do setor de carne bovina não só para a economia como para o cardápio dos brasileiros. Nosso objetivo não é dizer: produzam ou comam menos carne, mas sim trazer uma discussão sobre a forma atual de produção, que vem atrelada ao desmatamento, a altas emissões e sem adotar técnicas sustentáveis. Assim, não conseguiremos cumprir as metas climáticas estabelecidas. Nossas descobertas mostram que é preciso adotar na cadeia produtiva práticas que mitiguem as emissões. Isso contribui também com a redução dos custos associados às mudanças climáticas”, diz a primeira autora do artigo, a bióloga Mariana Vieira da Costa, do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No trabalho, as autoras usaram o chamado custo social do carbono (CSC), uma forma de quantificar o impacto financeiro das emissões na sociedade, sendo uma referência para a construção de políticas climáticas e tomada de decisões.

O CSC representa os custos econômicos causados pela emissão de uma tonelada de CO2, incluindo impactos não comerciais sobre o meio ambiente e a saúde humana e incorporando consequências, como perdas na agricultura e danos provocados por eventos climáticos extremos. Esses custos podem ser reduzidos ou redirecionados para investimentos em práticas de produção pecuária mais sustentável por meio de políticas públicas e linhas de crédito acessíveis.

Segundo a pesquisa, o potencial de redução de custos varia entre US$ 18,8 bilhões e US$ 42,6 bilhões até 2030 dependendo do cumprimento das metas.

Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países, atingindo um faturamento de US$ 10,55 bilhões. As cientistas consideraram a relevância da exportação de carne bovina para o Brasil ao calcular quanto estaria disponível para consumo interno em 2030, caso a produção fosse reduzida para se manter dentro do limite de emissão de 0,26 GtCO2e, necessário para o cumprimento da NDC. O resultado obtido foi de 2 a 10 kg de carne bovina per capita (no ano).

“Sempre quis estudar a relação da pecuária bovina com as mudanças climáticas. No início, tivemos dificuldades de encontrar dados mais refinados. Por isso, criamos nosso indicador”, complementa Costa, que contou com a orientação da professora Simone Miraglia, líder do Lespa-Unifesp e coautora do artigo juntamente com a bióloga Daniela Debone.

Para Miraglia, os resultados são importantes, pois, se não houver reduções expressivas nas emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura média global acarretará impactos econômicos adicionais, como a redução da produção agrícola, o aumento dos incêndios florestais e a intensificação dos efeitos sobre a saúde, incluindo a mortalidade, por exemplo.

Cenário

Em um período de quase quatro décadas (1985 a 2022), a área ocupada pela agropecuária no Brasil cresceu 50%, ficando em 282,5 milhões de hectares – um terço do território nacional. Do total, 58% são de pastagens (atualmente em 164,3 milhões de hectares), de acordo com levantamento do MapBiomas.

Cerca de 64% da expansão da agropecuária foi resultado do desmatamento para pastagem (64,5 milhões de hectares). Esse crescimento se deu, principalmente, na Amazônia, levando o bioma a superar o Cerrado em área de pastagem.

As cientistas apontam a necessidade de sinergia entre pesquisa e produtores rurais com o objetivo de promover práticas de produção mais eficientes e de baixa emissão, buscando técnicas e tecnologias ambientalmente sustentáveis. Além disso, destacam o papel que o governo federal pode desempenhar na mediação e integração da pesquisa e da adoção de tecnologias pelos produtores.

Citam que, embora o Plano ABC+ atualmente facilite investimentos dos pecuaristas em práticas intensivas, sua adoção ainda é baixa. O Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) é uma agenda do governo brasileiro, a ser executada entre 2020 e 2030, que dá continuidade à política setorial para enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. Além de criar e fortalecer mecanismos para adoção de sistemas e práticas de produção sustentáveis, busca diversificar fontes e instrumentos financeiros e fiscais.

Costa destaca que a diversificação de incentivos, como isenções fiscais e a implementação de créditos de carbono, é essencial para estimular e promover mudanças significativas em larga escala no setor.

O trabalho teve o apoio da FAPESP por meio de bolsa de estudo a Costa e de outro projeto com abordagem para analisar emissão de gases de efeito estufa, mudanças climáticas e indicadores de saúde.

O artigo Brazilian beef production and GHG emission – social cost of carbon and perspectives for climate change mitigation pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11356-025-36022-1.


Fonte: Agência Fapesp

Conversão de florestas em pastos e cidades afeta o clima na Amazônia

Mudança de uso de solo e seca na Amazônia contribui para mudanças climáticas ameaça segurança alimentar e ecossistema 

Áreas da Floresta Amazônica convertidas em pastos e cidades têm maior amplitude térmica, menor umidade, maior reflexão da luz solar e perda de eficiência na regulação do clima. Essas são algumas das conclusões obtidas pelo estudo “Microclima no Cenário de Floresta, Pastagem e Cidade no Sudoeste da Amazônia”, publicado na “Revista Brasileira de Meteorologia”. O trabalho, realizado em colaboração entre o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), indica que é preciso equilibrar os efeitos das atividades humanas para reduzir os impactos negativos dessas transformações. 

Para avaliar se mudanças no uso e na cobertura do solo podem afetar as variáveis micrometeorológicas em florestas, os pesquisadores coletaram dados sobre temperatura, radiação solar, chuva e umidade do ar em três ambientes distintos: florestas, pastagens e cidades. As medições ocorreram em Rondônia, sudoeste da Amazônia, em 2017. Com base nas informações amostrais e em estudos anteriores, a equipe calculou possíveis diferenças nos parâmetros entre os tipos de cobertura e comparou os resultados por meio de análises estatísticas.

Entre os principais resultados, destacam-se a redução da umidade nos ambientes antropizados e uma diferença de 2°C na amplitude térmica diária, ou seja, na diferença entre as temperaturas máximas e mínimas do dia. Pastagens e cidades apresentaram uma variação térmica maior. “O processo de remoção das florestas em Rondônia vem sucedido por pastagens e cidades, que são paisagens homogêneas e modificam toda a dinâmica local; elas acabam contribuindo menos com a evapotranspiração e aquecendo mais, tornando o local mais seco e mais quente”, alerta Bárbara Antonucci, primeira autora do estudo. O conceito de evapotranspiração abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas

A conversão de florestas em pastagens e áreas urbanas também elevou a capacidade de reflexão da luz solar, um fenômeno conhecido como albedo. A maior variação foi observada na substituição da floresta pela cidade, resultando em um aumento de 264%. “O albedo indica o quanto de luz é refletida, como em um espelho”, diz a pesquisadora. Ela explica que, nas florestas, a luz solar é absorvida e utilizada, principalmente, em três processos: aquecimento do ar, fotossíntese e evapotranspiração. No entanto, nas áreas urbanas analisadas, apenas uma pequena fração é aproveitada na fotossíntese e o restante se converte em calor. “Vimos que as cidades e pastagens, superfícies com maior albedo, refletem mais luz, acumulam menos energia e tendem a ser mais quentes”, complementa.

Segundo Antonucci, além de alterar o microclima, as mudanças identificadas podem ter impactos importantes na biodiversidade local e nas atividades econômicas que dependem do clima e do solo, por exemplo. “A interrupção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas florestas, como evapotranspiração, regulação térmica e sombreamento, pode levar ao agravamento de extremos climáticos”, diz a autora. “Ainda, a maior vulnerabilidade dessas áreas pode comprometer a agricultura, tornando as atividades produtivas mais suscetíveis a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuvas, o que também afetaria a segurança alimentar e a economia local”, acrescenta.

Para ela, ações de mitigação e preparo são urgentes para lidar com os possíveis impactos da conversão florestal em ambientes antropizados. “Uma medida essencial é a adoção de estratégias para cidades mais resilientes, como a arborização, e o reconhecimento dos serviços ambientais prestados historicamente por populações tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e comunidades indígenas”, sugere Antonucci. 

A autora argumenta que políticas públicas devem priorizar incentivos à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais e defende que é imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os saberes locais. Nesse sentido, a equipe de pesquisadores visa, agora, aprofundar as análises micrometeorológicas da região, identificar padrões e tendências e integrar os estudos com as comunidades locais, visando contribuir para mudanças de paradigmas.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-778640230038


Fonte: Agência Bori

Nas partes mais intocadas e intocadas da Amazônia, os pássaros estão morrendo. Cientistas podem finalmente saber o porquê

As populações vêm caindo há décadas, mesmo em áreas de floresta não danificadas por humanos. Especialistas passaram duas décadas tentando entender o que está acontecendo

Um papa-moscas real da Amazônia: pássaros estão morrendo em partes intocadas da floresta amazônica e pesquisadores têm trabalhado para entender o porquê. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer

Por Tess McClure para o “The Guardian”

Alguma coisa estava acontecendo com os pássaros em Tiputini. O centro de pesquisa de biodiversidade, enterrado nas profundezas da Amazônia equatoriana, sempre foi especial. É surpreendentemente remoto: uma pequena dispersão de cabines de pesquisa em 1,7 milhões de hectares de floresta virgem. Para os cientistas, é o mais próximo que se pode chegar de observar a vida selvagem da floresta tropical em um mundo intocado pela atividade humana.

Quase todos os anos desde sua chegada em 2000, o ecologista John G Blake estava lá para contar os pássaros. Levantando-se antes do sol, ele registrava a densidade e a variedade do coro do amanhecer. Caminhando lentamente pelo perímetro dos lotes, ele anotava todas as espécies que via. E por um dia a cada ano, ele e outros pesquisadores lançavam enormes redes de “névoa” que capturavam pássaros voadores em sua trama, onde eles eram contados, desembaraçados e soltos.

Uma vista curva de uma floresta tropical exuberante e enevoada

Uma vista de olho de peixe da floresta tropical de planície do topo da torre de dossel em Tiputini. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

Durante anos, essas contagens capturaram as flutuações anuais dos pássaros; eles tiveram anos bons e ruins, estações em que os ninhos foram interrompidos por tempestades e outras em que eles explodiram. Mas por volta de 2012, Blake e seus colaboradores puderam ver que algo estava mudando. Os pássaros estavam morrendo: não em massa de uma vez, atingidos por uma praga, mas geração após geração. As flutuações anuais que ele passou uma década registrando lentamente interromperam seus saltos ascendentes, a linha de tendência se transformando em uma inclinação descendente inflexível. Em 2022, seus números haviam caído quase pela metade. Blake não precisava do gráfico para lhe dizer que algo estava errado; quando ele se levantou para ouvir o coro do amanhecer, ele podia ouvir que estava abafado. As canções estavam faltando. Algumas espécies simplesmente desapareceram.

“Há alguns deles que não ouço há alguns anos”, ele diz, por uma conexão de vídeo quebrada do centro de pesquisa; longe do mundo exterior, ele tem energia intermitente e depende de uma conexão via satélite. “Definitivamente, há algumas espécies que, por qualquer razão, parecem não estar mais aqui.”

Um pequeno pássaro com cabeça vermelha, rosto e peito amarelos e asas e cauda pretas pousa em um galho.

Manakin macho de cauda metálica ( Pipra filicauda ) em um poleiro em Tiputini. Fotografia: Tim Laman/NPL/Alamy

Na América do Norte e na Europa, os cientistas há muito alertam que o número de pássaros está diminuindo, mas isso tem sido explicado principalmente pelo contato deles com humanos. À medida que cidades e fazendas se expandem, as florestas ao redor delas se tornam fragmentos, os habitats dos animais encolhem, a poluição contamina os rios, pesticidas e fertilizantes matam insetos. Até mesmo animais de estimação são um fator — nos EUA, gatos domésticos estão matando cerca de 4 bilhões de pássaros por ano. Tiputini, no entanto, é um dos poucos pedaços do planeta que não sente diretamente essas pressões: nenhuma fazenda próxima, nenhuma fábrica poluente, nenhum madeireiro invasor, nenhuma estrada. No entanto, seus pássaros estavam morrendo.

Em outros locais remotos ao redor do mundo, cientistas estavam começando a observar tendências semelhantes. No Brasil, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (BDFFP) é um estudo ecológico localizado nas profundezas da floresta primária da Amazônia, inacessível por estrada. Essas regiões abrigam algumas das florestas vivas mais antigas do planeta – elas escaparam dos eventos da era glacial que reconstruíram as florestas nos EUA e na Europa com o crescimento e recuo das geleiras. “Na Amazônia, tivemos bolsões de florestas estáveis ​​ao longo de milhões de anos”, diz o ecologista Jared Wolfe, um dos cientistas pesquisadores do projeto. “O local é realmente incrível.”

Mas em 2020, quando pesquisadores compararam o número de pássaros com a década de 1980, eles encontraram uma série de espécies em declínio profundo . Em outro local no Panamá, cientistas trabalhando em um trecho de 22.000 hectares de floresta intacta vinham coletando dados sobre pássaros desde meados da década de 1970. Em 2020, seus números caíram vertiginosamente: 70% das espécies haviam diminuído, a maioria delas severamente; 88% haviam perdido mais da metade de sua população. Em alguns locais, os cientistas estão começando a observar “um colapso quase completo da comunidade”, diz Wolfe. “Isso está ocorrendo em ambientes intocados, o que é realmente perturbador.”

Uma piscina de lama em uma floresta densa.

O estudo ecológico do BDFFP está localizado nas profundezas da floresta amazônica primária brasileira, inacessível por estrada. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec

Por décadas, cientistas vêm tentando entender o que está acontecendo. Blake e a ornitóloga colaboradora Bette A Loiselle publicaram seu primeiro artigo documentando os declínios em 2015, mas não puderam dizer definitivamente o que os estava causando. Eles testaram pássaros para doenças e parasitas e não encontraram nenhuma ligação clara. Eles consideraram a possibilidade de que uma toxina ou poluente desconhecido tivesse se infiltrado – mas não havia evidências disso. “Suspeito que o que quer que esteja causando esses declínios seja algo muito mais disseminado”, diz Blake. “Não seria algo específico da área de Tiputini.”

A resposta mais provável, concluíram eles, era a crise climática. “Há muito pouco mais — pelo menos que eu saiba — que tenha impactos mundiais de tão grande escala”, diz Blake.

Uma década depois, seus instintos estão se mostrando corretos. Esta semana, Wolfe e colaboradores publicaram um novo trabalho ligando diretamente o aumento das temperaturas ao declínio de pássaros. Sua pesquisa, publicada na Science Advances , rastreou pássaros que vivem no sub-bosque da floresta no BDFFP em comparação com dados climáticos detalhados. Eles descobriram que estações secas mais severas reduziram significativamente a sobrevivência de 83% das espécies. Um aumento de 1 °C na temperatura da estação seca reduziria a sobrevivência média dos pássaros em 63%.

Exatamente como o calor está causando o declínio do número de pássaros é difícil de identificar, diz Wolfe, mas “esses pássaros estão intrinsecamente ligados a pequenas, pequenas mudanças na temperatura e na precipitação”. Uma das maneiras mais imediatas pelas quais um planeta em aquecimento prejudica a vida selvagem é colocá-la fora de sintonia com suas fontes de alimento: quando menos insetos sobrevivem às estações secas, ou as folhas florescem e os frutos amadurecem em épocas diferentes, os pássaros se veem incapazes de forragear e alimentar seus filhotes. Seus ninhos começam a falhar. Em poucas gerações, seus números caem.

Em uma clareira na floresta, um homem se inclina sobre uma longa mesa coberta de apetrechos científicos, olhando por cima do ombro de um segundo homem que está sentado examinando as asas de um pequeno pássaro que ele está segurando.

Luke Powell, à esquerda, e Jared Wolfe coletam dados de pássaros capturados em redes de neblina. Fotografia: Cortesia de Tristan Spinski

As perdas documentadas nessas estações remotas têm implicações muito além dos pássaros. “A ideia sempre foi que se você tem grandes extensões de floresta, então isso vai proteger tudo”, diz Blake. “E, bem, isso protege muitas coisas. Mas aparentemente não tudo.”

A maior parte da conservação ocidental funciona seccionando áreas selvagens, como parques ou reservas nacionais. Esses lugares são como arcas: reservatórios de vida selvagem que esperamos que sejam salvos, mesmo que as pessoas transformem a terra ao redor deles. Mas o que os pesquisadores estavam vendo com pássaros sugeria que essas arcas são muito mais frágeis do que se pensava inicialmente.

Dois prédios baixos com telhado de zinco ficam em ângulos retos em meio à densa floresta.

Uma das estações de pesquisa do BDFFP. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec

Wolfe compara o problema à poluição em um grande corpo de água. Quando cientistas medem a qualidade da água, eles pensam sobre poluição de duas maneiras. A poluição de “fonte pontual” pode ser um cano de óleo jorrando: está causando um dano enorme, mas ao fechá-lo você conserta o problema. “Fonte não pontual” seriam os pequenos pingos de óleo vindos de cada carro na área, levados das estradas para os cursos d’água: cada contribuição pode ser minúscula, mas o efeito cumulativo pode ser enorme – e difícil de desligar. “É muito difícil de combater”, diz Wolfe. O que está acontecendo com os pássaros “parece uma fonte não pontual; um problema complexo e perverso onde você tem colapsos em interações biológicas que estão causando esses declínios”.

Mas perceber o que está acontecendo é necessário para desenvolver soluções, diz Wolfe. “Uma coisa da qual estou ficando particularmente cansado como pesquisador profissional é escrever esses obituários para pássaros”, ele diz. A pesquisa em regiões intocadas também pode revelar soluções potenciais: dados iniciais sugerem que algumas florestas estão resistindo aos declínios. Identificar o porquê — e protegê-los — é crucial.

Um pássaro marrom com bico pontudo e afiado, crista amarela e bochechas vermelhas.

Um pica-pau-castanho ( Celeus elegans ) na Amazônia. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer

Para os cientistas que estão vendo pássaros desaparecerem, há tristeza em assistir a alguns dos lugares mais belos e ecologicamente ricos do mundo entrarem em declínio. “É deprimente”, diz Blake. “Quando chegamos aqui e começamos a procurar, ficamos totalmente surpresos com a quantidade de pássaros que havia e sua diversidade. Continuamos fazendo o trabalho – mas é mais difícil ficar animado em fazê-lo porque há muito pouco.”


Fonte: The Guardian

Queimadas no Brasil consumiram área de florestas maior do que a Itália em 2024, mostra relatório

Novo relatório diz que mais de 30 milhões de hectares foram queimados, 79% a mais do que em 2023, depois que o país sofreu a pior seca já registrada

Um carro dirigindo ao lado de um incêndio florestal

Um carro circulando por uma rodovia em uma área tomada por um incêndio florestal perto da cidade de Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 12 de setembro de 2024. Fotografia: Isaac Fontana/EPA

Por Tiago Rogero para o “The Guardian”

Depois de enfrentar sua pior seca já registrada em 2024, o Brasil fechou o ano com outro marco alarmante: entre janeiro e dezembro, 30,86 milhões de hectares de florestas foram queimados – uma área maior que a Itália.

O número divulgado no novo relatório é 79% maior do que em 2023 e o maior registrado pelo Fire Monitor desde seu lançamento em 2019 pelo MapBiomas, iniciativa de ONGs, universidades e empresas de tecnologia que monitora os biomas brasileiros.

Os dados podem causar constrangimento enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30 em Belém, capital do estado amazônico do Pará, em novembro.

Não só o estado foi o mais atingido pelos incêndios, respondendo por 24% da área total queimada, mas a Amazônia também foi o mais afetado dos seis biomas do Brasil, com 58%. A área queimada na Amazônia em 2024 excede o total queimado em todo o país em 2023.

“Foi um aumento absurdo”, disse Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas, acrescentando que, pela primeira vez, as áreas de floresta foram as mais afetadas, superando campos e pastagens. “Uma vez que uma floresta é atingida pelo fogo, ela leva anos e anos para se recuperar… Se houver outra seca e essa floresta não for protegida, ela vai queimar de novo”, disse ela.

Os pesquisadores acreditam que a seca severa entre 2023 e 2024 — a pior desde que o governo começou a manter registros em 1950 — agravada pelo El Niño foi um fator decisivo no aumento dos incêndios florestais.

“Mas isso é apenas uma parte da equação. A outra envolve a atividade humana”, disse Alencar, apontando principalmente para o setor agrícola, que frequentemente usa fogo para limpar pastagens, assim como o desmatamento, que foi drasticamente reduzido no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda não foi erradicado.

“Também houve casos em que os incêndios simplesmente começaram no meio de uma floresta, o que sugere possível atividade criminosa”, disse o pesquisador.

Um bombeiro molhando árvores com água para apagar um incêndio

Bombeiros combatem um incêndio florestal em uma área da floresta nacional de Brasília em 4 de setembro de 2024 em Brasília, Brasil. Fotografia: Anadolu/Getty Images

No pico dos incêndios em setembro , havia suspeitas de que os incêndios poderiam ter sido parte de uma reação criminosa contra os esforços federais para reprimir o desmatamento e a mineração ilegal . A Polícia Federal abriu 119 investigações sobre suspeitas de incêndio criminoso somente em 2024 , um aumento em relação à média de 70 dos anos anteriores.

Alencar teme que 2025 possa ver um cenário semelhante. “Precisaríamos de uma estação chuvosa muito forte para realmente repor o solo, e isso ainda não aconteceu”, disse ela.

Apesar das estatísticas sombrias, ela diz que a culpa não pode recair sobre o governo Lula. “Se tivéssemos visto no ano passado o nível de desmatamento que tivemos em 2022 [quando o negacionista das mudanças climáticas Jair Bolsonaro estava no comando ], combinado com as condições climáticas de 2024, então teria sido o pior cenário possível”, disse ela.

“Uma conclusão clara é que a conservação florestal vai muito além do combate ao desmatamento. Também precisamos focar no combate às mudanças climáticas”, disse Alencar.


Fonte: The Guardian

Desmatamento e degradação tem sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia, aponta Imazon

Novembro teve alta de 41% nas áreas desmatadas e 84% nas degradadas

Monitoring of Deforestation and Fires in the Amazon
Monitoramento de Desmatamento e Fogo na Amazônia em julho de 2024

Sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas em 2024. Imagem: Marizilda Cruppe / Greenpeace

Por Imazon

A Amazônia teve em novembro o sexto mês consecutivo de aumento tanto no desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, quanto na degradação florestal, que é o dano causado pelo fogo ou pela extração madeireira. Segundo o monitoramento por imagens de satélite Imazon, as áreas desmatadas passaram de 116 km² em novembro de 2023 para 164 km² no mesmo mês neste ano, uma alta de 41%. Já a as florestas degradadas passaram de 1.566 km² para 2.882 km², 84% a mais.

Com isso, o desmatamento acumulado de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 3.654 km², apenas 7% a menos do que no mesmo período do ano passado. Além disso, foi a 7ª maior área desde 2008, quando o Imazon implementou seu sistema de monitoramento.

Captura de tela 2024 12 18 135732 - Desmatamento e degradação têm sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia

Enquanto isso, por causa do aumento expressivo nas queimadas, a degradação acumulada de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 35.751 km², área sete vezes maior do que a registrada no mesmo período do ano anterior e a pior desde 2009. Já em comparação com o desmatamento registrado no período, a degradação foi quase 10 vezes maior.

Captura de tela 2024 12 18 135821 - Desmatamento e degradação têm sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia

“Esses aumentos consectivos mostram a necessidade de ações de prevenção mais efetivas tanto em relação ao desmatamento quanto à degradação. E principalmente a partir de maio, quando as chuvas na Amazônia deverão reduzir”, alerta o pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr.

Pará lidera desmatamento e degradação

Sede da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 30, o Pará liderou tanto o raking de desmatamento quanto o de degradação em novembro. O estado desmatou 95 km² de florestas (58% do detectado na Amazônia) e degradou 1.118 km² (39% do registrado na região).

Dos 10 municípios com as maiores áreas desmatadas em novembro, nove ficam no Pará: Uruará, Medicilândia, Pacajá, Portel, Prainha, Amajari, Placas, Nova Canaã do Norte, Porto de Moz e Monte Alegre. Além disso, o estado também tem nove assentamentos entre os 10 mais destruídos: Nova União, Surubim, Ouro Branco, Paraíso do Norte, Serra Azul, Paraíso, Ademir Fredericce, Renascer II e São Sebastião do Tutuí.

Estado Desmatamento em novembro 2023 (km²) Desmatamento em novembro 2024 (km²) Variação
Pará 37 95 157%
Mato Grosso 18 23 28%
Roraima 19 21 11%
Amazonas 14 8 -43%
Maranhão 9 7 -22%
Acre 10 6 -40%
Rondônia 7 2 -71%
Amapá 1
Tocantins 2 1 -50%
Amazônia 116 164 41%

Mato Grosso fica em segundo

Em segundo lugar nos rankings de desmatamento e de degradação em novembro está Mato Grosso. O estado desmatou 23 km² de florestas (14% do detectado na Amazônia) e degradou 737 km² (26% do registrado na região). Em solo matogrossense, o destaque negativo foi para o município de Nova Canaã do Norte, o único fora do Pará no ranking dos 10 com as maiores áreas desmatadas. 

Estado Degradação em
novembro 2023 (km²)
Degradação em novembro 2024 (km²) Variação
Pará 1.093 1.118 2%
Mato Grosso 94 737 684%
Rondônia 67 545 713%
Maranhão 188 272 45%
Amazonas 121 152 26%
Amapá 1 30 2.900%
Tocantins 25
Roraima 2
Acre 2 1 -50%
Amazônia 1.566 2.882 84%

Rondônia tem quatro UCs entre as 10 mais degradadas

Especificamente em relação à degradação dentro de unidades de conservação, o destaque negativo foi para Rondônia, que possui quatro dos 10 territórios mais degradados em novembro nessa categoria. Juntos, eles somaram 274 km² de florestas degradadas, o que equivale a quase mil campos de futebol por dia.

Unidade de Conservação Estado Degradação em novembro 2024 (km²)
Resex do Rio Cautário RO 130
Parna Serra da Cutia RO 114
Rebio do Gurupi MA 42
Resex do Rio Pacaás Novos RO 22
Resex Riozinho do Anfrísio PA 20
Resex do Rio Cajari AP 18
FES do Paru PA 15
Resex Verde para Sempre PA 9
Resex Barreiro das Antas RO 8
APA Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças MA 8

Terra Indígena Alto Rio Guamá foi a mais degradada

Já entre as terras indígenas, a mais degradada em novembro foi a Alto Rio Guamá, no Pará. Somente esse território teve 192 km² afetados pelo dano ambiental, o equivalente a 640 campos de futebol por dia.

Terra Indígena Estado Degradação em novembro 2024 (km²)
Alto Rio Guamá PA 192
Menkragnoti PA/MT 128
Pacaás-Novas RO 111
Rio Guaporé RO 101
Alto Turiaçu MA 98
Aripuanã RO/MT 89
Nambiquara MT 31
Apinayé TO 25
Araribóia MA 24
Kayabi PA/MT 23

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Fonte: Imazon

 

Mais de 90% do desmatamento na Amazônia são para abrir pastagens

MapBiomas indica que esmagadora maioria da área desmatada na Amazônia entre 1985 e 2023 foi ocupada por pastagem, crescimento superior a 360%

QUE1 QUERÊNCIA 29/01/2008  VIDA & DESMATAMENTO QUERÊNCIA MATO GROSSO  . FOTO: JF DIORIO/AE

Por ClimaInfo

O desmatamento da Amazônia nas últimas quatro décadas está intimamente relacionado ao avanço das pastagens sobre o território do bioma. Segundo uma nova análise divulgada pelo MapBiomas nesta 5a feira (3/10), cerca de 90% da área desmatada entre os anos 1985 e 2023 foi ocupada por pasto, que saltaram de 12,7 milhões de hectares (ha) para 59 milhões de ha, um crescimento de mais de 363%.

A partir de imagens de satélite, o MapBiomas conseguiu reconstituir as mudanças de uso da terra na Amazônia ao longo do tempo, de forma a compreender como a terra desmatada foi ocupada nos anos subsequentes. Do desmatamento ocorrido entre 1987 e 2020, 77% viraram pasto e apresentaram o mesmo uso em 2020.

Já 12% das áreas desmatadas tiveram como primeiro uso a pastagem, mas em 2020 voltaram a ter vegetação nativa. A agricultura passou a ocupar 8% da área desmatada originalmente para pecuária, além dos 2% utilizados permanentemente para produção agrícola.

Uma das regiões com maior transformação de floresta em pasto é a fronteira do desmatamento do sul da Amazônia, que compreende áreas do Acre, Amazonas e Rondônia (AMACRO). Nela, a área de pastagem aumentou 11 vezes, uma expansão de 6,9 milhões de ha, ou quase a totalidade dos 7 milhões de ha de vegetação nativa perdidos entre 1985 e 2023. Nesse período, 13% da perda líquida de vegetação nativa ocorreu nesta região.

Já a área utilizada pela agricultura na Amazônia teve um crescimento ainda mais notável: de 154 mil ha em 1985 para 7,3 milhões em 2023, um salto de 4.647%. Por outro lado, o desmatamento para uso direto da produção agrícola vem caindo significativamente desde seu auge em 2004, quando foram desmatados 147 mil ha para esse fim. O MapBiomas sugere que a queda é reflexo direto da moratória da soja.

O avanço das pastagens e dos campos agrícolas teve como custo a perda monumental de vegetação nativa na Amazônia. De acordo com o MapBiomas, nos últimos 39 anos, foram perdidos 55,3 milhões de ha de área ocupada pela flora nativa amazônica, cerca de 14% da vegetação total original. Desse total, mais de 50 milhões de ha eram de formação florestal, o tipo de cobertura vegetal que mais perdeu área nesse período, passando de 336 milhões de ha para 285,8 milhões de ha.

“A quantidade de vegetação nativa removida nos últimos 39 anos é alarmante e a continuidade dessa perda pode levar a região ao chamado ‘ponto de não retorno’, ou tipping point”, observou Jailson Soares, pesquisador do IMAZON e do MapBiomas. “Nesse estágio, o bioma perderia sua capacidade de manter funções ecológicas essenciais e de se recuperar de distúrbios como queimadas e exploração madeireira, resultando em uma degradação irreversível da floresta”.

Os dados do MapBiomas foram destacados por diversos veículos, como CartaCapitalCNN Brasilg1MetrópolesO GloboPoder360Um Só Planeta e UOL.

ClimaInfo, 4 de outubro de 2024.

Até 2050, áreas mais antigas da Amazônia serão emissoras e não sumidouros de carbono

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As árvores amazônicas estão perdendo sua resiliência devido a diversos fatores, que agravarão o aquecimento global. Crédito da imagem: Serfor, imagem em domínio público.

Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDEv

O Escudo das Guianas – ou Maciço – e a Amazônia centro-oriental deixariam de sequestrar e começariam a emitir carbono a partir da década de 2050. O mesmo poderia acontecer com o Escudo Brasileiro por volta de 2060.

Estes são alguns resultados de uma nova versão do modelo de superfície terrestre denominado ORCHIDEE, que ajuda a simular o funcionamento das florestas, principalmente em relação ao crescimento e à competição entre as árvores. A nova versão, denominada ORCHIDEE-CAN-NHA, leva em consideração a mortalidade das árvores.

Os Escudos da Guiana e do Brasil são algumas das estruturas geológicas mais antigas da Terra.

A primeira inclui parte dos territórios da Guiana, Suriname, Venezuela, Brasil e Colômbia, e é coberta pela maior massa florestal tropical intocada do mundo, fornecendo cerca de 15% da água doce do planeta .

O Escudo Brasileiro ocupa grande parte da superfície central e sudeste do Brasil. Juntamente com o Escudo das Guianas formam o Cráton Amazonas. Os crátons são entidades geológicas antigas nas quais podem existir grandes depósitos de minerais, incluindo ouro , o que aumenta as expectativas económicas.

transição das regiões amazônicas de sumidouros de carbono para fontes de carbono trará consequências devastadoras para todo o planeta.

Yitong Yao, autor principal do artigo que descreve o modelo ORCHIDEE-CAN-NHA, diz ao SciDev.Net que a primeira consequência será o agravamento do aquecimento global , responsável pela ocorrência de eventos climáticos extremos com maior frequência.

A mortalidade das árvores também afeta o ciclo global da água.

Marina Hirota, professora de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Brasil, destaca que o regime de chuvas regulado pela Amazônia tem influência direta nas áreas agrícolas e na geração de eletricidade no Brasil. No nível continental, estima-se que na Bolívia, por exemplo, 33% da água da chuva esteja potencialmente associada à Amazônia.

“Como a floresta amazónica também desempenha um papel crucial na reciclagem global da água, a perda florestal poderia perturbar este ciclo e levar à redução das chuvas”, concorda Yao.

Como as árvores morrem?

A mortalidade de árvores continua a ser um processo incerto que representa um desafio adicional para o desenvolvimento de modelos que procurem prever os impactos ambientais de eventos como secas e incêndios .

As características variadas dentro de uma mesma espécie, as interações com o meio ambiente e a ação de agentes bióticos (predadores, parasitas ou doenças) são alguns dos fatores que podem tornar essas previsões menos precisas ou mesmo levar a conclusões errôneas.

Hirota explica ao SciDev.Net que as plantas têm estratégias diferentes para lidar com condições adversas, e incorporar todas essas estratégias combinadas em um modelo preditivo é um grande desafio.

“Primeiro é preciso entender os mecanismos utilizados pelas plantas, depois incorporar tudo isso nos modelos de forma realista e, ao mesmo tempo, de forma que possa ser executado no computador”, diz o pesquisador, que não fez parte do o desenvolvimento da nova versão do modelo.

Para uma simulação mais realista, Yao e sua equipe desenvolveram um novo módulo de hidráulica de plantas e adicionaram um módulo de mortalidade de árvores que vincula a perda de condutividade da água ao risco de mortalidade de árvores. Este modelo considera como a água é transportada dentro das plantas e como a falta de água pode danificar as árvores ao longo do tempo.

Segundo Yao, os principais desafios envolveram representar com precisão os processos fisiológicos relacionados à mortalidade das árvores e a falta de observações para validar a estrutura do módulo proposto.

Previsões e consequências alarmantes

Os pesquisadores usaram o modelo de mortalidade de árvores para projetar mudanças na biomassa da floresta amazônica até o ano 2100, com base em dois cenários e quatro modelos diferentes de mudanças climáticas na região.

Embora as projeções variassem dependendo do modelo climático utilizado, a tendência geral foi de seca no nordeste da Amazônia.

“Os inventários florestais e o sensoriamento remoto têm sido utilizados para avaliar os riscos de desestabilização e perda gradual de resiliência da floresta amazônica. No entanto, para melhorar a nossa compreensão e previsão do risco futuro de seca, os esforços de modelização são essenciais.”

Yitong Yao, Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais, França

A projeção confirma uma realidade já observada na prática. Em 2021, um estudo publicado na Nature mostrou que o sudeste da Amazônia já atua como fonte líquida de carbono para a atmosfera. Os resultados foram obtidos a partir de 590 medições de amostras de ar coletadas por avião entre 2010 e 2018.

Nesse estudo, os pesquisadores relatam que a Amazônia oriental sofreu desmatamento, aumento de temperaturas e secas. Esta combinação desequilibra os ecossistemas, provocando mais incêndios, o que se traduz em mais emissões de carbono.

A situação é ainda mais preocupante dada a maior frequência de eventos climáticos extremos. Um estudo recente publicado na revista AGU Advances observou que a perda total de carbono causada pelo El Niño de 2015-2016 na bacia Amazónica ainda não tinha sido recuperada até ao final de 2018. Isto mostra que a resiliência da floresta está cada vez mais comprometida.

Yao, que desenvolveu o projeto em sua pesquisa de doutorado no Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais da França, acredita que a comunidade científica tem prestado considerável atenção à estabilidade da floresta amazônica, reconhecendo-a como um ponto de inflexão crítico no sistema climático.

“Os inventários florestais e o sensoriamento remoto têm sido utilizados para avaliar os riscos de desestabilização e perda gradual de resiliência da floresta amazônica. No entanto, para melhorar a nossa compreensão e previsão do risco futuro de seca, os esforços de modelização são essenciais”, considera.

Link para o artigo completo sobre o Futuro da Terra


Fonte: SciDev

“Amazônia é esfolada viva”, diz jornal francês sobre aumento das queimadas

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A reportagem é publicada por RFI, 12-09-2024

“A Amazônia é esfolada viva”, diz nesta quinta-feira (12) a manchete de capa do jornal francês Libération. Os incêndios na maior floresta tropical do mundo preocupam cientistas em todo o planeta. Desde o início do ano, foram registrados 82.000 focos de incêndio na região, agravados pelo aumento das temperaturas e uma seca histórica.

Além da Amazônia, o Pantanal, a maior zona úmida da Terra, e áreas de biodiversidade únicas, como o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também são consumidos pelo fogo, descreve o Libération.

No Brasil, garimpeiros em busca de ouro e agricultores sempre tiveram o costume de queimar a vegetação para preparar o solo antes do plantio. Mas desde o governo do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, que incentivou essas práticas, as autoridades enfrentam novos inimigos na preservação dos biomas: facções criminosas pró-desmatamento, assinala o diário. Em São Paulo, mais de 90% dos incêndios ocorridos nas últimas semanas foram causados pela ação humana, o que surpreendeu as autoridades.

A especialista em clima Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), declara ao jornal francês que “a estupidez humana e a corrida pelo dinheiro estão arrastando o mundo para um suicídio coletivo”. “O mundo está comendo a Amazônia”, diz ela revoltada, referindo-se ao desmatamento decorrente do plantio da soja exportada para alimentação animal e o comércio do couro.

O francês Boris Patentreger, diretor da ONG Mighty Earth, endossa o grito de revolta da brasileira, e diz que a França deve atualizar sua estratégia nacional de 2019 contra o desmatamento importado. A legislação europeia que entra em vigor em janeiro de 2025, proibindo a venda de produtos de áreas desmatadas, dá uma certa esperança à ONG Greenpeace.

Emergência climática

Mas o editorial do Libération enfatiza que o mundo está diante de uma emergência climática. O ponto de não retorno no papel regulador da Amazônia para o equilíbrio climático global, tantas vezes evocado pelos cientistas, está chegando mais rápido do que se pensava. “Os brasileiros e vizinhos de oito países da região estão sendo asfixiados pela fumaça que já cobre 60% do território brasileiro”, aponta o jornal.

“Será que ainda é preciso lembrar o impacto desses incêndios sobre a saúde humana”, questiona o editorial, diante do aumento de casos de conjuntivite, rinite, asma, pneumonia e outras doenças agravadas pela inalação da fumaça tóxica proveniente das queimadas.

O jornal de linha editorial progressista reconhece que o desmatamento caiu pela metade no ano passado em relação a 2022. “Seria mentiroso dizer que nada foi feito, mas é indiscutível que é preciso fazer mais, muito mais, para preservar o que resta da Amazônia”, conclui o Libération.


Fonte: IHU online

Cientistas querem banir o termo “savanização” para colapso da Amazônia

Expressão associaria o Cerrado a florestas desmatadas ou degradadas e reforçaria preconceitos contra as savanas naturais

paisagem desmatadaA Amazônia concentra metade das perdas de vegetação nativa no Brasil, desde 1985. Foto: ESA/Alexander Gerst/Creative Commons 

Por Aldem Bourscheit para o O(eco)

O Brasil perdeu ⅓ da vegetação natural só nas últimas quatro décadas e metade dessa destruição se concentrou na Amazônia, demonstram alarmantes dados do MapBiomas divulgados esta semana por ((o))eco. 

O desmate imparável e a crise do clima empurram o bioma ao “ponto de não retorno”, quando ele poderá colapsar e perder a capacidade atual de manter biodiversidade, fontes de água e chuva e populações urbanas e rurais.

Essa drástica mudança foi taxada de “savanização”, apostando que a floresta se tornaria algo similar à “savana brasileira”, o Cerrado. Contudo, cientistas de instituições brasileiras e internacionais querem o termo banido.

Em artigo na revista Perspectives in Ecology Conservation, eles encontraram 481 estudos onde a “savanização” era associada a florestas desmatadas ou degradadas, “reforçando os preconceitos contra as savanas naturais”. 

Os pesquisadores lembram que o Cerrado é a maior e mais rica savana do mundo, “mas recebe menos atenção e recursos para a conservação”, e que há uma negligência multissetorial com o bioma, mesmo ocupando ¼ do Brasil. 

“Propomos abandonar o uso de ‘savanização da Amazônia’, promovendo o apoio e a atenção que o Cerrado precisa”, ressaltam os cientistas.

Paisagem típica de Cerrado conservado. Foto: Hudson Pontes da Silva/Creative Commons

Críticas à expressão já constavam em artigo dos pesquisadores Annabelle Stefânia Gomes e Fabian Borghetti, da Universidade de Brasília (UnB), na obra ‘Uma viagem pelo sertão: 200 anos de Saint-Hilaire em Goiás (2021)’.

Os autores lembram que o desmate e outros impactos não levam a “uma simples troca de matas nativas por savanas nativas”, como “tem sido amplamente difundido nos meios sociais e acadêmicos”.

Pelo contrário, para eles isso resultaria numa vegetação que não representaria nem uma floresta e nem uma verdadeira savana, sendo mais pobre em biodiversidade e mais fraca para manter fontes de água e regular o clima.

“Savanas que se formam com desmatamento, fogo e invasão de espécies exóticas apresentam baixa riqueza de espécies, não representam a vegetação nativa e tampouco executam seus serviços ecossistêmicos”, avisam.


Fonte:  O(eco)