Floresta Nacional de Caxiuanã— A uma curta caminhada sob a densa cobertura vegetal da Amazônia, a floresta se abre abruptamente. Troncos caídos apodrecem, as árvores ficam mais esparsas e a temperatura sobe nos pontos onde a luz solar atinge o solo. É assim que se apresentam 24 anos de seca severa na maior floresta tropical do mundo.
Mas este pedaço de floresta degradada, do tamanho de um campo de futebol, é um experimento científico. Lançado em 2000 por cientistas brasileiros e britânicos, o Esecaflor — abreviação de “Projeto de Estudo da Seca Florestal” em português — propôs-se a simular um futuro em que as mudanças climáticas poderiam esgotar as chuvas na Amazônia. É o projeto do gênero mais antigo do mundo e se tornou fonte de dezenas de artigos acadêmicos em áreas que vão da meteorologia à ecologia e fisiologia.
Entender como a seca pode afetar a Amazônia, uma área duas vezes maior que a Índia e que abrange vários países da América do Sul, tem implicações que vão muito além da região. A floresta tropical armazena uma quantidade enorme de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que é o principal responsável pelas mudanças climáticas. De acordo com um estudo, a Amazônia armazena o equivalente a dois anos de emissões globais de carbono, provenientes principalmente da queima de carvão, petróleo e gasolina. Quando as árvores são cortadas ou murcham e morrem devido à seca, elas liberam na atmosfera o carbono que estavam armazenando, o que acelera o aquecimento global.
Criando condições de seca e observando os resultados
O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
Para simular o estresse causado pela seca, o projeto, localizado naFloresta Nacional de Caxiuanã , instalou cerca de 6.000 painéis retangulares de plástico transparente em um hectare (2,5 acres), desviando cerca de 50% da chuva do solo da floresta. Eles foram instalados a 1 metro acima do solo (3,3 pés) nas laterais e a 4 metros (13,1 pés) acima do solo no centro. A água foi canalizada para calhas e canalizada através de valas cavadas ao redor do perímetro do terreno.
Ao lado, uma parcela idêntica foi deixada intocada para servir de controle. Em ambas as áreas, instrumentos foram fixados em árvores, colocados no solo e enterrados para medir a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o desenvolvimento das raízes, entre outros dados. Duas torres metálicas ficam acima de cada parcela.
A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
Em cada torre, radares da NASA medem a quantidade de água presente nas plantas, o que ajuda os pesquisadores a entender o estresse geral da floresta. Os dados são enviados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial, na Califórnia, onde são processados.
“A floresta inicialmente parecia resistente à seca”, disse Lucy Rowland, professora de ecologia na Universidade de Exeter.
No entanto, isso começou a mudar cerca de 8 anos depois. “Observamos um declínio realmente grande na biomassa, grandes perdas e mortalidade das árvores maiores”, disse Rowland.
Isso resultou na perda de aproximadamente 40% do peso total da vegetação e do carbono armazenado nela. As principais descobertas foram detalhadas emum estudopublicado em maio na revista Nature Ecology & Evolution. O estudo mostra que, durante os anos de perda de vegetação, a floresta tropical passou de um sumidouro de carbono, ou seja, um armazenador de dióxido de carbono, a um emissor de carbono, antes de finalmente se estabilizar.
Houve uma boa notícia: a seca que durou décadas não transformou a floresta tropical em uma savana, ou grande planície gramada, como estudos anteriores baseados em modelos haviam previsto.
Os próximos passos incluem a medição da recuperação florestal
João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)
Em novembro, a maioria das 6.000 coberturas plásticas transparentes foi removida, e agora os cientistas estão observando como a floresta muda. Atualmente, não há uma data para o término do projeto.
“A floresta já se adaptou. Agora queremos entender o que acontece a seguir”, disse o meteorologista João de Athaydes, vice-coordenador do Esecaflor, professor da Universidade Federal do Pará e coautor do estudo da Nature. “A ideia é ver se a floresta consegue se regenerar e retornar ao estado inicial de quando iniciamos o projeto.”
Durante uma visita em abril, Athaydes guiou jornalistas da Associated Press pelo local, que abrigava muitos pesquisadores. A área era tão remota que a maioria dos pesquisadores havia enfrentado uma viagem de barco de um dia inteiro partindo da cidade de Belém, que sediará as próximas negociações climáticas anuais da ONU ainda este ano. Durante os dias em campo, os cientistas se hospedaram na Base Científica Ferreira Penna do Museu Emílio Goeldi, a algumas centenas de metros dos lotes.
O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
Quatro equipes estavam trabalhando. Uma coletou amostras de solo para medir o crescimento das raízes na camada superior. Outra coletou dados meteorológicos e monitorou a temperatura e a umidade do solo. Uma terceira mediu a umidade da vegetação e o fluxo de seiva. A quarta se concentrou na fisiologia vegetal.
“Sabemos muito pouco sobre como a seca influencia os processos do solo”, disse a ecologista Rachel Selman, pesquisadora da Universidade de Edimburgo e uma das coautoras do estudo da Nature, durante um intervalo.
A simulação de seca da Esecaflor traça alguns paralelos com os últimos dois anos, quando grande parte da floresta amazônica, sob a influência do El Niño e o impacto das mudanças climáticas, sofreu seus períodos de seca mais severos já registrados. As consequências devastadoras variaram da morte de dezenas de botos devido ao aquecimento e ao recuo das águas a vastos incêndios florestais em áreas de vegetação nativa.
O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
Rowland explicou que o recente El Niño trouxe impactos intensos e de curto prazo para a Amazônia, não apenas pela redução das chuvas, mas também por picos de temperatura e déficit de pressão de vapor, uma medida do quão seco o ar está. Em contraste, o experimento Esecaflor se concentrou apenas na manipulação da umidade do solo para estudar os efeitos de mudanças de longo prazo na precipitação.
“Mas, em ambos os casos, estamos vendo uma perda da capacidade da floresta de absorver carbono”, disse ela. “Em vez disso, o carbono está sendo liberado de volta para a atmosfera, juntamente com a perda da cobertura florestal.”
Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)
A contradição se intensifica no atual governo Lula, que tenta conciliar o apoio à agricultura familiar com a manutenção de laços estratégicos com o agronegócio. Na balança desigual, a Amazônia é uma das mais afetadas.Na imagem acima, colheita de soja no Mato Grosso (Foto: Wenderson Araújo/CNA).
Por Ismael Machado, de Belém, para o Amazônia Real
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe à tona uma antiga contradição de seus governos: o esforço para equilibrar o apoio ao agronegócio e o incentivo à agricultura familiar e à reforma agrária, bandeiras históricas de movimentos sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e entidades como a Fetagri. Lula visitaria o Assentamento Palmares e o Acampamento Terra e Liberdade, em Parauapebas, no Pará, no dia 25 de abril. Seria um evento em compromisso com a Reforma Agrária durante o Abril Vermelho, mês que marca os 29 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. No entanto, a agenda foi suspensa após o falecimento do Papa Francisco, já que Lula e a primeira-dama, Janja, viajaram a Roma para o funeral. O MST-PA informou que nova data seria agendada.
É um equilíbrio precário. Recentemente o governo federal editou amedida provisória (MP) 1289/25, que abriu crédito no valor de R$ 4,17 bilhões para atender ao Plano Safra 2024-2025, oferecendo aos produtores rurais de médio e grande porte juros mais baixos que os do mercado. São R$ 3,53 bilhões para as operações de custeio agropecuário, comercialização de produtos agropecuários e investimento rural e agroindustrial. Por outro lado, o governo destinou R$ 645,7 milhões a operações no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), uma linha de crédito do Plano Safra destinada a pequenos agricultores. Em seu terceiro mandato, Lula celebrou o lançamento do programa “Terra da Gente”, com a promessa de impactar 295 mil famílias até 2026, como uma retomada da política de reforma agrária. Em 2024, o Palácio do Planalto anunciou o assentamento de 71 mil famílias.
Mas as críticas não tardaram. Movimentos sociais, liderados pelo MST, contestam os números. Segundo eles, a maior parte refere-se à regularização de famílias já assentadas em anos anteriores, e não à criação de novos lotes de terra para quem ainda aguarda na fila da reforma agrária. O movimento também pressiona por medidas mais incisivas contra a violência no campo, que permanece alta, especialmente em regiões de expansão do agronegócio. A Amazônia Legal historicamente é o epicentro da violência no campo no território brasileiro.
Enquanto o agronegócio é celebrado como um dos pilares da economia brasileira, respondendo por cerca de 25% do PIB e garantindo superávits sucessivos na balança comercial, seus impactos sociais e ambientais despertam preocupações crescentes. Submetido a políticas de incentivo que incluem crédito subsidiado, isenções fiscais e programas de apoio técnico, o setor é, na prática, um dos mais beneficiados pela União, embora no Pará, por exemplo, muitos de seus representantes (pecuaristas, sojeiros, madeireiros, costumem atacar Lula e fomentar – inclusive com patrocínio, ações golpistas).
Lula já enfatizou, em entrevistas e falas, que não vê distinção entre atores diversos do setor agrícola. Grandes ou pequenos. No ano passado, em entrevistaà rádio Difusora, de Goiânia (GO), chegou a afirmar que representantes do agronegócio brasileiro têm “problema” com o governo petista por uma questão “ideológica”.
Reproduzida a fala na página oficial do governo, Lula explicou que defende o MST e não faz distinção entre grandes exportadores e pequenos produtores. “Os grandes exportadores garantem qualidade e abrem mercados internacionais. Já os pequenos produtores, que representam quase 5 milhões de propriedades de até 100 hectares, são os que colocam comida na mesa dos brasileiros. Eles criam frangos, suínos e outros alimentos essenciais. Ambos são igualmente importantes”, destacou o presidente, que ainda ressaltou os investimentos recordes que o agronegócio vem recebendo do atual governo através do Plano Safra, inclusive com uma generosa negociação das dívidas do setor.
Apesar do discurso de modernização e geração de riquezas, o agronegócio emprega menos do que se imagina. De acordo com dados do IBGE (2023), apenas cerca de 10% da força de trabalho brasileira está empregada diretamente nas atividades agrícolas, sendo que a mecanização e o modelo de grandes propriedades reduzem drasticamente a necessidade de mão de obra. Muitas áreas de monocultura, como soja e cana-de-açúcar, operam com altíssimos níveis de mecanização, empregando proporcionalmente menos do que pequenas propriedades agrícolas.
Além da fraca geração de empregos, o agronegócio também é apontado como um dos principais vetores de degradação ambiental. Relatórios doMapBiomas mostram que, entre 1985 e 2022, 90% do desmatamento registrado no Brasil ocorreu em áreas destinadas à agropecuária. O avanço da soja e da pecuária no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal é uma das maiores pressões sobre os biomas brasileiros, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa e a perda de biodiversidade.
No campo político, o setor se consolidou como uma força conservadora. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, é hoje uma das maiores e mais influentes do Congresso Nacional, com mais de 300 membros. São 41 deputados federais da Amazônia- se incluirmos Tocantins, inserido na Amazônia Legal- e 13 senadores, se o raciocínio for o mesmo. Tradicionalmente alinhada a pautas conservadoras em costumes, contrária a demarcações de terras indígenas e às políticas de reforma agrária, a bancada atua de maneira decisiva na formulação de leis ambientais e trabalhistas que favorecem grandes proprietários rurais.
Essa influência vai além de Brasília. Governos estaduais e prefeituras de regiões agrícolas frequentemente moldam suas agendas para atender demandas do setor, muitas vezes em detrimento de comunidades tradicionais, quilombolas e assentados da reforma agrária. Nos últimos anos a Amazônia tem sentido essa força, com o avanço, por exemplo, da soja no oeste do Pará.
Commodities e exportação
O presidente Lula durante visita a Feira da Agricultura Familiar no Palácio do Planalto (Foto: Ricardo Stuckert/PR).
A contradição se intensifica no governo Lula, que tenta conciliar o apoio à agricultura familiar com a manutenção de laços estratégicos com o agronegócio. O resultado é um cenário em que a política agrícola oficial busca expandir a produção sem necessariamente enfrentar as desigualdades fundiárias e os danos socioambientais acumulados ao longo das últimas décadas. Apesar dos supostos avanços em práticas agrícolas mais sustentáveis por parte de uma minoria de grandes produtores, a lógica predominante ainda é a da expansão horizontal da fronteira agrícola, com altos custos sociais e ambientais.
“Não existe dicotomia”, afirma à Amazônia Real, Bruno Malheiro, atualmente um dos mais importantes pesquisadores sobre as grandes atividades econômicas e seu impacto na geografia amazônica. “A gente tem uma escolha clara, que na verdade vem desde o primeiro governo Lula, pela exportação de commodities como motor de inserção na economia e desenvolvimento. Então, toda política social e todo superávit primário se assenta na exportação de soja, ferro, petróleo, que são os três principais, aí depois vem celulose, enfim, commodities. A soja e o minério de ferro são realidades presentes na Amazônia hoje e o petróleo passou a ser especulado na Foz do Amazonas”, complementa.
Malheiro afirma ainda que isso configura que todo o cabedal de políticas públicas e todas as instituições pensadas para a agricultura estão voltadas para esses setores. “Há uma escolha por esses negócios de expansão territorial e que, na verdade, é inviável pensar algum tipo de solução conjunta com a agricultura familiar, porque esses negócios se nutrem dos territórios da agricultura familiar, dos camponeses, dos territórios quilombolas, indígenas. Então, é uma escolha pela destruição, no final das contas. A Amazônia e outros biomas serão destruídos por esse tipo de escolha”, diz.
Segundo o pesquisador, o Brasil chegou num estrangulamento, principalmente com a circulação da produção de soja, de acordo com o tamanho da produção. Isso porque o país exporta soja, mas não tem capacidade de armazenamento. “O Brasil armazena só 63% da soja que produz. O resto disso precisa ser circulado rápido. E a maioria da soja que está no Mato Grosso e está vindo para a Amazônia, é exportada nos portos do Sul e isso encarece o produto. Então, existe um projeto também de exportar pelos portos do Norte. Aí tem a Ferrogrão, tem Meritituba em Itaituba, perto de Santarém. Enfim, tem os portos e as hidrovias que querem construir para o escoamento desses grãos. O governo não entra só como esse lado financiador, do ponto de vista financeiro, mas também com o lado da infraestrutura de circulação desses produtos”.
O resultado disso é o que alguns pesquisadores chamam de ‘engenharia do colapso’, porque os conflitos e o desmatamento acompanham as rodovias e os eixos de circulação, as chamadas ‘rotas de sacrifício’, como classifica Bruno Malheiro. “Os governos progressistas estão ampliando essas rotas de sacrifício e um dos maiores impactados é a Amazônia”.
A promessa de uma “economia verde” no campo brasileiro, por ora, continua mais como um discurso de exportação do que uma realidade para o interior do país, principalmente na Amazônia. Enquanto isso, Lula mantém interlocução constante com grandes produtores rurais e representantes do agronegócio. Apesar da retórica crítica nos anos anteriores, o governo reconhece que a pujança do setor é essencial para a balança comercial e para a estabilidade macroeconômica do país.
A aproximação, no entanto, vem sendo vista com desconfiança por setores da esquerda. Segundo algumas lideranças, existe uma clara prioridade no atendimento às demandas do grande agronegócio, enquanto a reforma agrária e a agricultura familiar continuam recebendo mais promessas do que realizações efetivas. “O MST demonstra um desconforto com isso. São valores muito simbólicos para a agricultura familiar e muitos recursos para o agronegócio”, contesta Pablo Neri, diretor nacional do MST no estado do Pará. “O fato é que Lula não foi eleito com um programa de esquerda. A própria natureza da eleição, a frente ampla, já é uma natureza de disputas internas. Havia uma expectativa, mas se vê ele cedendo para o parlamentarismo do centrão. O que a gente entende é que tem que investir na massificação da ideia de reforma agrária e agroecologia para a construção da justiça social”, afirma. Segundo ele, os próprios bancos empurram os pequenos agricultores para a pecuarização e isso gera perdas e falências. “A fórmula bancária de financiamento coloca em xeque essa política de agricultura familiar. Temos visto isso aqui no Pará”, diz.
A tensão expõe uma escolha estratégica: para viabilizar sua agenda de governabilidade no Congresso — onde a bancada ruralista é uma das mais fortes — Lula aposta em uma política de conciliação, mesmo que isso signifique desacelerar pautas mais radicais de reforma social no campo. A promessa de fazer “as duas coisas ao mesmo tempo” — crescer e distribuir, apoiar o agronegócio e impulsionar a reforma agrária — segue como a corda bamba sobre a qual caminha o governo Lula no campo. “E essa é a escolha dos governos progressistas na América Latina inteira”, salienta Bruno Malheiro.
Durante 17 anos o pesquisador Marcos Pedlowski percorreu, como cientista, as estradas e vicinais do estado de Rondônia. Constatou a profunda mudança da cobertura vegetal e o avanço do latifúndio na Amazônia, e também, em paralelo, o aumento do uso de agrotóxicos nos territórios do agro, temas constantes de seus artigos acadêmicos. A avaliação que ele faz sobre o cenário atual não é otimista.
“Essas duas coisas estão juntas. Porque há um detalhe ainda, que o grande vendedor de venenos agrícolas do Brasil, que atualmente é a China, é também o principal comprador dos grãos. Então, para a China é um negócio muito vantajoso. E o governo Lula aposta nessa noção ainda antiquada das vantagens comparativas, segundo a mentalidade predominante, que a gente vende grãos e minérios e compra o resto que a gente não produz, que é essa face da desindustrialização”, afirmou à Amazônia Real.
Pedlowski ressalta que há também o avanço da violência sobre os territórios camponeses, sobre as populações tradicionais e as populações indígenas. “Eu tenho feito uma leitura sobre a questão dos alimentos ultraprocessados, que tem tudo a ver com o latifúndio agroexportador, porque parte dessa comida ultraprocessada são amidos, milho e soja, e aí entram as grandes corporações que controlam a produção de alimentos e que se conjugam com o latifúndio agroexportador aqui no Brasil. Na minha opinião, o governo Lula não está acendendo a vela para dois senhores, não. Ele acende a vela para um senhor e finge que vai acender a vela para o outro senhor”, avalia.
Pequenos agricultores excluídos
Agricultor retirando jenipapos de uma canoa para venda na cidade de itacoatiara, na comunidade indígena Gavião 1 (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real).
Pesquisador agrário da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Fabiano Bringel, faz uma análise territorial que mostra como a Amazônia está distante efetivamente de uma política agrária mais inclusiva por parte da União. “Quando a gente pensa a Amazônia enquanto bioma com 60% do território nacional, a gente chega à conclusão, segundo dados do próprio IBGE, que temos na Amazônia algo em torno de um pouco mais de um milhão de produtores rurais. Desses, cerca de 90% são classificados como agricultores familiares. Ou seja, no final das contas, nós vamos ter aí uma boa parte desses produtores rurais descobertos de uma política agrária, que no final das contas não consegue chegar a essa grande maioria de produtores que estão classificados como agricultores familiares”.
Segundo Bringel, se a comparação for feita em âmbito nacional, o Brasil tem quase 4 milhões classificados como estabelecimentos rurais. “Cerca de 80% desses 4 milhões de estabelecimentos, são da agricultura familiar. Ou seja, é uma política completamente distorcida, que só agrava no caso da Amazônia, porque na Amazônia, além dessa categoria agricultura familiar, nós temos aí uma série de pertencimentos, como por exemplo, povos tradicionais, incluindo ribeirinhos, comunidades quilombolas, sem falar nos próprios povos indígenas que também se ressentem da falta desse investimento completamente distorcido e que só ajuda, no final das contas, uma grande minoria, uma minoria de produtores rurais classificados como agronegócio no Brasil e especialmente na Amazônia. Então a distorção e desigualdade se aprofundam, no final das contas, quando se trata da Região Norte”, diz.
“Os circuitos do agronegócio também são os circuitos do clube de tiro, os circuitos das igrejas, das festas agropecuárias. O governo vem sendo também uma máquina de trituração de territórios camponeses, quilombolas, indígenas. É o que temos para a Amazônia do futuro se continuarmos com essas escolhas”, conclui Bruno Malheiro.
O presidente Lula durante visita ao assentamento do MST, em Pernambuco (Foto: Ricardo Stuckert/PR/2021).
A pecuária é a principal causa do desmatamento. Múltiplos problemas para atingir as metas de desmatamento zero
“Enquanto a JBS lucra, as florestas queimam”, protesto do Greenpeace contra a empresa de carnes JBS
Fonte:@Greenpeace_ITA
Por Ulrike Bickel para o Amerika21
Brasília.A empresa de carnes JBS S.A. provavelmente nãoconseguirá cumprir sua meta deadquirircarne bovina na Amazônia apenas de origem livre de desmatamento até o final de 2025.
Isso é de acordo com um novo estudo do The Guardian, Unearthed e Repórter Brasil. Aqui, mais de 35 insiders revelam dúvidas de que a JBS seja capaz de atingir suas metas de desmatamento zero. Os fazendeiros e líderes sindicais entrevistados representam milhares de fazendas nos estados do Pará e Rondônia, que foram responsáveis por 66% do desmatamento na Amazônia desde 1988.
O desmatamento para a pecuária para produção de carne bovina é a principal causa do desmatamento na Amazônia. Os cientistas há muitoalertamque a destruição da floresta está levando a região a um ponto de inflexão, transformando o pulmão verde da Terra de um sumidouro de carbono em um emissor de CO2.
A corporação global JBS tem capacidade para abater 76.000 bovinos, 14 milhões de frangos e 142.000 suínos todos os dias. O grupo fornece empresas como McDonald’s, Tesco e Walmart, alcançou vendas anuais de 77 bilhões de dólares em 2024 e atualmente planeja estar nalista de ações na Bolsa de Valores de Nova York.
De acordo com os sindicatos de agricultores entrevistados, agricultores e seus clientes, a JBS, assim como os pecuaristas, tem a vontade de que o gado seja proveniente apenas de uma produção livre de desmatamento. Mas a meta é inatingível devido a inúmeros conflitos de terra não resolvidos.
O problema da “lavagem ilegal de gado” (ou seja, rotulagem fraudulenta de gado de neuroesterco como “livre de desmatamento”) também não pôde ser resolvido a tempo. Os fornecedores indiretos, por exemplo, admitiram “limpar” a origem ecológica problemática de seus rebanhos por meio de intermediários. Vários produtores previram que um novo sistema de rastreabilidade também abriria brechas, como o abate em outros locais e a venda da carne – em vez de gado vivo – para a JBS a preços mais baixos.
A JBS negou os resultados da pesquisa ao The Guardian. Nenhuma conclusão pode ser tirada de uma amostra limitada, pois a JBS possui mais de 40.000 fornecedores registrados. Embora os desafios sejam imensos e não possam ser resolvidos apenas por empresas individuais, a JBS possui um sólido pacote de políticas integradas que podem reduzir de forma significativa e positiva os riscos de desmatamento. A JBS ainda não finalizou sua cadeia de suprimentos, mas já registrou mais de 80% de suas compras anuais de gado em uma plataforma web de pecuária transparente e habilitada para blockchain.
De acordo com Adelosmar “Ticão” Orio, do Sindicato dos Produtores Rurais de Tucumã-Ourilãndia, desafios logísticos, como a necessidade de equipamentos especiais, como rastreadores auriculares e sistemas via satélite, impossibilitaram o cumprimento da promessa da JBS até o final do ano. Nem mesmo a JBS sabe como a rastreabilidade deve ser implementada.
Os pequenos e médios criadores de gado estão arcando com a maior parte do fardo, enquanto a JBS e o governo não estão fazendo o suficiente para explicar o novo sistema de rastreamento e fornecer suporte tecnológico. O governador do Pará, Helder Barbalho, admitiu que houve resistência e que os pequenos produtores em particular precisavam de mais apoio.
A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação em 2024 acusando a JBS de enganar os consumidores com “metas climáticas” para aumentar as vendas.
Um grupo bipartidário de 15 senadores dos EUA pediu à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) que rejeite o pedido de listagem da JBS. De acordo com umacarta abertade 2024, dezenas de reportagens jornalísticas e de ONGs mostraram que a JBS está associada a mais destruição de florestas e outros ecossistemas do que qualquer outra empresa no Brasil.
Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa
Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países
Luciana Constantino | Agência FAPESP
Um dos pilares da economia brasileira e um dos setores responsáveis pelas maiores emissões de gases de efeito estufa, a produção de carne bovina no Brasil, da forma como é feita atualmente, emite mais do que o dobro do limite necessário para cumprir metas ambientais internacionais. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa publicada na revista Environmental Science and Pollution Research.
O trabalho traz uma avaliação de cenários preditivos de emissões, juntamente com uma valoração econômica. As pesquisadoras calcularam que as emissões do setor podem variar de 0,42 a 0,63 gigatonelada de CO2 equivalente (GtCO2e) até 2030, enquanto o limite para atender à meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) seria de 0,26 GtCO2e. Por outro lado, estratégias de mitigação ao longo da cadeia produtiva poderiam evitar perdas de até US$ 42,6 bilhões e garantir maior competitividade.
A NDC (sigla em inglês para Nationally Determined Contributions) é o compromisso que os países assumiram no Acordo de Paris, assinado em 2015 e que passará por revisão neste ano até a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a ser realizada em Belém (PA).
No compromisso estão as metas de redução de emissões dos países, com diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento, abrangendo todos os setores da economia. O objetivo global é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial (entre 1850 e 1900). Esse limite, no entanto, vem sendo colocado em risco – 2024 foi o ano mais quente da história, com aumento médio da temperatura global de 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).
O estudo usou como base a NDC em vigor até 2024 – redução das emissões em 43% até 2030 em comparação a 2005. Em novembro, o Brasil entregou à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova contribuição, com o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035 – uma queda de 59% a 67% em comparação aos níveis de 2005.
“Sabemos da importância do setor de carne bovina não só para a economia como para o cardápio dos brasileiros. Nosso objetivo não é dizer: produzam ou comam menos carne, mas sim trazer uma discussão sobre a forma atual de produção, que vem atrelada ao desmatamento, a altas emissões e sem adotar técnicas sustentáveis. Assim, não conseguiremos cumprir as metas climáticas estabelecidas. Nossas descobertas mostram que é preciso adotar na cadeia produtiva práticas que mitiguem as emissões. Isso contribui também com a redução dos custos associados às mudanças climáticas”, diz a primeira autora do artigo, a bióloga Mariana Vieira da Costa, do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
No trabalho, as autoras usaram o chamado custo social do carbono (CSC), uma forma de quantificar o impacto financeiro das emissões na sociedade, sendo uma referência para a construção de políticas climáticas e tomada de decisões.
O CSC representa os custos econômicos causados pela emissão de uma tonelada de CO2, incluindo impactos não comerciais sobre o meio ambiente e a saúde humana e incorporando consequências, como perdas na agricultura e danos provocados por eventos climáticos extremos. Esses custos podem ser reduzidos ou redirecionados para investimentos em práticas de produção pecuária mais sustentável por meio de políticas públicas e linhas de crédito acessíveis.
Segundo a pesquisa, o potencial de redução de custos varia entre US$ 18,8 bilhões e US$ 42,6 bilhões até 2030 dependendo do cumprimento das metas.
Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países, atingindo um faturamento de US$ 10,55 bilhões. As cientistas consideraram a relevância da exportação de carne bovina para o Brasil ao calcular quanto estaria disponível para consumo interno em 2030, caso a produção fosse reduzida para se manter dentro do limite de emissão de 0,26 GtCO2e, necessário para o cumprimento da NDC. O resultado obtido foi de 2 a 10 kg de carne bovina per capita (no ano).
“Sempre quis estudar a relação da pecuária bovina com as mudanças climáticas. No início, tivemos dificuldades de encontrar dados mais refinados. Por isso, criamos nosso indicador”, complementa Costa, que contou com a orientação da professora Simone Miraglia, líder do Lespa-Unifesp e coautora do artigo juntamente com a bióloga Daniela Debone.
Para Miraglia, os resultados são importantes, pois, se não houver reduções expressivas nas emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura média global acarretará impactos econômicos adicionais, como a redução da produção agrícola, o aumento dos incêndios florestais e a intensificação dos efeitos sobre a saúde, incluindo a mortalidade, por exemplo.
Cenário
Em um período de quase quatro décadas (1985 a 2022), a área ocupada pela agropecuária no Brasil cresceu 50%, ficando em 282,5 milhões de hectares – um terço do território nacional. Do total, 58% são de pastagens (atualmente em 164,3 milhões de hectares), de acordo com levantamento do MapBiomas.
Cerca de 64% da expansão da agropecuária foi resultado do desmatamento para pastagem (64,5 milhões de hectares). Esse crescimento se deu, principalmente, na Amazônia, levando o bioma a superar o Cerrado em área de pastagem.
As cientistas apontam a necessidade de sinergia entre pesquisa e produtores rurais com o objetivo de promover práticas de produção mais eficientes e de baixa emissão, buscando técnicas e tecnologias ambientalmente sustentáveis. Além disso, destacam o papel que o governo federal pode desempenhar na mediação e integração da pesquisa e da adoção de tecnologias pelos produtores.
Citam que, embora o Plano ABC+ atualmente facilite investimentos dos pecuaristas em práticas intensivas, sua adoção ainda é baixa. O Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) é uma agenda do governo brasileiro, a ser executada entre 2020 e 2030, que dá continuidade à política setorial para enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. Além de criar e fortalecer mecanismos para adoção de sistemas e práticas de produção sustentáveis, busca diversificar fontes e instrumentos financeiros e fiscais.
Costa destaca que a diversificação de incentivos, como isenções fiscais e a implementação de créditos de carbono, é essencial para estimular e promover mudanças significativas em larga escala no setor.
O trabalho teve o apoio da FAPESP por meio de bolsa de estudo a Costa e de outroprojeto com abordagem para analisar emissão de gases de efeito estufa, mudanças climáticas e indicadores de saúde.
Mudança de uso de solo e seca na Amazônia contribui para mudanças climáticas ameaça segurança alimentar e ecossistema
Áreas da Floresta Amazônica convertidas em pastos e cidades têm maior amplitude térmica, menor umidade, maior reflexão da luz solar e perda de eficiência na regulação do clima. Essas são algumas das conclusões obtidas pelo estudo “Microclima no Cenário de Floresta, Pastagem e Cidade no Sudoeste da Amazônia”,publicadona “Revista Brasileira de Meteorologia”. O trabalho, realizado em colaboração entre o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), indica que é preciso equilibrar os efeitos das atividades humanas para reduzir os impactos negativos dessas transformações.
Para avaliar se mudanças no uso e na cobertura do solo podem afetar as variáveis micrometeorológicas em florestas, os pesquisadores coletaram dados sobre temperatura, radiação solar, chuva e umidade do ar em três ambientes distintos: florestas, pastagens e cidades. As medições ocorreram em Rondônia, sudoeste da Amazônia, em 2017. Com base nas informações amostrais e em estudos anteriores, a equipe calculou possíveis diferenças nos parâmetros entre os tipos de cobertura e comparou os resultados por meio de análises estatísticas.
Entre os principais resultados, destacam-se a redução da umidade nos ambientes antropizados e uma diferença de 2°C na amplitude térmica diária, ou seja, na diferença entre as temperaturas máximas e mínimas do dia. Pastagens e cidades apresentaram uma variação térmica maior. “O processo de remoção das florestas em Rondônia vem sucedido por pastagens e cidades, que são paisagens homogêneas e modificam toda a dinâmica local; elas acabam contribuindo menos com a evapotranspiração e aquecendo mais, tornando o local mais seco e mais quente”, alerta Bárbara Antonucci, primeira autora do estudo. O conceito de evapotranspiração abrange tanto a evaporação de água do solo e a transpiração das plantas
A conversão de florestas em pastagens e áreas urbanas também elevou a capacidade de reflexão da luz solar, um fenômeno conhecido como albedo. A maior variação foi observada na substituição da floresta pela cidade, resultando em um aumento de 264%. “O albedo indica o quanto de luz é refletida, como em um espelho”, diz a pesquisadora. Ela explica que, nas florestas, a luz solar é absorvida e utilizada, principalmente, em três processos: aquecimento do ar, fotossíntese e evapotranspiração. No entanto, nas áreas urbanas analisadas, apenas uma pequena fração é aproveitada na fotossíntese e o restante se converte em calor. “Vimos que as cidades e pastagens, superfícies com maior albedo, refletem mais luz, acumulam menos energia e tendem a ser mais quentes”, complementa.
Segundo Antonucci, além de alterar o microclima, as mudanças identificadas podem ter impactos importantes na biodiversidade local e nas atividades econômicas que dependem do clima e do solo, por exemplo. “A interrupção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas florestas, como evapotranspiração, regulação térmica e sombreamento, pode levar ao agravamento de extremos climáticos”, diz a autora. “Ainda, a maior vulnerabilidade dessas áreas pode comprometer a agricultura, tornando as atividades produtivas mais suscetíveis a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuvas, o que também afetaria a segurança alimentar e a economia local”, acrescenta.
Para ela, ações de mitigação e preparo são urgentes para lidar com os possíveis impactos da conversão florestal em ambientes antropizados. “Uma medida essencial é a adoção de estratégias para cidades mais resilientes, como a arborização, e o reconhecimento dos serviços ambientais prestados historicamente por populações tradicionais — como ribeirinhos, extrativistas e comunidades indígenas”, sugere Antonucci.
A autora argumenta que políticas públicas devem priorizar incentivos à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais e defende que é imprescindível conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os saberes locais. Nesse sentido, a equipe de pesquisadores visa, agora, aprofundar as análises micrometeorológicas da região, identificar padrões e tendências e integrar os estudos com as comunidades locais, visando contribuir para mudanças de paradigmas.
As populações vêm caindo há décadas, mesmo em áreas de floresta não danificadas por humanos. Especialistas passaram duas décadas tentando entender o que está acontecendo
Um papa-moscas real da Amazônia: pássaros estão morrendo em partes intocadas da floresta amazônica e pesquisadores têm trabalhado para entender o porquê. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer
Por Tess McClure para o “The Guardian”
Alguma coisa estava acontecendo com os pássaros em Tiputini. O centro de pesquisa de biodiversidade, enterrado nas profundezas da Amazônia equatoriana, sempre foi especial. É surpreendentemente remoto: uma pequena dispersão de cabines de pesquisa em 1,7 milhões de hectares de floresta virgem. Para os cientistas, é o mais próximo que se pode chegar de observar a vida selvagem da floresta tropical em um mundo intocado pela atividade humana.
Quase todos os anos desde sua chegada em 2000,o ecologista John G Blakeestava lá para contar os pássaros. Levantando-se antes do sol, ele registrava a densidade e a variedade do coro do amanhecer. Caminhando lentamente pelo perímetro dos lotes, ele anotava todas as espécies que via. E por um dia a cada ano, ele e outros pesquisadores lançavam enormes redes de “névoa” que capturavam pássaros voadores em sua trama, onde eles eram contados, desembaraçados e soltos.
Uma vista de olho de peixe da floresta tropical de planície do topo da torre de dossel em Tiputini. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy
Durante anos, essas contagens capturaram as flutuações anuais dos pássaros; eles tiveram anos bons e ruins, estações em que os ninhos foram interrompidos por tempestades e outras em que eles explodiram. Mas por volta de 2012, Blake e seus colaboradores puderam ver que algo estava mudando. Os pássaros estavam morrendo: não em massa de uma vez, atingidos por uma praga, mas geração após geração. As flutuações anuais que ele passou uma década registrando lentamente interromperam seus saltos ascendentes, a linha de tendência se transformando em uma inclinação descendente inflexível. Em 2022, seus números haviam caído quase pela metade. Blake não precisava do gráfico para lhe dizer que algo estava errado; quando ele se levantou para ouvir o coro do amanhecer, ele podia ouvir que estava abafado. As canções estavam faltando. Algumas espécies simplesmente desapareceram.
“Há alguns deles que não ouço há alguns anos”, ele diz, por uma conexão de vídeo quebrada do centro de pesquisa; longe do mundo exterior, ele tem energia intermitente e depende de uma conexão via satélite. “Definitivamente, há algumas espécies que, por qualquer razão, parecem não estar mais aqui.”
Manakin macho de cauda metálica ( Pipra filicauda ) em um poleiro em Tiputini. Fotografia: Tim Laman/NPL/Alamy
Na América do Norte e na Europa, os cientistas há muito alertam que o número de pássaros está diminuindo, mas isso tem sido explicado principalmente pelo contato deles com humanos. À medida que cidades e fazendas se expandem, as florestas ao redor delas se tornam fragmentos, os habitats dos animais encolhem, a poluição contamina os rios, pesticidas e fertilizantes matam insetos. Até mesmo animais de estimação são um fator — nos EUA, gatos domésticos estão matando cerca de4 bilhões de pássaros por ano. Tiputini, no entanto, é um dos poucos pedaços do planeta que não sente diretamente essas pressões: nenhuma fazenda próxima, nenhuma fábrica poluente, nenhum madeireiro invasor, nenhuma estrada. No entanto, seus pássaros estavam morrendo.
Em outros locais remotos ao redor do mundo, cientistas estavam começando a observar tendências semelhantes. No Brasil, oProjeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (BDFFP) é um estudo ecológico localizado nas profundezas da floresta primária da Amazônia, inacessível por estrada. Essas regiões abrigam algumas das florestas vivas mais antigas do planeta – elas escaparam dos eventos da era glacial que reconstruíram as florestas nos EUA e na Europa com o crescimento e recuo das geleiras. “Na Amazônia, tivemos bolsões de florestas estáveis ao longo de milhões de anos”, diz o ecologista Jared Wolfe, um dos cientistas pesquisadores do projeto. “O local é realmente incrível.”
Mas em 2020, quando pesquisadores compararam o número de pássaros com a década de 1980, eles encontraram uma série de espéciesem declínio profundo. Em outro local no Panamá, cientistas trabalhando em um trecho de 22.000 hectares de floresta intacta vinham coletando dados sobre pássarosdesde meados da década de 1970. Em 2020, seus números caíram vertiginosamente: 70% das espécies haviam diminuído, a maioria delas severamente; 88% haviam perdido mais da metade de sua população. Em alguns locais, os cientistas estão começando a observar “um colapso quase completo da comunidade”, diz Wolfe. “Isso está ocorrendo em ambientes intocados, o que é realmente perturbador.”
O estudo ecológico do BDFFP está localizado nas profundezas da floresta amazônica primária brasileira, inacessível por estrada. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec
Por décadas, cientistas vêm tentando entender o que está acontecendo. Blake e a ornitóloga colaboradora Bette A Loiselle publicaram seu primeiro artigo documentando os declínios em 2015, mas não puderam dizer definitivamente o que os estava causando. Eles testaram pássaros para doenças e parasitas e não encontraram nenhuma ligação clara. Eles consideraram a possibilidade de que uma toxina ou poluente desconhecido tivesse se infiltrado – mas não havia evidências disso. “Suspeito que o que quer que esteja causando esses declínios seja algo muito mais disseminado”, diz Blake. “Não seria algo específico da área de Tiputini.”
A resposta mais provável, concluíram eles, era a crise climática. “Há muito pouco mais — pelo menos que eu saiba — que tenha impactos mundiais de tão grande escala”, diz Blake.
Uma década depois, seus instintos estão se mostrando corretos. Esta semana, Wolfe e colaboradores publicaram um novo trabalho ligando diretamente o aumento das temperaturas ao declínio de pássaros. Sua pesquisa, publicada na Science Advances, rastreou pássaros que vivem no sub-bosque da floresta no BDFFP em comparação com dados climáticos detalhados. Eles descobriram que estações secas mais severas reduziram significativamente a sobrevivência de 83% das espécies. Um aumento de 1 °C na temperatura da estação seca reduziria a sobrevivência média dos pássaros em 63%.
Exatamente como o calor está causando o declínio do número de pássaros é difícil de identificar, diz Wolfe, mas “esses pássaros estão intrinsecamente ligados a pequenas, pequenas mudanças na temperatura e na precipitação”. Uma das maneiras mais imediatas pelas quais um planeta em aquecimento prejudica a vida selvagem é colocá-la fora de sintonia com suas fontes de alimento: quando menos insetos sobrevivem às estações secas, ou as folhas florescem e os frutos amadurecem em épocas diferentes, os pássaros se veem incapazes de forragear e alimentar seus filhotes. Seus ninhos começam a falhar. Em poucas gerações, seus números caem.
Luke Powell, à esquerda, e Jared Wolfe coletam dados de pássaros capturados em redes de neblina. Fotografia: Cortesia de Tristan Spinski
As perdas documentadas nessas estações remotas têm implicações muito além dos pássaros. “A ideia sempre foi que se você tem grandes extensões de floresta, então isso vai proteger tudo”, diz Blake. “E, bem, isso protege muitas coisas. Mas aparentemente não tudo.”
A maior parte da conservação ocidental funciona seccionando áreas selvagens, como parques ou reservas nacionais. Esses lugares são como arcas: reservatórios de vida selvagem que esperamos que sejam salvos, mesmo que as pessoas transformem a terra ao redor deles. Mas o que os pesquisadores estavam vendo com pássaros sugeria que essas arcas são muito mais frágeis do que se pensava inicialmente.
Uma das estações de pesquisa do BDFFP. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec
Wolfe compara o problema à poluição em um grande corpo de água. Quando cientistas medem a qualidade da água, eles pensam sobre poluição de duas maneiras. A poluição de “fonte pontual” pode ser um cano de óleo jorrando: está causando um dano enorme, mas ao fechá-lo você conserta o problema. “Fonte não pontual” seriam os pequenos pingos de óleo vindos de cada carro na área, levados das estradas para os cursos d’água: cada contribuição pode ser minúscula, mas o efeito cumulativo pode ser enorme – e difícil de desligar. “É muito difícil de combater”, diz Wolfe. O que está acontecendo com os pássaros “parece uma fonte não pontual; um problema complexo e perverso onde você tem colapsos em interações biológicas que estão causando esses declínios”.
Mas perceber o que está acontecendo é necessário para desenvolver soluções, diz Wolfe. “Uma coisa da qual estou ficando particularmente cansado como pesquisador profissional é escrever esses obituários para pássaros”, ele diz. A pesquisa em regiões intocadas também pode revelar soluções potenciais: dados iniciais sugerem que algumas florestas estão resistindo aos declínios. Identificar o porquê — e protegê-los — é crucial.
Um pica-pau-castanho ( Celeus elegans ) na Amazônia. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer
Para os cientistas que estão vendo pássaros desaparecerem, há tristeza em assistir a alguns dos lugares mais belos e ecologicamente ricos do mundo entrarem em declínio. “É deprimente”, diz Blake. “Quando chegamos aqui e começamos a procurar, ficamos totalmente surpresos com a quantidade de pássaros que havia e sua diversidade. Continuamos fazendo o trabalho – mas é mais difícil ficar animado em fazê-lo porque há muito pouco.”
Novo relatório diz que mais de 30 milhões de hectares foram queimados, 79% a mais do que em 2023, depois que o país sofreu a pior seca já registrada
Um carro circulando por uma rodovia em uma área tomada por um incêndio florestal perto da cidade de Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 12 de setembro de 2024. Fotografia: Isaac Fontana/EPA
Por Tiago Rogero para o “The Guardian”
Depois de enfrentar sua pior seca já registrada em 2024, o Brasil fechou o ano com outro marco alarmante: entre janeiro e dezembro, 30,86 milhões de hectares de florestas foram queimados – uma área maior que a Itália.
O número divulgado no novo relatório é 79% maior do que em 2023 e o maior registrado peloFire Monitordesde seu lançamento em 2019 pelo MapBiomas, iniciativa de ONGs, universidades e empresas de tecnologia que monitora os biomas brasileiros.
Os dados podem causar constrangimento enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30 em Belém, capital do estado amazônico do Pará, em novembro.
Não só o estado foi o mais atingido pelos incêndios, respondendo por 24% da área total queimada, mas a Amazônia também foi o mais afetado dos seis biomas do Brasil, com 58%. A área queimada na Amazônia em 2024 excede o total queimado em todo o país em 2023.
“Foi um aumento absurdo”, disse Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas, acrescentando que, pela primeira vez, as áreas de floresta foram as mais afetadas, superando campos e pastagens. “Uma vez que uma floresta é atingida pelo fogo, ela leva anos e anos para se recuperar… Se houver outra seca e essa floresta não for protegida, ela vai queimar de novo”, disse ela.
“Mas isso é apenas uma parte da equação. A outra envolve a atividade humana”, disse Alencar, apontando principalmente para o setor agrícola, que frequentemente usa fogo para limpar pastagens, assim como o desmatamento, que foi drasticamente reduzido no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda não foi erradicado.
“Também houve casos em que os incêndios simplesmente começaram no meio de uma floresta, o que sugere possível atividade criminosa”, disse o pesquisador.
Bombeiros combatem um incêndio florestal em uma área da floresta nacional de Brasília em 4 de setembro de 2024 em Brasília, Brasil. Fotografia: Anadolu/Getty Images
Alencar teme que 2025 possa ver um cenário semelhante. “Precisaríamos de uma estação chuvosa muito forte para realmente repor o solo, e isso ainda não aconteceu”, disse ela.
Apesar das estatísticas sombrias, ela diz que a culpa não pode recair sobre o governo Lula. “Se tivéssemos visto no ano passado o nível de desmatamento que tivemos em 2022 [quando o negacionista das mudanças climáticas Jair Bolsonaro estava no comando], combinado com as condições climáticas de 2024, então teria sido o pior cenário possível”, disse ela.
“Uma conclusão clara é que a conservação florestal vai muito além do combate ao desmatamento. Também precisamos focar no combate às mudanças climáticas”, disse Alencar.
Novembro teve alta de 41% nas áreas desmatadas e 84% nas degradadas
Sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas em 2024. Imagem: Marizilda Cruppe / Greenpeace
Por Imazon
A Amazônia teve em novembro o sexto mês consecutivo de aumento tanto no desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, quanto na degradação florestal, que é o dano causado pelo fogo ou pela extração madeireira. Segundo o monitoramento por imagens de satélite Imazon, as áreas desmatadas passaram de 116 km² em novembro de 2023 para 164 km² no mesmo mês neste ano, uma alta de 41%. Já a as florestas degradadas passaram de 1.566 km² para 2.882 km², 84% a mais.
Com isso, o desmatamento acumulado de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 3.654 km², apenas 7% a menos do que no mesmo período do ano passado. Além disso, foi a 7ª maior área desde 2008, quando o Imazon implementou seu sistema de monitoramento.
Enquanto isso, por causa do aumento expressivo nas queimadas, a degradação acumulada de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 35.751 km², área sete vezes maior do que a registrada no mesmo período do ano anterior e a pior desde 2009. Já em comparação com o desmatamento registrado no período, a degradação foi quase 10 vezes maior.
“Esses aumentos consectivos mostram a necessidade de ações de prevenção mais efetivas tanto em relação ao desmatamento quanto à degradação. E principalmente a partir de maio, quando as chuvas na Amazônia deverão reduzir”, alerta o pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr.
Pará lidera desmatamento e degradação
Sede da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 30, o Pará liderou tanto o raking de desmatamento quanto o de degradação em novembro. O estado desmatou 95 km² de florestas (58% do detectado na Amazônia) e degradou 1.118 km² (39% do registrado na região).
Dos 10 municípios com as maiores áreas desmatadas em novembro, nove ficam no Pará: Uruará, Medicilândia, Pacajá, Portel, Prainha, Amajari, Placas, Nova Canaã do Norte, Porto de Moz e Monte Alegre. Além disso, o estado também tem nove assentamentos entre os 10 mais destruídos: Nova União, Surubim, Ouro Branco, Paraíso do Norte, Serra Azul, Paraíso, Ademir Fredericce, Renascer II e São Sebastião do Tutuí.
Estado
Desmatamento em novembro 2023 (km²)
Desmatamento em novembro 2024 (km²)
Variação
Pará
37
95
157%
Mato Grosso
18
23
28%
Roraima
19
21
11%
Amazonas
14
8
-43%
Maranhão
9
7
-22%
Acre
10
6
-40%
Rondônia
7
2
-71%
Amapá
–
1
–
Tocantins
2
1
-50%
Amazônia
116
164
41%
Mato Grosso fica em segundo
Em segundo lugar nos rankings de desmatamento e de degradação em novembro está Mato Grosso. O estado desmatou 23 km² de florestas (14% do detectado na Amazônia) e degradou 737 km² (26% do registrado na região). Em solo matogrossense, o destaque negativo foi para o município de Nova Canaã do Norte, o único fora do Pará no ranking dos 10 com as maiores áreas desmatadas.
Estado
Degradação em novembro 2023 (km²)
Degradação em novembro 2024 (km²)
Variação
Pará
1.093
1.118
2%
Mato Grosso
94
737
684%
Rondônia
67
545
713%
Maranhão
188
272
45%
Amazonas
121
152
26%
Amapá
1
30
2.900%
Tocantins
–
25
–
Roraima
–
2
–
Acre
2
1
-50%
Amazônia
1.566
2.882
84%
Rondônia tem quatro UCs entre as 10 mais degradadas
Especificamente em relação à degradação dentro de unidades de conservação, o destaque negativo foi para Rondônia, que possui quatro dos 10 territórios mais degradados em novembro nessa categoria. Juntos, eles somaram 274 km² de florestas degradadas, o que equivale a quase mil campos de futebol por dia.
Unidade de Conservação
Estado
Degradação em novembro 2024 (km²)
Resex do Rio Cautário
RO
130
Parna Serra da Cutia
RO
114
Rebio do Gurupi
MA
42
Resex do Rio Pacaás Novos
RO
22
Resex Riozinho do Anfrísio
PA
20
Resex do Rio Cajari
AP
18
FES do Paru
PA
15
Resex Verde para Sempre
PA
9
Resex Barreiro das Antas
RO
8
APA Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças
MA
8
Terra Indígena Alto Rio Guamá foi a mais degradada
Já entre as terras indígenas, a mais degradada em novembro foi a Alto Rio Guamá, no Pará. Somente esse território teve 192 km² afetados pelo dano ambiental, o equivalente a 640 campos de futebol por dia.
Terra Indígena
Estado
Degradação em novembro 2024 (km²)
Alto Rio Guamá
PA
192
Menkragnoti
PA/MT
128
Pacaás-Novas
RO
111
Rio Guaporé
RO
101
Alto Turiaçu
MA
98
Aripuanã
RO/MT
89
Nambiquara
MT
31
Apinayé
TO
25
Araribóia
MA
24
Kayabi
PA/MT
23
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MapBiomas indica que esmagadora maioria da área desmatada na Amazônia entre 1985 e 2023 foi ocupada por pastagem, crescimento superior a 360%
Por ClimaInfo
O desmatamento da Amazônia nas últimas quatro décadas está intimamente relacionado ao avanço das pastagens sobre o território do bioma. Segundo uma novaanálisedivulgada pelo MapBiomas nesta 5a feira (3/10), cerca de 90% da área desmatada entre os anos 1985 e 2023 foi ocupada por pasto, que saltaram de 12,7 milhões de hectares (ha) para 59 milhões de ha, um crescimento de mais de 363%.
A partir de imagens de satélite, o MapBiomas conseguiu reconstituir as mudanças de uso da terra na Amazônia ao longo do tempo, de forma a compreender como a terra desmatada foi ocupada nos anos subsequentes. Do desmatamento ocorrido entre 1987 e 2020, 77% viraram pasto e apresentaram o mesmo uso em 2020.
Já 12% das áreas desmatadas tiveram como primeiro uso a pastagem, mas em 2020 voltaram a ter vegetação nativa. A agricultura passou a ocupar 8% da área desmatada originalmente para pecuária, além dos 2% utilizados permanentemente para produção agrícola.
Uma das regiões com maior transformação de floresta em pasto é a fronteira do desmatamento do sul da Amazônia, que compreende áreas do Acre, Amazonas e Rondônia (AMACRO). Nela, a área de pastagem aumentou 11 vezes, uma expansão de 6,9 milhões de ha, ou quase a totalidade dos 7 milhões de ha de vegetação nativa perdidos entre 1985 e 2023. Nesse período, 13% da perda líquida de vegetação nativa ocorreu nesta região.
Já a área utilizada pela agricultura na Amazônia teve um crescimento ainda mais notável: de 154 mil ha em 1985 para 7,3 milhões em 2023, um salto de 4.647%. Por outro lado, o desmatamento para uso direto da produção agrícola vem caindo significativamente desde seu auge em 2004, quando foram desmatados 147 mil ha para esse fim. O MapBiomas sugere que a queda é reflexo direto da moratória da soja.
O avanço das pastagens e dos campos agrícolas teve como custo a perda monumental de vegetação nativa na Amazônia. De acordo com o MapBiomas, nos últimos 39 anos, foram perdidos 55,3 milhões de ha de área ocupada pela flora nativa amazônica, cerca de 14% da vegetação total original. Desse total, mais de 50 milhões de ha eram de formação florestal, o tipo de cobertura vegetal que mais perdeu área nesse período, passando de 336 milhões de ha para 285,8 milhões de ha.
“A quantidade de vegetação nativa removida nos últimos 39 anos é alarmante e a continuidade dessa perda pode levar a região ao chamado ‘ponto de não retorno’, ou tipping point”, observou Jailson Soares, pesquisador do IMAZON e do MapBiomas. “Nesse estágio, o bioma perderia sua capacidade de manter funções ecológicas essenciais e de se recuperar de distúrbios como queimadas e exploração madeireira, resultando em uma degradação irreversível da floresta”.
As árvores amazônicas estão perdendo sua resiliência devido a diversos fatores, que agravarão o aquecimento global. Crédito da imagem: Serfor, imagem em domínio público.
Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDEv
O Escudo das Guianas – ou Maciço – e a Amazônia centro-oriental deixariam de sequestrar e começariam a emitir carbono a partir da década de 2050. O mesmo poderia acontecer com o Escudo Brasileiro por volta de 2060.
Estes são alguns resultados de uma nova versão do modelo de superfície terrestre denominado ORCHIDEE, que ajuda a simular o funcionamento das florestas, principalmente em relação ao crescimento e à competição entre as árvores. A nova versão, denominada ORCHIDEE-CAN-NHA, leva em consideração a mortalidade das árvores.
Os Escudos da Guiana e do Brasil são algumas das estruturas geológicas mais antigas da Terra.
A primeira inclui parte dos territórios da Guiana, Suriname, Venezuela, Brasil e Colômbia, e é coberta pela maior massa florestal tropical intocada do mundo, fornecendo cerca de 15% da água doce do planeta .
O Escudo Brasileiro ocupa grande parte da superfície central e sudeste do Brasil. Juntamente com o Escudo das Guianas formam o Cráton Amazonas. Os crátons são entidades geológicas antigas nas quais podem existir grandes depósitos de minerais, incluindoouro, o que aumenta as expectativas económicas.
A transição das regiões amazônicas de sumidouros de carbono para fontes de carbono trará consequências devastadoras para todo o planeta.
Yitong Yao, autor principal doartigoque descreve o modelo ORCHIDEE-CAN-NHA, diz ao SciDev.Net que a primeira consequência será o agravamento do aquecimento global, responsável pela ocorrência de eventos climáticos extremos com maior frequência.
A mortalidade das árvores também afeta o ciclo global da água.
Marina Hirota, professora de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Brasil, destaca que o regime de chuvas regulado pela Amazônia tem influência direta nas áreas agrícolas e na geração de eletricidade no Brasil. No nível continental, estima-se que na Bolívia, por exemplo, 33% da água da chuva esteja potencialmente associada à Amazônia.
“Como a floresta amazónica também desempenha um papel crucial na reciclagem global da água, a perda florestalpoderia perturbar este ciclo e levar à redução das chuvas”, concorda Yao.
Como as árvores morrem?
A mortalidade de árvores continua a ser um processo incerto que representa um desafio adicional para o desenvolvimento de modelos que procurem prever os impactos ambientais de eventos como secas e incêndios.
As características variadas dentro de uma mesma espécie, as interações com o meio ambiente e a ação de agentes bióticos (predadores, parasitas ou doenças) são alguns dos fatores que podem tornar essas previsões menos precisas ou mesmo levar a conclusões errôneas.
Hirota explica ao SciDev.Net que as plantas têm estratégias diferentes para lidar com condições adversas, e incorporar todas essas estratégias combinadas em um modelo preditivo é um grande desafio.
“Primeiro é preciso entender os mecanismos utilizados pelas plantas, depois incorporar tudo isso nos modelos de forma realista e, ao mesmo tempo, de forma que possa ser executado no computador”, diz o pesquisador, que não fez parte do o desenvolvimento da nova versão do modelo.
Para uma simulação mais realista, Yao e sua equipe desenvolveram um novo módulo de hidráulica de plantas e adicionaram um módulo de mortalidade de árvores que vincula a perda de condutividade da água ao risco de mortalidade de árvores. Este modelo considera como a água é transportada dentro das plantas e como a falta de água pode danificar as árvores ao longo do tempo.
Segundo Yao, os principais desafios envolveram representar com precisão os processos fisiológicos relacionados à mortalidade das árvores e a falta de observações para validar a estrutura do módulo proposto.
Previsões e consequências alarmantes
Os pesquisadores usaram o modelo de mortalidade de árvores para projetar mudanças na biomassa da floresta amazônica até o ano 2100, com base em dois cenários e quatro modelos diferentes demudanças climáticas na região.
Embora as projeções variassem dependendo do modelo climático utilizado, a tendência geral foi de seca no nordeste da Amazônia.
“Os inventários florestais e o sensoriamento remoto têm sido utilizados para avaliar os riscos de desestabilização e perda gradual de resiliência da floresta amazônica. No entanto, para melhorar a nossa compreensão e previsão do risco futuro de seca, os esforços de modelização são essenciais.”
Yitong Yao, Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais, França
A projeção confirma uma realidade já observada na prática. Em 2021, um estudopublicado na Nature mostrou que o sudeste da Amazônia já atua como fonte líquida de carbono para a atmosfera. Os resultados foram obtidos a partir de 590 medições de amostras de ar coletadas por avião entre 2010 e 2018.
Nesse estudo, os pesquisadores relatam que a Amazônia oriental sofreu desmatamento, aumento de temperaturas e secas. Esta combinação desequilibra os ecossistemas, provocando mais incêndios, o que se traduz em mais emissões de carbono.
A situação é ainda mais preocupante dada a maior frequência de eventos climáticos extremos. Um estudo recentepublicado na revista AGU Advances observou que a perda total de carbono causada pelo El Niño de 2015-2016 na bacia Amazónica ainda não tinha sido recuperada até ao final de 2018. Isto mostra que a resiliência da floresta está cada vez mais comprometida.
Yao, que desenvolveu o projeto em sua pesquisa de doutorado no Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais da França, acredita que a comunidade científica tem prestado considerável atenção à estabilidade da floresta amazônica, reconhecendo-a como um ponto de inflexão crítico no sistema climático.
“Os inventários florestais e o sensoriamento remoto têm sido utilizados para avaliar os riscos de desestabilização e perda gradual de resiliência da floresta amazônica. No entanto, para melhorar a nossa compreensão e previsão do risco futuro de seca, os esforços de modelização são essenciais”, considera.