Amazônia em alerta: Como as mudanças climáticas e as enchentes ameaçam a vida na floresta

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A Amazônia brasileira tem enfrentado cada vez mais as consequências das mudanças climáticas, como enchentes e secas prolongadas, que têm impactos diretos na população e no meio ambiente. Em uma entrevista exclusiva à REPAM-Brasil, o professor Alexandre Costa, doutor em Ciências Atmosféricas e pesquisador há mais de 20 anos das questões climáticas, destacou a relação entre o aquecimento global e as alterações no sistema climático.

“A atmosfera aquece devido a uma relação física bastante simples que existe entre temperatura e pressão de vapor de saturação do vapor d´água, ou seja, a quantidade de vapor d’água que existe no planeta. Quando o planeta aquece, a atmosfera se torna capaz de armazenar mais vapor d´água, e aí a gente passa a ter um binômio de eventos extremos associados com essa mudança de comportamento”, explica o professor.

Essa relação tem gerado secas mais intensas e duradouras em algumas regiões, enquanto outras sofrem com chuvas muito intensas e concentradas, além de tempestades severas. “Esse binômio de eventos extremos, de seca de um lado e do outro chuvas muito intensas, tempestades severas, esses fenômenos vão se intensificando com uma causa comum, que é justamente o aquecimento global e o consequente aumento da quantidade de vapor d´água”, alerta Costa.

A situação na Amazônia é ainda mais preocupante, já que a região abriga um dos principais biomas do planeta e é responsável por serviços ecossistêmicos fundamentais para a vida humana. A preservação da floresta amazônica é crucial para a manutenção de estoques de carbono e de biodiversidade, além de ser uma fonte de água e uma das principais responsáveis pela reciclagem do ciclo hidrológico no Brasil.

Para o professor, é fundamental dar voz aos povos da floresta, que são como guardiões e têm atuado para a sua preservação. “As terras indígenas são as mais bem preservadas, porque elas atuam, de fato, como guardiões das florestas. Esse é um aspecto fundamental”, ressalta.

Além disso, é preciso conscientizar a opinião pública sobre a importância da preservação da Amazônia e do cuidado com os povos que tradicionalmente cuidam do bioma. “Mostrar como a manutenção da floresta de pé é crucial para inúmeras questões, como a segurança energética, a manutenção dos reservatórios de hidroeletricidade, é fundamental”, destaca Costa.

Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas na Amazônia, é necessário um esforço conjunto de governos, empresas, organizações e sociedade civil para buscar soluções sustentáveis e preservar um dos mais importantes ecossistemas do planeta.

Para Alexandre Costa, não há dúvida de que o Papa Francisco é um aliado importante para o cuidado da Casa Comum. Como defensor da ecologia, o pontífice promoveu o Sínodo para a Amazônia e enfatiza a necessidade de jogar o aspecto ecológico sob a perspectiva dos fatos reais, a fim de encontrar soluções justas e inclusivas para a crise ecológica. 

Segundo Alexandre Costa é crucial que os protagonistas das principais lutas – como os povos originários, indígenas e comunidades tradicionais, e a juventude – reconheçam o papel relevante que o Papa Francisco desempenha e o tratem como aliado nessa busca pelo cuidado da Casa Comum.

Eventos climáticos

As mudanças climáticas têm afetado a Amazônia de diversas formas, e uma das mais preocupantes é o aumento das enchentes na região. Nos últimos dias, diversos municípios da Amazônia Legal foram afetados pelas fortes chuvas e enchentes, causando prejuízos materiais e colocando em risco a vida de milhares de pessoas. Os estados do Acre, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Amazonas, Pará e Rondônia estão entre os mais afetados pela cheia dos rios.

De acordo com dados divulgados pelo portal Metrópoles, cerca de 1.500 municípios brasileiros estão em situação de emergência devido às chuvas e enchentes. A situação é especialmente grave na região norte do país, onde a população tem sofrido com deslizamentos de terra, desabamentos de casas e interrupção de serviços básicos, como água e energia elétrica.

O estado do Acre é um dos mais afetados pela cheia dos rios, com mais de 32 mil pessoas afetadas pelas enchentes, de acordo com informações divulgadas pelo G1. Na capital, Rio Branco, diversas áreas foram alagadas, e a população tem enfrentado dificuldades para se locomover e acessar serviços de saúde e educação.

A situação é ainda mais preocupante para as populações que vivem na floresta, que dependem dos recursos naturais da região para sobreviver. A REPAM-Brasil divulgou uma nota em solidariedade às famílias afetadas pelas enchentes, destacando a importância de se garantir o direito à vida e à dignidade das populações amazônicas. Confira [Aqui!]. 

De fato, a Amazônia está em alerta. As mudanças climáticas têm sido um dos principais desafios enfrentados pelos povos que habitam a floresta e, agora, as enchentes intensificam ainda mais a preocupação com a segurança das comunidades locais e do meio ambiente. 

A solidariedade e a ação são urgentes nesse momento de crise, e é fundamental que o poder público, a sociedade civil e as organizações internacionais se unam em prol do auxílio às famílias atingidas e da prevenção de futuros desastres. É preciso reconhecer a importância da Amazônia e sua biodiversidade, bem como a necessidade de preservá-la para as futuras gerações. A Amazônia é uma riqueza do Brasil e do mundo, e é nosso dever protegê-la e cuidar dela com responsabilidade e comprometimento.

Além das florestas: traders enfrentam riscos regulatórios da UE sobre a expansão da soja no Brasil

Os traders de soja estão mais expostos à conversão dos habitats do cerrado e dos pampas do que à conversão das florestas. Conforme a União Europeia (UE) considera incluir outros ecossistemas em sua nova legislação de devida diligência, a análise da Trase revela quais comerciantes enfrentam os maiores riscos regulatórios

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Por Mark Titley e Tiago Reis para a Trase

Com o futuro regulamento da UE sobre produtos livres de desmatamento , os comerciantes de commodities em breve terão que provar que produtos como soja e óleo de palma destinados ao mercado da UE não estão vinculados à conversão das florestas. No futuro, isso poderá ser ampliado para incluir outros ecossistemas.

Isso teria grandes implicações para os comerciantes de soja que compram do Brasil: apenas 17% da recente expansão da soja nos habitats naturais aconteceu nas florestas. Os comerciantes muito provavelmente estavam comprando soja que invadiu o cerrado e os pampas biodiversos do Brasil.

Na primeira revisão do regulamento, prevista para acontecer até setembro de 2024, a UE irá considerar a inclusão de “outras terras arborizadas”, o que iria aumentar a cobertura do cerrado de 26% para 82% . Um ano depois, em setembro de 2025, será considerada a inclusão dos pampas e pântanos.

A nova análise da Trase revela como essa ampliação do escopo não afetaria todos os comerciantes da mesma forma, pois os padrões de compra diferenciados desses comerciantes no Brasil os expõem a diferentes tipos de conversão (ver a figura).

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A inclusão de outras terras arborizadas teria implicações particularmente grandes para empresas como a Bunge, que veria a porção da sua exposição ao desmatamento e conversão coberta pela regulamentação triplicada, de 6.920 hectares (ha) para 24.600 ha, e a Cargill, cuja área de exposição coberta pela regulamentação seria cinco vezes maior, de 4.420 (ha) para 21.000 (ha). Ambas as empresas são grandes exportadoras de soja para a UE e estão mais expostas ao desmatamento e conversão devido a este comércio com o bloco.

Outras empresas com exposição menor à conversão de outras terras arborizadas ainda veriam mudanças dramáticas, como o aumento de dez vezes da CHS, de 732 ha para 7.360 ha. Enquanto isso, a Orlam, que tem seu fornecimento no estado do Rio Grande do Sul, seria particularmente afetada se os pampas fossem incluídos, onde fica 91% da sua exposição ao desmatamento e conversão.

Uma oportunidade para a UE reduzir seus impactos sobre a natureza

Seria uma grande vitória para a biodiversidade se a ampliação do escopo do regulamento da UE levasse a uma redução na expansão da soja nos ecossistemas que não são de floresta no Brasil. O cerrado é o lar de mais de 11.000 espécies de plantas, muitas das quais não são encontradas em nenhum outro lugar, e fornece habitats importantes para os animais, incluindo o tamanduá-bandeira, o tatuaçu e a onça. A necessidade de proteger os pampas dos altíssimos níveis da recente expansão da soja permanece bastante negligenciada, apesar de este ser um ecossistema frágil que está entre as pradarias mais ricas em espécies do planeta.

A experiência anterior da Moratória da Soja da Amazônia – um acordo com cerca dos 20 maiores comerciantes de soja para parar de comprar soja de terra que foi desmatada após julho de 2008 – mostra como o esforço conjunto dos comerciantes, combinado com governança forte e monitoramento do desmatamento, levou a uma redução drástica do desmatamento direto por soja na Amazônia brasileira. No entanto, devido a esta política estar restrita à Amazônia, argumentou-se que cerca da metade do desmatamento evitado foi transferido para outras regiões , tais como o Cerrado.

Estender o regulamento da UE para cobrir outros ecossistemas é essencial para ajudar a evitar que efeitos semelhantes de “vazamento” se repitam. No entanto, é vital que a UE aplique um prazo comum (um tempo a partir do qual a produção seja considerada vinculada ao desmatamento ou conversão) para todos os tipos de conversão, para evitar incentivar uma rápida expansão em outros ecossistemas vulneráveis enquanto a possível inclusão desses ecossistemas é revisada.

Uma chance para os vendedores gerirem o risco de conformidade

Para os comerciantes, aumentar o escopo do regulamento da UE significa que eles provavelmente enfrentariam maior escrutínio sobre uma porção muito maior da sua produção e teriam que fornecer informações no nível das explorações agrícolas sobre sua compra em regiões de maior risco.

Os comerciantes são bem orientados a garantir que sua produção não esteja vinculada à conversão de nenhum ecossistema nativo, principalmente porque muitos desses comerciantes já têm compromissos de desmatamento zero que incluem esses ecossistemas. Apesar de isso parecer complexo, os dados da Trase mostram que a exposição desses comerciantes ao desmatamento e conversão da terra está altamente concentrada em poucos lugares, destacando as regiões prioritárias para engajar os produtores e revelando onde eles podem querer melhorar a rastreabilidade de sua cadeia de suprimento.

Além disso, os comerciantes devem se comprometer a não expandir a infraestrutura de processamento de soja em áreas fronteiriças de desmatamento e conversão. Em vez disso, eles devem focar a expansão de infraestrutura em regiões com grandes áreas de pastagens degradadas e subutilizadas, que totalizaram mais de 33 milhões de hectares em 2021 . Isso seria um sinal para os produtores e motivaria a expansão da soja sem promover mais conversão, ajudando a abrir o caminho para os comerciantes cumprirem o regulamento progressivo do lado da demanda e seus próprios compromissos de desmatamento zero e ajudando a proteger a biodiversidade globalmente importante do Brasil.


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Este texto foi originalmente publicado pela Trase [Aqui!].

Amazônia concentra 90% da área queimada no Brasil no primeiro bimestre de 2023

Foram 487 mil hectares queimados no bioma; confira os dados do Monitor do Fogo divulgados nesta segunda-feira (13)

Fire Monitoring in the Amazon in July, 2021Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021

Queimada feita em uma área de desmatamento recente na Amazônia

A Amazônia foi o bioma mais queimado no Brasil nos dois primeiros meses do ano, com 487 mil hectares atingidos pelo fogo. A área equivale a quatro vezes a capital paraense Belém e representa 90% de tudo o que queimou no país no período. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (13) pelo Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

“O principal fator para o fogo na Amazônia nesse período é a ocorrência do fogo em formações campestres, principalmente ao norte do Bioma. Ainda que seja um número alto para a época de chuvas, é 25% menor que os 654 mil hectares que pegaram fogo no bioma em janeiro e fevereiro do ano passado”, comenta Vera Laisa Arruda, pesquisadora no IPAM responsável pelo Monitor do Fogo.

Entre os estados em todos os biomas, Roraima foi o que mais queimou nos meses de janeiro e fevereiro. Foram 259 mil hectares, ou 48% de toda a área queimada no Brasil. Roraima, Mato Grosso e Pará, os últimos com 90 mil e 70 mil hectares queimados, concentram 79% do fogo ocorrido no Brasil no período.

“O padrão de área queimada em Roraima pode estar relacionado a características climáticas e ambientais únicas do estado. Roraima está localizado no hemisfério norte, enquanto a maior parte dos demais estados se localiza no hemisfério sul. Dessa forma, enquanto o período de seca em boa parte do país ocorre entre os meses de maio a setembro, em Roraima os meses de seca ocorrem entre dezembro e abril”, explica Felipe Martenexen, pesquisador no IPAM e responsável pelo mapeamento da Amazônia no Monitor do Fogo.

Campos, como os lavrados roraimenses, foram o tipo de vegetação mais afetado: na Amazônia, os 266 mil hectares que pegaram fogo entre janeiro e fevereiro de 2023 eram de formações campestres, ou 55% da área queimada no bioma; no Brasil, a proporção chega a 84% .

“As vegetações campestres têm um papel fundamental na manutenção dos ciclos naturais essenciais para a vida, como o do carbono e do nitrogênio, além de contribuírem para a absorção e distribuição de água pelo solo. Por essa relação interdependente e complementar, medidas de proteção da biodiversidade devem considerar ecossistemas como um todo para serem efetivas”, acrescenta Vera Arruda.

O Cerrado foi o segundo mais queimado em janeiro e fevereiro, com 24 mil hectares atingidos pelo fogo. A época de chuva em regiões do bioma dificulta o alastramento dos incêndios. No total, o Brasil teve 536 mil hectares queimados nos dois meses, uma área 28% do que a registrada no mesmo período em 2022

Desmatamento recorde na floresta amazônica mostra o tamanho do desafio de Lula

Satélites mostram destruição recorde para o mês de fevereiro, enquanto o novo governo tenta desfazer os danos causados ​​​​por Bolsonaro

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O desmatamento atingiu a maior alta em 15 anos durante a presidência de Jair Bolsonaro. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

O desmatamento na floresta amazônica brasileira aumentou em fevereiro para o nível mais alto já registrado para o mês, destacando a escala do desafio enfrentado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva , que tenta desfazer a destruição ambiental causada pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Satélites do governo mostram que um recorde de 322  km2 de floresta amazônica foi destruído em fevereiro, um aumento de 62% em relação ao ano passado e o maior número para o mês desde o início dos registros.

Lula, que assumiu o cargo em 1º de janeiro deste ano, prometeu acabar com a extração ilegal de madeira depois que o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos durante os anos de Bolsonaro.

Com o Ministério do Meio Ambiente novamente comandado pela ambientalista Marina Silva , que liderou a forte queda do desmatamento na mesma função durante o primeiro mandato de Lula, o governo reativou o Fundo Amazônia, ferramenta fundamental para a preservação, e recriou uma sociedade civil conselho do meio ambiente – ambos abandonados no governo Bolsonaro.

Silva também ignorou e atualizou um plano de prevenção e controle do desmatamento que formava a espinha dorsal de suas políticas bem-sucedidas há quase duas décadas.

São passos importantes, mas “a inovação é necessária, pois a Amazônia hoje não é a mesma de 10, 20 anos atrás”, disse o porta-voz do Greenpeace Brasil , Rômulo Batista.

O crime e a violência explodiram no governo anterior, pois o desdém de Bolsonaro pela floresta tropical e pelas pessoas que a protegem encorajou criminosos de todos os tipos, incluindo os assassinos do especialista indígena Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips . Enfrentar a crise exigirá a reconstrução da mão de obra das agências ambientais que foram estripadas pelo populista de extrema direita, um processo que não pode acontecer da noite para o dia, disse Batista.

“O grileiro, o desmatador, o garimpeiro, estão aproveitando esse tempo para correr para derrubar a floresta”, disse Batista.

Após dados preliminares apontarem para o aumento da destruição em fevereiro, Silva disse a repórteres no mês passado que os madeireiros estavam trabalhando mesmo durante a estação chuvosa da Amazônia como uma “espécie de vingança” contra a repressão do atual governo.

Os números do desmatamento são tipicamente mais baixos no início do ano, já que a estação chuvosa na Amazônia dificulta o desmatamento e a cobertura de nuvens significa que os satélites têm menos probabilidade de detectá-lo. Por esse motivo, os analistas alertaram contra a comemoração de uma queda no desmatamento em janeiro.


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Este texto foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Em fevereiro, desmatamento chega a 322 Km2 na Amazônia e bate novo recorde; governo Lula precisa encontrar soluções

A volta do PPCDAm e do Fundo Amazônia pode auxiliar no combate ao desmatamento que registrou em fevereiro um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano passado

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Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em 2022 | Foto: Christian Braga / Greenpeace Brasil

São Paulo, 10 de março de 2023 – Fevereiro bateu o recorde de alertas de desmatamento da série histórica, chegando a 322 km², conforme os dados apresentados hoje (10) pelo sistema Deter-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Os dados representam um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano de 2022, que chegou a 199 km² de área desmatada. Os estados que concentram as maiores áreas de alertas de desmatamento são o Mato Grosso com 162 km² (50,3% do total), seguido de Pará e Amazonas, ambos com 46 km² (14.2% do total).

Já no mês de janeiro, o acumulado de alertas de desmatamento foi de 167 km², registrando uma queda de 61% em relação ao mesmo período em 2022. Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, o aumento dos alertas de desmatamento em fevereiro, comparado ao ano anterior, pode ser interpretado por inúmeros fatores: “Primeiro, é necessário entender a metodologia do programa de monitoramento realizado pelo INPE, que é referência nacional e internacional. Os sistemas são baseados em satélites ópticos e eles não conseguem enxergar abaixo das nuvens. Isso pode ter sido responsável por essas diferenças tão grandes nos dois primeiros meses, tendo em vista que estamos no inverno amazônico que se caracteriza pelas chuvas e coberturas de nuvens muito intensas. Ou seja, parte do desmatamento que foi registrado agora em fevereiro poderia ser do mês de janeiro ou até mesmo de outros meses anteriores, e também não basta olharmos apenas a quantidade de nuvens que temos a cada mês, mas também entender onde elas estão, já que a região sul e sudeste da Amazônia são as fronteiras de desmatamento mais ativos e a cobertura de nuvens não são homogénea na Amazônia”.

A troca no comando do governo federal, considerando que o anterior era favorável ao desmatamento, também pode ser um dos fatores que corroboram esse aumento: “Acabamos de sair de um governo que apoiava o desmatamento. Enquanto a fiscalização e o controle não chegam em todo território, os desmatadores ilegais podem estar aproveitando para expandir esse desmatamento enquanto essas ações do Estado não incidem sobre o território”, salienta Rômulo.

Há uma movimentação por parte do atual governo para redução do desmatamento, como os retornos do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e do Fundo Amazônia, este que tem mais de R$ 3 bilhões para financiar ações de fiscalização, ambos foram essenciais para redução do desmatamento entre 2004 e 2012 mas ainda não é o bastante: “Foram iniciativas que já surtiram efeito no passado, no entanto o momento agora é outro. A Amazônia e o Brasil de hoje não é o mesmo de 10, 20 anos atrás. Vai ser necessário muito mais trabalho repondo os quadros de fiscais ambiental e também inovações tecnológicas, legais e infralegais, para combater as queimadas, o desmatamento, a violência contra os povos da florestas e o garimpo ilegal, que não só estiveram fora do controle, como foram apoiados pelo último governo”. Finaliza Rômulo.

Assessoria de imprensa Greenpeace Brasil

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O Greenpeace Brasil é uma organização ativista ambiental sem fins lucrativos, que atua desde 1992 na defesa do meio ambiente. Ao lado de todas as pessoas que buscam um mundo mais verde, justo e pacífico, a organização atua há 30 anos pela defesa do meio ambiente denunciando e confrontando governos, empresas e projetos que incentivam a destruição das florestas.

Madeireiras com selo de sustentabilidade tiveram mais de R$ 100 milhões em multas do Ibama

Investigação internacional mostra que empresas com certificado exigido para exportação cometeram crimes ambientais

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Por Allan de Abreu, Bernardo Esteves, Guilherme Waltenberg, Mario Cesar Carvalho, Rafael Oliveira, Luiz Fernando Toledo para a Agência Pública

O paranaense Idacir Peracchi chegou ao Sul do Pará em 1980 para trabalhar na extração de madeira. Investiu dinheiro na empreitada e não tardou a colher os frutos. Em poucos anos, se tornou o “rei do mogno” da cidade de Tucumã, comandando batalhões de mateiros e operadores de motosserra que ficavam no mato por até dois meses para extrair a madeira que, na época, era a mais valorizada da Amazônia. Junto com seu irmão, Idemar, fundou em 1983 a Exportadora Peracchi. A empresa cresceu rapidamente, às custas de crimes ambientais: ainda no final dos anos 1980, a Funai flagrou funcionários da madeireira extraindo mogno em áreas públicas griladas no meio da Terra Indígena Apyretewa, onde vivem indígenas da etnia Parakanã. Segundo o Ministério Público Federal, a Juruá devastou cerca de 5 mil hectares de floresta e construiu mais de 100 km de estradas para escoar a madeira ilegal até Tucumã.

Os irmãos Peracchi reconheceram a irregularidade e se comprometeram a recuperar a mata destruída na terra indígena — o que nunca aconteceu. Enquanto isso, fizeram uma repaginação nos negócios. No começo dos anos 1990, abriram uma nova empresa, dessa vez com roupagem ecológica: a Juruá Florestal. A madeireira virou referência no ramo. Em 2000, tornou-se uma das primeiras companhias desse tipo no Brasil a ser certificada pela FSC, a Forest Stewardship Council, ou Conselho de Manejo Florestal, ONG mundialmente conhecida que atesta a exploração responsável de produtos florestais. O certificado funciona como uma garantia de que a madeira da empresa não foi desmatada ilegalmente nem extraída por trabalhadores em condições degradantes. Ou assim deveria funcionar.

Ocorre que a nova empresa, mesmo certificada pela FSC, manteve o antigo padrão de infrações. Entre 2000 e 2017, a Juruá foi multada doze vezes pelo Ibama por destruir floresta sem autorização do poder público e transportar madeira sem documentação. Ao todo, as multas aplicadas nesse período somaram R$ 1,6 milhão em valores nominais.

O certificado da FSC acabou servindo como um salvo-conduto para as fraudes. Enquanto cometia infrações em série, a Juruá se valia da grife FSC para informar aos seus clientes dentro e fora do Brasil que explorava madeira de forma legal e sustentável. Em 2004, Idacir Peracchi chegou a aparecer em um anúncio do ABN, banco holandês que operou no Brasil no começo dos anos 2000. Na peça, ele foi apresentado como exemplo de um empresário comprometido com o meio ambiente. É um caso típico do que os ambientalistas chamam de greenwashing (lavagem verde): a prática de algumas empresas e governos de se mostrarem empenhados com a causa ambiental quando, na verdade, agem no sentido oposto.

Banner de divulgação da madeireira Juruá
Dono da Juruá, Idacir Peracchi já foi estrela de campanha publicitária exaltando o meio ambiente. Reprodução

O levantamento Agência Pública, da revista piauí e do Poder 360, em parceria com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e com os projetos Data Fixers e Fiquem Sabendo, mostra que ao menos 60 empresas certificadas pelo FSC e com unidades industriais na Amazônia Legal já foram autuadas pelo Ibama. Juntas, somam mais de R$ 100 milhões em multas por todo tipo de infração: desmatamento ilegal, transporte de madeira sem documentação, fraudes em guias florestais, grilagem de terras, entre outros.

A reportagem, resultado de três meses de investigação, integra a série Deforestation Inc, do ICIJ, que reúne 39 veículos de mídia ao redor do mundo. A apuração global revelou que, desde 2004, mais de 300 empresas de produtos florestais certificadas foram acusadas de crimes ambientais e outras infrações. No caso do Brasil, os dados usados na análise consideram todas as multas registradas no sistema do Ibama até dezembro de 2022, independentemente do status atual de cobrança. O registro da multa não significa necessariamente que a empresa é culpada. Ela pode recorrer da decisão e, eventualmente, a multa pode ser anulada.

Multada pelo Ibama, madeireira usou selo da FSC como argumento em processo

Em casos como o da Juruá, no entanto, não se trata de uma multa eventual. Há um padrão de repetidas infrações ambientais. Além de ter sido autuada por explorar madeira ilegalmente, a empresa já foi multada por fraudar o sistema de créditos do Sisflora, que monitora a comercialização de madeira em cada estado do Brasil. O sistema funciona assim: quando uma empresa obtém autorização do governo estadual para extrair determinada quantidade de madeira, a Secretaria de Meio Ambiente daquele estado insere no Sisflora o nome das espécies e a quantidade de madeira que a empresa está autorizada a extrair. No momento em que a madeira é vendida, o comprador recebe uma confirmação do Sisflora atestando a legalidade do produto. No entanto, há casos em que, com a conivência do poder público, madeireiras aprovam planos de manejo fictícios ou com quantidades de madeira superfaturadas. Essa sobra no saldo do Sisflora permite às empresas “esquentar” madeira retirada de áreas proibidas, como unidades de conservação e terras indígenas. Segundo o Ibama, a Juruá recorreu a esse estratagema irregular ao menos duas vezes em 2016.

Em 2011, o Ministério Público Federal cobrou da Juruá uma indenização por ter extraído 737 metros cúbicos de madeira ilegalmente — o suficiente para encher quinze caminhões com capacidade para quinze toneladas cada um. A empresa foi condenada na Justiça a pagar R$ 307 mil pelo crime. Em outro imbróglio judicial, na hora de se defender, os advogados da madeireira se agarraram ao selo da FSC, “espécie de honraria e/ou certificado conferido às empresas, dando conta da seriedade de seu trabalho na esfera florestal”, escreveram.

A FSC afirma que, quando uma empresa certificada é acusada de irregularidades, o certificado de boas práticas ambientais é suspenso ou cancelado. Mas não foi o que aconteceu com a Juruá. Ao longo de dezessete anos, a empresa renovou periodicamente seu certificado, mesmo acumulando multas do Ibama e ao menos uma condenação por crime ambiental nesse período. A Juruá só perdeu o certificado em 2017, por motivos não informados nem pela empresa nem pela FSC. Em 2022, retomou o selo. Procurada pela reportagem, a Juruá afirmou, por meio de nota, que não recebeu multas ambientais desde a última certificação da FSC, ano passado. Ressaltou, além disso, que “nenhuma empresa deve sofrer discriminação por ter sido autuada por órgãos de fiscalização antes do término do processo recursal”.

Fiscais do Ibama durante ação de fiscalização contra madeireiras que exploram ilegalmente a Amazônia

Ibama durante ação de fiscalização da cadeia de custódia da madeira e desmatamento ilegal em 2018. Fernando Augusto/Ibama

A FSC é uma organização multinacional sem fins lucrativos fundada em 1993 e sediada em Bonn, na Alemanha. Os selos emitidos por ela atestam que a madeira e outros produtos florestais comercializados por uma determinada empresa têm origem sustentável e são produzidos de forma a minimizar impactos socioambientais. É um selo de bom comportamento ambiental, uma chancela ecológica. Essa certificação é muito visada por empresas em todo o mundo porque lhes permite cobrar mais por seus produtos e abre as portas para mercados exigentes – como os da Europa – que, cada vez mais, querem se ver livres de produtos associados ao desmatamento e outros crimes ambientais. Além disso, o selo facilita a captação de investimentos externos e melhora a imagem das companhias junto à opinião pública.

Existem seis tipos de certificado FSC, mas os mais relevantes são dois: o de manejo florestal, fornecido para determinada área explorada comercialmente por uma empresa, e o de cadeia de custódia, que analisa e valida todas as etapas da manufatura da madeira, do corte até a venda final, de uma determinada empresa. No Brasil, os selos FSC são emitidos por onze empresas certificadoras, a um custo que varia conforme o tamanho da indústria e das áreas exploradas.

A partir da última década, a FSC, formada por centenas de ONGs ambientais, madeireiras e sindicatos pelo mundo, passou a sofrer fortes críticas, sobretudo por parte de entidades ligadas à defesa do meio ambiente, que a acusam de leniência na concessão dos certificados a infratores ambientais contumazes. “Identificamos falta de consistência em vários certificados deles, inclusive no Brasil”, diz Daniel Brindis, porta-voz para o tema de florestas do Greenpeace. “Infelizmente a FSC faz vista grossa para muitas empresas, porque depende do setor privado e é muito pressionada pelas madeireiras.” Em 2018, o Greenpeace encerrou sua parceria de longa data com a FSC acusando a entidade de falta de transparência e rigor na certificação de empresas.

As informações sobre as empresas certificadas usadas nesta reportagem foram coletadas em uma plataforma online da FSC. O site, contudo, permite apenas a visualização dos dados, não a extração, o que, na prática, impede que seja analisado todo o universo de empresas certificadas (estima-se que, no mundo, sejam dezenas de milhares). A reportagem solicitou acesso aos dados repetidas vezes, mas a FSC se recusou a fornecê-los. Na última resposta, alegou que “leis de privacidade” dificultariam o compartilhamento das informações.

Prisão de sócios não foi suficiente para perda do certificado

Entre as madeireiras certificadas pela FSC que acumulam multas, a Alecrim Indústria de Madeiras é um caso peculiar: a empresa não apenas foi autuada dezenas de vezes, como seus donos, os gaúchos Aldir Schmitt e Milton Schnorr, cumpriram pena em regime semiaberto em Santarém (PA), condenados por crimes ambientais. Ser preso no Brasil por esse tipo de delito é extremamente raro, já que as penas costumam ser pequenas. Além disso, é necessário que o réu seja reincidente — caso de ambos — para que um juiz possa mandá-lo à prisão. Os dois sócios foram presos em 2019. Mas, mesmo assim, a empresa não perdeu o selo da FSC, emitido em 2015.

Fundada por Schnorr em 1994, a Alecrim foi autuada 31 vezes entre 1997 e 2021. As multas somam 3,1 milhões de reais em valores nominais. Ao menos seis delas foram emitidas depois de a empresa obter o selo FSC. As infrações são diversas: venda de madeira sem licença adequada, exploração de madeira em terra indígena sem autorização e armazenamento irregular de madeira. Quase todas foram registradas no Pará. Muitas já foram pagas, mas algumas ainda se encontram em processo de julgamento no Ibama. Há dezenas de registros de exportação de madeira feitos pela Alecrim desde 2020. A lista de compradores inclui países como Estados Unidos, Panamá, Colômbia, Espanha, França e Reino Unido.

Os donos da Alecrim aparecem no quadro societário de duas outras empresas do mesmo ramo. Uma delas — a Algimi Florestal — acumula oito multas e já foi condenada na Justiça por poluir um igarapé. A despeito das condenações, Aldir Schmitt constava, até abril de 2022, como vice-presidente da Associação das Indústrias Madeireiras de Santarém (Asimas). Recentemente, a Asimas anunciou uma parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) “em busca de estratégias sustentáveis para a colheita florestal”.

Procurada pela reportagem, a Alecrim enviou uma nota alegando que “os autos de infração [do Ibama] são controversos e passíveis de nulidades, emitidos, ao nosso ver, por equívoco ou interpretação equivocada do agente autuador”. Quanto à prisão dos dois sócios da empresa, a nota diz que “foi injusta e arbitrária, ainda assim já cumprida, não devendo os pretendidos autores nada à Justiça”.

Assim como a Juruá Florestal e a Alecrim, a Pampa se vende como uma empresa sustentável. Fundada em 1987 pelo empresário gaúcho Demorvan Tomedi, a madeireira é um caso de sucesso. Prosperou com a exportação de madeiras e acumula hoje um capital social de R$ 34 milhões, um parque industrial de 100 mil m2 e um porto privado no Pará. Mas, assim como as outras empresas, acumula infrações ambientais. Foi multada doze vezes pelo Ibama, sendo quatro delas depois de ter obtido seu certificado FSC, em 2012.

As multas recebidas pela Pampa somam R$ 5,1 milhões, em valores nominais. A maioria dos casos é por fraudes no Sisflora: segundo os agentes do Ibama, a empresa “esquentou” madeira retirada ilegalmente de áreas próximas à Rodovia Transamazônica.

Imagem aérea de campanha do Greenpeace contra madeireiras que exportam madeira ilegal da Amazônia para o mundo. Na imagem é possível ver um cartaz em amarelo do Greenpeace com os dizeres em preto "lavando madeira para fora" em meio à centenas de toras de madeiraGreenpeace. Madeireira Pampa, multada 12 vezes pelo Ibama, foi alvo de manifestação do Greenpeace em 2014

As reiteradas multas renderam à Pampa processos na Justiça Federal. Em uma delas, a empresa foi condenada em duas instâncias a pagar R$ 962 mil por danos morais e ambientais e recuperar 195 hectares de mata nativa. Em outra ação, Tomedi, dono da Pampa, foi condenado por falsidade ideológica por inserir créditos de madeira fictícios no Sisflora. Tempos depois, o empresário deixou o comando da empresa. As condenações ocorreram quando a madeireira já era certificada pela FSC. Por meio de nota, a Pampa afirmou que todas as autuações do Ibama, bem como as condenações judiciais, estão em fase de recurso, e que a empresa “foi certificada e se mantém certificada porque cumpre o padrão” da FSC.

Outro caso semelhante é o da Madeireira Rancho da Cabocla. Sediada em Santarém, a empresa acumula 49 multas do Ibama. Ao menos catorze delas foram registradas depois que a madeireira obteve o selo da FSC, em 2018. Um dos sócios da empresa, Moacir Ciesca, foi preso numa operação da Polícia Federal, em 2004, acusado de corromper funcionários do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para invadir terras públicas no sudoeste do Pará. Ciesca responde, ainda hoje, a um processo por contrabando de madeira.

Por meio de nota, a Rancho da Cabocla alegou que todas as multas que recebeu quando já tinha o certificado FSC tratam de questões puramente administrativas — ou seja, infrações menos graves, que não prejudicam o meio ambiente. É verdade: desde 2018, a empresa foi multada por transportar madeira de forma irregular e preencher informações falsas no Sisflora. Segundo o Ibama, porém, o transporte irregular de madeira e o uso de dados falsos frequentemente são adotados por madeireiras para disfarçar madeira de origem ilegal.

Na nota, a Rancho da Cabocla insinuou que está em curso uma tentativa de criminalização da atividade madeireira. Sem citar nomes, a empresa afirmou que “interesses internacionais não confessáveis e escusos tentam marginalizar a atividade madeireira no sentido de auferirem vantagens pessoais e de grupos que não vivem aqui, não temos outra explicação”.

Empresa autuada dezenas de vezes já foi defendida publicamente por certificadora

Uma das primeiras empresas brasileiras a conquistar a certificação FSC para o manejo florestal sustentável foi a Mil Madeiras Preciosas. Fundada em 1994 em Itacoatiara (AM), a empresa é uma filial da Precious Woods, multinacional do setor madeireiro com sede na Suíça, e está entre as maiores exportadoras de madeira do Brasil. A empresa obteve o certificado da FSC em 1997 e, desde então, renovou a credencial várias vezes, apesar das dezenas de multas ambientais que recebeu desde então. Juntas, as autuações passam dos R$ 7 milhões. A Mil Madeiras foi acusada pelo Ibama de destruir áreas de floresta sem autorização, apresentar informações enganosas referentes ao seu plano de manejo e abrir uma estrada no meio da floresta sem a anuência das autoridades.

Uma das multas mais onerosas foi aplicada em 2002, quando fiscais do Ibama flagraram o transporte irregular de 24 mil m3 de toras de abiurana, castanharana e outras espécies de árvores — uma quantidade enorme, capaz de encher 480 caminhões. A Mil Madeiras Preciosas recorreu da decisão, e o caso segue em aberto até hoje. Atualizado com juros e correção monetária, o valor da multa passava de R$ 26 milhões em setembro de 2021. (Na mesma ocasião, a empresa também foi multada por transportar uma leva de toras sem autorização – mas, nesse caso, a multa foi anistiada por decisão do Ministério do Meio Ambiente, em 2006.)

A Mil Madeiras Preciosas afirmou, por meio de nota, que nunca teve seu certificado FSC suspenso ou cancelado, medida prevista em casos de irregularidades. Para a empresa, não há contradição entre as multas e o certificado de boas práticas, uma vez que o auto de infração “não representa, por si só, a condenação”. Além disso, diz a nota, as multas são controversas, já que “muitos órgãos ambientais interpretam a legislação brasileira para aplicar penalidades para meras irregularidades administrativas, como, por exemplo, o equívoco no preenchimento da guia de transporte de produto florestal”.

Quando as multas foram aplicadas contra a Mil Madeiras Preciosas em 2002, o Imaflora — certificadora vinculada à FSC — saiu em defesa da madeireira. Divulgou uma nota afirmando que as autuações eram “questionáveis”, e que as infrações apontadas pelo Ibama “não colocaram em risco o manejo florestal e/ou o controle de origem da matéria prima”. As multas “não faziam o menor sentido”, disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, que é membro da câmara econômica do FSC e na época coordenava o núcleo amazônico do Imaflora. “Não é que a empresa explorou madeira onde não devia”, afirmou. “Não houve problema ambiental algum, é um problema de documentação.”

Para Azevedo, as autuações recebidas pela Mil Madeiras Preciosas e por outras empresas certificadas não põem em xeque a validade do selo FSC. Ele argumentou que, para manter a certificação, elas passam por monitoramentos anuais nos quais são obrigadas a informar as multas que receberam. “Toda vez que se faz uma auditoria, a empresa tem que declarar tudo o que tem de passivos e quais procedimentos está tomando para resolvê-los. Ela deve se justificar e informar o que vai fazer para que isso não se repita”, explica o engenheiro. Na avaliação de Azevedo, o fato de que eventuais infrações sejam tratadas nessas auditorias é um sinal de que o sistema funciona. “Qualquer empresa tem infrações, e tem que evitar que elas se repitam, mas a ideia de que isso seja um problema sistêmico das empresas certificadas é uma falácia”, disse Azevedo.

O engenheiro florestal lembrou que as regras para a obtenção do selo FSC são rígidas. “As empresas certificadas têm o acampamento certinho e funcionários registrados, com equipamentos de segurança, que vão a campo com o plano de manejo para extrair o mínimo de cada árvore — e cada uma delas tem uma etiqueta com o número rastreado. É outro universo.” Na avaliação de Azevedo, as maiores ameaças ao meio ambiente vêm das madeireiras que não oferecem qualquer garantia de boas práticas. “Não tem como comparar isso com as atividades baseadas na ilegalidade.”

De acordo com o gerente de certificação do Imaflora, Ricardo Cardoso, as certificadoras fazem monitoramentos anuais para verificar se as empresas continuam em conformidade com seus princípios. Casos de suspensão temporária acontecem com alguma frequência, mas a perda definitiva da certificação é rara, explicou.

O próprio Imaflora, no entanto, reconhece que o sistema de certificação não é perfeito. “Atores locais ou partes interessadas não devem ter a expectativa de que uma empresa certificada FSC não tem — ou nunca teve — problemas socioambientais”, afirmou a certificadora, por meio de nota. “A certificação FSC e as empresas florestais certificadas não substituem o papel de governos locais e estaduais na regulação das atividades privadas ou na promoção de desenvolvimento socioeconômico.”

Imagem de campanha do Greenpeace contra madeireiras que exportam madeira ilegal da Amazônia para o mundo. Na imagem é possível ver um cartaz em amarelo do Greenpeace com os dizeres em preto "Made in Brazil", seguida de "Origin: Unknown" em meio à centenas de toras de madeiraGreenpeace. Empresas certificadas receberam mais de R$ 100 milhões em multas no Brasil

Ao ICIJ, FSC disse desconhecer situação das empresas certificadas no Brasil

O ICIJ perguntou à FSC se o certificado de boas práticas ambientais ainda tem algum propósito, já que várias empresas cometeram infrações e não perderam o selo. Na resposta, a entidade alegou que, só nos últimos cinco anos, 88 empresas tiveram seus certificados suspensos devido a infrações ambientais. (A FSC não informa o total de empresas certificadas no mundo, mas é possível afirmar que são milhares: a ONG diz ter emitido 53 mil certificados de cadeia de custódia, que validam as etapas da manufatura da madeira.)

Os mecanismos de controle, segundo a entidade, vêm se tornando mais rígidos nos últimos anos. “A FSC está guiando novas tecnologias para a identificação de madeira, de forma que sua proveniência possa ser cientificamente atestada”, diz a nota. “A FSC também está desenvolvendo uma ferramenta baseada no blockchain para monitorar dados em tempo real sobre transações que acontecem entre diferentes detentoras de certificados.”

Questionada sobre o uso do certificado para a prática de greenwashing, a entidade afirmou apenas que o selo de boas práticas ajuda no combate ao desmatamento e à degradação ambiental. “Nossas exigências garantem que as empresas de manejo florestal certificadas mantenham ou aumentem a estrutura, função, biodiversidade e produtividade de suas florestas.” A FSC afirmou que suas políticas também garantem que os direitos de trabalhadores e comunidades indígenas sejam respeitados. Mas ressaltou: “A FSC não alega que pode resolver sozinha problemas de múltiplas camadas como o desmatamento e reconhece a necessidade de que muitos atores e stakeholders se envolvam com essa empreitada.”

No caso específico do Brasil, o ICIJ perguntou à FSC como é possível que empresas certificadas acumulem tantas multas, mas a entidade disse que não estava informada sobre o assunto: “Não estamos cientes dessas investigações pelo Ibama que podem ou não ser relevantes para as atividades cobertas por nossos padrões”, afirmou a entidade. A FSC alegou ainda que suas normas e procedimentos poderão ser atualizados para que se adequem melhor à realidade brasileira.

Esta reportagem faz parte do especial #DeforestationInc, que investiga as falhas da indústria de madeira certificada na Amazônia e no mundo. O #DeforestationInc é uma investigação transnacional coordenada pelo ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists ou Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, em Português) e contou com 39 veículos parceiros aoredor do planeta. No Brasil, além da Agência Pública, a revista piauí e o Poder360 participaram da investigação.


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Este texto foi originalmente publica pela Agência Pública [Aqui!].

Mania global por colágeno ligada ao desmatamento na Amazônia brasileira

A investigação encontra casos do produto de bem-estar, aclamado por seus benefícios antienvelhecimento, sendo derivado de gado criado em fazendas que danificam a floresta tropical

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O colágeno é derivado do gado, mas, ao contrário da carne bovina, atualmente não há obrigatoriedade de monitorar os impactos ambientais do produto. Fotografia: Cícero Pedrosa Neto

Por Elisângela Mendonça, Andrew Wasley e Fábio Zuker para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de bovinos criados em fazendas que estão danificando as florestas tropicais no Brasil estão sendo usados ​​para produzir colágeno – o ingrediente ativo em suplementos de saúde no centro de uma mania global de bem-estar.

As ligações entre a carne bovina e a soja e o desmatamento no Brasil são bem conhecidas, mas pouca atenção tem sido dada à crescente indústria do colágenoavaliada em US$ 4 bilhões (£ 3,32 bilhões).

O colágeno pode ser extraído de peixes, porcos e bovinos. Seus usuários mais evangélicos afirmam que a proteína pode melhorar cabelos, pele, unhas e articulações, retardando o processo de envelhecimento. Além de marcas de beleza e bem-estar, também é usado por empresas farmacêuticas e produtoras de ingredientes alimentícios.

No entanto, uma investigação do Guardian, Bureau of Investigative Journalism, Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ITV e O Joio e O Trigo no Brasil descobriu que gado criado em fazendas que causam desmatamento foi processado em matadouros que atendem cadeias internacionais de suprimentos de colágeno.

Parte desse colágeno pode ser atribuído à Vital Proteins, de propriedade da Nestlé, um dos principais produtores de suplementos de colágeno bovino. A linha de colágeno da Vital Proteins é vendida globalmente, inclusive nos EUA e no Reino Unido.

Jennifer Aniston, a atriz e diretora criativa da Vital Proteins, chamou o colágeno de “a cola que mantém tudo unido”. Ela afirma tê- lo usado há anos, acrescentando-o ao café da manhã.

Embora existam estudos sugerindo que tomar colágeno por via oral pode melhorar a saúde das articulações e da pele, a Harvard School of Public Health adverte que existem potenciais conflitos de interesse, pois a maioria, senão toda a pesquisa, é financiada pela indústria ou realizada por cientistas afiliados a ela.

As empresas de colágeno não têm obrigação de rastrear seus impactos ambientais. Ao contrário da carne bovina, soja, óleo de palma e outras commodities alimentares, o colágeno também não está coberto pela futura legislação de devida diligência na UE e no Reino Unido, projetada para combater o desmatamento.

A Nestlé disse que as alegações levantadas não estão de acordo com seu compromisso com o fornecimento responsável e que entrou em contato com seu fornecedor para investigar. Acrescentou que está tomando medidas para “garantir que seus produtos sejam livres de desmatamento até 2025”.

O colágeno bovino é descrito como um subproduto da pecuária, que no Brasil responde por 80% de toda a perda da floresta amazônica .

A demanda por carne bovina, couro e colágeno tem visto mais e mais florestas serem desmatadas e substituídas por pastagens nos últimos anos, com terras muitas vezes confiscadas ilegalmente.

A maior parte do desmatamento causado pela pecuária pode ser atribuída a fornecedores indiretos das empresas, de acordo com Ricardo Negrini, promotor federal do estado do Pará, Brasil, que monitora os compromissos climáticos dos processadores de carne bovina.

O gado é frequentemente transferido de fazenda para fazenda para diferentes estágios de criação, então uma vaca nascida em terras desmatadas pode ser engordada para abate em uma fazenda de terminação “limpa”. Mas Negrini disse que, hoje, todos os frigoríficos têm capacidade de rastrear a origem do gado que compram.

  • Esta história foi produzida com o apoio da Rainforests Investigations Network do Pulitzer Center

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Cientistas provam ligação clara entre desmatamento e a diminuição de chuvas locais

 

Estudo aumenta os temores de que a Amazônia esteja se aproximando do ponto de inflexão após o qual não será capaz de gerar sua própria chuva

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Helicópteros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​participam de operação contra o desmatamento da Amazônia. Fotografia: Alan Chaves/AFP/Getty Images

Por Jonathan Watts para o The Guardian

Pela primeira vez, pesquisadores comprovaram uma clara correlação entre desmatamento e precipitação regional. Os cientistas esperam que isso encoraje empresas agrícolas e governos nas regiões da bacia amazônica e do Congo e no sudeste da Ásia a investir mais na proteção de árvores e outras vegetações.

O estudo constatou que quanto mais florestas tropicais forem desmatadas em países tropicais, menos os agricultores locais poderão depender da chuva para suas plantações e pastagens.

O artigo, publicado na revista Nature , aumenta os temores de que a degradação da Amazônia esteja chegando a um ponto crítico, após o qual a floresta tropical não será mais capaz de gerar sua própria chuva e a vegetação secará.

As pessoas que vivem em áreas desmatadas há muito fornecem evidências anedóticas de que seus microclimas se tornaram mais secos com menor cobertura de árvores. Os cientistas já sabiam que matar árvores reduz a evapotranspiração e, portanto, teorizaram que isso resultaria em menor precipitação local.

A equipe da Universidade de Leeds já provou isso usando registros de satélite e meteorológicos de 2003-17 em regiões pantropicais.

Mesmo em pequena escala, eles encontraram um impacto, mas o declínio tornou-se mais pronunciado quando a área afetada era maior que 50 quilômetros quadrados. Na maior escala medida de 200 quilômetros quadrados, o estudo descobriu que a precipitação era 0,25 pontos percentuais menor a cada mês para cada 1 ponto percentual de perda de floresta.

Isso pode entrar em um ciclo vicioso, pois as reduções nas chuvas levam a mais perda de floresta, aumento da vulnerabilidade ao fogo e diminuição do carbono.

Um dos autores, o professor Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, disse que 25% a 50% da chuva que caiu na Amazônia veio da reciclagem da precipitação pelas árvores. Embora a floresta às vezes seja descrita como o “pulmão do mundo”, ela funciona muito mais como um coração que bombeia água pela região.

Ele disse que o impacto local dessa redução na reciclagem de água era muito mais óbvio, imediato e persuasivo para governos e corporações no sul global do que argumentos sobre o sequestro de carbono, visto como tendo mais benefícios para os países industrializados do hemisfério norte.

“Demonstrar o benefício local de manter as florestas tropicais em pé para as pessoas que vivem nas proximidades tem importantes implicações políticas”, disse Spracklen. “Espero que nosso trabalho forneça um forte incentivo para que os formuladores de políticas e decisões nas nações tropicais conservem as florestas tropicais para ajudar a manter um clima local mais frio e úmido, com benefícios para a agricultura e as pessoas próximas”.

Os autores também analisaram os possíveis efeitos de mais desmatamento. Para a bacia do Congo, eles estimaram um declínio na precipitação de 16 mm por mês até o final do século, com base em projeções de perda de floresta.

Em todas as regiões, as consequências provavelmente serão sentidas em cidades e campos agrícolas a centenas ou milhares de quilômetros fora da floresta desmatada. O estudo observa que o rendimento das culturas pode diminuir em 1,25% para cada perda de 10 pontos percentuais da cobertura florestal.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Desmatamento na Amazônia continua avançando e preocupa

Em apenas duas semanas do mês, área desmatada supera os 209 km², segundo o Inpe. Cenário requer ações imediatas para impedir o avanço da destruição.

desmatamento 2021

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) considera preocupante os dados registrados pelo Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de monitoramento de desmatamento na Amazônia. Nas duas primeiras semanas de fevereiro de 2023, entre os dias 1º e 17, foram registradas perdas de 208,7 km² de floresta. No ano, já são mais de 375,3 km² de área desmatada na Amazônia.

“O Brasil já reduziu as taxas de desmatamento no passado e o atual governo tem plenas condições de voltar a baixá-las drasticamente nos próximos anos”, avalia o diretor executivo substituto do IPAM, Paulo Moutinho.

Os números de fevereiro representam o terceiro ano de crescimento consecutivo dos índices de desmatamento e quebram o recorde registrado no ano passado, quando foram derrubados 198,6 km² de floresta.

“A destruição da Amazônia é a destruição do maior tesouro do povo brasileiro. Esse desmatamento ameaça não só a biodiversidade da região, como todo o nosso regime de chuva e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Nós já sabemos como parar esse desmatamento e é fundamental que comecemos a controlar esse avanço da destruição”, afirma Moutinho.

A floresta amazônica é fundamental para a regulação do clima brasileiro, levando umidade para outras partes do país e assim regulando chuvas, volume de reservatórios. A destruição da floresta, portanto, tem consequências seríssimas para a produção de alimentos e o agronegócio, quase que totalmente dependente de chuvas para sua irrigação, assim como para a saúde da população, que sofrerá com o clima mais extremo e imprevisível.

O desmatamento ilegal das florestas representa uma forte ameaça ao equilíbrio climático da região e é facilitado pela não demarcação de florestas públicas, áreas preciosas que se unem às terras indígenas e às unidades de conservação para fazer fluir a umidade para o resto do Brasil, e fraudes no sistema de Cadastro Ambiental Rural, o CAR. Dos 56,5 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas na Amazônia, 18,6 milhões de hectares possuem CARs ilegais sobrepostos às áreas preservadas.

Além disso, o fogo na Amazônia, diretamente ligado ao desmatamento do bioma, tem avançado. Segundo dados do Monitor do Fogo, uma iniciativa do MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) 49% da área queimada no ano passado foi na floresta amazônica, totalizando 7,9 milhões de hectares queimados em 2022.

Estudo aponta que pecuária, não coca, impulsiona o desmatamento da Amazônia na Colômbia

As autoridades colombianas culparam o cultivo de coca – o ingrediente básico da cocaína – pelo corte raso, mas novo estudo  mostra o contrário

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Uma estrada ilegal feita durante o desmatamento em Caquetá, na Colômbia, em 2021. Foto: Luisa González/Reuters

Por Lucas Taylor em Bogotá para o “The Guardian”

A pecuária, e não a cocaína, foi a causa da destruição da Amazônia colombiana nas últimas quatro décadas, segundo um novo estudo .

Sucessivos governos recentes usaram preocupações ambientais para justificar o aumento de sua guerra contra o arbusto verde, mas a pesquisa mostra que em 2018 a quantidade de floresta desmatada para cultivar coca, o ingrediente básico da cocaína, foi apenas 1/60 daquela usada para o gado .

As descobertas do estudo justificam especialistas em conservação que há muito argumentam que a estratégia da Colômbia para conservar a Amazônia – muitas vezes centrada no combate à produção de coca – foi equivocada.

“Queremos finalmente erradicar essa narrativa de que a coca é o motor do desmatamento ”, disse Pablo Murillo-Sandoval, da Universidade de Tolima, que liderou o estudo.

O desmatamento aumentou depois que os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinaram um acordo de paz histórico com o governo em 2016 e depuseram suas armas.

À medida que os rebeldes saíam da selva, os grileiros se aproveitaram , derrubando árvores com motosserras e queimando vastas áreas. O desmatamento atingiu um recorde de 219.973 hectares (543.565 acres) em 2017, um aumento de 23% em relação ao ano anterior.

O então presidente Iván Duque usou a destruição ambiental causada pelo cultivo de coca para justificar o aumento da ação militar contra os plantadores de coca. Proibido de pulverizar plantações de coca com glifosato depois que o produto químico foi banido em 2015 por questões de saúde, o governo Duque enviou helicópteros e tropas armadas para a floresta amazônica, às vezes em confrontos mortais com plantadores de coca.

No entanto, embora as fazendas de gado tenham desmatado mais de 3 milhões de hectares (7,4 milhões de acres) da floresta amazônica em 2018, o impacto da coca foi insignificante.

Gado percorre a Amazônia desmatada em Guaviare, Colômbia, em 2022.
Gado percorre a Amazônia desmatada em Guaviare, Colômbia, em 2022. Foto: Mauricio Dueñas Castañeda/EPA

Apenas 45.000 hectares (111.200 acres) foram desmatados para coca em 2018, o último ano disponível no estudo.

Usando um algoritmo de aprendizado profundo para diferenciar entre a terra usada para coca e gado, Murillo e seus colegas conseguiram pela primeira vez distinguir entre as atividades em grande escala de 1985 a 2019.

“Sempre contestamos o argumento do governo de que a coca estava impulsionando o desmatamento, mas carecemos de evidências”, disse Angelica Rojas, oficial de ligação do estado de Guaviare na Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável, um thinktank ambiental colombiano. “Agora temos dados reais com os quais podemos nos opor a esse erro.”

Os números mostram que os governos anteriores usaram o meio ambiente como uma falsa justificativa para travar uma guerra contra os plantadores de coca, disse Rojas, que não participou do estudo.

“Eles não queriam impedir o desmatamento, só queriam justificar o gasto de mais dinheiro e recursos em seu verdadeiro objetivo político: eliminar a coca”, disse ela.

O estudo também acrescenta evidências de que, apesar do sacrifício de vidas e do gasto de bilhões de dólares, a “guerra às drogas” da Colômbia não conseguiu deter a produção de coca – e, em alguns casos, pode até piorá-la.

Quando os agricultores erradicam suas plantações, eles simplesmente estabelecem novos lotes, muitas vezes apenas alguns quilômetros mais fundo no dossel da floresta, disse Murillo. “A guerra contra as drogas começou há 40 anos, mas todos sabem onde está a coca: no mesmo lugar onde sempre estiveram.”

Como o governo se envolveu em um jogo de bate-papo com os plantadores de coca, o verdadeiro motor do desmatamento, a pecuária, foi autorizado a engolir vastas extensões de terra, argumentam os autores.

Falhas na regulamentação fundiária colombiana incentivaram a conversão de florestas tropicais biodiversas em pastagens estéreis.

Para ter suas escrituras reconhecidas, os proprietários devem demonstrar que 75% de seus lotes são produtivos, e é muito mais fácil para os agricultores usar vacas do que plantações, disse Carlos Devia, engenheiro florestal da Universidade Javeriana de Bogotá, que não participou do estudo.

“A pecuária é a maneira mais fácil de mostrar que você está usando a terra, pois ela não é regulamentada. Você poderia ter 100 hectares de terra e colocar apenas 10 vacas lá, enquanto para batatas ou milho apenas um hectare exigiria um ano de muito trabalho”, disse Devia.

Agricultores sem terra costumam desmatar alguns hectares de floresta tropical e vendê-los ilegalmente a membros de organizações criminosas que, então, juntam vários pequenos lotes, transformando-os em vastas faixas de pastagens áridas e sem vida.

O presidente colombiano Gustavo Petro, que assumiu o cargo em agosto do ano passado, está propondo uma reviravolta na fracassada estratégia antinarcóticos da Colômbia .

Petro, ex-membro do extinto grupo rebelde M-19, desviou o foco da erradicação forçada da coca e está comprando milhões de hectares de terra para dar aos agricultores.

“Reduzir o uso de drogas não requer guerras, precisa de todos nós para construir uma sociedade melhor”, disse Petro à assembléia geral da ONU em setembro do ano passado.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].