Para salvar a Amazônia , não bastará conter o desmatamento para reverter o estrago causado no governo Bolsonaro

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Uma observação dos dias iniciais do governo Lula e das ações da sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, indica que, ao menos no discurso, o governo federal voltará a agir para conter o desmatamento e a ação desenfreada de uma ampla gama de saqueadores que agiu livremente desde janeiro de 2019.  Um dos problemas a ser tratado inicialmente tem a ver com a retomada das estruturas de comando e controle que permitiram o controle das taxas de desmatamento entre 2003 2016, as quais foram explicitamente desmontadas por Jair Bolsonaro e seu anti-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Mas essa é apenas uma das muitas questões que terão de ser atacadas sob pena dos discursos iniciais não terem como consequência as ações que os mesmos ensejam.

Para mim que tenho estudado as diferentes dimensões do problema amazônico, um passo que precisa ser tomado para que haja alguma chance de se alcançar um cenário mais positivo na Amazônia é reconhecer que o processo de desmatamento não é mais o único (e talvez nem o mais importante) a afetar a sustentação das florestas amazônicas, pois hoje a degradação florestal se tornou algo igualmente ou até mais preocupante, como já ficou demonstrado no artigo que foi publicado pela revista Science em setembro de 2020, dos quais sou m dos autores. Entender que há uma dinâmica que combina desmatamento e degradação implicará na necessidade de superar compromissos anteriores com o chamado “Desmatamento Zero”, pois de nada adiantará não desmatar mais, se for permitido que diferentes atores continuem degradando legal ou ilegalmente as florestas amazônicas.

A partir disso há que estabelecer metas sérias para não permitir a intrusão de usos da terra que hoje são legitimados a partir do chamado “desmatamento legal” ou de compromissos feitos com base em critérios de permitir determinados plantios em áreas de desmatamento antigo, como foi o caso da Moratória da soja“. Tais compromissos só escondem a condescendência com o avanço da fronteira agrícola, pois a comunidade científica já demonstrou que a pressão por mais produção só é resolvida pelo aumento da área desmatada, como é o caso das culturas de exportação como soja, milho e cana de açúcar.

Além disso, há que se superar a ideia de que os problemas da Amazônia só serão resolvidos com a doação de bilhões de dólares por parte de governos estrangeiros, como no caso do Fundo Amazônia. Uma análise mais detalhada das reservas brasileiras mostra que o Brasil possui muito dinheiro estocado na forma de reservas, mas que a ação preferencial no seu uso é pelo pagamento da impagável dívida pública que só faz mesma a alegria das grandes instituições financeiras globais. De certa forma, quando países como Noruega e Alemanha “doam” dinheiro em troca de preservação ambiental, seus governos estão agindo para proteger os interesses dos controladores de grandes fundos financeiros globais que lucram com a especulação em torno da dívida brasileira.

Há ainda que se citar a necessidade de, a partir da reconstrução das cadeias de comando e controle, agir para identificar e punir os que se beneficiam da pilhagem das riquezas amazônicas, incluindo as grandes corporações de tecnologia que hoje estão entre as principais consumidoras do ouro que é retirado ilegalmente de terras indígenas. Mas o mesmo pode ser dito da madeira, pois um dos méritos (ou seria deméritos?)  da gestão de Ricardo Salles foi mostrar que há um fulgurante mercado internacional para a madeira roubada de unidades de conservação, terras indígenas e áreas públicas.

Por último, mas não menos importante, o governo Lula deveria abandonar imediatamente projetos para pavimentar estradas ( a polêmica BR-319 é um perfeito exemplo disso) e construir novas hidrelétricas. É que essa fórmula que mistura pavimentar e represar está na base dos usos insustentáveis da terra na Amazônia, e não será adicionando mais dessas estruturas que vamos chegar a um novo cenário. Achar que se poderá conter a destruição oferecendo as ferramentas que as possibilitam beira um exercício de auto enganação ou de um desejo  subliminar de deixar que a boiada continue passando.

Por todos os elementos que apontei acima, entendo que não será suficiente se apostar em um cenário pré-2016 para que se garanta as mudanças que a situação amazônica requer neste momento.  É que o avanço da franja de desmatamento e da degradação já coloca a Amazônia diante daquilo que diversos cientistas já definiram como um “ponto de não retorno“.  Isso implica que há que se avançar não apenas no entendimento do tamanho do problema, mas também de um compromisso com a criação de um modelo de desenvolvimento que além da dependência de se desmatar e degradar para gerar algum nível de atividade econômica.

Brigadas comunitárias: uma solução eficaz contra o fogo no Brasil 

Projetos em parceria com o WWF-Brasil treinaram mais de 450 voluntários, formando 30 grupos de combate no Pantanal, 30 na Amazônia e 10 no Cerrado

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Por Maíra Teixeira, do WWF-Brasil

“Tem muita gente tentando invadir nossas terras. Derrubam árvores, tocam fogo, depois querem fazer garimpo. Por isso, todos aqui têm de aprender a combater queimadas”, alerta Boroap Uru-Eu-Wau-Wau, integrante da brigada comunitária da Terra Indígena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. Boroap, que tem 32 anos e é mãe de dois filhos, participou pela primeira vez de uma formação de brigadistas em 2019, ao lado do marido, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, assassinado meses depois. Mas, apesar da ausência dele, não pensou em desistir da luta pelo seu território. “Voltar sozinha para o segundo curso foi difícil. Mas eu continuo porque é uma forma de proteger a nossa terra, os nossos parentes”, explica.

O segundo treinamento a que Boroap se refere contou com a participação de 14 indígenas e foi realizado em setembro deste ano na TI Uru-Eu-Wau-Wau, fruto de uma parceria entre o WWF-Brasil, a Associação Etnoambiental Kanindé e o centro especializado PrevFogo, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A formação de brigadistas voluntários, estratégia importantíssima contra queimadas no Brasil, tem sido fomentada pelo núcleo de respostas emergenciais do WWF-Brasil há três anos, desde que o número de incêndios explodiu na Amazônia.

Em um país continental como o Brasil, há muitas localidades remotas e de difícil acesso, onde não há sequer unidades de bombeiros. Para chegar a determinados pontos da TI Uru-Eu-Wau-Wau, que é a maior do Estado de Rondônia, abrange 13 municípios e abriga cerca de 300 indígenas de diferentes povos, é necessário percorrer horas de estrada ou rio. É arriscado, portanto, depender da ajuda externa para debelar o fogo rapidamente. Tanto que, entre 2019 e 2021, o aumento da área queimada dentro da TI foi de 165%, de 75 para 199 hectares, de acordo com dados do projeto MapBiomas. E, no mesmo período, a perda de superfície de água foi de 1.275 hectares no território.

Mais de 450 brigadistas formados

Nesse trabalho que o WWF-Brasil vem realizando desde 2019, com parceiros locais, bombeiros e PrevFogo, já foram capacitadas mais de 450 pessoas distribuídas em 30 brigadas no Pantanal, 30 na Amazônia e 10 no Cerrado. A organização também doou cerca de 10 mil peças de combate ao fogo, como lança-jatos, sopradores e abafadores, e equipamentos de proteção individual (EPIs), como capacetes, balaclavas e botas.

Durante uma dessas formações, também em setembro deste ano, a realidade se impôs e indígenas Paiter Suruí foram obrigados a antecipar a parte prática para combater uma queimada. “Nós nos organizamos em cinco minutos para começar a controlar o fogo”, conta o biólogo Israel Corrêa do Vale Junior, que trabalha com gestão de áreas protegidas pela Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. “Apesar de terem tido apenas uma manhã de teoria, todas as pessoas seguiram as instruções e controlaram o fogo. No dia seguinte, fomos conferir juntos o rastro que havia ficado e o que tinha sido feito. Esses detalhes são importantes para entender a prática brigadista”. Treze indígenas participaram do curso.

A TI Sete de Setembro, onde vivem cerca de 1.200 Paiter Suruí, tem 427 mil hectares e está localizada entre os Estados de Mato Grosso e Rondônia. “Eles estão muito à nossa frente como sociedade. Fazem formação de monitores de biodiversidade, têm certificação de café, castanha. Além disso, têm uma ferramenta de plano de gestão territorial com prazos de execução de 3 a 5 anos para olhar para os próximos 50 anos. Mas, infelizmente, ainda enfrentam os desafios de lutar contra madeireiros e garimpeiros”, destaca Vale. De acordo com o MapBiomas, 20,3 hectares da TI pegaram fogo em 2021, número 35,3% maior do que em 2019. Já a perda de superfície de água no território foi de 598 hectares no período.

A estratégia do WWF-Brasil, de investir na capacitação de indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares e moradores de regiões onde há Unidades de Conservação (UCs), é evitar que pequenos focos de fogo se transformem em grandes incêndios. “Com o apoio dessas comunidades, é possível dar respostas mais rápidas e eficientes. As brigadas também vão às escolas e promovem atividades de educação ambiental”, salienta Osvaldo Barassi Gajardo, especialista em conservação do WWF-Brasil.

“Essas brigadas têm salvado muitas áreas, fauna, flora e pessoas por todo o Brasil. Elas também são importantes para quem vive da floresta porque fazem parte de uma estratégia que protege tanto o modo de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais quanto os territórios de onde tiram seu sustento”, acrescenta Gajardo. “Parcerias com organizações locais, como a Kanindé, em Rondônia, e a Ecoa, em Mato Grosso do Sul, são essenciais para nós e funcionam como porta de entrada para as comunidades. O planejamento é feito em conjunto, pois as demandas vêm de quem está nos territórios, e o PrevFogo participa conduzindo os treinamentos.”

Uma força silenciosa e nacional

Os dados relacionados ao fogo são alarmantes no Brasil. O número de focos de queimadas entre 2019 e 2022, considerando o intervalo de 1º de janeiro a 30 de novembro de cada ano, foi de 371 mil na Amazônia, 241 mil no Cerrado e 41 mil no Pantanal, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Um aumento de, respectivamente, 8%, 3,3% e 152% na comparação com o mesmo período dos quatro anos anteriores (2015-2018).

“A demanda de criar, treinar e manter brigadas voluntárias nos locais onde não havia estrutura era urgente. Foi preciso colocar os próprios moradores para combater o fogo”, lembra Márcio Ferreira Yule, coordenador do PrevFogo em Mato Grosso do Sul. Ele ressalta que os últimos quatro anos foram de muita apreensão e perdas em todo o território nacional, mas a rearticulação da estratégia de treinamento de brigadas comunitárias, bastante exitosa no começo da década passada, se mostrou acertada.

Para estruturar as brigadas comunitárias, o PrevFogo conta com o auxílio de parceiros, como o WWF-Brasil, para doação de equipamentos e recursos para logística, e também com voluntários que doam seu tempo e esforço para atuarem como brigadistas. Na capacitação das brigadas no Pantanal, Cerrado e Amazônia, o WWF-Brasil contou com o financiamento da União Europeia. O Consulado da Alemanha em São Paulo, a Unilever e os escritórios do WWF do Reino Unido e Alemanha também doaram recursos para as brigadas.

“Os treinamentos nos territórios são de suma importância, considerando que em algumas localidades fora da área de atuação do PrevFogo e distantes de equipes de Corpo de Bombeiros, o primeiro combate poderá ser realizado por essas brigadas. Elas possibilitam a rápida extinção do fogo e diminuem os danos decorrentes dele”, frisa Paula Mochel, analista ambiental e coordenadora da Divisão de Prevenção do PrevFogo/Ibama.

Como são os cursos

Os treinamentos, em geral, começam com aulas teóricas e evoluem até chegar à fase prática, na qual os participantes aprendem algumas técnicas de combate às chamas, como a construir aceiros: estreitas faixas de terra batida abertas no entorno de propriedades, plantações ou matas que impedem a propagação de incêndios, pois interrompem o contato do fogo com a vegetação próxima.

Paula explica ainda que as brigadas comunitárias atuam também em ações de prevenção e conscientização das comunidades quanto ao uso racional do fogo nas roças, alertando para os perigos e prejuízos decorrentes dos incêndios florestais. “Nesse tipo de combate, elas devem atuar, preferencialmente, no reconhecimento da área e no primeiro ataque ao incêndio. Quanto mais cedo começar o combate ao fogo, maior a probabilidade de extinção das chamas sem a necessidade do uso de recursos adicionais”, conclui.

Destinação de terras públicas é essencial para acabar com desmatamento na Amazônia

IPAM inicia novo ciclo do Amazoniar sobre soluções para o desmatamento com diálogo sobre florestas públicas não destinadas

Deforestation. (Aerial view).

Vista área de área de desmatamento na Amazônia

O desmatamento em terras públicas é um dos grandes desafios da Amazônia: de acordo com Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), 51% do desmatamento na região nos últimos anos ocorreu em áreas que, em outras palavras, pertencem ao povo brasileiro. “Isso significa que estamos perdendo patrimônio público para entes privados e atividades ilegais”, explica Alencar.

Grande parte do problema acontece nas chamadas florestas públicas não destinadas (FPND) — ou seja, terras públicas que estão sob o domínio do governo estadual ou federal e ainda não receberam uma destinação para se consolidar como unidade de conservação, terra indígena ou reserva extrativista, por exemplo. Pela Lei de Gestão de Florestas Públicas (Lei 11284/06), essas áreas devem ser voltadas para conservação ou uso sustentável de seus recursos, em especial pelas populações originárias e tradicionais.

A destinação de terras públicas é uma das soluções para o desmatamento a serem abordadas no novo ciclo do Amazoniar, que se propõe a conectar a juventude com especialistas do IPAM, para encontrar formas de mobilização coletiva pela conservação do bioma. Ao longo dos meses de janeiro e fevereiro, a iniciativa lançará vídeos dos diálogos sobre propostas para acabar com o desmatamento.

Confira o primeiro vídeo da série aqui.

Amazônia, terra de todos

Segundo Alencar, o desmatamento em terras públicas é um reflexo do enfraquecimento de instituições governamentais em diversos níveis, principalmente em relação à fiscalização de atividades ilegais. A grilagem, nome dado à apropriação ilegal de terras, está diretamente associada aos recordes de desmatamento que o Brasil vem batendo nos últimos anos.

Análises do IPAM mostram que, até o fim de 2020, mais de 14 milhões de hectares das FPND, equivalente a 29% da área total, estavam registrados ilegalmente como propriedade particular no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (CAR). Como o CAR é autodeclaratório, grileiros desenham no sistema supostos imóveis rurais nessas áreas, para simular um direito sobre a terra que eles não têm.

“Quando um grileiro ocupa uma terra pública, apostando que essa área pode vir a ser reconhecida como dele no futuro, ele está arriscando e investindo dinheiro para desmatar. Isso não é barato. No entanto, atualmente esse risco é muito pequeno diante da falta de fiscalização nessas áreas públicas”, alerta a cientista.

Em meio à necessidade de acabar com o desmatamento, para cumprir com o compromisso global de reduzir emissões de gases de efeito estufa e mitigar as mudanças climáticas, Alencar ressalta que nunca foi tão urgente ressignificar o termo “terra de ninguém”, frequentemente usado para fazer referência às FPND. “É preciso que fique claro que as terras públicas brasileiras pertencem ao Brasil, e não a pessoas específicas.”

Sobre o Amazoniar

Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para promover um diálogo global sobre a Amazônia e sua importância para as relações do Brasil com o mundo. Nos ciclos anteriores, foram organizados diálogos sobre as relações comerciais entre Brasil e Europa; o papel dos povos indígenas no desenvolvimento sustentável da região e sua contribuição para a ciência e a cultura; e o engajamento da juventude pela floresta e seus povos nas eleições de 2022.

Com a proposta de levar a Amazônia para além de suas fronteiras, o Amazoniar já realizou projetos especiais, como um concurso de fotografia, cujas obras selecionadas foram expostas nas ruas de Glasgow, na Escócia, durante a COP 26; uma série de curtas que compôs a exposição “Fruturos — Amazônia do Amanhã”, do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro; além de uma publicação com informações-chave para que todos possam compreender melhor o atual contexto amazônico e algumas das possíveis soluções para seu desenvolvimento sustentável.

Lula pode salvar a Amazônia? Seu histórico mostra que ele pode conseguir

O novo presidente do Brasil está determinado a reverter a abordagem de terra arrasada de Bolsonaro  em relação ao meio ambiente

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‘No primeiro dia de mandato de Lula, ele assinou uma medida do Fundo Amazônia, que permite que governos estrangeiros ajudem a custear esforços de preservação.’ Fotografia: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images

Por André Plagliarini para o “The Guardian”

Esta semana, enquanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva se preparava para tomar posse para um terceiro mandato sem precedentes, uma das principais preocupações era se o clima permitiria que ele acenasse para apoiadores reunidos em Brasília de um conversível conversível, como é costume . Certamente marcou um afastamento das preocupações mais sérias que assombraram a transferência de poder entre ele e seu antecessor, Jair Bolsonaro, nas semanas anteriores.

Afinal, milhares de seguidores de Bolsonaro se recusaram a aceitar o resultado das eleições do ano passado. Muitos acamparam do lado de fora dos quartéis militares pedindo a intervenção das forças armadas, cometendo graves atos de vandalismo na capital do país. Felizmente, seus apelos não deram em nada – Bolsonaro partiu sem cerimônia para a Flórida no último dia do ano – e Lula está oficialmente de volta.

Nenhum presidente na maior nação da América Latina ganhou três eleições, uma prova da popularidade duradoura e relevância política do ex-metalúrgico. Lula enfrenta muitos desafios, principalmente devido à natureza de terra arrasada das políticas de Bolsonaro. Nesse contexto, suas primeiras medidas após a posse assumem especial importância simbólica, dando o tom do que os observadores do país e do exterior podem esperar deste novo governo.

Isso nos leva ao destino da floresta amazônica . Em seu discurso de posse no Congresso, Lula disse: “Nossa meta é atingir zero desmatamento na Amazônia e zero emissão de gases de efeito estufa na matriz elétrica, além de incentivar a revitalização de pastagens degradadas”. Criticando implicitamente os principais produtores agrícolas do Brasil, os maiores responsáveis ​​pela degradação ambiental, Lula insistiu: “O Brasil não precisa desmatar para manter e expandir sua estratégica fronteira agrícola”.

Entre os primeiros decretos que ele assinou estavam medidas de fortalecimento da proteção ambiental e combate ao desmatamento – um revogou uma iniciativa de Bolsonaro que efetivamente facilitou a grilagem ilegal de terras. Durante seu mandato, Bolsonaro não fez quase nada para fazer cumprir as rígidas leis de proteção ambiental do país. Isso ocorreu em parte porque ele tinha pouco incentivo para – os principais interesses agrícolas formavam uma parte fundamental de seu eleitorado político. As novas medidas de Lula também exortaram sua ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cujo cargo foi renomeado como Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, a apresentar novas diretrizes para o Conselho Nacional do Meio Ambiente, que havia sido prejudicado por Bolsonaro.

Um grande desafio para Lula será equilibrar o interesse econômico do Brasil em um setor agrícola vibrante, que se tornou fundamental para a carteira de comércio exterior do país nas últimas décadas, com a necessidade de conter o desmatamento que desmatou milhares de acres de floresta para criar novos pastagens para gado. Os interesses agrícolas são uma grande força política no Brasil . O fato de que tais interesses apoiaram de forma tão esmagadora Bolsonaro, um presidente que representava uma ameaça direta à ordem democrática do Brasil, tornará muito difícil para Lula enfiar essa agulha política em particular. Como cumprir as proteções ambientais sem alienar ainda mais os interesses agrícolas que já desconfiam dele?

Pelo menos por enquanto, Lula não dá sinais de ceder aos atores que tanto impulsionam o desmatamento no país. Em seu primeiro dia de mandato, ele também assinou uma medida que recria o Fundo Amazônia, que funciona como um mecanismo para governos estrangeiros ajudarem a custear esforços de preservação. Como o The Guardian relatou em novembro passado, o fundo foi efetivamente paralisado sob a administração anterior; cerca de 3,2 bilhões de reais (£ 500.000) que já haviam sido doados foram congelados .

A devastação da floresta amazônica que Bolsonaro permitiu foi talvez o desenvolvimento mais crítico que abriu caminho entre o Brasil e grande parte do mundo nos últimos anos. Enquanto os líderes da Europa Ocidental e dos Estados Unidos se preocupavam com o desrespeito de Bolsonaro pela maior floresta tropical do mundo, Bolsonaro os acusou de tentar minar a soberania brasileira. A nova ação de Lula já rendeu uma promessa do presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, que compareceu à posse de Lula, de € 35 milhões (£ 31 milhões) para o Fundo Amazônia. É provável que mais a seguir.

Os movimentos na frente ambiental representam o que provavelmente será a estratégia de Lula em seu terceiro mandato: casar o compromisso de fortalecer a democracia e diminuir a desigualdade interna com a reafirmação da relevância brasileira nos assuntos globais. Durante o mandato anterior de Lula, o Brasil emergiu como líder mundial em questões de redução da pobreza, redistribuição de riqueza e proteção ambiental. Sob Lula, por exemplo, o desmatamento caiu impressionantes 70%. A mensagem do novo governo é clara: o Brasil está de volta como um player razoável e eficaz no cenário internacional.

O retorno de Lula foi comemorado – implícita e às vezes explicitamente – por vários líderes estrangeiros ansiosos por ver um governo brasileiro comprometido com políticas públicas criativas, ousadas e eficazes e engajamento internacional. Mas não será fácil. Lula deve cumprir a imensa promessa representada por seu terceiro mandato. A posição do Brasil no cenário mundial e a contínua vitalidade da democracia brasileira podem depender apenas disso.

Andre Pagliarini é professor assistente de história no Hampden-Sydney College, na Virgínia. Ele está trabalhando em um livro sobre a política do nacionalismo na história moderna do Brasil


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Incêndios florestais aumentaram no Sudoeste da Amazônia após novo Código Florestal

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A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e desempenha um papel importante na regulação do clima global. Porém, o desmatamento contribui com a alteração dos ciclos das chuvas, provocando a intensificação da estação seca, o que aumenta a extensão da  vegetação nativa afetada por incêndios florestais. O crescimento contínuo das queimadas em Boca do Acre (AM) foi de 66% em 2012, ano de aprovação do novo Código Florestal, para 88% em 2019. As informações são de pesquisa realizada por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) em parceria com outras instituições nacionais e internacionais, e publicada nesta terça (20) na revista “Fire”. 

A pesquisa analisou dados de satélite das áreas queimadas entre os anos 2003 e 2019, em uma nova fronteira do desmatamento, no Sudoeste do Amazonas. Após o cruzamento dos dados, os cientistas ponderaram as informações acerca do clima, cobertura do solo, imóveis rurais e áreas protegidas. “O objetivo do estudo foi fornecer uma avaliação abrangente da extensão espacial e padrões de áreas queimadas, analisando o que, onde e o quanto mudou, para poder entender o processo do fogo na região do estudo”, explica a pesquisadora Liana Anderson, uma das autoras do estudo. No período estudado, a área anual afetada pelo fogo variou a partir de 33 km² e atingiu pico 681 km² em 2019.

O estudo também buscou compreender o processo das queimadas e os principais fatores que as influenciam. “Observamos a importância das áreas de proteção, como as unidades de conservação e terras indígenas, pois estas servem como barreiras para que o incêndio não adentre as regiões mais preservadas da Amazônia”, aponta a assistente de pesquisa Débora Dutra, que liderou o estudo. Em contrapartida, as áreas de pastagens e agricultura próximo às rodovias, como a BR-317, e as rotas utilizadas para transporte de madeira do desmatamento causam alterações nessas barreiras, deixando a floresta mais vulnerável aos incêndios florestais. 

“O desmatamento tem uma relação com o fogo, pois a abertura de novas áreas expõe cada vez mais a floresta”, aponta Liana Anderson. Conforme o estudo, a tendência de desmatamento na região aumentou de 15% em 2012 para 91,60% em 2019. Observou-se também o avanço no desmatamento e do fogo nas áreas de florestas públicas ainda não designadas, indicando a necessidade urgente de políticas públicas para garantir a conservação destas áreas.

Segundo as pesquisadoras, a perspectiva para os próximos anos é um aumento significativo nos focos de fogo na região devido ao aumento do desmatamento e do processo de grilagem de terra, observado no estudo a partir do registro de imóveis rurais em áreas de florestas públicas em que ocorreram processos de desmatamento e incêndios florestais. “Se não tivermos políticas públicas e ações de controle contra atividades ilegais, como a extração de madeira sem autorização e desmatamento, podemos esperar que esta área se torne crítica tanto pelo aumento de conflitos quanto pela perda de serviços ecossistêmicos”, enfatiza Anderson. 


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Brasil em chamas: queimadas em novembro quase dobram em relação a 2021

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Dados do Monitor do Fogo do MapBiomas confirmam a escalada da destruição ambiental nos últimos meses do governo Bolsonaro. A área queimada em novembro em todo o território nacional — 775 mil hectares — foi 89% superior ao registrado no mesmo mês de 2021. Desse total, 81% (627 mil hectares) foram queimados na Amazônia.

A maior parte da área queimada (58%) no mês passado foi em vegetação nativa, sendo que mais de um terço (35%) atingiu formações florestais. Dentro os tipos de uso agropecuário do solo atingidos, as pastagens se destacaram, representando 38% da área queimada em novembro. Os estados líderes em extensão destruída pelo fogo foram Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. Os municípios de Querência (MT), Lábrea (AM), Pacajá (PA) e Porto Velho (RO) foram os que tiveram maior área queimada.

“Os dados do monitor do Fogo de área queimada em novembro só vêm confirmar o que já tinhamos visto com os focos de calor. Logo após o segundo turno das eleições houve um aumento da área queimada em um mês que normalmente não teríamos muito fogo por conta das chuvas. Trata-se claramente de uma reação à expectativa de políticas mais efetivas de combate ao desmatamento e queimadas por parte do novo governo”, analisa Ane Alencar, Coordenadora do Mapbiomas Fogo e Diretora de Ciência do IPAM.

Uma nova funcionalidade do Monitor do Fogo são as áreas queimadas por Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Ela mostra que em novembro as UCs que mais queimaram foram RESEX Chico Mendes, RESEX do Rio Cajari e RESEX Verde para Sempre. No caso das Tis, o ranking é liderado pela Parque Indígena do Xingu, TI Paresi e TI Capoto/Jarina.

Com os números de novembro, o acumulado desde janeiro alcançou 15,9 milhões de hectares, uma área maior que a soma dos territórios da Escócia e da República Tcheca. Esse número é 13% maior do que o registrado no mesmo período em 2021 — uma diferença de 1,8 milhão de hectares a mais. A grande maioria (70%) da área queimada foi em vegetação nativa, principalmente em formações savânicas e campestres. Porém foram as florestas que tiveram maior aumento em relação ao ano passado: 86%, ou cerca de 2,7 milhões de hectares. Desse total, 85% ocorreram na Amazônia. Entre janeiro e novembro, as florestas da Amazônia queimaram quase o dobro do que foi queimado em florestas na região no ano inteiro de 2021. Um terço (30%, ou 2,3 milhões de hectares) do que foi queimado na Amazônia afetou florestas, sendo incêndios ou desmatamento seguido de fogo.

Quase metade do fogo registrado no período (48%, equivalentes a 7,7 milhões de hectares) ocorreu no bioma Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado (46%, equivalentes a 7,3 milhões de hectares). “Vale destacar que nos últimos dois anos o Cerrado havia queimado mais que a Amazônia, porém nesse ano a Amazônia ultrapassou o Cerrado”, ressalta Ane. O Pantanal apresentou a menor área queimada nos últimos quatro anos, com 86% de redução de 2022 para 2021 em relação à área queimada de janeiro a novembro.

As Unidades de Conservação que lideram o ranking de área queimada de janeiro a novembro de 2022 são Parque Nacional do Araguaia, Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. No caso das Terras Indígenas, as que mais queimaram no período são Parque Indígena do Araguaia, TI Raposa Serra do Sol e Parque Indígena do Xingu.

Dentro os tipos de uso agropecuário queimados em 2022, as pastagens se destacaram, representando 25% da área queimada nos onze primeiros meses de 2022.

O estado que mais queimou entre janeiro e novembro deste ano foi Mato Grosso: 3,6 milhões de hectares, extensão equivalente a países como Taiwan ou Guiné Bissau. O estado foi responsável por quase um quarto do que foi queimado no Brasil nesse período. Pará e Tocantins ocupam o segundo e o terceiro da posição no ranking, com 2,7 milhões de hectares (equivalente ao território do Haiti) e 2,2 milhões de hectares (mais que todo o País de Gales), respectivamente. Juntos, esses três estados representaram 57% da área queimada total no período.

Destaques Amazônia

  • A área queimada entre janeiro e novembro de 2022 na Amazônia já é superior em 49% ao que foi queimado em 2021.
  • Os três municípios que mais queimaram no Brasil em novembro de 2022 estão na Amazônia: Querência (MT), Lábrea (AM) e Pacajá (PA).
  • Os três municípios que mais queimaram no Brasil de janeiro a novembro de 2022 estão na Amazônia: São Felix do Xingu (PA), Altamira (PA) e Porto Velho (RO).
  • A formação florestal foi o tipo de vegetação nativa que mais queimou na Amazônia, 30% da área queimada entre janeiro e novembro de 2022.
  • 627 mil ha queimaram na Amazônia em novembro de 2022, com um aumento de 106% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
  • A pastagem foi a classe de uso da terra que mais queimou, com 46% da área total queimada na Amazônia em novembro de 2022.

Destaques Cerrado

  • 7,3 Mha foram queimados no Cerrado entre janeiro e novembro de 2022, com aumento de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior.
  • Os estados que mais queimaram no Cerrado foram Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, entre janeiro e novembro de 2022.
  • Quase metade da área queimada no Cerrado entre janeiro e novembro de 2022 ocorreu em formação savânica (3,5 Mha, 48%).
  • Apesar da área queimada em Novembro ter diminuído em relação aos meses anteriores, ainda assim foi 249% maior comparado a Novembro de 2021 (ou 83 mil ha a mais)

Destaques demais Biomas

  • No Bioma Mata Atlântica apesar da área queimada nos 11 primeiros meses de 2022 ter sido a menor nos últimos 4 anos, a área queimada em novembro foi de 6.695 hectares, 55% a mais que novembro de 2021 (ou 2.379 ha a mais)
  • No verão de 2022 no Pampa foi registrada uma área recorde de queimadas no Pampa, com 28.039 ha. Por outro lado, no período entre março e novembro a área queimada total foi de 1.260 ha, bem abaixo do que foi registrado para esse mesmo período nos três anos anteriores.
  • Toda a área queimada no Pantanal em 2022 vem sendo a menor nos últimos 4 anos, com 6.632 hectares queimados em novembro de 2022.
  • A Caatinga vem seguindo o mesmo padrão do Pantanal, com áreas queimadas inferiores aos anos anteriores e com 18.589 hectares queimados em novembro de 2022.

Sobre o Monitor do Fogo

O Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo. Acesse o Monitor do Fogo e o Boletim Mensal de novembro.

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Desmatamento acelerou no Brasil enquanto as negociações climáticas ocorriam no Egito

monga 0Incêndio perto do rio Manicoré, no estado do Amazonas, em agosto de 2022. Foto © Christian Braga / Greenpeace

Por Mongabay.com

O desmatamento na maior floresta tropical da Terra acelerou acentuadamente durante o mês de novembro, quando as negociações climáticas da ONU estavam em andamento no Egito, de acordo com dados divulgados hoje pelo Brasil.

Por meio de seu sistema de alerta de desmatamento baseado em satélite, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), registrou 555 quilômetros quadrados de desmatamento em novembro, cerca de 60% acima da média do mês nos últimos sete anos e mais que o dobro da taxa de novembro passado .

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A contagem de novembro eleva a área de desmatamento detectada no ano para 10.049 quilômetros quadrados, a maior perda nos primeiros 11 meses de um ano desde pelo menos 2008.

Os novos dados vêm logo após o Brasil divulgar que o desmatamento nos 12 meses encerrados em 31 de julho de 2022 totalizou 11.568 quilômetros quadrados, uma queda de 11% em relação ao ano passado, quando o desmatamento atingiu a maior alta em 15 anos. Os resultados – ainda preliminares – são baseados em imagens de maior resolução do que as usadas pelo sistema de alerta de desmatamento do INPE.

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Incêndio perto de Humaitá, Amazonas, em agosto de 2022. Foto © Christian Braga / Greenpeace

O desmatamento na Amazônia brasileira, que representa mais de 60% da floresta amazônica, tem tendência ascendente desde 2012.

O novo presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu reverter o desmatamento priorizando os esforços para proteger a Amazônia. Durante seus dois primeiros mandatos, de 2003 a 2010, Lula presidiu um declínio acentuado na destruição da floresta amazônica.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

 

Seis meses após os assassinatos de Dom Phillips e Bruno Pereira, a Amazônia continua insegura para ativistas

javariA Amazônia, que abriga a Terra Indígena do Vale do Javari, continua sendo uma região perigosa. Fotografia: Sebastien Lecocq/Alamy

Por Tom Phillips, na Amazônia, para o “The Guardian”

Ativistas estão cautelosamente esperançosos de que o novo presidente traga alívio para o governo destruidor de florestas de Bolsonaro.

 

“Você será o próximo”, ela se lembra do atirador de olhos turvos rosnando depois de ser pego contrabandeando um barco cheio de tartarugas de rio caçadas ilegalmente do território indígena do Vale do Javari, na Amazônia brasileira.

A liderança indígena, cujo nome foi alterado para proteger sua identidade, havia confrontado o homem em uma manhã de novembro depois de localizá-lo e dois cúmplices no rio Itaquaí – a mesma hidrovia onde o jornalista britânico e o especialista indígena brasileiro foram mortos a tiros em junho passado.

“Eu estava defendendo nosso território. Eu não me importava com o que poderia acontecer”, disse Kanamari, que pediu para que seu nome verdadeiro não fosse divulgado. “Eu disse a ele que não temia ser morto.”

No entanto, seis meses após a morte dos dois homens, o risco de serem assassinados por desafiar os bandidos ambientais que saqueiam os rios e as florestas tropicais do Vale do Javari permanece muito real.

O desaparecimento de Phillips e Pereira provocou indignação internacional e expôs a catástrofe ambiental que se desenrolava sob o governo destruidor de florestas do presidente Jair Bolsonaro.

Após dias de atraso , as autoridades enviaram forças de segurança para encontrar os homens e prender seus assassinos. Seus corpos foram recuperados após uma caçada de 10 dias liderada por pesquisadores indígenas. Três suspeitos de assassinato devem comparecer ao tribunal no mês que vem para uma audiência preliminar.

Os apoiadores seguram rosas e uma placa com os dizeres 'Encontre Dom e Bruno'.

Após uma caçada de 10 dias liderada por índios, os corpos de Dom Phillips e Bruno Pereira foram recuperados. Fotografia: Victoria Jones/PA

Mas os ativistas dizem que as forças de segurança já se retiraram em grande parte, deixando os ativistas indígenas perigosamente expostos à pesca ilegal e às máfias da mineração que atacam suas terras ancestrais com o suposto apoio de redes obscuras de tráfico de drogas que dominam a região fronteiriça entre Brasil, Colômbia e Peru.

“Houve um momento de calmaria [depois dos assassinatos], quando a imprensa esteve aqui. Mas então tudo continuou como antes – ou talvez até pior”, disse Kanamari.

Eliesio Marubo, outro líder javari amigo de Pereira, disse esperar que os assassinatos pudessem despertar as autoridades para a crise amplamente oculta que se desenrola em uma região remota que abriga a maior concentração de povos isolados do mundo. “Infelizmente, eu estava errado.”

Marubo, um ativista e advogado de 42 anos, fugiu do Javari em meados de junho, horas depois que os corpos dos dois homens foram encontrados na selva. “Eu não queria ficar por aqui para ser assassinado também… [então] deixei tudo para trás”, disse ele.

 
O ecologista brasileiro Chico Mendes e Dorothy Stang, uma freira americana de 73 anos, foram mortos a tiros.
Matar, indignar… impunidade: a Amazônia pode quebrar seu ciclo de violência?
 

Seis meses depois, Marubo não conseguiu voltar para sua casa em Tabatinga, cidade fronteiriça próxima ao local dos assassinatos.

“Sinto-me cada vez mais preocupado. Não vimos nenhuma melhora e, na verdade, as coisas realmente pioraram. Quem tem ligação com o Vale do Javari corre risco”, disse Marubo, lembrando que 10 pessoas foram baleadas em Tabatinga durante uma semana de setembro.

“É um tumulto”, disse ele sobre uma região repleta de contrabando de drogas e crimes ambientais. “É uma loucura.”

Ativistas da Amazônia expressam um otimismo cauteloso de que o novo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva , que assume o cargo em 1º de janeiro, pode trazer algum tipo de alívio para territórios indígenas como o Javari.

O veterano de esquerda prometeu criar um ministério para os povos indígenas, reconstruir as agências indígenas e ambientais destruídas por Bolsonaro e erradicar a mineração ilegal e o desmatamento .

A política cotada para se tornar a ministra do Meio Ambiente de Lula, Marina Silva, disse recentemente ao Guardian que o novo governo do Brasil buscará honrar a memória dos mártires da floresta tropical, como Phillips e Pereira, tomando medidas para proteger a Amazônia.

“Apareceu um pequeno vislumbre de esperança no fim do túnel e essa esperança é Lula”, disse Gleissimar Castelo Branco, ativista social da região onde o jornalista do Guardian e seu guia brasileiro foram assassinados.

Marina Silva, indicada como ministra do Meio Ambiente de Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu honrar a memória de Phillips e Pereira.

Marina Silva, indicada como ministra do Meio Ambiente de Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu honrar a memória de Phillips e Pereira. Composição: João Laet/AFP/Getty Images (esquerda); Daniel Marenco/Agência O Globo (à direita)

Fábio Ribeiro, coordenador da Opi , grupo de defesa que Pereira ajudou a fundar para defender comunidades indígenas isoladas, instou Lula a lançar uma “intervenção federal” total no Javari envolvendo militares, policiais e a agência indígena Funai.

Ribeiro disse que a Funai ficou tão enfraquecida no governo Bolsonaro que cada um dos agentes responsáveis ​​pelo monitoramento das comunidades indígenas isoladas era responsável por vigiar 700 mil hectares de terra – uma área mais de quatro vezes o tamanho da Grande Londres.

“É ridículo”, disse Ribeiro, pedindo também o fortalecimento das equipes de vigilância indígenas, como o grupo que Phillips estava relatando quando foi morto.

Marubo acreditava que um destacamento de forças de segurança por dois anos era essencial para controlar a violência. “Logo no início de seu governo, Lula vai ter que tomar várias decisões em relação à segurança das pessoas nessa região”, disse o ativista que trabalhou com Pereira na ONG indígena Univaja.

 
ARQUIVO - Uma área de floresta em chamas perto de uma área de extração de madeira na região da rodovia Transamazônica, no município de Humaitá, estado do Amazonas, Brasil, 17 de setembro de 2022. Em discurso de vitória no domingo, 30 de outubro, o presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva prometeu reverter o aumento do desmatamento na floresta amazônica.  (Foto AP/Edmar Barros, arquivo)
Lula enfrenta duro desafio para cumprir promessa de reverter o desmatamento da Amazônia no Brasil
 

“Ele vai ter que decidir se as coisas ficam como estão – com a completa ausência e ineficácia do Estado – ou se ele toma medidas emergenciais.”

Marubo também instou a polícia a fazer mais para prender os mandantes do assassinato de Phillips e Pereira, e não apenas os atiradores que atiraram neles.

“Eles não são ninguém no mundo do crime”, disse ele sobre os três suspeitos atualmente atrás das grades acusados ​​de homicídio qualificado. “Os grandes ainda estão por aí.”

No final de novembro, a polícia supostamente deteve o contrabandista de tartarugas suspeito de ameaçar o líder Kanamari, embora posteriormente se pense que ele tenha sido libertado. Ele foi identificado como Romário da Silva Oliveira e é primo de Amarildo da Costa Oliveira, o homem acusado de atirar em Phillips e Pereira.

“Essa quadrilha continua operando e ameaçando as pessoas com total liberdade”, disse Ribeiro, um antropólogo que passou mais de uma década trabalhando na Funai.

Seis meses depois de um crime que chocou o mundo, tamanha ilegalidade e impunidade fazem com que os ativistas indígenas do Javari permaneçam na linha de fogo: vulneráveis, esquecidos, mas determinados a continuar sua luta contra aqueles que saqueiam suas terras.

“Mais uma vez eles estão sozinhos”, disse Castelo Branco.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Amazônia perdeu 9,7% de sua vegetação natural em 37 anos

Os dados mais recentes do MapBiomas Amazônia reforçam a necessidade de uma ação internacional integrada para reverter a atual tendência de destruição que, se persistir, levará o bioma além de seu ponto sem retorno até o final desta década

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Em 1985, apenas 6% (cerca de 50 milhões de hectares) da Amazônia haviam sido transformados em áreas antrópicas, como pastagens, lavouras, garimpos ou áreas urbanas. Em 2021, essa área quase triplicou, chegando a 15% (quase 125 milhões de hectares) de toda a região. Foi uma perda líquida de quase 10% de sua vegetação natural em apenas 37 anos. A magnitude da destruição varia de um país para outro: no Suriname, na Guiana e na Guiana Francesa é de apenas 1,6%, mas no Brasil chega a 19%. Esse percentual está muito próximo do ponto de inflexão ou ponto sem retorno, calculado pelos cientistas na faixa entre 20% e 25% de perda da cobertura vegetal. Se a tendência atual verificada pelo MapBiomas Amazônia continuar, o bioma, que é um sumidouro de carbono de importância planetária, chegará a um ponto sem volta, afetando irreversivelmente seus serviços ecossistêmicos, e poderá se tornar uma savana.

As geleiras dos Andes amazônicos, que fornecem água para milhões de pessoas e alimentam as nascentes dos grandes rios da região, perderam 46% de seu gelo no período analisado. A atividade minerária expandiu-se 1107% (mais de 1.000 por cento, passando de 47 mil hectares em 1985 para mais de 570 mil hectares em 2021).

Como foi feita a medição em uma região tão heterogênea?

Os dados são resultado da Coleção MapBiomas Amazônia 4.0, iniciativa resultante da colaboração entre a RAISG (Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas) e a Rede MapBiomas. A iniciativa mapeia com resolução de 30 metros a dinâmica, há mais de três décadas, de 18 classes diferentes de cobertura e uso do solo, como florestas, savanas, manguezais, áreas agrícolas, áreas urbanas, mineração e geleiras, dentro dos 8,4 milhões de km2 da região amazônica, que inclui a Cordilheira dos Andes, a planície amazônica e as transições com o Cerrado e o Pantanal.

Os resultados serão apresentados no dia 2 de dezembro no auditório da Embaixada do Brasil em Lima, com transmissão ao vivo pelo canal da RAISG no Youtube, às 9h. Peru, Equador e Colômbia; 10:00 Bolívia e Venezuela; 11:00 Brasil.

Transformação acelerada das florestas amazônicas

Os resultados das análises preliminares revelam uma transformação acelerada das florestas amazônicas. Segundo os autores, as perdas têm sido enormes, praticamente irreversíveis e sem perspectiva de reversão dessa tendência. Os dados acendem a luz amarela e dão um sentido de urgência à necessidade de uma ação internacional integrada, decisiva e contundente.

“A Coleção MapBiomas Amazônia 4.0 é inestimável para o entendimento da dinâmica de uso dos recursos naturais da região, além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo das emissões e remoções de gases de efeito estufa devido às mudanças no uso do solo na região.” , disse Tasso Azevedo, Coordenador Geral do MapBiomas. Beto Ricardo, coordenador geral da RAISG, acrescenta que as informações geradas pelo MapBiomas Amazônia fortalecem a Rede com dados técnico-científicos, mensagens-chave sobre a importância da Amazônia, sua grande contribuição para o mundo na regulação do clima e armazenamento de carbono, ao tempo que alerta sobre as mudanças na cobertura natural causadas por diferentes atividades antrópicas realizadas entre 1985 e 2021. Ricardo destaca que essas atividades colocam em risco o equilíbrio natural dos ecossistemas e, com ele, a estabilidade do clima do planeta. “Publicar a Coleção 4.0 do MapBiomas Amazônia nos permite contribuir com o monitoramento da região com uma visão integral, ajudando-nos a construir e propor estratégias de conservação mais precisas com propostas e informações políticas compartilhadas entre outros países, bem como aspectos socioambientais da grande importância”.

Para María Olga Borja, coordenadora técnica do Equador, esses mapas representam uma grande contribuição para a região e para seu país: “O Equador não tem uma análise temporal tão detalhada. A periodicidade anual destes dados permite-nos medir o pulso das alterações que os ecossistemas estão sofrendo, algumas causadas diretamente pelas atividades humanas, como a conversão das florestas para a agricultura, mas outras que já apresentam sinais evidentes e mensuráveis ​​das alterações climáticas, como a redução de geleiras e a expansão de lagos devido ao degelo, entre outros”.

Os autores destacam o contraste entre a dinâmica acelerada de mudança do uso da terra ocorrida na Amazônia no período estudado, e particularmente nos últimos trinta anos, com a lentidão que caracteriza o ritmo das negociações climáticas, que nas quase três décadas desde a primeira cúpula do clima fizeram progressos modestos.

Para Harlem Mariño, coordenador de um projeto sobre mudanças climáticas liderado pela RAISG, a falta de acordos definitivos na COP27 sobre questões-chave para a mitigação das mudanças climáticas, como o abandono progressivo do uso de todos os combustíveis fósseis, terá repercussões na Amazônia: “Isso significa que as emissões de gases de efeito estufa provenientes do uso de combustíveis fósseis continuam pressionando os sumidouros de carbono, como a floresta amazônica. Além disso, essa falta de acordos pode implicar na continuidade do fomento às atividades de exploração de combustíveis fósseis na Amazônia, com a consequente redução da disponibilidade de sumidouros de carbono e o aumento das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da mudança de uso da terra e a consequente queima desses combustíveis fósseis”, observa Mariño.

Sobre a Plataforma MapBiomas Amazônia 

A plataforma MapBiomas Amazônia é uma ferramenta que permite a qualquer pessoa com acesso à Internet entender as mudanças no uso da terra em toda a Amazônia e as pressões sobre suas florestas e ecossistemas naturais. A informação gerada é compatível para todos os países da região e permite conhecer a situação de 18 categorias de análise, denominadas “classes”, que incluem áreas cobertas por florestas, campos naturais, manguezais, agricultura e rios. As informações são gratuitas e estão disponíveis para download.

Ela permite explorar a mais recente coleção de mapas anuais, abrangendo o período entre 1985 e 2021, e identificar mudanças na cobertura e uso da terra em um local (regional, nacional e local) e um período (ano, quinquênio, décadas, etc.) determinado. A ferramenta também apresenta estatísticas em tabelas e gráficos dinâmicos, com as mudanças de uso no período que o usuário requer e permite entender a dinâmica das mudanças dentro e fora de um Território Indígena ou Área Protegida. A plataforma permite ainda explorar dados relacionados a vetores de pressão em coberturas naturais como concessões de mineração, lotes de petróleo, estradas e usinas hidrelétricas.

Sobre o MapBiomas Amazônia

MapBiomas Amazônia é uma iniciativa liderada pela RAISG com o apoio da Rede MapBiomas. A Primeira Coleção (2000 — 2017) foi publicada em 2019; 2020 trouxe a Segunda Coleção (1985 — 2018); em setembro de 2021 foi o lançamento da Terceira Coleção (1985 — 2020). A Quarta Coleção abrange o período de 1985 a 2021.

Inicialmente, a ferramenta de mapdeseamento de uso da terra foi desenvolvida pelo MapBiomas para ser aplicada no Brasil e foi necessário aprimorá-la com a contribuição de organizações associadas à RAISG para adequar os resultados e análises à geografia de cada país. Desta forma, o conhecimento existente a nível local permite melhorar a ferramenta e refinar a interpretação dos dados. O método utilizado nos permitiu padronizar os biomas incluídos na análise, de modo que os nove países amazônicos compartilham o Bioma Amazônia, enquanto Peru, Equador e Bolívia também compartilham o Bioma Andino.

MapBiomas Amazônia leva em consideração as variações altitudinais típicas da Amazônia andina, que vão desde as geleiras andinas até as formações florestais das planícies amazônicas.

Sobre a Raisg

A RAISG é a Rede de Informação Socioambiental Georreferenciada da Amazônia, um consórcio de organizações da sociedade civil de países amazônicos voltado para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais sobre a Amazônia, elaboradas com protocolos comunitários para todos os países da região; facilita a visualização da Amazônia como um todo, bem como das ameaças e pressões que pesam sobre ela. A RAISG é resultado da cooperação de oito organizações da sociedade civil que atuam em seis países amazônicos: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Sobre o MapBiomas

O MapBiomas surgiu no Brasil como uma iniciativa multiinstitucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se unem para contribuir com o entendimento das transformações do território brasileiro a partir do mapa anual de cobertura e uso da terra no Brasil. Atualmente, esta rede reúne mais de 70 instituições da América Latina e Indonésia em 7 iniciativas e 14 países comprometidos com a geração de dados, métodos, ferramentas e informações que orientem a conservação e a tomada de decisões em torno dos recursos naturais. Em agosto de 2021, o MapBiomas publicou a Coleção 7 de mapas de cobertura e uso da terra de solo do Brasil de 1985 a 2021. As ferramentas desenvolvidas pela rede MapBiomas para todas as suas iniciativas apresentam informações geradas com resolução espacial de no mínimo 30 metros. Os dados são processados ​​usando algoritmos de classificação automática por meio das informações da nuvem do Google Earth Engine. Clique aqui para acessar o site do MapBiomas.

Estudo mostra que JBS, Marfrig e Minerva dificilmente terão como cumprir a futura lei de desmatamento da União Europeia

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Por Chain Reaction Research

O próximo Regulamento de Desmatamento da UE terá um impacto na JBS, Minerva e Marfrig. Uma amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos desses principais frigoríficos mostra o desmatamento recente que pode acabar nos mercados de consumo de carne bovina e couro da União Européia (UE). Qualquer desmatamento após a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020 não estaria em conformidade com a futura lei.

Baixe o PDF aqui: JBS, Marfrig e Minerva Improvavelmente em conformidade com a futura lei de desmatamento da UE

Principais conclusões

  • Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE assim que for aprovado e implementado. Esses frigoríficos dominam a pecuária brasileira e são os principais exportadores de carne bovina congelada e produtos de couro para a UE. Para exportar para a UE, suas cadeias diretas e indiretas de fornecimento de gado não podem ser associadas ao desmatamento legal ou ilegal, após a data-limite de dezembro de 2020.
  • Uma amostra de seus fornecedores fornece informações sobre os hotspots de produção de carne bovina brasileira ligados ao mercado da UE. A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados. Para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no estado do Pará, com alto risco de desmatamento, é quase o dobro em comparação com a base de fornecedores diretos.
  • O CRR encontrou conversão de 72.663 hectares (ha) na amostra desde a data limite. Potencialmente, 65.969 ha da Amazônia e 6.694 ha de alertas de desmatamento do Cerrado vinculados aos fornecedores dos três frigoríficos podem não estar em conformidade com a futura lei da UE.
  • O desmatamento ligado a fornecedores indiretos é altamente prevalente. Os fornecedores indiretos são um risco, pois o monitoramento dos frigoríficos de suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos, e é improvável que estejam prontos para a esperada implementação da lei da UE a partir de 2023.
  • Uma vez que os frigoríficos não monitoram todo o fornecimento indireto, eles não podem garantir o cumprimento da futura lei de desmatamento da UE. Assim, frigoríficos, operadores de couro e FMCGs podem enfrentar riscos legais e reputacionais. Os frigoríficos JBS e Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei também considerará o desmatamento legal brasileiro como não conforme. A Marfrig se comprometeu com o desmatamento zero, inclusive legal.
  • As despesas de devida diligência nas cadeias de carne bovina e couro da UE são relativamente baixas no contexto de riscos financeiros mitigados para os setores relevantes.Em contraste, os financiadores da JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar os maiores riscos de valor (9,5-19%).

Regulamento de desmatamento da UE afetará importações de gado do Brasil

UE importa principalmente carne bovina congelada e produtos de couro do Brasil

Entre os países não pertencentes à UE, o Brasil, um país com alto risco de desmatamento, é o principal fornecedor de carne bovina congelada, couros e peles bovinas curtidas ou crostadas e couro bovino preparado para a UE

As importações de carne bovina e produtos relacionados à carne de origem não pertencente à UE representam apenas uma pequena parcela do consumo europeu. Mas entre eles, o Brasil desempenha um papel principal como fornecedor de carne bovina congelada e ainda mais de produtos de couro bovino para a UE (Figura 1). Tanto a produção de carne quanto a de couro são os principais motores do desmatamento no Brasil. A pecuária está causando o maior desmatamento na Amazônia brasileira, uma área que registrou um novo recorde de perda de floresta durante o primeiro semestre de 2022. Em 2021, a UE adquiriu52 por cento (37.147 toneladas métricas, MT) de suas importações totais de carne bovina congelada do Brasil, bem como 28 por cento (87.344 MT) de suas importações totais de couros e peles curtidos (wet blue) ou crust, e 30 por cento (12.029 MT ) das suas importações totais de couro preparado.

Figura 1: Importações totais da UE em 2021 de produtos pecuários de países não pertencentes à UE, por volume e valor, em verde, predominantemente originários do Brasil

Fonte: estatísticas comerciais da UE27 , 2021, avaliadas em outubro de 2022; Projeto de proposta da Comissão Europeia Notas: Esses produtos representam produtos relacionados ao gado sob o escopo do Regulamento de Desmatamento da UE. Os produtos destacados em verde são predominantemente originários do Brasil. Miudezas comestíveis de bovinos incluem os códigos do Sistema Harmonizado (SH) 020610, 020629 e 020622.

JBS, Marfrig e Minerva são as mais impactadas pela Lei de Desmatamento da UE

Três principais frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, são os principais exportadores para a UE e dominam a indústria brasileira de gado e a produção de carne bovina e produtos de couro bovino

A JBS é a maior empresa de proteína animal e a segunda maior empresa de alimentos do mundo. A Marfrig é a segunda maior empresa de carne bovina do mundo em capacidade de produção, enquanto a Minerva é uma empresa de carne bovina voltada para a exportação. JBS, Minerva e Marfrig são os maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (Figura 2) e estão entre os maiores curtumes brasileiros que fornecem couros e peles curtidas (wet blue) ou crust para o mercado da UE (Figura 3). Para couro preparado, apenas a JBS desempenha um papel direto como principal exportador para a UE (Figura 4). Além disso, matadouros de outros frigoríficos fornecem indiretamente couros e peles para produtores de couro que exportam couro preparado para a UE. Por exemplo, os curtumes dos produtores de couro Durlicouros e Viposa provavelmente obtêm matérias-primas dos matadouros próximos da Marfrig.

Com 63,7% de todas as importações de carne bovina congelada da UE em 2020, a Itália representa o maior destinatário da carne bovina congelada brasileira, seguida pela Holanda (22,1%), Espanha (8,6%) e Alemanha (4,6%). O principal destino europeu de couros e peles bovinas curtidas (wet blue) ou crust do Brasil em 2020 é a Itália (97,7%), que possui uma grande indústria de processamento de couro. Os principais países de destino da Europa para couro bovino do Brasil mais preparado em 2020 incluem Itália (45,7%), Alemanha (29,9%), Holanda (9,1%) e Hungria (8,4%).

Figura 2: Os 10 maiores exportadores brasileiros de carne bovina congelada para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 0202. A Prima Foods inclui exportações sob Mataboi.

Figura 3: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couros e peles bovinas curtidas ou crust para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4104.

Figura 4: Os 10 maiores exportadores brasileiros de couro bovino preparado para a UE (2020)

Fonte: Dados de remessa 2020, com base no código HS 4107.

Os três frigoríficos precisarão cumprir o próximo Regulamento de Desmatamento da UE, que visa conter o desmatamento legal e ilegal e a degradação florestal resultante do consumo e produção da UE

A proposta de regulamento da Comissão Europeia define “sem desmatamento” como commodities e produtos relevantes que foram produzidos em terras que não foram sujeitas a desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 e madeira que foi colhida de florestas sem induzir “degradação florestal” após dezembro 31 de janeiro de 2020. Essa data limite ainda está em discussão . Os produtos de carne bovina e de couro se enquadram no escopo do Regulamento. Um dos pontos centrais do Regulamento é a rastreabilidade total da cadeia de suprimentos das commodities e produtos listados com risco de desmatamento, exigindo que os operadores de carne bovina e couro forneçam informações geográficas ligando commodities e produtos ao local exato de produção. Um relatório recente do CRR concluiu que, embora alguns desafios permaneçam, o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE é viável nas cadeias de abastecimento de gado brasileiras usando sistemas e ferramentas existentes.

Hotspots de produção de carne bovina dos frigoríficos

Novos dados sobre fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos fornecem informações sobre as localizações exatas dos hotspots de produção de carne bovina no Brasil, conforme visualizado na Figura 5

Isso é relevante sob o requisito de rastreabilidade do Regulamento de Desmatamento da UE. Para compor a amostra de 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos dos três frigoríficos, a CRR utilizou uma metodologia semelhante, com alguns ajustes, conforme utilizamos em nosso paper de 2020 sobre os três frigoríficos . As principais mudanças incluem 1) aumentar significativamente a amostra usando novas técnicas de análise e 2) usar alertas de desmatamento ( DETER ), incluindo desmatamento por incêndio, nesta análise, em oposição aos dados de desmatamento processados ​​anualmente ( Prodes), geralmente resultando em áreas maiores detectadas com desmatamento . Consequentemente, os dados de desmatamento do relatório de dezembro de 2020 e da análise atual não são comparáveis, pois a amostra é diferente e as taxas de desmatamento são calculadas de forma diferente.

Figura 5: Localização dos fornecedores diretos (esquerda) e indiretos (direita) para JBS, Minerva e Marfrig

Fonte: AidEnvironment, mapas de calor são criados com QGIS , e com base em dados do Ministério da Agricultura e licenças de transporte de animais (GTA). Quanto mais vivas as cores, maior a concentração de fornecedores diretos e indiretos na amostra.

Com base no transporte de animais e dados cadastrais rurais, o CRR localizou e monitorou 12.461 fornecedores diretos e 26.572 indiretos conectados aos três principais frigoríficos em sete estados dos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil

Esses números representam uma amostra parcial do total de fornecedores para JBS, Minerva e Marfrig. Por exemplo, a amostra com 6.556 fornecedores diretos para os frigoríficos da JBS (Figura 6) cobre apenas 13% da base de fornecimento total estimada da empresa de 50.000 fornecedores diretos. Minerva diz ter mais de 6.000 fornecedores no Brasil; a amostra de 2.820 cobriria 47% de seus fornecedores diretos. Em 2020, a Marfrig diz ter 15.000 fornecedores diretos cadastrados no Bioma Amazônia e estima ter potencialmente 25.000 fornecedores indiretos no total somente no bioma amazônico. A amostra de 3.085 fornecedores diretos e 7.132 fornecedores indiretos cobriria, respectivamente, 21 e 29 por cento. Nenhum dos três frigoríficos divulga informações claras sobre os valores totais de seus fornecedores diretos e indiretos. Uma razão para não publicar as informações pode ser que esses números não sejam conhecidos por eles.

Figura 6: Características da amostra: zonas de compra da JBS, Marfrig e Minerva por estado brasileiro

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA). MT = Mato Grosso; MG = Minas Gerais; RO = Rondônia; MS = Mato Grosso do Sul; GO = Goiás; PA = Pará; TO = Tocantins. *Para Rondônia, os números podem representar uma pequena superestimação devido a algumas limitações de dados. Para mais explicações, os autores do CRR podem ser contatados.

A JBS é a compradora dominante de gado em todos os sete estados brasileiros incluídos na amostra, enquanto as zonas compradoras da Marfrig e Minerva estão concentradas em menos estados

A maioria dos fornecedores diretos da JBS está no Mato Grosso (46% do total da amostra), mas, no geral, a empresa possui fornecedores diretos espalhados pelos sete estados brasileiros (Figuras 5 e 6). Em contraste, Minerva e Marfrig parecem ter suas zonas de compra mais concentradas em alguns estados. A Marfrig tem relativamente poucos (ou nenhum) fornecedores diretos no Pará, Minas Gerais e Tocantins na amostra, enquanto o Minerva tem uma base de fornecedores diretos nesses estados. Em comparação com Minerva e JBS, o frigorífico Marfrig tem uma base maior de fornecedores diretos no Mato Grosso do Sul (figuras 5 e 6).

Os riscos de desmatamento ligados à base de abastecimento indireto dos frigoríficos são mais relevantes no Pará, um estado da Amazônia brasileira

A amostra revela que, para todos os três frigoríficos, sua base de fornecedores indiretos no Pará é, na maioria dos casos, mais que o dobro de sua base de fornecedores diretos (Figura 6). A maior base de fornecedores indiretos é um risco, uma vez que o monitoramento dos frigoríficos em suas cadeias de suprimentos indiretos mostra lacunas e atrasos significativos. Da mesma forma, em Rondônia, as bases de fornecedores indiretos da Marfrig e da Minerva são pelo menos o dobro de seus fornecedores diretos. Por outro lado, todos os três frigoríficos têm relativamente poucos fornecedores indiretos localizados em Minas Gerais (Figuras 5 e 6). Uma possível explicação é que Minas Gerais opera principalmente na etapa final da cadeia (abate) e não na fase de engorda, caracterizada pelo envolvimento de muitas propriedades fornecedoras indiretas. Essa explicação é corroborada pela concentração dos frigoríficos dos três frigoríficos no triângulo Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul (Figura 5).

A amostra também revela focos de produção e domínio dos frigoríficos nos municípios brasileiros

Esses municípios podem se tornar uma prioridade para demonstrar conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE. A amostra mostra, por exemplo, que todos os três frigoríficos adquirem carne bovina de um número significativo de fazendas em Cáceres, no Mato Grosso (Figura 7). Enquanto parte desse município já está desenvolvido, a parte sudeste ainda é coberta por vegetação nativa e, portanto, sob risco de desmatamento. Além disso, Parnaíba no Mato Grosso do Sul abriga a maioria das fazendas fornecedoras da Marfrig na amostra, enquanto Minerva, além de Cáceres, concentra principalmente as fontes de Rio Branco no Mato Grosso e Araguaína no Tocantins. Por fim, a Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, acomoda um grande número de fornecedores diretos para os três frigoríficos.

Figura 7 : Top 10 municípios da amostra com mais fornecedores diretos para JBS, Marfrig e Minerva

Fonte: AidEnvironment, com base em dados cadastrais rurais (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA), e com base na amostra. Observação: a tabela “Municípios com fazendas fornecedoras para vários frigoríficos” é baseada nos 20 principais municípios fornecedores de cada frigorífico.

Enquanto quase 80 por cento dos fornecedores diretos na amostra fornecem apenas um dos três frigoríficos, os fornecedores indiretos tendem a fornecer mais regularmente todos os três frigoríficos de uma vez (Figura 8 abaixo)

Dos 12.461 fornecedores diretos da amostra, 79% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 19% forneciam para dois frigoríficos e apenas 2% para os três frigoríficos. Dos fornecedores indiretos da amostra, 37% vendiam para apenas um dos três frigoríficos, 53% forneciam para dois frigoríficos e 10% para os três frigoríficos.

Figura 8 : Localização dos fornecedores diretos e indiretos que atendem aos três frigoríficos

Fonte: AidEnvironment, com base em dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI), Ministério da Agricultura , licenças de transporte de animais (GTA).

Conversão significativa desde 2020, data-limite do Regulamento de Desmatamento da UE

Potencialmente 65.969 ha de Amazônia e 6.694 ha de Cerrado são de desmatamento não conforme

Considerando a data limite proposta de 31 de dezembro de 2020, a análise do CRR revela que potencialmente 65.969 ha de desmatamento da Amazônia e alertas de incêndio vinculados a fornecedores dos três frigoríficos da amostra podem não estar em conformidade com a futura Lei de Desmatamento da UE

A perda de vegetação amazônica está conectada a fornecedores diretos e indiretos de todos os três frigoríficos desde a data proposta de corte do Regulamento de Desmatamento da UE (31 de dezembro de 2020) (Figura 9). O desmatamento detectado corrobora outros estudos que mostram que o desmatamento na Amazônia está aumentando e que o desmatamento relacionado à carne bovina continua vindo de áreas protegidas na Amazônia.

A área de desmatamento identificada abrange o desmatamento legal e ilegal de acordo com a legislação brasileira, ambos os quais não estarão em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE

O desmatamento que é legal sob a lei brasileira se tornará incompatível com o Regulamento de Desmatamento da UE. A área desmatada de 65.969 ha pode ser uma superestimativa, pois se baseia em dados ainda não confirmados ( DETER) alertas de desmatamento. Por outro lado, a área de desmatamento estimada é conservadora, pois a amostra da CRR cobre apenas uma pequena proporção de todos os fornecedores diretos e indiretos ligados aos três frigoríficos. Ao considerar toda a base de abastecimento dos três principais frigoríficos, a CRR estima que as taxas de desmatamento ligadas aos fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva aumentarão. Essa estimativa não denuncia práticas ilegais dos três frigoríficos, uma vez que parte do desmatamento, principalmente no bioma Cerrado, seria legal no âmbito do Código Florestal Brasileiro.

Figura 9: Alertas de desmatamento (ha) em amostra vinculada a fornecedores dos frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva de 31 de dezembro de 2020 a julho de 2022

Fonte: AidEnvironment, com base nos alertas de desmatamento do DETER 2022; SIGEF, SNCI, registros 2022 GTA. Nota: Os alertas de desmatamento do DETER 2022 ainda não estão confirmados, portanto, as taxas de desmatamento atreladas a esta amostra podem estar superestimadas. *Nem toda a vegetação nativa do Cerrado (por exemplo, pastagens) está sob o escopo da proposta de Regulamento de Desmatamento da UE.

A amostra demonstra que os fornecedores da Amazônia para os três frigoríficos são responsáveis ​​por mais desmatamento desde 31 de dezembro de 2020 do que os fornecedores do Cerrado

Existem múltiplas explicações para o aumento do desmatamento na Amazônia. Primeiro, observado as taxas de desmatamento no bioma Amazônia aumentaram desde 2019, como resultado de um novo mandato de governança brasileira e ações não favoráveis ​​para combater o desmatamento ou melhorar a conservação da floresta. Em segundo lugar, a nova análise neste relatório inclui o desmatamento por incêndios, com picos de incêndios aumentando consideravelmente na Amazônia nos últimos três anos. As áreas desmatadas por queimadas no pico da temporada de queimadas (aproximadamente do início de agosto ao final de outubro) nem sempre são captadas por análises de satélite no ano seguinte, pois a vegetação já havia voltado a crescer no momento da confirmação dos alertas de desmatamento do Prodes.

No Cerrado, a remoção de 6.694 ha de floresta e savana arborizada pode não estar em conformidade com a futura legislação da UE 

Do total de 15.213 ha de vegetação de Cerrado derrubada em propriedades de fornecedores diretos e indiretos dos três frigoríficos (Figura 9), cerca de 44 %  (6.694 ha) podem não estar em conformidade com o Regulamento de Desmatamento da UE. O âmbito de aplicação do Regulamento inclui os ecossistemas florestais e florestais. Em 2021, o uso da terra no bioma Cerrado mostrou que 14% da vegetação nativa era floresta, 30% savana arborizada e 9% outra vegetação não florestal (ou seja, pastagem).

Desmatamento ligado a fornecedores indiretos de JBS, Minerva e Marfrig mais prevalente

A maior parte do desmatamento calculado pode ser atribuída à base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos

Na amostra, os alertas de desmatamento são pelo menos quatro vezes maiores na base de fornecedores indiretos dos três frigoríficos combinados (65.712 ha) em comparação com os fornecedores diretos (15.470 ha) (Figura 9). Além disso, 19 por cento (15.255 ha) dos alertas de desmatamento podem ser atribuídos a fornecedores indiretos que abastecem todos os três frigoríficos, em comparação com apenas 1,5 por cento (1.000 ha) dos alertas de desmatamento na amostra de fornecedores que podem estar vinculados a fornecedores diretos que atendem os três frigoríficos simultaneamente. Esta discrepância confirma que os riscos de desmatamento nas cadeias de suprimentos indiretos são maiores e acrescenta que os fornecedores indiretos vinculados ao desmatamento com mais regularidade tendem a abastecer os três frigoríficos de uma só vez.

Dentro da amostra, a JBS está mais exposta ao desmatamento, tanto em números absolutos quanto relativos, em comparação com as taxas vinculadas à Marfrig e à Minerva

Mas o menor número de fornecedores de Minerva e Marfrig incluídos na amostra pode explicar parte dessa diferença. Os alertas de desmatamento na base de fornecedores indiretos da JBS são mais de três vezes o tamanho de sua base de fornecedores diretos, mas para a Marfrig esse número é mais de sete vezes maior e para a Minerva mais de oito vezes (Figura 9).

Riscos legais e de reputação por violação do Regulamento de Desmatamento da UE

Como os frigoríficos não monitoram todos os seus fornecedores indiretos, eles não podem garantir a conformidade com o próximo Regulamento de Desmatamento da UE

Em particular, os alertas de alto desmatamento desde a data limite de dezembro de 2020 nas cadeias de abastecimento indiretas da JBS, Marfrig e Minerva levantam preocupações sobre o cumprimento da Lei da UE e a conservação das florestas em geral. Embora os frigoríficos tenham feito progressos na conformidade nas cadeias de abastecimento diretas, eles mostraram pouco progresso no monitoramento da cadeia de abastecimento indireta. Os prazos para alcançar a transparência total da cadeia de suprimentos, incluindo as cadeias de suprimentos indiretas – o mais cedo em 2025 ou o mais tardar em 2035— estão fora do ritmo da implementação da Lei de Desmatamento da UE. A Lei provavelmente entrará em vigor em 2023, com a maioria dos requisitos aplicáveis ​​um ou dois anos depois.

Os frigoríficos JBS Minerva monitoram apenas o desmatamento ilegal vinculado a seus fornecedores, enquanto a próxima Lei da UE também considerará o desmatamento legal como não conforme

 Esta parte da Lei é particularmente relevante no Cerrado brasileiro, onde, dependendo da localização, 65 a 80 por cento das propriedades podem ser desenvolvidas e desmatadas da vegetação nativa. Com licença ambiental aprovada, o desmatamento dessas propriedades é considerado legal de acordo com o Código Florestal Brasileiro. Em resposta a uma versão preliminar deste relatório, a Minerva afirma que monitora o desmatamento ilegal de 100% de seus fornecedores diretos e confirma sua conformidade com as regulamentações ambientais brasileiras. No entanto, isso não atenderia às próximas restrições de importação da UE que proíbem as importações legais e ilegais de carne bovina e couro relacionadas ao desmatamento, para cadeias de fornecimento diretas e indiretas de gado.

A Marfrig é a única empresa frigorífica comprometida com o desmatamento zero até 2025 (para a Amazônia, 2030 para o Cerrado), tanto para o desmatamento legal quanto para o ilegal. Este compromisso aumenta a probabilidade da empresa eventualmente cumprir o próximo Regulamento. No entanto, a incapacidade da Marfrig de monitorar atualmente todos os seus fornecedores indiretos mostra uma lacuna no cumprimento dos requisitos previstos no Regulamento.

A JBS se comprometeu a atingir o desmatamento zero em toda a sua cadeia de suprimentos global apenas até 2035.

Violar a próxima lei da UE pode implicar riscos legais para os três frigoríficos

O Regulamento prevê a persecução judicial dos infractores através da aplicação de coimas, nomeadamente coimas proporcionais aos danos ambientais causados ​​e exclusão temporária de processos de aprovisionamento. Embora JBS, Marfrig e Minerva sejam grandes fornecedores para o mercado europeu, ainda não está claro qual proporção da carne bovina e do couro produzidos fora de conformidade acaba nas cadeias de suprimentos europeias.

Violar o Regulamento também pode envolver riscos de reputação para frigoríficos, operadores de couro e empresas de bens de consumo de alta rotatividade (FMCGs)

O Parlamento Europeu propôs a publicação de uma lista de operadores e comerciantes que não cumprem o Regulamento de Desmatamento da UE. Se aprovada nas rodadas finais de votação, a lista será disponibilizada pela Comissão Europeia e, sem dúvida, será usada na defesa e potencialmente em litígio por organizações da sociedade civil (OSCs) e instituições de caridade jurídicas, que têm sido fortemente a favor da inclusão de esta lista de empresas não conformes.

Os riscos de reputação para players downstream aumentarão de OSCs que visam principalmente empresas e varejistas downstream conhecidos que usam carne bovina e couro

Em dezembro de 2021, as cadeias de supermercados europeias J Sainsbury, Lidl, Auchan, Ahold Delhaize e Carrefour descartaram produtos de carne bovina originários da JBS no Brasil após alegações de OSCs de ligações com o desmatamento. Outros têm como alvo os fabricantes de automóveis europeus Volkswagen, BMW, Daimler e Renault por usar couro ligado ao desmatamento e originário da JBS, Marfrig e Minerva. O aumento do escrutínio da conformidade dos fornecedores a jusante com o Regulamento de Desmatamento da UE refletiu-se nos  muitos apelos  por uma ambiciosa lei da UE sobre o desmatamento.

Riscos financeiros mitigados para frigoríficos, FMCGs e instituições financeiras

JBS, Marfrig e Minerva podem enfrentar risco de acesso ao mercado, multas e risco de financiamento. As empresas voltadas para o consumidor sediadas na UE e as instituições financeiras sediadas na UE podem ver risco de valor e risco de reputação

Devido ao próximo Regulamento de Desmatamento da UE, os frigoríficos podem enfrentar dificuldades em exportar carne bovina e couro para o mercado da UE. Ser cortado do mercado da UE afetaria as receitas líquidas, o lucro bruto, o EBITDA e o lucro líquido. Se as empresas continuarem exportando, poderão enfrentar multas. O valor da reputação é a categoria de risco que domina a indústria downstream voltada para o consumidor da UE que obtém carne bovina e/ou couro de frigoríficos da América Latina (LatAm) e indiretamente para seus financiadores.

As exportações dos frigoríficos para a UE representam uma pequena parte de suas receitas totais (Figura 10), resultando em um risco de valor para suas ações. As penalidades máximas são uma baixa porcentagem dos lucros globais

Os frigoríficos não fornecem números detalhados para as exportações de carne bovina e produtos de couro, e os números de exportação ocasionalmente se referem a outras áreas além da América Latina. Como resultado, as exportações de produtos de carne bovina e couro da América Latina podem ter um valor menor do que o calculado na linha 3 da Figura 10. A Marfrig é uma grande exportadora para a UE. De sua receita sul-americana, 58% é exportada. Dessas exportações, 18 por cento são enviados para a UE. Exposição de exportação da JBS para a UE é muito menor, sete por cento. No entanto, esse número inclui exportações para a UE de outras unidades da JBS, como o negócio nos Estados Unidos, que não tem problemas de desmatamento. Devido à grande atividade dessas duas empresas no mercado americano, o percentual de receita das exportações latino-americanas para a UE é relativamente baixo. Os negócios globais da Minerva se originam principalmente na América Latina, e sua exposição total às exportações da UE em relação às receitas globais é a mais alta dos três frigoríficos.

Se as empresas enfrentarem restrições para exportar carne bovina e produtos de couro para a UE, elas podem perder lucros. Com base nas margens EBITDA (Earnings Before Interest, Tax, Depreciation and Amortization), a perda de EBITDA anual (1,8 a 5,3 por cento) é a base de cálculo de um número de valor por um período infinito, com base na metodologia de fluxo de caixa descontado. Esse valor seria relativamente alto para a Marfrig quando comparado à sua atual capitalização de mercado (19,0 por cento), mas muito menor para a JBS (9,5 por cento). Além disso, para a JBS, esse número também inclui exportações para a UE de outras regiões e outros produtos além da carne e couro da América Latina. Assim, o número comparável de JBS versus Marfrig e Minerva pode ser ainda menor.

As penalidades para operadores e comerciantes em caso de descumprimento podem ser no máximo de pelo menos 4% do faturamento nos estados membros da UE. Para os frigoríficos, esse valor seria relativamente baixo, de 0,6 a 2,4% do EBITDA global (Figura 10).

Os investidores parecem céticos sobre o fluxo de caixa futuro dos atuais lucros de carne da JBS, Marfrig e Minerva e já podem descontar os ventos contrários à “sustentabilidade”

Esse ceticismo pode ser concluído a partir da baixa avaliação dos frigoríficos: o múltiplo EV/EBITDA está na faixa de 3,4-5X (Figura 10) versus >10 para a maioria das empresas de bens de consumo em rápida evolução. Não há pesquisas com investidores disponíveis para explicar o motivo da falta de confiança nos fluxos de caixa futuros. Os motivos podem incluir exposição a mercados emergentes, vínculos com desmatamento e falta de bem-estar animal, ambiente de lucro volátil, violações de direitos humanos (direitos dos povos indígenas, direitos dos trabalhadores) e falta de boa governança nas empresas.

Figura 10: Exposição dos frigoríficos ao mercado da UE e risco financeiro

Fonte: Profundo, apresentações de resultados das empresas 2021, Bloomberg ; *DCF = Fluxo de Caixa Descontado, assumindo taxa de desconto de 10% e taxa de crescimento de 0%.

Os frigoríficos enfrentam riscos de financiamento, enquanto as instituições financeiras da UE podem enfrentar riscos de reputação

As instituições financeiras da UE ainda não são diretamente afetadas pelo Regulamento de Desmatamento da UE, e eles podem continuar a financiar as operações de carne e couro dos frigoríficos. No entanto, eles podem enfrentar conflitos com suas próprias políticas e compromissos ESG. Além disso, as campanhas da sociedade civil podem levar ao risco de reputação. Consequentemente, as instituições financeiras da UE ficariam cada vez mais hesitantes em continuar financiando frigoríficos, e os custos de capital podem aumentar para JBS, Marfrig e Minerva, impactando seu valor. Os financiadores da UE contribuíram com aproximadamente 15% para financiar os três frigoríficos em 2013-2022. Em títulos e empréstimos corporativos, os financiadores da UE fornecem 31-46 por cento do total. Como porcentagem de seus ativos totais, o total identificado na Figura 11 (USD 2,4 bilhões) é uma parte muito pequena de todos os ativos dos financiadores da UE (somente os ativos bancários já somam US$ 27 trilhões e excluem ações e obrigações).

Figura 11: Financiamento de JBS, Marfrig e Minerva (baseado na região)

Fonte: Profundo, baseado em Forests & Finance ; todos os dados baseados em relações financeiras identificadas em 2013-2022. Muitas vezes, as relações financeiras bilaterais não podem ser identificadas.

FMCGs, varejistas e empresas de fast-food podem enfrentar risco de valor de reputação mitigado

O valor da reputação de uma empresa é baseado nas interações com todas as partes interessadas, incluindo fornecedores, clientes, funcionários, financiadores e investidores. Eles podem se desvincular de empresas voltadas para o consumidor que não são proativas na eliminação de produtos de origem ligados ao desmatamento. Um estudo recente sobre a materialidade dos lucros vinculados à carne bovina e soja (incorporada) da América Latina concluiu que a exposição à carne bovina da América Latina, que é fornecida por FMCGs em parte para suas atividades na UE, é alta para o McDonald’s (6,4 por cento), mas relativamente baixa para a Nestlé (0,001 por cento) e Carrefour (1,1 por cento). Para o Carrefour, a maior parte de seus produtos de carne bovina de origem brasileira é vendida na América Latina. Traduzindo esses números embutidos de exposição à carne bovina da América Latina em um valor de risco de reputação pode significar que até um terço da exposição (para o McDonald’s um terço de 6,4 por cento = 2,1 por cento) pode ser perdido no preço da ação devido ao risco de reputação. Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja embutido da América Latina, os números serão maiores). Como resultado, os valores de risco de reputação serão relativamente pequenos apenas para carne bovina (se for incluído o fornecimento de farelo de soja da América Latina (incorporado), os números serão maiores).

Figura 12: Seleção de empresas com fornecimento de carne bovina da América Latina (2021)   

Fonte: Profundo, com base no relatório “Materialidade Financeira no Fornecimento de Soja e Carne na América Latina”, julho de 2022.

Os setores a jusante na cadeia de couro da UE enfrentam risco de valor de reputação, mas pode ser relativamente pequeno em comparação com o valor total na cadeia de abastecimento

Para o couro, não existe nenhum estudo comparável (como o da carne bovina mencionado no parágrafo anterior). O valor das importações da UE é de EUR 1.422 milhões, principalmente de couro da América Latina (Figura 1). Globalmente, cerca de metade do couro exportado pelo Brasil é utilizado no setor automotivo, enquanto a outra metade é distribuída, em grande parte, nos setores de calçados e estofados.

Setores baseados na UE ativos na cadeia de suprimentos de couro estão financeiramente expostos ao couro brasileiro e podem estar sujeitos a risco de reputação

A exposição financeira pode ser significativa, e o valor pode ser estimado calculando-se a elevação do preço em cada etapa da cadeia de abastecimento do couro importado. Por exemplo, o couro usado em carros primeiro vai de uma empresa de couro italiana para uma empresa de assentos tcheca, e esses assentos são vendidos a um fabricante de automóveis e, em seguida, os revendedores de automóveis vendem os carros aos consumidores/clientes. Todas essas etapas levam a um acúmulo de lucros brutos e lucros operacionais sobre o couro brasileiro embutido. Os financiadores (investidores e bancos) podem se desligar, os funcionários podem ficar mais relutantes em trabalhar para as empresas e os consumidores menos ansiosos para comprar os produtos. O setor automotivo da UE, incluindo fornecedores, representa atualmente 7% do PIB da UE (2021, 14,5 trilhões de euros), ou 1,02 biliões de euros. Supondo que metade do couro brasileiro importado (711 milhões de euros) seja usado na cadeia automotiva da UE, isso totaliza apenas 0,07% da contribuição do setor automotivo ao PIB. Semelhante à carne bovina, o valor das importações brasileiras de couro para o setor automotivo da UE é uma quantidade relativamente pequena do produto final comprado pelos consumidores.

O couro é provavelmente um insumo relativamente maior para outras indústrias (calçados, estofamento) do que para o setor automotivo de 1,02 trilhão de euros. Por exemplo, a indústria de calçado da UE gerou um volume de negócios de 28 mil milhões de euros . Assumindo que 25 por cento da importação de couro brasileiro da UE é usado para calçados (356 milhões de euros), a materialidade financeira desse couro (1,3 por cento das receitas de US$ 28 bilhões) na indústria de calçados é maior do que na automotiva (0,07 por cento; veja acima). Mais de 100 marcas de moda poderiam estar ligadas ao couro brasileiro. Para empresas individuais na cadeia de suprimentos de couro, a exposição financeira ao couro brasileiro embutido pode ser significativa, mas requer pesquisa adicional.

Os riscos financeiros podem ser evitados por meio de despesas de due diligence “factíveis”

Em vários relatórios , o CRR calculou os custos de um investimento na melhor execução da política de desmatamento zero para óleo de palma, carne bovina e soja, incluindo auditoria, monitoramento e verificação. Os benefícios potenciais (por exemplo, proteção do valor da reputação) excedem significativamente esses custos. A análise do CRR mostrou que seria necessário um aumento de preço baixo, de um dígito, para repassar esses custos aos clientes e manter intactos os lucros para os acionistas. Também no couro, o grande porte da indústria automobilística e calçadista versus o valor importado do couro brasileiro corrobora tal análise.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].