Árvores nativas protegem pastos da Amazônia contra a seca e aumentam nutrientes do solo

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Foto: Cecília Bastos/Imagens USP

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Em busca de alternativas para o controle do desmatamento sem prejuízos à produção agropecuária, pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Instituto Ouro Verde (IOV) demonstraram que o uso de espécies de árvores nativas em áreas de pastagem na Amazônia não só preserva a vegetação local como beneficia a atividade, protegendo contra a seca, aprimorando assim a renovação de nutrientes e aumentando a proteção do solo. Os resultados foram publicados na última sexta-feira (17) na revista “Acta Amazonica”.

Os pesquisadores coletaram amostras de solo e forragem – plantas utilizadas para proteção e fornecimento de palha para o plantio direto e alimento para o consumo animal – sob a copa e arredores de 25 árvores pertencentes a cinco espécies. O trabalho foi feito durante uma estação seca e outra chuvosa, em áreas de assentamentos rurais nos municípios de Nova Canaã do Norte e Nova Guarita, no nordeste do estado de Mato Grosso, parte da Bacia Amazônica.

“Essas paisagens são caracterizadas por grandes extensões de pasto intercaladas com soja e vegetação nativa, o que nos levou a compreender melhor as interações entre as espécies e a atividade agropecuária”, conta Alexandre de Azevedo Olival, professor e pesquisador da UNEMAT e coautor do estudo. De acordo com Olival, ter espécies de árvores nativas como aliadas nos pastos traz múltiplos benefícios, diante da importância do controle do desmatamento, uma das fontes de emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera.

“Além do efeito positivo frente às mudanças climáticas, é preciso considerar que a demanda mundial por alimentos vem crescendo e ampliando o domínio da agricultura sobre as paisagens vegetais tropicais, que já possuem 50% de seu território tomados pela atividade”, alerta. As pastagens são a causa final do desmatamento de dois terços das terras nos neotrópicos, região que abrange a América Central, o sul da Flórida, nos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul. “Nosso estudo demonstra que não precisa ser assim”, avalia. Ainda de acordo com o pesquisador, o trabalho será expandido a novas espécies, em diferentes territórios.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Carta de Xapuri em defesa dos territórios e do Bem Viver nas Amazônias

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Nós indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras rurais, campesinos e campesinas, reunidos no Encontro Amazônico: Terra, Território e Mudança Climática, em Xapuri, no Acre, nos dias 16, 17 e 18 de dezembro de 2021, com a participação de 200 líderes de organizações sociais e populares do Brasil e da Bolívia, reafirmamos o Legado de Chico Mendes de defesa da Amazônia e a Aliança dos Povos das Florestas.

Manifestamos nossos posicionamentos frente ao contexto de ameaças aos territórios de uso coletivo, que para nós povos da Amazônia é sagrado, são espaços de construção e manutenção das nossas identidades, saberes, fazeres, das raizes de nossa ancestralidade, territórios de luta, por isso, afirmamos:

• Estamos vivenciando ações de retrocessos governamentais no Brasil e em outros países Amazônicos, de pressão à terra, ao território, a biodiversidade e aos modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem nas e das florestas. Os retrocessos atuam para a flexibilização das legislações socioambientais, o desmonte das políticas que garantem o direito e à posse da terra e do território a povos e comunidades indígenas, tradicionais, camponesas e quilombolas, obrigando-as, em muitos casos, a vender ou fugir para as periferias das áreas urbanas. Também estabelecem medidas públicas favoráveis à mineração e ao desmatamento na região amazônica, para o agronegócio e a extração ilegal da madeira, com impactos sociais, ambientais, culturais e a vida de todos, e principalmente de quem vive nas florestas.

• Os efeitos dessas ações governamentais contribuem para a crise climática, afetando diretamente mulheres, juventude, crianças e toda humanidade. Exigimos dos governos políticas e ações mais eficazes, adequadas para combater os efeitos das mudanças climáticas, com medidas de adaptação, mitigação e respeito à ancestralidade de povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas.

• Por isso, defendemos à terra, o território, o fortalecimento de políticas públicas para a agricultura familiar e a produção da sociobiodiversidade na Amazônia, para que povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas possam ter uma vida digna para usufruir o bem-viver na Panamazônia.

• Reafirmamos o Legado de Chico Mendes e nos comprometemos em continuar a cuidar da nossa vida e da vida das florestas e da biodiversidade.

• O protagonismo das mulheres amazonidas, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, mulheres ribeirinhas, mulheres extrativistas, historicamente silenciadas e invisibilizadas, temos um marco no processo de luta e resistência na garantia ao direito a terra e ao território. Nosso proposito é garantir vida justa para todas. Exigimos espaço e o fim da violência e de toda opressão. Lutamos por nossa terra livre para semear, queremos o bem viver.

• A juventude em diálogo com as lideranças do passado que lutaram e garantiram os territórios, segue articuladas na luta pois os direitos conquistados não são garantidos, é necessário seguir alerta. Os jovens não são jovens do futuro, somos jovens do presente e queremos espaço para atuar em defesa das nossa casa maior, nossa mãe Terra.

• Reafirmamos que nossa ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS segue unificada, além da nossa articulação com organizações indígenas, camponesas, ribeirinhas, quilombolas, extrativistas, bem como com as instituições, academia e atores sociais de todos os países amazônicos, para fortalecer a nossa luta em defensas das florestas e das vidas.

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade” (Chico Mendes).

VIVA A AMAZÔNIA E A ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS!!!

Mercado Europeu não quer mais consumir carne do desmatamento

O boicote é resultado da ligação direta de frigoríficos do Brasil com violações ambientais e registro de propriedade irregular

unnamed (41)Sobrevoo do Greenpeace Brasil em 2020 em fazenda na Amazônia © Christian Braga / Greenpeace

Manaus, 16 de dezembro de 2021 – Varejistas da União Europeia anunciaram nesta quarta-feira (15) que deixarão de comprar carne bovina do Brasil pela relação direta com o desmatamento na Amazônia. O boicote aponta que o mercado internacional não quer mais consumir produtos ligados com a destruição das florestas. Segundo um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil, grandes frigoríficos do país, como JBS e Frigol, compraram gado de forma direta ou indireta, de fazendas com desmatamento ilegal localizadas em áreas públicas federais e suspeitas de grilagem.

“O sinal está mais do que claro, não há mais espaço para desmatamento na Amazônia. A COP-26 evidenciou que a crise climática é uma realidade e que para contê-la será necessária a união de diversos esforços em diferentes países. Se por um lado os frigoríficos se omitem em tomar as decisões necessárias para frear práticas ilegais na sua cadeia de custódia, por outro, parlamentares europeus, varejistas e consumidores mostram a importância de seu papel e iniciam um movimento de basta. Basta de desmatamento na Amazônia. Esperamos que em um futuro muito próximo esse tipo de atitude seja seguido pelo mercado interno brasileiro”, afirma André Freitas, gerente da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

O levantamento ainda aponta que a apropriação ilegal de terra pode aumentar na Amazônia e elevar o desmatamento em curso caso sejam aprovados pelo Senado alguns dos projetos de Lei conhecidos como PL da Grilagem (PL 2633/2020 e PL 510/2021) e PL do Licenciamento Ambiental (PL 2159/2021), conhecido como o PL da Boiada. Esta é a terceira manifestação europeia – em menos de duas semanas -, contra o desmatamento na Amazônia.

No início de novembro, a eurodeputada Anna Cavazzini, vice-Presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Brasil, enviou uma carta endereçada ao presidente do senado Rodrigo Pacheco, e também para os senadores Jaques Wagner e Acir Gurgacz, manifestando a sua preocupação com a possibilidade de aprovação dos PLs. Além disso, no início desta semana, foi a vez de 31 membros do parlamento dinamarquês de, cinco diferentes, partidos enviarem uma carta novamente ao presidente do Senado brasileiro manifestando preocupação com a disparada do desmatamento e das emissões de gases na atmosfera.

Supermercados da Europa bloqueiam carne brasileira da JBS ligada ao desmatamento

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Redes de supermercados na Bélgica, França, Holanda e Reino Unido anunciaram hoje (16/12) que estão deixando de lado a carne bovina brasileira e/ou produtos de carne bovina vinculados à JBS, a maior empresa de carne bovina do mundo. O anúncio, segundo as empresas, seria uma resposta ao aumento do desmatamento no Brasil e a uma nova investigação documentando vínculos com o desmatamento.

A nova investigação foi realizada pela Repórter Brasil com apoio da Mighty Earth e rastreou a carne bovina ligada ao desmatamento até as prateleiras das lojas de varejo europeias, na forma de carne bovina seca, carne de cordeiro e cortes frescos de primeira qualidade. A Mighty Earth compartilhou as descobertas diretamente com as empresas antes da publicação oficial, o que resultou nos anúncios de hoje.

“Este é um momento decisivo porque vários grandes supermercados em toda a Europa estão dizendo um não enfático à carne bovina brasileira por causa das preocupações com o desmatamento”, disse Nico Muzi, Diretor da Mighty Earth Europe.

“Este não é um compromisso vago ou um anúncio voltado às relações públicas das empresas”, avalia Muzi. “Isto representa uma série de ações comerciais concretas tomadas por alguns dos maiores supermercados da Europa para parar de comprar e vender carne bovina de uma empresa e de um país que fez demasiadas promessas e entregou muito poucos resultados.”

Os principais compromissos dos supermercados europeus anunciados hoje são:

• O Carrefour Belgium se comprometeu a deixar de vender a carne seca Jack Link, e o Grupo Carrefour se comprometeu a aumentar a vigilância em suas operações em todos os países. O Grupo Carrefour é uma multinacional francesa com mais de 12.000 localidades no mundo e uma receita de 81 bilhões de euros em 2019. A Mighty Earth continua a pressionar o Carrefour para uma ação mais ampla em todas as suas lojas.

• A Sainsbury’s UK se comprometeu a retirar totalmente do Brasil sua própria marca de carne de vaca em conserva. A Sainsbury’s é a segunda maior cadeia de supermercados do Reino Unido, com uma participação de 16% no setor de supermercados, mais de 1.400 locais e quase £29 bilhões em receitas em 2019.

• O Princes Group anunciou que não colocou um contrato para a venda de carne bovina em pedaços da JBS desde novembro de 2020 e se comprometeu com uma nova política de abastecimento de material brasileiro que inclui desmatamento zero. A Princes é uma empresa internacional de alimentos e bebidas sediada em Liverpool com £1,5 bilhão em receitas em 2017.

• A Lidl Netherlands se comprometeu a deixar de vender toda a carne bovina de origem sul-americana a partir de janeiro de 2022. A empresa é parte da Lidl Stiftung & Co. KG, uma cadeia de varejistas alemães com mais de 11.000 locais e receita de 57 bilhões de euros.

• Auchan France se comprometeu a retirar os produtos de carne seca ligados à JBS de suas prateleiras. A Auchan France faz parte da Auchan Retail International S.A., uma multinacional francesa com mais de 4.000 locais em todo o mundo e uma receita de 51 bilhões de euros em 2018.

• Ahold Delhaize – A Albert Heijn (parte da Ahold Delhaize) comprometeu-se a deixar de fornecer carne bovina do Brasil para todas as suas lojas. É a maior cadeia de supermercados da Holanda, com mais de 1.000 locais e uma participação de mercado de 35% em 2020. Já a Delhaize (parte da Ahold Delhaize) comprometeu-se a retirar todos os produtos Jack Links de suas prateleiras. A empresa é uma das maiores cadeias de supermercados da Bélgica. A Ahold Delhaize é uma empresa holandesa de varejo de alimentos com mais de 7.000 locais em todo o mundo e receita de 75 bilhões de euros em 2020.

Estudo

A pesquisa da Repórter Brasil em parceria com a Mighty Earth encontrou múltiplos exemplos do que chamam de “lavagem de gado”. Segundo a pesquisa, parte da carne bovina processada pela JBS em seus abatedouros em áreas de baixa desmatamento, como São Paulo, é proveniente de gado criado e alimentado em fazendas oficialmente sancionadas – e embargadas – por desmatamento ilegal na Amazônica, Cerrado e Pantanal.

Com receita anual de US﹩ 50 bilhões, a JBS é o maior produtor mundial de carne bovina – abatendo quase 35.000 cabeças de gado por dia somente no Brasil. Em 2017, cerca de um terço das exportações de carne bovina da JBS do Brasil era apontado como sendo proveniente da Amazônia.

No ano passado, a Amazônia brasileira teve os piores níveis de desmatamento dos últimos 15 anos. Os cientistas estimam que dois terços das terras desmatadas na Amazônia e no Cerrado foram convertidas em pastagens para gado.

“A pesquisa mostra que a JBS continua a vender carne bovina ligada ao desmatamento, embora existam cerca de 650 milhões de hectares de pastagens degradadas na América Latina onde a produção agrícola sem desmatamento é possível”, disse Muzi. “A grande notícia é que a Europa está parando de comprar agora. Estas ações comerciais, assim como a nova legislação da UE para acabar com o desmatamento importado, mostram que o aperto está chegando aos destruidores de florestas”.

“Na verdade, com base nos compromissos de hoje, parece que as políticas irresponsáveis da JBS estão fazendo com que grandes supermercados e varejistas se afastem não apenas desta única empresa, mas da carne bovina de origem brasileira e até mesmo sul-americana em geral”, enfatiza Muzi. “Se eu fosse outra empresa de carne bovina daquela parte do mundo, eu exortaria a JBS a parar de fazer da região inteira um pária global ligado ao desmatamento. Certamente, há muitas empresas na América do Sul que fazem muito melhor do que isso”.

Em abril passado, a Mighty Earth divulgou sua mais nova análise dos dados de desmatamento, que constatou que a JBS era a empresa de carne com pior desempenho . Ela tem sido ligada a 100.000 hectares de desmatamento nos últimos dois anos. Cerca de 75% desse desmatamento ocorreu em áreas protegidas.

Declarações corporativas sobre os compromissos assumidos hoje

CARREFOUR GROUP

“Após o alerta recebido pela Repórter Brasil e Mighty Earth, realizamos uma investigação imediata”, disse Geoffroy Gersdorff, Diretor do Grupo de Oferta de Mercadorias Alimentícias e Não Alimentícias do Grupo Carrefour. “Como consequência, o Carrefour deixará de vender a carne seca da Jack Link no Carrefour Bélgica e aumentará sua vigilância em todos os seus países de operação. Esta decisão comercial foi tomada dentro do Comitê do Carrefour sobre as regras de compra para a transição alimentar. O Grupo saúda o compromisso das ONGs com esta luta, pois o diálogo e a vigilância por parte de todos nos permite identificar problemas e fazer progressos”.

LIDL NETHERLANDS

“A proteção da biodiversidade, incluindo a prevenção do desmatamento, são temas centrais dentro de nossa política de compras sustentáveis”, disse Renée Bijvoets, Gerente de Sustentabilidade da Lidl Netherlands. “Dado o risco de desmatamento ligado à carne bovina de origem sul-americana, decidimos, juntamente com nosso fornecedor, buscar fontes alternativas. O resultado é que a partir de janeiro de 2022 não venderemos carne bovina com origem sul-americana em nosso sortimento fixo”.

SAINSBURY’S UK

“A ligação entre a pecuária e a destruição de ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal é uma questão complexa, que levamos extremamente a sério. Tomamos uma série de medidas junto aos nossos fornecedores e à indústria em geral para tentar resolver esta questão, mas não houve progresso suficiente. Estamos, portanto, comprometidos em afastar do Brasil o fornecimento de carne bovina de nossa própria marca para garantir que o produto de carne bovina de corte da Sainsbury’s possa ser verificado independentemente, sem desmatamento e conversão na origem”.

ALBERT HEIJN

“Albert Heijn decidiu parar de comprar carne bovina do Brasil para todas as suas lojas”, disse um porta-voz de Albert Heijn, Holanda. “Isto inclui tanto produtos de marca própria quanto de marca. Albert Heijn trabalhará com nossos fornecedores nos próximos meses para eliminar ou substituir gradualmente todos os produtos de carne bovina de origem brasileira”.

DELHAIZE BELGIUM

“A Delhaize garantirá que toda a carne seca da Jack Link será retirada de todas as suas lojas”, disse um porta-voz da Delhaize Bélgica.

AUCHAN FRANCE

“Auchan está engajada contra o desmatamento no Brasil e particularmente no Cerrado”, disse um porta-voz da Auchan França. “Para apoiar este engajamento, a Auchan trabalha em estreita colaboração com a Earthworm Foundation, que auxilia os varejistas na implementação de uma política de compras responsável. Além disso, a empresa assinou o manifesto contra o desmatamento de soja há um ano. Atualmente, nosso serviço de qualidade investiga suas informações. O produto é vendido abertamente por muitos varejistas e e-business na França. Auchan não poderia ser apontado como um vendedor específico deste produto. Para evitar qualquer mal-entendido e cumprir com nossos compromissos, a Auchan decide retirar o produto das prateleiras”.

PRINCES GROUP

“A Princes não firmou um contrato para a carne de vaca em conserva da JBS desde novembro de 2020; a carne de vaca em conserva da marca Princes, proveniente da JBS e identificada pela Mighty Earth nas prateleiras do Reino Unido e da Holanda, será vendida como elemento residual deste último contrato”, disse um porta-voz do Princes Group. “A Princes leva a questão do desmatamento muito a sério e se envolve continuamente com os fornecedores para melhorar a gestão da cadeia de abastecimento, mitigar os riscos e aumentar a transparência. Temos revisado nossa cadeia de fornecimento de carne bovina e estamos desenvolvendo uma nova política de fornecimento de material brasileiro levando em conta uma ampla gama de fatores, incluindo rastreabilidade, risco, custo, qualidade, feedback do cliente, a gestão de fornecedores indiretos e um compromisso de desmatamento zero”.

Castigo veio a cavalo: supermercados europeus param de vender carne bovina do Brasil por relação com desmatamento

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Por Reuters

SÃO PAULO/AMSTERDÃ (Reuters) – Seis redes europeias de supermercados, incluindo duas de propriedade da empresa holandesa Ahold Delhaize e uma subsidiária do Carrefour, disseram nesta quarta-feira que não venderão mais uma parte ou todos os derivados de carne bovina do Brasil devido a laços com o desmatamento da floresta amazônica.

Os compromissos vão do anúncio da rede de supermercados Lidl Netherlands, que se comprometeu a parar de vender toda a carne bovina originária da América do Sul a partir de 2022, a decisões mais direcionadas de suspender a venda de certos produtos de carne.

Muitos dos produtos afetados são da JBS (JBSS3), a maior processadora de carne do mundo.

Os boicotes são uma reação a uma investigação da entidade Repórter Brasil, que alegou que a JBS utilizou carne de vacas de pastos em áreas desmatadas ilegalmente, em um esquema conhecido como “lavagem de gado”.

O esquema ocorre quando o gado criado em um lote de terra desmatado ilegalmente é vendido a uma fazenda legítima antes da venda para um abatedouro para ocultar sua origem.

A JBS disse à Reuters que tem tolerância zero com o desmatamento ilegal e que descartou mais de 14 mil fornecedores por não se adequarem às suas políticas. A empresa disse que o monitoramento de fornecedores indiretos –aqueles que antecedem o vendedor final para o abatedouro– é um desafio para todo o setor, mas que a JBS instituirá um sistema capaz de fazê-lo até 2025.

A processadora de carne disse que o levantamento da Repórter Brasil mencionou somente cinco de 77 mil de seus fornecedores diretos e que estes fornecedores se adequavam às suas políticas na ocasião da compra.

O desmatamento da Amazônia brasileira, a maior floresta tropical do mundo, tem disparado desde que o presidente Jair Bolsonaro tomou posse em 2019 e revogou medidas de proteção ambientais. Ele defende mais agricultura e mineração na região, inclusive em reservas indígenas.

Em 2021, o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos. A maior parte das terras devastadas é usada para a criação de gado.

Entre outros compromissos dos mercados europeus, a Albert Heijn, subsidiária da Ahold Delhaize, que é a maior rede de supermercados da Holanda, suspenderá totalmente a compra de carne bovina do Brasil.

Um porta-voz da Albert Heijn disse à Reuters que atualmente a empresa só vende alguns produtos de origem brasileira por semana.

A francesa Auchan também deixará de oferecer produtos de carne ligados à JBS em suas prateleiras. Os supermercados Carrefour e Delhaize da Bélgica não venderão mais a marca de carne seca Jack Link’s.

JBS e Jack Link’s têm um empreendimento conjunto. A Jack Link’s não respondeu a um pedido de comentário.

A britânica Sainsbury’s disse que não obterá mais a carne bovina que vende com sua própria marca do Brasil, mas que 90% de sua carne bovina já é fornecida pelo Reino Unido e pela Irlanda.

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Este texto foi publicado inicialmente pela InfoMoney [Aqui!   ].

Estudo mostra falta de transparência em quase metade dos dados para acompanhamento das ações do Ministério do Meio Ambiente

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Uma das maneiras dos cidadãos acompanharem e fiscalizarem a execução de políticas públicas ambientais brasileiras é por meio da divulgação de informações e dados públicos de forma transparente pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), órgão responsável por elaborá-las. No entanto, estudo divulgado nesta quarta (15) mostra que quase a metade (47%) das informações desejáveis para monitoramento das ações da pasta apresenta algum grau de incompletude e/ou estão indisponíveis. A pesquisa foi realizada pela Achados e Pedidos – iniciativa da agência de dados Fiquem Sabendo, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Transparência Brasil – e contou com financiamento da Fundação Ford.

Para avaliar a disponibilidade e a qualidade dos dados, que permitiriam ainda o cumprimento da Lei de Acesso à Informação, foram considerados o site institucional do MMA, o Portal da Transparência e o Portal Brasileiro de Dados Abertos. Em alguns casos, recorreu-se a outros sistemas, como Consulta MMA, Painel de Informação de Colegiados (PIC) e Dados Abertos Ambientais.

No total, foram analisados 55 itens, divididos em dois grupos: Transparência ativa e Competências da pasta. No primeiro grupo, foram considerados 31 itens que se referem a dados institucionais e informações disponibilizadas pelo órgão, como ações e programas desenvolvidos, relatórios de gestão, certificados de auditoria e execução orçamentária e financeira. Já o segundo grupo incluiu 24 itens que dizem respeito ao conjunto de atribuições e responsabilidades do MMA ligados diretamente às políticas públicas ambientais, como indicadores ambientais nacionais e dados de recuperação e redução da degradação da vegetação nativa nos biomas.

Também foi objeto de análise o Plano de Dados Abertos (PDA) do MMA, que é um instrumento de planejamento, coordenação e disseminação de informações. Cada um dos 55 itens foi avaliado quanto à sua disponibilidade, link de acesso, formato do arquivo, data da última atualização e situação (satisfatório, incompleto, inconsistente, indisponível). Toda a análise foi feita entre os dias 28 e 29 de outubro de 2021.

Os resultados revelaram que, embora o MMA atenda parcialmente às exigências de transparência institucional – dos 31 itens analisados, 23 estavam satisfatórios em relação à disponibilidade, formato e atualização dos dados –, o mesmo não se verifica em relação aos assuntos de sua competência específica, ou seja, as políticas públicas ambientais. Dos 24 itens considerados nessa esfera, seis estavam satisfatórios, 15 incompletos e 3 indisponíveis.

O pior desempenho foi em relação a políticas e programas ambientais para a Amazônia. Não foram encontrados dados sobre o Programa Áreas Protegidas da Amazônia, e as informações estavam incompletas para os itens Prevenção e controle do desmatamento ilegal, dos incêndios florestais e das queimadas e Redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento e da degradação florestal.

“Isso confirma uma tendência que já vínhamos percebendo sobre a transparência governamental. É o que chamamos de opacidade de dados, relacionada à não continuidade na produção de determinados indicadores, existência de defasagens e dificuldade em encontrar as informações”, diz a pesquisadora e jornalista Jéssica Botelho, da Fiquem Sabendo, que foi a responsável pela avaliação dos dados e redação do relatório.

Ela acrescenta que, em relação ao meio ambiente, além da Lei de Acesso à Informação, há a Lei da Transparência Ambiental, com toda uma regulamentação sobre como devem ser publicados e divulgados os dados socioambientais. “Percebemos que está havendo uma violação dessa lei para dizer o mínimo.”

De acordo com a pesquisadora, “se o principal órgão do país ligado à questão ambiental está descumprindo a lei, órgãos vinculados ao MMA, como o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da  Biodiversidade], provavelmente também estão cometendo deslizes na divulgação de dados e na transparência”. Outros estudos da Achados e Pedidos, como “Transparência Inativa: a opacidade da Funai” e “Área Socioambiental: Império da Opacidade” já apontavam nesse sentido.

Em relação ao Plano de Dados Abertos, Jéssica conta que foram encontrados os mesmos problemas: dados defasados, descontinuados e pulverizados em releases, o que dificulta recuperar a informação e elaborar uma série histórica, por exemplo. “Tudo isso gera dificuldades para a sociedade avaliar a gestão pública. Podemos dizer que, no geral, a transparência está comprometida”.

Para ler o artigo em sua íntegra, basta clicar [Aqui!].

Economia sustentável para a Amazônia

Produtos Florestais Não Madeireiros ajudam a manter a floresta em pé e fazem crescer a economia com geração de renda e emprego

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Fundamentais para a subsistência de muitas pessoas ao redor do mundo, especialmente as que vivem nas florestas e arredores, Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM), como o nome já diz, abrange tudo o que possa ser extraído da floresta e que não seja madeira. São óleos, frutos, sementes, folhas, raízes, cascas, resinas, por exemplo, que podem ser utilizados na alimentação, produção de medicamentos, cosméticos, construção de moradias, móveis, utensílios, biojóias, entre outros.

“Por ter um papel econômico, social e cultural importante para várias populações, a troca de conhecimentos relacionados à bioeconomia, sociobiodiversidade e cadeias de valor, pode ajudar bastante em um período como esse, de crescimento de demanda por esses produtos, causada pela preocupação mundial relacionada às crises climáticas”, afirma Fabiana Prado, coordenadora do Projeto LIRA, Legado Integrado da Região Amazônica, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas. Para isso foi criado o BioForestALC, um fórum virtual com o objetivo de entender o potencial de PFNM para a bioeconomia da América Latina e Caribe, visando conectar a bioeconomia e as florestas com o desenvolvimento humano.

Segundo Fabiana, a importância do manejo e do uso desses produtos é que, sendo feito de maneira sustentável, constitui uma excelente alternativa para conservar a floresta em pé, além dos aspectos positivos sociais e econômicos. “A população se beneficia dos serviços e produtos da floresta e, ao mesmo tempo, é gerada renda com agregação de valor de uso sustentável das florestas.

Atividades preparatórias para o BioForestALC

O BioForestALC vai acontecer em março de 2022, mas as atividades relacionadas a ele foram iniciadas desde setembro de 2021. Como reuniões preparatórias envolvendo participantes de vários países, sendo a última delas realizada em 25 de novembro. Foram dois blocos, um sobre bioeconomia e políticas públicas na América Latina e Caribe e outro sobre experiências inclusivas da sociobiodiversidade.

“O que ficou evidente é que os desafios são parecidos, independentemente do país de origem e que a troca de conhecimentos, portanto, é fundamental. Outro ponto importante foi o apontamento da importância das organizações de apoio nas três experiências”, afirma Fabiana.

Serviço

Segunda reunião preparatória para o I Fórum Virtual sobre o potencial dos Produtos Florestais Não Madeireiros para uma bioeconomia da América Latina e Caribe.

Vamos falar de Bioeconomia da Floresta latino americana e caribenha?

Painel 1: Bioeconomia e as políticas públicas na América Latina e Caribe

Palestrantes do Brasil e Colômbia

Painel 2: Experiências inclusivas em Cadeias da Sociobiodiversidade na América Latina e Caribe

Experiências Da Guatemala, Suriname e Brasil

O vídeo estará disponível no Canal do Ipê

Sobre o BioForestALC

Em 2019, durante o durante o XXV Congresso Mundial da União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO) realizado no Brasil, foi instituída uma Força Tarefa intitulada “Unlocking The Bioeconomy and NonTimber Forest Products”.

A Força-Tarefa envolve pesquisadores de mais de 25 países, incluindo representantes de toda a América Latina, e membros de organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que têm participado ativamente.

Nesse contexto, surgiu a proposta de organizar um e-FORUM sobre o Potencial de Produtos Florestais Não Madeireiros para a Bioeconomia Latino-americana, inspirada na Rede Temática Europeia INCREdible sobre Redes de Inovação em PFNMs do Mediterrâneo. Embora em contextos distintos, o objetivo da rede europeia, de reduzir a distância entre o conhecimento disponível em pesquisa e a inovação efetivamente implementada no setor, é também de interesse na América Latina e Caribe, especialmente, quando se pensa em desenvolver estratégias de bioeconomia inclusivas.

Assim, nasceu o BioForestALC (I Fórum Virtual sobre o Potencial dos Produtos Florestais Não Madeireiros para uma Bioeconomia da América Latina e Caribe: Conectando a bioeconomia e as florestas com o desenvolvimento humano), proposta que contempla uma série de atividades prévias realizadas a partir de setembro de 2021 e culminando na apresentação dos resultados em maio de 2022.

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará – IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Site do LIRA .

Frigol envia resposta sobre estudo realizado pelo Greenpeace

frigolSão Paulo, 13 de dezembro de 2021

NOTA PARA A IMPRENSA

 Referente à reportagem publicada pelo Greenpeace em 09 de dezembro sob o título “Carne de destruição: como grandes frigoríficos seguem alimentando o desmatamento e a grilagem na Amazônia”, a FRIGOL informa que:

Carne de destruição: como grandes frigoríficos seguem alimentando o desmatamento e a grilagem na Amazônia”, a FRIGOL informa que:

  • Monitora seus fornecedores diretos para todas as linhas de produtos in As fazendas que comercializaram para a Frigol no período informado pela reportagem não possuíam nenhum impedimento nos órgãos de fiscalização ambiental e trabalhista e estavam em acordo com o TAC da Carne – no qual a Frigol obteve 95,1% de conformidade na auditoria do período 2018-2019. Atualmente, esse índice é ainda maior.
  • O caso relatado pela reportagem é de um fornecedor indireto. Para evitar que fatos como estes ocorram, a Frigol vem desenvolvendo seu programa de Controle de Origem, que avança para o monitoramento de toda sua cadeia de fornecedores nos próximos anos.
  • A primeira etapa do programa foi concluída em 2021, com a implantação de sistemas de rastreabilidade socioambientais para os fornecedores diretos. Com isso, todos os produtos in natura da empresa passam a contar com um código QR na embalagem com informações sobre as fazendas que originaram o produto e sua situação perante os órgãos ambientais e As informações são retiradas diretamente dos sites dos órgãos oficiais, sem a interferência da empresa e registrada em blockchain, para garantir total transparência e segurança da informação. O consumidor pode acessá-la diretamente do smartphone, fazendo a leitura do código QR.
  • Para o monitoramento dos fornecedores indiretos, está atualmente em fase de testes na Frigol o uso do software VISIPEC (NWF) para o bioma amazônico, e foi firmada uma parceria com a empresa CONECTA (Safetrace) para os demais biomas onde a empresa atua.
  • Além disso, em 2022, a Frigol disponibilizará aos fornecedores diretos a ferramenta SMGeo Prospec, que dará ao pecuarista meios para que ele possa selecionar seus fornecedores com base nos indicadores socioambientais previstos pelo TAC da Carne. É uma iniciativa inédita para apoiar o pecuarista que está em conformidade com a legislação ambiental e

A Frigol tem pautado sua atuação pela confiança, transparência e respeito à legislação vigente. Nos últimos anos, investiu em estudos e sistemas que permitiram à empresa avançar progressivamente no cumprimento do Pacto pela Amazônia/TAC da Carne, com o qual está plenamente comprometida. A empresa está à disposição para tirar qualquer dúvida.

Atenciosamente,

Frigol S/A

Sobre a Frigol

A Frigol SA é um dos principais frigoríficos brasileiros e um dos líderes em produção de carne bovina e suína na América do Sul. Fundada em 1992 pela família Gonzaga Oliveira, que atua no ramo de carnes desde 1970, a Frigol está estrategicamente localizada nos estados de São Paulo e Pará. A empresa possui hoje importante participação no mercado nacional e internacional, com presença em mais de 60 países espalhados pela América do Sul, Europa, Oriente Médio, Ásia e África. A Frigol foi destaque na lista “As 100 maiores empresas do agronegócio brasileiro em 2020”, segundo revista FORBES. Saiba Mais: https://frigol.com.br/pt/

THE LANCET: Impacto socioeconômico da COVID-19 é maior e será mais duradouro em populações vulneráveis

covid 19 amazonia

Uma pesquisa publicada hoje pela The Lancet – uma das revistas científicas, voltadas para a área médica, mais prestigiadas no mundo -,  reuniu especialistas para explicar como a queda econômica terá efeito por anos e será pior em países pobres. Sem um consenso para ações preventivas, famílias e comunidades serão afetadas de forma desproporcional. A longo prazo, as desigualdades na saúde, no bem-estar físico e socioeconômico serão ampliadas por todo o mundo. 

Essas populações vulneráveis são, geralmente, invisíveis para os governos, o que resulta em um acesso insuficiente a serviços públicos e programas de igualdade econômica. Além disso, dados oficiais de indicadores de saúde, ligados ou não à COVID-19, não são disponibilizados publicamente em diversos países. Por isso, a verdadeira dimensão da gravidade é subestimada. Há uma urgência por mais dados desagregados e padronizados que informem com precisão as ações e políticas públicas. 

Um dos autores da pesquisa é o Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), professor Virgilio Viana, PhD por Harvard, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral. Ele mencionou os desafios que comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam na parte brasileira da floresta amazônica por conta da COVID-19:

“Esse artigo realça de uma maneira muito clara a importância que a ciência dá para a necessidade de ter um tratamento diferenciado para as populações mais vulneráveis. Em relação à Amazônia, o atendimento às questões de saúde em áreas indígenas e populações tradicionais da Amazônia profunda merece uma atenção especial, como podemos ver com a chegada do vírus nas comunidades. Portanto, essa produção científica aponta para a necessidade de pensarmos o SUS na floresta de maneira a aumentar a sua eficiência e a sua eficácia, a partir da experiência com o nosso trabalho na FAS, que ajudou muitas comunidades e deu suporte durante o período mais difícil da pandemia, principalmente no Amazonas.”

Para entender o efeito da COVID-19, especificamente em pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade, há uma necessidade específica de uma coleta de dados atualizada. O número de hospitalizações, mortes e outros indicadores de bem-estar social e de saúde precisam ser divididos por gênero, idade, raça, etnia, deficiências e outras variáveis.  

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, explica que estes dados podem ajudar a criar políticas públicas: 

“A pandemia nos obriga a resgatar uma perspectiva sobre como a proteção social e a cobertura universal para assistência de saúde foram negligenciadas na última década. Os efeitos populacionais de fenômenos ambientais e sociais são sentidos mundialmente, principalmente por pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é mais possível encarar a desigualdade como se não fosse um problema de todos.”

Quem são os afetados?

Quando falamos em populações vivendo em situação de vulnerabilidade, estão incluídos indivíduos que enfrentam exclusão sistemática e discriminação por causa de fatores como idade, deficiência, raça, etnia, gênero, classe econômica, religião, credo ou crença, identidade de gênero, orientação sexual e situação migratória, além daqueles que estão em conflitos e apátridas. Pessoas que estão encarceradas, com condições crônicas de saúde (ex.: deficiências mentais), vivendo em moradias inadequadas e expostas à degradação ambiental, poluição do ar e em risco durante a mudança climática também são afetadas.

Ao final do artigo, os autores destacam cinco recomendações para melhor auxiliar na proteção de populações vulneráveis, a fim de reduzir desigualdades na área da saúde. A primeira delas refere-se à importância de executar uma cobertura universal de saúde e implementar sistemas de proteção social nos países; a segunda diz respeito ao compromisso de governos e parlamentos para financiar e salvaguardar os serviços sociais e de saúde; como terceira recomendação, há a necessidade da equidade digital para todos; na quarta indicação, a ênfase está na economia do cuidado; e, finalmente, a quinta recomendação evidencia a revitalização das relações entre governos e atores da sociedade civil, de modo a garantir que comunidades, populações vulneráveis e todas as identidades de gênero detenham papel central na tomada de decisões.

O estudo concluiu que o mundo chegou a um momento crucial, exigindo mais do que nunca uma resposta colaborativa para ampliar o acesso universal à saúde e proteção social. É preciso construir estratégias e políticas públicas que levam em conta sistemas de saúde e de assistência social mais resilientes, incluindo aqueles que vivem uma crise humanitária, para mitigar efeitos da pandemia, solucionar a desigualdade e melhorar a resiliência de comunidades vulneráveis.

93% dos imóveis rurais na Amazônia Legal e Matopiba ainda não têm CAR validado

Novo relatório do Observatório do Código Florestal aponta limitações na implementação da Lei que atrasam a restauração de cerca de 15 milhões de hectares de vegetação nativa

matopiba

Às vésperas de completar 10 anos, o Código Florestal Brasileiro anda devagar, após avanços e recuos. Segundo relatório do Observatório do Código Florestal, mais de um terço (36%) da área a ser regularizada não foi cadastrada por seus proprietários rurais no Sistema de Cadastro Ambiental Rural (Sicar). Dos cerca de 6,1 milhões de imóveis inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR), apenas 3,4% foram analisados e tiveram seus dados validados. O relatório mostra também que metade do déficit de Áreas de Preservação Permanente (APP) e 65% do déficit de Reservas Legais (RL) no país estão concentrados em grandes propriedades rurais.

“Apesar do país contar com uma legislação ambiental que permite cumprir metas climáticas e atender aos anseios dos importadores, todos os indicadores sugerem que ela ainda não foi devidamente aplicada. Avançar na implantação do Código Florestal é o nosso maior desafio atualmente”, afirma Roberta del Giudice, secretária executiva do Observatório do Código Florestal. “A não aplicação da lei deixa o Brasil vulnerável a questionamentos ambientais, que só tendem a crescer. O acordo global de florestas, anunciado na COP26, e o projeto da União Europeia de barrar importações contaminadas por desmatamento são apenas dois exemplos da transformação pela qual o comércio internacional está passando”, observa.

Nos 11 estados que compõem a Amazônia Legal e o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), regiões que sofrem intensa pressão de desmatamento e dos importadores de commodities agropecuárias, apenas 7% dos imóveis inscritos passaram por alguma etapa de análise dos órgãos ambientais. Em outros estados, o volume de avaliações vai de patamares entre 10 a 300 cadastros analisados em Alagoas, Maranhão, Goiás, Sergipe, Santa Catarina e Distrito Federal, até 72 mil cadastros avaliados e também validados no Espírito Santo, que é o estado mais avançado nesse processo. Minas Gerais, por outro lado, não possui dados disponíveis sobre a validação do CAR.

A análise e validação dos cadastros, que são autodeclaratórios, é de responsabilidade dos órgãos estaduais, que enfrentam limitações de pessoal e estrutura que comprometem a celeridade do processo, segundo o relatório do OCF. Isso impede a implantação de Programas de Regularização Ambiental (PRA), o instrumento legal que inicia a efetiva adequação de uma propriedade rural ao Código. Apenas 18 estados regulamentaram seus PRAs e, mesmo assim, várias de suas regras são de baixa qualidade técnica, o que inviabiliza sua operação ou leva a processos judiciais devido ao fato de reduzirem a proteção prevista no Código Florestal.

Além do baixo número de inscrições analisadas e validadas, cerca de 30% dos cadastros têm problemas de sobreposição com outras propriedades ou terras públicas. No Pará, por exemplo, foram cancelados mais de 4 mil cadastros em 2020. O estado possui 111.523 cadastros analisados e 1.449 cadastros validados.

Segundo o relatório do OCF, a área em que se aplica o CAR (área cadastrável) para imóveis rurais ocupa mais de 507 milhões de hectares no país. Com a exclusão das sobreposições, estima-se que cerca de 30% do total de 507 milhões de hectares da área rural do país ainda não foram cadastrados. Essas áreas, conhecidas como vazios do CAR, chegam a ocupar mais de 60% da área cadastrável no estado de Roraima e mais de 50% na Bahia. Oito estados têm mais de 40% de vazios do CAR em sua área cadastrável.

O relatório também trouxe a estimativa de déficit de vegetação nativa, ou seja, a área que precisa ser restaurada. São 2,3 milhões de hectares em Áreas de Preservação Permanente (APP) e 12,8 milhões de hectares em Reserva Legal (RL). Os grandes imóveis rurais são responsáveis por cerca de metade do déficit de APP e 65% do déficit de RL no país. São 345,5 mil hectares em imóveis pequenos e 8,2 milhões de hectares de déficit de RL e 1,1 milhão de hectares de déficit de APP em imóveis grandes.

Atraso na validação do CAR compromete fiscalização ambiental

O relatório do OCF aponta também que é baixo o número de ações judiciais relacionadas ao Código Florestal e ao desmatamento, indicando que o atraso na validação do CAR impede que órgãos de comando e controle usem adequadamente essa ferramenta em operações de monitoramento e fiscalização. Segundo o relatório, em 2018, apenas 13% das ações judiciais impetradas no Brasil estavam relacionadas ao meio ambiente, e os dados disponíveis não permitem uma separação entre ações para o combate ao desmatamento e outras. Nesse mesmo ano, em toda a região Norte, onde está localizada a Floresta Amazônica, apenas 6% das ações movidas pelo Ministério Público Estadual versavam sobre questões ambientais. No Pará, estado com maior índice de desmatamento em 2019, apenas 214 processos se relacionavam ao meio ambiente.

Segundo o relatório do OCF, “Esse cenário permissivo do descumprimento do Código Florestal contamina negativamente a sociedade brasileira e desacredita o país internacionalmente, trazendo prejuízos ao desenvolvimento sustentável do Brasil. As perdas decorrentes da não implantação do Código Florestal são econômicas, ambientais e sociais. Elas são diretamente responsáveis pela redução da biodiversidade, pelo desequilíbrio de ecossistemas, pelo desabastecimento hídrico, pelo aumento dos problemas de saúde, pela baixa produtividade agrícola e pela insegurança alimentar.”

De acordo com o mais recente levantamento do Mapbiomas, 78,3% da área de desmatamento no Cerrado – bioma responsável pela maior parte das exportações de commodities agrícolas do país – ocorreu dentro de propriedades privadas.

Sobre o Código Florestal – O Código Florestal brasileiro (Lei 12.651, de 25 de maio de 2012)

é a principal norma para o uso da terra e a conservação de florestas e outras formas de vegetação em terras privadas. Ele exige, por exemplo, que todos os agricultores conservem a vegetação natural de sua posse ou propriedade rural (com percentual de proteção variando entre 80% e 20%), além de proteger matas ciliares e topos de morros. A lei florestal pode ajudar a conservar mais de 162 milhões de hectares de vegetação nativa no Brasil, sequestrando cerca de 100 GtCO2, o que é crucial para que o país possa cumprir o compromisso assumido no âmbito do Acordo de Paris. Vale destacar que a maior parte das reduções nas emissões deveria resultar da contenção do desmatamento ilegal e da restauração de 12 milhões de hectares de florestas, ambas medidas necessárias para o cumprimento do Código Florestal, o que colocaria o setor agropecuário brasileiro na vanguarda da sustentabilidade mundial.

Além de poder levar a uma redução drástica do desmatamento, a implementação do Código Florestal também contribuirá para diminuir a violência no campo e promover a restauração de pouco mais de 15 milhões de hectares (cerca de 150 mil km2) – de déficits de vegetação natural. O Código Florestal tem o potencial de garantir a segurança hídrica e a sustentabilidade da produção agrícola, bem como reduzir os riscos jurídicos e ambientais para investidores, comerciantes e outros atores. Isso trará importantes benefícios sociais, ambientais e econômicos para o agronegócio, setor que responde por 21,4% do PIB brasileiro.

Sobre o Observatório do Código Florestal
O Observatório do Código Florestal foi criado em maio de 2013 para promover o controle social da implantação da Lei no 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal brasileiro) e garantir integridade ambiental, social e econômica às florestas em áreas privadas. Atualmente a rede é composta de 36 organizações da sociedade civil, que se juntaram pelo objetivo comum de proteção, restauração e uso sustentável das florestas.