Estudo CNM: queimadas somam prejuízos de mais de R$ 1,1 bilhão no Brasil nos últimos seis anos

queimadas prejuizos

De 2016 a 2021, as queimadas e os incêndios florestais no Brasil representaram prejuízos de mais de R$ 1,1 bilhão, segundo dados de estudo da Confederação Nacional de Municípios. No mesmo período, a União investiu apenas 32% desse valor – R$ 376,2 milhões – para ações de prevenção e combate a incêndios e queimadas.

Grande parte do prejuízo calculado está concentrado em 2019, quando os danos financeiros ultrapassaram R$ 738 milhões no país. Presidente da CNM, Paulo Ziulkoski destaca que, nessas situações, todo o Município e região são afetados, com danos financeiros e humanos. “O sistema de saúde local, por exemplo, é sobrecarregado para atender aos atingidos pela fumaça”, pontua. Ele destaca ainda que, para os Entes locais, é alarmante a redução de verba do governo federal para ações de prevenção e até mesmo combate às queimadas.

Enquanto em 2016 foram pagos R$ 77,4 milhões para ações de prevenção, fiscalização, monitoramento e combate a queimadas e incêndios florestais, o valor caiu para R$ 46,4 milhões em 2020 e para R$ 62,9 milhões em 2021. Além disso, há uma diferença significativa entre os recursos autorizados no orçamento e o total efetivamente pago pela União.

De 2016 a 2021 foi autorizado um montante de R$ 492,4 milhões para as ações, no entanto, somente 76% desse total, ou seja, R$ 376,2 milhões foram pagos, deixando um total de R$ 116,2 milhões de recursos sem uso.

Situação de emergência

No mesmo período, foram registrados 1.104.422 focos no país, de acordo com monitoramento de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), ambos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O ano de 2020 foi o mais crítico, com recorde de focos, que chegaram a mais de 222 mil. Os dados mostram ainda que setembro é o mês que acumula mais registros, sendo 331.612 queimadas nos últimos 6 anos.

Por causa dos desastres causados pelas queimadas e pelos incêndios florestais no Brasil, os Entes precisaram decretar situação de emergência, pelo menos, 2.111 vezes de 2016 e 2021. Os decretos são registrados na Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, do Ministério do Desenvolvimento Regional (Sedec/MDR).

Amazônia

Entre os biomas mais afetados pelas queimadas, a CNM identificou que a Amazônia foi a mais atingida, com maior porcentagem de focos de queimada ativos (47,1%), seguido pelo Cerrado (31,8%) e a Mata Atlântica (8,9%). Em número total de focos, a Amazônia soma 518.997 registros e o Cerrado, 350.064, ambos no período de 2016 a 2021.

Neste ano, até 14 de outubro, o levantamento da Confederação aponta que o bioma amazônico teve 63.115 focos de queimadas, o que representa 40,1% do total registrado no país em 2021. O Cerrado vem em seguida, com 57,327 focos, equivalente a 36,4%.

Por consequência, a Região Norte, onde concentra-se o bioma amazônico, foi a mais prejudicada pelas queimadas, acumulando 457.917 registros, ou seja, 41,4% dos cerca de 1,1 milhão de focos identificados nacionalmente de 2016 a 2021.

Em questão financeira, a Região Centro-Oeste lidera o ranking de prejuízos nos últimos seis anos, somando R$ 837,8 milhões. A Região Sudeste é a segunda mais afetada, com danos de R$ 200,7 milhões, seguida pelas Regiões Norte (R$ 70,7 milhões), Sul (R$ 46,9 milhões) e Nordeste (R$ 1,1 milhão).

Diante do cenário preocupante, a CNM alerta para a necessidade de os Estados e a União investirem com urgência recursos – materiais e financeiros – para criação de políticas públicas que fortaleçam o combate às queimadas e incêndios florestais, visando também investir no fortalecimento dos órgãos de fiscalização ambiental.

Acesse aqui o estudo completo.

Da Agência CNM de Notícias

Proposta da UE sobre produtos vinculados ao desmatamento cria riscos para empresas e investidores

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Apenas duas semanas após o anúncio de um divisor de águas por mais de 100 países na COP-26 sobre a eliminação do desmatamento, a União Europeia (UE)lançou um projeto de lei no dia 17 de novembro, isso exigiria que as empresas mostrassem que seus produtos não estão vinculados ao desmatamento. Essencialmente, a legislação proibiria commodities ligadas ao desmatamento, sejam legais ou ilegais, e são importadas de países que possuem grandes quantidades de florestas tropicais. Essas commodities incluem itens como carne bovina, óleo de palma, soja, cacau, madeira e café. Alguns produtos derivados, como couro, chocolate e bolo de soja, foram incluídos no escopo inicial da nova legislação. Esta lei marcaria a primeira vez que a UE procura proibir produtos que são produzidos em áreas legalmente desmatadas, e ocorre em um momento em que países produtores como Brasil e Indonésia revogaram as regulamentações e fiscalizações ambientais. “O desmatamento e a degradação florestal estão ocorrendo em um ritmo alarmante, agravando as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, diz a UE. “O principal motor do desmatamento e da degradação florestal é a expansão das terras agrícolas para a produção de commodities como gado, madeira, óleo de palma, soja, cacau ou café.”

A UE anunciou a proposta pela primeira vez em 2019 , e o compromisso foi incluído no Acordo Verde Europeu, na Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e na Estratégia de cultivo para alimentação. As empresas que compram soja, óleo de palma, carne bovina, café, cacau e madeira precisam mostrar que suas fontes não contribuem para o desmatamento. Como resultado, eles teriam que investir em melhor execução e 100% de monitoramento e verificação das políticas de desmatamento zero. O Comissário da Comissão Europeia diz que os custos pagos pelas empresas são muito mais baixos do que os benefícios gerais, o que está de acordo com uma análise da Chain Reaction Research que mostra que os benefícios são 9-45 vezes maiores do que os custos.

Vários países europeus também introduziram ou aprovaram regulamentações nos últimos anos para conter o desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Enquanto isso, nos Estados Unidos, um projeto de lei apresentado pelo senador democrata Brian Schatz visa eliminar a entrada de produtos vinculados ao desmatamento ilegal nos Estados Unidos.

Importações de commodities agrícolas na UE dispararam nas últimas duas décadas. De 2002 a 2020, o comércio agrícola da UE dobrou e agora representa 9% do comércio internacional total da UE. Os movimentos em direção ao desmatamento zero estão alterando o comércio de commodities agrícolas e refletem ainda mais como o desmatamento é um risco material para os atores dessas cadeias de abastecimento. Produtores, comerciantes e varejistas enfrentam riscos, como risco de acesso ao mercado, risco de reputação, risco legal e risco de reputação. Esses riscos também se estendem aos seus financiadores. No mercado brasileiro de soja,  empresas como Cargill, Bunge e LDC provavelmente verão uma pressão crescente porque seus compromissos de desmatamento zero não eliminaram suas ligações com o desmatamento. No entanto, o foco da proposta atual nas florestas significa que um ecossistema como o Cerrado ou o Pantanal não se enquadraria na definição de “livre de desmatamento”, uma lacuna importante. Os frigoríficos brasileiros, como o JBS, poderiam ficar sob mais escrutínio por meio de suas exportações para a UE, assim como seus compradores. No mercado de óleo de palma, exportadores do Sudeste Asiático, África e América Latina enfrentarão pressão para conter as ligações com o desmatamento a fim de continuar a vender para a Europa. Empresas de bens de consumo de alta velocidade (FMCGs) na Europa e seus financiadores, enquanto isso, podem enfrentar riscos de reputaçãopor estarem vinculados a cadeias de abastecimento que não eliminaram o desmatamento.

Com esta proposta, a UE continua a ser líder global na tomada de medidas para enfrentar o desmatamento como parte de sua ampla agenda de combate ao aquecimento global. Em 2008, a Comunicação da CE sobre Desmatamento endossou políticas da UE para impedir a perda de florestas, e a UE tem aumentado a consciência ao longo dos anos sobre o assunto com os consumidores, incentivando-os a alterar seus hábitos de consumo para reduzir a demanda por produtos sem desmatamento. Apesar desses esforços, o desmatamento tem permanecido em níveis elevados nos principais países, o que motivou o grande anúncio na COP-26 e a nova proposta da UE.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

A caligrafia de Bolsonaro, o assassino do clima

Peter Steiniger fala sobre novos recordes de desmatamento na Amazônia

desmatamento ndEm nível recorde: áreas queimadas e desmatadas na região amazônica. Foto: dpa / Fernando Souza

Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

A política de Jair Bolsonaro visa criar uma faixa cada vez maior de devastação na floresta tropical da bacia amazônica. De acordo com uma estimativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), houve um aumento de cerca de 22% do desmatamento na região amazônica brasileira de  agosto de 2020 em diante. Após avaliação das imagens de satélite, foi verificado que nesse período mais 13.235 quilômetros quadrados foram desmatados nos nove estados que compõem a região amazônica brasileira. Para efeito de comparação: Berlim mede 892 quilômetros quadrados. De longe, é importante notar que nem todos os danos florestais na Amazônia são registrados pelo INPE. No segundo e terceiro ano de mandato do presidente brasileiro, o corte e desmatamento de florestas primárias em seu país atingiu seu nível mais alto desde 2006.

JO presidente brasileiro pode bater no peito: o desenvolvimento e a exploração dos recursos do “pulmão verde” da terra estão no topo da agenda do governo Bolsonaro e de seu ultraliberal ministro da economia Paulo Guedes . Os grandes interesses do agronegócio são um dos pilares de seu poder. Os infratores ambientais corporativos foram dispensados de pagar as multas ambientais pelo governo Bolsonaro. Já as instituições ambientais, que tentam conter o desmatamento, têm suas pernas arrancadas com o lápis vermelho que corta as verbas. Enquanto isso, as organizações não governamentais que trabalham pela floresta são demonizadas. O desmatamento para a pecuária, cultivo de soja e mineração está associado à grilagem de terras em grande escala, que atinge a conservação da natureza, e as áreas indígenas de forma particular.

Bolsonaro, assassino do clima, recentemente comeu giz para o público global. Na Conferência do Clima da ONU em Glasgow, em seu nome e com vistas ao comércio de emissões, metas climáticas elevadas foram recentemente anunciadas, e o desmatamento ilegal na Amazônia deve terminar até 2028, o mais tardar. Os garimpeiros ilegais, incendiários ou barões da soja não precisam ficar nervosos. Porque Bolsonaro significa ar quente.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Prodes 2021 registra a maior taxa de Desmatamento na Amazônia desde 2006

Representantes do governo brasileiro já chegaram à COP 26 sabendo da má notícia, mas insistiram em vender uma imagem sustentável

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São Paulo, 18 de novembro de 2021 – A estimativa da taxa oficial de desmatamento na Amazônia Legal divulgada hoje por meio do Programa Prodes, aponta que 13.235 km² foram desmatados entre agosto de 2020 e julho de 2021. O anúncio chega na semana seguinte ao encerramento da COP 26, onde o governo brasileiro tentou limpar sua imagem, mesmo sabendo que mais um recorde de desmatamento já havia sido batido, uma vez que o documento divulgado hoje tem data de 27 de Outubro de 2021, ou seja, antes da COP 26. O anúncio também ocorre ao mesmo tempo que o cerco para o desmatamento começa a se fechar: a comissão da União Europeia publicou ontem (17) o projeto da nova legislação do bloco que veda a compra de produtos ligados ao desmatamento.

“Apesar das tentativas recentes do governo em limpar sua imagem, a realidade se impõe mais uma vez. Os mais de 13 mil km² não surpreendem quem acompanhou os últimos três anos de desmonte na gestão ambiental brasileira e as tentativas de enfraquecer o arcabouço legal para a proteção do meio ambiente. Fica evidente que as ações necessárias por parte do Brasil para conter o desmatamento e as mudanças climáticas não virão deste governo que está estacionado no tempo e, ainda vê a floresta e seus povos como empecilho ao desenvolvimento”, declara Cristiane Mazzetti, porta-voz da campanha da Amazônia do Greenpeace

Veja aqui imagens de desmatamento na Amazônia, registradas em sobrevoo em Set/2021.

Os dados divulgados pelo Inpe representam um aumento de 21,97% na taxa de desmatamento em relação ao ano anterior. Esta é a maior taxa de desflorestamento já registrada, desde 2006. Na média, houve um aumento de 52,9% na área desmatada nos três anos de governo Bolsonaro (média de 11.405 km² entre 2019 e 2021) em relação à média dos três anos anteriores (média de 7.458 km² entre 2016 e 2018). “O governo atual, com sua política antiambiental, elevou drasticamente o patamar de desmatamento na maior floresta tropical do planeta. Estes são níveis inaceitáveis perante à emergência climática que vivemos no Brasil e no mundo, com extremos climáticos e seus impactos cada vez mais devastadores e frequentes”, comenta Cristiane. “E essa situação só vai piorar, se o Senado aprovar o PL da Grilagem, que beneficia invasores de terras públicas e incentiva ainda mais desmatamento”, completa.

No período em que a taxa foi medida, 32% dos alertas de desmatamento se concentraram nas Florestas Públicas Não Destinadas, alvo frequente de grilagem de terras. A última audiência pública do Senado para discutir o PL 2633/2020, já aprovado na Câmara dos Deputados deve acontecer na próxima semana, com isso a matéria pode ser votada em Plenário logo na sequência.

Reportagem revela como produção de assentos de carros luxos vendidos nos EUA alimenta o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira

Reportagem do “The New York Times” revela como o couro bovino oriundo de fazendas desmatadas ilegalmente pode chegar facilmente ao mercado global. Nos Estados Unidos. Grande parte da demanda pelo couro brasileiro vem das montadorasde carros de luxo dos EUA

leath rondoniaUm matadouro em Porto Velho, no noroeste do Brasil, em julho

Este artigo foi produzido em parceria com a Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center.

Por Manuela Andreoni , Hiroko Tabuchi e 

BURITIS, Brasil – Certa manhã deste verão, Odilon Caetano Felipe, fazendeiro que cria gado em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia, se reuniu com um comerciante e contratou mais de 72 animais engordados. Com aquele golpe de caneta, o Sr. Felipe deu ao seu gado uma ficha limpa: ao vendê-los, ele obscureceu seu papel na destruição da maior floresta tropical do mundo.

Durante o almoço, logo após a venda de 14 de julho, Felipe falou abertamente sobre o negócio que o enriqueceu. Ele reconheceu o corte da densa floresta amazônica e que não pagou pela terra. Ele também disse que estruturou suas vendas para esconder as verdadeiras origens de seu gado, vendendo para um intermediário, criando uma trilha de papel que mostrava falsamente que seus animais eram provenientes de uma fazenda legal. Outros fazendeiros da região fazem o mesmo, disse ele.

“Não faz diferença”, disse ele, se sua fazenda é legal ou não.

Uma investigação do New York Times sobre a rápida expansão da indústria de frigoríficos no Brasil – um negócio que vende não apenas carne para o mundo, mas toneladas de couro anualmente para grandes empresas nos Estados Unidos e em outros lugares – identificou lacunas em seus sistemas de monitoramento que permitem peles de gado mantido em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia para fluir sem ser detectado pelos curtumes do Brasil e para compradores em todo o mundo.

A fazenda do Sr. Felipe é uma das mais de 600 que operam em uma área da Amazônia conhecida como Jaci-Paraná, uma reserva ambiental especialmente protegida onde o desmatamento é restrito. E transações como a dele são os pilares de um complexo comércio global que liga o desmatamento da Amazônia a um apetite crescente nos Estados Unidos por luxuosos bancos de couro em picapes, SUVs e outros veículos vendidos por algumas das maiores montadoras do mundo, entre elas a General Motors, Ford e Volkswagen.

Um veículo de luxo pode exigir uma dúzia ou mais de peles, e os fornecedores nos Estados Unidos compram cada vez mais seu couro do Brasil. Embora a região amazônica seja um dos maiores fornecedores mundiais de carne bovina, cada vez mais para as nações asiáticas, o apetite global por couro acessível também significa que as peles desses milhões de gado abastecem um lucrativo mercado internacional de couro avaliado em centenas de bilhões de dólares anualmente .

O fazendeiro Odilon Caetano Felipe reconheceu ter desmatado terras dentro da UC Jaci-Paraná.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era recolhido para embarque em um matadouro.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era recolhido para embarque em um matadouro.

Pastagens em chamas perto de Porto Velho, capital de Rond & ocirc; nia.

Este comércio de couro mostra como os hábitos de compra do mundo rico estão ligados à degradação ambiental nos países em desenvolvimento, neste caso ajudando a financiar a destruição da Amazônia apesar de sua valiosa biodiversidade e do consenso científico de que protegê-la ajudaria a desacelerar as mudanças climáticas.

Para rastrear o comércio global de couro de fazendas ilegais na floresta tropical brasileira aos assentos em veículos americanos, o The Times entrevistou fazendeiros, comerciantes, promotores e reguladores no Brasil, e visitou curtumes, fazendas e outras instalações. O Times falou aos participantes de todos os níveis do comércio ilícito na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, uma área no Estado de Rondônia que recebeu proteções especiais por abrigar comunidades de pessoas que, por gerações, viveram da terra por extração de seringueiras.

Essas comunidades agora estão sendo expulsas por fazendeiros que querem terras para o gado. Na última década, os fazendeiros expandiram significativamente sua presença na reserva, e hoje cerca de 56% dela foram desmatados, de acordo com dados compilados pelo órgão ambiental estadual.

O relatório também se baseia na análise de dados corporativos e de comércio internacional em diversos países e em milhares de certificados de transporte de gado emitidos pelo governo brasileiro. Os certificados foram obtidos pela Agência de Investigação Ambiental, um grupo de defesa em Washington. O Times verificou independentemente os certificados e obteve milhares de certificados adicionais separadamente.

Isso possibilitou o rastreamento do couro de fazendas ilegais na Amazônia até os frigoríficos operados pelos três maiores frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, e depois para os curtumes que eles fornecem. A JBS se autodenomina a maior processadora de couro do mundo.

Segundo a Aidee Maria Moser, procuradora aposentada de Rondônia que passou quase duas décadas lutando contra a pecuária ilegal na reserva Jaci-Paraná, a prática de vender animais criados na reserva para intermediários comerciantes sugere a intenção de ocultar sua origem. “É uma forma de dar uma aparência de legalidade ao gado”, disse ela, “para que os frigoríficos neguem que haja algo ilegal”.

O problema não se limita a Rondônia. No mês passado, uma auditoria conduzida por procuradores do Estado vizinho do Pará, onde se encontra o segundo maior rebanho bovino da Amazônia, constatou que a JBS comprou 301 mil animais, o equivalente a 32% de suas compras no estado, entre janeiro de 2018 e Junho de 2019 de fazendas que violaram os compromissos de prevenir o desmatamento ilegal.

A JBS discordou dos critérios utilizados pelo Ministério Público e concordou em aprimorar seu sistema de monitoramento, bloquear fornecedores sinalizados pela pesquisa e doar US $ 900 mil ao estado em resposta à auditoria.

Para ter uma ideia da escala das fazendas que operam em áreas vulneráveis ​​na Amazônia brasileira, o The Times sobrepôs mapas do governo de terras protegidas da Amazônia, áreas desmatadas e limites de fazendas com as localizações das fazendas que a JBS listou publicamente como fornecedoras de seus matadouros em 2020. Um a análise mostrou que, entre os fornecedores da JBS, fazendas que cobrem cerca de 2.500 milhas quadradas se sobrepõem significativamente a terras indígenas, uma zona de conservação ou uma área que foi desmatada após 2008, quando as leis que regulamentam o desmatamento foram implementadas no Brasil.

A metodologia e os resultados foram examinados e verificados por uma equipe de pesquisadores e acadêmicos independentes que estudam o uso do solo na Amazônia brasileira.

Os dados do comércio internacional mostraram que as empresas proprietárias de curtumes abastecidos com as peles enviaram couro para fábricas no México administradas pela Lear, uma grande fabricante de assentos que abastece montadoras de automóveis nos Estados Unidos. Lear disse em 2018 que estava adquirindo cerca de 70% de suas peles in natura do Brasil. As peles brasileiras também vão para outros países, incluindo Itália, Vietnã e China, para uso nas indústrias automotiva, de moda e de móveis, mostraram os dados comerciais.

A JBS reconheceu que quase três quartos das fazendas identificadas na análise do The Times se sobrepõem a terras que o governo classifica como desmatadas ilegalmente, ou como terras indígenas ou uma zona de conservação. Mas informou que todas as fazendas cumpriam as regras para evitar o desmatamento quando a JBS comprou delas.

A JBS informou que, nos casos de sobreposição, as fazendas foram autorizadas a operar em áreas protegidas ou desmatadas, ou tiveram seus limites alterados, ou seguiram regras para corrigir suas violações ambientais. A pecuária é permitida em algumas áreas protegidas no Brasil, desde que siga práticas sustentáveis.

Em nota, a JBS informou que mantém há mais de uma década um sistema de monitoramento que verifica o cumprimento da política ambiental dos fornecedores. “Mais de 14.000 fornecedores foram bloqueados por não cumprimento desta política”, disse. No entanto, afirmou a empresa, “o grande desafio da JBS, e da cadeia produtiva da pecuária de corte em geral, é monitorar os fornecedores de seus fornecedores, uma vez que a empresa não tem informações sobre eles”.

Uma fazenda à beira de uma área queimada perto de Cacoal, em Rond & ocirc; nia.

Fazenda à beira de uma área queimada perto de Cacoal, em Rondônia.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era conduzido em caminhões para transporte e abate.
O gado da fazenda do Sr. Felipe era conduzido em caminhões para transporte e abate.
Caminhões de gado chegaram a um frigorífico da Marfrig em Ji Paraná, município de Rondônia.
Caminhões de gado chegaram a um frigorífico da Marfrig em Ji Paraná, município de Rondônia.

O desmatamento na Amazônia aumentou nos últimos anos, à medida que os fazendeiros corriam para atender à crescente demanda por carne bovina, especialmente na China. Representantes da indústria do couro afirmam que, enquanto houver demanda por carne bovina, eles simplesmente usarão peles que, de outra forma, seriam enviadas para aterros sanitários.

Raoni Rajão, que estuda as cadeias produtivas da Amazônia na Universidade Federal de Minas Gerais, disse que, como a indústria do couro torna a pecuária mais lucrativa, ela compartilha a responsabilidade por qualquer desmatamento. “O couro pode ter alto valor agregado”, disse ele.

A perda de florestas está destruindo a capacidade da Amazônia de absorver dióxido de carbono, que as árvores retiram do ar. O dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis é o principal motor das mudanças climáticas. O Brasil foi uma das mais de 100 nações que se comprometeram a acabar com o desmatamento até 2030 na recente Cúpula do Clima das Nações Unidas em Glasgow.

Embora a maioria das fazendas na região amazônica não esteja ligada ao desmatamento ilegal, as descobertas mostram como o couro ilegal está entrando na cadeia de abastecimento global, contornando um sistema que os próprios frigoríficos e empresas de couro criaram nos últimos anos para tentar mostrar que seu gado vem apenas de fazendas legítimas.

Em resposta a perguntas detalhadas, JBS, Marfrig e Minerva disseram não saber que o gado da reserva Jaci-Paraná estava entrando em suas cadeias de abastecimento.

Os três disseram ter sistemas para monitorar fazendas que abastecem diretamente seus frigoríficos e que excluem fazendas que não cumprem as leis ambientais. Mas os três reconheceram que não podem rastrear fornecedores indiretos, como Felipe, que vende gado por meio de intermediários, mascarando suas origens.

Lear disse que usou “um processo de fornecimento robusto” que garantiu que funcionasse “com os fornecedores mais capazes e avançados que estão comprometidos com a compra de peles de gado criado em fazendas compatíveis”. A empresa disse que se os fornecedores violassem suas políticas, tomaria medidas que poderiam incluir o cancelamento de seus contratos “e / ou ação legal contra o fornecedor”.

A GM disse que espera que os fornecedores “cumpram as leis, regulamentos e ajam de maneira consistente com os princípios e valores” da montadora. A Ford disse que aspirava “fornecer apenas matérias-primas produzidas de maneira responsável”. A Volkswagen disse que seus fornecedores já aderiram a um alto nível de sustentabilidade.

Em Jaci-Paraná, a demanda global por couro está ajudando a sustentar um rebanho crescente de 120.000 bovinos onde a floresta existia. “Se todo o gado fosse vendido”, disse a Sra. Moser, a ex-promotora, o governo teria dinheiro suficiente “para reflorestar toda a reserva”.

Louren & ccedil; o Dur & atilde; es em sua casa nas margens do Jaci-Paran & aacute;  Rio em julho.

Lourenço Durães em sua casa às margens do rio Jaci-Paraná no mês de julho.

Chovia torrencialmente em dezembro passado quando dois homens atracaram na casa de Lourenço Durães às margens do rio Jaci-Paraná. O Sr. Durães, seringueiro de 71 anos, convidou os homens a entrar e ofereceu-lhes café. Então, após discutir o tempo por alguns minutos, um dos visitantes foi direto ao ponto.

“Não vou enganar vocês”, disse ele, segundo o Sr. Durães e um de seus amigos, que juntos descreveram o encontro recentemente. “Eu vim aqui para te matar.”

Queriam se livrar do Sr. Durães porque a terra dele vale para os fazendeiros.

Jaci-Paraná foi criada em 1996 para conceder a uma comunidade de seringueiros o direito de buscar seu sustento. O Sr. Durães está entre os últimos seringueiros. A comunidade está sendo empurrada para fora pelo desmatamento.

“Estamos com medo, mas espero justiça”, disse Durães, acrescentando que acreditava ter sido poupado naquele dia por ser um homem idoso.

Segundo o Sr. Durães e um Boletim de Ocorrência do amigo, o aspirante a pistoleiro identificou a pessoa que o enviou, mas apenas pelo apelido. A polícia não investigou, de acordo com o boletim de ocorrência, porque o Sr. Durães e seu amigo não puderam fornecer o nome completo de uma pessoa para apresentar queixa.

Em entrevista, Lucilene Pedrosa, que dirige a divisão regional da polícia, disse que sua equipe esperava que os homens dessem mais informações para que pudessem investigar.

Dados do governo analisados ​​pelo The Times mostram o apetite por terras na área. De acordo com os números, entre janeiro de 2018 e junho de 2021 fazendas operando em Jaci-Paraná em terras desmatadas ilegalmente venderam pelo menos 17,7 mil cabeças de gado para fazendas intermediárias. Os compradores eram fornecedores dos três grandes frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, segundo dados governamentais e corporativos.

A área florestal onde o Sr. Dur & atilde; es vive e extrai seringueiras.

Um caminhão madeireiro no Jaci-Paran & aacute;  reserva.

O Sr. Durães chegou em sua casa às margens do rio Jaci-Paraná.

Quase metade desse gado 17.700 foi comprado por Armando Castanheira Filho, um comerciante local que tem sido um dos maiores compradores em Jaci-Paraná e fornecedor direto para os três grandes frigoríficos. As vendas para ele criaram uma trilha de papel que ocultava que o gado era originário de fazendas ilegais.

Um repórter do Times testemunhou tal transação quando Felipe, o fazendeiro que reconheceu envolvimento no desmatamento, vendeu seus 72 bovinos este ano. O comprador naquele dia foi o Sr. Castanheira.

O Times então rastreou os animais. Onze horas depois, eles foram parar em um matadouro da Marfrig.

A Marfrig mantém um site que lista a procedência de seu gado, em um esforço para mostrar que adquire gado de forma responsável. Para a remessa de 14 de julho rastreada pelo The Times, a fazenda de Felipe não está listada no site. Mas a lista das fazendas que forneceram gado para o abate do dia seguinte inclui a fazenda do Sr. Castanheira, que fica fora da reserva.

No final daquele dia, no matadouro da Marfrig, um caminhão com o nome de um curtume, Bluamerica, saiu do matadouro carregando peles. Bluamerica é um curtume que abastece a Lear, fabricante de assentos de automóveis.

O Sr. Castanheira confirmou que parte do gado que compra da reserva vai directamente para o abate, não passando tempo na sua estância, embora a papelada indique que passaram primeiro pela sua própria quinta. Ele negou ter feito isso para esconder a origem do gado.“Não faço isso para ‘lavar’ nada”, escreveu ele em uma mensagem de texto. Ele disse que sua intenção era simplesmente lucrar com a diferença entre o que ele paga por cada animal e o que pode receber no matadouro.

Marfrig, Minerva e JBS afirmam não despachar caminhões para coleta de gado na reserva Jaci-Paraná, ou em qualquer local que não seja de seus fornecedores diretos. Os advogados da Marfrig também entraram com um relatório na polícia que relaciona os fatos descritos pelo The Times, chamando-os de “possíveis crimes de natureza criminal”.

O Sr. Castanheira agora sustenta que o repórter do Times testemunhou o único caso deste tipo de transação feita por ele. Todos os três frigoríficos disseram que agora excluíram o Sr. Castanheira de seu pool de fornecedores.

Uma estátua à beira da estrada para Ariquemes, município de Rondônia.

Odilon Caetano Felipe, à esquerda, pesou seus animais para Armando Castanheira Filho, o intermediário de gado.

A fazenda de Armando Castanheira Filho, Santo Angelo, está fora da reserva protegida. 

Dois dos proprietários do Bluamerica, empresas chamadas Viposa e Vancouros, disseram que seus fornecedores estão sujeitos a auditorias regulares e reconheceram os desafios de rastrear fornecedores indiretos. Ambas as empresas disseram estar trabalhando com o World Wide Fund for Nature, um grupo ambientalista com sede na Suíça, para melhorar seus sistemas.

No geral, uma análise dos dados do governo sobre a movimentação de gado em Jaci-Paraná e áreas próximas entre 2018 e 2021 identificou 124 transações que mostram sinais de lavagem de gado, dizem os especialistas. As transações mostram que pelo menos 5.600 cabeças de gado foram transferidas das fazendas da reserva para intermediários que, no mesmo dia, venderam gado para os três grandes frigoríficos.

Holly Gibbs, geógrafa da Universidade de Wisconsin-Madison que pesquisa o agronegócio na Amazônia há uma década, disse que, embora os intermediários legítimos muitas vezes comprem e vendam gado no mesmo dia, o fato de as transações não serem monitoradas de perto “é um enorme lacuna. ”

“Eles estão trazendo animais que foram criados em uma área protegida para as cadeias de abastecimento nacionais e internacionais”, disse ela.

A cadeia de suprimentos, da fazenda ao showroom de automóveis, é complexa. As peles dos frigoríficos Minerva e JBS vão para curtumes próprios da JBS, enquanto as peles da Marfrig são processadas principalmente pela Vancouros e Viposa, segundo dados corporativos e entrevistas. Dados comerciais compilados pela Panjiva, unidade de pesquisa de cadeia de suprimentos da S&P Global Market Intelligence, mostram que o fabricante de assentos Lear, com sede em Southfield, Michigan, é o maior comprador americano de peles da JBS, Vancouros e Viposa.

Em maio passado, fazendeiros ilegais em Jaci-Paraná conquistaram uma importante vitória. O governador de Rondônia sancionou uma medida que reduziu o tamanho da reserva em 90%.

A lei, que os promotores estão lutando na Justiça, abre caminho para que fazendeiros em terras desmatadas ilegalmente legalizem seus negócios. Os críticos da lei disseram que ela poderia abrir um precedente para mais desmatamento em outras reservas protegidas.

Independentemente do resultado dessa disputa judicial, Durães, o seringueiro, disse que não pretendia deixar seu pedaço de floresta. O pasto está agora a menos de um quilômetro de sua casa de madeira com dois cômodos.

Viver entre as poderosas árvores é a única existência que ele conhece. E ficar, disse ele, é “a única maneira de manter a floresta de pé”.
Pilhas de peles parcialmente processadas no curtume Vancouros em Londrina, Brasil.

A cada poucos segundos, no curtume Vancouros, no sul do Brasil, o som de peles de couro caindo em dezenas de tambores de madeira de 3 metros é interrompido pelos cliques de um marcador pneumático à medida que cada pele individual é perfurada com um código de sete dígitos que rastreia sua origem .

Clébio Marques, diretor comercial do curtume, arrancou um couro úmido de cor azul de uma pilha, pegou o telefone e digitou o código em um site que sua empresa criou para clientes como o Lear. Apareceram os detalhes do fornecedor daquela pele específica.

“Todo o nosso couro é rastreável”, disse ele. “Isso não é obrigatório, ninguém pediu, mas sentimos que o mercado precisava de mais transparência.”

Mas então o Sr. Marques foi apresentado com a descoberta de que um de seus fornecedores mais importantes, a Marfrig, estava comprando gado de fornecedores cujas transações apresentavam sinais de lavagem de gado. “Estou surpreso”, disse ele. “Esperamos que o produto principal seja legal.”

Ele ressaltou, porém, que o monitoramento de sua própria empresa não era o culpado. “Temos que confiar nos documentos que nos são fornecidos, porque nossa auditoria é baseada no sistema deles”, disse o Sr. Marques.

Todos os três grandes frigoríficos têm sistemas projetados para rastrear a última fazenda de onde veio o gado que abateram. No entanto, todos os três têm a mesma falha: eles não levam em consideração o fato de que o gado normalmente não passa a vida inteira em uma única fazenda. Portanto, eles não consideram que um fornecedor direto possa estar vendendo gado que na verdade foi criado por outra pessoa, em terras desmatadas ilegalmente.

Os sistemas de rastreamento foram criados após um relatório do Greenpeace de 2009 que relacionou os fornecedores brasileiros de carne e couro ao desmatamento ilegal. Hoje, as três principais empresas afirmam que têm políticas de desmatamento de tolerância zero para todos os fornecedores diretos.

Couros, destinados a curtume, em abatedouro em Porto Velho no mês de julho.
O curtume Vancouros é um dos fornecedores da Lear, mostram os dados do trade. 
Um matadouro em Porto Velho.  A China é um grande comprador da carne bovina produzida no Brasil.

Todos os três principais matadouros publicam publicamente seus dados de rastreamento online. O da JBS é o mais detalhado; as outras empresas omitem a localização precisa das fazendas. Foi a análise do Times desses dados do JBS para 2020, o ano mais recente disponível, que indicou que os fornecedores da empresa incluíam fazendas que podem ter violado regras governamentais destinadas a evitar o desmatamento e deslocamento de indígenas.

A JBS disse que todos os seus fornecedores estavam em conformidade no momento da compra. Marfrig e Minerva disseram que compartilharam tantas informações sobre seus fornecedores diretos quanto permitido pela lei de privacidade de dados do Brasil.

Como parte desse processo, os curtumes contam com uma organização financiada pelo setor, o Leather Working Group, para certificar sua conformidade. O grupo atribuiu sua classificação máxima, “ouro”, a todos os curtumes amazônicos que fornecem couro à Lear, o que significa que eles aderem a práticas ambientalmente sustentáveis.

Em nota, o grupo afirmou que está trabalhando para melhorar seus protocolos de rastreabilidade, mas que “devido à complexidade dos sistemas agrícolas no Brasil e à falta de bancos de dados disponíveis ao público, ainda não há, infelizmente, uma solução fácil para esta situação”.

JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram publicamente a melhorar o rastreamento das fazendas que vendem gado a seus fornecedores diretos. A JBS disse que rastreará uma camada de fornecedores indiretos até 2025. A Marfrig prometeu rastrear todos os seus fornecedores indiretos na Amazônia até 2025 e a Minerva disse que teria cadeias de suprimentos totalmente rastreáveis ​​na América do Sul até 2030.

“Apenas a rastreabilidade do nascimento ao abate para animais individuais será suficiente para garantir que não haja desmatamento nessas cadeias de suprimento de alto risco na Amazônia”, disse Rick Jacobsen, da Agência de Investigação Ambiental, o grupo sem fins lucrativos.

Pilhas de couro em operação da Vancouros em Londrina.

Os assentos de couro do SUV Escalade da Cadillac, descrito por um revendedor no estado de Washington como “um hotel de luxo sobre rodas”, pode elevar o preço do modelo top de linha da General Motors para mais de US $ 100.000.

O Escalade é um dos muitos veículos vendidos nos Estados Unidos que usa bancos de couro e outros enfeites da Lear, empresa que comanda cerca de um quinto do mercado mundial de bancos automotivos.

Nem a Lear, nem a GM, de onde vem o couro para os assentos do carro. As importações de couro brasileiro pela Lear aumentaram na última década, impulsionadas por um salto no couro proveniente da JBS, de acordo com dados da Panjiva, empresa de dados de cadeia de suprimentos. No ano passado, a Lear foi a maior importadora americana de couros e peles do Brasil, importando cerca de 6 mil toneladas, a maior parte da JBS, segundo dados da Panjiva.

Caminhões de grande porte e utilitários esportivos grandes são uma força crescente por trás da demanda por adereços de couro na indústria automobilística. Para muitos compradores, o couro “é sinônimo de luxo e geralmente agrega valor de revenda significativo”, disse Drew Winter, analista sênior da Wards Intelligence, uma empresa de pesquisa automotiva.

Raymond E. Scott, presidente-executivo da Lear, expôs a importância dos veículos de luxo em uma apresentação para investidores em junho. A empresa detém 45 por cento do mercado de luxo, disse ele. E o que estava impulsionando o crescimento no negócio de assentos de Lear era “realmente a força dos caminhões grandes e SUVs da GM”, uma linha que também inclui o Yukon, Chevrolet Tahoe e Suburban.

No Brasil, “100 por cento de nossos fornecedores usam geo-esgrima” (uma tecnologia que usa GPS para estabelecer uma cerca virtual) “para garantir que eles não comprem animais de fazendas envolvidas com o desmatamento”, disse Lear em um comunicado de 2018 .

No entanto, as conclusões do The Times no Brasil indicam que os fornecedores da Lear não tinham a capacidade de rastrear todo o gado dessa forma.

Lear disse que exige que todos os fornecedores cumpram uma política de não desmatamento, que proíbe o uso de qualquer material proveniente de áreas desmatadas ilegalmente ou de terras indígenas ou outras terras protegidas. De acordo com registros corporativos, os outros maiores clientes de Lear são Ford, Daimler, Volkswagen e Stellantis, formadas a partir da fusão da Fiat Chrysler com a fabricante francesa de carros Peugeot e Citroën.

Pastagens próximas a Buritis, no estado de Rond & ocirc; nia.

Curtume Vancouros em Londrina.

Um Cadillac Escalade na estreia de um filme no ano passado em Los Angeles.

Crédito…David Mcnew / EPA, via Shutterstock

A General Motors disse que sua cadeia de suprimentos foi “construída sobre relacionamentos fortes, transparentes e confiáveis”. A Ford disse que manteve a si mesma e a seus fornecedores padrões ambiciosos e “se saiu bem em muitas áreas e pode melhorar em outras”. A Volkswagen disse que está trabalhando para rastrear melhor a cadeia de suprimentos até a fazenda.

Daimler disse que uma pequena porcentagem de seu couro veio do Brasil. Stellantis disse que compartilha preocupações sobre rastreabilidade e está trabalhando ativamente para confirmar a localização de curtumes e fazendas em sua cadeia de abastecimento.

No ano passado, cerca de um terço das 15 mil toneladas de couro importadas para os Estados Unidos vieram do Brasil, que recentemente ultrapassou a Itália para se tornar o maior exportador de couro e peles para a América. Muito desse aumento pode ser atribuído à indústria automobilística.

A maior parte dos embarques de couro da JBS para a Lear nos Estados Unidos viaja de São Paulo para Houston, segundo dados comerciais da Panjiva. De lá, grande parte é transportada de caminhão pela fronteira mexicana para uma das duas dúzias de fábricas de assentos de automóveis operadas pela Lear no México, onde os trabalhadores cortam as peles e as costuram nas capas dos assentos.

O couro é então transportado de volta pela fronteira. De janeiro de 2019 a junho de 2021, as fábricas da Lear no México enviaram pelo menos 1.800 toneladas de couro para os Estados Unidos, de acordo com dados de transporte registrados pela Pesquisa de Materiais.

Seu destino final: instalações da Lear em todo o país. Eles tendem a estar localizados mais próximos das montadoras finais de automóveis, tornando mais fácil para a empresa combinar as cores e outras variações dos modelos que chegam nas linhas de montagem dos veículos.

Um desses destinos é a fábrica da General Motors em Arlington, Texas, um campus extenso em 250 acres onde a montadora produz alguns dos maiores e mais luxuosos caminhões da empresa, incluindo o Escalade. Os trabalhadores automotivos montam cerca de 1.300 SUVs por dia para venda nos Estados Unidos e também para exportação.

A 10 minutos de carro, Lear possui uma fábrica de assentos de couro.

Reportagem de Manuela Andreoni da reserva Jaci-Paraná no Brasil. Hiroko Tabuchi e Albert Sun relataram de Nova York.

Hiroko Tabuchi é uma repórter investigativa da mesa do clima. Ela fazia parte da equipe do Times que recebeu o Pulitzer de 2013 para reportagem explicativa.@HirokoTabuchiFacebook

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Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The New York Times” [Aqui!].

Floresta envenenada: latifundiários jogam agrotóxicos para acelerar desmatamento ilegal na Amazônia

Soja e pecuária foram responsáveis pelo despejo de agrotóxicos com uso de avião sobre floresta amazônica e outros biomas em área do tamanho de 30 mil campos de futebol

floresta envenenada

Por Hélen Freitas – Repórter Brasil/Agência Pública 

Para acelerar o desmatamento de grandes áreas e abrir espaço para a soja e o gado, fazendeiros estão jogando grandes quantidades de agrotóxicos de avião sobre a floresta Amazônica e outros biomas. Levantamento inédito feito pela Repórter Brasil e Agência Pública revela que, nos últimos 10 anos, cerca de 30 mil hectares de vegetação nativa foram literalmente envenenados. A área corresponde a 30 mil campos de futebol. 

Esses foram os casos que caíram na fiscalização do Ibama, que aplicou mais de R$ 72 milhões em multas de 2010 a 2020 especificamente em casos de desmatamento com pulverização aérea de agrotóxicos. Com o desmonte da fiscalização ambiental promovida pelo governo Bolsonaro, o problema tende a ser maior do que os dados apontam.

Como todos esses casos ocorreram sem autorização dos órgãos ambientais, não é possível saber se os responsáveis tiveram o cuidado de tirar os animais e as pessoas que circulavam por essas áreas enquanto o avião jogava os químicos. 

O processo lembra aquele usado pelo exército norte-americano durante a guerra no Vietnã, quando aviões americanos despejaram o agente laranja, um agrotóxico que tinha a função de “ neutralizar” a floresta, usada como refúgio do exército local. Além de matar a vegetação vietnamita, que até hoje contém resíduos desses tóxicos, o agente laranja continua fazendo vítimas. Após quase 50 anos do fim da guerra, muitas crianças no país nascem com deficiências como síndrome de Down, paralisia cerebral e desfiguração facial extrema.

Um dos agrotóxicos que faziam parte da composição do agente laranja, o 2,4-D, foi encontrado pelos fiscais na fazenda que usou veneno para destruir a maior área de floresta. O caso ocorreu em Paranatinga, no Mato Grosso, estado que lidera o ranking de envenenamento da floresta.

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Caso milionário

Em janeiro de 2018 os fiscais do Ibama começaram a notar, via satélite, as primeiras clareiras na mata de Paranatinga. A fiscalização ocorreu oito meses depois, quando o estrago já estava feito. Na ocasião, encontraram três estradas recém abertas cortando a fazenda de 37 mil hectares, um grande estoque de sementes de pastagem, um avião que realizava a pulverização aérea e os agrotóxicos glifosato e 2,4-D – que estão entre os mais vendidos no Brasil.

Laudos realizados pelo Instituto também verificaram a presença do herbicida Alacloro, classificado moderadamente tóxico pela Anvisa e do inseticida Carbossulfano, classificado como altamente tóxico. Devido aos riscos, os dois são proibidos para uso em pulverização aérea.

(Foto: pixabay)

Pelo caso, o pecuarista Edio Nogueira, dono da Agropecuário Rio da Areia, foi multado em R$ 52 milhões por jogar agrotóxicos e assim destruir 23 mil hectares – 22 mil campos de futebol – de floresta. A sua fazenda, conhecida como Cristo Rei, fica em território tradicional indígena reivindicado na Justiça pela etnia Ikpeng. O grupo foi deslocado pelos irmãos Villas Boas na época da criação do Parque Nacional do Xingu, que fica a 18km do local. 

Edio Nogueira já é conhecido pelos fiscais do Ibama. Dono de sete fazendas espalhadas pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, possui outras multas por desmatamento tanto por fogo quanto por uso de agrotóxicos – inclusive na própria fazenda Cristo Rei – somando mais de R$ 7 milhões em multas. 

Ouvida pela reportagem, Mariella Maccari, advogada que representa Nogueira na ação, confirmou que seu cliente provocou o desmatamento da área. “Por mais que ele tenha desmatado, ele tem a reserva legal dele conservada, inclusive a maioria [das suas propriedades] possui um superávit de reserva”.

No processo, porém, seus advogados negam o fato e tentam provar a inocência de Nogueira para retirar o embargo imposto à área. Um laudo apresentado por eles mostra que não foram encontrados resquícios de agrotóxicos e que a vegetação está preservada. Os advogados argumentam que o embargo está prejudicando o empreendimento, por isso deveria ser suspenso até a audiência de conciliação. Mas os negócios de Nogueira não estão parados. Com alguma frequência os gados da fazenda Cristo Rei são vendidos em leilões online.

Abertura de pastos e venda de madeira

Um ano após o ato criminoso em Paranatinga, uma área de cerca de 2 mil hectares da Floresta Amazônica também virou um campo aberto. O caso ocorreu em Juína (MT), a 745 km de Cuiabá.

Após fiscais do Ibama detectarem via satélite o desmatamento de uma grande área na cidade, fizeram uma vistoria no local e constataram a presença de resíduos de dois agrotóxicos: clorpirifós e tebuconazol, que podem ser utilizados em diversas culturas, inclusive, para a preservação de madeira. Ou seja, os venenos preservam a madeira para que seja vendida de modo ilegal. O clorpirifós foi banido nos EUA por estar associado a problemas de desenvolvimento neurológico, principalmente em crianças.

O Ibama embargou a área e aplicou uma multa de cerca de R$ 10 milhões a Edimilson Antonio Bravo, apontado pelo órgão como dono da área onde houve o desmatamento. Segundo fonte ouvida pela Repórter Brasil, Bravo é um grande empresário e fazendeiro da região, tendo como principais atividades a construção de pré-moldados e estruturas metálicas, a pecuária e a venda de madeira. A reportagem não encontrou informações oficiais sobre os seus negócios com a venda de madeira.

O advogado de Bravo é evasivo sobre as atividades de seu cliente. Por telefone, confirmou que ele é produtor agropecuário. “O tamanho, se ele é grande, médio, pequeno [produtor], se ele mexe com extração de madeira, esses detalhes eu não tenho”. Ele nega que seu cliente seja responsável pela área onde houve o envenenamento da floresta, afirmando que enviou as provas ao Ministério Público do Estado. Marcelo Linhares, promotor de justiça cível responsável pelo caso, porém, nega que as tenha recebido e diz que planeja entrar com uma ação civil pública contra o fazendeiro e enviar seu caso à promotoria criminal.

Segundo Linhares são poucas as autuações relacionadas a agrotóxicos em Juína, apesar de a pulverização aérea ser bastante comum na região.

Agrotóxico no arco do desmatamento

Essa é a primeira vez que se revela o número significativo de casos de agrotóxicos sendo usados para desmatar. Mas a relação entre o uso dessas substâncias e a destruição da floresta não é surpresa. O atlas Geografia da assimetria: o ciclo vicioso de pesticidas e colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Européia mostra o avanço das propriedades agrícolas que usam agrotóxicos na região da Amazônia Legal. As propriedades que mais usam pesticidas foram relacionadas com o avanço do desmatamento na região que é conhecida como “arco do desmatamento” na Amazônia.

A impunidade e a falta de fiscalização são motores desse avanço. Até hoje apenas 3 multas foram pagas das 14 aplicadas por desmatamento com uso de agrotóxicos. A expectativa é que a maioria nunca seja quitada. Via de regra no Ibama, quanto maior a multa, menor a chance de ser julgada e o pagamento acontecer. Um levantamento feito pela Universidade Federal do Paraná mostra que apenas 1 entre 28 multas do órgão com valor acima de R$ 1 milhão entre 2008 e 2017 foi paga.

“A expectativa é que o uso de agrotóxicos para desmatamento vai se intensificar no próximo período, porque está mais fácil, mais acessível e mais consolidado”, afirma Naiara Bittencourt, advogada do Terra de Direitos.

O estudo mostra ainda que há um vazio de fiscalização para agrotóxicos em regiões de grandes produtores, como Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. As fiscalizações também não acontecem no mesmo ritmo do avanço das fronteiras agrícolas nas regiões Norte e Nordeste e dentro dos estados mais atuantes, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde a fiscalização é altamente concentrada em municípios específicos. 

No Mato Grosso, primeiro do ranking denunciado pela reportagem e maior consumidor de agrotóxicos do Brasil, apenas 5 cidades têm bases do Instituto, além de 10 unidades de fiscalização da secretaria de meio ambiente estadual, muitas vezes comandada por suspeitos de infração ambiental.

Em 2005, a atual secretária do Meio Ambiente do Mato Grosso, Mauren Lazzaretti foi presa na Operação Curupira. Na época, ela trabalhava na antiga Fundação Estadual de Meio Ambiente. Sua prisão, revogada dias depois pela justiça, estava relacionada à investigação de crimes de corrupção envolvendo funcionários da pasta e foi considerada abusiva pela Ordem de Advogados do Brasil (OAB) no estado. Em 2016, Lazzaretti virou secretária adjunta de Licenciamento Ambiental no estado a convite do então secretário Carlos Fávaro, ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja). 

Para ela, as fiscalizações no estado são mais do que suficientes. “Eu não tenho que ter 500 pessoas, cada uma a um quilômetro para conseguir apurar uma infração. Além disso, todas as nossas autuações têm como insumo tecnológico as imagens [de satélite]”. 

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. Clique para ler a cobertura completa no site do projeto.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui! ].

Sem freios no desmatamento: DETER – 2021 registra o pior outubro da série histórica

Enquanto governo tenta passar uma maquiagem verde para inglês ver na COP 26, dados comprovam o descontrole do desmatamento na Amazônia

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 São Paulo, 12 de novembro de 2021 – Dados do sistema DETER-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, apontam para uma área desmatada na Amazônia de 877 km². Os dados contemplam todo o mês de outubro e comprovam um recorde para o mês na série histórica do Deter – B que iniciou em 2016. Ao mesmo tempo em que o Brasil tenta limpar sua imagem durante a COP de Clima, assinando declarações e assumindo compromissos, essa notícia chega para evidenciar como a Amazônia segue sob constante abandono do governo Bolsonaro.

“Enquanto o governo federal tenta vender o Brasil como potência verde na COP 26, a verdade é que o desmatamento em outubro bateu mais um recorde e vem sendo impulsionado pela política antiambiental do presidente, do ministério do meio ambiente com apoio de parte do congresso nacional. Assinar ou endossar os diferentes planos e acordos não muda a realidade do chão da floresta, o desmatamento e queimadas continuam fora de controle e a violência contra os povos indígenas e população tradicional só aumenta”, declara Rômulo Batista, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

Os alertas de desmatamento em outubro se concentraram nos estados do Pará 501 km² (57% do total), Amazonas 116 km² (13% do total) e Mato Grosso 105 km² (12% do total). Estimativas do Observatório do Clima apontam que a maior parte (46%) dos gases estufa emitidos pelo Brasil são provenientes do desmatamento. Os dados de 2020 mostram que o Brasil continua, desde 2010, a ampliar suas emissões. No ano passado, em plena pandemia, o aumento das emissões de gases de efeito estufa no Brasil foi de 9,5%; no restante do mundo, houve redução de cerca de 7%.

“Enquanto o ministro do meio ambiente passeia na COP 26, exaltando que o futuro verde já começou no Brasil, tecendo elogio ao agronegócio brasileiro, o desmatamento continua sem parar na Amazônia e em nenhum momento dessa COP o governo apresentou a verdade que é justamente essa agropecuária “verde” a responsável direta por 73% das emissões de gases do efeito estufa no país e principal motor do desmatamento na amazônia e outros biomas no Brasil ” conclui Rômulo.

Nota de apoio a Txai Suruí

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Depois de um discurso expressivo em Glasgow, com enorme repercussão mundial, Txai Suruí, 24 anos, única brasileira e indígena a falar na abertura da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, vem sofrendo ataques de extremistas imbuídos de discursos de ódio e preconceitos racistas e misóginos.

O IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, vem por meio desta nota declarar apoio absoluto a essa jovem liderança representante dos povos indígenas da Amazônia, que vem trilhando um caminho corajoso e significativo na luta pelos direitos dos povos originários.

O fato não é um caso isolado, infelizmente, e as constantes ameaças e violências contra os povos da floresta mostram a importância da atuação das instituições que trabalham integradas na região.

Txai Suruí é do povo Paiter Suruí e fundadora do Movimento da Juventude Indígena no estado. Estudante de Direito, trabalha no departamento jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

O projeto Conectando Terras Indígenas da Associação Kanindé, parceira do IPÊ por meio do projeto LIRA, contribui para a conservação de 2.694.827 hectares de floresta e o fortalecimento de cinco associações indígenas e uma extrativista para atuarem no desenvolvimento sustentável de seus territórios.

O LIRA agrega essa rede de apoio e segue na tentativa de um mundo de compreensão mútua, inclusão, reconhecimento de direitos e cuidado com as formas de vida no planeta.

Leia o discurso de Txai Suruí na abertura da COP26:

Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores.

Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo.

Uma companheira disse: vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?

Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais.

Não é 2030 ou 2050, é agora!

Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza.

Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo.

Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis.

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.

Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.

Obrigada!

Líderes da indústria do Reino Unido se unem para cortar das cadeias de abastecimento a soja ligada ao desmatamento e à conversão até 2025

  • Marcas líderes, incluindo Tesco, Nestlé Reino Unido e Irlanda, Sainsbury’s, Nando’s, KFC Reino Unido e Irlanda, Morrisons e McDonald’s Reino Unido e Irlanda, assinaram o Manifesto de Soja do Reino Unido
  • Compromisso significa que os signatários do Reino Unido se comprometem a comprar soja livre de desmatamento, protegendo florestas e valiosa vegetação nativa
  • Os signatários representam cerca de 60% de toda a soja comprada no Reino Unido a cada ano

Veterinarian giving granules to piglets

Hoje (9 de novembro de 2021), líderes da indústria do Reino Unido de 27 grandes empresas – todos os maiores varejistas de alimentos do Reino Unido (incluindo Tesco, Asda, Sainsbury’s, Waitrose, Marks & Spencer e Islândia), alguns dos maiores produtores de carne (incluindo Avara Foods, 2 Sisters Food Group, Cranswick, Pilgrim’s UK) e empresas e marcas de serviços alimentícios (como Danone UK e Irlanda, Nestlé UK e Irlanda, Nando’s, KFC UK e Irlanda e McDonald’s UK e Irlanda) uniram-se para assinar o Manifesto da Soja do Reino Unido. Isso os compromete a cortar o desmatamento e a destruição ambiental das cadeias de suprimento de soja do Reino Unido o mais rápido possível e até 2025, o mais tardar.

A fim de garantir um progresso rápido em direção a este objetivo, todos os signatários concordam em:
1. Estabelecer um compromisso robusto de desmatamento e livre de conversão – de modo que nenhuma soja que chegue ao Reino Unido seja responsável pelo desmatamento ambiental para a agricultura após janeiro de 2020

2. Pedir aos fornecedores diretos que adotem o mesmo compromisso – e exigir que os seus fornecedores também

3. Escrever os compromissos do Manifesto em contratos e apoiar os fornecedores para garantir que as metas sejam cumpridas

4. Compartilhar publicamente os detalhes de seu progresso

5. Apoiar relatórios aprimorados, a fim de verificar se a soja que chega ao Reino Unido não é responsável pelo desmatamento ou destruição de outros ecossistemas.

Os signatários incluem 27 marcas, varejistas, empresas de serviços de alimentação e produtores de gado que operam no Reino Unido, representando quase 2 milhões de toneladas de compras de soja a cada ano e mais da metade (quase 60%) do consumo total do Reino Unido.

A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja, palma, carne bovina e madeira – é um dos principais contribuintes para as mudanças climáticas, além de impulsionar a perda de biodiversidade. Quase um quarto (23%) das emissões globais de gases de efeito estufa causadas pelo homem vêm da agricultura, silvicultura e outros usos da terra, e a maioria dessas emissões se deve ao desmatamento . Não precisa ser assim: commodities agrícolas e florestais podem ser cultivadas sem destruir ainda mais a vegetação nativa.

O consumo de soja do Reino Unido – 3,5 milhões de toneladas em 2020 – embora pequeno em termos globais, está contribuindo para a pressão sobre paisagens biodiversas como o Cerrado, a Mata Atlântica, o Gran Chaco e a Chiquitânia na América do Sul. O consumo de soja no Reino Unido em 2017 levou a um desmatamento estimado em 3.081 hectares, uma área duas vezes maior que a cidade de Londres. A soja é um dos principais contribuintes para o desmatamento e a pegada de conversão do Reino Unido hoje. A maior parte dessa soja é usada na forma de ração animal.

A indústria do Reino Unido já começou a tomar medidas para proteger as florestas e outros ecossistemas naturais, melhorando a transparência e o compartilhamento de informações em todas as cadeias de abastecimento de soja do Reino Unido e aumentando o uso de certificação para apoiar a produção de soja sustentável na América do Sul. Mas há um reconhecimento compartilhado da necessidade de tomar ações mais ambiciosas, mais rápidas e em grande escala. A transformação em escala não pode ser alcançada por empresas que trabalham apenas em suas cadeias de suprimentos individuais. As empresas em todas as cadeias de abastecimento, assim como os produtores de soja, devem assumir a responsabilidade e agir em conjunto.

Os mercados globais precisam fornecer incentivos financeiros e suporte técnico para impulsionar a produção sustentável. Os governos em países e regiões produtores e consumidores também têm um papel importante a desempenhar.

A indústria do Reino Unido dá as boas-vindas aos compromissos anunciados na COP 26 pelos governos produtores e consumidores de promover o desenvolvimento sustentável e o comércio, protegendo as florestas e outros ecossistemas críticos, por meio da Declaração dos Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra e a declaração conjunta e roteiro de ação do Diálogo sobre Florestas, Agricultura e Comércio de Commodities (FATO ).

O Manifesto da Soja do Reino Unido se alinha e se baseia em iniciativas semelhantes em outros mercados, como o Manifesto da Soja da França, para mostrar a crescente demanda e planos de ação da indústria para remover todo o desmatamento e destruição do ecossistema das cadeias de abastecimento da soja.

O CEO da Tesco, Ken Murphy, e a CEO do WWF-UK Tanya Steele, falarão no lançamento virtual formal do Manifesto de Soja do Reino Unido hoje, terça-feira, 9 de novembro, onde se juntarão a eles signatários, representantes da indústria e especialistas.

Ken Murphy, CEO da Tesco disse:

“A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja – é um grande contribuinte para as mudanças climáticas, além de levar à perda de biodiversidade. A soja é a commodity de risco florestal de maior impacto da cadeia de suprimentos da Tesco. É por isso que já assumimos o compromisso de que até 2025 só compraremos soja de áreas inteiras verificadas como livres de desmatamento. Mas não podemos resolver esse problema por conta própria.

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é um marco crítico para a nossa indústria, reunindo marcas, varejistas, empresas de serviços alimentícios e produtores de gado que operam no Reino Unido e estabelecendo um compromisso claro para que todos os embarques físicos de soja para o Reino Unido sejam livres de desmatamento e conversão até 2025. “

Tanya Steele, Executiva Chefe do WWF, disse:

“Devemos acabar com o desmatamento e a destruição ambiental resultante da produção de soja com urgência se quisermos ter qualquer chance de limitar o aquecimento global a 1,5 ° C e reverter a perda da natureza. A indústria agora precisa intensificar sua ação e ambição para combater a devastação dos ecossistemas. O Manifesto da Soja do Reino Unido apresenta a chance de uma mudança real e todos os usuários de soja devem se comprometer com isso. Não esqueceremos aqueles que falharam em proteger nosso planeta. “

Marija Rompani, Diretora de Ética e Sustentabilidade, John Lewis Partnership disse:

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é uma conquista verdadeiramente histórica e uma clara declaração de intenções em toda a indústria do Reino Unido que a Waitrose tem o orgulho de apoiar. Proteger a natureza em regiões onde os produtos agrícolas são cultivados é fundamental se quisermos deter as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Mas a escala do desafio e da complexidade das cadeias globais de abastecimento da soja está além do que qualquer empresa sozinha pode resolver. Agindo em conjunto, as empresas no Reino Unido e mais amplamente podem atingir a massa crítica necessária para ajudar a transformar a maneira como a soja é cultivada e comercializada e permitir o fornecimento em escala de soja sem desmatamento.

Juntamente com outras iniciativas nacionais, legislação de due diligence e os compromissos sobre florestas anunciados por governos nacionais, o setor financeiro e traders de commodities agrícolas na COP26, temos esperança de que isso criará um verdadeiro ponto de virada para a natureza em ecossistemas preciosos como o Cerrado. Esperamos desempenhar um papel ativo na implementação do Manifesto da Soja do Reino Unido e cumprir sua meta de desmatamento e soja livre de conversão antes de 2025 “.

Paula MacKenzie, Diretora Administrativa, KFC UK&I disse:

“Temos que lidar com o desmatamento. É nossa responsabilidade gerenciar nossa cadeia de suprimentos, mas com a complexidade de distribuição e escala, será necessário mais do que apenas nossa influência para fazer a transição para a soja sustentável. É necessária a ação coletiva de toda a indústria alimentícia. É por isso que temos orgulho de ser signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido e de colaborar para fazer um progresso real em conter e reverter o desmatamento. “

Paul Willgoss, Diretor de Tecnologia da Marks & Spencer Food, disse:

“A indústria global de alimentos se tornou excessivamente dependente da soja rica em proteínas e isso continua a impactar negativamente a natureza em lugares como a Amazônia brasileira. Na M&S, nossa prioridade é eliminar o desmatamento da produção de nossos produtos e nos comprometemos com 100% de nossa soja ser livre de conversão e proveniente de regiões verificadas livres de desmatamento até 2025.

“Queremos fazer nossa parte no apoio a uma ampla transição da indústria para um modelo mais sustentável de produção de soja que proteja a saúde de nosso planeta e esperamos trabalhar em estreita colaboração com outros signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido para alcançar isso.”

Hannah Cornick, Chefe de Sustentabilidade e Inovação Social da Danone Reino Unido e Irlanda, disse:

“Acabar com o desmatamento impulsionado por commodities é vital para enfrentar a crise climática e preservar a biodiversidade, bem como proteger as comunidades em todo o mundo. Na Danone, temos o compromisso de garantir que toda a soja que compramos seja totalmente rastreável e não venha de zonas com risco de desmatamento. Nossos esforços para combater o desmatamento foram reconhecidos pelo CDP com uma classificação AAA.

A colaboração é essencial para impulsionar a ação necessária em todo o setor – e é por isso que compromissos coletivos como o anúncio de hoje são tão importantes. Relatórios abertos e transparentes também são essenciais à medida que continuamos a nos esforçar para ir mais longe e fazer mais pelas pessoas e pelo planeta. “

James McCulloch, chefe de alimentação da Agricultural Industries Confederation (AIC), disse:

“A Agricultural Industries Confederation (AIC), como representante da cadeia de fornecimento de ração animal do Reino Unido, apóia o Manifesto de Soja do Reino Unido em seu objetivo de promover uma transição para a produção e consumo sustentável de soja.

A cadeia de suprimentos de ração animal continuará desempenhando seu papel, ajudando a cumprir os objetivos do Manifesto. Continuamos convencidos de que a colaboração entre o mercado, o governo e outras partes interessadas pode garantir a proteção das florestas que são um recurso global vital. “

O governo do Reino Unido disse:

“O governo do Reino Unido dá as boas-vindas ao papel de liderança que as empresas britânicas estão assumindo para conduzir a transição para cadeias de abastecimento de soja sem desmatamento por meio do Manifesto de Soja do Reino Unido. Iniciativas como o manifesto podem complementar os esforços do governo para cumprir nossos objetivos climáticos e ambientais. “

Até o momento (9 de novembro de 2021), a lista completa de signatários do Manifesto do Reino Unido inclui:

• Sisters Food Group

• ABP UK

• Aldi GB

• Asda

• Avara Foods

• Co-op

• Cranswick Plc

• Danish Crown

• Danone UK and Ireland

• Dunbia

• Greencore Group Plc

• Hilton Food Group Plc

• Iceland Foods Ltd

• Kepak Group

• KFC UK & Ireland

• Lidl GB

• Marks and Spencer

• McDonald’s UK & Ireland

• Wm Morrison Supermarkets Plc

• Nando’s UK & Ireland

• Nestlé UK and Ireland

• Ocado

• Oscar Mayer

• Pilgrim’s UK

• Sainsburys

• Tesco Stores Ltd

• Waitrose & Partners

Para saber mais sobre a ação existente da indústria do Reino Unido sobre soja sustentável, visite:

     

Em meio à COP 26, representantes do Parlamento Europeu reúnem brasileiros para debater desmatamento na Amazônia

Evento totalmente online contará com a pesquisadora Brenda Brito, do Imazon, organização que integra a campanha Seja Legal, contra o roubo de terras públicas na região

parlamento

Enquanto na COP 26 em Glasgow, na Escócia, líderes mundiais discutem caminhos e se comprometem com metas para mitigar as mudanças climáticas, representantes do Parlamento Europeu, por meio da Comissão de Direitos da Mulher e de Igualdade de Gênero e da Comissão de Meio Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar, realizarão um encontro online no dia 9 de novembro para debater meios de manutenção da floresta amazônica brasileira em pé e proteção de sua população e povos tradicionais.

O evento “Enfrentando o desmatamento na Amazônia brasileira: um direito à terra e a perspectiva das mulheres” será totalmente online e mediado por Alessandra Moretti, membro do Parlamento Europeu. Na mesa de debate, representantes de organizações e iniciativas brasileiras falarão sobre desafios e oportunidades e também como a comunidade internacional pode atuar na defesa do patrimônio ambiental brasileiro.

O encontro online é uma iniciativa da organização italiana No Peace Without Justice em parceria com a campanha Seja Legal com a Amazônia, que une entidades do setor privado, do agronegócio e do terceiro setor no combate à grilagem de terras públicas.

A pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, vai falar sobre regularização fundiária e sua relação com a grilagem de terras públicas e o desmatamento na região. Além dela, também participarão Daniel Lopes (Instituto Maira), Puyr Tembé (APIB), Paulo Celso de Oliveira e Gersem dos Santos Luciano (Fundo Brasil), Telma Taurepang (UMIAB) e de Eleonora Evi, membro do Parlamento Europeu.

Entre os dados que serão abordados pelo Imazon, organização signatária da Seja Legal, estão os principais resultados de um estudo sobre as leis e práticas fundiárias nos nove estados da Amazônia brasileira. A estimativa do levantamento lançado neste ano, é de que 29% da região amazônica carece de definição de posse da terra e de que 40% do desmatamento entre 2013 e 2020 ocorreu nessas áreas sem definição.

São os alarmantes dados do relatório “Dez fatos essenciais sobre regularização fundiária na Amazônia“, que mostram que as leis de terras nos estados amazônicos encorajam a invasão e desmatamento contínuos de terras públicas. Isso porque, embora 43% da área sem definição fundiária na Amazônia tenha prioridade para conservação, os procedimentos atuais não garantem a designação de posse de terra para atender esse propósito. Encontrar e colocar em prática as soluções para proteger a maior floresta tropical do planeta está no centro do debate mundial.

SERVIÇO

O que: Evento online “Enfrentando o desmatamento na Amazônia brasileira: um direito à terra e a perspectiva das mulheres”.

Quando: Dia 9 de novembro, às 13h30 (horário de Brasília).

Onde: Facebook | YouTube

Inscrições: Após a inscrição, o link de acesso será enviado por e-mail