Fogo na Amazônia: Junho registra maior número de focos de calor dos últimos 14 anos

Registro ocorre na semana em que o governo anuncia o mesmo plano de combate a desmatamento e queimadas que fracassou nos últimos dois anos

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Manaus, 01 de julho de 2021 – Dados divulgados nesta manhã, pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), apontam que o mês de junho registrou o maior número de focos de calor na Amazônia desde 2007, na comparação com o mesmo mês dos anos anteriores. Os satélites mostram que foram 2.308 focos de calor, o que representa um aumento de 2,6% em relação a junho de 2020, quando já havia sido batido o recorde histórico.

Esse novo aumento vem na mesma semana em que o governo federal decide manter o mesmo plano que fracassou de maneira incontestável nos últimos dois anos: uma moratória do fogo e o envio de forças armadas, por meio do decreto de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem), para combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

“Infelizmente, esse recorde no mês de junho não é uma surpresa, considerando a continuidade da política antiambiental e a insistência na utilização de uma ferramenta cara como o envio de tropas militares, que se mostrou ineficiente nos últimos dois anos. Na verdade é mais uma estratégia para inglês ver, pois, além de ser por um período mais curto do que nos anos anteriores, o próprio decreto já avisa os desmatadores e grileiros onde irão fiscalizar nesse período”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Enquanto isso, sinalizações vindas de Brasília estimulam fortemente novos desmatamentos e invasões em terras públicas. Exemplo disso são os Projetos de Lei 2633 e 510 que tramitam no Congresso e que visam flexibilizar os critérios da regularização fundiária, anistiando grileiros e estimulando novos desmatamentos. Outro exemplo são as propostas que visam abrir terras indígenas para atividades predatórias, como o PL 490.

Para os próximos meses, o cenário dificilmente será diferente do que vimos nos últimos dois anos. Com números altos de queimadas ainda no começo do verão amazônico, meses onde há uma diminuição natural das chuvas na Amazônia, esses números tendem a subir ainda mais.

Estamos vivendo uma emergência climática e a queima de florestas e outras vegetações nativas é a principal fonte brasileira de emissão de gases de efeito estufa que agravam ainda mais essa crise. Outro reflexo dos desmatamentos e queimadas que todos já estamos sentindo é a alteração do regime de chuvas. Os reservatórios para geração de energia e até mesmo para captação de água para consumo humano encontram-se em níveis historicamente baixos, causando risco de racionamento e aumento na conta de energia e no preço dos alimentos por perda de produção.

“Estamos vivendo um momento muito triste para a floresta e seus povos. Eles estão sendo atacados por todos os lados, seja pelos desmatadores, grileiros, madeireiros e garimpeiros que avançam sobre a floresta ou territórios, seja por meio do Congresso e do Poder Executivo que, não só não combatem esses crimes e danos ambientais, como os estimulam, seja por atos ou omissões”, conclui Rômulo.

Assessoria de imprensa do Greenpeace Brasil

Desmatamento e seca se somam em nova temporada de fogo na Amazônia

Há quase 5 mil quilômetros quadrados de área, quase quatro vezes o município de São Paulo, com vegetação derrubada e seca só esperando alguém chegar com o fogo.

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A estação seca de 2021 na Amazônia traz uma sobreposição de fatores que podem levar a um aumento na incidência do fogo. Uma nova análise feita por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woodwell Climate Research Center mostra que a soma de áreas desmatadas e ainda não queimadas desde 2019 mais uma seca intensa provocada pelo fenômeno La Niña exigem atenção especial neste ano, especialmente na porção sul da região.

Há quase 5 mil quilômetros quadrados de área, quase quatro vezes o município de São Paulo, com vegetação derrubada e seca só esperando alguém chegar com o fogo. A queimada, nesse caso, é a última etapa do desmatamento, a forma mais barata e rápida de limpar o terreno para seu uso posterior. Mais de um terço dessa área está concentrado em dez municípios no Amazonas, Mato Grosso, Pará e Rondônia.

“Saber que existe essa quantidade de combustível esperando para queimar já seria suficiente para determinar ações em campo que coíbam a prática”, afirma o pesquisador sênior do IPAM Paulo Moutinho. Nesta semana, o governo publicou uma nova moratória de fogo em todo o país. Mesma atitude foi tomada no ano passado, mas com zero efeito prático: houve 15% mais focos na Amazônia em 2020 do que em 2019, segundo dados do INPE. “Se não há atuação forte de controle do desmatamento e do fósforo em campo, a tendência é que a moratória fique no papel.”

Uma queimada de áreas recém-derrubadas pode facilmente escapar para florestas vizinhas, transformando-se em incêndio florestal. Isso é especialmente verdadeiro em anos mais secos do que o normal. O fenômeno La Niña, o resfriamento de águas superficiais do Pacífico, costuma intensificar a seca em algumas regiões na Amazônia, aumentando o risco. “Os efeitos de La Niña não são tão intensos e abrangentes quanto os de El Niño, quando historicamente acontecem os grandes picos de fogo na Amazônia. Mas é um momento de alerta”, explica Moutinho.

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Municípios no sul e no centro da Amazônia apresentam risco extremamente alto, particularmente o noroeste de Mato Grosso, a maior parte de Rondônia, o leste do Acre e um longo trecho da rodovia Transamazônica, entre o Pará e outros estados mais a sul. Os dez municípios que experimentam condições secas ou de extrema seca têm 283 km2 de áreas desmatadas e não queimadas. Esses municípios também possuem grandes trechos de florestas remanescentes que podem ser atingidas por incêndios sem controle.

Entre os municípios com mais combustível pronto para queimar, somente um, Lábrea (AM), também está na rota da seca mais intensa em 2021. Ele também faz parte da lista de 26 municípios que receberão as Forças Armadas neste ano, determinado em nova GLO (Garantia de Lei e Ordem) – mas nenhum dos outros nove mais secos do ano estão na mira do governo como prioridade. “É preciso combater a queimada toda a Amazônia, assim como o desmatamento, que é a origem de um terço do fogo que vimos nos últimos dois anos na região. Vamos lembrar que toda queimada na Amazônia começa com o homem; é essa ação que devemos controlar”, diz o pesquisador.

O diretor-executivo do IPAM, André Guimarães, lembra que análises desse tipo ajudam na melhor gestão de recursos, financeiros e humanos, na hora de enviar equipes de fiscalização para o campo. “A nova GLO, por exemplo, determina 26 municípios prioritários em cima dos dados do passado, em vez de incorporar tendências do presente”, diz. “Boa ciência deveria ser a base para a tomada de decisão, e hoje existem meios para que isso aconteça.”

Desmatamento: sob pressão de investidores e consumidores, Tereza Cristina defende nova lei para rastrear fornecedores de gado

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Com investidores e clientes internacionais cada vez mais críticos quanto ao impacto da produção agropecuária brasileira sobre o meio ambiente, a ministra da agricultura, Tereza Cristina, defendeu ontem (21/6) um novo marco legal para ajudar os grandes traders e frigoríficos do país a rastrear fornecedores indiretos de gado. “Precisamos de um sistema que seja eficaz e traga a segurança que o consumidor precisa”, disse Tereza Cristina em conversa com correspondentes estrangeiros em Brasília. Segundo a ministra, o sistema atual de monitoramento é insuficiente para lidar com a complexidade da pecuária brasileira; por exemplo, apenas 2 mil propriedades são monitoradas dentro do universo de 5 milhões de propriedades rurais no país. G1 e Reuters repercutiram essa notícia.

A questão do rastreamento de fornecedores indiretos de gado é um dos pontos fracos da indústria brasileira de carne bovina. A partir de esquemas fraudulentos como a “lavagem de gado”, produtores irregulares contaminam a cadeia de fornecimento com gado criado em áreas com ilegalidade ambiental, que são repassados para fazendas regulares antes de serem vendidos para os frigoríficos.

Em tempo: Falando em ilegalidades do agronegócio, Cleide Carvalho contou n’O Globo como ruralistas e o governo federal criaram uma nova frente de desmatamento no sul do Amazonas a partir do projeto de um “polo” agropecuário. A partir de 2019, quando a iniciativa foi lançada, essa região despontou entre as principais afetadas pelo desmate e pela sanha dos grileiros na Amazônia. Ao mesmo tempo, a região também tem se destacado nos últimos anos pela ocorrência de conflitos agrários com seringueiros, extrativistas e pequenos agricultores, ameaçados pela presença de criminosos na região.

Leia mais sobre carne de desmatamento soja de desmatamento no ClimaInfo aqui.

ClimaInfo, 22 de junho de 2021.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Relatório de 2020 do Mapbiomas mostra avanço acelerado do desmatamento na Amazônia

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As imagens da floresta amazônica sob ataque do garimpo ilegal do ouro são uma pequena amostra dos efeitos da paralisação dos instrumentos de controle ambiental pelo governo Bolsonaro

O projeto Mapbiomas lançou hoje o seu relatório anual sobre o desmatamento nos diferentes florestais brasileiros relativo ao ano de 2020, e os resultados apresentados demonstram o avanço da perda da cobertura florestal como via de regra, ainda que as maiores perdas tenham ocorrido na Amazônia e no Cerrado (ver gráfico abaixo).

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No tocante à distribuição do desmatamento na Amazônia, os estados responsáveis pelas maiores taxas continuam sendo aqueles que compõe o chamado “Arco do Desmatamento”, com uma liderança clara do Pará cuja taxa de desmatamento chegou a dramáticos  24.49%, sendo seguido pelo Mato Grosso (12,86%), Maranhão  (12,08%) e Rondônia (10,05%) (ver figura abaixo).

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Um dos detalhes mais significativos do avanço do desmatamento nos biomas brasileiros é que a velocidade da perda diária florestas chegou a igualmente dramáticos 3.209 hectares. Se considerarmos que o Mapbiomas está se referindo apenas a corte raso da floresta (i.e., desmatamento),  há ainda que se levar em conta que a alteração dos biomas é ainda mais grave, na medida em que também deve estar ocorrendo, de forma também acelerada, o processo de degradação de florestal cujos efeitos sobre serviços ambientais e perda da biodiversidade são igualmente significativos.

A gravidade dos números verificados para Mapbiomas para 2020 é ainda maior quando se verifica que nos primeiros meses de 2021, quando historicamente ocorre uma desaceleração da mudança na cobertura florestal da Amazônia, os valores encontrados estão os maiores da última década e em aceleração. Com isso, o que teremos em 2021 não será apenas ainda mais desmatamento e degradação via atividades como garimpo e extração seletiva de madeira, e, obviamente, um aumento no número de incêndios florestais (que também são uma forma particularmente eficiente de degradação florestal).

Curiosamente, as consequências econômicas desta destruição em larga escala da biodiversidade e dos serviços ambientais fornecidos pelos biomas amazônicos e do Cerrado já estão sendo medidas e os números são tão devastadores quanto os associados ao desmatamento e à degradação florestal. O problema é que neste momento a dinâmica imposta pelo governo Bolsonaro é de paralisar toda a estrutura de comando e controle em nome de uma forma tosca de geração de receita.

Quem desejar baixar o relatório de 2020 do Mapbiomas, basta clicar [Aqui!].

O que fazer com Jair Bolsonaro, o negacionista climático mais perigoso do mundo, pergunta a Rolling Stone

Qualquer esperança de alcançar as metas climáticas globais depende de conter o desmatamento no Brasil. Mas qualquer esperança de conter o desmatamento depende de Bolsonaro

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Em seus dois anos como presidente, Bolsonaro presidiu a destruição de cerca de 16.000 km2 da floresta tropical brasileira, um dos ecossistemas mais preciosos do planeta. Andre Penner / AP

Por Jeff Goodell para a revista “Rolling Stone”

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Não há (ainda) prisão para criminosos climáticos, mas se houvesse, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro teria uma cela infestada de aranha só para ele. Agora que Trump se foi, Bolsonaro – também conhecido como “O Trunfo dos Trópicos” ou “Capitão Serra Elétrica” – é o negador climático mais perigoso do mundo. Em seus dois anos como presidente, Bolsonaro presidiu a destruição de cerca de 10.000 milhas quadradas da floresta tropical brasileira , um dos ecossistemas mais preciosos do planeta. E como Trump, Bolsonaro se orgulha de seus esforços para foder o planeta. Se as pessoas estivessem tão preocupadas com as mudanças climáticas, ele sugeriu uma vez, eles poderiam comer menos e “fazer cocô todos os dias” para salvar a Terra. Quando o Papa Francisco convocou a “mentalidade cega e destrutiva” por trás da destruição da floresta tropical, Bolsonaro respondeu dizendo aos jornalistas: “O Brasil é a virgem que todo pervertido estrangeiro deseja colocar em suas mãos”.

Se a crise climática não fosse tão urgente, o Bolsonaro seria um problema apenas para o Brasil e seus vizinhos. Mas o Brasil é um jogador-chave no esforço para eliminar a poluição global de carbono. As florestas tropicais absorvem cerca de 10% das emissões de CO2. Com cada milha quadrada de floresta tropical cortada, a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 C torna-se cada vez mais inatingível. “Se não podemos fazer algo sobre o desmatamento no Brasil, então a meta de 1,5 C provavelmente está fora de alcance”, diz Jake Schmidt, diretor estratégico sênior para o clima do Conselho de Defesa de Recursos Naturais.

Na cúpula do clima de Joe Biden em abril, Bolsonaro fez um bom jogo, comprometendo-se a acabar com o desmatamento ilegal até 2030. Ele também adiou a data para se tornar neutro em carbono de 2060 para 2050 e prometeu dobrar o orçamento para fazer cumprir as proteções da floresta. Mas, de acordo com várias fontes e relatos publicados, o ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, deixou o acordo mais explícito nas negociações de bastidores com os EUA e outros países: Pague-nos US $ 1 bilhão e vamos reduzir o desmatamento em 40% por um ano.

“É extorsão”, argumenta Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório Brasileiro do Clima, aliança de 63 organizações da sociedade civil. “Bolsonaro e sua equipe estão dizendo: ‘Se você não nos der o dinheiro, não sabemos o que acontecerá com a Amazônia.’ Todo mundo sabe que Bolsonaro não está interessado no clima. Ele só está interessado em usar o clima para extorquir dinheiro para usar para si e para seus amigos. ”

A floresta amazônica existe há 55 milhões de anos e é uma das regiões mais complexas biologicamente do mundo, abrigando um décimo de todas as espécies de plantas e animais vivas. Toda a bacia amazônica inclui oito países sul-americanos, mas o Brasil detém cerca de dois terços dela.

Globalmente, cerca de 480.000 km2 de florestas tropicais foram perdidas entre 2013 e 2019 – isso é o equivalente a derrubar mais de cinco Manhattans todos os dias durante sete anos. Cerca de um quarto dessa destruição aconteceu no Brasil, e foi quase inteiramente impulsionado pela agricultura comercial, que no Brasil é principalmente gado e plantações de soja.

Mas chamá-la de “agricultura comercial” é um exagero. No Brasil, quase todo esse desmatamento acontece ilegalmente, por colonos com motosserras e tratores que apenas desmatam, vendem a madeira e passam a criar gado ou soja. Como afirma Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, instituto brasileiro de pesquisas que promove o desenvolvimento sustentável, “O desmatamento não tem relação com o crescimento econômico. É apenas crime organizado. ”

E é um crime com implicações cada vez mais terríveis não só para os brasileiros, mas para todo o planeta. Por um lado, as florestas tropicais, com sua biodiversidade impressionante, são um provável berço de novos patógenos perigosos. Cortar as florestas tropicais é uma boa maneira de liberar esses patógenos e, talvez, desencadear uma nova pandemia.

Por outro lado, o desmatamento desenfreado corre o risco de transformar a floresta tropical de um sumidouro de carbono em uma fonte de carbono (conforme as árvores crescem, elas absorvem CO2 e armazenam carbono; quando morrem, esse carbono armazenado é liberado). Também pode desencadear um colapso maior de todo o ecossistema da floresta tropical. As florestas tropicais criam seus próprios sistemas climáticos, incluindo a precipitação. À medida que o tamanho da floresta tropical diminui, ela prolonga a estação seca da floresta, provocando um aquecimento e secagem ainda maiores, matando árvores na floresta próxima ainda intacta e, eventualmente, fazendo com que todo o ecossistema passe da floresta tropical para a savana. Tal colapso alteraria drasticamente os padrões climáticos em todo o hemisfério sul e aceleraria o caos climático de maneiras que mesmo os ativistas climáticos mais condenados prefeririam não imaginar.

O ponto crítico para tal colapso na Amazônia é entre 20 e 25 por cento do desmatamento, de acordo com um estudo. No momento, 15 a 17 por cento da floresta já foi derrubada. “Se você exceder o limite”, disse Carlos Nobre, um especialista brasileiro em clima e florestas tropicais, “50 a 60 por cento da floresta poderia ser extirpada em três a cinco décadas”.

O desmatamento em grande escala começou no Brasil na década de 1970 com políticas governamentais que encorajaram o assentamento e continuou desimpedido pelos próximos 20 anos. Entre 1978 e 2001, a quantidade de terras desmatadas quadruplicou. No geral, a população da Amazônia aumentou de 2,9 milhões em 1960 para 25,5 milhões em 2010. A extração de madeira também prosperou, à medida que a demanda por mogno e outras madeiras nobres na Ásia e na Europa disparou na década de 1990.

Em 2000, os danos do desmatamento estavam causando protestos entre os ativistas, e as autoridades brasileiras entraram em ação. Parques nacionais e reservas indígenas foram criados, e essas proteções foram rigorosamente aplicadas com um serviço florestal robusto e orçamento. Entre 2002 e 2016, a taxa de desmatamento caiu drasticamente. “Estávamos controlando tudo”, diz Astrini. Em seu pico, o Brasil provavelmente reduziu as emissões em mais de 1,3 gigatoneladas de CO2 por ano. Em comparação, em seu melhor ano, os EUA, o Japão e a UE juntos reduziram as emissões em menos de um quarto disso.

Mas quando Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, esse progresso terminou. Sua coalizão vencedora de nacionalistas de direita e centristas pró-desenvolvimento não deu a mínima para a mudança climática. Ele imediatamente cortou orçamentos para monitoramento e fiscalização na Amazônia. “Bolsonaro disse basicamente: ‘Estamos abertos para negócios’”, diz Schmidt do NRDC. “’Se vocês querem desmatar, não vamos fazer qualquer fiscalização sobre isso.’ ”

Menos de um ano após a posse de Bolsonaro, a Amazônia explodiu em chamas. Mais de 3.500 milhas quadradas da floresta tropical queimadas, escurecendo os céus em São Paulo e chamando a atenção internacional para a destruição da floresta tropical sob a supervisão de Bolsonaro. Bolsonaro culpou as ONGs, que estavam tentando “trazer problemas para o Brasil”. O presidente francês Emmanuel Macron chamou as políticas de desmatamento de Bolsonaro de “ecocídio” e tuitou: “Nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. ”

Bolsonaro não se arrependeu, dizendo a Macron e a todos os outros que se esquivassem: “A Amazônia é nossa, não sua”.

Presidente do Brasil Jair Bolsonaro fala durante o lançamento do Programa "Adote 1 Parque", no Palácio do Planalto, em Brasília, em 9 de fevereiro de 2021. - O programa visa a contribuição de empresas privadas para a manutenção de parques nacionais de preservação ambiental.  (Foto de EVARISTO SA / AFP) (Foto de EVARISTO SA / AFP via Getty Images)

Depois de assumir o cargo, Bolsonaro cortou orçamentos para monitorar a fiscalização da preservação na Amazônia.. Evaristo Sa / AFP / Getty Images

Agora, com tanto em jogo na próxima reunião da COP26, ou seja, as negociações sobre mudança climática da ONU programadas para novembro deste ano, a questão é o que fazer com as demandas de extorsão da floresta tropical de Bolsonaro. Qualquer esperança de atingir a meta de 1,5 C depende de frear drasticamente o desmatamento no Brasil. Mas qualquer esperança de frear drasticamente o desmatamento depende da ação de Bolsonaro. E por ser bandido, a única maneira de fazer isso é pagando-lhe (ou, se preferir, pagando à nação do Brasil, o que dá no mesmo).

Esta não é uma ideia nova. O Fundo Verde para o Clima, por exemplo, que as nações ricas do mundo prometeram financiar a um nível de US $ 100 bilhões por ano, é expressamente projetado para pagar às nações mais pobres para que façam coisas que evitarão as emissões de CO2. O Fundo Amazônia, que nações desenvolvidas criaram para salvar a floresta tropical, gastou mais de US $ 500 milhões em projetos para prevenir e combater o desmatamento (a Noruega foi o maior contribuinte até cortar o financiamento em resposta à política de corte e queima de Bolsonaro). Na campanha eleitoral no ano passado, Biden chegou ao ponto de prometer que mobilizaria as nações para pagar ao Brasil US $ 20 bilhões para impedir que o país sul-americano destruísse a floresta tropical.

Do ponto de vista do Bolsonaro, o problema é que todo esse dinheiro vem com restrições. Requer supervisão, envolvimento do cidadão, transparência na contabilidade. Bolsonaro quer usá-lo para o que quiser, diz Astrini, “incluindo pagar seus amigos e apoiadores”.

Portanto, este é o dilema agora. Biden e os líderes da UE estão fazendo um grande esforço em direção à COP26, na esperança de demonstrar que o fantasma de Trump se foi e que o mundo está finalmente levando a sério a crise climática. Será impossível fazer isso se o Brasil não estiver a bordo – e Bolsonaro, é claro, sabe disso, o que lhe dá muita margem de manobra nas negociações.

ONGs brasileiras e outros têm escrito cartas à Casa Branca, dizendo a Biden para não confiar em uma palavra que Bolsonaro diz. “Estamos sendo informados de que os EUA estão basicamente caindo em uma armadilha com o Brasil”, diz Alden Meyer, um analista de política climática de longa data que agora trabalha no E3G, um grupo de estudos sobre mudança climática. “Estamos sendo informados de que ele está assumindo compromissos que não tem intenção de cumprir, e que eles não teriam os tipos de estruturas para garantir o bom uso dos fundos, mesmo que fossem comprometidos.”

Em vez de ceder ao Bolsonaro, a Casa Branca e outros que estão envolvidos nas negociações climáticas estão tentando essencialmente cortar Bolsonaro e sua equipe fora das negociações. Ou pelo menos neutralize-os. Isso significa tentar criar incentivos para os governos estaduais no Brasil que estão empenhados em limitar o desmatamento, bem como encontrar novas maneiras de aplicar pressão econômica.

Uma ferramenta é a ação do consumidor. “Os produtos associados ao desmatamento estão se tornando diamantes de sangue”, diz Schmidt. “Cada vez mais, as pessoas não querem ter nada a ver com eles.” A UE propôs uma série de restrições à importação de produtos derivados do desmatamento, e restrições semelhantes estão em andamento em vários estados, incluindo Nova York e Califórnia.

Outra nova proposta é uma iniciativa de parceria público-privada de US $ 1 bilhão chamada de Coalizão de Redução de Emissões pela Aceleração de Financiamento Florestal, ou LEAF. O esforço, que foi anunciado na cúpula do clima de Biden, envolveria grandes empresas como Amazon, Salesforce e GlaxoSmithKline. Eles comprariam créditos de redução de emissões de projetos florestais em países ao redor do mundo – essencialmente pagando aos países para manter suas florestas saudáveis.

“Nosso kit de ferramentas nas últimas duas décadas tem sido investir muito dinheiro em problemas climáticos e tentar convencer os governos a seguir em frente”, disse Schmidt. “Agora, nosso kit de ferramentas consiste em cenouras e palitos. Temos atores corporativos, atores subnacionais. Existem muito mais opções para tentar impulsionar a mudança do que há alguns anos atrás. ”

A dinâmica política no Brasil também está mudando rapidamente. O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Salles, está sendo investigado por uma série de crimes relacionados à exportação de milhares de carregamentos de madeira ilegal. O filho mais velho de Bolsonaro, Flavio, eleito para o Senado no mesmo ano em que seu pai conquistou a presidência, foi acusado de corrupção e lavagem de dinheiro por roubo de dinheiro público. Outros membros da família, incluindo a esposa de Bolsonaro, também foram implicados em vários negócios financeiros desagradáveis.

A popularidade de Bolsonaro também está em rápido declínio, impulsionada por seu tratamento desastroso da pandemia de Covid (ele a chamou de “uma pequena gripe”), que contribuiu para a morte de quase meio milhão de brasileiros. A raiva e as divisões políticas estão crescendo. Em maio, mineiros selvagens abriram fogo com armas automáticas contra uma reserva indígena Yanomami na Amazônia (cinco pessoas morreram, incluindo duas crianças que se afogaram ao tentar fugir). A fome está aumentando. No final de maio, dezenas de milhares de brasileiros foram às ruas para exigir o impeachment de Bolsonaro.

Com a eleição presidencial se aproximando em 2022, muitos ativistas brasileiros do clima abandonaram a esperança de influenciar Bolsonaro e já estão olhando para uma nova liderança. “Estamos tentando trabalhar com a sociedade civil – bancos, agronegócios, lideranças indígenas, universidades – para saber como fazer o Brasil passar de pária a líder”, diz Astrini. “Estamos cruzando o deserto agora – mas os desertos têm um fim.”

Mas, como o reinado criminoso de Bolsonaro deixou tudo muito claro, as florestas tropicais também o fazem.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “Rolling Stone” [Aqui!]

Calculadora online de impactos do garimpo ilegal na Amazônia será lançada nesta quarta-feira (9)

Apresentação da nova ferramenta, resultante de parceria entre o MPF e a Conservação Estratégica, será transmitida ao vivo, a partir das 15h

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O Ministério Público Federal (MPF) e a organização não-governamental Conservação Estratégica (CSF-Brasil) lançam, nesta quarta-feira (9), às 15h, a “Calculadora de Impactos do Garimpo Ilegal de Ouro”. O evento será transmitido pelo YouTube da CSF e conta com a participação de representantes do MPF. A nova ferramenta vai possibilitar o cálculo dos danos socioambientais gerados pela extração ilegal de ouro na Amazônia, a partir da combinação de critérios como quantidade de ouro extraída, tipo de garimpo utilizado, local da extração, área afetada, entre outros.

A iniciativa é fruto de parceria entre a Força Tarefa Amazônia do MPF, a Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise da Procuradoria-Geral da República (Sppea/PGR) e a CSF. No evento online de lançamento, participam a procuradora da República no Amazonas, Ana Carolina Haliuc Bragança, o secretário da Sppea/PGR, Pablo Barreto, e o economista e Diretor da CSF-Brasil, Pedro Gasparinetti, além de outras pessoas que participaram do desenvolvimento do projeto. 

A calculadora ficará disponível em uma plataforma on-line aberta ao público e vai ajudar a nortear a atuação do MPF e de outras instituições, como a Polícia Federal, o Ibama e o Ministério da Saúde, na prevenção, responsabilização e compensação dos danos do garimpo ilegal. A calculadora vai conferir maior celeridade e fidedignidade à apuração de valores monetários a serem requeridos, por exemplo, em ações civis públicas ajuizadas pelo MPF sobre o tema. Também vai auxiliar no cálculo de multas e indenizações.

Para chegar ao valor financeiro do dano ambiental e social causado, a calculadora leva em conta as perdas geradas pelo desmatamento, assoreamento dos rios, contaminação por mercúrio e impacto sobre comunidades indígenas e ribeirinhas. Para se ter uma ideia dos resultados que podem ser obtidos com a ferramenta, a extração de 1kg de ouro gera um impacto de R$ 940 mil a R$2 milhões, dependendo das hipóteses consideradas. A maioria desses danos está relacionada aos impactos do mercúrio sobre a saúde humana. 

Serviço 
Lançamento da “Calculadora de Impactos do Garimpo Ilegal de Ouro”
Data: 9 de junho (quarta-feira)
Horário: 15h
Transmissão ao vivo pelo YouTube da CSF

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Este texto foi inicialmente publicado pelo MPF do Amazonas [Aqui!].

O garimpo ilegal de ouro ameaça os povos indígenas

Povos indígenas do Brasil estão à mercê de um número crescente de garimpeiros ilegais de ouro

yanomamiCaminho da devastação: prospecção ilegal de ouro no território Yanomami (Roraima, 17 de abril de 2016)

Por Norbert Suchanek, Rio de Janeiro

Enquanto dezenas de milhares de pessoas no Brasil se manifestavam contra o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro no sábado por causa de sua desastrosa política de combate à pandemia da COVID-19, outra catástrofe está ocorrendo na região amazônica. Os povos indígenas do Brasil, cujo habitat é a floresta tropical, estão pagando a conta de que o ouro é tradicionalmente considerado uma moeda substituta à prova de inflação, especialmente em tempos de crise como a atual pandemia. O preço do metal precioso mais do que quadruplicou desde 2005, de 11.544 euros por quilo para o valor recorde de 49.800 euros no ano passado.

Especialmente na reserva Yanomami no norte do estado do Amazonas, na fronteira com a Venezuela, cada vez mais garimpeiros ilegais estão destruindo corredores cada vez maiores, inclusive para pistas de pouso na floresta tropical. Imagens de satélite e fotografias aéreas mostram que a mineração de ouro cresceu significativamente este ano. Só no primeiro trimestre deste ano, 200 hectares de floresta tropical foram devastados, de acordo com a avaliação das gravações encomendadas pela Associação Yanomami Hutukara. Desde o início desta terceira invasão de garimpeiros de ouro desde 1980 na área protegida demarcada de Yanomami e Ye’kwana de 1992 nos estados de Roraima e Amazonas há cerca de dez anos, a mineração ilegal destruiu um total de 2.600 hectares de floresta. Os cerca de 28.000 indígenas hoje enfrentam um exército de cerca de 20.000 garimpeiros,

“O estudo mostra que a mineração ilegal na reserva Yanomami continua aumentando”, disse o porta-voz da Hutukara, Dário Kopenawa. Ele teme uma nova escalada e um massacre como o último em 1993, quando 22 garimpeiros e chamados pistoleiros brasileiros atacaram a aldeia Yanomami de Haximu, no lado venezuelano da área tribal, e massacraram 16 homens, mulheres e crianças. Pela primeira vez na história do Brasil, cinco dos perpetradores foram acusados ​​de genocídio e condenados a longas penas de prisão. Mas, depois de apenas seis anos de prisão, foi libertado Pedro Emiliano Garcia, um dos principais perpetradores, que volta a atuar no negócio ilegal de ouro em Roraima.

Há um perigo iminente de mais genocídio contra os povos indígenas, advertiu o procurador-geral adjunto do Brasil, Luciano Maia, no ano passado. Mas não apenas a violência física ameaça os garimpeiros. Eles também arrastam doenças infecciosas e epidemias para a reserva. Segundo Hutukara, os casos de malária entre os Yanomami quadruplicaram desde 2014. O coronavírus também foi introduzido e já causou vários óbitos, principalmente em crianças. Pelo menos dez crianças Yanomami morreram em conseqüência disso. E não só: “Eles também poluem nossos rios com mercúrio”, criticou Kopenawa. Para separar o pó de ouro fino da lama,

A Reserva Yanomami não é a única área tribal infestada por garimpeiros ilegais no Brasil. Na semana passada, os Munduruku no estado do Pará, no Amazonas, relataram novos ataques de garimpeiros ilegais. E o Rio Madeira tem sido um dos afluentes do Amazonas mais poluídos com mercúrio há anos.

Na verdade, o governo federal pouco faz para neutralizá-lo. Pelo contrário: “Temos um presidente e um ministro do Meio Ambiente que defendem e promovem a exploração ilegal do ouro”, disse Francilene dos Santos Rodrigues, socióloga da Universidade Federal de Roraima. »Existe um lobby que favorece os grandes, que financia os grandes ou compra os políticos de vários partidos. Políticos eleitos pelo povo, mas pagos para aprovar leis que incentivem a exploração dos territórios indígenas. “

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal berlinense Jugen Welt  [Aqui!].

Novo recorde em alertas mostra que crime ditará taxa de desmate

Com Ibama desmontado, ICMBio ameaçado de extinção e ministro correndo da polícia, dados do Inpe mostram pior maio da série

Por Observatório do Clima

Os alertas de desmatamento na Amazônia em apenas 28 dias de maio atingiram a marca de 1.180 km2, um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020. É a maior área de alertas desde o início da série do sistema Deter-B, do Inpe, em 2016, e a primeira vez que o número ultrapassa 1.000 km2 para esse mês.

O dado é preocupante, porque o mês de maio marca o início da estação seca, quando a devastação se intensifica, em grande parte da região amazônica. A permanecer a tendência nos próximos dois meses, a taxa oficial de desmatamento de 2021 (medida de agosto a julho) poderá terminar com uma inédita quarta alta consecutiva. O comportamento da curva dependerá exclusivamente de quem hoje dá as cartas na região: o crime ambiental.

O regime Bolsonaro se dedica há dois anos e meio a desmontar as políticas de controle de desmatamento, enterrando o único plano que conseguiu reduzir a destruição, o PPCDAm (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia). A fiscalização do Ibama foi manietada; como mostraram neste ano documentos produzidos pelos próprios agentes, a gestão do antiministro Ricardo Salles virtualmente parou as operações do órgão — cuja cúpula acaba de ser afastada por suspeita de operar para madeireiros.

O Instituto Chico Mendes, que fiscaliza as unidades de conservação federais, está ameaçado de extinção. A fracassada Operação Verde Brasil 2, do general Hamilton Mourão, saiu de cena em abril e não deixou nada no lugar. O plano de Salles de criar uma espécie de milícia na floresta usando homens da Força Nacional foi interrompido pelo fato prosaico de que o ministro, com dois inquéritos contra si no STF, dedica seu tempo hoje a fugir da polícia.

No acumulado desde agosto, vem caindo rápido a diferença entre a área recorde de alertas do ano passado e a deste ano: em janeiro o desmatamento em 2021 era 21% menor que em 2020. Agora a diferença é de 8%, e ainda pode cair mais.

Nesse quadro de ausência completa do governo federal, os R$ 270 milhões que o Congresso conseguiu na semana passada para a fiscalização dificilmente produzirão resultado. “O grande problema da fiscalização e do combate ao desmatamento não é apenas falta de dinheiro; o que falta é governo”, afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O combate ao desmatamento está quase exclusivamente nas mãos dos Estados. O problema é que alguns governadores parecem estar do lado dos desmatadores. Em Rondônia, o Coronel Marcos Rocha (PSL), aliado de Jair Bolsonaro, deu em maio um presente aos grileiros ao reduzir duas unidades de conservação no Estado.

“O desmatamento neste ano será o que os madeireiros ilegais, garimpeiros criminosos e grileiros quiserem que seja. E, neste momento, eles não têm nenhum motivo para se controlar, já que o próprio governo federal, que deveria coibir a ilegalidade, os incentiva com atos e discursos”, conclui Astrini.

Sobre o Observatório do Clima: rede formada em 2002, composta por 68 organizações não governamentais e movimentos sociais. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: http://oc.eco.br.
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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Mais desmatamento, menos chuva e menor produção agrícola

Em 20 anos, precipitação pode ter caído à metade em áreas que perderam 60% da vegetação nativa, com prejuízo anual estimado em R$ 5,7 bilhões

chuva desmatamentoÁrea desmatada de Rondonópolis, leste do estado de Mato Grosso, preparada para o plantio de soja: perda de vegetação nativa reduz a quantidade de chuva e a produtividade agrícol. James Martins/Wikimedia

Por Carlos Fioravanti para a Revista de Pesquisa da FAPESP

A quantidade anual de chuva caiu à metade ao longo dos últimos 20 anos em regiões de Rondônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará onde a agropecuária ocupou até 60% de áreas antes florestadas, de acordo com análises da equipe do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado em 10 de maio na revista científica Nature Communications, esse trabalho indicou que as áreas mais atingidas pela redução da precipitação são grandes produtoras de soja.

“Financeiramente não compensa desmatar para produzir, porque em poucos anos a perda causada com a redução de chuvas será maior que o ganho de produção decorrente do aumento da área plantada”, conclui o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite-Filho, da UFMG, principal autor do trabalho. “O desmatamento de um ano faz a produtividade cair já no ano seguinte.”

Causada pelo aumento do albedo (capacidade de refletir a luz solar) e pela queda na umidade liberada pela vegetação nas áreas desmatadas em comparação com a das florestas, a redução de chuva pode causar uma perda de produtividade estimada em US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) por ano na produção de soja e carne na região amazônica, de acordo com esse estudo.

“Neste ano ainda está chovendo bastante no sul da Amazônia, por causa do La Niña [esfriamento das águas da região equatorial do oceano Pacífico], mas em anos de El Niño [aquecimento do Pacífico equatorial] a diminuição da chuva pode intensificar a seca”, diz Leite-Filho.

As análises da equipe da UFMG, coordenadas pelo geólogo Britaldo Soares-Filho, se apoiaram em informações do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, de 1999 a 2019.

Os pesquisadores avaliaram a perda de vegetação nativa e a redução da precipitação em células de 28, 56, 112 e 224 quilômetros quadrados (km2) em uma área total de 1,9 milhão de km2, do sul da região amazônica, do Acre ao Tocantins (ver mapa). O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPq), Banco Mundial e Fundação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

“A ciência já alerta para a possibilidade há mais de 10 anos, mas esse trabalho é o primeiro a quantificar o prejuízo econômico decorrente da diminuição da chuva”, diz o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), que não participou do estudo. Especialista na pesquisa sobre aerossóis e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), ele foi um dos autores do trabalho que em 2016 mostrou como partículas de aerossóis influenciam a formação e o desenvolvimento de nuvens na Amazônia.

De imediato, em escala local, o desmatamento pode aumentar a quantidade de chuva, de acordo com um estudo publicado em junho de 2003 na Remote Sensing of Environment. “As áreas desmatadas ficam mais quentes, o albedo muda e surgem circulações de correntes de ar que favorecem o aumento da chuva”, diz um dos autores do trabalho, o meteorologista Luiz Augusto Machado, filiado ao Instituto Max Planck da Alemanha e ao IF-USP, após se aposentar no Inpe.

Esse efeito desaparece, porém, quando a área sem vegetação nativa se amplia. “Quando o desmatamento alcança grandes proporções, com a perda da vegetação nativa em centenas de hectares, o efeito da circulação atmosférica local torna-se muito limitado e ocorre claramente uma redução da precipitação”, acrescenta Machado. Ele alerta: “O prejuízo é muito maior se considerarmos que o desmatamento na Amazônia reduz drasticamente a chuva nas regiões Sul e Sudeste”.

Estação chuvosa mais curta

Leite-Filho observou outro efeito do desmatamento: o adiamento do início e o encurtamento em cerca de 30 dias da estação chuvosa no sul da Amazônia, de acordo com um trabalho que publicou em setembro de 2019 na International Journal of Climatology. As chuvas, que nessa região normalmente começam em setembro e seguem até abril, indicam o que e quando plantar.

Em dezembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou que as chuvas irregulares e em uma quantidade 50% menor que a média desde agosto já haviam causado uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente soja, milho e arroz, em todo o país na safra 2020/21.

“O desmatamento também tem aumentado a frequência e a duração dos veranicos”, diz o pesquisador. Veranicos são períodos secos em meio à estação chuvosa que prejudicam o desenvolvimento das culturas agrícolas.

Artaxo ressalta: “Se o desenvolvimento brasileiro depender da venda de carne, soja e outras commodities agrícolas a serem produzidas no Brasil Central, é melhor preservar a Amazônia para continuar a ter chuva abundante na região”.

Artigos científicos
LEITE-FILHO, A. T. et al. Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon. Nature Communications. v. 12, 2591, p. 1-7. 10 mai. 2021.
DURIEX, L. et al. The impact of deforestation on cloud cover over the Amazon arc of deforestationRemote Sensing of Environment. v. 86, n. 1, p. 132-40. 30 jun. 2003.
LEITE-FILHO, A. T. et al. The southern Amazon rainy season: the role of deforestation and its interactions with large scale mechanismsInternational Journal of Climatology. v. 40, n. 4, p. 2320-41. 30 set. 2019.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista de Pesquisa da FAPESP [Aqui!].

Uma tempestade perfeita para a Amazônia

perfect storm

Por Ima Vieira

A expressão “tempestade perfeita” (do inglês, perfect storm) se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado por uma combinação de circunstâncias, transformando-se em um desastre. Na Amazônia, o aumento descontrolado do desmatamento e das queimadas, a invasão de territórios indígenas e das comunidades tradicionais, a violação da legislação de proteção ambiental e a falta de fiscalização e de repressão adequada dos crimes ambientais, aliados ao agravamento das mudanças climáticas, aceleram a destruição da maior e mais diversa floresta tropical e a aproximam de um cenário fatídico. Com cerca de 800 mil km² de área desmatada (20% do bioma) e mais de 400 mil km2 de florestas degradadas, estamos nos aproximando de um ponto de inflexão a partir do qual, especialmente os ecossistemas na Amazônia oriental, sul e central, podem deixar de ser floresta, passando para um tipo de vegetação aberta, em um processo denominado de “savanização”.  

A floresta amazônica existe há pelo menos 55 milhões de anos e é habitada por comunidades humanas há pelo menos 10.000 mil anos. O manejo da biodiversidade praticado pelas populações tradicionais ao longo dos séculos levou à domesticação de pelo menos 85 espécies de plantas, dentre elas, a seringueira, a castanha-do-Pará e o açaí, e pouco alterou a cobertura florestal. Reconhece-se, no entanto, que desde a década de 1960, passamos de um conjunto de ecossistemas relativamente intocados a um mosaico complexo de diferentes usos da terra, com vários elementos de pressão e de impacto humano sobre a floresta, de tal magnitude que o chamado arco do desmatamento se transformou nos últimos cinco anos em um tridente do desmatamento, atacando o coração da floresta. A expansão econômica na Amazônia foi também um epistemicídio: invisibilizaram e silenciaram as contribuições das populações tradicionais à manutenção da floresta como base de sustentação da vida e à conservação ecológica da região. 

O papel fundamental da Amazônia na ecologia e na economia é bem conhecido. A floresta atua na regulação do clima e da temperatura do planeta e é responsável pelo sistema de chuvas que abastece diversas partes Brasil e da América do Sul. A floresta desempenha função importante na mitigação do aquecimento global, absorvendo e armazenando dióxido de carbono, por meio da fotossíntese. Sem ela, não teremos água e o seu fim trará enorme prejuízo para agricultura e produção de energia e contribuirá para um processo de extinção em massa da biodiversidade.  

O cenário atual de destruição é agravado por uma agenda de desconstrução de importantes marcos institucionais ambientais, que se estabeleceram a partir da Constituição do Brasil de 1988. Sob pressão de invasores politicamente apoiados, de tempos em tempos aparece uma tentativa de mudança de legislação, como a de regularização de terras (PL 2633/2020 e PL 510/2021), de licenciamento ambiental (PL 3729/2004) e de permissão de mineração e atividades agropecuárias em áreas indígenas (PL 191/2020), que contribuem para aumentar a ousadia desses agentes, potencializar os crimes ambientais e acelerar o processo de destruição da floresta. Os principais crimes ambientais praticados na Amazônia são grilagem de terras públicas, desmatamento, queimadas, extração clandestina de madeira e mineração ilegal.  

O resultado desta equação envolvendo eventos não favoráveis e agravamento drástico das ameaças à floresta amazônica tende a ser desastroso e está em jogo a destruição de um imenso patrimônio biológico e cultural. Vamos continuar a permitir que isso aconteça? 

* Ima Célia Guimarães Vieira é agrônoma, Doutora em Ecologia pela Universidade de Stirling, na Escócia, docente em programas de pós-graduação no Pará e pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, do qual foi diretora-geral. É membro do Conselho da Cidadania da Prefeitura de Belém, do Conselho Científico da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistemicos e do Global Landscapes Forum – Amazon.
 
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Este artigo foi inicialmente publicado no site Uruá Tapera [Aqui! ].