Correntes de vento de Norte trazem grande quantidade de fumaça da região amazônica para o Rio Grande do Sul
Extenso corredor de fumaça entre a Amazônia e o sul do Brasil
Por Metsul
Um extenso e denso corredor de fumaça, resultante do grande número de queimadas que vem se registrando nestes dias na Amazônia do Brasil e em países vizinhos, podia ser visto nas imagens de satélites desta quinta-feira pelo interior da América do Sul da região amazônica até o Rio Grande do Sul.
O corredor percorre milhares de quilômetros e abrange uma área que vai da região amazônica até o Rio Grande do Sul, passando pelos territórios da Bolívia, Paraguai e o Nordeste da Argentina.
A origem principal da fumaça está no Sul da região amazônica, em particular no Sul do estado do Amazonas, assim como na Bolívia, onde o número de queimadas tem sido bastante elevado neste mês de agosto, cobrindo de fumaça cidades como Manaus e Porto Velho.
O corredor de fumaça é trazido para o Sul por uma corrente de jato em baixos níveis, um corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude, que se origina no Sul da Amazônia e desce até o território gaúcho.
É justamente esse corredor de vento quente e seco que transporta a fumaça para o Sul juntamente com o ar tropical que eleva a temperatura. É o que fez a temperatura nesta quinta-feira atingir 28ºC em Campo Bom, na Grande Porto Alegre. Normalmente, nesta época do ano, estes corredores de fumaça alcançam o Sul do Brasil. Isso se dá quando as correntes de vento passam a ser de Norte. Às vezes, a fumaça da Amazônia desce até mais ao Sul e alcança a região de Buenos Aires e mais raramente o Norte da Patagônia. Diferentemente da região amazônica, onde a fumaça atua mais perto da superfície e traz piora da qualidade do ar com problemas respiratórios para a população local, no Sul do Brasil está em suspensão na atmosfera.
Por isso, seus efeitos se percebem pelo tom mais acinzentado do céu com aspecto fosco e ainda por cores realçadas do sol ao amanhecer e no fim da tarde. Excepcionalmente, a fumaça vinda do Norte pode descer a altitudes menores e prejudicar a qualidade do ar de forma mais significativa no território gaúcho.
Satélite confirma fumaça no Rio Grande do Sul
A chegada do corredor de fumaça ao Rio Grande do Sul foi confirmada pela divisão de aerossóis da NOAA, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, em Washington. A agência climática norte-americana gerou imagens de hoje dos sensores ABI de aerossóis de profundidade ótica do satélite GOES-16.
O marrom na imagem de satélite mostra uma alta densidade de aerossóis, o que se verifica quando há muita fumaça. No caso do território gaúcho, como a imagem é de mais cedo nesta quinta, a fumaça recém ingressava e as condições pioraram durante a tarde.
Modelo prevê mais fumaça chegando
A tendência é que a quantidade de fumaça de queimadas no Norte da América do Sul chegando ao Rio Grande do Sul aumente neste fim de semana e no começo da semana que vem. Os mapas mostram as projeções do modelo de dispersão de aerossóis CAMS da União Europeia para sexta, sábado, domingo e segunda.
O aumento da fumaça previsto se deve à intensificação da corrente de jato que canaliza a fumaça de Norte para Sul até o território gaúcho e o Uruguai. A intensificação do jato em baixos níveis acompanhará a chegada de ar mais quente ao Rio Grande do Sul com maior elevação da temperatura na Metade Norte gaúcha.
Muito fogo na Amazônia
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que somente nos primeiros 14 dias de agosto foram identificados por satélites 14388 focos de calor na Amazônia brasileira. O número supera a metade da média histórica mensal de 26218 focos de calor no bioma. O número de queimadas tem sido muito alto nos últimos dias. Somente nesta semana os satélites usados pelo Inpe identificaram na Amazônia 788 focos de calor no domingo, 1199 na segunda, 1368 na terça e 1476 ontem.
Só nos primeiros 14 dias de agosto o número de focos de calor no estado do Amazonas chegou a 4548, número acima da média histórica de agosto inteiro de 3606. Houve dias neste mês com 500 a 600 focos em apenas um dia no Amazonas. As queimadas nos últimos dias aumentaram muito ainda em Rondônia.
A degradação florestal – estradas de acesso, extração seletiva de madeira, incêndios, distúrbios naturais – está tendo um impacto muito maior na redução do armazenamento de carbono no sul da Amazônia brasileira do que o desmatamento, de acordo com um novo estudoque produziu algumas das descobertas mais precisas de mudanças nos estoques de carbono em uma região criticamente importante dos trópicos.
Em termos reais, a degradação florestal reduziu o armazenamento de carbono na área de estudo cinco vezes mais do que o desmatamento, um achado que não se reflete atualmente na contabilidade de emissões de carbono do Brasil.
“Quando os países relatam suas mudanças florestais e de carbono, eles dependem principalmente do desmatamento porque é muito mais fácil de ver e quantificar”, disse Ovidiu Csillik, principal autor do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no Instituto de Tecnologia da Califórnia, à Mongabay. “Mas descobrimos que a degradação florestal é realmente mais importante em termos de perda de carbono.”
Analisando e comparando dados de 2016 e 2018 no chamado Arco do Desmatamento do Brasil e cobrindo 48.280 hectares (119.300 acres), uma equipe de especialistas internacionais dividiu a região em 99 transectos. Eles usaram sobrevoos repetidos de lidar aerotransportado, uma tecnologia de sensor remoto a laser que registra objetos em três dimensões e obtém dados detalhados, para produzir dois vastos conjuntos de dados, de acordo com o estudo publicado na revista PNAS da Academia Nacional de Ciências.
As florestas tropicais estão sujeitas a uma variedade de tipos de distúrbios ou degradação devido à mortalidade em pequena escala por processos naturais que afetam uma ou algumas árvores. Isso inclui incêndio, inundações, deslizamentos de terra, extração seletiva de madeira ou derrubada de árvores relacionada ao clima. Imagem cortesia de K.C. Cushman.
As descobertas de alta resolução são consideradas sem precedentes, oferecendo insights precisos sobre as principais mudanças no uso da terra que, em última análise, afetam as mudanças climáticas. Os dados do Lidar também permitem estimativas de armazenamento de carbono em biomassa e solos.
“Embora os efeitos do desmatamento na perda de carbono tenham sido exaustivamente pesquisados”, observa o estudo, “o impacto da degradação florestal no carbono não é bem compreendido e é difícil de quantificar com precisão em grande escala. A degradação é mais dispersa espacialmente do que o desmatamento, expandindo as fronteiras da perda florestal.”
Os pesquisadores observam que a degradação geralmente leva ao desmatamento, com quase metade das florestas tropicais desmatadas nos anos subsequentes, de acordo com o estudo. Embora a terra degradada tenha o potencial de ser restaurada ao longo do tempo, o desmatamento normalmente anuncia uma mudança permanente no uso da terra, como agricultura e pecuária.
As descobertas são significativas em vários níveis, de acordo com especialistas. A Amazônia, 64% da qual está no Brasil, é uma importante fonte de armazenamento de carbono e uma linha de frente de defesa contra a crescente taxa de aquecimento global. Mas as taxas dramáticas de desmatamento nas últimas cinco décadas estão diminuindo a capacidade da Amazônia de sequestrar e armazenar carbono. Entender com mais precisão o que está impulsionando essas mudanças pode levar a estratégias novas ou aprimoradas para reduzir a degradação florestal e o desmatamento, de acordo com os autores.
Também pode levar os países tropicais a relatar o sequestro e as emissões de carbono baseadas nas florestas com mais precisão, o que é essencial para estratégias e políticas eficazes de mitigação do clima.
“A vulnerabilidade das florestas tropicais às mudanças climáticas, incluindo secas mais frequentes e severas, bem como o aumento da suscetibilidade a incêndios, intensifica ainda mais a degradação dessas florestas, resultando em perdas aceleradas de carbono e perturbações do ecossistema”, escrevem os autores.
Este mapa, publicado com o estudo PNAS, ilustra os resultados detalhados do lidar que distinguem a degradação florestal do desmatamento em todo o Arco do Desmatamento no sul da Amazônia brasileira. Imagem cortesia de Ovidiu Csillik.O desmatamento, ou extração de madeira rasa, é muito mais fácil de identificar a partir da maioria dos sensoriamentos remotos, mas não conta toda a história quando se trata de uma quantidade decrescente de capacidade de sequestro de carbono na Amazônia, de acordo com uma nova pesquisa da PNAS. Imagem de Marcos Longo.
Uma compreensão detalhada
Csillik, especialista em sensoriamento remoto, disse que os dados usados no estudo não foram analisados desde sua conclusão em 2016 e 2018. Ingressando no Laboratório de Propulsão a Jato em 2022, ele foi encarregado de comparar dois dos maiores conjuntos de dados de lidar aerotransportado intensivo em uma floresta tropical já compilados.
“Além de quantificar a dinâmica do carbono, ou perdas e ganhos, em uma resolução muito alta com lidar aéreo repetido, também levamos o estudo um pouco mais longe e apresentamos uma compreensão detalhada de quais são os fatores por trás dessas perdas de carbono”, disse ele.
Em terras degradadas, por exemplo, ocorrências naturais e causadas pelo homem, como deslizamentos de terra, inundações, derrubada de árvores relacionada ao vento, extração isolada de madeira e fragmentação florestal, se destacaram claramente nos dados do lidar como fontes de perda de carbono que antes passavam despercebidas ou não contabilizadas.
“A degradação florestal é muitas vezes difícil de quantificar e monitorar porque ocorre de maneiras sutis que não são facilmente detectáveis por meio de métodos convencionais de sensoriamento remoto e em locais onde o acesso no terreno pode ser controlado por proprietários de terras que realizam atividades ilegais ou irregulares”, observa o estudo.
Marcos Longo, coautor e cientista climático e de ecossistemas do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, disse à Mongabay que o estudo “é um retrato importante do que aconteceu no passado recente” no Brasil. Mas ele disse que uma compreensão ainda mais profunda das mudanças nas terras tropicais exigirá pesquisas novas e de longo prazo sobre sensoriamento remoto.
“Acho que com o desenvolvimento da tecnologia que temos agora, como o lidar na Estação Espacial Internacional, podemos começar a construir essa compreensão de longo prazo da degradação florestal em ecossistemas tropicais”, disse Longo. A Investigação da Dinâmica do Ecossistema Global da NASA, ou GEDI, está agora a bordo da estação espacial.
Ovidiu Csillik, autor principal que anteriormente trabalha no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no Instituto de Tecnologia da Califórnia, agora é especialista em sensoriamento remoto na Wake Forest University, na Carolina do Norte. Imagem cortesia de Ovidiu Csillik.
Priorizando áreas indígenas e protegidas
A pesquisa também constatou que os territórios indígenas e as unidades de conservação foram eficazes na proteção da floresta contra a degradação antrópica, ecoando estudos anteriores. “Enquanto combinadas, elas ocupavam 47,5% da área [estudada], continham apenas 9,1% de desmatamento, 2,6% de exploração madeireira e 9,6% de incêndios”, observam os autores.
O professor de ecologia e biologia evolutiva Scott Saleska disse que o novo estudo revela dados únicos sobre os fatores de degradação florestal no sul da Amazônia brasileira. Em 2000, Saleska, professor da Universidade do Arizona, esteve envolvido em algumas das primeiras pesquisas lidar em pequena escala na Amazônia. Embora o Brasil faça parte de seu campo de estudo, ele não esteve envolvido no estudo da PNAS.
E embora seu próprio foco seja a pesquisa básica, ele disse que pode imaginar resultados práticos ou políticos decorrentes das descobertas, como maior aplicação dos regulamentos de proteção florestal existentes.
“A outra coisa que se destaca é a priorização da conservação e preservação”, disse Saleska à Mongabay. “Este estudo dá uma visão impressionante da eficácia das áreas de conservação e regiões indígenas para salvar florestas, porque essas áreas são claramente mostradas como tendo o menor impacto. Eles parecem eficazes na prevenção da extração de madeira e do fogo em uma escala impressionante.
Dado seu interesse nas questões e na Amazônia brasileira, Saleska acrescentou que o novo estudo “fornece um modelo, um modelo para levar esse tipo de pesquisa a uma escala maior. Temos muito mais ferramentas à nossa disposição para medir o CO2 na atmosfera para descobrir quais lugares na Amazônia, em amplas regiões, estão perdendo ou ganhando carbono.”
Justin Catanoso é colaborador regular da Mongabay e professor de jornalismo na Wake Forest University, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Divulgação: o principal autor do estudo, Ovidiu Csillik, ingressou no corpo docente de ciências ambientais de Wake Forest em julho.
Imagens mostram as dispersões entre Roraima, Amazonas e Pará a partir de áreas desmatadas no bioma, que teve seu pior julho dos últimos 20 anos em número de incêndios
As fumaças de queimadas na Amazônia (NASA/Divulgação)
Imagens de satélite da NASA captaram uma dispersão de fumaça “inusitada e intensa”, como afirmou a agência americana, entre Roraima, Amazonas e Pará. A foto é um resultado da alta recente de queimadas na Amazônia e foi publicada nesta segunda, 12, nas redes sociais da agência. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o bioma sofreu seu pior mês de julho das últimas duas décadas, com mais de 11 mil focos de calor registrados.
As fumaças foram captadas pelo satélite Aqua da Nasa, no último dia 4 de agosto. Lançado em 2002, o Aqua analisa o ciclo da água no planeta, como as precipitações e evaporações.
A fumaça, muito densa, estava na região da cidade do Apuí (AM) e ao longo da rodovia BR-163, no sul do Pará. Segundo análise da NASA, “plumas triangulares” de fumaça saíram de áreas de desmatamento, muitas vezes próximas a estradas vicinais, criando um “padrão de espinha de peixe” de terras desmatadas quando vistas de cima. Esse padrão surge quando uma estrada principal é aberta em uma área de floresta e, a partir dela, são criadas estradas secundárias, criando uma série de áreas desmatadas que se assemelham a uma espinha de peixe.
A NASA ainda destacou que esse desmatamento costuma acontecer para dar lugar à pecuária e à produção agrícola. No período de seca, desmatadores aproveitam para remover árvores e galhos secos para assim deixar a terra limpa durante os meses mais chuvosos.
— A principal causa de incêndios em julho esteve ligada ao desmatamento ao longo desta fronteira agrícola — disse Doug Morton, cientista da NASA.
Manaus sob fumaça
Nesta segunda-feira, 12, vídeos e imagens de Manaus (AM) mostram a intensa fumaça no ar, que já dura ao menos três dias. em praticamente toda a capital a qualidade do ar é considerada “ruim” e “muito ruim”, de acordo com o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva).
Ao todo, são 22 dos 62 municípios do estado nessa situação. Segundo o governo do Amazonas, durante o período de 180 dias está proibida a prática de fogo, com o sem uso de técnicas de queima controlada. Nas redes sociais, moradores relatam até a dificuldade de conseguirem respirar e enxergar o que está a poucos metros de distância nas ruas, devido à quantidade de fumaça.
A qualidade do ar precisa medir entre 0 e 25 μm/m³ (micrómetro por metro cúbico de AR) para ser considerada boa. Em Manaus, a área mais afetada é o bairro Morro da Liberdade, que registrou os níveis de poluição em 81.4 µg/m³. Apenas o bairro Cachoeirinha está em estágio “moderado”, com 36.7 µg/m³.
De acordo com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), a nuvem de fumaça é causada, especialmente, pelas queimadas que acontecem no Sul do Amazonas. A Defesa Civil emitiu alertas aos moradores sobre focos de incêndio florestal, que junto a chegada de uma frente fria chegou ao sul do estado tem levado a fumaça das queimadas para a região metropolitana.
O problema se estende a outros municípios do Amazonas, em especial Apui, Lábrea e Novo Aripuanã, todos localizados no sul do estado, na região conhecida como ‘arco do fogo’.
O efeito das fortes queimadas na região é motivo de preocupação e colocou a capital do Amazonas entre as cidades com pior qualidade de ar no mundo, de acordo com monitoramento da plataforma World Air Quality Index.
O governo do estado informou que o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) têm trabalhado no combate às queimadas na região, por meio da ação do Corpo de Bombeiro.
Recorde de queimadas
Entre os dias 1 e 31 de julho, foram registrados 11.145 focos de queimadas na Amazônia, o maior número para o mês desde 2005, de acordo com dados do Sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O registro é 93% maior que os 5.772 focos registrados em julho do ano passado e 111% maior que a média para o mês nos últimos 10 anos (5.272).
De acordo com os dados, a situação se agravou na Amazônia nos últimos dias: dos mais de 11 mil focos de queimadas registrados em julho, metade ocorreu nos últimos oito dias do mês.
Soja a perder de vista (colheita em plantação no Rio Grande do Sul, abril de 2024).
Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”
Dificilmente qualquer outra cultura mudou tanto o sul da América Latina nos últimos 40 anos como a soja. O seu cultivo em grande escala para exportação transformou paisagens ricas em espécies em estepes agrícolas desertas, salpicadas de silos de armazenamento de aço que se elevavam ao céu, as novas catedrais do norte do Brasil ao norte da Argentina.
Na década de 1950, os campos de soja ainda eram uma raridade na América do Sul. Hoje eles se espalham por 1,2 milhão de hectares no Uruguai e 1,6 milhão de hectares na Bolívia. No Paraguai são 3,6 milhões de hectares, na Argentina 15,5 milhões e no Brasil gigantescos 46 milhões de hectares. Nem mesmo a Amazônia foi poupada do boom da soja. O feijão asiático cobre hoje uma área de mais de quatro milhões de hectares na Amazônia brasileira e boliviana.
Desmatamento e agrotóxicos
O impacto ambiental mais visível do cultivo da soja é a perda de biodiversidade através do desmatamento direto e da conversão de terras. Isto afeta os ecossistemas florestais da América do Sul: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Chaco, Chiquitânia, Pantanal, Caatinga e Pampas. De acordo com um estudo da Universidade de Maryland publicado em 2021, a perda florestal devido à conversão direta de terras para soja totalizou 3,4 milhões de hectares entre 2001 e 2016.
Ainda maior, mas mais difícil de quantificar, é a desflorestação indireta desencadeada pelo boom da soja. Apenas alguns produtores de soja limpam eles próprios a floresta. Em vez disso, compram ou assumem terras que já foram desmatadas a pequenos agricultores ou criadores de gado, que depois se deslocam e desmatam novas áreas. Grandes áreas do Cerrado eram anteriormente utilizadas para a pecuária extensiva, o que traz consequências menos danosas ao ecossistema do que o cultivo da soja, que é realizado com maquinário pesado e alto uso de agrotóxicos e fertilizantes.
O desmatamento também ocorre para a necessária expansão da infraestrutura. “A soja é ainda mais prejudicial do que outras monoculturas porque justifica projetos massivos de infraestrutura de transporte que desencadeiam uma cadeia de eventos que levam à destruição da natureza em vastas áreas, além das terras diretamente dedicadas ao cultivo da soja”, escreve o cientista Philip M. Fearnside. do Instituto de Pesquisas Amazônicos (INPA) em um estudo publicado em 2001 sobre as consequências da expansão da soja. O agronegócio necessita desta infra-estrutura para processar e transportar a colheita, bem como para fornecer pesticidas e fertilizantes artificiais. “Outros usos da terra, como a pecuária extensiva, também ocupam grandes áreas”, explica o pesquisador amazônico, “mas não têm peso político para incentivar o governo a construir hidrovias, linhas ferroviárias e uma ampla rede de estradas terrestres financiadas com recursos públicos. trazer dinheiro.”
Outras consequências ambientais incluem a erosão do solo, alterações no equilíbrio natural da água e uma redução de insectos, organismos que vivem no solo, peixes e crustáceos devido aos pesticidas utilizados, que são frequentemente prejudiciais para a fauna terrestre e para os seres humanos.
Os produtores de soja no Brasil aplicam em média 6,5 quilogramas de agrotóxicos por hectare, geralmente de avião: 69% deles são herbicidas, 16% inseticidas e 15% fungicidas. No entanto, o impacto ambiental desta carga tóxica ainda é em grande parte desconhecido, de acordo com o estudo de 2020 “A Pegada Tóxica da soja brasileira” da Universidade Chalmers da Suécia.
A soja não-OGM, que representa cerca de 10% da área plantada, recebeu tratamentos com vários herbicidas tóxicos diferentes, enquanto os campos de feijão geneticamente modificado receberam o controverso herbicida total glifosato. Quase todos os inseticidas pulverizados são tóxicos para as abelhas e organismos aquáticos. De acordo com o estudo sueco, a utilização de malatião, que é particularmente prejudicial para os organismos de água doce, aumentou significativamente durante o período de estudo de 2009 a 2018. Os fungicidas também são tóxicos para a fauna aquática. Além disso, podem resultar em mutações genéticas e danos aos fetos. Os pesquisadores já encontraram altas concentrações de toxinas agrícolas, especialmente glifosato, no sangue de animais selvagens e de pessoas na principal área de cultivo de soja, o Cerrado, no planalto central do Brasil.
Escassez aguda de água
Como esta região é a fonte mais importante do Brasil, os sistemas fluviais que ela alimenta, e em particular o Pantanal, também são afetados. Com as chuvas sazonais, a carga de agrotóxicos e sedimentos provenientes das monoculturas atinge a maior planície aluvial tropical do mundo, cujas consequências ainda não foram estudadas.
Desde o início deste ano, o Pantanal está em chamas como nunca antes. Estes são os piores incêndios da história desta zona húmida rica em espécies. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contou mais de 4.000 focos de incêndio de janeiro até o final de julho deste ano. A maioria dos incêndios são iniciados por seres humanos para obter pastagens ou terras agrícolas ou simplesmente para queimar lixo. Mas no Pantanal há uma escassez crescente de água a cada ano, razão pela qual os incêndios estão se espalhando mais amplamente e ficando fora de controle com mais frequência. O “mar da soja” também é parcialmente responsável por isto – e não apenas pelas alterações climáticas.
A erosão do solo causada pelas monoculturas assoreia os afluentes e o Pantanal. Os rios ficam mais rasos e mudam o ciclo da água, o nível da água cai. Segundo dados da rede científica Mapbiomas, em 1985 o Pantanal registrava uma superfície hídrica de 1,9 milhão de hectares há pelo menos seis meses. Em 2023 eram apenas 382 mil hectares. Um declínio de mais de 80 por cento. Durante um período semelhante, o estado do Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação natural, enquanto o cultivo de soja aumentou de 1,3 milhão de hectares para 6,3 milhões durante este período.
Por Guilherme Borges para o “Climatempo”Os dados recentes sobre focos de queimadas no Brasil mostram um aumento alarmante nos primeiros 7 meses de 2024 em comparação com o mesmo período de 2023. Segundo dados do programa de monitoramento de queimadas no Brasil BDqueimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais o Mato Grosso do Sul lidera o ranking com um crescimento impressionante, passando de 1.138 focos em 2023 para 5.354 em 2024, o que representa uma diferença absoluta de 4.216 focos e um aumento percentual de 370,47%. Mato Grosso também apresentou um aumento significativo, com os focos subindo de 7.541 em 2023 para 11.242 em 2024, resultando em um aumento absoluto de 3.701 focos e uma diferença percentual de 49,08%.
Figura 1 -Estados com maior aumento absoluto nos focos de queimadas. Comparação realizada para os primeiros 7 meses de cada Ano.Mato Grosso do Sul e Mato Grosso são os estados com os aumentos mais significativos. Fonte: BDqueimadas
Faixa Norte apresenta crescimento
Roraima teve um aumento preocupante, com os focos passando de 1.273 para 4.630, uma diferença absoluta de 3.357 focos e um aumento percentual de 263,71%. O Amazonas seguiu a mesma tendência, com os focos subindo de 2.337 para 4.738, um aumento absoluto de 2.401 focos e percentual de 102,74%. Tocantins também apresentou um aumento significativo, de 3.918 focos em 2023 para 5.481 em 2024, uma diferença absoluta de 1.563 focos e um aumento percentual de 39,89%.
Estados do Centro-oeste e Norte na liderança
Entre os maiores aumentos percentuais, Mato Grosso do Sul e Roraima estão no topo, seguidos por Rondônia com um aumento percentual de 175,95% e Acre com 161,92%, enquantoSão Pauloteve um crescimento percentual de 135,61%. Roraima Amazonas e Mato Grosso do Sul já registram o maior números de focos de queimadas em 26 anos desde 1998.
Figura 2 -Este gráfico apresenta os 10 estados com o maior aumento percentual nos focos de queimadas. Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia destacam-se com os maiores aumentos percentuais. Fonte: BDqueimadas
Análise regional
A análise regional revela que a Região Norte, com estados como Amazonas, Roraima e Pará, apresentou aumentos acentuados, indicando uma possível intensificação das queimadas nessa área. Na Região Centro-Oeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul continuam a mostrar números alarmantes, especialmente Mato Grosso do Sul, com um aumento impressionante. Na Região Sudeste, Minas Gerais e São Paulo também apresentaram aumentos significativos.
Parte do Sudeste com focos em alta
São Paulo teve um aumento absoluto de 1.032 focos, subindo de 761 em 2023 para 1.793 em 2024, o que representa um crescimento percentual de 135,61%. Minas Gerais, por sua vez, registrou um aumento absoluto de 927 focos, passando de 1.744 em 2023 para 2.671 em 2024, resultando em um aumento percentual de 53,15%. Esses dados refletem uma escalada preocupante dos focos de queimadas em ambos os estados, com São Paulo destacando-se pelo crescimento percentual mais acentuado.
Figura 3 – Este gráfico compara os focos de queimadas entre os anos de 2023 e 2024 para os estados de São Paulo e Minas Gerais. Ambos os estados tiveram aumentos significativos, com São Paulo registrando um aumento absoluto de 1032 focos e Minas Gerais um aumento absoluto de 927 focos. Fonte: BDqueimadas
Fatores para explosão dos casos
Os primeiros sete meses de 2024 foram notavelmente mais quentes do que 2023. A atuação de massas de ar quente na região central do Brasil foram as principais causadoras da irregularidade das chuvas e do aumento das temperaturas, o que contribuiu para o aumento no número de focos de queimadas. Desde o começo do ano, ocorreram cinco períodos de temperatura extrema no Brasil: três ondas de calor e dois veranicos. Destaca-se a onda de calor que durou de 22 de abril até 10 de maio, uma das mais longas registradas nos últimos anos, com cerca de 18 dias de temperaturas acima da normalidade, variando entre 3ºC e 7ºC acima da média. É importante considerar que a atuação do fenômeno El Niño desde o segundo semestre de 2023 até junho, somada com o aquecimento do Atlântico, favoreceu a intensificação dessas massas de ar quente e a irregularidade das chuvas. Em contraste, os primeiros sete meses de 2023 foram caracterizados por uma transição, sem efeitos climáticos mais notáveis no Brasil.
Estudo da USP mostra que a expansão da pecuária, pressionada pelo aumento do consumo interno, foi o fator que mais contribuiu para a eliminação ou degradação da cobertura vegetal da região. Produção agrícola vem em segundo lugar
Atualmente, 23% da área correspondente à Amazônia Legal Brasileira já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados (foto: Ibama)
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
A Amazônia Legal Brasileira (ALB) – que compreende toda a parte da Bacia Amazônica situada no Brasil e vastas porções adjacentes do Cerrado, estendendo-se por nove Estados – soma mais de 5 milhões de quilômetros quadrados (km2) e corresponde a quase 60% do território nacional. Atualmente, 23% dessa área já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados, colocando a região em risco de atingir um ponto de inflexão ecológica que poderia colapsar os ecossistemas e liberar bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Algumas regiões da ALB, especialmente nas franjas do Cerrado e no chamado “Arco do Desmatamento”, já são emissoras líquidas de carbono. A manutenção da área preservada e a recuperação de porções degradadas são necessidades urgentes, que mobilizam diferentes atores da comunidade global.
A demanda estrangeira por commodities é frequentemente considerada a motivação principal do desmatamento. Mas, embora esta constitua um fator muito relevante, os mercados domésticos exercem pressão ainda maior. Foi o que constatou um estudo realizado por Eduardo Haddad e colaboradores,publicadona revista Nature Sustainability.
“O desmatamento é frequentemente avaliado a partir da perspectiva da oferta, ou seja, quais setores produtivos estão promovendo a substituição das florestas por outros usos da terra, como agricultura e pecuária. A metodologia que adotamos permite ver o fenômeno do desmatamento também a partir da perspectiva da demanda, identificando as fontes de estímulos econômicos para que os setores produtivos se envolvam no desmatamento. Com base nesse critério, nosso estudo mostrou que 83,17% do desmatamento foi desencadeado por demandas de fora da Amazônia e apenas 16,83% por demandas da própria região. Na composição dos 83,17%, verificamos que 59,68% foram decorrentes de demandas do restante do Brasil e 23,49% de demandas do comércio internacional”, relata Haddad.
O pesquisador é professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Joint Africa Institute (JAI).
A metodologia adotada no estudo baseou-se principalmente na chamada Matriz de Insumo-Produto (MIP). Criada pelo russo naturalizado norte-americano Wassily Leontief (1906-1999), a MIP (Input-Output Matrix, em inglês) representa matricialmente as relações entre os diversos setores da economia, registrando os fluxos de bens e serviços e possibilitando conhecer os impactos que as alterações em um setor produzem nos outros.
“No Brasil, a MIP mais recente foi feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] em 2015. Devido à complexidade matemática e à restrição de acesso aos dados de milhões de empresas e suas estruturas comerciais, não houve atualização depois disso. Usar dados de 2015 poderia ser inadequado se não fosse pelo fato de que, infelizmente, a estrutura da economia brasileira mudou muito pouco desde então. A década de 2010 foi a pior na série histórica de 120 anos do Produto Interno Bruto do país, com crescimento de apenas 0,3% ao ano. Por isso, utilizamos a MIP de 2015 adaptada para a Amazônia Legal Brasileira, combinada com dados setoriais e regionais de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa, para medir os impactos diretos e indiretos da demanda doméstica e internacional por insumos e produtos finais da ALB, com foco em setores intensivos em desmatamento, como a agricultura e a pecuária”, explica Haddad.
A configuração atual da Amazônia Legal Brasileira (imagem: IBGE)
Mudanças no uso da terra
A Amazônia passou por enormes transformações no último meio século. Inovações técnicas, investimentos em infraestrutura e mudanças políticas facilitaram a expansão do cultivo de soja: da região central do Cerrado para vastos segmentos da ALB. A produção local de soja, que era inferior a 200 toneladas em 1974, representando apenas 0,02% do montante nacional, alcançou 50 milhões de toneladas em 2022, 41,5% do total brasileiro. Igualmente vertiginoso foi o crescimento da pecuária: de 8,9 milhões de cabeças de gado em 1974 (9,5% do rebanho brasileiro) para 104,3 milhões de cabeças em 2022 (44,5% do total).
“A expansão da pecuária atendeu principalmente ao crescimento do consumo de carne, produtos lácteos e couro em outras regiões do país. Impulsionado pelo aumento da renda média per capita e pela rápida urbanização, o consumo de carne no Brasil subiu acima da média global após os anos 1960. Dos 1,4 milhão de hectares desmatados pela pecuária, 61,63% visaram atender, direta ou indiretamente, à demanda interna de fora da Amazônia e 21,06% à demanda internacional. O desmatamento por atividades agrícolas mostra um padrão diferente, com 58,38% atendendo à exportação e 41,62 ao mercado interno”, informa Haddad.
O estudo ressalta que, apesar de afetar diferentes biomas da Amazônia Legal, o desmatamento ocorrido até agora no Brasil se concentrou geograficamente nessa região. Em 2015, a ALB respondia por 65,7% do total do desmatamento acumulado no país. A pecuária foi a principal causa imediata (93,4% do total regional), seguida pela produção agrícola, principalmente de soja, milho e algodão (6,4%), e pela mineração (0,2%). A construção de infraestrutura e o processo intensivo de urbanização também fazem parte dos fatores antrópicos diretamente ligados à eliminação ou à degradação da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica e do Cerrado.
“Atividades ilegais, como a grilagem de terras, são muito relevantes no contexto. Um estudo recente mostrou que metade do desmatamento da ALB nas últimas duas décadas ocorreu em terras públicas ocupadas ilegalmente por grileiros. Disputas legais têm levado décadas e não impedem que a maioria das áreas ilegais ou do desmatamento ilegal em propriedades privadas participe tanto do mercado de terras quanto do processo de produção”, acrescenta Haddad.
O estudo em pauta demonstra que a demanda econômica originada no centro-sul mais desenvolvido do Brasil impõe uma pressão ainda maior sobre o desmatamento na Amazônia do que as exportações internacionais. Esse conhecimento é muito relevante para orientar políticas públicas e ações da sociedade civil voltadas para preservação ou regeneração. E, como as mudanças no uso da terra, por meio da pecuária e da agricultura, continuam sendo as principais fontes de emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, o controle do desmatamento e da degradação torna-se imperativo para que o país possa cumprir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.
Além de Haddad, participaram do estudo Inácio Fernandes de Araújo Junior, Rafael Feltran Barbieri, Fernando Salgueiro Perobelli, Ademir Rocha, Karina Simone Sass e Carlos Afonso Nobre.
O grupo recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/50848-9 e 21/12397-9).
Garimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku e Yanomami colaborou para aumento de 108% nos casos de malária entre 2018 e 2021
A malária avança na região Amazônica principalmente devido ao garimpo ilegal associado ao desmatamento. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) reúne constatações científicas anteriores e aponta que a área de garimpo em terras indígenas aumentou 102% entre 2018 e 2021. Esse fato impactou, possivelmente, no aumento de casos de malária nas terras indígenas Yanomami, em Roraima, e Munduruku, e no Pará, de acordo com a análise publicada na segunda (24) na “Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical”.
O trabalho traça o cenário epidemiológico da malária em áreas de garimpo no Norte do país em um período maior de tempo, de 2011 a 2023, e propõe estratégias para o controle da incidência da doença na região, a partir da revisão da literatura dos principais estudos sobre o tema. Foram usados dados de casos da doença registrados nestes 13 anos no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Malária) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
Segundo o pesquisador Pablo Sebastian Tavares Amaral, de 2018 a 2021, foi registrado um aumento de 108% nos casos de malária em pacientes das áreas de garimpo da região Amazônica. “Esses números podem ser subestimados, uma vez que, devido à atividade do garimpo ser ilegal, muitos omitem a informação de que são garimpeiros”, salienta Amaral, que é coautor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da UnB.
Em 13 anos, mais de 253 mil casos de malária foram registrados em áreas de garimpo. Os registros começam a subir, principalmente, a partir de 2020. Dentre as regiões mais afetadas, estão os estados do Mato Grosso e de Roraima, com aumento de casos entre 2017 e 2022, principalmente em áreas de garimpo ilegal. Em 2020, 59% dos garimpos brasileiros eram ilegais, segundo dados da pesquisa.
Ao mapear as áreas de garimpoimpactadas pela malária, a pesquisa traz resultados que podem orientar ações de vigilância e de controle da doença na Amazônia. “Conhecer as áreas prioritárias e a dinâmica da doença é essencial para direcionar melhor as ações”, explica Amaral. Ele ressalta que, por serem ilegais, as áreas de garimpo têm pouca estrutura de saúde, o que dificulta o tratamento para a doença.
O grande número de garimpos ilegais impõe desafios para o seu monitoramento, segundo o trabalho. Essas áreas acabam virando criadouros de mosquitos que transmitem a malária. Por isso, como estratégia, o estudo identifica a necessidade de revisar a legislação para aumentar o controle sobre o desmatamento e as atividades de garimpo, principalmente em terras indígenas.
Além dela, outras estratégias citadas são expandir a vigilância da malária, por meio da ação de agentes comunitários, e de ações multissetoriais para fornecer assistência imediata às populações indígenas. Outra proposição do estudo é de conectar dados de desmatamento e malária, inserindo alertas sobre desmatamento no Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária. Essas ações podem ter impacto na melhoria do diagnóstico e do tratamento da malária nas terras indígenas e outras regiões mais afetadas pela doença.
O grupo de pesquisa continua a fazer estudos sobre malária na Amazônia, procurando entender o impacto das grandes obras hidrelétricas na dispersão da doença. “Esses empreendimentos passam por um processo de licenciamento ambiental que insere a malária em um plano específico, diferente dos garimpos ilegais”, explica Amaral. O pesquisador procura entender se essas ações direcionadas podem ter efeito no controle da doença na região.
Grandes instituições financeiras mundiais concederam bilhões de dólares a empresas de petróleo e gás envolvidas em projetos que estão destruindo as florestas tropicais das Amazônia
A análise concluiu que, em média, 71% da Amazónia não está efetivamente protegida pelas políticas de gestão de risco dos bancos relativamente às alterações climáticas, à biodiversidade, à cobertura florestal e aos direitos dos povos indígenas. Fotografia: Bram Ebus/The Guardian
Por Jonathan Watts para o “The Guardian”
Cinco dos maiores bancos do mundo estão praticando “lavagem verde” para esconder o seu papel na destruição da Amazônia, de acordo com umrelatório que indica que as suas directrizes ambientais e sociais não conseguem cobrir mais de 70% da floresta tropical.
As instituições teriam fornecido milhares de milhões de dólares em financiamento a empresas de petróleo e gás envolvidas em projetos que estão a afetar a Amazônia, desestabilizando o clima ou afetando as terras e os meios de subsistência dos povos indígenas.
Os bancos afirmam que seguem políticas éticas que ajudam a proteger florestas intactas, pontos críticos de biodiversidade, territórios indígenas e reservas naturais. No entanto, a investigação afirma ter encontrado limitações geográficas e técnicas na sua capacidade de monitorizar e atingir estes objectivos declarados.
O relatório foi produzido pela organização de vigilância Stand.earth e pela Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA). As organizações mapearam a extensão dos compromissos de governança ambiental e social (ESG) de cinco principais financiadores de operadoras de combustíveis fósseis no bioma sul-americano. Esses bancos – Citibank, JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Santander e Bank of America – respondem juntos por mais da metade dos empréstimos a empresas deste setor.
A análise constatou que, em média, 71% da Amazônia não está efetivamente protegida pelas políticas de gestão de risco dos cinco bancos para mudanças climáticas, biodiversidade, cobertura florestal e direitos dos povos indígenas e comunidades locais.
As lacunas variaram significativamente de empresa para empresa. Num extremo do espectro está o JPMorgan Chase, cujas proteções à biodiversidade, dizem os autores do relatório, aplicam-se apenas a sítios do património mundial da Unesco que cobrem apenas 2% da Amazónia e são, em qualquer caso, pouco prováveis de serem considerados para exploração de petróleo e gás. .
Do lado positivo, o estudo elogiou o banco britânico HSBC, que já foi um grande financiador de projectos destrutivos na região, mas não forneceu qualquer financiamento desde que adoptou uma política de exclusão de 100% da Amazônia em Dezembro de 2022.
“Até agora, o HSBC tem cumprido a sua palavra”, disse Angeline Robertson, principal autora do relatório. “Isso mostra que isso pode ser feito e tem sido feito, mesmo por uma empresa que tinha uma grande participação”
Alguns bancos argumentam que desempenham um papel positivo ao encorajar as indústrias extractivas a adoptarem políticas mais responsáveis. No entanto, de acordo com os autores do relatório, embora os acordos de empréstimos bancários envolvam relações de longo prazo e influência potencial, a maior parte do financiamento dos cinco grandes assume a forma de obrigações sindicadas com finalidades corporativas gerais. Estas obrigações, que são uma prática padrão, têm fins amplamente definidos e requerem pouco ou nenhum acompanhamento depois de assinado um acordo. Isto dificulta potencialmente a aplicação de diretrizes de devida diligência em questões ambientais ou sociais específicas.
O banco espanhol Santander – o maior financiador europeu de petróleo e gás na Amazônia e o quarto maior a nível mundial, com quase 1,4 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de libras) em financiamento direto entre 2009 e 2023 – tem uma das mais extensas políticas de exclusão para o petróleo e o gás, abrangendo 16% da Amazônia, mas o relatório indica que 85% de suas transações são na forma de títulos sindicalizados, que carecem de transparência e reduzem a responsabilidade do banco como contribuinte para impactos adversos.
Os autores examinaram 560 transações envolvendo atividades de petróleo e gás por 280 bancos nos últimos 20 anos na Amazônia usando obanco de dados de bancos da Amazôniada Stand , para determinar se estruturas de negócios que contornam exclusões e telas ESG são comuns.
Descobriram que dois bancos norte-americanos, o Citibank e o JPMorgan Chase, disponibilizaram a maior parte do capital – 2,43 mil milhões de dólares e 2,42 mil milhões de dólares, respetivamente – para empresas que operam projetos de petróleo e gás na Amazónia. O JPMorgan Chase retirou-se recentemente da Associação dos Princípios do Equador, que serve como base comum para as instituições gerirem os riscos ambientais e sociais no financiamento de projetos.
O terceiro maior financiador nas últimas duas décadas é o Itaú Unibanco do Brasil, que, afirma o relatório, não tem quaisquer exclusões ou telas que se apliquem às operações de petróleo e gás na região. A base de dados mostra que financiou projetos da Eneva, Frontera, Geopark, Petrobras, Petroquímica Comodoro Rivadavia e Transportadora de Gas del Perú.
O quinto da lista erao Bank of America. No ano passado, foi o financiador número um de petróleo e gás na Amazónia e alargou 99% das transações sob a forma de obrigações sindicadas, diz o relatório, o que significa que estas transações não teriam necessariamente sido sujeitas a uma análise ESG reforçada.
O relatório insta os bancos a adotarem uma exclusão geográfica que abranja todas as transações envolvendo o setor de petróleo e gás na Amazônia. Os autores dizem que isto é essencial porque a floresta tropical é o sumidouro terrestre de carbono mais importante do mundo e o lar da biodiversidade, mas está a degradar-se até umponto sem retorno .
“Estamos literalmente vivendo em uma floresta tropical em chamas, nossos rios estão poluídos ou secando”, disse Fany Kuiru, coordenadora geral da COICA. “Nosso destino é o seu destino: a Amazônia é crítica para o futuro do nosso planeta. Os bancos tentam lavar as mãos da culpa através de políticas vagas, mas devem ser responsabilizados pelos danos que o seu dinheiro está a causar aos povos indígenas da Amazónia e à biodiversidade da floresta tropical. Nem uma única gota do petróleo amazônico foi extraída com o consentimento dos povos indígenas. Exigimos que Citibank, JPMorgan Chase, Itaú Unibanco, Santander e Bank of America acabem com o financiamento de petróleo e gás.”
Desde que o Stand.earth lançou a sua campanhaExit Amazon Oil and Gas, afirma que vários bancos, incluindo BNP Paribas, Natixis, ING e Credit Suisse, prometeram acabar com o financiamento do comércio de petróleo dos portos do Equador e do Peru, que cobre grande parte do comércio de combustíveis fósseis da Amazônia. O HSBC e o Barclays também aplicaram políticas abrangentes de exclusão geográfica.
Os autores afirmam que querem trabalhar com os restantes financiadores do petróleo e do gás amazónico para reforçar as suas políticas ESG e excluir dos seus portfólios os projetos petrolíferos na floresta tropical.
Robertson disse que os cinco bancos têm políticas que “parecem muito simbólicas; parecem ter mais a ver com riscos para a reputação do que com riscos de impactos no terreno”. Mas ela enfatizou que isso pode mudar. “Existem muitas oportunidades para os bancos responderem adequadamente e incorporarem o risco ambiental nas suas carteiras, porque é isso que o futuro reserva. Com as alterações climáticas e a perda de biodiversidade a pairar sobre nós, precisamos que os bancos tomem melhores decisões para o bem dos seus clientes e dos seus próprios interesses comerciais. Este é um acerto de contas aqui e um chamado à responsabilidade.
“Tentamos dar uma ideia dos efeitos adversos no terreno. Este é um esforço não apenas para revelar o greenwashing dos bancos, mas também para colocar as vozes dos mais afetados na Amazônia”.
Alguns membros do sector financeiro contestam a metodologia do relatório, dizendo que não era apropriado somar financiamento plurianual, linhas de crédito, refinanciamento e financiamento indirecto e depois sugerir que este montante foi canalizado para um grupo específico. Disseram que os empréstimos para fins corporativos gerais há muito que constituem a grande maioria dos mercados de crédito e que seria necessário perguntar a empresas específicas se ou como este capital é utilizado.
Vários bancos afirmaram que aplicam as diretrizes ESG a títulos de finalidade corporativa geral.
O Citibank disse que tinha uma “ política abrangente de gestão de riscos de segurança empresarial , que descreve nossas expectativas para os clientes e nos leva a fazer a devida diligência em torno de atividades com riscos elevados relacionados aos direitos humanos, biodiversidade, povos indígenas, habitats críticos, conflitos comunitários e/ou justiça ambiental. Envolvemo-nos diretamente com os clientes para avaliar o seu compromisso, capacidade, políticas, sistemas de gestão e pessoal para gerir estes riscos ambientais e sociais específicos.” A empresa atualizou sua política de riscos agrícolas em 2022.
O JPMorgan Chase disse: “Apoiamos os princípios fundamentais dos direitos humanos, incluindo os direitos dos povos indígenas, em todas as nossas linhas de negócios e em cada região do mundo em que operamos. O nosso relatório ESG de 2023 reflete as nossas políticas e práticas relativas aos riscos ambientais e sociais, bem como aos direitos humanos, incluindo atividades restritas e atividades comerciais sensíveis. A triagem de clientes e transações em relação às nossas atividades restritas e atividades comerciais sensíveis sujeitas a revisão aprimorada inclui atividades de financiamento do GCP (fins corporativos gerais). Não se limita ao financiamento de projetos.”
Em relação à decisão do JPMorgan Chase de deixar a Equator Principles Association, um porta-voz acrescentou que a adesão à EPA “não era necessária para que pudéssemos defender de forma independente os melhores padrões de gestão de risco ambiental e social” e que a empresa permaneceria alinhada aos princípios da organização .
O Bank of America referiu ao Guardian a sua estrutura de política de risco ambiental e social, que observa “devida diligência aprimorada para transações em que a maior parte do uso dos recursos é atribuída a atividades identificadas que podem impactar negativamente uma área usada ou tradicionalmente reivindicada por uma comunidade indígena”. ”.
Um porta-voz do Santander disse: “Compreendemos perfeitamente a importância de proteger a Amazônia e apoiar o desenvolvimento sustentável na região. Todas as decisões de financiamento são orientadas por um quadro político rigoroso aprovado pelo nosso conselho de administração, e as nossas atividades estão alinhadas com todas as regulamentações ambientais da região. Também estamos ativamente envolvidos em diversas iniciativas do setor para proteger a região e trabalhar proativamente com os clientes, bem como com outros bancos, governos, reguladores e outras instituições para ajudar a melhorar as práticas, reconhecendo que este é um desafio altamente complexo que requer uma resposta multifacetada e multilateral. .”
O Itaú Unibanco não havia respondido ao pedido de comentários do Guardian no momento da publicação.
Pátio de estocagem de madeira extraída no interior de uma floresta na Amazônia brasileira
Desde um artigo publicado na revista Scienceem 2020 ficou demonstrado que o processo de degradação florestal causado pelaextração seletiva de madeirae por incêndios se tornou mais abrangente em termos de área afetada do que o processo de desmatamento. O aumento das áreas afetadas pela degradação em combinação ou não com o desmatamento representa uma ameaça séria à capacidade das florestas amazônicas de oferecer uma série de serviços ecossistêmicos, a começar pela regulação das temperaturas.
Agora em um artigo publicado ontem (07/6) pela revista Ciência Florestal se toronou possível entender melhor a abrangência e a distribuição temporal dos impactos da extração seletiva de madeira nas florestas do estado Pará. Neste estudo, foram analisadas a dinâmica espacial e temporal das florestas perturbadas pela exploração seletiva de madeiras no estado do Pará, utilizando uma série temporal (1992 a 2018) de imagens Landsat e técnicas de sensoriamento remoto. Assim, as florestas afetadas por atividades de exploração seletiva foram mapeadas aplicando interpretação visual e técnicas de sensoriamento remoto semiautomática.
Os resultados deste estudo mostraram que aproximadamente 20% das florestas exploradas seletivamente para fins madeireiros foram desmatadas no período estudado no estado do Pará. Além disso, o estudo mostra que a área total de florestas alterada pela exploração seletiva de madeiras superou a área desmatada em alguns anos analisados.
Um aspecto especialmente preocupante foi a detecção do aumento de florestas exploradas seletivamente dentro de áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) entre 1992 e 2018 (ver imagem abaixo).
Áreas afetadas por extração seletiva de madeira no estado do Pará entre 1992 e 2018.
Além disso, a maioria das florestas exploradas seletivamente estava localizada na região conhecida como Arco do Desmatamento na Amazônia brasileira. Entretanto, nos anos mais recentes da análise, as florestas impactadas por atividades madeireiras foram detectadas nas novas fronteiras de desmatamento localizadas na região oeste do estado do Pará. Com isso, há uma ampliação do processo de degradação florestal e, consequentemente, da diminuição da capacidade das florestas de ofereceram serviços ecossistêmicos.
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O desmatamento e as mudanças climáticas podem ajudar os mosquitos a espalhar o vírus Oropouche para muito além da Bacia Amazônica
Casos de febre Oropouche em Manaus, na Amazônia brasileira, têm sido associados ao desmatamento. Michael Dantas/ AFP via Getty Images
Por Sofia Moutinho para a Science
Um patógeno pouco conhecido chamado vírus Oropouche está em movimento na América do Sul, alarmando cientistas e especialistas em saúde pública. O Brasil notificou 5.530 casos até agora este ano, em comparação com 836 em todo o ano de 2023. Bolívia, Colômbia e Peru também registraram aumentos. Embora o vírus tenha sido tradicionalmente endêmico na Bacia Amazônica, agora está adoecendo pessoas distantes da floresta tropical. Em maio, Cuba relatou seus primeiros casos.
O aumento deixou os cientistas preocupados com o fato de que o vírus, transmitido principalmente por mosquitos que picam, possa ser o próximo a causar um grande surto na América Latina, que lutou contra grandes epidemias de Zika e Chikungunya na última década e agora está no meio de uma das maiores epidemias de zika e chikungunya. as piores epidemias de dengue de todos os tempos. A maioria dos casos de febre Oropouche são leves, com sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas – mas o vírus também pode causar inflamação cerebral e problemas neurológicos, incluindo vertigens e letargia. E mesmo uma epidemia ligeira poderia sobrecarregar os sistemas de saúde do continente.
“O que mais nos preocupa é a expansão de uma doença que estava praticamente restrita à Amazônia, que tem baixíssima densidade populacional, para áreas com maior densidade populacional”, diz Marcus Lacerda, pesquisador de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).
A estirpe que provocou o surto teve origem numa alteração genética há uma década, mas o vírus Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, na aldeia de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Em 1960, apareceu em amostra de sangue de uma preguiça doente durante a construção da rodovia Belém-Brasília. Um ano depois, muitas pessoas em Belém adoeceram com o que se acreditava ser a febre Oropouche. A maioria dos cerca de 30 surtos na América Latina desde então também ocorreu na Bacia Amazônica. Na floresta, o vírus circula entre primatas, preguiças e aves; não está claro qual inseto o espalha lá. Em ambientes urbanos, o mosquito Culicoides paraensis, do tamanho de uma cabeça de alfinete , transmite a doença entre humanos.
Os primeiros casos do surto atual foram detectados em Roraima, estado do norte do Brasil, no final de 2022. Desde então, a doença surgiu ao longo da populosa Costa Leste do Brasil, incluindo os estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, e Minas Gerais. Alguns pacientes viajaram pela região amazônica, mas outros não, o que significa que o vírus agora circula localmente. Os números provavelmente estão subestimados: os sintomas do Oropouche se assemelham aos da dengue, do zika e de várias outras doenças, e uma infecção só pode ser confirmada por meio da reação em cadeia da polimerase ou testes de anticorpos.
Para os poucos cientistas que estudam a febre Oropouche, nada disto foi uma grande surpresa. Desde 2000, o vírus tem se aventurado cada vez mais fora de sua região endêmica, diz a virologista Socorro Azevedo, do Instituto Evandro Chagas, centro de pesquisa de doenças tropicais na Amazônia brasileira. “O que estamos vendo é a crônica de uma tragédia anunciada”, diz ela.
O aumento da circulação de pessoas em todo o continente e entre áreas florestais e urbanas poderá estar a contribuir para a propagação. Os cientistas também veem uma ligação clara com o desmatamento , que poderia deslocar os animais hospedeiros do vírus e fazer com que os mosquitos se alimentassem de pessoas em vez de animais. Em Manaus, capital do estado do Amazonas, os primeiros casos do atual surto foram detectados perto de áreas recentemente desmatadas. Estudos utilizando imagens de satélite confirmaram a ligação. “Em vários locais onde o vírus foi detectado na América do Sul, detectamos consistentemente padrões de desmatamento”, diz Daniel Romero-Álvarez, epidemiologista da Universidade Internacional SEK em Quito, Equador.
As alterações climáticas provavelmente também desempenharam um papel. As temperaturas mais altas aceleram a maturação dos mosquitos, e o aumento das chuvas e das inundações criam mais água parada onde os insetos podem se reproduzir.
O Brasil agora está intensificando a vigilância. No passado, apenas laboratórios da região amazônica faziam testes para a doença, mas em janeiro o país decidiu testar 10% das amostras de pacientes em todo o país cujos sintomas correspondem à febre Oropouche, mas apresentam resultado negativo para zika, chikungunya e dengue. A Organização Pan-Americana da Saúde instou outros Estados-membros a intensificarem também a vigilância e organizou um workshop para formar investigadores e médicos de todo o continente sobre como diagnosticar a doença e realizar análises genómicas do vírus.
Não se sabe se a febre Oropouche matou alguém, mas algumas suspeitas de morte estão sob investigação, afirma o virologista da Fiocruz, Felipe Naveca. “À medida que aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta também a chance de descobrirmos impactos inesperados”, diz Naveca, que observa que o Zika, uma doença que inicialmente parecia relativamente inócua, levou a uma onda de bebês nascidos com cérebro subdesenvolvido de mulheres infectadas com o vírus. O vírus Oropouche também pode infectar o cérebro, ressalta.
Controlar Oropouche é um desafio. C. paraensis é “um vetor negligenciado de uma doença negligenciada”, diz Joaquim Pinto Nunes Neto, entomologista do Evandro Chagas. “Ninguém se importou em estudar como controlá-lo.” Os minúsculos mosquitos passam facilmente pela malha dos mosquiteiros e os repelentes comuns de insetos podem não funcionar, diz Nunes Neto. O que pode ajudar é eliminar o desperdício de alimentos e as folhas mortas que atraem os insetos e drenar os reservatórios de água onde as fêmeas depositam os ovos.
Até onde a doença pode se espalhar não está claro. C. paraensis foi encontrado desde os Estados Unidos até o norte da Argentina, mas nem todos os lugares apresentam as condições adequadas para a propagação do Oropouche. Um modelo publicado em 2023 por Romero-Álvarez que levou em consideração o clima atual e a perda de vegetação sugeriu que até 5 milhões de pessoas nas Américas estão em risco. Mas o número é provavelmente subestimado, uma vez que o modelo não previu a atual expansão da doença para grandes cidades como o Rio de Janeiro e não teve em conta a desflorestação e as alterações climáticas futuras. Também não levou em conta a possibilidade de que o mosquito doméstico comum ( Culex quinquefasciatus ) – e talvez outros insetos – possam transmitir o Oropouche, como sugerem alguns estudos.
Os cientistas temem que, à medida que o vírus se espalha, possa sofrer alterações genéticas que o tornem mais perigoso. Os genomas da maioria dos vírus transmitidos por insetos consistem em apenas um segmento de RNA, mas o vírus Oropouche possui três. Quando duas cepas diferentes infectam a mesma célula, elas podem trocar segmentos, resultando em uma combinação nova e diferente de genes. Naveca, que lidera um grupo que rastreia mutações de Oropouche, atribuiu o atual surto a uma variante que surgiu no Brasil em 2015a partir de um rearranjo entre linhagens de vírus do Peru e da Colômbia. Não está claro se essa troca tornou o vírus mais transmissível, diz Naveca.
Com tantas perguntas a responder, é urgente que os testes sejam alargados e que mais investigadores estudem o vírus Oropouche e rastreiem as alterações no seu genoma, Naveca diz: “Precisamos tirar este vírus das sombras”.
Sofia Moutinho é jornalista científica no Rio de Janeiro