O discurso delirante de Jair Bolsonaro na ONU aumentará isolamento do Brasil

bolsonaro-onuO discurso fortemente ideológico de Jair Bolsonaro na assembleia geral da ONU deverá aprofundar o isolamento do Brasil

Acabei de assistir à relativamente longa (pelos padrões praticados até aqui em eventos multilaterais) e dolorosa fala do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). O doloroso fica por conta da tarefa árdua de ouvir o amontoado de clichês que alguém colocou no papel para ser lido por um presidente que objetivamente não possui a menor noção dos problemas que seu ainda breve governo já criou para o Brasil. E que agora certamente aumentarão como fruto de um discurso puramente ideológico cuja essência é negar fatos concretos.

Das questões mais notáveis da fala de Jair Bolsonaro estão os ataques à mídia, à Cuba e À Venezuela, ao cacique Raoni Metuktire, ao globalismo, às ditas ingerências na soberania do Brasil, e desaguando em uma citação bíblica, a de João 8:32 (E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”).

Não faltou ainda os ataques a uma suposta ideologização da sociedade brasileira, que estaria perpassando todos os segmentos imagináveis, começando, obviamente, pela mídia que estaria mostrando, por exemplo, uma devastação inexistente na Amazônia brasileira. Nesse quesito, Jair Bolsonaro apresentou números muito peculiares, tanto na área do território nacional usada para agricultura (que seriam meros 8%) e para a conservação ambiental (estrondosos 60%).  Bolsonaro não deixou citar as comparações com o que estaria sendo usado para agricultura em países como Alemanha e França, os quais, segundo ele, usariam quase 6 vezes mais do seu território para produzir alimentos.

Um momento esquisito do discurso foi a deferência especial à Israel que teria enviado suas tropas para participar de ações de resgates no Brasil (o que se reduziu a 4 dias em Brumadinho e 4 dias em Rondônia). O problema é que essa deferência toda antecedeu uma sinalização de que o Brasil pretende aprofundar suas parcerias com os países árabes, os quais têm visto a aproximação com Israel com grande reserva, o que já resultou em grandes perdas econômicas.

Na mesma direção, o presidente Bolsonaro misturou ataques aos países europeus com uma saudação ao acordo de livre comércio com a União Europeia.  Esse acordo, como sabemos, subiu no telhado após o início das queimadas devastadoras que ocorreram na Amazônia como fruto do avanço da franja de desmatamento.

Interessante notar que o secretário de estado dos EUA,  Mike Pompeo, chegou no minuto final do discurso de Jair Bolsonaro, o que demonstra de forma cabal o isolamento diplomático em que o Brasil está posto neste momento. 

Este isolamento certamente será agravado pelo ataque direto que foi feito ao cacique Raoni e a apresentação de uma suposta liderança indígena,  a youtuber Ysani Kalapalo, para tentar legitimar suas visões de exploração de riquezas dentro das áreas indígenas.

A forma com que o discurso foi recebido foi evidenciado pelo silêncio que se seguiu a ele.  O fato é que os problemas políticos e econômicos que o Brasil vive neste momento têm tudo para piorar depois desse discurso lamentável.

Um adendo necessário é a extrema semelhança do discurso de Jair Bolsonaro com o seu parceiro preferencial, Donald Trump. Determinados trechos do discurso de Donald Trump que se seguiu imediatamente ao de Bolsonaro saíram da mesma cartilha que repete a cantilena do anti globalismo. Como dificilmente, o Departamento de Estado dos EUA daria ouvidos a Jair Bolsonaro para preparar o discurso de Trump, o mais provável é que o contrário tenha ocorrido. 

 

Boicote sueco: Estadão publica entrevista com Johannes Cullberg

culbberg 1

O jornal Estado de São Paulo publicou hoje uma entrevista realizada pelo jornalista Douglas Gavras com o fundador e CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, sobre o boicote a produtos agrícolas brasileiras que foi iniciado em junho quando o governo Bolsonaro havia autorizado a comercialização de 197 agrotóxicos (hoje este número atingiu 353!).

cullberg

A publicação desta entrevista é revestida de caráter especialmente simbólico, pois ocorre em um momento em que o Brasil se encontra sob forte pressão internacional não apenas em função do ritmo “the flash” das aprovações de agrotóxicos altamente perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana, mas também por causa das altas taxas de desmatamento que estão ocorrendo na Amazônia brasileira após a instalação do governo Bolsonaro.  É que, como está explícito nas respostas de Johannes Cullberg, estas duas questões foram as que o motivaram a iniciar o seu boicote em junho.

Também é interessante notar que, segundo Cullberg,  vem aumentando a possibilidade de que o boicote iniciado por ele atinja setores ainda mais amplos, justamente por causa da falta de disposição do governo Bolsonaro em reverter o curso adotado de desmantelar a governança ambiental existente no Brasil, bem como de desmantelar os mecanismos de comando e controle que inibiam a ação mais aguda de atores que contribuem para o avanço da degradação ambiental na Amazônia.

 

Corais da Amazônia estão vivos e crescem, revela novo estudo

Após críticas de políticos e cientistas, novo estudo aponta que algas, esponjas e corais de recifes na foz do Amazonas seguem em expansão. Especialistas pedem preservação na região cobiçada pela indústria do petróleo.

Foto tirada a 100m de profundidade é a primeira em alta definição que mostra corais nos recifes da Amazônia. À esquerda, algas vermelhas; no centro, corais em forma de cilindros esponjosos brancos, de diferentes tamanhos; e à direita, algas verdes e marrons, similares a galhos de coníferas.Primeira foto em alta definição mostra corais nos recifes da foz do Amazonas

Desde que foi descrito como um dos ecossistemas mais importantes num local pouco provável do oceano Atlântico, o grande complexo de recifes da Amazônia despertou crítica no mundo científico e político. A região onde está localizado, na foz do rio Amazonas, é cobiçada pela indústria do petróleo com uma reserva estimada em até 14 bilhões de barris

Novas descobertas agora revelam mais detalhes sobre os recifes: estão vivos e em expansão. É a conclusão de um artigo científico publicado na revista Nature Scientific Reports nesta segunda-feira (23/09).

“O que nós fizemos foi determinar as idades da estrutura da área e mostramos que as idades são atuais, ou seja, os recifes continuam crescendo, mesmo abaixo da pluma [de sedimentos transportada pelo Amazonas]”, afirma a DW Brasil Michel Mahiques, do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), e primeiro autor do artigo.

Para muitos políticos e cientistas não envolvidos no estudo, seria impossível encontrar esse tipo de vida abaixo da pluma do Amazonas, que carrega materiais depositados pela floresta por centenas de quilômetros depois de encontrar o Atlântico. Essas características influenciam a composição da água salgada e luminosidade que chega ao fundo do mar.

Em dezembro passado, a Fiepa, Federação das Indústrias do Pará, organizou um seminário em que classificou como “falsos” os estudos previamente publicados e que ONGs estariam “interferindo no desenvolvimento da Amazônia”.

No entanto, análises feitas por pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e publicadas em revistas científicas apontam que há recifes espalhados por uma área que chega a 900 km de comprimento, que se estende pela costa norte brasileira, na faixa dos estados do Pará e Maranhão, até a Guiana FrancesaEstima-se que o recife tenha cerca de 56 mil km².

Formados por algas, esponjas e corais, esses recifes chegam a até 220 metros de profundidade, começaram a ser formados há cerca de 13 mil anos e se desenvolveram sob diferentes condições de luminosidade até se espalharem pela porção sul do Atlântico, afirma o artigo.

Segundo os autores, a análise dos materiais coletados no local em 2017 e 2019, feita com a técnica baseada no uso do Carbono 14, apontou idades modernas. “São mais jovens que 1950, que é a idade de referência do radiocarbono”, pontua Mahiques. Com a técnica de datação baseada no carbono radioativo é possível rastrear materiais de até 45 mil anos de idade.

“É preciso lembrar que uma porção muito pequena dos recifes foi mapeada até o momento”, ressalta Mahiques. “A importância dele reside muito mais na biodiversidade do que na existência de corais”, complementa.

Ciência e discórdia

A possibilidade de existência desse ecossistema na região da foz do rio Amazonas é citada por cientistas desde de meados de 1970. Por outro lado, foi só em 2016 que um estudo reuniu dados suficientes para comprovar a hipótese, que causou grande repercussão.

Em 2018, uma expedição científica a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace, comprovou a existência de recifes sobre a faixa onde empresas de petróleo aguardavam autorização do governo brasileiro para perfurar. Além das estruturas recém-descobertas, a região tem uma das correntes mais fortes do mundo, que impõe dificuldades técnicas para instalação de plataformas de petróleo e poderia causar grandes estragos em caso de vazamento.

Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), participou daquela missão. “Não acreditar que o Recife do Amazonas existe é o mesmo que não acreditar em mudanças climáticas”, diz sobre os questionamentos feitos após a comprovação da existência das estruturas.

Na avaliação de Francini-Filho, um dos autores do artigo da Nature Scientific Reports, o negacionismo científico tem sido usado para justificar projetos que promovem elevada degradação ambiental em todo o mundo.

Corais da Amazônia registrados em 2018: imagem submarina feita por robô mostra corais amarelos e esponjas coloridas sobre pedras e areia branca em tons de azul por causa da água; ao fundo, diversos peixes de diferentes cores.Especialistas pedem preservação da região alvo de indústrias petrolíferas

“Enquanto que uma maioria de cientistas indica que o aquecimento global está sendo causado principalmente pela ação humana, setores interessados na expansão de fontes de energia que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa, como queima de petróleo, negam que existam mudanças climáticas”, argumenta Francini-Filho.

O pesquisador ressalta que diferentes trabalhos científicos nos últimos dez anos têm apontado a existência de recifes de corais vivos até abaixo de 150 metros de profundidade. “No caso do Amazonas, temos um trabalho de sensoriamento remoto demonstrando que existe luz suficiente para o crescimento de corais e outros organismos construtores em áreas profundas da plataforma norte do Brasil, mesmo com a alta turbidez da água”, argumenta, fazendo referência ao artigo divulgado na publicação científica especializada em ambientes marinhos em águas superficiais Continental Shelf Research.

Interesse da indústria do petróleo

Por causa da reserva de petróleo estimada na foz do Amazonas, empresas internacionais e brasileiras tentam há anos obter licença para exploração. No fim de 2018, um parecer do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) barrou definitivamente o processo de licenciamento da Total. O da britânica BP continua em andamento.

Após as revelações da ciência e na tentativa de preservar o ecossistema ainda pouco conhecido, a ONG Greenpeace lançou a campanha internacional “Defenda os Corais da Amazônia”. No início de setembro, uma equipe de profissionais realizou o primeiro mergulho profundo no local. Até então, o fundo do mar naquela porção tinha sido “visitado” por um submarino e um robô.

“Não podemos nos dar ao luxo de perfurar e queimar mais petróleo. Como uma comparação, mesmo se o desmatamento da Amazônia acabasse amanhã, se as reservas estimadas na região dos Corais da Amazônia forem queimadas, seria o mesmo que continuar a desmatar por mais oito anos”, diz Thiago Almeida, coordenador da campanha do Greenpeace.

Diante da polêmica, Fabiano Thompson, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, ressalta que há um grande potencial para criar novas soluções baseadas na biodiversidade dos recifes do Amazonas, e que é preciso saber respeitar resultados científicos.

“Precisamos desenvolver pesquisa científica independente. E as empresas precisam aprender a desenvolver a cultura de tomada de decisões com base em evidências científicas”, afirmou à DW Brasil, citando que essa abordagem é comum para a criação de políticas públicas na Europa. “É importante parar esta atitude predatória e que compra cumplicidade de certos ‘pesquisadores’ para avalizar atividades sem evidência científica”, opina Thompson.

_________________________________________

Este artigo foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!]. 

 

Cientista da Uenf é co-autor de novo artigo sobre os corais da Amazônia

CarlãoProfessor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf, Carlos Eduardo de Rezende é um dos co-autores de novo artigo sobre os recifes de corais da Amazônia

Os recifes de corais na foz do Rio Amazônia cuja existência modificou os paradigmas científicos acerca deste tipo de formação resultaram em mais uma importante publicação na prestigiosa revista “Scientific Reports”, que é produzida pelo grupo “Nature”, sob o título “Insights on the evolution of the living Great Amazon Reef System,equatorial West Atlantic“.

nature 1

Na equipe de cientistas que realizou as pesquisas que resultaram em uma importante contribuição ao processo evolutivo dos recifes de corais do “Grande sistema de corais de recife da Amazônia” (ou simplesmente GARS em sua nomenclatura inglesa) está o professor Carlos Eduardo de Rezende do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).  Carlos Rezende foi um dos coordenadores dos estudos que resultaram na descoberta dos recifes de corais na foz do Rio Amazonas e continua ativamente envolvido nas pesquisas do GARS.

Segundo Rezende, o artigo  “amplia o conhecimento sobre aspectos evolutivos do GARS usando informações primárias e secundárias sobre datação por radiocarbono a partir de amostras de carbonato“.  Para o pesquisador da Uenf,  os resultados obtidos demonstram que o recife está vivo e em crescimento, com organismos vivos habitando o sistema em sua totalidade.  

Este slideshow necessita de JavaScript.

Um dos impactos práticos dessa pesquisa que continua transformando a ciência dos recifes de corais será a dificuldade de exploração das reservas de petróleo e gás que porventura existam em uma região que se mostra extensa e ocupada por um sistema altamente complexo e de marcante biodiversidade.

Finalmente, os resultados desta pesquisa reafirmam a importância da Uenf enquanto centro de formação de jovens pesquisadores, visto que, sob a orientação de Carlos Eduardo de Rezende, dezenas de estudantes de graduação e pós-graduação participaram do processo de investigação científica que resultou na descoberta do GARS.

 

 

 

 

Intercept revela plano de Bolsonaro para exploração da Amazônia ‘movido a paranoia’

Documentos e áudios inéditos obtidos pelo portal mostram projeto para povoar Amazônia “contra chineses, ONGs e Igreja Católica”

Plano-De-Desenvolvimento-Da-Amazonia-1Reportagem obteve plano detalhado de “desenvolvimento” da região amazônica. Plano é explorar riquezas minerais e naturais por empresas estrangeiras

Por Tatiana Dias para a RBA

São Paulo – governo de Jair Bolsonaro está discutindo, desde fevereiro, o maior “plano de ocupação e desenvolvimento da Amazônia” desde a ditadura militar. Gestado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, com coordenação de um coronel reformado, o projeto Barão de Rio Branco retoma o antigo sonho militar de povoar a região, com o pretexto de a desenvolver e proteger a fronteira norte do país.

Documentos inéditos obtidos pelo Intercept detalham o plano, que prevê o incentivo a grandes empreendimentos que atraiam população não indígena de outras partes do país para se estabelecer na Amazônia e aumentar a participação da região norte no Produto Interno Bruto do país.

A revelação surge no momento em que o governo está envolvido numa crise diplomática e política por conta do aumento do desmatamento no Brasil. Bolsonaro se comprometeu a proteger a floresta em pronunciamento em cadeia nacional de televisão, mas o projeto mostra que a prioridade é outra: explorar as riquezas, fazer grandes obras e atrair novos habitantes para a Amazônia.

O plano foi apresentado pela primeira vez em fevereiro deste ano, quando a secretaria ainda estava sob o comando de Gustavo Bebbiano. O então secretário-geral da Presidência iria à Tiriós, no Pará, em uma comitiva com os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Damares Alves, dos Direitos Humanos, para se reunir com entidades locais.

Bolsonaro, no entanto, não sabia da viagem. Foi surpreendido pelas notícias e vetou a comitiva — uma das razões que culminaram na crise que tirou Bebbiano do governo em 18 de fevereiro. O plano acabou sendo apresentado dias depois só pelo coronel reformado Raimundo César Calderaro, seu coordenador, sem alarde, em reuniões fechadas com políticos e empresários locais.

Parte do conteúdo do encontro foi revelado no mês passado pelo Open Democracy. O Intercept, agora, teve acesso a áudios e à apresentação feita durante uma reunião organizada pela Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos no dia 25 de abril deste ano na sede da Federação da Agricultura do Pará, a Feapa, em Belém. A secretaria afirmou ter reunido a sociedade, academia e autoridades locais para ouvir opiniões e sugestões que guiarão os estudos sobre o programa. Mas os documentos, até agora inéditos, revelam que indígenas, quilombolas e ambientalistas parecem ter ficado de fora da programação.

Na apresentação, os responsáveis esmiuçaram a preocupação do governo com a “campanha globalista” que, de acordo com o material, “relativiza a soberania na Amazônia” usando como instrumentos as ONGs, a população indígena, quilombola e os ambientalistas. E afirmaram ser necessária a execução de obras de infraestrutura — investimentos “com retorno garantido a longo prazo” —, como hidrelétricas e estradas, para garantir o desenvolvimento e a presença do estado brasileiro no local.

Leia a reportagem completa do The Intercept Brasil

_________________________________________________________

Este artigo foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Mais de 200 investidores internacionais pedem ações em defesa da Amazônia

Em declaração conjunta, investidores pedem que empresas adotem medidas para impedir desmatamento, alertando que colapso do ecossistema traria “perturbações graves ao setor agrário e a outras atividades econômicas”.

MADEIRAMadeira obtida a partir de desmatamento ilegal no Pará: investidores pedem ações contra destruição da Floresta Amazônica

Um grupo de mais de 200 investidores institucionais de diversos países assinou uma declaração exigindo que empresas tomem ações concretas para impedir a destruição da Floresta Amazônica e alertando para os efeitos econômicos de um colapso do ecossistema na região.

A ONG Ceres, que divulgou o documento nesta quarta-feira (18/09), afirmou em nota que 230 gestores de investimentos, responsáveis pela administração de 16,2 trilhões de dólares, requisitam com urgência a empresas que redobrem seus esforços para “demostrar compromisso claro de eliminar o desmatamento no âmbito de suas operações e cadeias de abastecimento”.

Os signatários incluem investidores como os departamentos de gestão de ativos dos bancos HSBC, BNP Paribas e Deka e fundos de pensão públicos como o CalPERS, da Califórnia, segundo a nota da Ceres. A organização, sediada em Boston, visa promover a sustentabilidade entre os investidores.

“É com grande preocupação que acompanhamos a crescente crise do desmatamento e dos incêndios florestais no Brasil e na Bolívia. Como investidores, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais têm no combate às mudanças climáticas, na proteção da biodiversidade e na garantia dos serviços ecossistêmicos”, diz a declaração.

“O desmatamento na região poderia, potencialmente, levar todo o ecossistema perigosamente a um ponto de inflexão, após o qual a floresta tropical não estará apta a se manter, se tonando gradualmente um sistema semelhante às savanas, bem mais seco, sem biodiversidade e armazenando quantidades significativamente menores de carbono.”

“Isso causaria perturbações graves ao setor agrário e a outras atividades econômicas, com a redução das chuvas e o aumento das temperaturas no longo prazo”, diz o documento.

A declaração pede que as empresas implementem uma “política antidesmatamento” que inclua “comprometimentos quantificáveis” e avalie e torne públicos os riscos que as cadeias de abastecimento impõem às florestas.

Os investidores também pedem um sistema de monitoramento dos parceiros nessas cadeias e relatos anuais sobre a “exposição e gerenciamento do risco de desmatamento”. 

Jan Erik Saugestad, CEO da gestora de ativos norueguesa Storebrand, uma das signatárias da declaração, avalia que os “significativos impactos econômicos negativos associados a essas questões representam um risco que os investidores não podem ignorar”.

A declaração não diz explicitamente que os signatários estão ameaçando retirar investimentos de empresas, mas aumenta a pressão que as corporações internacionais e os investidores vêm exercendo sobre parceiros que operam na Amazônia.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) afirmam que apenas no mês de agosto, a Amazônia perdeu 1.698 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, área 222% maior do que a desmatada no mesmo mês de 2018, que foi de 526 quilômetros quadrados.

A área desflorestada da Amazônia nos oito primeiros meses de 2019 chegou a 6.404 quilômetros quadrados, número 92% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (3.337 quilômetros quadrados), segundo dados obtidos pelo Deter, levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, feito pelo Inpe.

RC/rtr/ots

__________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui! ].

Amazônia em chamas: fogo consome APA de Alter do Chão

alter do chão

Área de Proteção Ambiental de Alter do Chão, localizada em Santarém (PA), está sendo consumida por um gigantesco incêndio.

Apesar de ter saído das manchetes dos principais veículos da mídia corporativa brasileira, as queimadas continuam devastando boa parte da Amazônia brasileira, atingindo inclusive conhecidos redutos de turismo. 

O vídeo abaixo mostra as chamas que estão devastando o distrito paraense de Alter do Chão, município de Santarém, um dos principais pontos de turismo da Amazônia.

A situação é tão grave que o governo do Pará já solicitou o auxílio da chamada Força Nacional para tentar controlar o gigantesco incêndio que está ocorrendo em Alter do Chão.

alter do chão 2

O fato é que a Amazônia continua vivendo um período drástico de devastação, muito em parte como resultado do desmanche da precária governança ambiental e dos mecanismos de comando e controle pelo governo Bolsonaro.

Negacionismo climático de Ernesto Araújo causará graves danos econômicos ao Brasil

araujoEm seu tour pelos EUA, o chanceler Ernesto Araújo parece disposto a aumentar o enorme imbróglio diplomático em que o Brasil está metido.

O ministro de Relações Exteriores do governo Bolsonaro, o embaixador junior Ernesto Araújo, é um conhecido negacionista das mudanças climáticas.  Araújo já declarou, inclusive, que as mudanças climáticas não passam de um complô orquestrado por marxistas.

Até aqui a veia negacionista do chanceler brasileiro estava mais ou menos restrito ao consumo interno. Mas com sua fala no dia de ontem no “think thank” conservador Washington’s Heritage Foundation, as ideias e percepções de Ernesto Araújo passaram a ser de conhecimento planetário, inclusive nos EUA onde existe um acirrado debate sobre as posturas negacionistas do governo de Donald Trump (ver vídeo abaixo).

Em sua fala para plateia amiga, Ernesto Araújo chega a divulgar um conceito pouco corrente, o “climatismo”,  que seria segundo ele uma espécie de tese alarmista com o objetivo de violentar as formas democráticas de governança.  Mas a azeitona da empada de Araújo foi quando ele concluiu afirmando que “A Amazônia é o palco inicial na luta contra o globalismo e pela recuperação da dignidade humana”.

Ainda que a posição de negacionismo das mudanças climáticas do chanceler do governo Bolsonaro possa agradar a setores extremistas da política mundial, o problema é que todas os dados e falas usados para negar o óbvio terão como consequência o afastamento de investidores do Brasil, justamente em um momento em que o país necessita de aportes econômicos para serem injetados em atividades produtivas.

Um sintoma de que a fala de Araújo caiu muito mal até nos EUA foi uma série de tweets de Ishaan Tharoor, jornalista do jornal “The Washington Post” ,  onde o chanceler brasileiro é retratado, no mínimo, como um excêntrico de extrema direita que é defensor de posições incoerentes e que resvalam em conhecimento obtido no Wikipedia.

A verdade é que Ernesto Araújo não é o único negacionista climático dentro do ministério formado por Jair Bolsonaro, apenas o mais tentado a se posicionar publicamente sobre o tema, ainda que sob o risco de parecer um lunático desvairado. 

 

Desmatamento na Amazônia em agosto cresce 222% em relação a 2018

Floresta perdeu 1.698 quilômetros quadrados de vegetação, segundo Inpe. Em agosto de 2018, foram 526 quilômetros quadrados. Nos oito primeiros meses de 2019, área desmatada foi 92% superior à do mesmo período de 2018.

desmatamento amazoniaFoto de satélite mostra áreas desmatadas na Amazônia: em julho, desmate cresceu 278% em relação a mesmo mês de 2018

A Amazônia perdeu em agosto deste ano 1.698 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, área 222% maior do que a desmatada no mesmo mês de 2018, que foi de 526 quilômetros quadrados, segundo dados divulgados neste domingo pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os números indicam que, apesar da devastação, houve redução na comparação com julho deste ano, em que houve destruição de 2.254 quilômetros quadrados.

Em comparação aos mesmos períodos de 2018, os meses de junho e julho apresentaram, respectivamente, crescimento de 90% e 278% no desmate.

Com os saltos, a área desflorestada da Amazônia nos oito primeiros meses de 2019 chegou a 6.404 quilômetros quadrados, número 92% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (3.337 quilômetros quadrados).

Os dados foram obtidos pelo Deter, levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, feito pelo Inpe.

Os informes podem ser usados para indicar tendências de aumento ou diminuição no desmate e servem de parâmetro para que os fiscais do Ibama atuem nas regiões mais ameaçadas.

Incêndios

Em agosto deste ano, foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia, segundo dados divulgados dia 1° de setembro pelo Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse é o maior número registrado para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.

Os dados mostraram ainda que, em relação ao mesmo mês do ano passado, os focos de incêndio triplicaram. Em agosto de 2018, foram registrados 10.421 incêndios. Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados ao todo 46.825 focos de incêndio na Amazônia. Esse número é mais do que o dobro observado no mesmo período do ano passado, 22.165.

Em resposta aos incêndios na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto proibindo queimadas em todo o Brasil, por 60 dias. Um dia depois, porém, Bolsonaro voltou atrás e autorizou a prática em regiões que estão fora da Amazônia Legal.

A recente aceleração da devastação fez com que os governos de Alemanha e Noruega suspendessem repasses de verba ao Brasil para financiar projetos de desenvolvimento sustentável.

Devido ao desmatamento e às queimadas na região, Bolsonaro se tornou alvo de pesadas críticas de políticos europeus, que ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Alguns políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil em razão da maneira como o governo Bolsonaro lida com o meio ambiente.

Bolsonaro se envolveu numa proloNgada troca de farpas com o presidente da França, Emmanuel Macron, que o acusou de mentir sobre suas políticas ambientais durante o encontro do G20 em junho, no Japão, onde foi concluído o pacto comercial entre o bloco dos países sul-americanos e a UE.

MD/efe/ots

____________________________________________________________

Este artigo foi originalmente produzido pela Deutsche Welle [Aqui!].

Jair Bolsonaro vira o Coringa em um dos principais programas de TV dos EUA

trevor

Trevor Noah, do “The Daily Show” durante o sketch em que comparou o presidente do Brasil ao vilão “Coringa” por causa das queimadas na Amazônia.

O “The Daily Show” é comandado pelo comediante Trevor Noah e vai ar de segunda a quinta feira pelo canal “Comedy Central”.  O “The Daily Show” é um daqueles programas satíricos que revolve em torno de temas políticos, sendo que Trevor Noah substituiu outro comediante com forte ação política nos EUA,  Jon Stewart.

Nao segmento dedicado a abordar os problemas que estão ocorrendo na Amazônia brasileira e suas repercussões globais em função das mudanças climáticas, Trevor Noah faz um sketch com fortes tintas nos quais o pintado em cores menos favorecidas é justamente o presidente Jair Bolsonaro que é citado como o “Coringa” (em referência ao vilão “preferido” do Batman) das mudanças climáticas.

Apesar do material estar em inglês é bem fácil entender a lógica e a péssima conotação com que o presidente do Brasil é usado para fazer a série de tiradas satíricas que Trevor Noah faz (ver vídeo abaixo).

Mas que ninguém ache que o “The Daily Show” é só um programa de piadas, pois o mesmo representa um amplo espectro político dentro dos EUA, especialmente entre os que se opõe ao governo de Donald Trump.

Assim,  os setores que dependem da exportação de commodities agrícolas e minerais (os quias apoiaram de forma massiva a eleição de Jair Bolsonaro) devem estar muito preocupados com esse segmento do “The Daily Show”. É que apesar de ser o presidente Jair Bolsonaro o “escada” da vez, a piada acaba sendo mesmo a condição em que o Brasil foi colocado pelo seu governo. E , cada vez mais, em meio a boicote que se amplia na Europa, as tiradas de Trevor Noah não têm nada de engraçado para o Brasil.