‘Polícia’ de combate ao desmatamento no Brasil entrou em greve – ameaçando metas climáticas

Os servidores de agências ambientais do governo federal interromperam as operações de campo e poderão interromper completamente o trabalho

garimpo ilegal

Grupo de fiscalização do Ibama encerra operação de mineração ilegal em floresta nacional brasileira em 2018. Crédito: Felipe Werneck/Ibama

Por  Meghie Rodrigues para a Nature 

No último mês, os trabalhadores das agências ambientais do governo federal estiveram parcialmente em greve: pararam de trabalhar no campo, onde realizam vigilância do desmatamento e ajudam a encerrar operações ilegais de mineração. Mas, se as suas exigências não forem satisfeitas, poderão em breve aumentar a pressão sobre o governo e parar completamente de trabalhar – o que poderá interromper a investigação que ajuda na elaboração de políticas ambientais.

Funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), órgão de proteção ambiental do país; o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra as áreas protegidas do país; e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) pedem desde 2017 mais recursos e melhores salários.

A administração do atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, emitiu no ano passado um aumento de 9% para todos os funcionários públicos depois que ele assumiu o cargo. Mas os trabalhadores ambientais não receberam aumento nos últimos sete anos, e o aumento salarial não é suficiente para conter a inflação, dizem eles. Seu sindicato, a Associação Brasileira de Carreiras Ambientais (Ascema Nacional), aponta que, de 2003 a 2023, cerca de 720 trabalhadores ambientais foram demitidos para ocupar outras funções governamentais – o que significa que os que permanecem estão sobrecarregados.

Como candidato presidencial em 2022, Lula prometeu atingir o desmatamento zero em todos os biomas brasileiros até 2030 . Para reduzir o desmatamento, as agências ambientais tiveram que reforçar as inspeções na floresta amazônica e em outros lugares. Os seus esforços até agora parecem ter ajudado: as taxas de desflorestação na Amazónia, que é crucial para conter as alterações climáticas porque absorve enormes quantidades de dióxido de carbono, caíram para o nível mais baixo dos últimos cinco anos em 2023 .

Não só estão sobrecarregados de trabalho, dizem os funcionários, mas a sua segurança também está em risco. No terreno, têm de lidar com pessoas ligadas ao crime organizado, como garimpeiros ilegais e grileiros de terras.

Bombeiros do Prevfogo/Ibama participam de operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019.

Trabalhadores do IBAMA e do ICMBio colaboraram em operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019. Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

“Por causa da baixa remuneração, temos perdido pessoal para carreiras mais atraentes, até mesmo no serviço público”, diz Alexandre Gontijo, membro do conselho de administração da Ascema Nacional e especialista ambiental da BFS. “Nossas responsabilidades aumentam enquanto o número de servidores diminui e as coisas ficam mais difíceis à medida que o trabalho se acumula. Vigilar a Amazônia, por exemplo, não é uma tarefa trivial.”

A Ascema Nacional se reunirá com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil e do Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos no dia 1º de fevereiro para discutir as demandas e se os trabalhadores irão suspender adicionalmente o trabalho administrativo.

Embora preocupados com as consequências, os pesquisadores brasileiros apoiam o movimento e apelam ao governo Lula para que invista nos seus trabalhadores. “Se o meio ambiente está no centro da política externa do Brasil, apoiar os trabalhadores na área deveria ser uma política interna fundamental”, diz Erika Berenguer, pesquisadora de incêndios na Amazônia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. “É fundamental valorizar quem coloca o próprio corpo na linha de frente.”

Em comunicado à Nature , o Ministério da Administração brasileiro disse que realizou 21 mesas redondas no ano passado para negociar com funcionários federais de vários departamentos. Disse ainda que está trabalhando dentro dos limites orçamentários para atender às demandas.

Sentindo os impactos

Funcionários do IBAMA entraram em greve no dia 2 de janeiro, e trabalhadores de outros órgãos ambientais fizeram o mesmo alguns dias depois. O seu objectivo era trazer o governo de volta à mesa de negociações. No passado mês de Outubro, a Ascema Nacional reuniu-se com o ministério da gestão, mas não foi alcançada qualquer resolução. “O governo prometeu nos dar uma resposta em 30 a 45 dias, mas não obtivemos nenhuma”, diz Cleberson Zavaski, presidente do sindicato e especialista ambiental do ICMBio.

Cerca de 90% de todos os especialistas ambientais federais estão participando da greve parcial, diz Zavaski. De acordo com o Painel de Estatística de Pessoal do Brasil e a Ascema Nacional, há cerca de 4.800 trabalhadores ambientais ativos nas agências federais do Brasil.

Após a greve, apenas 16 fiscais ambientais permanecem em campo no Brasil, dois dos quais estão na Amazônia, segundo o sindicato. E os impactos começam a ser sentidos: os fiscais emitiram 93% menos multas ambientais na Amazônia durante as duas primeiras semanas de janeiro do que no mesmo período do ano passado.

Mudança estrutural

O fato de a greve ter acontecido durante o mandato de Lula é surpreendente para alguns. Sob o seu antecessor – Jair Bolsonaro, um líder favorável à indústria – a desflorestação na Amazónia atingiu o máximo dos últimos 15 anos e mais de 180 mil multas ambientais, no valor de 1,3 mil milhões de reais (260 milhões de dólares), foram anuladas. “A perda de recursos e os ataques públicos dificultaram muito o nosso trabalho [sob Bolsonaro], mas fizemos um esforço de resiliência para continuar trabalhando”, diz Gontijo. “Aí entrou Lula e, embora tenhamos tido apoio institucional público e o fim dos ataques, não tivemos mudança estrutural.”

Em comunicado público no início deste mês , o Ministério do Meio Ambiente, que abriga os órgãos em greve, disse que, após negociações no ano passado, enviou ao Ministério da Gestão um pedido para realizar chamadas públicas para preencher cerca de 3.300 vagas de pessoal no IBAMA, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Os pesquisadores estão ansiosos para que as negociações dêem frutos esta semana. Celso Silva Jr, pesquisador de sensoriamento remoto e uso da terra do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em Brasília, afirma que a vigilância e a fiscalização são fundamentais para reprimir o desmatamento ilegal na Amazônia. A greve suscita preocupação “porque a reversão da actual tendência decrescente [na desflorestação] resultaria numa maior perda de biodiversidade e de emissões de carbono para a atmosfera”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00279-2


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Escutar os saberes ancestrais para evitar a queda do céu, o sumiço do chão e o veneno no prato

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Por Susana Prizendt para o Midia Ninja

“Parem de falar. E façam alguma coisa!”
Laila, menina, moradora do Estado insular de Barbados, no filme O que importa – Uma mensagem das crianças aos líderes da COP28

“Cuidado, muito cuidado. Não tire da terra mais do que você pode oferecer a ela.”

Mestre Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo)

“Nos próximos 10 anos o mundo poderá ter seu primeiro trilionário, mas levará quase 230 anos para acabar com a pobreza.” (Relatório Desigualdade S.A. divulgado pela Oxfam em janeiro de 2024)

Nenhum(a) artista visual poderia ter criado uma obra tão tragicamente simbólica: uma cidade afundando devido à voracidade que o sistema econômico que a domina apresenta pelas “riquezas” que seu território abriga. No caso real que aqui mencionamos, os “tesouros”, como as estórias de piratas sempre mencionam, estão bem enterrados no subsolo – parte deles a centenas de metros abaixo da superfície – e atendem pelo nome de sal-gema, um mineral usado na indústria química, que demora milênios para formar suas jazidas subterrâneas.

Maceió, capital do estado de Alagoas, ganhou espaço de destaque no noticiário nacional, no último trimestre de 2023, após agonizar por anos em um processo de canibalização, em que seu território foi sendo devorado pela fome insaciável que o capitalismo mundial apresenta por “recursos” que mantenham suas engrenagens funcionando. Uma área em que moram dezenas de milhares de pessoas está condenada por, literalmente, não ter mais o chão firme debaixo de seus pés, e precipícios podem se abrir a qualquer momento, sobretudo em tempos de chuvas de verão, engolindo carros, casas, ruas inteiras…

Quando um povoado é vítima de um banquete mortal como esse, o que perece não é somente sua matéria física. A história, o modo de viver, a sensação de pertencimento à uma coletividade, a perspectiva de um futuro conjunto… tudo isso é mastigado pelos dentes dos banqueteadores.

Mas, afinal, quem seriam esses devoradores de futuro, que parecem não sentir nem um pingo de empatia pelo povo que habita o local?

Podemos começar citando o nome de uma empresa: Braskem. Mas ela é somente a boca no sistema digestivo que processou a carne desse território, através da exploração que fez por décadas em suas 35 minas. Depois do trabalho inicial de mastigação, ainda vêm muitas etapas e há todo um conjunto de atores que entram em cena. Ao contrário do que o nome da tal empresa sugere, o processo de digestão não se restringe ao território brasileiro, ele se estende globalmente, alimentando um modelo produtivo internacional que suga gentes e naturezas para se perpetuar.

E é justamente por isso que a imagem de uma grande cidade sendo tragada pelo abismo que os próprios seres humanos cavaram é tão representativa. A sociedade globalizada está fazendo exatamente isso com o planeta. Do mesmo modo como as pessoas que conduziram a capital de Alagoas para o buraco sabiam muito bem que isso iria acontecer e não mudaram seus planos, a elite mundial que detém o poder político-econômico sabe que estamos chegando a um ponto de desequilíbrio ambiental, provocado pelas ações humanas, em que calamidades como essa vão se tornar fichinha perto das que virão.

Pisando no acelerador

Química Tory/Shutterstock

Não é à toa que a comunidade internacional de ativistas socioambientais se revoltou contra o teatro do absurdo que assistimos durante a 28ª Conferência de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (COP 28), chamada ironicamente de COP dos Lobistas, realizada de 30 de novembro a 12 de dezembro de 2023.

Começando pelos seus anfitriões, os Emirados Árabes Unidos, que enviaram como seu representante e, portanto, como o presidente do encontro, o Sultan Al Jaber – ministro da Indústria e Tecnologia Avançada, chefe da Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC) e presidente da Masdar, a empresa estatal nacional de energia renovável (fundada em 2006 e vista pelos ambientalistas como um instrumento para tentar dissimular a pegada climática do país, um ávido extrator e fornecedor de combustíveis fósseis) -, o show de horrores seguiu com declarações estapafúrdias, inclusive por parte de brasileiros, como Jean Paul Prates, atual presidente da Petrobrás, ao dizer que a empresa será das últimas a parar de extrair petróleo (destoando do discurso pró-ambiente feito por Lula, que chegou ao encontro embalado pela redução do desmatamento na Amazônia em seu governo).

A declaração de Prates não parece ter sido bravata porque, entre as benesses previstas nos planos de sua atual gestão, está a exploração de fontes até em Fernando de Noronha, ilha que é (ainda) um reduto de preservação da natureza. As emissões geradas pelos campos leiloados, no que foi chamado de Leilão do Fim do Mundo, se eles forem mesmo explorados, corresponderão ao volume que nosso país havia se comprometido a reduzir nos próximos seis anos, caso fosse mesmo cumprir a meta estabelecida no Acordo de Paris. Várias petições e manifestos contra esse acinte vêm circulando nas redes sociais, mas seu alcance é muito restrito e a população nem tem consciência do que está em questão.

Seria coincidência ser essa mesma Petrobrás uma grande acionista da Braskem, a maior empresa latino-americana no setor petroquímico e uma das maiores do mundo, com receita anual de quase 100 bilhões de reais – cobiçada pela mesma ADNOC dos anfitriões da COP 28 – e justamente a empresa que comeu Maceió? Não, não dá mais para acreditar em coincidências. Já ficou nítido que o sistema capitalista está disposto a dobrar a aposta com a natureza e seguir vampirizando o planeta até que este dê um basta e se livre, enfim, de uma espécie animal que parece insensível aos avisos dramáticos emitidos por ele.

No entanto, nesse “jogo”, quem sofre primeiro e mais intensamente são os seres vivos que não compartilham do poder de decisão que tais apostadores compulsivos detém. São animais e vegetais de todos os tipos e tamanhos, muitos ainda nem conhecidos por nós, que agonizam na jogatina. É a sexta extinção em massa vindo no galope de uma manada de veículos bebedores de gasolina que não cessa de crescer, ao contrário das expectativas geradas nas 27 COPs anteriores.

Só que nós, homens e mulheres sapiens, estamos dentro dessa teia biodiversa que se esfacela. E uma grande parcela da nossa espécie vem sendo continuamente devorada pela máquina de moer carne corporativa, pilotada por uma elite ínfima em tamanho e gigantesca em voracidade. O que dizer quando o 1% mais rico do planeta é responsável pela mesma pegada climática que os 5 bilhões mais pobres?

Segundo o relatório Desigualdade S.A. – Como o poder corporativo divide nosso mundo e a necessidade de uma nova era de ação pública (recém-lançado pela Oxfam para fazer um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que ocorreu de 15 a 19 deste janeiro de 2024), a riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo cresceu 114% nos últimos 4 anos, ao mesmo tempo em que a riqueza detida por 5 bilhões de pessoas diminuiu. Isso significa que, se seguirmos esse ritmo, em 10 anos veremos surgir o primeiro trilionário e levaremos 230 anos para acabar com a pobreza.

Se números são uma abstração, carentes de emotividade, pense em uma multidão de pessoas que não tem o que comer, assistindo meia dúzia de indivíduos se banqueteando com todas as iguarias imagináveis e em volume incalculavelmente superior ao que precisam para viver e ao que a vida pode sustentar. Cruel, não é? O empanturramento desse grupelho hoje, significa a fome de todos, amanhã.

Não dá para deixar de perguntar quem são esses comilões e quem faz parte da multidão faminta. Homens, brancos, bilionários: se você não pode ser descrito ou descrita por esses três termos, tá fora do clube gourmet. Mas isso não significa que todo o restante pertence ao grupo de famélicos. Ele é composto majoritariamente por mulheres negras do sul global e, para dar uma noção dessa realidade, podemos mencionar o fato de que toda a riqueza que a população feminina africana detém conjuntamente equivale ao que 22 homens bilionários possuem. E vale lembrar que, mesmo assim, esse punhadinho de machos alfa não está nem um pouco satisfeito!

Mais veneno no horizonte

Bárbara Cruz / Greenpeace

O resultado dessa desigualdade brutal é que estamos vendo nosso mundo, em toda a sua vasta sociobiodiversidade, ser destruído em função do que é usufruído irresponsável e insaciavelmente por uma pequena “casta” de indivíduos humanos. Nesse redemoinho, as crises enfrentadas (atualmente e daqui pra frente), incluindo a crise climática, vão gerar consequências também muito desiguais, ampliando ainda mais o sofrimento de quem já luta para sobreviver e menos contribui com o processo de destruição em curso.

Para tentar contrabalançar a desfaçatez de quem estava nos debates oficiais da COP, a programação paralela abriu espaço para iniciativas menos sujeitas ao engessamento causado pelos lobbies de sempre. Um grupo de parlamentares ambientalistas da América Latina e do Caribe, integrantes do Observatório Parlamentar de Mudança Climática e Transição Justa (OPCC), por exemplo, propôs uma união em torno do que chamaram de Bancada Pelo Planeta. Com forte protagonismo de representantes dos povos originários, como a deputada federal brasileira Célia Xakriabá, o coletivo lançou um pacto baseado em três princípios: não regressão ambiental; prática baseada em evidências e diálogo social; transição justa, participação social e inclusão produtiva.

O documento está aberto para assinaturas de outros parlamentares de todo o mundo e talvez consiga fazer com que essa rede global ajude cada nação a enfrentar suas bancadas da bala, do boi e da bíblia, nas quais o negacionismo climático sempre é predominante. Dois meses antes, o Observatório já havia criado o que chamou de Plataforma Virtual e Monitor de Dados Legislativos, em que é possível acompanhar o que está sendo feito a nível legislativo nos 18 países integrantes da rede. Não chega a ser revolucionário, mas é uma ferramenta importante para o acesso à informação e o estímulo à integração da região e à participação social de seus habitantes no processo de transformação que precisamos fazer.

Eu consultei a Lei brasileira que regula os Agrotóxicos, que consta em sua versão vigente desde 1989, e não há menção, por enquanto, à aprovação do Pacote do Veneno pelo Congresso Nacional, tapa na cara que todos os nossos senadores, exceto a senadora Zenaide Maia, nos deram às vésperas da realização da COP, jogando uma batata fervendo (e tóxica) nas mãos do governo Lula. O prazo para o veto ou sanção presidencial ao estrupício ruralista, uma verdadeira bomba para a saúde da população e do ambiente, se encerrou no dia 27 de dezembro e, durante todo este tempo, os movimentos sociais fizeram ações constantes pelo veto integral por parte do presidente.

Pressionado pela bancada do trator e pelo Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Lula acabou optando pela sanção parcial, vetando apenas 14 pontos do famigerado PL, sendo o veto mais importante o que é referente ao artigo que retira o poder da ANVISA (órgão regulatório do Ministério da Saúde) e do IBAMA (instituto atrelado ao Ministério do Meio Ambiente) de participar ativamente da decisão de liberar novos agrotóxicos. Se o artigo constasse na Lei da forma como foi aprovado pelo Congresso, a tendência seria o aumento ainda mais acentuado de aprovação dessas substâncias, que já vem ocorrendo em ritmo recorde, acima de 500 novas liberações ao ano, muitas com alto teor toxicológico e proibidas em países da União Europeia. Mesmo no ano passado, já sob a nova administração, tivemos a aprovação de 557, queda de apenas 15% em relação ao aprovado em 2022, no governo anterior.

Agora, cabe a nós seguir na luta contra a derrubada de vetos pelos parlamentares e contra todo o processo de envenenamento que tem assolado nossa população. Vale lembrar que o último levantamento sobre a presença de resíduos dessas substâncias na nossa comida, recém divulgado pela ANVISA, mostra que um em cada quatro alimentos analisados têm níveis acima do permitido ou a presença de agrotóxicos proibidos no território nacional. E que a cada US$1 gasto na compra de agrovenenos, há um ônus de US$1,28 para o SUS, como menciona o Atlas dos Agrotóxicos, elaborado pela Fundação Heinrich Böll e também recém lançado.

O setor vem sendo alvo de discussões acaloradas mundo afora e, recentemente, a UE renovou a permissão do uso do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo e comprovadamente cancerígeno, por mais 10 anos, em uma nítida demonstração de que mesmo seus habitantes, cujas vidas têm sido consideradas mais valiosas do que as da rapa planetária, como exposto no livro Colonialismo Químico, de Larissa Bombardi e já descrito em um artigo que escrevi anteriormente, também não estão a salvo do lobby veneneiro.

Vozes dissonantes ou ressonantes?

Voltando aqui pra Terra Brasilis, embora tenhamos assistido mais de 500 anos de massacre contra os povos originários, eles ainda resistem e representam a possibilidade de algum tipo de reequilíbrio socioambiental. É nos territórios indígenas e quilombolas que ainda encontramos os ecossistemas preservados, segurando os fios que compõem nossa teia vital para que ela não se dissolva frente à exploração humana. Não é por acaso que a reserva do Xingu tem uma temperatura média de 5 graus a menos que seu entorno, onde o agronegócio tóxico impera.

Mas a trama está cada vez mais frágil, a derrubada de vetos de Lula ao Marco Temporal, que o Congresso promoveu no dia 14 de dezembro de 2023, jogou mais lenha na fogueira que consome nossas matas e aquece o planeta, abrindo espaço para mais soja, mais gado, mais extração de minérios e muito menos vida. Os alertas desses povos, mesmo quando chegam a espaços de decisão como as COPs, não costumam ser ouvidos e os recursos prometidos em apoio ao papel que desempenham como guardiões das florestas quase não chegam às suas mãos.

Cacique Raoni, David Kopenawa, Txai Suruí, Ailton Krenak, Sônia Guajajara (hoje à frente do Ministério dos Povos Indígenas do Brasil) são algumas das lideranças indígenas que já lançaram suas flechas certeiras ao mundo, ao mostrarem como seus territórios seguem sob ameaça de destruição – o que tem implicações planetárias, pois isso representa a perda das condições vitais básicas da natureza da qual dependemos. Os pontos de inflexão, a partir dos quais não é mais viável recuperar o equilíbrio de biomas como a Amazônia, já estão próximos de virar realidade.

No livro A Queda do Céu, Kopenawa conta como seu povo, os Yanomami, tem sido, há décadas, alvo de extermínio devido ao garimpo na região, chegando, durante o desgoverno Bolsonaro, a um nível tão acentuado, que podemos falar em genocídio. Aqui vale dizer que, assim que assumiu a presidência, Lula tomou medidas para promover a expulsão dos garimpeiros, mas eles acabaram voltando no último trimestre do ano passado e colocando em risco a população indígena local, através da contaminação da água por mercúrio e da forma violenta com que agem.

Na virada de 2022 para 2023, as imagens de crianças esqueléticas em aldeias Yanomami chocaram quem assistiu às reportagens apresentadas na TV. Mas, depois do noticiário, sempre vem as novelas e os anúncios publicitários, a rotina segue, e a fome, tanto a que é sentida por crianças pelo mundo afora quanto a que é apresentada pela sociedade em relação ao consumo dos tais “recursos” naturais, se perpetua. Quem se coloca no caminho dessa perpetuação corre sérios riscos.

Há alguns meses, assistimos com tristeza a despedida de Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernardete, líder quilombola que foi assassinada em sua casa no dia 17 de agosto de 2023. Sua voz havia destoado demais do coro do gado humano que costuma caminhar para o abatedouro sem reagir. Apesar da tal “cordialidade” atribuída ao Brasil, somos um dos países que mais matam ativistas no mundo e as taxas de assassinatos de mulheres quilombolas têm aumentado, como revela o relatório feito pela Terra de Direitos e pela Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), o que provavelmente tem relação com o fato de 99% de seus territórios, cerca de 5 mil no país, terem a natureza bem preservada – segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES), realizado entre 2008 e 2022 -, representando barreiras ao desmatamento em regiões como a Amazônia e o Cerrado.

A esses assassinatos podemos somar as mortes originadas pelo contínuo massacre sofrido pelo povo negro – ao qual Mãe Bernardete pertencia e era uma liderança reconhecida -, nas periferias urbanas do nosso imenso território. Uma pessoa negra foi assassinada a cada 4 horas no Brasil e pessoas negras constituíram 87% do total de vítimas fatais de ações policiais no país, durante o ano de 2022. Quem incomoda ou quem não interessa à manutenção do sistema costuma ser descartado, seja pela violência da bala, seja pela violência da miséria. E ambas as violências tendem a se agravar em um planeta que ferve.

Se calamos as vozes que nos alertam sobre o colapso civilizatório iminente ou se as ouvimos e não conseguimos assimilar realmente seu conteúdo por estarmos já anestesiados em um dia a dia baseado no consumo das tais, como diz Kopenawa, “mercadorias” – que hoje não se restringem à esfera material, já que uma série de produtos virtuais inundam nossas vidas, – deixamos de perceber que existe uma outra forma de existência humana e que não precisamos nos resignar à que nos é imposta pela elite devoradora do futuro. E o que piora o drama é que muitas dessas vozes estão se extinguindo.

No final de 2023, foi a vez do mestre Antônio Bispo dos Santos, ou Nêgo Bispo, como era conhecido, nos deixar. Embora sua morte não tenha sido obra de capangas a mando de mandatários de plantão e, sim, decorrente de um problema cardíaco, ela tocou fundo na alma das pessoas que fazem parte do movimento agroecológico. Integrante da Teia dos Povos, autor de livros como Colonização, quilombos: modos e significações e A Terra Dá, a Terra Quer, lavrador de alimentos e pensamentos, ele sempre nos presenteou com formas de compreender a vida que estavam a quilômetros-luz de distância das formas hegemônicas e denunciou veementemente a doutrinação que sofremos desde que nascemos para acreditar que as relações humanas precisam sempre ser mediadas pelo dinheiro e que o imediatismo é a única maneira de lidar com o tempo. E denunciava-anunciando, ao partilhar que o projeto de coletividade ao qual se dedicava tem como referência os próximos três mil anos!

Desmonoculturar e contracolonizar a vida

O fundamentalismo de mercado, contra o qual Bispo lutou, usa as demais esferas passíveis de doutrinações fundamentalistas, como a religiosa, a de gênero e a étnico-racial, para nos fazer acreditar que manter a lógica capitalista, com sua estrutura patriarcal, que pressupõe a supremacia branca cristã, é a única possibilidade para que possamos existir enquanto humanidade, o que não apenas é falso, mas que é justamente o oposto do que é necessário fazer. Ouvir pessoas que viram essa lógica do avesso, como Nêgo Bispo e sua proposta “envolvimentista” de existência, mencionada em oposição ao império da busca pelo tal desenvolvimento infinito – seja ele acompanhado de palavras mais “verdes”, como sustentável, ou não -, pode fazer com que algo estrale de repente em nossa consciência.

Colonizados fomos e colonizados estamos, no cerco imposto pelas monoculturas físicas e mentais – sempre bem disfarçadas pelas falsas afirmações de diversidade – e, se não percebermos que há outras formas de existência, colonizados seremos até que o colapso ambiental nos mostre que o ser humano não manda nos demais seres e forças da natureza e que o sistema que tenta impor ao planeta não tem a menor sustentação. O rompimento dessa servidão ao Deus mercado, às vezes apelidado “carinhosamente” de PIB, passa por abrir os ouvidos para as vozes das florestas, das águas e dos campos e deixar que elas insuflem em nós as chamas da re-existência.

É assim que poderemos juntar a ancestralidade com o por vir, entender como se deu a formação da realidade atual, olhar para os antigos saberes dos povos do mundo e descobrir como podemos nos inspirar em experiências diferentes de existência para transformar essa realidade, abrindo espaço para que surja uma nova forma do que é chamado de Bem-viver. Perceber que não estamos fadados ao que se apresenta de forma majoritária no presente, mas que existiram e ainda existem outras maneiras de nos relacionarmos com a natureza da qual somos parte, é um verdadeiro despertar, a partir do qual a jornada rumo ao futuro pode ser trilhada com mais esperança.

A Agroecologia desponta nesse caminhar, ao unir as dimensões sociais, como justiça socioeconômica, alimentação saudável e saúde popular, com as dimensões ambientais, como a restauração dos ecossistemas e o cuidado com o solo e os cursos hídricos, para que sejam livres de contaminação. Ela é a bandeira viva que nossos movimentos costuraram, através do trabalho de milhões de mãos de todas as cores, para empunhar na luta contra o mecanismo que está gerando o caos planetário. As sementes que estão sendo plantadas diariamente por essas mesmas mãos vão brotar e gerar novas sementes, demonstrando o que dizia Nêgo Bispo: que, no modo de viver dos povos originários e afro-confluentes, não há começo, meio e fim, mas há começo, meio e começo novamente.

Então, se podemos ter a possibilidade de começar, por onde poderia se dar esse novo começo? Cuidar do céu, limpando seus ares de tantos gases estufadores (ou descarbonizando-o, como dizem os cientistas) para que ele não caia. Cuidar da terra, ao deixar de remover irresponsavelmente os seres minerais que estão abaixo de sua superfície e voltar a nos dedicar a nutrir a fertilidade das camadas nas quais pisamos, para que o chão não suma, o abismo não nos engula e a fome não nos devore. Trocar as monoculturas que nos oprimem pelas pluriculturas que nos libertam.

anúncio de confirmação de que haverá a realização da Cúpula dos Povos da COP 30 em 2025 no Brasil, feito durante a COP 28, representa um gesto nessa direção, trazendo as vozes que são dissonantes em relação ao poder econômico, mas estão em ressonância com a natureza, para assumirem o protagonismo no debate sobre os rumos planetários (já que os representantes oficiais dos países nesses encontros seguem em marcha lenta em relação às decisões necessárias, como mostram os resultados do documento consensual).

E essas vozes também protagonizaram um outro encontro fundamental para a população brasileira: a 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CNSAN), realizada entre os dias 11 e 14 de dezembro de 2023, sob organização do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), após um amplo processo de conferências municipais e estaduais. A presença das mulheres negras na condução das atividades do encontro foi uma demonstração de que a hegemonia branca patriarcal não tem nada a ver com a conquista do alimento saudável e biodiverso no prato do povo. Vale conferir o Manifesto pela Erradicação da Fome e pela Garantia do Direito à Comida de Verdade, Democracia e Equidade, lido ao final do encontro com a síntese do que foi debatido.

Sim, nossas Mães de gentes e de santos renovaram as energias da luta, seja nas declarações que deram nos debates sobre o que é realmente Soberania Alimentar, seja nos atos simbólicos realizados para marcar a confluência entre a Conferência Popular de SAN – que se constituiu como alternativa durante o vazio gerado pelo fim do CONSEA durante os anos Bolsonaro – e a Conferência Nacional de SAN – que voltou triunfante para ressoar as vozes de quem nutre as barrigas e as almas dos povos em nossos territórios!

Entretanto, para quem preferir ouvir vozes menos “alternativas”, é possível encontrar “inspiração” na frase de um comunicado da Braskem sobre como a situação em Maceió pode se desenvolver: “um cenário é de acomodação gradual e estabilização; o segundo é uma possível acomodação abrupta”. Ou, ainda, ficar com a fala do prefeito de Maceió à CNN Brasil: “a boa notícia é que conseguimos evacuar toda essa área” – o que, no nosso caso, seria o equivalente a evacuar “todo esse planeta”.

Eu fico com nossas Mães e nossos Nêgos, e você?

Susana Prizendt, arquiteta urbanista, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e do Movimento Urbano de Agroecologia – MUDA.


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Este texto foi originalmente publicado pelo Midia Ninja [Aqui!].

Otimismo seca na Amazônia enquanto Lula se afasta das prioridades climáticas (e se aproxima do agronegócio e da mineração)

O presidente do Brasil inspirou esperança há um ano, mas a aprovação de uma nova rodovia mostra que ele continua sendo um construtor estatal de concreto e petróleo

homem águaUm homem carrega um recipiente de água ao lado do leito seco de um rio em Careiro da Várzea, no estado do Amazonas, Brasil, em outubro. Fotografia: Bruno Kelly/Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Que diferença um ano faz na Amazônia brasileira. No início de 2023, escrevi sobre os brotos verdes da estação chuvosa e os sentimentos de esperança inspirados pelo novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu fortalecer os direitos indígenas e almejar o desmatamento zero. Doze meses depois, tanto a vegetação como o otimismo político estão a secar.

A seca mais severa de que há memória foi finalmente quebrada, mas as chuvas são tardias e fracas em comparação com os anos anteriores. O Rio Xingu está bem abaixo do normal para janeiro. A pulsação do crescimento da floresta também é mais fraca – a nova vegetação não se estende tanto para a estrada como em janeiro passado. As pastagens vizinhas estão ainda pior. As gramíneas forrageiras, conhecidas como capim , foram tão queimadas que não voltaram a crescer, deixando as encostas marrons e as vacas emaciadas. Vários dos pobres animais esqueléticos escaparam de seus campos e vagaram em direção à nossa comunidade em busca de comida. A população local diz que mais de uma dúzia de vacas morreram de fome nesta fazenda e em inúmeras outras em outros lugares.

Menos óbvia, mas em muitos aspectos mais preocupante, é a escassez de formigas cortadeiras. Esses insetos de mandíbulas grandes geralmente estão por toda parte, cortando e carregando a vegetação em colunas para criar jardins de fungos em seus ninhos, que se espalham por dezenas de metros em torres e montes no estilo Gaudí. Os entomologistas dizem que estas formigas têm a segunda sociedade mais complexa da Terra, depois dos humanos, e são os herbívoros dominantes nos trópicos sul-americanos, cortando cerca de um sexto de todas as folhas produzidas na floresta. Isso estimula o crescimento de novas plantas e enriquece o solo. Não é à toa que essas formigas foram descritas como engenheiras de ecossistemas.

Duas formigas cortadeiras carregando folhas

Os entomologistas dizem que as formigas cortadeiras têm a segunda sociedade mais complexa do planeta. Fotografia: Redmond O Durrell/Alamy

Todos os dias, passo por três grandes ninhos de cortadeiras em minha caminhada diária com os cachorros. Há pouco mais de um ano, aventurei-me demasiado perto durante a revoada anual , quando as fêmeas aladas iniciam os seus voos nupciais seguidas por nuvens de machos. É um momento delicado para os insetos e as formigas soldados estavam em modo de proteção feroz. Fui levado embora com o pé ensanguentado e uivando de dor. Apesar disso, nunca deixei de admirar estas criaturas minúsculas e poderosas, por isso fiquei consternado ao descobrir que todos os quatro ninhos estão aparentemente sem vida. Os montes parecem murchos, não há solo recém-escavado nas entradas e nem uma única formiga cortadeira à vista. Isto é bizarro, pois uma colónia saudável pode ter 3,5 milhões de membros e nunca antes pararam de funcionar. Os entomologistas dizem-me que podem ter-se deslocado ou sido exterminados pela prolongada estação seca. É um lembrete alarmante de que o enfraquecimento da resiliência florestal assume muitas formas e o impacto da seca continua incalculável.

O aquecimento global causado pelo homem e o desmatamento estão secando a floresta – e não apenas durante o último ano. Os cientistas descobriram que a estação seca na Amazônia está ficando mais quente, mais seca e mais longa. Há cinquenta anos, durou quatro meses. Agora são cinco. Isto está acausando a morte de árvores e outras espécies que estão a ser empurradas para além dos seus limites de sobrevivência. Um colapso de todo o ecossistema que transformaria a Amazônia numa savana está cada vez mais próximo.

Lula sabe disso. Num discurso na Cop28 no Dubai, em Novembro passado, ele disse ao mundo que estava chocado com o facto de os rios da região, que são a maior fonte de água doce do mundo, estarem no seu nível mais baixo em mais de 120 anos. Ele disse que este era um problema climático global e apelou a outros países para que fizessem um esforço maior. “Mesmo que não cortemos mais árvores, a Amazônia poderá chegar a um ponto sem volta se outros países não fizerem a sua parte.”

Uma área desmatada e queimada da floresta amazônica na região de Lábrea, estado do Amazonas, norte do Brasil, em 2 de setembro de 2022O desmatamento da Amazônia diminuiu cerca de 50% no ano passado. Fotografia: Douglas Magno/AFP/Getty Images

Mas os esforços do seu próprio governo para proteger a floresta e a sua população têm sido mistos. Um boletim do primeiro ano de Lula mostraria progressos em comparação com o baixo valor de referência estabelecido pela anterior administração de extrema-direita de Jair Bolsonaro , mas também promessas falhadas, fraqueza política e sinais preocupantes de regressão.

Primeiro, as boas notícias muito importantes. O desmatamento na Amazônia diminuiu cerca de 50% no ano passado. Pela primeira vez desde 2018, a taxa de desminagem foi inferior a 10.000 km2 nos 12 meses até 31 de julho. Ainda mais encorajador, a perda de cobertura arbórea nos territórios indígenas caiu 73%.

A má notícia é que, mesmo com essa desaceleração, em média cerca de 1 milhão de árvores ainda são derrubadas ou queimadas todos os dias na Amazônia. Um número incontável de pessoas morreu por causa da seca e isso agravará a degradação da floresta. No geral, não há dúvida de que a Amazónia terminou 2023 em piores condições do que começou, embora, infelizmente, tenha sido assim em todos os anos do último meio século.

Existem outras causas de preocupação. O vizinho sul da Amazônia, a savana do Cerrado, sofreu a maior devastação desde 2016 como resultado da expansão das plantações de soja e da pecuária. Isto repete o estratagema de relações públicas dos anteriores governos Lula, que reduziram a desflorestação na Amazónia, que é o centro das atenções a nível mundial, ao mesmo tempo que davam luz verde à destruição do importante mas menos conhecido Cerrado.

É uma história semelhante para os direitos indígenas. Lula foi um verdadeiro pioneiro na criação de um ministério separado para isto e o seu governo reconheceu seis novos territórios, que numerosos estudos demonstraram ser a forma mais rentável de conservar florestas e sequestrar carbono.

No entanto, ele foi superado por um congresso hostil, que aprovou uma nova lei, conhecida como Marco Temporal , para limitar a aprovação de terras indígenas.

Este não é o único desafio à autoridade do presidente. Há um ano, Lula enfrentou uma tentativa de golpe de apoiadores de Bolsonaro , incluindo elementos da polícia. O exército ficou em cima do muro, o que dificilmente foi um voto de confiança. Desde então, os militares têm negligenciado o apoio aos esforços do governo para remover milhares de garimpeiros ilegais do território Yanomami. Como resultado, a administração Lula perdeu o controle sobre essas terras e não conseguiu aliviar um desastre humanitário. Embora o governo tenha gasto 200 milhões de dólares (155 milhões de libras) e mobilizado 2.000 profissionais de saúde para a região, 308 Yanomami morreram de doenças evitáveis ​​entre janeiro e novembro – pouco diferente do número de vítimas durante o último ano de mandato de Bolsonaro.

Entretanto, uma nova e ainda maior ameaça está a emergir na forma de uma auto-estrada pavimentada que atravessa o coração da Amazónia Ocidental. A planejada atualização da BR-319 de Manaus a Porto Velho devastaria uma das últimas grandes áreas relativamente intocadas da floresta tropical porque as estradas sempre foram precursoras da extração ilegal de madeira, mineração, desmatamento e invasões de terras indígenas. O projeto sofreu resistência durante muitos anos com base em pareceres científicos especializados. Mas no mês passado, os legisladores – com o apoio dos lobbies da construção e do agronegócio – aprovaram um projeto de lei para diluir os requisitos de licenciamento ambiental para a estrada, que declararam uma “infraestrutura prioritária necessária para a segurança nacional”. Lula efetivamente deu sinal verde ao criar um grupo de trabalho BR-319 e marginalizar o Ministério do Meio Ambiente no processo. 

Dois homens em uniformes de estilo militar, segurando rifles, conversam com um homem sentado em um tronco

Integrante de grupo especial de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​conversa com garimpeiro ilegal detido durante operação na Terra Indígena Yanomami no mês passado. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Num exemplo notável da novilíngua orwelliana, o seu ministro dos Transportes, Renan Filho, diz que o projeto construirá a “estrada mais sustentável e mais verde do planeta”. Ele também procura financiamento de projetos no fundo Amazon, de 1,2 mil milhões de dólares, criado pela Noruega, com compromissos adicionais da Grã-Bretanha, da Alemanha e dos EUA, para reduzir a desflorestação e promover a sustentabilidade. A BR-319 é ​​uma flagrante contradição com esses objetivos. Fazer tal pedido zomba do fundo internacional e da credibilidade ambiental do governo brasileiro. É uma piada de mau gosto, até porque um dos objetivos da nova estrada é facilitar a exploração de petróleo e gás nas profundezas da floresta, além da exploração existente perto da foz do Amazonas. É a mesma corrida míope para lucrar com o petróleo que se verifica nos EUA, no Reino Unido, no Canadá, na Rússia, na Noruega e noutros países produtores de petróleo.

Lula parece não conseguir decidir que tipo de líder quer ser. Para um público global, ele fala da necessidade moderna de acção climática e promete desflorestação zero. Mas para o seu eleitorado nacional, ele continua a ser um antiquado construtor de Estado, baseado no aslfato e no petróleo. Em comparação com o ano passado, não há dúvida de que ele está a afastar-se – ou a ser empurrado – cada vez mais para longe da ciência e dos direitos indígenas, e cada vez mais para perto do agronegócio e do extrativismo capitalista. Dada a fraca posição política e os instintos ideológicos de Lula, não é difícil compreender porquê. Mas, como resposta a secas recordes e a fenômenos meteorológicos cada vez mais mortíferos, parece mais uma rendição do que um compromisso.

Na Amazônia, a crise climática está atingindo fortemente. Por mais bem-vinda que tenha sido a desaceleração do desmatamento, ela não é suficiente e mesmo isto está ameaçado por novas estradas e projetos petrolíferos. Se a tendência política continuar, não serão apenas as árvores, as vacas e as formigas que começarão a morrer.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A mentira da soja: o principal agente do desmatamento não é cultivado para humanos, mas para a pecuária

“Os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de 1,5°C”, escreve Javier H. Rodríguez, em artigo publicado por El Salto, 03-01-2024. 

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A agricultura comercial em nível industrial foi a causa de pouco mais de 40% do desmatamento das florestas tropicais entre 2000 e 2020 através de três agentes principais: a pecuária, o cultivo deóleo de palma e as plantações de soja, também utilizada principalmente para a pecuária intensiva. Os dados consolidados obtidos graças ao cruzamento de centenas de bases de dados governamentais foram fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) há apenas algumas semanas. A mesma monitorização atualiza a distribuição do território: as florestas são o habitat de 80% das espécies de anfíbios, 75% das aves e 68% dos mamíferos e essas mesmas florestas tropicais dizimadas albergam cerca de 60% de todas as espécies de plantas vasculares. Ou seja, a grande maioria tanto em número de espécies quanto em número de indivíduos, já que apenas musgos e algas ficariam de fora desse guarda-chuva.

Com o agravamento da crise climática e tendo em conta não só o desmatamento como também a produção alimentar representam mais de um quarto (26%) das emissões globais de gases do efeito de estufa, diversas correntes dentro do ambientalismo contemporâneo defendem uma mudança na dieta humana para orientá-la a opções baseado no vegetarianismo e no veganismo. Os impactos das mudanças alimentares nas emissões de gases do efeito de estufa, na utilização dos solos, na utilização da água e na saúde emergiram como centrais para a equação do aquecimento global, apesar da reação do lobby da carne com dezenas de propostas para limitar estes mercados emergentes.

As principais fontes de emissões de gases do efeito de estufa encontram-se nos setores da energia e da produção alimentar. Às vezes é sugerida a ideia de focar exclusivamente em um desses aspectos, mas essa perspectiva é enganosa. Enfrentar as alterações climáticas envolve necessariamente reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Da mesma forma, conforme explicado neste artigo, é crucial abordar a produção global de alimentos para alcançar os objetivos climáticos delineados pelo  Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e mesmo os menos ambiciosos apoiados pela comunidade internacional através dos acordos da Cúpula do Clima. Na verdade, os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de carbono de 1,5°C, deixando pouco espaço para atingir a meta de 2°C. Grandes revistas médicas de impacto global, como a britânica The Lancet, também alertam sobre isso há anos, como no mais que citado relatório Dietas saudáveis ​​a partir de sistemas alimentares sustentáveis

Foto: Reprodução El Salto

Nesse trabalho, com a participação de investigadores das principais escolas médicas do Reino Unido, já se propunha uma diminuição de 81% no consumo de carne até 2050, limitando a ingestão a um máximo de 300 gramas de produtos cárneos por pessoa e por semana. Se este ajustamento não for alcançado, o relatório sugere que alcançar o objetivo do Acordo de Paris, de manter as temperaturas abaixo de 1,5ºC, seria “extremamente desafiador ou praticamente impossível”.

Na verdade, segundo um trabalho publicado em 2019 a transição para uma dieta baseada em vegetais apresenta-se como uma condição essencial para alcançar um sistema alimentar sustentável. Mas nos últimos artigos científicos a este respeito as mesmas teses tornam-se cada vez mais palpáveis. Em Environmental Impacts of Food Production, assinado por investigadores da Universidade de Oxford, estimou-se que 50% das terras habitáveis ​​são utilizadas para agricultura e que, dessa percentagem, 77% são utilizadas para produção pecuária, como pastagens que são destinadas à produção de rações, e apenas 23% ao resto das culturas, incluindo alimentação humana direta.

Os dados também são cristalinos em um nível energético. Aproximadamente 36% das calorias provenientes das culturas em todo o mundo vão para a alimentação do gado, enquanto essa percentagem sobe para 55% para a população humana em geral. Esta proporção reflete uma enorme extensão de terras agrícolas dedicadas exclusivamente à produção de ração animal, principalmente a partir da soja, o que resultou na perda de milhares de hectares de florestas, especialmente na região Amazônica.

A maior parte da soja consumida é transgênica

Além de ser produzida principalmente para consumo animal, mais de 90% da produção de soja no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, principais exportadores para Espanha e União Europeia, é de origem transgênica. Em outras palavras, a soja foi geneticamente modificada, incorporando genes de outros organismos através da engenharia genética. Esta abordagem, embora proporcione propriedades como a resistência a herbicidas, também acarreta riscos imprevistos para a saúde, o ambiente e a segurança alimentar, uma vez que a manipulação genética pode desencadear efeitos indesejados, conforme abordado e documentado pela organização Ecologistas en Acción durante a sua campanha Crops that Kill.

A característica distintiva da soja transgênica é fundamentalmente sua resistência a herbicidas, especialmente ao glifosato, amplamente utilizado para eliminar plantas concorrentes por recursos como água e nutrientes. Na última década foram desenvolvidas variedades transgênicas que resistem a herbicidas mais potentes, como o glufosinato e o Agente Laranja, autorizados nos três países mencionados e, indiretamente, também na União Europeia e na Espanha. Num bom número de casos, uma única variedade pode tolerar múltiplos herbicidas.

A aplicação massiva de um único herbicida nas monoculturas de soja transgênica tem levado ao surgimento de plantas daninhas resistentes a esses produtos. A resistência ao glifosato, por exemplo, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1998 e, até o fim de 2020, 53 casos haviam sido confirmados em todo o mundo, sendo 19 deles no Brasil. Em resposta, decidiu-se desenvolver variedades de soja resistentes a diversos herbicidas, incentivando o uso de combinações de herbicidas mais tóxicos.

O modelo de produção da soja transgênica depende em grande parte do uso de agrotóxicos, atingindo cerca de 500 milhões de litros por ano somente na Argentina. O abuso destes produtos químicos é tão pronunciado que, segundo a organização Nature of Rights, pode-se afirmar que na Argentina “está chovendo glifosato”. Tanto o glifosato quanto a atrazina, os herbicidas mais utilizados no cultivo da soja argentina, são detectados em 80% das amostras de água pluvial analisadas no país latino-americano.


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Este texto foi inicialmente publicado em português pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].

Retrospectiva de um ano que vai ter novo capítulos

retrospectiva

Ao me aproximar do final do calendário de 2023, a impressão que que tenho é que este é um daqueles ano com sequência garantida. Em outras palavras, temos situações pavorosas em diferentes partes do mundo, a começar pela Faixa de Gaza. O massacre em curso na Faixa de Gaza é sinal inequívoco de que o sistema unilateral criado pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial está em colapso. O mesmo sinal é dado pela continuidade do conflito armado que ocorre na Ucrânia. O pior é que existe potencial para expansão desses conflitos, e não o contrário.

Se olharmos, por outro lado, para o agravamento da crise climática, que ficou ainda mais explícita com a histórica seca que afetou a Amazônia, veremos que além das guerras, enfrentamos com a confirmação das projeções feitas pela comunidade científica sobre os impacto o aumento da temperatura teria sobre uma nova dinâmica na atmosfera da Terra. Com essa nova dinâmica, a previsão é que passaremos por situações extremas, envolvendo inclusive a abrupta elevação do nível dos oceanos.

No entanto, nem todas as evidências acumuladas pela ciência climática têm servido para criar o senso de urgência que a situação requer. Prova disso foram os pobres resultados de mais uma conferência climática, a COP-28, que terminou com promessas tão vagas quanto as anteriores. Com isso, apesar das declarações de que estamos na véspera de uma transição para um mundo pós-combustíveis fósseis, a verdade é que nada indica que isso seja verdade.

No caso específico do Brasil, a promulgação do Pacote do Veneno aponta que a situação catastrófica que vivemos com o envenenamento de águas e solos, bem como a exposição dos brasileiros a venenos potentes que estão na raiz de uma grave crise sanitária que permanece sendo ignorada pelos governantes e pelo agronegócio, principal beneficiário de um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Junto com o reinado dos agrotóxicos, o que deveremos ter é o aprofundamento do desmatamento e da degradação das florestas brasileiras, com a Amazônia e o Cerrado no centro das atenções. Com isso, também é muito provável que aumente o nível de violência contra os povos originários e comunidades tradicionais como quilombolas e ribeirinhos. É que esses grupos estão na linha de frente da resistência contra a transformação de nossas florestas em novos territórios do latifúndio agro-exportador.

Se alguém conseguiu chegar até aqui, a pergunta que pode estar sendo feita é se temos alguma saída para tantos problemas.  Como operador deste espaço, penso que a saída para todos os problemas que se avolumam sobre a Humanidade neste momento é a ação política em prol de uma nova forma de relação com a Terra e que se estenda para a relação entre as pessoas.  Essa ação deve ser marcada por uma profunda inquieitação que rejeite a naturalização de um processo de destruição que ocorre para manter uma fração mínima de privilegiados como beneficiários da catástrofe que nos envolve.

Uma coisa é certa: há que se manter a convicção de que sem luta nada se transformará. Até 2024!

Desmatamento cai pelo 8º mês seguido na floresta amazônica, mas sobe no Cerrado

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O desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu pelo oitavo mês consecutivo, apesar da região ser afetada por uma grave seca.

De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento em novembro totalizou 201 quilômetros quadrados. Isto eleva a perda acumulada nos últimos doze meses na maior floresta tropical da Terra para 5.206 quilómetros quadrados, o que é 51% inferior ao valor registado durante o mesmo período do ano passado.

Desde janeiro de 2023, o desmatamento atingiu 4.977 quilômetros quadrados, marcando uma redução de 50% em relação aos dados do ano passado.

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE.  O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE. O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.

O declínio do desmatamento persistiu apesar de uma das secas mais severas já registradas na Amazônia. Esta seca levou à secagem dos rios, contribuiu para a extinção generalizada das florestas e criou condições propícias à propagação de incêndios na região. Como resultado da crise, as comunidades remotas ficaram isoladas, a poluição atmosférica intensificou-se e a segurança alimentar foi comprometida, conforme relatado por fontes locais .

No entanto, embora o desmatamento na floresta amazónica tenha diminuído, continuou a aumentar no Cerrado – uma savana tropical localizada a sul e a leste da Amazónia. Em novembro, o desmatamento no cerrado totalizou 572 quilômetros quadrados, elevando a perda total no ano passado para 7.594 quilômetros quadrados. Isso representa o nível mais alto registrado desde que o INPE introduziu seu atual sistema de alerta em 2018.

Tanto o cerrado quanto a Amazônia são alvos da expansão agrícola no Brasil.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.

Os dados são divulgados no momento em que o Brasil se posiciona como líder nos esforços de mitigação das mudanças climáticas na cúpula climática COP28. Na semana passada, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou uma proposta de 250 mil milhões de dólares destinada a proteger as florestas tropicais do mundo.

Os investigadores alertam que, devido aos efeitos combinados do desmatamento e das alterações climáticas, a Amazónia pode estar a aproximar-se de um ponto de inflexão onde vastas áreas da floresta tropical poderão transitar para um ecossistema mais seco, semelhante ao Cerrado. Tal desenvolvimento poderia perturbar os padrões de precipitação regionais e globais, desencadear a libertação de milhares de milhões de toneladas de carbono e levar à extinção de inúmeras espécies.

Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia.  Imagem cortesia do Planeta.Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia. Imagem cortesia do Planeta.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Mongabay.com [Aqui!].

COP28 será mais um evento para o Brasil passar vergonha

Lula deve levar à COP28 proposta para "proteger floresta em pé"

Com Lula e Marina Silva, o Brasil se prepara para cumprir mais um papelão na COP28

Começa amanhã em Dubai, Emirados Árabes Unidos, a 28a. edição da Conferência das Partes (COP). Essa edição já começa com area de que irá dar tudo errado já que o presidente-executivo da empresa petrolífera estatal dos EAU, Sultan Al Jaber, como presidente das negociações. É como colocar o açougueiro para cuidar de um curral cheio de bois prontos para o abate. Simplesmente não tem como dar certo.

Mas e o Brasil? Será que fará um papel menos bizarro do que fez nas edições em que Jair Bolsonaro comandava o executivo federal? Será que agora com Lula e Marina Silva, o nosso país vai fazer um papel mais alinhado com o que se espera de um estado-nacional que detém a maior floresta tropical do planeta?

Os últimos pronunciamentos de Marina Silva indicam que não. Primeiro a ministra do Meio Ambiente tem insistido na alegação pouco crível de que o desmatamento de nossas florestas entrou em um patamar, digamos, mais controlado.  O problema é que o desmatamento pode ter até diminuído, mas continua muito alto na Amazônia. No bioma Cerrado, a coisa não tem nem como disfarçar, pois os números indicam um forte viés de alta.

Além disso, como venho insistindo aqui, o problema da Amazônia não é só desmatamento, pois o processo de degradação florestal via extração predatória de madeira e incêndios florestais vem emitindo a mesma quantidade de CO2. Com isso, a insistência em se falar apenas de desmatamento serve apenas para mascarar o tamanho gigantesco do problema representado pelo tamanho da destruição em curso na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

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Marina Silva aponta para o desmatamento enquanto esconde a degradação florestal

Agrotóxicos como contribuintes do aquecimento global e das mudanças climáticas

Outro elemento para aumentar o descrédito nas negociações da COP28 é a aprovação no dia de ontem do Pacote do Veneno. É que, apesar de pouco comentado, o aumento excessivo no uso de agrotóxicos também contribue para as mudanças climáticas.  O fato é qu os agrotóxicos também podem liberar emissões dos efeitos do efeito estufa (GEE) após a sua aplicação.

Pesquisas científicas já demonstraram que os agrotóxicos podem aumentar significativamente a produção de óxido nitroso nos solos. Além disso, muitos agrotóxicos levam à produção de ozônio troposférico, um gás com efeito de estufa prejudicial tanto para os seres humanos como para as plantas.

A falta de atenção para com a contribuição dos agrotóxicos se deve, entre outras coisas, ao fato de que existe um foco maior nas emissões urbano-industriais, mas certamente o peso dos agrotóxicos nas emissões de GEE ainda será futuramente colocado no seu devido lugar, e o Brasil com responsável por 25% do uso total dos agrotóxicos no planeta vai acabar ficando no centro do debate.

Curiosamente, nunca ouvi nada de substancial de Marina Silva sobre a relação entre agrotóxicos com o desmatamento e o aquecimento global.  Aliás, enquato no cargo de ministra do Meio Ambiente, a postura de Marina Silva tem sido de uma ausência óbvia no debate sobre a aprovação do PL do Veneno que passou ontem em brancas nuvens pelo Senado Federal.

Então é forçoso apontar para aqueles que apontavam ou esperavam que a participação brasileira na COP28 fosse qualitativamente diferente do que foi entre as COP 24 e 27, melhor repensar.  Poderemos não fazer o mesmo papelão, mas estaremos quase lá.

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

pantanal em chamas

Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Grande seguradora suíça tem contratos com fazendas responsáveis por desmatamento, violência armada e trabalho escravo no Brasil

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Por Public Eye

O grupo segurador suíço celebrou contratos com fazendas brasileiras que contribuíram para o desmatamento ou estão sob investigação por violência armada e trabalho escravo. É o que mostra uma pesquisa da Repórter Brasil, viabilizada pelo Prêmio Public Eye Investigation. De acordo com o relatório, a Swiss Re venda seguro para fazendas no Brasil cujas terras equivalem aproximadamente à área de Grisões, o maior cantão da Suíça.

Escassez de água na Amazônia, temperaturas recordes nas principais cidades e enchentes com dezenas de mortes no sul do país: o Brasil sofre cada vez mais com fenômenos climáticos extremos . São a principal razão para o aumento acentuado dos seguros agrícolas e pecuários subsidiados pelo Estado . Ao mesmo tempo, porém , a indústria agrícola no Brasil é a que mais contribui para a crise climática global e , portanto , para condições climáticas extremas – devido às suas emissões diretas , mas também através do desmatamento e da assim causada expansão de terras agrícolas. Neste contexto , é escandaloso que a Swiss Re tenha vendido pelo menos 19 apólices entre 2016 e 2022 para grandes explorações agrícolas que as autoridades provaram serem desmatadas ilegalmente . Dado que o cultivo de culturas agrícolas e a pecuária são proibidos nessas áreas restritas , estas apólices de seguro apoiavam de fato atividades ilegais .  

Isso foi revelado pela organização investigativa Repórter Brasil com dados disponíveis publicamente e pesquisas in loco . Esta reportagem foi financiada pelo Prêmio de Investigação apresentado pela Public Eye pela terceira vez . De acordo com estes dados, a Swiss Re, que em muitos países não é apenas uma empresa de resseguros, ficou em quarto lugar no ano passado em contratos agrícolas celebrados no âmbito de um programa de subsídios estatais . A área total segurada pela subsidiária brasileira do grupo sediado em Zurique no âmbito deste programa cobre 659 mil hectares, o que equivale aproximadamente ao cantão dos Grisões. Isto inclui , por exemplo , a fazenda Manto Verde, de 2.400 hectares , para cujo cultivo de soja a Swiss Re contratou impressionantes 17 apólices de seguro desde 2016. Isto independentemente do fato da Manto Verde ter sido declarada uma área restrita pelas autoridades devido a desmatamento ilegal .  

A Repórter Brasil também documentou vários casos em que a Swiss Re celebrou contratos de seguro com fazendas que cultivam ilegalmente áreas indígenas protegidas e às vezes até recorrem à violência armada. Um desses clientes era réu em um caso de  homicídio quando fez três apólices de seguro e outro está sob investigação por trabalho escravo em sua fazenda de café . Quando confrontada com estes factos , a Swiss Re, que opera em 25 países, limita-se a afirmar que “nos esforçamos para identificar riscos de sustentabilidade em todos os nossos negócios”. De acordo com o relatório de sustentabilidade do ano passado , o Grupo pretende neutralizar as suas emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Ao mesmo tempo, porém , está a ignorar qualquer responsabilidade política climática nos seus negócios no Brasil, cujas emissões brutas provenientesde desmatamento em 2021 excederam as emissões totais. de um país como o Japão, segundo o Observatório do Clima . 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!]. 

Impacto climático na Amazônia afeta o sul da América do Sul

clima-Amazonia-996x567O aquecimento global e o desmatamento poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores ou aéreos”. Crédito da imagem: Fábio Mitsuka Paschoal/Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed

Por Nicolás Bustamante Hernández para o SciDev 

O transporte de umidade da floresta amazônica para o sul da América do Sul está sendo seriamente afetado pelo aquecimento global e pelo desmatamento, o que pode gerar um desequilíbrio no clima desta região, que pode até piorar num cenário em que a temperatura do planeta diminuirá e subir acima de 2°C, como previsto para o final deste século.

Isto fica claro num estudo publicado recentemente na revista Science of the Total Environment . O objetivo do grupo de especialistas internacionais que escreveu o artigo foi analisar como o aquecimento global, num cenário de 2°C acima do período pré-industrial, somado ao desmatamento da Amazônia, poderia alterar o clima nas bacias hidrográficas não só desta vital floresta para o planeta, mas de outros ecossistemas relacionados, como no caso da Bacia do Prata (sul do Brasil, Uruguai e leste da Argentina).

Especificamente, os autores avaliaram como ambos os efeitos poderiam impactar o transporte de umidade da floresta amazônica para a Bacia do Prata através dos chamados “rios voadores”.

Esse conceito refere-se às enormes colunas de água que correm sobre o continente sul-americano, transportam umidade e energia e contribuem para precipitações abundantes durante o verão austral (entre dezembro e fevereiro), como explica Murilo Ruv Lemes, membro do INPE e

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global (…) No cenário de aquecimento global, os efeitos sobre a fisiologia florestal podem ser mais fortes do que o desmatamento.”

Murilo Ruv Lemes, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

Para realizar a análise, os pesquisadores realizaram modelagem climática desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

“Descobrimos que o transporte de umidade é impactado tanto pelo desmatamento da Amazônia quanto pelo aquecimento global, que diminuiu em direção ao sudeste brasileiro e aumentou em direção ao sul da Bacia do Prata. No cenário de aquecimento global, os efeitos na fisiologia florestal podem ser mais fortes que o desmatamento”, acrescentou Ruv Lemes.

“Ou seja, uma alta concentração de CO 2 induz à diminuição da condutância estomática, mecanismo positivo para as taxas de evapotranspiração (processo de reciclagem da água na atmosfera), resultando em um ciclo hidrológico mais fraco”, acrescenta Ruv Lemes.

Segundo o cientista, a relação desses fenômenos com a Bacia do Prata reside no fato de esta depender da umidade transportada da floresta amazônica durante seu período chuvoso por meio de mecanismos aéreos fluviais (rios aéreos ou voadores).

“Basicamente, a umidade que evapora do Oceano Atlântico entra no continente sul-americano pelo norte, chegando à floresta amazônica. A floresta desempenha um papel importante em trazer mais água para a atmosfera através da evapotranspiração. Por fim, por meio de um Jato de Baixo Nível, corrente de vento e topografia elevada (Cordilheira dos Andes), esse transporte é redirecionado para o centro-sul da América do Sul, alimentando seu período chuvoso”, afirma Ruv Lemes.

Para o cientista, “as descobertas são necessárias para orientar as partes interessadas e os tomadores de decisão política a melhorar as suas práticas e planejar um futuro resiliente contra as alterações climáticas, que afetam milhões de pessoas por ano, principalmente as mais vulneráveis”.

Por sua vez, Benjamín Quesada, diretor do programa de Ciências do Sistema Terrestre da Universidad del Rosario (Bogotá, Colômbia), destaca que este estudo mostra como o desmatamento em um lugar pode ter efeitos em outro, até centenas ou milhares de quilômetros de distância.

“Essa é uma área para a qual a ciência está caminhando e teríamos que unir forças para documentar muito mais esse fenômeno. Estudos anteriores já mostraram que se ocorrer desmatamento no Brasil, o ciclo hidrológico da Colômbia ou do Chile,  é afetado, mostrando que a Amazônia deve ser protegida, pois o que acontece nela pode ter efeitos em escala global”, afirma Quesada.

“Precisamos de desmatamento zero daqui para frente”, afirma Ruv Lemes.

“Além disso, uma transição energética completa ou um novo estado de matriz energética sustentável deve ser implementado o mais rápido possível. O estado climático e a saúde da Terra são críticos e dependem de uma mudança completa no comportamento humano neste momento. A conhecida estrutura econômica não resolverá esse problema”, afirma o especialista.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do SciDev.Net e foi publicado [Aqui!].