El País: Grandes proprietários, a causa do desflorestamento na Amazônia

Um estudo demonstra que a destruição da selva, freada durante quase uma década, voltou a aumentar em 2013

Por Miguel Ángel

A Amazônia já perdeu quase 20% de sua extensão original. / ALEXANDER LEES

 Alguns poucos milhares de proprietários, com fazendas de mais de 1.000 hectares, são os principais responsáveis pelo desflorestamento da Amazônia. Um estudo, apoiado em satélites, mostra que o plano do Governo do Brasil para frear a desaparição da selva está se esgotando. Inclusive, em 2013, houve um aumento do corte de árvores.

No começo do século XX, o ritmo do desflorestamento da Amazônia brasileira era tal que, antes do fim do século, a selva teria desaparecido. No entanto, em 2004, um plano de ação do Governo do Brasil, então presidido por Lula da Silva, conseguiu frear o corte e a queima de árvores. O programa, que tem por objetivo diminuir em 80% o desflorestamento amazônico em relação à média do período 1996-2005, incluía a criação de novas reservas, a regularização da propriedade de muitas fazendas pequenas, a promoção de sistemas agrícolas sustentáveis e, em especial, a vigilância do uso das terras, chegando a multar seus proprietários e até embargando as terras.

Evolução do desmatamento

Os frutos não demoraram para aparecer. Até 2004, a Amazônia perdia uns 20.000 km2 anuais em média. Em 2004, um dos piores anos, a cifra chegou aos quase 27.000 km2 (2,7 milhões de hectares). Desde então, o ritmo anual de desflorestamento foi diminuindo até ficar entre os 5.000 e 7.000 km2 anuais. Embora os dados sejam positivos, o único que a Amazônia conseguiu foi ganhar tempo. Não desaparecerá neste século, mas, se continuar assim, pode ser que não chegue ao final do milênio.

Um estudo realizado pelo Instituto do Meio-Ambiente de Estocolmo (SEI, Suécia) mostra quem são os responsáveis pelo desflorestamento sofrido pela Amazônia e quem fez mais pela diminuição deste ritmo. Em relação a pesquisas anteriores, que apontavam a expansão fronteiriça dos camponeses e pequenos pecuaristas, os maiores culpados são os grandes proprietários. Alguns milhares que possuem mais de 800.000 km2 dos cinco milhões que formam a Amazônia brasileira.

“Primeiro estão os grandes pecuaristas (70%) e depois os grandes e médios cultivadores de soja (10%)”, diz o pesquisador do SEI e principal autor do estudo publicado no PNAS, o espanhol Javier Godar. Combinando as estatísticas oficiais sobre o regime de propriedade com dados obtidos por satélite, como o do sistema DETER, o trabalho divide responsabilidades.

Quase a metade da superfície desflorestada entre 2004 e 2011, ao redor de 36.000 km2 aconteceu em áreas dominadas pelas grandes propriedades, aquelas maiores de 500 hectares. Os pequenos e médios proprietários dividem, em partes iguais, outros 20%. O terço restante do desflorestamento aconteceu no que os pesquisadores chamam de áreas remotas, tão distantes que ali não chega nenhuma autoridade para comprovar de quem é a terra e, menos ainda, sancionar seu mau uso.

O desflorestamento de uns e outros também é qualitativamente diferente. As grandes extensões arrancadas da selva pelos maiores proprietários, cujas fazendas têm uma extensão média de 7.000 hectares, não poderão se recuperar de forma natural. No entanto, as pequenas propriedades têm um impacto menor na área circundante e estão menos degradadas.

“Os pequenos proprietários mantêm melhor a terra. Abrem zonas menores onde não há impacto nem efeito de borda, a zona ao redor sofre menos com a seca e se fecha mais rapidamente”, explica Godar. Por outro lado, em uma fazenda de 1.000 hectares, as sementes não conseguem chegar até o centro e a zona está mais exposta à erosão. Além disso, enquanto o pequeno proprietário tende a ficar ali onde abriu uma clareira, “o grande se move por uma renda rápida, planta, esgota e abandona as zonas que vão se degradando para abrir outras novas”, acrescenta o pesquisador do SEI.

Os pecuaristas e cultivadores de soja causam 80% do desflorestamento

Seu trabalho, embora demonstre o sucesso das medidas para frear o desflorestamento, também mostra que elas estão se esgotando. Os melhores anos do plano já passaram. De uma redução do ritmo de desflorestamento de 88% nos primeiros anos, chegou-se a uma redução anual de apenas 60% nos últimos. Inclusive, em 2012, houve um aumento relativo do desflorestamento de 28%, sendo a primeira vez em uma década que aumenta o ritmo do corte.

“É um grande desafio produzir novas reduções do desflorestamento no Amazonas, usando o mesmo enfoque de controle e desincentivos legais, principalmente porque o desmatamento está ocorrendo em mais zonas, em unidades com tamanhos menores e em zonas mais remotas, que são portanto mais difíceis de detectar e com maior custo para controlar por unidade de desflorestamento evitado”, argumenta Godar.

De fato, muitos proprietários estão reduzindo o tamanho das áreas desflorestadas. Antes abriam zonas enormes e agora abrem muitas outras zonas, mas com menos de 25 ha para não serem detectados. Abaixo dessa extensão, o sistema de vigilância das autoridades não consegue detectar mudanças no uso do terreno.

Outro problema é que, embora os grandes proprietários estejam bem fiscalizados, com milhares de fazendas embargadas, controlar o uso pelos pequenos é muito mais complicado. Além da limitação técnica, o custo econômico e político de ir contra eles é maior. Para Godar, se não houver uma mudança para um modelo baseado em incentivos, “o desflorestamento aumentará nos próximos anos”.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/13/ciencia/1413222640_280888.html

São Pedro mora na floresta

POR DANILO DI GIORGI

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Desde que a crise da falta d’água não pode mais ser escondida, a publicidade oficial do governo paulista repete que estamos enfrentando “a maior seca dos últimos 84 anos”. Os marqueteiros do Alckmin culpam São Pedro pela crise no abastecimento de água na Grande São Paulo e o mais baixo nível da história do Sistema Cantareira. A maior parte da mídia repete o discurso.

Do outro lado, os adversários do PSDB apontam a incompetência de sucessivos governos tucanos na adoção de medidas que evitassem esta situação crítica: estes políticos teriam ignorado alertas emitidos há vários anos por especialistas em planejamento urbano e abastecimento.

No meio dessa guerra, é quase inacreditável que raras vozes lembrem-se de refletir sobre as razões da falta de chuvas. Seria apenas o mau humor do santo que guarda as portas do céu? A resposta é não.

O estado de São Paulo está na mesma latitude de alguns dos maiores desertos do mundo, como o Atacama (Chile), Namibe (Namíbia), Kalahari (sul da África) e o deserto australiano. O que então nos salva da aridez? Onde, afinal, vive São Pedro?

São Pedro mora longe, mais precisamente lá no meio da floresta. Mais da metade das chuvas que recebemos aqui no Sudeste, nas regiões Centro-Oeste e Sul, e na Bolívia, Paraguai e o norte da Argentina, têm origem na Floresta Amazônica, e chegam até nós pelo fenômeno climático conhecido como “rios voadores”. As “nascentes” destes rios aéreos ficam no Oceano Atlântico: com alta incidência de radiação solar na região da linha do Equador, quantidades monumentais de vapor d’água elevam-se acima do mar e são levadas pelos ventos alísios rumo oeste, para a floresta tropical. Isso explica os altíssimos índices de pluviosidade na região.

A chuva na mata e os imensos rios, somados ao intenso calor na região, geram ainda mais evaporação e evapotranspiração (capacidade de plantas e animais de “perder água” de sua composição biológica e fisiológica), o que chega a dobrar essa massa de partículas de água vindas do Atlântico e suspensas no ar sobre a floresta tropical.

Os números impressionam: são cerca de 600 bilhões de árvores na Amazônia, e as de maior porte são capazes de evapotranspirar até mil litros de água por dia. O volume de partículas de H2O em suspensão é tão grande que estima-se que o volume de água dos rios transportados por via aérea seja equivalente à vazão do Rio Amazonas: cerca de 200 milhões de litros por segundo. A floresta tem ainda o importante papel de reter no solo toda essa água das chuvas torrenciais. Sem as árvores, o líquido seria escoado para os rios e voltaria rápida e diretamente para o mar.

Toda essa umidade segue sendo transportada para o oeste pelas correntes de ar. Parte dela fica na base da Cordilheira dos Andes na forma de neve, parte vai para o norte do continente e parte segue sua jornada para o sul, terminando sua viagem no norte do Paraná, cerca de seis dias depois de sair da Amazônia, irrigando e trazendo vida em seu caminho para milhões de pessoas e um número incalculável de animais e vegetais.

A Amazônia vem perdendo sua cobertura vegetal ao longo dos séculos XX e XXI, e o processo vem se acelerando nas últimas décadas. Calcula-se que o equivalente a 90 milhões de campos de futebol de floresta já foram perdidos para as represas de hidrelétricas, motosserras e queimadas. São milhares a cada dia. Com essa eficiente máquina de destruição funcionando tão bem, o que mais esperar senão problemas de falta de chuvas cada vez mais graves, uma vez que as chuvas dependem da floresta preservada?

Mas não é só o desmatamento da Amazônia que prejudica a manutenção dos reservatórios de água que abastecem as grandes cidades do Brasil. O desmatamento local também é nefasto. Na região do Sistema Cantareira, que serve parte da Grande São Paulo, por exemplo, restam apenas 30% da cobertura vegetal original da Mata Atlântica. Onde não há floresta, a evaporação é maior e a infiltração da água das chuvas no solo é menor, o que diminui a absorção e aumenta a perda de umidade. Num solo de pastagem, por exemplo, a quantidade de água escoada é até 20 vezes maior que em área de vegetação natural.

Enquanto nós brasileiros não repensarmos radicalmente a forma como lidamos com a natureza e os recursos naturais, o agronegócio vai continuar a arrancar pedaços da floresta e novas hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio serão construídas para gerar mais energia para sustentar o crescimento infinito do consumo e do PIB, essa obsessão de governos de todas as cores.

É uma escolha que fazemos todos os dias enquanto sociedade. Mas não fiquemos surpresos se o resultado dessa escolha for não apenas falta de água para o agronegócio e para girar turbinas de hidroeletricidade, mas também para abastecer nossos lares.

Danilo Di Giorgi é jornalista. Mais sobre ele em seu blog http://ddigiorgi.blogspot.com.br/

Publicado originalmente na revista Glocal – painel de geopolítica, meio-ambiente, cultura e matemática cotidiana. Disponível em: http://www.revistaglocal.org.br

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10031:submanchete100914&catid=72:imagens-rolantes

Desmatamento cresce 9,8% em um ano na Amazônia

Área desmatada equivale a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo

José Maria Tomazela, do

Wilson Dias/AGÊNCIA BRASIL 

Desmatamento na Amazônia

Desmatamento na Amazônia: floresta perdeu 3.036 km² de floresta entre agosto de 2013 e julho de 2014

Sorocaba – A Amazônia Legal perdeu 3.036 km2 de floresta entre agosto de 2013 e julho de 2014, conforme dados divulgados na segunda-feira, 01, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O desmatamento foi 9,8% maior que o registrado em igual período anterior. A área desmatada equivale a duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo. O desmatamento está relacionado principalmente às atividades agrícolas.

Os dados do Inpe consideram o desmatamento parcial, em que apenas parte da floresta permanece em pé, geralmente relacionado com a atividade madeireira, e o corte raso, com a supressão total da mata para implantação de lavoura e pecuária.

A Amazônia Legal inclui todos os Estados da Região Norte, além de parte do Mato Grosso e do Maranhão.

Os números se baseiam no rastreamento realizado pelo Deter, serviço de detecção de desmatamento realizado em tempo real pelo Inpe, com base em imagens de satélites de alta frequência.

Nos meses de junho e julho, de maior incidência, 1.264 km2 de áreas em alerta de desmatamento e degradação foram identificados pelo Deter na Amazônia.

O alerta possibilita ação rápida dos órgãos de fiscalização para reprimir a ação dos desmatadores. Os Estados que mais desmataram foram o Pará, com 532 km2, seguido pelo Mato Grosso, com 268 km2 e Rondônia, com 263 km2.

O Estado de Amazonas aparece em quarto lugar com 167 km2. Queimadas e atividades agropecuárias estão entre as principais causas da degradação.

No caso do Amazonas, os desmatamentos ocorreram no extremo sul do Estado, nova fronteira agrícola do país. O Deter identifica áreas degradadas com mais de 25 hectares, mas nem todas as áreas são registradas devido à ocorrência de nuvens.

De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), operações realizadas na região resultaram na prisão de uma grande quadrilha de desmatadores no sul do Pará.

A expectativa é de que os números caiam nos próximos meses.

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/desmatamento-cresce-9-8-em-um-ano-na-amazonia

Desafio histórico, contenção do desmatamento confronta modelo de crescimento

Com desenvolvimentismo baseado na exploração de monoculturas e minérios, Brasil vê crescerem influência de ruralistas e flexibilização de regras que permitem destruição de biomas

por Fábio M. Michel, da RBA
PEDRO BIONDI/ARQUIVO ABR
desmata.jpgNo limite. Cortadas por estradas e cercadas por plantações, florestas desaparecem, enquanto modelos econômicos permanecem

São Paulo – Há dez anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegava ao fim do segundo ano na Presidência da República amargando a maior taxa de desmatamento da Amazônia desde o início das medições do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites, iniciadas em 1988. Em 2004, cerca 27,7 mil quilômetros quadrados de florestas (equivalentes a 3,4 mil campos de futebol) foram ao chão para dar lugar a plantações de grãos, com destaque para a soja e o milho, e também para a cana-de-açúcar. Antes disso, só 1995 registrava devastação maior (29 mil quilômetros quadrados), basicamente pelo mesmo motivo: a expansão das atividades do agronegócio e da extração mineral, produtores de matérias-primas para exportação.

De lá para cá, é verdade que o Brasil instituiu uma série de políticas e medidas que levaram a significativas quedas dos índices oficiais de desmatamento, que chegaram ao menor nível em 2012, aproximadamente 4,5 mil quilômetros quadrados. Os resultados levaram o país a ser considerado pela ONU um exemplo para o mundo de como reduzir o desmatamento e combater a ameaça do aquecimento global, o que foi constatado por um estudo sobre mudanças climáticas produzido pela Union Concerned Scientists (UCS), com sede nos Estados Unidos.

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Índices oficiais de desmatamento da Amazônia. Repique em 2013

O cientista norte-americano Doug Boucher, que foi o coordenador da pesquisa divulgada no mês de junho deste ano em reunião da ONU, realizada na Alemanha, cita a criação de novas áreas de proteção ambiental e de unidades de uso sustentável, além das moratórias acordadas com empresas privadas sobre a compra de soja e carne de áreas desmatadas, como primordiais para combater a derrubada das florestas brasileiras em geral e, particularmente, a amazônica. “As mudanças na Amazônia brasileira na década passada e a sua contribuição para atrasar o aquecimento global não têm precedentes”, declarou.

Na mesma ocasião, porém, Boucher também alertou que o desmatamento voltou a crescer em 2013, ano em que foram ao chão mais de 5,8 mil quilômetros quadrados de matas amazônicas, entre floresta tropical e cerrado – um repique de 28% em relação ao ano anterior. O Brasil, conclui o UCS, dá sinais que trazem dúvidas sobre a continuidade do sucesso na contenção do desmatamento, mantendo, portanto, incertezas sobre o futuro daquele e demais biomas. Os cientistas discordaram, por exemplo, das emendas aprovadas ao Código Florestal no Congresso Nacional, que, entre outras inconsistências, concedeu anistia aos ruralistas por desmatamentos anteriores à promulgação.

Figura também, entre as ameaças potenciais à preservação florestal, o fim da vigência da moratória da soja, em dezembro próximo, que levou diversos países a deixarem de comprar o grão produzido nas áreas provenientes de áreas desmatadas na Amazônia depois de 2006.

Como raiz da iminente retomada dos ataques às coberturas florestais dos biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) está o atual modelo econômico, ainda fortemente baseado em exportações das chamadas commodities agrícolas e minerais. Ainda que com ares de modernidade, essa já era a principal atividade econômica do país nos tempos coloniais. Historicamente, o Brasil promove alternância de ciclos de intensa exploração de algumas monoculturas, como foram os da cana-de-açúcar, do cacau e do café, ou de minérios, a exemplo de ouro e ferro.

E, a cada ano, as receitas produzidas pelo setor se agigantam. As exportações do agronegócio brasileiro alcançaram o montante de US$ 9,61 bilhões em julho de 2014, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No acumulado dos 12 meses anteriores, o faturamento bateu a marca de US$ 99,81 bilhões, dos quais as exportações do chamado “complexo soja” ficaram na liderança (US$ 33,84 bilhões). O setor de carnes aparece em segundo, com US$ 17,03 bilhões em vendas, seguido pelo complexo sucroalcooleiro, US$ 11,84 bilhões.

O economista Guilherme Delgado, consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz e ex-integrante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alerta que a expansão desses setores puxados pela demanda externa, o agronegócio e a mineração, principalmente, têm como ponto comum a exploração não onerosa de recursos naturais, o que equivale a dizer que, entre outras políticas deixadas de lado, está a preservação do entorno ambiental, de forma a elevar a competitividade comercial das commodities.

“Em tais condições o setor primário fica escalado para superexplorar recursos naturais, o que provoca, evidentemente, consequências ambientais, que são custos sociais não internalizados na conta do empreendedor, mas completamente detectáveis na conta da sociedade: desmatamentos e queimadas por um lado, com inegáveis contribuições ao efeito estufa”, resume Delgado.

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ARQUIVO ABR, Do ‘boom’ ao colapso, modelo de ocupação das florestas segue a lógica extrativista

Segundo o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), num artigo divulgado em 2007, o modelo de ocupação do interior do país segue o padrão “boom-colapso”, ou seja, sucesso crescente no início das atividades, seguido de apogeu e queda. Nesse círculo pouco virtuoso, a prática comum é derrubar as florestas para a plantação de vastas áreas de uma só cultura até o esgotamento do solo, acelerado pelo uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Uma nova área é derrubada para o cultivo e a anterior é substituída por pasto, passando a receber grandes rebanhos bovinos, que, por sua vez, leva à degradação completa do ambiente. Quando isso ocorre, a criação de animais é deslocada para outra área que deixou de servir para a agricultura. E assim ininterruptamente.

Como agravante, o aponta ainda que a exploração de áreas de floresta para a atividade agropecuária ou mineral leva também a colapsos sociais cada vez mais frequentes, como os tensos e violentos conflitos pelas disputas de terra, o desemprego no campo e os movimentos migratórios das zonas rurais para as urbanas.

Daniel Nepstad, coordenador dos programas Internacional e Cenários do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) alerta que as medidas e políticas do governo a partir de 2004 podem estar no limite da capacidade de contenção do desmatamento provocado pela manutenção da agroindústria, que é grande provedora de divisas comerciais internacionais. “Esses ganhos são globalmente significativos, mas frágeis”, explica Nepstad. “Estamos esbarrando nos limites do que pode ser alcançado por meio de medidas punitivas. Um aumento da demanda global por soja e carne bovina, por exemplo, nos fará precisar de uma nova abordagem para manter o desmatamento nas taxas atuais.”

Conflito

O caminho entre as políticas federais e as lutas dos movimentos sociais ligados à terra para conter o expansionismo do agronegócio cruza com a bancada ruralista no Legislativo, que é o maior grupo do Congresso Nacional atualmente. Oficialmente, conta com 162 deputados e 11 senadores, sob a sigla de Frente Parlamentar da Agropecuária. No Senado e na Câmara, os parlamentares representam empresas e proprietários de terras, que movimentam R$ 440 bilhões entre a produção agrícola e pecuária

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Além disso, representantes desses interesses estão espalhados por prefeituras e governos estaduais. O jornalista Alceu Castilho, autor do livro “Partido da Terra”, levantou 13 mil declarações de bens de políticos brasileiros, incluindo deputados estaduais, prefeitos, vices, suplentes e governadores, e concluiu que, somados, eles representam 2,03 milhões de hectares, ou 203 mil quilômetros quadrados, mais que todo o estado do Paraná, que, segundo o IBGE, tem 199 mil quilômetros quadrados.

As prioridades políticas dos deputados e senadores são claras: liberação de terras dos territórios indígenas, quilombolas, RESERVAS e parques ecológicos para a exploração agropecuária. Também miram a flexibilização de leis trabalhistas do setor rural, a redefinição do que deve ser considerado trabalho escravo, para a seguir com a submissão de trabalhadores a condições mais que precárias, relaxar regras para o registro de agrotóxicos e de novos produtos alimentares, alterar leis para facilitar a compra de terras por grupos estrangeiros e renegociar, a perder de vista, as dívidas dos ruralistas.

Com tantos interesses contrários à preservação ambiental e tamanha representatividade no Legislativo, a consolidação das políticas públicas brota, mas não floresce. Cândido Grzybowski, sociólogo e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), avalia que o debate sobre as urgências ambientais do país está pautado exclusivamente pelos promotores do agronegócio, entre o que esse grupo considera aceitável para continuar em expansão e o que a sociedade é capaz de suportar.

“Os dilemas sobre o que Brasil e o mundo precisam, e o que estamos dispostos a construir como nação numa perspectiva de sustentabilidade e justiça social, com democracia, ficam em segundo plano. Na verdade, a questão pública e política é determinada por uma velha agenda desenvolvimentista, hegemonizada pelos grandes interesses e forças econômicas envolvidas na cadeia agroindustrial. Tudo que se fará não será no sentido de uma mudança de rumo, mas de flexibilização de regras e condutas para continuar destruindo”, alerta o sociólogo.

Estradas e energia

À medida em que as fronteiras da exploração agropecuária avançam para o interior do país, crescem também as demandas por obras de infraestrutura, especialmente por aquelas que possibilitem o escoamento da produção até os portos de onde sejam exportadas. Num país em que grande parte dos TRANSPORTES DE CARGA ainda se faz por caminhões, a construção de rodovias toma a frente dos investimentos do setor e, historicamente, se transforma em grande indutora do desmatamento.

Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, 75% dos desmatamentos na região ocorreram numa faixa de 100 quilômetros de largura de cada lado das rodovias pavimentadas. Com a ocupação ao longo das estradas e as atividades de pecuária extensiva e agricultura de corte e queima, os incêndios florestais se proliferam. O fogo invade a floresta e o cerrado, e os danos tornam as áreas mais vulneráveis ao fogo. Como o clima da região é diretamente afetado pelas queimadas e a tendência é de agravamento do quadro, a alteração dos sistemas climáticos também é um possível reflexo da pavimentação de rodovias.

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IMAZON/O arco do desmatamento na Amazônia. Círculo vicioso entre derrubadas e abertura de estradas

O asfaltamento das rodovias Cuiabá-Porto Velho e Belém-Brasília, por exemplo, foi decisiva para a formação do que hoje é chamado de “arco do desmatamento” (compare os mapas nas fotos). São 500 mil quilômetros quadrados entre o leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre, onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta e também onde encontram-se os maiores índices de desmatamento da Amazônia. O Ipam calcula que o desmatamento adicional associado às rodovias planejadas para a Amazônia pode chegar a 270 mil quilômetros quadrados até o ano de 2030 (o estado de São Paulo tem 248 mil quilômetros quadrados).

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DNIT/RBA/Rodovias federais na Amazônia juntam-se às estaduais e vicinais e contribuem para o desmatamento

Outro órgão de pesquisa, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), contabiliza o impacto de outros projetos de infraestrutura existentes na região, como hidrelétricas – entre as quais atualmente se destacam as construções de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, além de Belo Monte, no Pará –, e linhas de transmissão, gasodutos, ferrovias, que também induzem desmatamentos. O levantamento amplia o impacto em mais 236 mil quilômetros quadrados de áreas desmatadas. Somados, os cálculos de ambos os institutos de pesquisa projetam mais de 500 mil quilômetros quadrados da Amazônia drasticamente alterados num ritmo acelerado.

Qual caminho?

Em âmbito federal, lidar com a complexidade que envolve a questão fundiária, da qual o desmatamento é uma das consequências mais desastrosas, tem igualmente se mantido como o reflexo de relações entre os grupos de interesse representados pela bancada ruralista no Congresso, muitas vezes num embate entre forças desproporcionais.

Contudo, em que pese a força da representatividade legislativa, ainda que grandes proprietários de terra representem uma parcela ínfima da população brasileira, é fato que, sucessivamente, as gestões federais, Lula e Dilma incluídos, têm sido pouco decididos a levar adiante a reforma agrária necessária para garantir a democratização da posse da terra e a expansão da agricultura familiar como forma de garantir a segurança alimentar, a diversidade ambiental e a fixação dos descendentes dos agricultores no campo.

“Optamos pelo caminho mais curto de crescimento, que tem como pressuposto o velho modelo primário exportador, que nos torna dependentes de potências industriais e nos faz ser um grande destruidor ambiental. Não é esse o Brasil emergente que o mundo precisa e que quem luta por democracia e justiça social quer. Só mais democracia pode nos levar a superar esse dilema”, alertou Cândido, em artigo escrito em agosto de 2012, quando o país assistia o Congresso alterar perigosamente o Código Florestal.

“Se o modelo de desenvolvimento não for modificado em sua essência, nada impedirá a destruição contínua da biodiversidade. Não há modelo matemático capaz de calcular em termos econômicos, muito menos em termos de importância para a vida, o que significa toda essa riqueza” reforça Roberto Malvezzi, filósofo e teólogo, que já foi coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e atualmente milita nas pastorais sociais do São Francisco, em Juazeiro, na Bahia.

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CC / COOPERMUNDI /Exportação de grãos. Modelo ultrapassado que principais candidatos não pensam em mudar

E a julgar pelos programas de governo dos principais candidatos à  presidência da República nas eleições deste ano, pouco mudará o cenário de ameaça aos biomas do país. Em linhas gerais, Dilma, Aécio e Marina consagram o agronegócio como fonte de riquezas e enumeram medidas que, espera-se, ao menos alterem a lógica expansionista de grandes agricultores e pecuaristas.

Na primeira candidatura, em 2010, Dilma prometia, em programa de governo, “dar seguimento a um projeto nacional de desenvolvimento que assegure grande e sustentável transformação produtiva do Brasil”, o que incluiria, conforme o documento, definição de políticas especiais para o meio meio ambiente, fortalecimento da agricultura familiar e ênfase à produção de energia renovável.

Para a atual corrida presidencial, o programa de governo da presidenta comemora que a produção de grãos tenha saltado de 96 milhões de toneladas em 40 milhões de hectares, na safra 2001/2002, para 191 milhões de toneladas em 56 milhões de hectares, na safra 2013/2014. O crescimento é associado a investimentos na capacidade de produção, da expansão de obras de infraestrutura e da ampliação do crédito. Estão previstos R$ 156,1 bilhões para financiar a agroindústria no biênio 2014/2015.

A agricultura familiar aparece também no conjunto de metas para um eventual segundo mandato da petista, mas apenas para dizer que as políticas públicas iniciadas com Lula fizeram a renda no campo aumentar em 52% e que estão previsto pouco mais de R$ 24 bilhões de recursos públicos para financiar o setor para a safra 2014/2015.

Marina Silva, a candidata do PSB, ainda terá de explicar melhor o que pretende em relação ao modelo de crescimento econômico a adotar, ou manter, e o impacto da opção ao meio ambiente. Quando candidata em 2010, o “agronegócio sustentável” foi um capítulo à parte nas diretrizes de programa, que dizia: “a produção (agropecuária) deveria ser aliada à conservação e restauração dos recursos naturais, incluindo o desmatamento zero em todos os biomas, a redução do uso de agroquímicos e uma transição para o sistema de agroecologia.”

No entanto, o atual programa que norteia a atual campanha, o do candidato morto em acidente de avião, Eduardo Campos, é menos incisivo. Nele, a redução do uso de agroquímicos nem é citada, a agroecologia figura como “um modelo que pode ser encorajado por meio de incentivos” e a agropecuária seria fortalecida por “acordos comerciais bilaterais com parceiros estratégicos.”

Já as propostas de governo de Aécio Neves (PSDB), embora longas, nada propõe sobre mudanças do modelo de desenvolvimento ou padrão de consumo. Cita vagamente que buscará a “transição para uma economia de baixo carbono para o enfrentamento do aquecimento global” e “adoção de medidas voltadas à redução do desmatamento da Amazônia, do Cerrado e dos demais biomas.”

O desafio, seja para um eventual segundo mandato de Dilma, seja para a futura gestão de um dos outros candidatos que disputam a corrida presidencial, já está lançado há muito tempo. O Brasil, na questão do desmatamento, clama por firmeza de propostas.

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/eleicoes-2014/desafio-historico-contencao-do-desmatamento-confronta-modelo-de-crescimento-360.html

‘Desenvolvimentismo’ brasileiro extermina usos sociais da floresta e águas amazônicas

madeira

POR LOU-ANN KLEPPA E LUIS FERNANDO NOVOA GARZON  

Assim que o Brasil – ou os que o dominam – resolveu ser o principal estoque de insumos básicos do mundo, logo a Amazônia foi enquadrada como seu principal estoque interno. Parece não haver Código, Lei, Constituição, Tratado, Convenção ou alguma memória ou ética que impeça a exploração da integralidade das jazidas minerais, dos recursos energéticos, dos espaços de logística e circulação presentes na Amazônia. Por exemplo, os linhões de transmissão já feitos (e outros projetados) para o segundo ciclo de grandes hidrelétricas na região (Santo Antônio e Jirau, Belo Monte, Tabajara e Complexo Teles Pires e Tapajós) precisam percorrer mais de 3 mil quilômetros de extensão em contínua e alta voltagem. Isso já demonstra a que missão vieram. É energia para ficar à disposição de plantas industriais eletro-intensivas onde quer que estejam. Aqui tem energia barata para os que se dedicam a ampliar a produção de commodities, anunciam concessionárias e governo.
 
É tanto favor ao hidronegócio que, nesse caso, é a energia que se deslocaliza. E energia hidrelétrica provinda de megaprojetos deslocaliza modos de vida sustentadores de biomas. Sem maiores formalidades, foi posta em vigor uma política de extermínio dos usos sociais da floresta e das águas. Cada megaprojeto desses implica em implosões de sociabilidades e socializações. São sacrifícios sociais impostos que sequer são dimensionados, muito menos avaliados e discutidos publicamente.

As usinas no rio Madeira já eram computadas por instâncias gabaritadas do próprio governo como um caso de “desastre social”. Não se admitia o “desastre ambiental” strictu sensu, tendo em vista os efeitos minimizados prospectiva e retroativamente pela tecnologia das “usinas a fio d’ água”, com argumentos do tipo: “fossem usinas com reservatórios convencionais, os impactos seriam maiores”.

Mas o desastre social ninguém negava: a Secretaria Especial de Direitos Humanos acompanhou e registrou os surtos de estupros, casos de violência contra mulheres e crianças e exploração sexual de adolescentes em Jacy-Paraná entre 2008 e 2012. O Ministério do Trabalho e a Secretaria da Presidência atestaram condições análogas à escravidão nos canteiros de obra, cuja expressão mais visível foi a rebelião operária de Jirau em 2011.

O Ministério da Pesca sabe que milhares de pescadores artesanais perderam sua capacidade de sustento e que nenhum programa compensatório pode alterar o fato que o trecho superior do rio Madeira foi transformado em dois degraus que alteraram de forma drástica os fluxos – de água, sedimentos e seres vivos – que provinham das cabeceiras nos Andes e seu deságue nas terras baixas do Amazonas.

O Ministério de Desenvolvimento Social e até o IBAMA atestaram a inviabilidade econômica dos reassentamentos realizados pelos consórcios e comprovaram a desagregação familiar e pulverização dos reassentados nas periferias de Porto Velho.

Com a grande cheia de 2014, potencializada pela imprevidente operação dos “peculiares” reservatórios das usinas, agora querem apagar o rastro dos desastres acumulados. O “desastre foi natural”, repetem dirigentes dos consórcios, técnicos dos órgãos licenciadores e fiscalizadores, senadores, governador do estado e até a presidenta do país. Tratamento padrão para “calamidade natural” a fim de ocultar a calamidade construída e que continua em curso.

Seria necessário suspender as licenças de operação das duas usinas e repensar o projeto “Complexo Madeira” como um todo, incluindo suas extensões, ramificações e seu efeito cumulativo na bacia. Mas não é o que pensam o setor elétrico e o governo (em processo de reeleição). Selou-se um pacto de silêncio e inação dos órgãos fiscalizadores e do próprio Poder Judiciário para que não se ponha óbice a projetos de infraestrutura do PAC, considerados “estratégicos para o país”.

Na estratégia dos promotores do Complexo Madeira, colam-se muitas outras estratégias empresariais convergentes no intuito da incorporação prévia de blocos de recursos naturais e eixos de passagem interoceânicos. Por isso agora as estradas voltam a ser priorizadas.

Os caminhos na Amazônia eram os rios. Com a chegada das estradas, a pilhagem foi viabilizada. O mercado faz seu traçado olhando o mapa abstrato e uma planilha de custos. A Belém-Brasília, a Transamazônica (ainda que não completamente pavimentada), a BR 364 (Cuiabá-Rio Branco) e agora a BR 163 (Cuiabá-Santarém) foram e estão sendo edificadas com histórias nada edificantes ao longo de cada trecho.

O caso mais recente, a pavimentação da BR 319 (Porto Velho-Manaus) prossegue sem licenciamento específico, sem que se adotem medidas adicionais de fortalecimento das Unidades de Conservação e terras indígenas no seu percurso. Nada contra estradas em geral, mas quando determinadas vias produzem espaços homogêneos que propiciam situações de etnocídios e biocídios, é preciso falar o que vem junto com as estradas e o que não vem.

A construção de vias de acesso de larga escala a regiões situadas na fronteira do mercado traz embutidos projetos de desarticulação e rearticulação de um conjunto de territorialidades não mercantis. É o que deveria ser admitido e discutido. Para podar qualquer discussão, no entanto, sempre haverá uma situação de exceção à disposição. O risco de um novo apagão impôs a expansão da fronteira elétrica na Amazônia em marcha forçada. Em seguida não podem abrir mão das taxas mínimas de “crescimento” frente à crise internacional e novas exceções são abertas: desregulamentações, subsídios e incentivos diretos aos “setores dinâmicos” da economia. E se há um desastre ampliado, associado a grandes variações pluviométricas, aflora então, com mérito salvacionista, um governo de exceção que faz a “gestão da urgência” durante o meio e o pico da última cheia do rio Madeira.

Dois exemplos disso foram estradas representadas e reivindicadas como grande solução depois do isolamento provocado pela cheia: a estrada Parque, que foi anunciada nos jornais como única alternativa para ligar Guajará-Mirim à BR 364, artéria do estado de Rondônia; e a estrada que liga a BR 319 às comunidades ribeirinhas do Maravilha e Niterói, situadas a jusante da usina de Santo Antônio. Essa última estrada foi construída de forma praticamente clandestina com a alegação de que era preciso refazer acessos destruídos pelos efeitos da cheia.

A Estrada Parque, a BR 421, atravessa o Parque Estadual de Guajará-Mirim. Este parque é contíguo com o território da etnia Karipuna e sabe-se que há na região indícios de índios não contatados pelos brancos (o termo “isolados” é corrente, porém, mais justo seria: “resistentes voluntários à modernidade capitalista”). A estrada tinha sido interditada como resultado do trabalho do Ministério Público Federal de Rondônia em março de 2014, com o argumento de que era preciso proteger a vida da/na floresta. No mesmo mês a estrada foi reaberta, inviabilizando a área de proteção integral. Depois que as águas baixaram e a BR 364 foi liberada, não se teve notícia da reversão dessa decisão que fere frontalmente direitos conquistados pelos povos indígenas. Pelo contrário, as manchetes de jornais locais comemoram que a Estrada Parque “está garantida”.

A estrada nova que fica na margem esquerda do Madeira se tornou solução para a especulação fundiária/imobiliária estimulada pela construção da primeira ponte que atravessa o rio. A estrada que parte da BR 319 não parece regulamentada: além de não haver placa indicativa, simplesmente quebraram a guia da BR na largura da estrada nova. A comunidade Maravilha teve a sua chamada “estrada da beira” tomada pelo rio Madeira e pela lama e acabou ficando muito perto da barranca devido à erosão das praias. A comunidade de Niterói, onde surgiram muitos lotes e loteadores, se tornou a cabeça de ponte para expandir o negócio da incorporação imobiliária e fundiária.

O problema é que a estrada fragiliza ainda mais a porção mais preservada da APA (Área de Proteção Ambiental) Rio Madeira, onde ainda muitas famílias agroextrativistas persistem em manter sua economia de subsistência e/ou semi-mercantil. A comunidade Maravilha é uma das poucas áreas próximas a Porto Velho que contém manchas de floresta densa, olhos d’água e formas de interação tradicional com o meio ambiente. A ponte nova, associada à estrada já cascalhada, estende a cidade de Porto Velho e suas assimetrias para a margem esquerda do rio Madeira.

Lou-Ann Kleppa e Luis Fernando Novoa Garzon são professores da Universidade Federal de Rondônia.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9931:manchete130814&catid=34:manchete 

Pesquisador norte-americano faz debate na UENF sobre a construção de hidrelétricas na Amazônia

Título: Tons verdes de outono: o caso contra as hidrelétricas na Amazônia

Palestrante: Professor James R. Kahn

Dia e local da palestra: 30 de junho de 2014 às 16 horas, Sala 107 do Centro de Biociências e Biotecnologia da UENF 

O Prof. James Randal Kahn é uma das maiores autoridades no campo da Economia Ambiental. Seu livro intitulado “The Economic Approach to Environmental Natural Resources” é um dos mais usados nas universidades americanas. Outro detalhe muito significativo sobre o Prof. Kahn é o seu verdadeiro interesse pela Floresta Amazônica e os ambientes tropicais. Neste contexto, o primeiro projeto de internacionalização da UENF foi criado e juntamente com outras universidades (UFAM, Fairfield University, and Washington and Lee University) iniciamos os alicerces da internacionalização da UENF. O Prof. Kahn tem sido um grande colaborado do Centro de Biociências e Biotecnologia, Laboratório de Ciências Ambientais e do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais.

Corte seletivo e fogo fazem Floresta Amazônica perder 54 milhões de toneladas de carbono por ano

Perda equivale a 40% da produzida pelo desmatamento total. Pesquisa cruzou dados de satélites e de pesquisas de campo em 225 áreas (foto:Jos Barlow)

Por José Tadeu Arantes

Agência FAPESP – Uma pesquisa conduzida por cientistas no Brasil e no Reino Unido quantificou o impacto causado na Floresta Amazônica por corte seletivo de árvores, destruição parcial pelo fogo e fragmentação decorrente de pastagens e plantações. Em conjunto, esses fatores podem estar subtraindo da floresta cerca de 54 milhões de toneladas de carbono por ano, lançados à atmosfera na forma de gases de efeito estufa. Esta perda de carbono corresponde a 40% daquela causada pelo desmatamento total.

estudo, desenvolvido por 10 pesquisadores de 11 instituições do Brasil e do Reino Unido, foi publicado em maio na revista Global Change Biology.

“Os impactos da extração madeireira, do fogo e da fragmentação têm sido pouco percebidos, pois todos os esforços estão concentrados em evitar mais desmatamento. Essa postura deu grandes resultados na conservação da Amazônia brasileira, cuja taxa de desmatamento caiu em mais de 70% nos últimos 10 anos. No entanto, nosso estudo mostrou que esse outro tipo de degradação impacta severamente a floresta, com enormes quantidades de carbono antes armazenadas sendo perdidas para a atmosfera”, disse a brasileira Erika Berenguer, pesquisadora do Lancaster Environment Centre, da Lancaster University, no Reino Unido, primeira autora do estudo.

Segundo Joice Ferreira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Amazônia Oriental), em Belém (PA), e segunda autora do estudo, um dos motivos dessa degradação ser menos percebida é a dificuldade de monitoramento. “As imagens de satélite permitem detectar com muito mais facilidade as áreas totalmente desmatadas”, afirmou.

“Nossa pesquisa combinou imagens de satélite com estudo de campo. Fizemos uma avaliação, pixel a pixel [cada pixel na imagem corresponde a uma área de 900 metros quadrados], sobre o que aconteceu nos últimos 20 anos. Na pesquisa de campo, estudamos 225 parcelas (de 3 mil metros quadrados cada) em duas grandes regiões, com 3 milhões de hectares [30 mil quilômetros quadrados], utilizadas como modelo para estimar o que ocorre no conjunto da Amazônia”, explicou Ferreira.

As imagens de satélite, comparadas de dois em dois anos, possibilitaram que os pesquisadores construíssem um grande painel da degradação da floresta ao longo da linha do tempo, em uma escala de 20 anos. Na pesquisa de campo foram avaliadas as cicatrizes de fogo, de exploração madeireira e outras agressões. A combinação das duas investigações resultou na estimativa de estoque de carbono que se tem hoje.

Duas regiões foram estudadas in loco: Santarém e Paragominas, na porção leste da Amazônia, ambas submetidas a fortes pressões de degradação. Nessas duas regiões foram investigadas as 225 áreas.

“Coletamos dados de mais de 70 mil árvores e de mais de 5 mil amostras de solo, madeira morta e outros componentes dos chamados estoques de carbono. Foi o maior estudo já realizado até o momento sobre a perda de carbono de florestas tropicais devido à extração de madeira e fogos acidentais”, disse Ferreira.

Segundo ela, a pesquisa contemplou quatro dos cinco compartimentos de carbono cujo estudo é recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU): biomassa acima do solo (plantas vivas), matéria orgânica morta, serapilheira (camada que mistura fragmentos de folhas, galhos e outros materiais orgânicos em decomposição) e solos (até 30 centímetros de profundidade). “Só não medimos o estoque de carbono nas raízes”, disse.

Para efeito de comparação, foram consideradas cinco categorias de florestas: primária (totalmente intacta); com exploração de madeira; queimada; com exploração de madeira e queimada; e secundária (aquela que foi completamente cortada e cresceu novamente).

As florestas que sofreram perturbação, por corte ou queimada, apresentaram de 18% a 57% menos carbono do que as florestas primárias. Uma área de floresta primária chegou a ter mais de 300 toneladas de carbono por hectare, enquanto as áreas de floresta queimada e explorada para madeira tiveram, no máximo, 200 toneladas por hectare, e, em média, menos de 100 toneladas de carbono por hectare.

Corte seletivo tradicional

O roteiro da degradação foi bem estabelecido pelos pesquisadores. O ponto de partida é, frequentemente, a extração de madeiras de alto valor comercial, como o mogno e o ipê; essas árvores são cortadas de forma seletiva, mas sua retirada impacta dezenas de árvores vizinhas.

Deflagrada a exploração, formam-se várias aberturas na cobertura vegetal, o que torna a floresta muito mais exposta ao sol e ao vento, e, portanto, muito mais seca e suscetível à propagação de fogos acidentais. O efeito é fortemente acentuado pela fragmentação da floresta em decorrência de pastagens e plantações.

A combinação dos efeitos pode, então, transformar a floresta em um mato denso, cheio de árvores e cipós de pequeno porte, mas com um estoque de carbono 40% menor do que o da floresta não perturbada.

“Existem, hoje, vários sistemas de corte seletivo, alguns um pouco menos impactantes do que outros. O sistema predominante, que foi aquele detectado em nosso estudo, associado ao diâmetro das árvores retiradas e à sua idade, pode subtrair da floresta uma enorme quantidade de carbono”, disse Plínio Barbosa de Camargo, diretor da Divisão de Funcionamento de Ecossistemas Tropicais do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação da área de Biologia da FAPESP, que também assinou o artigo publicado na Global Change Biology.

“Por mais que recomendemos no sentido contrário, na hora do manejo efetivo acabam sendo retiradas as árvores com diâmetros muito grandes, em menor quantidade. Em outra pesquisa, medimos a idade das árvores com carbono 14. Uma árvore cujo tronco apresente o diâmetro de um metro com certeza tem mais de 300 ou 400 anos. Não adianta retirar essa árvore e imaginar que ela possa ser substituída em 30, 40 ou 50 anos”, comentou Camargo.

A degradação em curso torna-se ainda mais preocupante no contexto da mudança climática global. “O próximo passo é entender melhor como essas florestas degradadas responderão a outras formas de distúrbios causados pelo homem, como períodos de seca mais severos e estações de chuva com maiores níveis de precipitação devido às mudanças climáticas”, afirmou o pesquisador britânico Jos Barlow, da Lancaster University, um dos coordenadores desse estudo e um dos responsáveis pelo Projeto Temático ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica.

Além dos pesquisadores já citados, assinaram também o artigo da Global Change Biology Toby Alan Gardner (University of Cambridge e Stockholm Environment Institute), Carlos Eduardo Cerri e Mariana Durigan (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP), Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e University of Exeter), Raimundo Cosme de Oliveira Junior (Embrapa Amazônia Oriental) e Ima Célia Guimarães Vieira (Museu Paraense Emílio Goeldi).

O artigo A large-scale field assessment of carbon stocks in human-modified tropical forests (doi: 10.1111/gcb.12627), de Erika Berenguer e outros, pode ser lido em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.12627/full.

FONTE: http://agencia.fapesp.br/19269

“Nunca antes na história deste país se atacou tanto áreas protegidas como agora”

ecoturismo-sustentabilidade.com

“No Congresso Nacional há propostas que, se forem aprovadas, podem afetar mais 2 milhões de hectares só na região amazônica”, adverte o biólogo Enrico Bernard, da UFPE

 

Do IHU Online

“Durante um longo período, de 1981 até recentemente, o governo brasileiro respeitava os limites das unidades de conservação nacionais. Agora, em função de uma visão extremamente desenvolvimentista, essas áreas protegidas passaram a ser vistas como um empecilho, como um estorvo, e a solução é: se está atrapalhando, desfaz”. A crítica é de Enrico Bernard, professor da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e um dos autores da pesquisa Redução, Declassificação e Reclassificação de Unidades de Conservação no Brasil, que aponta um resultado “alarmante” em relação à perda de unidades de conservação no país. De acordo com o pesquisador, é espantoso verificar que, entre a década de 1980 e os anos 2000, houve pontos isolados de redução das unidades de conservação. Entretanto, as ações realizadas nos últimos anos são responsáveis por quase toda a perda de 5,2 milhões de hectares das unidades.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Bernard explica que dez fatores, entre os quais o agronegócio, o turismo, a especulação imobiliária, a construção de hidrelétricas e a geração de energia, são responsáveis pelo diagnóstico apresentado.

Segundo ele, depois da publicação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, no ano 2000, várias unidades de conservação foram reclassificadas, mas a situação piorou oito anos depois. “A situação, no entanto, mudou de figura a partir de 2008, quando observamos um grande ciclo novo de alteração de limites, de redução e de declassificação das áreas. Esse pico de 2008 não é à toa. Em 2007, a Empresa de Pesquisas Energéticas – EPE, ligada ao Ministério de Minas e Energia, publicou um documento que se chama Matriz Energética 2030, no qual diz claramente que, para atender à demanda energética do Brasil até 2030, todos os grandes rios da Amazônia terão de ser barrados. No ano seguinte, em 2008, começamos a ver eventos de alteração de limites das unidades de conservação da Amazônia. Então, o que motivou essa alteração a partir de 2008 está muito relacionado com a geração e transmissão de eletricidade”. 

O pesquisador frisa que mais de 70% da área perdida estava localizada na Região Amazônica, onde se concentram as maiores unidades de conservação. “Algumas unidades estaduais simplesmente desapareceram. Rondônia é um estado que tem um problema sério, porque algumas unidades de conservação de Rondônia primeiro foram reduzidas e depois simplesmente desapareceram”. E dispara: “O que o Brasil está fazendo é um tiro no pé, porque o país depende muito da geração hidrelétrica, e vários dos rios que abastecem essas hidrelétricas passam por dentro ou têm suas nascentes nas unidades de conservação. Então, acabar com os parques e reservas pode comprometer até a geração de eletricidade do Brasil”.

Enrico Bernard é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutor em Biologia pela York University, Canadá. É responsável pelo Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade e professor de Biologia da Conservação no Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

Para ler a entrevista completa basta clicar Aqui!

The Guardian faz matéria sobre ataques de Kátia Abreu, a “rainha da motosserra” a ambientalistas no Brasil

“Rainha da motosserra” brasileira ataca ambientalistas

Jonathan Watts* 

katia-abreu1Senadora Kátia Abreu (PMDB/Tocantins), adversária aberta dos ambientalistas. Foto: Agência Senado

Fora da estufa política de Brasília, provavelmente, há poucos que conhecem o nome do chefe do poderoso lobby agrícola do Brasil, no entanto, a mulher em questão, Kátia Abreu, está rapidamente se tornando a política brasileira mais interessante, importante – e perigosa.

A senadora e fazendeira do Tocantins foi uma força influente no enfraquecimento do Código Florestal do Brasil, responsabilizado por muitos pelo recente aumento do desmatamento da Amazônia. Seu apoio – no parlamento e em uma ácida coluna de jornal – por mais estradas através da Amazônia, controle do Congresso sobre demarcação de reservas indígenas, monoculturas mais eficientes e “sementes exterminadoras” geneticamente modificadas lhe rendeu a ira dos ambientalistas, que a chamavam de “senhorita desmatamento”, “rainha da motosserra” e “Face do mal”.

Abreu, no entanto, se mantém desafiadora, e diz que se prepara para um dia disputar a presidência e quer ajudar o Brasil a superar os EUA como o maior produtor de alimentos do mundo. “Concorrer à presidência não é um plano, é destino. Estou me preparando para isso, caso esse seja o meu destino”, disse ela em uma entrevista concedida em seu escritório em Brasília. “A crítica dos ambientalistas radicais é a melhor forma de endosso. Isso me dá satisfação. Isso mostra que estou no caminho certo e fazendo o papel certo”.

Formada em psicologia, Abreu assumiu a fazenda da família depois que seu marido morreu em 1987, e se tornou a mais ferrenha defensora do agronegócio no Brasil. Ela dirige a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e lidera seu lobby político, que reivindica ter ao seu lado mais de 250 senadores e membros do Congresso.

Seu principal objetivo é aumentar a produção agrícola, a qual representa 23% da economia do Brasil, fração que continua crescendo. As safras de soja e outros produtos aumentaram nos últimos anos, colocando o país – de acordo com Abreu – a caminho de superar os EUA, mesmo sem novos desmatamentos. “Nós temos todos os elementos essenciais: água em abundância, tecnologia avançada e abundância de terra para a produção. Com essa base, podemos nos tornar o número um sem derrubar árvores”.

Sua agressiva mensagem sobre os agronegócios é sustentada por um nacionalismo do tipo abraçado à bandeira do país e que ataca qualquer grupo acusado de tentar retardar o crescimento da agricultura brasileira. Isto inclui os ambientalistas, grupos indígenas e camponeses sem terra, os quais ela alega – sem provas – trabalham para interesses estrangeiros. “Eu não tenho provas concretas disso, mas tenho uma forte impressão de que este é o caso”, disse ela.

A retórica e o estilo intransigente de Abreu lembram os de Margaret Thatcher. Quando menciono a comparação, a senadora se anima.

“Obrigado! Margaret Thatcher foi uma das maiores mentes defensora das políticas liberais. Ela construiu um conjunto de princípios que mudou o mundo. Só lamento não ter tido a oportunidade de conhecê-la”.

Como Thatcher na década de 1980, Abreu está engajada em uma luta com potencial de mudar o mundo. Enquanto a batalha da Primeira-Ministra britânica contra os mineiros na década de 1980 marcou o início de um período de divisão social e capitalismo descontrolado, o ataque de Abreu ao movimento ambientalista tem enorme potencial de causar desdobramentos para o clima global e a oferta de alimentos. Ela parece estar ganhando. À medida que a economia brasileira tornou-se mais dependente do agronegócio, a influência de seu lobby no parlamento aumentou ao ponto em que ela pode ter um peso decisivo nas vitórias ou derrotas da agenda do governo.

Abreu disse que seu sucesso foi, em parte, resultado das melhorias de estilo de vida que a indústria trouxe para o povo brasileiro. “Quarenta anos atrás, o brasileiro médio gastava 50% de sua renda em alimentos. Agora, a proporção é de cerca de 18%”.

A situação era muito diferente há uma década, quando a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, introduziu uma série de medidas que reduziram o desmatamento, e prometeu mais território para grupos indígenas e camponeses sem terra.

Abreu disse que agora a mesa virou. “Por muitos anos, o ambientalismo chegou a um ponto extremo e nós, no setor do agronegócio, fomos tratados como criminosos”, disse, mas agora “nosso setor do agronegócio pode influenciar a escolha dos reis e rainhas no Brasil. No passado, só exercíamos influência econômica. Agora temos também o poder político”.

Apoio à Dilma

Apesar de estarem ostensivamente em lados opostos da divisão ideológica, Abreu disse que trabalharia com Rousseff por um preço: “Eu só quero que ela esteja disposta a entender a nossa situação, para ter uma ideia dos problemas que o setor agrícola enfrenta e ajudar a resolver esses problemas, para que possamos continuar crescendo e para que o Brasil possa chegar ao número um na produção de alimentos”.Na eleição presidencial em outubro, Abreu disse que apoiaria a atual presidente, Dilma Rousseff, que ela descreveu como “mais interessada em agricultura” do que seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

É provável que isso signifique uma maior erosão dos direitos indígenas, leis ambientais mais fracas e menos restrições sobre sementes geneticamente modificadas — todos objetivos pelos quais o lobby de Abreu luta no Congresso.

“Não podemos descansar sobre os louros alcançados. Há muitas coisas freando o progresso: a questão ambiental, a questão indígena e outras. Mas mesmo assim continuamos obtendo altos índices de produtividade. Imagine o quão alto eles poderiam chegar sem esses obstáculos”, disse Abreu.

*Esse artigo é publicado em parceria com a Guardian Environment Network, da qual ((o))eco faz parte. A versão original (em inglês) foi publicada no site do Guardian. Tradução de Eduardo Pegurier

FONTE: http://www.oeco.org.br/guardian-environment-network/28294-rainha-da-motosserra-brasileira-ataca-ambientalistas

Ex-prefeito de Lábrea é responsabilizado por trabalho escravo infantil