Mudanças climáticas empurram abelhas sul-americanas para o Sul

Projeção desenvolvida no Laboratório de Abelhas da UFPR mostra perda de área adequada para espécies já em 2050. Cenários evidenciam necessidade de mitigação dos efeitos das alterações no clima e da preservação do habitat dos insetos

Mudanças climáticas empurram abelhas sul-americanas para o Sul Projeção desenvolvida no Laboratório de Abelhas da UFPR mostra perda de área adequada para espécies já em 2050. Cenários evidenciam necessidade de mitigação dos efeitos das alterações no clima e da preservação do habitat dos insetos

Dezoito espécies exclusivas do continente tiveram o comportamento projetado por pesquisadores. Na foto, uma Lithurgopsis rufiventris, espécie de abelha solitária. Fotos: Adriana Tiba e Julio Pupim/Acervo Pessoal

Por Luana Lopes para o “Ciência UFPR” 

Para onde irão as abelhas com as mudanças climáticas? Esta foi a pergunta que guiou uma pesquisa na Universidade Federal do Paraná (UFPR) que buscou compreender como as alterações nos padrões climáticos poderá afetar a distribuição geográfica destes insetos. Algumas espécies do sudeste da América do Sul podem deixar o Norte, onde em geral é mais calor, e se deslocar para o Sul do continente.

O estudo é fruto da dissertação de mestrado em Entomologia (estudo científico dos insetos) do biólogo Felipe Walter Pereira sob orientação do professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, do Departamento de Zoologia da UFPR. Os pesquisadores selecionaram 18 espécies de abelhas de uma das regiões mais diversas do mundo e usaram projeções climáticas computacionais para o ano de 2050, para identificar os possíveis efeitos das mudanças climáticas na distribuição desses insetos.

De acordo com Pereira, com o aumento das emissões de carbono e das consequentes mudanças de temperatura e precipitação do planeta como um todo, essas espécies tendem a perder a parte mais ao norte do seu limite de distribuição, porque essa região deve ficar mais quente do que é atualmente.

“Esta parte Norte vai deixar de ser adequada, porque vai estar mais quente do que ela pode tolerar. As populações de abelhas devem deixar de ocorrer nesse limite norte, havendo uma região de estabilidade ‘no meio’ e ganhos de colonização ao sul. Isso porque as espécies vão tender a acompanhar seus requerimentos climáticos”, explica.

“Então, hoje é onde o clima é adequado para certa espécie, no futuro, com o aquecimento global, essa região vai estar um pouquinho mais ao Sul. Ou seja, são esperados eventos de colonização e de migração em direção ao sul”.

O professor Rodrigo Gonçalves conta que, para o trabalho, eles fizeram a seleção de espécies que vivem no Sudeste da América do Sul (Argentina, Uruguai e estados do sul do Brasil), por serem adaptadas a climas mais amenos. Também foram escolhidas espécies com modos de vida e comportamentos sociais diferentes para entender como cada uma pode reagir às mudanças climáticas.

“A partir dos registros de ocorrência de cada espécie, identificamos quais variáveis ambientais definem seu nicho, ou seja, as condições ideais para sua sobrevivência hoje. Com base nessas informações, usamos modelos para prever como essas condições vão mudar no futuro e, assim, estimar quais áreas continuarão adequadas e quais serão perdidas. Comparando esses cenários, conseguimos prever deslocamentos ou redução na distribuição das espécies”, afirma.

Embora o estudo necessite trabalhos de campo de longo prazo para a confirmação do deslocamento para o sul, há evidências de algumas espécies que deixaram de aparecer em algumas regiões devido ao clima.

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É o caso da Bombus bellicosus, uma abelha das conhecidas popularmente como mamangava que era muito comum na região de Curitiba nos anos 1960. Desde a década de 90, esta espécie não ocorre mais na cidade, e atualmente seu limite norte é na região do município de Palmas, no sul do Paraná. Este fenômeno foi observado pela pesquisadora Aline Cristina Martins e pelo professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, da UFPR.

“Eles constataram que as extinções locais da espécie se deram às recentes mudanças climáticas e à intensa mudança no uso do solo e na paisagem, com a destruição dos campos sulinos para dar lugar às monoculturas e criações de gado”, conta Felipe Pereira.

Além da dissertação de mestrado, o pesquisador tratou do tema no artigo “Abelhas viajando para o sul: mudanças de alcance induzidas pelo clima e perdas de habitat adequado no Sudeste dos neotrópicos”, publicado pela revista Journal of Biogeography, que tem entre os coautores os professores Rodrigo Gonçalves, Gabriel Melo e Maurício Osvaldo Moura, também da Universidade Federal do Paraná.

Como foi feita a seleção das espécies

O sudeste da América do Sul possui uma variedade muito grande de abelhas: são centenas de espécies na região. Mas para a pesquisa sobre o impacto das mudanças climáticas, Felipe Pereira selecionou 18 espécies. Um dos motivos para a seleção é que, para se construir modelos computacionais de predições ecológicas de distribuições de espécies, é necessário que os pesquisadores tenham um conhecimento amplo sobre onde elas estão, ou seja, as abelhas selecionadas precisam ser bem conhecidas. Este não é o caso da maioria dos insetos, que possuem uma variedade muito grande.

“Dessa maneira, a gente escolheu espécies com trabalhos já feitos por especialistas em taxonomia, com uma extensiva coleta na região. Assim tivemos confiança de onde a espécie está e onde ela não está, o que nos permitiu construir modelos preditivos com uma certa força de predição que torne esses modelos confiáveis”, explica Pereira.

Um outro fator para uma amostragem aparentemente baixa para a pesquisa é que o pesquisador buscou representar a fauna de abelhas na região. Como não é possível fazer predições para centenas de espécies, foram escolhidas abelhas com linhagens diferentes, que possuem atributos variados, representando assim as características conhecidas das abelhas e não só apenas um grupo.

“A gente poderia ter feito um estudo só com abelhas-sem-ferrão, por exemplo, que é um grupo evolutivo único que daria uma resposta. Não fizemos isso: tivemos, entre outras, representantes de abelhas-sem-ferrão, representantes de mamangavas, representantes de abelhas solitárias e abelhas sociais”, afirma o pesquisador.

Para a seleção de espécies que representasse essa fauna de abelhas, Felipe Pereira contou com a colaboração do professor Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, um dos maiores especialistas em taxonomia de abelhas do mundo. Melo fez a consultoria das espécies que seriam interessantes para serem analisadas, fazendo o recorte amostral.

“Tinha uma questão de sabermos se havia uma boa quantidade de distribuição de cada uma dessas espécies. Porque, para fazer essas projeções, precisamos ter material, ou seja, os pontos de ocorrência. Não teríamos respostas sobre uma espécie extremamente rara, onde só a conhecemos de um ou dois locais diferentes”, explica. “Temos que trabalhar com espécies que têm uma quantidade razoável de material que foi coletado, que tem registro”.

O registro de onde esses espécimes se encontram distribuídos consta na Coleção Entomológica Pe. Jesus Santiago Moure (DZUP) da UFPR, em Curitiba, que possui a maior coleção de abelhas da América Latina. Na década de 1940, o entomólogo Padre Moure criou na universidade um grupo de pesquisas em abelhas e, desde então, ao longo das décadas, dezenas de pesquisadores foram acrescentando informações sobre as abelhas da região, incluindo dados sobre as condições climáticas do habitat das espécies. Gabriel Melo explica como ocorre essa coleta de informações:

“Pegamos os pontos de ocorrência de uma espécie, como se fosse uma quadrícula no mapa, e a partir disso buscamos uma série de atributos relacionados ao clima. Então olhamos, por exemplo, a precipitação média dos locais que essa espécie ocorre, a temperatura média anual, a temperatura média do mês mais quente, temperatura média do mês mais frio, precipitação anual… vários atributos climáticos em relação àquela quadrícula onde tem um ponto da espécie. Depois, pegamos o somatório de todas as quadrículas que a espécie foi encontrada e temos algo como uma média”.

A partir desta média, são feitas as projeções climáticas para o futuro:

“Desta forma, por exemplo, a quadrícula que hoje tem uma temperatura média, com o aquecimento essa temperatura vai aumentar. E esse aumento pode fazer com que aquela espécie fuja daquele intervalo que ela vive. Se ficou quente, ela não vai conseguir sobreviver ali, porque ela só sobrevive nas quadrículas cuja temperatura média é tal”, explica o docente.

Abelhas podem perder seu limite de distribuição em 2050

Apesar de cada espécie ter sua própria condição climática adequada para sobreviver em determinado local (chamada nicho climático), de modo geral as abelhas são insetos que preferem climas mais amenos, em ambientes mais secos, e são mais diversas em locais de campos abertos. Além disso, são seres ectotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal é influenciada pela temperatura do ambiente, o que pode fazer com que estes insetos não resistam às temperaturas mais altas.

“Há trabalhos tentando ver como que a temperatura pode influenciar a sobrevivência das abelhas. Registros acima dos 40 graus já começam a afetá-las de forma que pode ter uma mortalidade muito grande. Varia muito de espécie para espécie, mas tem essa relação de que se o planeta aquecer muito, como está acontecendo esse aquecimento global generalizado, pode levar a um aumento na taxa de mortalidade. A parte fisiológica delas fica comprometida e pode ser que elas morram sem conseguir se reproduzir”, explica Felipe Pereira.

Considerando estes fatores, os pesquisadores buscaram testar a hipótese de que, com o aquecimento global, as abelhas devem buscar locais mais adequados e podem desaparecer de áreas que se tornaram menos favoráveis. Para isso, um dos primeiros passos foi construir modelos de nichos ecológicos para encontrar as áreas climaticamente favoráveis para as espécies no presente.

“O nicho ecológico é uma posição no ambiente em que as populações são viáveis, e cada grupo de espécies tem alguns fatores que são importantes. Para as abelhas, por exemplo, a temperatura, a umidade relativa e porcentagem de floresta são relevantes”, afirma Mauricio Moura, docente da UFPR e coautor do trabalho.

Os modelos de nicho ecológico criados foram projetados para 2050, utilizando um cenário definido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em língua inglesa). Estes cenários representam previsões de mudanças climáticas futuras com base em diferentes níveis de emissões de gases de efeito estufa, avaliando o que os governos estão fazendo para combater o problema e apresentando dados sobre temperatura, umidade e eventos extremos. No estudo sobre as abelhas, os pesquisadores selecionaram o cenário pessimista SSP585, que apresenta maiores emissões de carbono e ações nulas ou limitadas para a mitigação das mudanças climáticas.

“Para realizar este trabalho, temos determinadas as posições geográficas das espécies em latitude e longitude. Fazemos várias perguntas com as variáveis climáticas, encontrando as características do ambiente que são importantes para as abelhas. Com isso, temos um recorte de condições favoráveis para aquela abelha de hoje”, afirma Moura. “Então, entramos com o cenário futuro e perguntamos: ‘Onde essas condições vão ocorrer no próximo cenário?’ Os modelos computacionais vão nos dizer, por exemplo, que essas condições vão acontecer 20 graus para baixo. Assim caracterizamos um deslocamento de área de distribuição”.

A pesquisa concluiu que o padrão de deslocamento para o sul foi observado em todas as 18 espécies analisadas, mas também foi identificado que as espécies de abelhas eussociais da região podem ser mais afetadas pela perda de áreas adequadas para a sobrevivência do que as espécies solitárias. O artigo reforça que, além do clima, mudanças no habitat e particularidades comportamentais das abelhas podem também influenciar na vulnerabilidade dos insetos.

Políticas públicas para preservar habitat previnem contra perdas de distribuição

O estudo também destacou a importância da conservação dos habitats das abelhas para garantir a preservação da espécie, além da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Segundo Felipe Pereira, o artigo reforça que devem ser feitas estratégias de conservação na região pesquisada, especialmente em relação aos campos sulinos – ambientes muito vulneráveis e geralmente negligenciados em ações de preservação. Para o pesquisador, as projeções podem auxiliar a delinear as regiões que seriam prioritárias para conservação das abelhas no futuro.

“Essa vegetação de campo muitas vezes é interpretada como sendo apenas ‘um mato’ pelos leigos ou por aqueles que têm o recurso financeiro para modificar a paisagem. É muito mais fácil destruir os campos do que a floresta, por exemplo”, opina. “Então, não adianta o clima em termos de precipitação e temperatura estar adequado, se a gente não tem recursos florais para as abelhas usarem, ou solo exposto e cavidades em madeira para as abelhas construírem ninhos. Se isso não existir, não adianta de nada o clima ser bom”.

Pereira conclui que a ideia desta e outras pesquisas sobre as abelhas é juntar vozes para fortalecer a luta pela mitigação dos problemas acarretados pelas mudanças climáticas.

“Existem cenários futuros, e um deles é nós pararmos ou controlarmos ao máximo a emissão de gás de efeito estufa, mudar nosso padrão de consumo”, afirma. “Nós usamos essas vozes de conservação para pensarmos em cenários futuros adequados para produção de alimentos, para o bem-estar, para simplesmente a gente ter um planeta habitável nas próximas décadas”.

Labe-UFPR busca conscientização sobre a diversidade das abelhas

Outros estudos que reforçam a necessidade de preservação das abelhas são desenvolvidos no Laboratório de Abelhas da UFPR (Labe). O grupo é coordenado pelo professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, que lançou no ano passado um livro como forma de aumentar a compreensão sobre estes insetos.

“As abelhas são essenciais para a polinização de plantas nativas e cultivadas, garantindo tanto a biodiversidade quanto a produção agrícola. Além disso, algumas espécies são criadas para a produção de mel ou por hobby, o que desperta mais interesse no tema. A crescente popularidade das abelhas pode ser uma oportunidade para conscientizar a sociedade sobre a importância da conservação da natureza”, diz o docente.

➕ Leia o artigo “Bees travelling south: Climate-induced range shifts and suitable habitat losses in south-eastern neotropics, publicado no Journal of Biogeography 


Fonte: Ciência UFPR

Editora da UFRJ lança versão em português do “The Tropical Silk Road. The Future of China in South America”

Lançando originalmente em inglês pela Stanford University Press em 2022 , o livro “The Tropical Silk Road. The Future of China in South America” agora tem seu lançamento em português via a Editora da UFRJ com o título “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul”

Esta obra é uma coletânea de ensaios que analisa a crescente influência da China na América do Sul, especialmente no contexto dos megaprojetos de mineração, infraestrutura, energia e agronegócio nos biomas tropicais da região, como a Amazônia, o Cerrado e os Andes. A obra destaca a interseção entre dois processos transformadores globais: a rápida expansão da esfera de influência chinesa no Sul Global e a degradação ambiental dos principais biomas sul-americanos.

Além disso, “A rota da seda tropical: o futuro da China na América do Sul” oferece um panorama crítico e detalhado da nova ordem mundial pós-hegemônica centrada nos EUA, evidenciando os riscos e oportunidades que a expansão chinesa traz para a América do Sul.

Finalmente, este livro é uma referência essencial para compreender as transformações geopolíticas, ambientais e sociais em curso na região, combinando rigor acadêmico com relatos de campo e perspectivas de atores locais e globais.

Tem desejar aquirir uma cópia deste livro, basta clicar [Aqui!].

Mecanismos obscuros e controles fracassados ​​abrem caminho para o tráfico massivo de ouro na América do Sul

Milhares de toneladas de ouro extraídas na América do Sul são disfarçadas como legítimas, através de vários mecanismos obscuros de produção e comercialização, para serem exportadas para as grandes refinarias do mundo. São operações de uma indústria milionária que se expande e se transforma para perfurar um sistema de controle falido dos países produtores. Depois de analisar milhares de dados e visitar vários enclaves mineiros na Amazónia, nos territórios andinos e nos territórios costeiros do Peru, Venezuela, Colômbia, Equador e Brasil, quase vinte jornalistas identificaram um sistema complexo de lavagem e desvio massivo de ouro. Entre 2013 e 2023, estes cinco países exportaram mais de 3.000 toneladas de origem desconhecida, juntamente com a destruição de ecossistemas e o deslocamento de povos e comunidades indígenas em territórios remotos, assumidos por grupos armados na ausência das autoridades. As empresas internacionais assinam directrizes de “devida diligência”, mas o metal sujo continua a infiltrar-se na economia global sem consequências. É o que revela a série investigativa Opacidade Dourada: mecanismos sobre o tráfico de ouro na América Latina , projeto liderado pela Convoca.pe com a participação de meios de comunicação e organizações de jornalismo investigativo de cinco países sul-americanos.

ouro opaco

Por Convoca.pe 

Entre as selvas e cadeias montanhosas da América do Sul, os mineiros ilegais têm um recurso ainda mais valioso do que o cobiçado ouro que extraem à vontade: a incapacidade das autoridades para os supervisionar. Degradando ecossistemas e desrespeitando a lei, iniciam o primeiro elo de uma longa cadeia de produção e comercialização em que prevalecem a falta de controlo e a impunidade. Assim, o metal precioso é exportado para outros continentes escondendo a sua origem ilegítima. Grande parte desse ouro vai parar em joalherias luxuosas na Europa, em destinos pouco auditados como Dubai, Turquia e Índia, e nos armazéns de conhecidas fábricas de tecnologia nos Estados Unidos. 

A falta de rastreabilidade do ouro ilegal tem sido o ponto cego das políticas públicas na região. E está a tornar-se mais evidente agora que a mineração ilegal está a aumentar os seus volumes de exportação como nunca antes. De acordo com uma base de dados estruturada por jornalistas do Peru, Colômbia, Venezuela, Equador e Brasil, no âmbito do especial ‘Opacidade dourada: mecanismos sobre o tráfico de ouro na América Latina’, liderado pela Convoca.pe , foram exportadas pelo menos 5 1.941 toneladas de ouro desses países, entre 2013 e 2023. Desse montante, não se sabe a origem de mais de 3.000 toneladas se compararmos o volume da produção de ouro com a carga declarada para exportação, o que equivale a mais da metade da produção informada e em dinheiro representa mais de 158.341 milhões de dólares se for levado em conta o preço médio do ouro em cada ano deste período de desequilíbrio.

O complexo sistema de branqueamento e desvio massivo de ouro de origem suspeita através de novas rotas inclui vários mecanismos que identificamos nesta série investigativa percorrendo os territórios mineiros, construindo bases de dados e analisando documentos e mapas de satélite: a falsificação de notas fiscais de compra e venda do metal, autorizações fraudulentas, concessões fantasmas, fluxos de contrabando, fábricas de produção e fundição cúmplices, finanças de grupos armados, controlos negligentes, mudança de caminhos para destinos opacos para evitar sanções econômicas e processos judiciais.

O país sul-americano que, de longe, mais exporta ouro de origem desconhecida é o Peru: concentra mais de 99 por cento do desequilíbrio entre produção e exportação nestes cinco países analisados. Entre 2013 e 2023, vendeu 4.402 toneladas ao exterior apesar de registar apenas a produção de 1.373, o que revela uma diferença de mais de 3.028 toneladas de ouro exportado de origem suspeita.

A Colômbia vem em seguida, com uma diferença de 58,91 toneladas entre o que foi produzido e exportado no mesmo período: este país vendeu 618,7 toneladas para outros países, mas extraiu 559,81 entre 2013 e 2023. Enquanto o Equador fez embarques de 82,1 toneladas nos últimos sete anos, registando 12,73 toneladas de desequilíbrio, o que representa um excesso de 18% face ao reportado. No caso do Equador, foram analisados ​​os números entre 2017 e 2023 por serem os mais confiáveis ​​para a análise. 

No Brasil e na Venezuela, os números públicos sobre a produção e exportação de ouro não são muito claros ou existem lacunas de informação. Numa primeira análise para esta pesquisa, identificou-se que há anos em que se registram mais exportações do que produção. O Brasil registra um desequilíbrio a favor de sua produção de +34,11 toneladas, entre 2015 e 2021; e Venezuela um desequilíbrio a favor de +52,66 toneladas entre 2013 e 2023. Contudo, em todas estas jurisdições a mineração ilegal está a ganhar terreno. 

Um estudo da organização canadense Artisanal Gold Council determinou que em 2016 (ano da criação do Arco Mineiro do Orinoco) apenas 20% do ouro venezuelano foi exportado através do Banco Central da Venezuela, o canal oficial, enquanto 80% saiu clandestinamente . Atualmente, essas proporções são mantidas. Um relatório da Transparência Venezuela informa que entre 70% e 90% do ouro extraído no sul do país sai do território ilegalmente em operações que envolvem altos funcionários do governo e parentes próximos da comitiva presidencial. 

As sanções económicas dos Estados Unidos contra o sector do ouro da Venezuela forçaram o governo de Nicolás Maduro a mudar as rotas tradicionais de exportação do ouro legal. A partir de 2019, incorporou o Líbano, país com reconhecida administração opaca, como um dos seus principais destinos, tornando-se uma plataforma de trânsito para a comercialização do metal de conflito venezuelano no mercado internacional. 

O que impulsionou a criação de vários mecanismos para comercializar ouro de origem obscura? Além do apetite pelo aumento de preço no mercado internacional – o metal abriu 2019 com valor de US$ 1.286 a onça e cinco anos depois atingiu  US$ 2.300 em média -, há outras causas internas que facilitam esse boom. 

“Um fator é a atitude geral dos governos em relação à mineração artesanal e de pequena escala. Vemos como as políticas podem influenciar a tolerância para com eles. Existem, por trás de tudo, alguns factores estruturais, como a baixa presença de governos nestas áreas remotas de produção de ouro, os elevados níveis de informalidade econômica e o aumento do preço do ouro devido a perturbações geopolíticas e econômicas”, explica Luca para este relatório. Maiotti, analista de políticas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

mineração peruA mineração artesanal informal e ilegal na costa, nos Andes e na selva é o denominador comum na América do Sul. Foto: Convoca.pe

mineração peru 2A selva dos países sul-americanos é a mais atingida pela mineração ilegal que extrai ouro dos rios. Foto: Convoca.pe

Dados da plataforma Amazon Mining Watch revelam que o Brasil concentra a maior parte da degradação causada pela mineração em toda a Amazônia sul-americana. A área afetada por minas na floresta tropical passou de 9,7 mil km2 em 2018 para 13,1 mil km2 em 2023. Mas no Brasil já ultrapassa 5,9 mil km², o que representa 45% do total.

Neste país, a mineração considerada pelas autoridades como artesanal e de pequena escala (ou garimpo) vive atualmente uma expansão alarmante, um fenômeno que não é espontâneo. Fabiano Bringel, pesquisador da Universidade do Estado do Pará, conta ao Convoca.pe que no Brasil “houve uma eliminação gradativa de entraves jurídico-formais que, de alguma forma, disciplinavam a prática dessa atividade”. Isso ocorreu especialmente após a destituição da ex-presidente Dilma Roussef (2016) e com a entrada de Jair Bolsonaro ao poder (2019-2022).

Por exemplo, em 2022 foi aprovado um suposto aperfeiçoamento” do Novo Código de Mineração , que na verdade flexibiliza a entrega de licenças de mineração aos garimpeiros sob o argumento de que a mineração artesanal e em pequena escala está sendo estimulada. Isto chegou ao ponto em que os mineiros podem considerar pedidos de exploração de terras que não sejam respondidos no prazo de 60 dias como aceites. Já foram detectados garimpos fantasmas que serviram para justificar toneladas de ouro extraídas de outros locais e introduzi-las no circuito legal. Neste contexto. O Brasil tem sido um lugar importante para a lavagem de ouro de países vizinhos.

No último ano, porém, as coisas começaram a mudar com novas medidas contra a lavagem de dinheiro. Até recentemente, o mineral era vendido com recibo de pagamento físico, o que dificultava muito a fiscalização e a rastreabilidade. Além disso, havia uma “regra de boa fé” que isentava de responsabilidade os comerciantes que adquiriam o ouro, desde que o produtor declarasse que era de origem legal. Em maio de 2023, a presunção de boa-fé foi revogada e dois meses depois passaram a ser exigidas faturas eletrônicas , permitindo às autoridades cruzar informações de vendedores e compradores.

Porém, como revela reportagem da Repórter Brasil para esta série jornalística, embora a produtividade “declarada” dos garimpos legais tenha caído 70% desde então, na realidade essas mudanças levaram os grupos criminosos a encontrar outras formas de continuar operando fora dos radares da fiscalização. . Um exemplo é o aumento do desmatamento associado ao garimpo ilegal em territórios indígenas. Isso faz com que as autoridades suspeitem que o Brasil deixou de ser uma escala de lavagem para se tornar um fornecedor de ouro ilegal. 

Para Rodrigo Oliveira, investigador e funcionário do Ministério Público Federal (MPF) no Pará, “a presunção de boa-fé institucionalizou a lavagem de ouro no Brasil”, pois praticamente isentou os compradores de qualquer responsabilidade pela origem do ouro que adquiriram, mesmo em casos flagrantes de fraude, como as chamadas “minas fantasmas”. Contudo, Oliveira afirma que “a regulação deste mercado continua bastante precária, com muitas brechas para lavagem de dinheiro. “Se as regulamentações não forem melhoradas, o novo cenário não levará a uma redução da mineração ilegal, mas apenas a uma maior clandestinidade”.

Enquanto não existirem controlos eficazes no sistema de licenças de mineração artesanal ( permissão de lavra garimpeira ), a indústria continuará a explorar lacunas na legislação actual. O pesquisador Fabiano Bringel comenta que há um “contorcionismo regulatório recente” que acabou obscurecendo os conceitos que diferenciam a mineração legal da mineração ilegal . “O enfraquecimento do conceito de ‘licença de mineração artesanal’ resultou na inserção de uma série de atividades que pela sua natureza nem sequer poderiam ser consideradas garimpo , que, apesar disso, continuam a utilizar regulamentações menos protetoras”, explica. 

Assim, barcos com equipamentos sofisticados e maquinaria pesada são vistos nestas áreas de exploração. Existe uma norma polêmica que define as dimensões das licenças para o trabalho de garimpo : 50 hectares por garimpeiro individual , mil hectares por cooperativa ou até dez mil se operar na Amazônia. 

No Brasil, investigações recentes da Polícia Federal apontam para uma aproximação entre facções criminosas e garimpos ilegais de ouro na Amazônia nos últimos anos. Especialistas apontam que o crime organizado tem aproveitado as rotas aéreas e fluviais utilizadas pelo tráfico de cocaína entre o Brasil e os países vizinhos para transportar também ouro ilegal, como revela a série Narcogarimpos , publicada pela Repórter Brasil em 2023.

Peru: epicentro da ilegalidade

O Peru é o principal exportador de ouro da América do Sul. Os dados públicos sistematizados para este relatório indicam que entre 2013 e 2023 o metal exportado deste país foi mais de três vezes o que foi registado como produzido. Convoca.pe revela, como parte desta série investigativa, como os embarques de ouro de origem informal no sul do país entram no sistema de produção legal sem controle das autoridades através da planta de processamento mineiro de Laytaruma, o quarto maior exportador de ouro. ouro importante no Peru, com mais de 1,5 bilhão de dólares em exportações para países como Estados Unidos, Suíça, Emirados Árabes Unidos e Turquia. 

ouro 1

Este caso mostra claramente as condições que facilitam a impunidade e a lavagem de ouro: A planta de processamento de Laytaruma opera na região andina de Ayacucho, na fronteira com a região de Arequipa, o que dificulta o controle desta atividade em um território que não é facilmente acessível aos autoridades localizadas na cidade de Huamanga, em Ayacucho, a 12 horas de distância de veículo se você seguir o caminho mais rápido por Nazca. A empresa está registada na categoria de pequena mineração como se processasse menos de 350 toneladas de ouro por dia, o que exige que a sua supervisão seja encarregada das autoridades regionais e não dos inspetores do governo central. Porém, uma equipe de repórteres do Convoca.pe conseguiu identificar que dezenas de caminhões com cargas em torno de 650 toneladas por dia entram na fábrica de Laytaruma.

mineração peru 3A Minera Laytaruma é a quarta maior exportadora de ouro do Peru, mas continua sendo uma pequena mineradora. Foto: Google Earth.Como parte desta série investigativa, também foi possível identificar que existem outras plantas de processamento que exportam mais ouro do que declaram como produção às autoridades, sem que existam mecanismos de supervisão adequados. Além disso, num passeio exaustivo por Madre de Dios, uma região amazónica devastada pela mineração ilegal, descobrimos uma cadeia de marketing opaca com empresas envolvidas em investigações de lavagem de dinheiro ou comércio ilegal de ouro que fazem regularmente remessas para a Índia e os Emirados Árabes Unidos. 

A rastreabilidade da cadeia de abastecimento é o principal ponto fraco no Peru, como no resto dos países sul-americanos. O problema é que a responsabilidade pela certificação do ouro recai sobre os próprios produtores e não sobre o Estado. Para extrair e negociar o mineral, os interessados ​​precisam apenas estar cadastrados no Cadastro Integral de Formalização da Mineração (Reinfo) e no Cadastro Especial de Comerciantes e Processadores de Ouro (Recpo). Este último, apesar de ter mais de 11 mil registos de cidadãos e empresas, não está interligado com outros sistemas informáticos para cruzamento de informação e detecção de operações suspeitas.

Por outro lado, a SUNAT, autoridade fiscal e aduaneira, é responsável por avaliar a certificação do ouro metálico antes de ser exportado. Mas, novamente, a eficácia da supervisão depende mais das boas intenções da empresa mineira ou do mineiro na formalização. A norma indica que são estes que devem comprovar a legalidade do envio. Isso é feito por meio de simples declaração juramentada indicando a origem do ouro e onde devem afirmar que não estão praticando lavagem de dinheiro. 

Também são solicitadas guias de embarque para transporte da carga e análise laboratorial do grau ouro, que indica a pureza e o peso do mineral. E normalmente é solicitado um “certificado de origem”, formulário validado pelas autoridades peruanas e que permite o acesso a benefícios tarifários. Por sua vez, a SUNAT não dispõe de laboratórios especializados para avaliar o ouro. 

mineração peru 4Dezenas de usinas que processam minerais provenientes da mineração informal e ilegal foram instaladas no sul do Peru. Foto: Convoca.peNo Peru, o poder político também favoreceu diretamente a mineração informal. Desde 2002, existe uma Lei de Formalização que visa que os mineiros artesanais e de pequena escala regularizem a sua situação precária, operem com título e se adaptem às normas ambientais. O mandato inicial era de um ano. Mas este ultimato , graças aos esforços dos grupos políticos do Congresso peruano, foi prorrogado tantas vezes que 22 anos depois ainda continua a oferecer a possibilidade de regularização, mas sem o fazer de forma definitiva e sem assumir as consequências. Está estabelecido que a validade terminará este ano, mas já surgiu uma nova iniciativa para estendê-la mais uma vez até 2027.

Até o momento existem 86.829 registros no referido Registro Integral de Formalização Mineira ( Reinfo ) no Peru, dos quais 63.824 (73,5%) estão suspensos. Tal como no Brasil, estes registos também têm sido utilizados para perverter o sistema, uma vez que foram detectadas concessões de mineração fantasmas que registam produção apesar de estarem inoperantes. Foi o caso da rede criminosa Los topos del frio , que utilizou os registros de quatro pessoas que não utilizaram as suas concessões para lavar enormes quantidades de ouro ilegal extraído nas montanhas de La Libertad, no norte do Peru.

Convoca.pe identificou que também foi instalado um sistema de lavagem de dinheiro nas rotas. Os documentos exigidos dos transportadores podem ser obtidos com muita facilidade, situação que cria condições para que o ouro ilegal se misture com a carga legal. Estas levam o mineral às usinas beneficiadoras, onde é convertido em barras para serem exportadas para refinarias internacionais. 

Embora o caso peruano tenha vários desafios pela frente, para Mark Pieth, ex-presidente do Basel Institute of Governance e autor do livro “Lavagem de Ouro”, a situação na “Colômbia é muito mais problemática (…) com a presença do crime organizado em todos os lugares é mais difícil. A tensão entre os povos indígenas e o crime está presente. E isso é muito desesperador”, afirma o pesquisador suíço em diálogo com Convoca.pe . Na Colômbia, a mineração ilegal está muito longe de ser efetivamente controlada pela burocracia estatal porque os territórios explorados são hoje disputados a sangue e fogo por grupos armados como o Exército de Libertação Nacional, o Clã do Golfo ou os dissidentes das FARC. Eles lucram e se financiam com ouro sujo.

No sul do departamento de Bolívar eclodiu uma guerra de gangues que forçou o deslocamento de 120 famílias. Em março do ano passado, o Exército implantou uma operação contra garimpeiros ilegais em Bajo Cauca, no departamento de Antioquia, no noroeste. Isto desencadeou uma greve mineira na qual foram expostas as divergências do setor do ouro (legais, informais e ilícitos) da sub-região, que têm sido objecto de manifestações há mais de uma década.

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No Bajo Cauca, sub-região do departamento de Antioquia, no noroeste da Colômbia, ocorreu a grande greve mineira de 2023 / Ilustração: Rotas do Conflito.

No meio do protesto, as comunidades foram exploradas e sufocadas pelo Clã do Golfo, grupo armado ilegal que controla a zona, o que provocou o isolamento de 250 mil pessoas durante vários dias, com escassez de serviços básicos e alimentos. 

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Em março de 2023, mensagens deste tipo circularam pelos municípios de Bajo Cauca nas quais o Clã do Golfo (AGC) pressionou a população a apoiar a manifestação.

Estas organizações criminosas aproveitaram-se da fraca presença do Estado para corromper os mecanismos de controlo e utilizá-los em seu benefício. Frédéric Massé, codiretor da Rede de Monitoramento do Crime Organizado na América Latina, explica em entrevista para este relatório ao Conselho Editorial, que essas redes criminosas falsificam títulos minerários, certificados de origem do mineral, registros de mineradores de subsistência e o quantidade de ouro extraído. 

Um exemplo é o que aconteceu nos municípios de Caucásia, Saragoça, El Bagre, San Roque e Remedios, em Antioquia, e Quibdó, em Chocó, no noroeste da Colômbia. Lá, o pseudônimo “Robert” forjou um império de lavagem de ouro. Comprou bancos de dados de beneficiários de programas sociais e registrou 5 mil deles como se fossem mineradores independentes. Assim, legalizou mais de 7,5 toneladas de ouro ilegal para enviá-las aos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e Índia.

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A Colômbia também se tornou importadora de ouro ilegal. Em suas plantas de processamento são recebidos carregamentos ilegais e eliminados vestígios do mercúrio utilizado para sua extração. Ao mesmo tempo, os mineiros locais também tendem a se desfazer de seus carregamentos contrabandeando-os para outros países, como acontece ao redor do rio Puré, na fronteira com o Brasil, onde a presença de guerrilheiros colombianos fez soar o alarme e eles chegaram até a confronto com a Marinha do Brasil. Nessas zonas de conflito, o mineral é utilizado como se fosse moeda para adquirir outros produtos contrabandeados. Uma economia ilegal foi estabelecida. 

Para atacar as lacunas na cadeia de abastecimento, o congresso colombiano aprovou uma regra que obriga os comerciantes de ouro e outros metais preciosos a aplicar critérios de devida diligência. Por exemplo, são necessárias capacidades operacionais, de especialização e financeiras mínimas para comprar e vender, e exigem informações dos seus homólogos sobre as suas operações. Se for exportar um carregamento, deverá também demonstrar que o ouro foi extraído de uma concessão autorizada pelo Estado. Embora a norma tenha entrado em vigor em julho de 2022, quase dois anos depois a medida ainda não foi implementada porque o Ministério de Minas não emitiu orientações específicas para regulamentar o processo.

Um boom no Equador

Grupos armados também tomaram o Equador de assalto. A Fundação Ecociência, que monitoriza o problema da mineração ilegal naquele país, explica que a situação começou a ficar fora de controlo entre 2016 e 2017. No entanto, o advento da crise pandémica da covid-19 levou muitas famílias a procurar trabalho neste país. indústria. Há sinais de que gangues perigosas do crime organizado empregam mineiros artesanais sob extorsão. 

A mineração em pequena escala, a mais propensa à ilegalidade, ganhou espaço nos últimos anos. Entre 2020 e 2023, as suas exportações cresceram 238%. Esta evolução foi acompanhada por um boom de novas empresas de marketing. No mesmo período, foram criadas 10 novas empresas que exportaram US$ 530 milhões, como revela esta série investigativa sobre a comercialização de ouro no Equador. 

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A Organização dos Estados Americanos (OEA) afirma que “os comerciantes e exportadores, e “particularmente as novas empresas”, são o “principal ponto de entrada do ouro ilícito nos mercados legais, ocultando a sua origem ilícita, muitas vezes antes de o vender a refinarias estrangeiras”. ” Alerta que o método de branqueamento mais utilizado é a falsificação de faturas, onde “falsos mineiros artesanais ou empresas fictícias são nomeados para justificar a origem do ouro extraído ilegalmente”.

O ecossistema do crime e da violência também se expandiu no país. Entre os casos investigados pela Ecociencia está o de Sucumbíos, no nordeste do Equador, na fronteira com a Colômbia, área amazônica esquecida pelo governo há muitos anos. Esta organização explica a esta aliança jornalística que grupos indígenas Achuar praticam mineração com maquinaria muito cara, cuja transferência para esta área remota envolve um pesado investimento. “Eles têm outro beneficiário que está colaborando com eles para realizar esta atividade. E dada a proximidade com a fronteira e estes contextos transfronteiriços, fica implícito que esta ajuda vem de movimentos criminosos de tráfico de drogas e outras atividades”, afirma Ecociencia.

Na bacia do rio Punino também houve uma devastação progressiva da selva. Só em 2023, foram perdidos 784 hectares segundo o programa de monitorização do MAAP, apesar de se tratar de uma área sem acesso rodoviário. Grupos criminosos colombianos e equatorianos operam ali e devastaram a selva para extrair ouro.

Equador 1Confluência dos rios Payamimo (esquerda) e Punino (direita), na província de Orellana, na Amazônia equatoriana. O amarelo do Punino, afetado pelo garimpo ilegal, deixa marcas nas águas do Payamino que abastecem dezenas de comunidades. Foto: Plano VO registro de concessões de mineração está fechado no Equador há seis anos devido a protestos de grupos indígenas que exigem uma lei de consulta prévia. Mas isso não impede a exploração dos solos amazônicos: a Ecociencia alerta que, em Punino, 96% do território explorado pela indústria ilícita não está cadastrado. 

A indecisão política também afeta os processos de inspecção justamente quando a incidência deste crime ecológico está em expansão. Há quatro anos, o então presidente Lenín Moreno decidiu fundir as três entidades supervisoras dos setores de Mineração, Energia e Hidrocarbonetos em uma única instituição: a Agência de Regulação e Controle de Energia e Recursos Não Renováveis. Na opinião do ex-vice-ministro de Minas Fernando Benalcázar, entrevistado para esta série jornalística, o processo foi um fracasso e muitos recursos foram perdidos. 

Benalcázar garante que o gabinete encarregado dos assuntos mineiros ficou com apenas 10 técnicos, embora tenha sido posteriormente ampliado para 35. Mas mesmo assim, esses recursos humanos, diz, foram insuficientes para supervisionar as duas mil pequenas concessões mineiras registadas. Em maio, o atual presidente, Daniel Noboa, separou novamente as agências, e as competências do setor foram novamente atribuídas à Agência de Regulação e Controle Mineiro (Arcom), que recuperou o nome. Esta entidade também é responsável pela verificação das exportações. Em 2019, tentou colher amostras de laboratório para corroborar a pureza e o peso declarados pelos comerciantes. Mas devido às reclamações deste sector, esta medida foi revertida e os controlos voltaram a ser menos rigorosos.

Um caso complexo é o da Venezuela, onde a mineração em grande escala é reduzida enquanto pequenas unidades de produção sob o controle de gangues criminosas espalham o Arco Mineiro do Orinoco, um cinturão de mineração decretado por Nicolás Maduro em 2016. Somente neste país é possível comercializar ouro legalmente com a mediação do Banco Central da Venezuela, que monopoliza a exportação do metal. No entanto, estima-se que o “ouro legal” represente apenas 20% do total extraído a cada ano. Constitui um sector da maltratada economia venezuelana que não está isento de queixas por violações dos direitos humanos e crimes ambientais. 

Desde 2019, os Estados Unidos impuseram sanções económicas ao setor do ouro na Venezuela. É por isso que, nos últimos anos, o Banco Central teve de mudar os seus destinos de exportação para esforços opacos que ajudam a introduzir o ouro venezuelano no circuito legal global. Conforme revela a reportagem de Armando Info para esta série jornalística, entre 2019 e 2023 os principais clientes do governo venezuelano foram Uganda (US$ 309 milhões), Líbano (US$ 174 milhões), Emirados Árabes Unidos (US$ 123 milhões) e Turquia (US$ 7 milhões). Em 2021 e 2022, o Líbano foi destino de mais de 90% das vendas de metais da Venezuela. É um país de trânsito, que compra e vende o metal, e sobre o qual algumas organizações não-governamentais alertam para o risco de se tornar numa escala de “lavagem de ouro” global. 

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Fora do monopólio do Banco Central, há 80% da produção ilegal de ouro que escapa por vias irregulares. Diferentes máfias participam no tráfico a todos os níveis, incluindo funcionários públicos, militares e guerrilheiros colombianos, de acordo com o estudo da OCDE Gold Flows from Venezuela.

“Esta expansão ocorre dentro de uma estrutura central composta por uma hierarquia de autoridades – militares, políticas e outras – que enviam uma parte do ouro produzido em dezenas de pequenas operações ao longo da cadeia de comando enquanto enriquecem com o resto. Isto constitui a participação direta ou indireta de grupos armados estatais e não estatais”, alerta a OCDE. Os grupos armados e os militares estão no controle, cobrando uma parte das equipes de mineração e às vezes extorquindo-as. Os políticos locais e nacionais também sofrem uma grande redução, indica o relatório de 2021.

Cristina Burelli, diretora do SOS Orinoco, afirma que agora os militares estão ganhando espaço nos negócios ilícitos. “A tendência que estamos vendo em diferentes lugares da Venezuela é que por um lado as Forças Armadas removem os líderes, aqueles que controlam essas minas, mas os substituem por pessoas com ideias semelhantes. E a mineração continua a mesma e está em expansão. O regime de [Nicolás] Maduro não está a desmantelar a mineração. Eles são como ‘você tira para eu vestir’”, diz ele em entrevista ao Convoca.pe

Burelli cita como exemplo o despejo realizado por militares no Yapacana Tepuy, parque nacional na fronteira com a Colômbia cujo território foi dividido entre os guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional e os dissidentes das FARC. Hoje, apesar da entrada de policiais uniformizados na área, imagens de satélite mostram que a mancha mineira continua a crescer. 

Este contexto de corrupção torna inútil qualquer discussão sobre a implementação de controlos ou sobre como tornar a cadeia de abastecimento na Venezuela. Uma das rotas de saída do ouro tem sido as ilhas de Aruba e Curação. Por exemplo, as exportações de ouro de Curação, um país onde não existem depósitos ou refinarias, representaram em 2019 34,4% de todas as suas vendas internacionais. Depois que as autoridades holandesas tomaram conhecimento disso, nos anos seguintes este mineral quase desapareceu da pauta de exportações das Antilhas Holandesas. O ouro venezuelano ilegal consolidou agora as suas saídas para o Brasil, Colômbia e República Dominicana. 

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O lado sujo da política climática da Europa

Para a sua transição energética, os países da UE precisam de matérias-primas em abundância. A América Latina deve entregá-las – e lidar com as consequências do desmantelamento

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No “triângulo de lítio” da América Latina entre Chile, Argentina e Bolívia: mineração de lítio no deserto chileno de Atacama. Foto: Martin Bernetti/AFP
Por Gerhard Dilger, Buenos Aires, para o Neues Deutschland

A província andina argentina de Jujuy, na fronteira com a Bolívia, está em estado de emergência há quatro semanas. As comunidades indígenas organizaram doze bloqueios de estradas e os viajantes podem passar a cada três horas. Os protestos são dirigidos, entre outras coisas, contra uma constituição provincial que foi aprovada em tramitação acelerada, o que facilita o despejo de indígenas em favor de projetos de lítio. O lítio é uma matéria-prima para carros elétricos que está em demanda em todo o mundo, e os países da União Europeia (UE) também estão procurando novas fontes de abastecimento .A polícia é brutal, buscas e prisões domiciliares foram realizadas novamente na quarta-feira, ativistas estão sendo criminalizados e intimidados. “Os saques devem ser legalizados”, diz o último manifesto dos manifestantes contra a constituição. “Somos os legítimos proprietários desta terra.”

O contraste com as declarações encorpadas feitas antes da reunião de cúpula dos chefes de estado e de governo da UE e dos Estados da América Latina e do Caribe na segunda e na terça-feira dificilmente poderia ser maior. “A reunião de cúpula oferece uma excelente oportunidade para construir confiança e dar um novo impulso às relações”, disse o chefe de política externa da UE, Josep Borrell, no início de junho, quando apresentou a nova agenda da Comissão Europeia para a América Latina. A Câmara Alemã de Indústria e Comércio promete »novos impulsos de crescimento«.

Juntamente com o hidrogênio verde, que será enviado para a Europa em apenas alguns anos da Argentina e do Chile, mas também da Colômbia e do Brasil, o lítio é celebrado como um símbolo da transição energética. Perde-se de vista o que significa a extração de matérias-primas para as regiões. É claro que os principais políticos da UE e seus estados membros estão atualmente tentando garantir o acesso a matérias-primas para a economia europeia. Os críticos suspeitam que se trata de um extrativismo verde neocolonial que está roubando da América Latina seus recursos naturais como vem fazendo há 500 anos: antigamente ouro, prata e estanho – hoje “ouro branco”, água, vento e sol. O que está acontecendo especificamente no momento e como os governos latino-americanos estão se posicionando?

Na Argentina, duas das três fábricas de lítio estão em Jujuy, mas também há uma corrida do ouro nas províncias vizinhas. Dezenas de outros projetos estão nas gavetas dos ministérios. Príncipes provinciais, isso é um segredo aberto, ganham muito. O metal leve é ​​considerado uma bala de prata para a transição energética. A indústria automotiva vai substituir o motor de combustão interna por um elétrico.Para produzir uma bateria de íon-lítio para um carro elétrico, são necessários de dez a 20 quilos de carbonato de lítio, entre outras coisas.

Os políticos europeus têm peregrinado em massa à América Latina nos últimos meses – uma ofensiva de charme sem precedentes, na qual não poderia faltar a invocação de “valores comuns”. Sem exceção, os convidados também enfatizaram que os acordos de livre comércio da UE, que ainda não foram totalmente negociados, gostariam de ser assinados e selados até o final do ano. Especificamente, trata-se do acordo com os países do Mercosul Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que vem sendo objeto de luta desde 1999, e da modernização dos acordos com Chile e México.

Quando o chanceler Olaf Scholz viajou para a Argentina e o Chile com uma grande delegação empresarial em janeiro, ele não escondeu o interesse das empresas alemãs no lítio, mas prometeu ajudar na criação de cadeias de valor locais. Porque, embora cerca de 60% dos recursos mundiais estejam armazenados nos lagos salgados andinos do triângulo de lítio Chile-Bolívia-Argentina, o processamento em baterias até agora ocorreu principalmente na China, Coréia do Sul ou Japão.

Os custos ambientais da reviravolta “ecológica”

A BMW, o único grande player alemão no negócio de lítio na América do Sul, se gaba de obter metal leve extraído de forma “particularmente sustentável” da Argentina. Em 2021, a empresa automóvel de Munique assinou um contrato com a multinacional norte-americana Livent para a compra de lítio no valor de cerca de 285 milhões de euros. Até agora, nem a Livent nem a BMW conseguiram refutar os indícios de um enorme consumo de água doce e um maior rebaixamento do nível do lençol freático no extremo oeste da província de Catamarca. Tudo indica que Livent está destruindo lenta mas seguramente o frágil ecossistema de Puna e, portanto, os meios de subsistência dos agricultores locais de lhamas – para que a reviravolta “ecológica” do transporte na Europa possa progredir.

As empresas alemãs também estão começando no Chile: K-Utec Salt Technologies da Turíngia e Aci Systems de Baden-Württemberg prometem “lítio verde”. , subsídios da UE incluídos.

Em geral, o Chile é um dos parceiros preferenciais da Europa, como demonstrou durante a visita de Ursula von der Leyen em junho. »Sem lítio não haveria turbina eólica, sem matérias-primas críticas não haveria bateria. É por isso que concordamos em trabalhar em uma parceria estratégica para matérias-primas sustentáveis ​​e para toda a cadeia de valor”, disse o presidente da Comissão Europeia em Santiago. Também anunciou um fundo para hidrogênio verde de 225 milhões de euros, dos quais 100 milhões virão como um empréstimo do Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW).

Segundo o site do Banco Europeu de Investimento, esta plataforma de financiamento deve “promover a descarbonização da economia chilena, criar empregos verdes, abrir oportunidades de negócios para empresas chilenas e europeias, ao mesmo tempo em que atende à demanda europeia por hidrogênio limpo” . Von der Leyen garantiu que a UE quer produzir dez milhões de toneladas de hidrogênio verde anualmente até 2030 e importar a mesma quantidade. Esse hidrogênio é chamado de verde porque é produzido usando energia solar e eólica.

A plataforma de hidrogênio H2LAC da Sociedade Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) está ativa em 13 países da América Latina, incluindo Uruguai e Argentina. Na província argentina de Rio Negro, a Sociedade Fraunhofer, também muito presente, apresentou um estudo otimista sobre o potencial do hidrogênio. Os ambientalistas estão se mobilizando contra os parques eólicos necessários para isso. Isso também seria necessário para que a Europa possa importar o combustível “limpo”.

No Chile e no Uruguai, a empresa HIF Global produz e-combustíveis a partir do hidrogênio com o acionista Porsche. Para a inauguração da fábrica Haru Oni ​​​​no sul da Patagônia, para a qual o ex-ministro de Assuntos Econômicos Peter Altmeier iniciou o subsídio multimilionário, a Porsche voou no verde Baden-Württemberg Ministro dos Transportes, Winfried Hermann – para um piloto projeto que é uma farsa do ponto de vista da política climática. Porque em vez de extrair da atmosfera o dióxido de carbono necessário para o processo, como anunciado, os operadores aparentemente usam CO 2 fóssil, “reciclado” . Além disso, mais tarde haveria rotas de transporte longas e prejudiciais ao meio ambiente para a Europa.

Alejandro Stipanicic, presidente da empresa estatal Ancap, que está envolvida no segundo projeto do HIF, admitiu a uma estação de rádio uruguaia que o combustível sintético supostamente neutro para o clima era “muito caro”. Não é para o mercado local.”

No Brasil e na Colômbia, o ministro da Economia, Robert Habeck, e a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, elogiaram o grande potencial de energias renováveis, como a solar e a eólica, que serão usadas para produzir hidrogênio para a Europa – eles aparentemente não estavam interessados ​​nos problemas de aceitação local para parques eólicos. Após o discurso de Baerbock, o jornal liberal “Folha de São Paulo” apontou incisivamente “o apetite por energia e lítio”.

E os »valores comuns«? Na América Latina, é bem lembrado o quão pouco a UE estava disposta a fornecer vacinas acessíveis ou mesmo abrir exceções à proteção de patentes durante a pandemia de Covid-19 – em muitos países, Rússia e China intervieram. Portanto, é compreensível que as pessoas sejam céticas sobre declarações de amizade e alérgicas a demandas decretadas unilateralmente – o presidente brasileiro está fazendo isso com mais clareza.

Enquanto a maioria dos líderes latinos só expressa sua inquietação a portas fechadas, Luiz Inácio Lula da Silva não faz de seu coração um antro de assassinato. Ele está ciente de que o acordo UE-Mercosul visa principalmente abrir novos mercados para empresas europeias e facilitar o acesso a velhas e novas matérias-primas, como cobre e lítio. Em troca, Lula promete negócios brilhantes para o agronegócio brasileiro, problemas ambientais ou não. Acima de tudo, porém, ele teme que as indústrias nacionais falissem se as empresas europeias tivessem livre acesso ao mercado ou não tivessem nenhuma chance de se desenvolver.

O presidente Lula fala publicamente em linguagem simples com seu colega francês Emmanuel Macron, com von der Leyen ou Scholz. A base para uma parceria em pé de igualdade não deve ser a desconfiança ou a ameaça unilateral de sanções, explica. Lula e outras autoridades latino-americanas estão atrapalhando as exigências ambientais moldadas pelo Acordo Verde Europeu, especialmente para a agricultura, que a UE quer incluir em um protocolo adicional ao acordo UE-Mercosul. As sanções provavelmente seriam possíveis, pelo menos em teoria – apenas algumas pessoas sabem exatamente porque, como sempre, esses textos permanecem secretos até serem assinados.

As negociações do protocolo estão sendo extremamente duras, porque se suspeita de protecionismo no Mercosul. O obstáculo mais importante para o acordo de livre comércio do lado europeu são, de fato, as associações de agricultores na França, Áustria, Bélgica e Irlanda, que temem mais do que nunca a concorrência de importações agrícolas baratas produzidas em condições negligentes.

Em abril, o Parlamento Europeu também aprovou uma lei de combate ao desmatamento em todo o mundo, que entrou em vigor no início de julho. Segundo ela, a partir de 2024 as empresas da UE não poderão mais importar madeira, carvão vegetal, impressos, café, cacau, borracha, óleo de palma, gado ou soja produzidos em terras que serão desmatadas a partir de 2021. Colonialismo Verde?

É assim que os latinos veem, porque também é uma medida unilateral. O que é politicamente fatal, porém, é que Lula & Cia. não podem se dar ao luxo de mexer com o agronegócio produtor de divisas. Um acordo de livre comércio ratificado, portanto, também aceleraria a destruição das florestas, porque se e quando as empresas serão realmente solicitadas a pagar no futuro é uma incógnita.

Representantes de dezenas de organizações ambientais e de direitos humanos da Europa e da América Latina também falarão na cúpula na segunda e terça-feira em Bruxelas. Nas ruas e em eventos paralelos, eles exigirão uma ordem ecossocial econômica e comercial e ficarão felizes porque pelo menos nada sairá do acordo neocolonial UE-Mercosul tão cedo.

E até que ponto a UE está aberta às preocupações dos seus “parceiros naturais”? O chefe de estado colombiano Gustavo Petro – um pioneiro no continente com sua planejada “transição energética justa” e também muito cortejado pelo governo federal – provavelmente fará novamente campanha por uma nova política de drogas e alívio da dívida para proteção das florestas. Com essas questões, os europeus podem mostrar que se preocupam com mais do que matérias-primas.

Gerhard Dilger mora na América do Sul desde 1992, de 2000 a 2012 foi correspondente no Brasil, depois gerente do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo e Buenos Aires. Hoje é jornalista freelancer e consultor em Buenos Aires.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Contaminação por chumbo continua adoecendo crianças na América do Sul

canos chumboNa América Latina há uma grande porcentagem de crianças com altos níveis de chumbo no sangue devido às diversas fontes de exposição. Na foto, meninas brincam sobre canos de chumbo ao ar livre em La Oroya, Peru. Crédito da imagem: Chiqaq News , sob licença da Creative Commons (CC BY 4.0

Por Pablo Corso para a SciDev

As concentrações de chumbo no sangue diminuíram consideravelmente nas últimas décadas em todo o mundo, mas na América Latina –particularmente no Peru e no México– a intoxicação por este metal pesado segue sendo um fenômeno preocupante que afeta principalmente as crianças .

Embora o tetraetilo de chumbo (TEL) não seja usado como aditivo de combustíveis para automóveis, outras fontes de exposição causam um dano persistente ao ambiente e à saúde humana, como o consumo de água contaminada de encanamentos antigos, as baterias ácidas, certas pinturas , os incêndios, a queima de resíduos e até mesmo a gasolina (gasolina com querosone usada na indústria aérea), detalha um artigo que será publicado na edição impressa de maio da revista Chemosphere .

Por sua toxicidade extrema, a OMS classifica o chumbo como uma das dez substâncias de maior preocupação para a saúde . Concentrações elevadas podem gerar alterações cognitivas e neuromotoras, com cerca de 600 milhões de casos anuais de incapacidade intelectual em crianças .

“Eles absorvem o chumbo rapidamente e eles podem nascer com déficits de desenvolvimento se suas mães foram expostas durante a gravidez”, explica via WhatsApp Abel Gilvonio, assessor da Plataforma Nacional de Pessoas Afetadas por Metais Tóxicos do Peru, onde o tema é especialmente sensível, já que mais de 10 milhões de pessoas (31% da população) estão expondo metais pesados ​​e outras substâncias químicas, segundo o próprio Ministério de Saúde. Eles podem nascer com déficits de desenvolvimento se suas mães tiverem sido expostas durante a gravidez. Destes, 80% são crianças de até onze anos de idade.

“O chumbo danifica todos os órgãos, mas tem uma afinidade particular com o cérebro”, acrescenta a pesquisadora mexicana Mara Téllez Rojo, uma das autoras de um estúdio que revelou que em 2020 em torno de 17% das crianças( 1,4 milhões) de entre um e quatro anos de seu país estavam intoxicadas por esse metal. “É um neurotóxico que gera problemas de comportamento, atenção e agressividade”, afirmou.

Também foram relatados condições cardiovasculares, respiratórias, hepáticas, renais e reprodutivas, e até mesmo efeitos cancerígenos.

“O chumbo danifica todos os órgãos, mas tem uma afinidade particular com o cérebro.”

Mara Téllez Rojo, Instituto Nacional de Saúde Pública, México

Após a eliminação do TEL,  houve um rápido declínio nos níveis atmosféricos globais, afirma em um correio eletrônico Diego Lacerda, um dos autores do trabalho publicado pela Chemosphere .

“Sem dúvida, as milhões de toneladas de toneladas emitidas se depositam no solo e seguem uma fonte de exposição” por meio de seu ingresso na cadeia alimentar.

“Em geral, os países que mais tardaram em eliminar o TEL são os que têm populações com maiores níveis de chumbo no sangue”, explica.

Na América Latina, esse processo começou no Brasil e na Colômbia (1991), para continuar na Argentina, Bolívia (1996), Equador, México (1997), Paraguai (2000), Chile (2001), Uruguai (2003), Peru e Venezuela ( 2005).

Fonte: Chemosphere .

Depois da África, a América do Sul é a região com as concentrações mais altas, especialmente em Porto Rico (10,6 microgramas por decilitro – μg/dl), México (10,5), Peru (8,7) e Uruguai (6, 2).

Enquanto os Estados Unidos consideram que os valores de 3,5 μg/dl são uma intervenção americana, a Organização Mundial de Saúde sustenta que não existem níveis de seguro.

É importante que os países monitorem a contaminação ambiental e humana”,  afirma Lacerda, para quem “a prevenção primária é a forma de reduzir a exposição”.

Em 2017, uma revisão de estudos sobre crianças latino-americanas sugeriu que a porcentagem de menores de idade estava subestimada. Este ano, um relatório atualizado descobriu que as concentrações de chumbo no sangue de crianças pequenas excedem os limites recomendados na metade dos estudos avaliados.

Fonte: Chemosphere .

Crianças com chumbo no Peru e no México

Durante mais de meio século, a minera estadounidense Cerro de Pasco operou no centro do Peru vertendo chumbo, mercúrio e outros minerais tóxicos no solo e na água , especialmente na cidade de La Oroya. Isso resultou em múltiplos casos de leucemia crônica, aplasia medular severa e diminuição do nível intelectual .

A intervenção de organismos internacionais de direitos humanos não tem sido suficiente para que o estado ou a atual concessionária (Volcan, de participação majoritária suíça) ofereça respostas satisfatórias.

A Comissão Multissetorial criada em 2020 para abordar a problemática “não está em funcionamento, porque está pendente a aprovação de seu regulamento”, explica Gilvonio, que critica a substituição dos técnicos ambientais “por pessoal com pouca experiência no assunto”.

Enquanto isso, a Defensoria do Pueblo segue reivindicando a implementação de um sistema de informação sobre a qualidade das fontes hídricas e a regulamentação de uma lei para fortalecer a atenção dos afetados.

No México, a situação não é melhor. Segundo o estudo de Téllez Rojo e seus colegas, a maioria das mães de crianças intoxicadas por chumbo havia usado utensílios de cerâmica vidrada durante a gravidez, uma tradição antiga que, há pouco tempo, é a principal fonte de contaminação no país.

A cerâmica de barro vidrado, uma tradição artesanal no México, é uma das principais vias de exposição ao chumbo no México. Crédito: Secretaría de Salud de México . Imagem de domínio público.

“O esmalte com o qual se vendem as peças é a base de chumbo”, precisa a investigadora. Como não está completamente fixado, as altas temperaturas dos alimentos fazem com que o pó se liberte e os contamine.

Diante desse panorama, o estado impulsa alianças com diversas organizações para capacitar os ceramistas na transição para esmaltes com metais inócuos, como o boro.

A investigadora também planeja a necessidade de indagar sobre outras fontes de exposição, como a exploração de minas e o trabalho em fundidoras, ladrilhadoras, com soldas ou pinturas.

Às vezes se combinou mais de um fator, como no caso de Puebla, onde a atividade do vulcão Popocatépetl e a contaminação da Barragem de Valsequillo chegaram a um alarmante 46 por cento de casos.

A nível governamental “se poderia fazer mais”, reconhece Téllez Rojo. “Em novembro de 2019 foi lançado um programa para atender o problema, mas se deveu à pandemia. Queremos que se retome, já que atualmente não há um sistema que monitore o chumbo no sangue e cuide das vítimas.”


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net e publicado [Aqui!] .

“Frota fantasma” ataca mares da América do Sul

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Um estudo publicado na Science Advances analisou 55.000 “eventos suspeitos” e determinou os locais e horários em que as 5.269 embarcações “escureceram” sua atividade -algumas por dias- entre 2017 e 2019, totalizando cinco milhões de horas de navegação.

O Sistema de Identificação Automática (AIS) foi criado para evitar colisões. Embora a obrigação de ativá-lo não seja universal ou permanente, e às vezes é desativada para evitar que os competidores conheçam bons pontos de pesca ou evitem a pirataria em águas perigosas, outros eventos de desligamento “parecem tentativas de ocultar atividades ilegais” em águas estrangeiras ., levanta o trabalho.
Os barcos de pesca também costumam desabilitar o AIS, levando as capturas clandestinas para navios cargueiros refrigerados, uma forma de evitar o contato com os portos.

Os países com as embarcações mais escondidas foram Espanha (14% das horas navegadas), Estados Unidos (8%), Taiwan (6%) e China (5%), cuja frota de 3.000 navios de pesca de lula contra Equador, Peru e Chile.

“47% dos eventos de desligamento ocorreram próximos à Zona Econômica Exclusiva Argentina”.

Heather Welch, ecologista espacial da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, Estados Unidos

A pesca não autorizada – um quinto do total mundial – envolve perdas de até US$ 25 bilhões anuais e é especialmente prejudicial para as nações em desenvolvimento. Pode ser ilegal, não declarada ou não regulamentada e é realizada por embarcações estrangeiras privadas ou estatais, às vezes associadas ao crime organizado.

“A intensa pressão pesqueira levou à superexploração e ao declínio populacional de muitos estoques comerciais”, alerta o relatório, que chama a atenção para três áreas que combinam recursos abundantes com controles insuficientes: o noroeste do Pacífico, as águas da África Ocidental e as do Atlântico Sul.

“47% dos eventos de desligamento ocorreram próximos à ZEE argentina”, revela ele ao SciDev.Net. Heather Welch, ecologista espacial da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e uma das autoras do artigo.

Esta “frota escura” que pesca sem autorização é maioritariamente constituída por barcos que utilizam palangres (linhas com milhares de anzóis), squid jigs e redes de arrasto.
A pesca predatória está no centro das preocupações dos empresários do setor, que calculam que até 500 invasões anuais depredam as reservas argentinas.

Num relatório que identifica 972 embarcações envolvidas na pesca não autorizada entre 2010 e 2022, a Financial Transparency Coalition (FTC) dedica um capítulo especial àquele país.

Apesar das patrulhas e do monitoramento por GPS, o país sul-americano tem dificuldade em impedir que as frotas que operam na milha 200 – limite entre as águas internacionais e as suas – pesquem camarões e lulas em sua jurisdição.

“Muitos navios desligam seus sistemas de rastreamento por longos períodos e voltam a cruzar a marca de 200 milhas mar adentro quando detectados pela guarda costeira”, confirma a obra, que cita representantes militares que criticam a falta de submarinos e a existência de um único plano operacional para patrulhas.

Embora o Parlamento tenha aprovado em 2020 uma regra que pune os infratores com multas a partir de US$ 300 mil, apenas uma embarcação é sancionada a cada 18 meses.

Em 2019, a embarcação sul-coreana Oyang 77 havia desativado nove vezes o AIS perto de águas argentinas – de onde extraiu 140 toneladas de pescada, raia e lula – antes de ser capturada pelas autoridades locais.

“O Atlântico Sul não tem uma entidade gestora regional que regulamente a atividade, à qual qualquer pessoa pode entrar sem obrigatoriedade de registo”, critica a FTC.

Nesse contexto, as respostas de cada país são heterogêneas. “O Uruguai de alguma forma favorece a pesca não autorizada”, exemplifica Guillermo Cañete, consultor independente e membro da Universidade Tecnológica Nacional Argentina, que lembra o caso do Viarsa 1 , navio espanhol que arvorava bandeira uruguaia quando pescou no Oceano Índico em 2003 .

Após 21 dias de perseguição, sua captura gerou um conflito diplomático com o Uruguai, marcado pelo costume de autorizar o uso de sua bandeira por barcos pesqueiros que frequentemente praticam atividades ilegais.

Apesar da dimensão do conflito, os autores do estudo esperam a eliminação progressiva da pesca ilegal. Ironicamente, a própria ausência de dados pode servir como uma ferramenta valiosa.

Informações sobre eventos de desligamento podem ser usadas para decidir para onde enviar drones ou embarcações de vigilância e focar as inspeções portuárias nos navios que desativaram o AIS perto de EEZs, sugere Welch.

Para evitar que os armadores fujam das penalidades apelando para as empresas de fachada, a FTC recomenda que declarem seus beneficiários efetivos.

“Os principais importadores do pescado argentino, como Espanha, Itália, Estados Unidos, China e Brasil, devem se esforçar mais para tornar a cadeia de abastecimento transparente”, acrescenta.

Em consonância com essa atribuição de responsabilidades, Cañete lembra a importância da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar , que ordena aos Estados que cooperem na administração dos recursos do alto mar e mantenham ou recuperem as populações capturadas, considerando as necessidades especiais dos países em desenvolvimento .

 Link para o estudo completo em Science Advances

Este artigo originalmente escrito em Espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe de SciDev.Net e publicado [Aqui!].

Savanização das florestas tropicais impactará mais de 200 espécies de animais

nathalia regatoFOTO: NATHALIA SEGATO / UNSPLASH

Por  bori

As florestas tropicais da América do Sul estão se transformando em cerrado (savana brasileira), o que impactará na sobrevivência de mamíferos “especialistas” em ambientes florestais. É o que observam pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Universidade de Miami, em estudo da revista “Global Change Biology”. O trabalho mostra que uma parte da fauna do cerrado, que geralmente tolera ambientes mais abertos e secos, poderá invadir regiões de floresta degradada e “savanizada” em decorrência das mudanças climáticas e de ações humanas, como desmatamento e queimadas.

Ao analisar 349 espécies de mamíferos com base em modelos computacionais, que possibilitam previsões sobre como a distribuição das espécies pode mudar ao longo do tempo, os autores projetam que, até o final do século 21, as espécies relacionadas à savana aumentarão em 11% a 30% e se espalharão pelas florestas amazônicas e atlânticas. Paralelamente, as espécies que dependem de ambientes florestais para se movimentar, alimentar e reproduzir, caso de primatas e algumas espécies de cervos e roedores, ficarão confinadas em regiões menores com remanescentes de floresta, processo que aumentará a competição por alimento.

“Os animais vindos do Cerrado vão competir com a fauna da floresta pelos já escassos recursos que vemos lá. Com isso, eles  podem trazer consigo as sementes das plantas do Cerrado, que eles consomem preferencialmente. Os mais afetados serão os primatas neotropicais, algumas espécies de cervos, a paca, e várias espécies de roedores”, afirma o biólogo e um dos autores do estudo, Mathias Mistretta Pires, do Laboratório de Estrutura e Dinâmica da Diversidade do Departamento de Biologia Animal, do Instituto de Biologia, da Unicamp.

De acordo com o especialista, embora, segundo as análises do estudo, determinadas espécies do Cerrado como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira possam aumentar sua distribuição territorial em decorrência do fato que as condições ambientais serão mais adequadas a essas espécies do que às espécies florestais, isso não significa que os mamíferos do Cerrado estejam livres de ameaça. “O Cerrado também é um bioma muito impactado por ações humanas”, alerta.

Como proteger o equilíbrio da fauna

Mais importante do que pensar em reverter o processo de savanização, é preciso atuar sobre suas causas principais, com ações individuais e políticas de mitigação das mudanças climáticas, como o uso de técnicas agrícolas que não incluam o fogo e o combate ao desmatamento. A observação é da bióloga e autora principal do estudo, Lilian Patrícia Sales, que também atua no Instituto de Biologia, da Unicamp.

O cerrado tem sido convertido em plantações e pastagens que são inadequadas como habitat para a maior parte da fauna. Enquanto isso, os ecossistemas florestais estão sendo degradados e se transformando em ambientes mais secos devido às mudanças no clima, que não são nem floresta, nem savanas de fato. Essas florestas degradadas se tornam inabitáveis para as espécies florestais, mas podem se tornar refúgios para as espécies de savana. Com isso, reforçam os autores, até o fim do século pode haver modificações em grande escala na distribuição territorial da biodiversidade do continente sul-americano.

No estudo, também foi avaliado o efeito do desmatamento sobre a capacidade das espécies de se locomover de uma região a outra. “Para espécies florestais, uma plantação de cana ou soja, por exemplo, pode ser uma barreira intransponível. Isso impede que essa espécie colonize ambientes que seriam adequados a ela. Portanto, as atividades humanas não só transformam o ambiente, como limitam a capacidade de deslocamento dos animais”, observa Lílian Sales.

Outro ponto importante para mitigar os efeitos da savanização, ressalta a bióloga, é a manutenção de corredores florestais que permitam a dispersão de espécies de floresta entre as manchas remanescentes. Sem isso, conclui, muitos locais que poderiam ser  utilizados como habitat se tornam inacessíveis para essas espécies, o que limita sua distribuição aos refúgios, áreas que mantêm características climáticas e de vegetação.

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Este artigo foi originalmente produzido pela Agência Bori [Aqui!].

Grandes incêndios causam alarme e preocupação na América do Sul

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Por Ulrike Bickel  para a Amerika21

Grande parte do Pantanal brasileiro está em chamas. É a maior área úmida do planeta, estendendo-se até a Bolívia e o Paraguai, e abriga uma imensa biodiversidade. Nas primeiras duas semanas de outubro, havia ali mais de 2.700 fontes de incêndios.

Porém, o desastre não se limita ao Pantanal. Os incêndios em grande escala estão destruindo ecossistemas em grandes partes da América do Sul. O Papa Francisco estava extremamente preocupado com os “incêndios provocados pelo homem, intensificados pela mudança climática”, expressou há uma semana  .

Mas Argentina, Bolívia, Venezuela e Colômbia também estão sendo afetados por incêndios. O Delta do Rio Paraná e 13 outras províncias da Argentina sofrem extensos incêndios em florestas e pastagens. Rosário, capital da província de Santa Fé, está coberta de fumaça há semanas. Mais de 2.000 km2 de floresta foram destruídos em Córdoba, dez vezes a área de Buenos Aires. Em muitas cidades, a sociedade civil forma grupos auto-organizados de combate a incêndios.

Houve 13.000 incêndios na Venezuela e duas vezes mais incêndios na Colômbia do que em anos “normais”. Lá, a destruição de florestas disparou desde o acordo de paz e o desarmamento dos guerrilheiros das Farc porque mineiros, traficantes, especuladores de terras e colonos conseguiram desenvolver áreas antes inacessíveis.

Na Bolívia, quase 1,4 milhão de hectares foram perdidos para os incêndios. Além disso, existem muitas áreas em reservas naturais inacessíveis que estão queimando. Nos departamentos de Santa Cruz, onde pelo menos 830.000 ha foram destruídos por incêndios florestais, e Chuquisaca, os governadores declararam estado de desastre.

Os incêndios também ameaçam os santuários indígenas bolivianos de Charagua, Iñao e Aguarague. De acordo com a Coordenação Nacional de Defesa das Áreas de Origem Indígena e Rurais e Áreas Protegidas (Contiocap), as comunidades tradicionais estão desesperadas. Os povos indígenas isolados do Brasil também são ameaçados por incêndios criminosos, mas também por grilagem e desmatamento. A denúncia é da coordenação das organizações indígenas da Amazônia brasileira (Coiab) e da organização de direitos humanos Survival International.

Entre eles estão os Ãwa, cuja casa é a floresta de mamão na Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo. Oitenta por cento de sua floresta foi queimada no ano passado. Este ano, o restante da floresta intacta está em chamas. Mais de 100.000 gado pastam na ilha. A Survival International também relata que índios isolados foram ameaçados nos estados de Rondônia e Maranhão e na área de Ituna Itatã (“cheiro de fogo”) no estado do Pará. Este território foi o mais desmatado de todas as áreas indígenas em 2019 por fazendeiros e outros ladrões de terras.

A Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) fez um apelo mundial às pessoas e empresas para boicotar produtos originados de áreas indígenas. A Survival International instou s supermercados na Europa e nos EUA a pararem de comprar produtos agrícolas do Brasil até que os direitos dos povos indígenas sejam cumpridos .

Parte dos incêndios se deve ao fenômeno climático “La Niña”, que causou uma seca histórica neste verão . Muitos dos incêndios são iniciados deliberadamente com o objetivo de ganhar novas terras ​​para fazendas de gado e cultivo de soja e para atender a demanda global por matérias-primas como soja, ração animal, carne, madeira e minerais. A União Europeia (UE), os EUA e a China importam milhões de toneladas de produtos agrícolas da América do Sul todos os anos.

Com isso em mente , várias organizações ambientais e de direitos humanos estão alertando sobre o planejado acordo de livre comércio UE-Mercosul. Isso aceleraria a destruição dos ecossistemas sul-americanos, daí as críticas. O Brasil é um exemplo claro disso. A política agrícola do presidente Jair Bolsonaro é parcialmente responsável pela penetração da indústria agrícola em diversos ecossistemas.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Amerika21 [   ].

Amazônia perdeu ‘1 Equador’ em florestas apenas neste século

MapBiomas produz mapeamento inédito das mudanças de cobertura vegetal nos nove países do bioma e vê redução de 29,5 milhões de hectares entre 2000 e 2017

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Mapa da Pan Amazônia feito pelo MapBiomas

A Amazônia perdeu 29,5 milhões de hectares de floresta neste século, o equivalente ao território do Equador. Os dados são de uma nova ferramenta de mapeamento, lançada nesta quinta-feira (21) em Lima, que permite monitorar mudanças de uso do solo nos nove países que abrigam o bioma e acompanhar as pressões sobre suas florestas.

Batizada MapBiomas Amazônia, a plataforma é resultado de uma parceria entre a rede MapBiomas, da qual o OC faz parte, e a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), que busca contribuir para o conhecimento e análises da região amazônica de forma integral.

O produto inaugural do MapBiomas Amazônia é a Primeira Coleção de Mapas Anuais de Cobertura e Uso do Solo da Pan-Amazônia (2000-2017), um território de mais de 7 milhões de quilômetros quadrados que abrange Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Foram feitos mapas anuais de toda a região, elaborados pelas equipes técnicas de cada país.

O mapeamento inédito incorpora toda a bacia e floresta amazônica, desde os Andes passando pela planície amazônica chegando até as transições com Cerrado e Pantanal. Os resultados obtidos indicam que, apesar da perda, a região ainda conserva 85% de suas florestas. Nesse mesmo período houve um acréscimo de 41% da área de agropecuária.

Beto Ricardo, coordenador da RAISG, afirma que este é um passo importante para o objetivo de “construir e promover uma visão integral da Amazônia, considerando aspectos políticos de uma região compartilhada entre nove países, bem como aspectos socioambientais de grande significado: a presença de cerca de 400 povos indígenas, bacias hidrográficas compartilhadas, conectividade entre unidades de conservação, e processos de alteração de uso do solo -desmatamento-, entre outras pressões e ameaças que pairam sobre a maior floresta tropical do planeta”.

Para Tasso Azevedo, coordenadot técnico do Observatório so Clima e coordenador geral do MapBiomas, o lançamento da Coleção 1 do MapBiomas Amazônia é um passo importante para garantir o mapeamento de toda a América do Sul com um grau de detalhe espacial e temporal sem precedentes para outros continentes.

“Com o lançamento da Coleção 3 do MapBiomas Brasil, a Coleção 1 do MapBiomas Amazônia e a primeira coleção de MapBiomas Chaco, que será apresentada nos próximos meses, vamos cobrir quase 90% do território da América do Sul. Esta base de dados é inestimável para a compreensão da dinâmica de uso dos recursos naturais na região além de contribuir para a modelagem climática e o cálculo de emissões e remoções de gases de efeito estufa por mudança e uso solo na região”.

As informações contidas na ferramenta de mapeamento são compatíveis e padronizadas para todos os países da região e revelam o estado da cobertura da vegetação, bem como as tendências em uma unidade territorial qualquer. Também identifica mudanças no uso do solo em um determinado período (um ano, cinco anos, etc.) entre 2000 e 2017. Por exemplo, você pode identificar as áreas onde houve mudanças significativas, como a substituição floresta para agricultura ou pastagem.

É uma novidade ter esta informação para a região Pan-Amazônica com uma resolução espacial de 30 metros, com o detalhe e precisão de análise que permite a ferramenta desenvolvida pela MapBiomas Amazonia. Da mesma forma, alguns dos países amazônicos têm esse tipo de informação e análise pela primeira vez.

Todo o processamento de dados é feito usando algoritmos de classificação automática através da computação em nuvem na plataforma do Google Earth Engine.

A plataforma de acesso público é interativa e permite obter figuras e gráficos. O público em geral pode visualizar mapas da região amazônica, países, áreas protegidas e territórios indígenas. Para cada país é possível visualizar as informações em diferentes unidades territoriais: estado, municípios, bem como para áreas protegidas e territórios indígenas.

Para a elaboração dos mapas, o trabalho é feito em rede pela RAISG, aproveitando a expertise das organizações membros em seus respectivos países. Desta forma, o conhecimento existente a nível local permitiu melhorar a ferramenta e refinar a interpretação dos dados. A informação de cada um dos países é compatível com a do resto dos países, permitindo uma visão abrangente da região amazônica. Da mesma forma, o método utilizado permitiu padronizar os biomas incluídos na análise: os nove países amazônicos compartilham o bioma Amazônico, enquanto Peru, Equador e Bolívia compartilham o bioma dos Andes.

Inicialmente, a ferramenta de mapeamento do uso do solo foi desenvolvido pelo MapBiomas para ser aplicado no Brasil, e deverá ser melhorada com a entrada de organizações membros da RAISG para ajustar os resultados e análises da geografia de cada país amazonense. Em particular, foi necessário levar em conta as variações altitudinais típicas da Amazônia andina. Atualmente, a ferramenta de mapeamento inclui 13 classes, seis biomas – Amazônia, Cerrado, Pantanal, Andes, Chaco-Chiquitano e Tucumano Boliviano, variando de geleiras andinas para as formações florestais tropicais da planície amazônica. Aperfeiçoar a ferramenta exigiu um trabalho intenso, que se concretizou em apenas um ano e meio depois de estabelecer o consórcio RAISG – MapBiomas.

SOBRE RAISG

A RAISG é a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, um consórcio de organizações da sociedade civil dos países amazônicos voltada para a sustentabilidade socioambiental da Amazônia, com o apoio da cooperação internacional. A RAISG gera e dissemina conhecimento, dados estatísticos e informações socioambientais geoespaciais da Amazônia, elaborados com protocolos comuns para todos os países da região. Os produtos da RAISG permitem visualizar a Amazônia como um todo, bem como as ameaças e pressões que pairam sobre ela.

https://www.amazoniasocioambiental.org/es/

SOBRE MAPBIOMAS

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia que se uniram para contribuir para o entendimento das transformações do território brasileiro a partir do mapeamento anual da cobertura e uso da terra de todo o país. Em agosto de 2018, a Coleção 3 do MapBiomas foi publicada com mapas de cobertura e uso da terra no Brasil de 1985 a 2017.

http://mapbiomas.org/

Para conhecer os parceiros que compõem o MapBiomas Amazonia, veja a seção Quem somos: http://amazonia.mapbiomas.org

Para mais informações, entre em contato:

PERU: María Rosa Montes: mrmontes@ibcperu.org Celular. +51 992780172


Este artigo foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima [Aqui!]

Desflorestamento da Amazônia, já em ascensão, pode subir sob Bolsonaro

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Por Robert T. Walker*

Nos últimos 25 anos em que tenho conduzido pesquisas ambientais na Amazônia, testemunhei a destruição contínua da maior floresta tropical do mundo. Vinte por cento disso já foi desmatado até agora – uma área maior que o Texas.

Por isso, fiquei esperançoso quando as políticas ambientais começaram a entrar em vigor na virada do milênio, e a taxa de desmatamento caiu de quase 17.600 km2 por ano para menos de 3.200 ao longo da década posterior a 2004.

Mas um novo clima político no Brasil, que se instalou antes mesmo de o presidente Jair Bolsonaro tomar posse em janeiro de 2019, levou a um aumento recente no ritmo de derrubada da floresta tropical. E Bolsonaro, um ex-oficial do exército, fez do desenvolvimento da Amazônia uma importante promessa de campanha.

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O rio Tapajós, a jusante de onde uma represa poderia ser construída. Robert T. Walker, CC BY-SA 

Represando o Tapajós

O que está em jogo é o que acontece com a região ao redor do rio Tapajós, um dos maiores afluentes da Amazônia e que abriga cerca de 14.000 pessoas da tribo Munduruku. Os Munduruku até agora desaceleraram com sucesso e aparentemente pararam muitos esforços para transformar os Tapajós no “Mississippi do Brasil”.

O rio Tapajós é o último afluente de águas claras da Amazônia sem represas. A bacia que a cerca é aproximadamente igual a 15% da Amazônia brasileira e do tamanho da França. Esta área remota tem uma grande biodiversidade e suas árvores armazenam grandes quantidades de carbono.

Como a floresta amazônica absorve grande parte do carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis, os cientistas do clima consideram sua preservação fundamental para evitar um aumento no ritmo do aquecimento global.

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O Brasil está planejando construir uma série de grandes novas hidrelétricas e redes de hidrovias, ferrovias, portos e estradas que possam superar os obstáculos logísticos que impedem a exportação de commodities e outros bens

O governo suspendeu os planos para construir uma barragem de 8.000 megawatts no centro deste amplo projeto em 2016. Na época, citou a “inviabilidade do projeto dado o componente indígena” e declarou que deixaria de construir grandes barragens em 2018, antes de Bolsanaro tomar posse. 

No entanto, muitos observadores continuam muito preocupados sobre como a presidência de Bolsonaro afetará os Munduruku e a floresta tropical que eles protegem. Grupos como a International Rivers – uma organização sem fins lucrativos dedicada à “proteção dos rios e dos direitos das comunidades que dependem deles” – não estão prestes a declarar vitória. 

O estratagema sul americano 

Os planos de desenvolvimento da Amazônia no Brasil são parte de uma estratégia mais ampla que inclui todas as nações sul-americanas. Concebida pela primeira vez em 2000, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul foi projetada para construir uma economia continental por meio de novas infraestruturas que fornecem eletricidade para a industrialização e facilitam o comércio e o transporte. 

Conhecida amplamente por suas abreviações espanhola e portuguesa como IIRSA, essa iniciativa está transformando a Amazônia, 60% da qual está localizada em território brasileiro, em uma fonte de energia hidrelétrica e um centro de transporte que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. Será mais fácil transportar soja brasileira para os mercados globais, e a produção de manufaturas se expandirá, estimulando o crescimento populacional na Amazônia. 

O projeto para desenvolver a Amazônia, que também inclui partes do Peru, Bolívia e outros seis países, prevê a construção de mais de 600 represas, 19.940 km de cursos d’água, cerca de 1,2 milhões de km de estradas, uma ferrovia transcontinental e um sistema de portos, grande parte no deserto tropical. 

Uma nova onda de desenvolvimento

Bolsonaro ainda não enfrentou os Munduruku ou tomou ações concretas para manter suas promessas sobre o desenvolvimento da Amazônia. Mas ele tomou medidas que apontam nessa direção com os funcionários que ele selecionou para os principais cargos. Ele também transferiu responsabilidades para a demarcação de terras indígenas do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura, que uma lobista do agronegócio está chefiando

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Um complexo de barragens, estradas e canais comerciais poderia transformar a remota bacia do rio Tapajós em um centro comercial sul-americano no coração da floresta amazônica. Michael P. Waylen / Universidade da Flórida, CC BY-SA

Os planos do novo presidente brasileiro para a Amazônia vêm depois de décadas de desmatamento após a construção de estradas e hidrelétricas durante as décadas de 1960 e 1970. Esta onda inicial de construção abriu a região pouco povoada a um influxo de recém-chegados e contribuiu para a destruição de cerca de um quinto da floresta ao longo de quatro décadas. 

Depois veio uma onda de políticas ambientais mais fortes – como a aplicação mais rigorosa das leis de exploração madeireira, a expansão de áreas protegidas e a decisão voluntária dos produtores de soja de abster-se de derrubar a floresta – que reduziu a taxa de desmatamento da Amazônia brasileira após 2000. Pareceu-me e outros que uma nova era de conservação da Amazônia havia começado

Mas isso foi antes de entender todas as implicações da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul. 

Este plano é muito mais ambicioso do que os projetos anteriores de infraestruturas concluídos no final da década de 1970, e creio que poderia causar ainda mais destruição. 

Caso todos os seus componentes sejam construídos, a nova infraestrutura de transporte e energia provavelmente desencadearia uma nova onda de desmatamento que temo que possa ter impactos desastrosos sobre as comunidades indígenas que vivem na região. Os novos projetos precisam apenas repetir o que os projetos anteriores fizeram. Isso traria o desmatamento total para 40%. 

Cientistas do clima, como Carlos Nobre, temem que essa perda de floresta leve a Amazônia a um “ponto de inflexão” e prejudique o processo de reciclagem de chuvas, que reabastece o suprimento de água da Amazônia. O resultado seria um clima mais seco na Amazônia, que já começou a experimentar secas e a transformação da floresta em savana. Os povos indígenas sofreriam e a biodiversidade da Amazônia desapareceria. 

Um aumento maciço no ritmo do desmatamento na Amazônia poderia provocar mudanças climáticas nas Américas do Sul e do Norte. Os cientistas prevêem que a precipitação diminuiria em muitas áreas das Américas, incluindo a parte sudeste da América do Sul e o Vale do Rio Mississippi. O mundo inteiro sofreria com a redução da produção agrícola nessas duas regiões, que são importantes fornecedores globais de commodities agrícolas como o milho e a soja

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Atacando a Amazônia

Certamente, parte dessa construção já está em andamento no Brasil, principalmente para hidrelétricas. Até agora, 140 barragens foram construídas ou estão em construção, notavelmente a barragem de Belo Monte no rio Xingu e as barragens de Santo Antônio e Jirau nos rios Madeira. E os antecessores de Bolsonaro haviam reduzido algumas das áreas protegidas da Amazônia para facilitar o desenvolvimento.

Essas áreas protegidas cobrem 43% da Amazônia brasileira e são essenciais para manter a biodiversidade e seqüestrar carbono.

Quando Bolsonaro se dirigiu aos líderes mundiais no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, pela primeira vez, ele prometeu proteger o meio ambiente em seu país – que ele chamou de “um paraíso“.

Eu continuo cético, no entanto, dado que ele parece estar trabalhando em seu governo em preparação para projetos de construção que poderiam devastar a Amazônia, reduzindo sua biodiversidade e destruindo seus tesouros ecológicos e culturais.


*Robert T. Walker é Professor de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo site “The Conversation” [Aqui!]