Fornecedor da Apple comprou ouro de rede de contrabando de ouro da Amazônia brasileira

Por Murilo Pajolla e Rob Soutar para o TBIJ 

Uma empresa que fornece ouro para a gigante de tecnologia Apple adquiriu milhões de libras em metal de uma mineradora ilegal na floresta amazônica, dizem promotores brasileiros.

A Italpreziosi, uma refinaria de metais no leste da Toscana, foi comprada de uma suposta operação de contrabando que lavou mais de R$ 22 bilhões em ouro ilícito usando notas fiscais falsas, algumas emitidas em nome de pessoas falecidas.

Os que enfrentam as acusações agora estão sendo processados ​​no Brasil — e documentos arquivados como parte desse caso traçam novas ligações entre o ouro extraído ilegalmente e grandes marcas de consumo.

Desde 2017, a Italpreziosi é listada pela Apple como parte de sua cadeia de suprimentos. A empresa utiliza ouro em seus iPhones e cabos de carregamento. A Nvidia, outra grande empresa de tecnologia que fabrica chips de computador, também é abastecida pela Italpreziosi.

Não há indícios de que a Italpreziosi estivesse envolvida ou tivesse conhecimento do contrabando. A empresa disse ao TBIJ que era “alheia” ao esquema.

Em fevereiro de 2023, as autoridades brasileiras lançaram uma operação contra as empresas supostamente envolvidas no esquema, apreendendo documentos fiscais, registros bancários e outros dados. E no mês passado, a Justiça concordou em julgar 36 pessoas do grupo, acusadas de movimentar cerca de 13 toneladas de ouro ilegal.

Os promotores afirmam que parte do ouro veio de áreas protegidas da Amazônia, incluindo a Terra Indígena Munduruku, no estado do Pará, onde a COP 30 será realizada em novembro. A mineração ilegal é um dos principais causadores da destruição de ecossistemas no Brasil. Ela causou a perda de faixas de floresta em territórios indígenas e deixou comunidades com sérios problemas de saúde relacionados ao mercúrio, usado no processo de separação.

Crianças da comunidade Munduruku brincam nas águas do município de Jacareacanga, no ParáAdriano Machado / Reuters

Levantando suspeitas

Segundo as investigações policiais, duas empresas exportadoras brasileiras estavam no cerne do esquema: a Pemex e a Amazônia Trading Express. Elas teriam trabalhado com outra empresa, a americana Ororeal, para transportar o ouro ao redor do mundo. Um advogado que representa os funcionários acusados ​​da Ororeal e da Amazônia afirmou que elas negaram veementemente envolvimento em qualquer crime.

No Brasil, a Amazônia Trading Express e a Pemex compraram de intermediários locais que usaram notas fiscais alegando que o ouro vinha de locais de mineração legítimos. Mas os promotores afirmam que esses locais não mostraram sinais de atividade.

Havia outros indícios de que alguns dos documentos eram fraudulentos: um vendedor havia emitido notas fiscais em nome de 13 pessoas mortas. E, entre seus fornecedores, listavam 32 mineiros chamados Antônio.

A Amazônia Trading Express e a Pemex então contrabandearam o produto para os Emirados Árabes Unidos, Índia, Hong Kong, Suíça e Itália via Ororeal, dizem os promotores. E faturas obtidas como parte do caso e vistas pelo TBIJ e pela Repórter Brasil agora revelam que, na Itália, o produto tinha como destino a Italpreziosi.

De acordo com as faturas, a Amazônia Trading Express comprou cerca de R$ 750 milhões em ouro, com indícios de ilegalidade, de uma empresa sediada na Amazônia. E, entre novembro de 2019 e março de 2021, aparentemente exportou todo o ouro adquirido para a intermediária Ororeal, cujo proprietário também controlava a Amazônia Trading Express, alega o promotor.

Um acampamento ilegal de mineração de ouro na Amazônia. Alan Chaves / AFP via Getty
Área da Amazônia no Pará devastada pela mineração ilegal de ouro. Antonio Scorza/AFP via Getty

Faturas de mais de R$  15 milhões em ouro, de agosto de 2021, indicam a refinaria da Italpreziosi em Arezzo, Toscana, como endereço de entrega. Embora não se saiba se a Apple ou a Nvidia compraram ouro da Italpreziosi durante esse período, a refinaria foi listada como fornecedora.

Em depoimento à polícia, um funcionário da Amazônia Trading Express afirmou que todo o ouro adquirido pela empresa era exportado, sempre para a Ororeal. No entanto, eles afirmaram que, embora a Ororeal atuasse como intermediária, na prática a empresa enviava o ouro diretamente para a Italpreziosi.

A Italpreziosi afirmou que nunca negociou diretamente com a Amazônia Trading Express ou a Pemex, mas, como o Brasil é classificado como um país de alto risco, aplicou seus procedimentos de due diligence aprimorados à Ororeal. Isso incluiu solicitar uma lista completa de seus fornecedores.

A empresa também disse que não fazia negócios com a Ororeal desde 2021 e que não havia recebido nenhum relatório ou alerta sobre suspeita de ilegalidade por parte da Ororeal até que as notícias sobre as investigações policiais se tornassem públicas em 2022. Nesse momento, ela disse que solicitou mais esclarecimentos à Ororeal e então encerrou a conta.

A Italpreziosi acrescentou: “Operamos com a máxima conformidade e diligência, de acordo com as regulamentações nacionais e internacionais”. A refinaria também afirmou que realiza uma rigorosa avaliação de risco de cada cliente e emprega uma série de medidas padrão do setor, incluindo auditorias anuais independentes de sua cadeia de suprimentos.

A Italpreziosi é membro afiliado da London Bullion Market Association (LBMA), que promove o fornecimento responsável de metais preciosos e define padrões do setor para empresas.

Um porta-voz disse: “A LBMA está ciente dos desafios de abastecimento causados ​​por mineradores ilegais na região da Amazônia brasileira e tem trabalhado para destacar esse problema sério para as refinarias.”

Eles acrescentaram que uma lei em vigor enquanto o suposto contrabando ocorria, que permitia que mineradores e comerciantes fornecessem autodeclarações de origem, foi abolida em 2023. Eles disseram que a LBMA está trabalhando para ajudar a fortalecer a transparência da cadeia de suprimentos em torno da mineração de ouro em áreas protegidas.

Um advogado que representa os funcionários da Ororeal e da Amazônia Trading Express disse: “Os sócios das empresas não reconhecem seu envolvimento nessas operações e contribuíram com o material necessário ao processo para esclarecer os fatos, confiando que a justiça será feita”.

A Amazônia e a Ororeal nunca compraram ouro de terras indígenas ou ilegais. Ambas as empresas possuem o mais alto nível de conformidade, impondo regras rígidas aos seus fornecedores e enviando a eles toda a documentação exigida por lei para comprovar a origem dos produtos adquiridos.

Um advogado que representa a Pemex não respondeu aos e-mails do TBIJ solicitando um comentário.

Um porta-voz da Nvidia afirmou: “A Nvidia está comprometida com o fornecimento responsável de minerais. Avaliamos rotineiramente os fornecedores para garantir a conformidade com nossa política de minerais responsáveis ​​e realizamos a devida diligência para garantir que nossos produtos sejam adquiridos de forma responsável.”

A Italpreziosi disse que não tinha relações comerciais diretas nem com a Apple nem com a Nvidia, e nem era obrigada a verificar relações entre empresas clientes e terceiros.

A Apple não respondeu aos pedidos de comentários do TBIJ.

Repórteres: Rob Soutar e Murilo Pajolla
Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar
Editor Adjunto: Katie Mark
Editora: Franz Wild
Editores de Produção: Alex Hess e Sasha Baker

O TBIJ conta com diversos financiadores, cuja lista completa pode ser encontrada aqui . Nenhum dos nossos financiadores tem qualquer influência sobre as decisões editoriais ou a produção da revista.


Fonte: TBIJ

Documentos mostram que ouro extraído ilegalmente na Amazônia está sendo comprado por grandes corporações de tecnologia

garimpeiroGarimpeiro usa uma bacia e mercúrio para encontrar ouro em uma área desmatada da floresta amazônica  no município de Itaituba, estado do Pará  

Por Jake Spring para a Reuters 

SÃO PAULO (Reuters) – A polícia brasileira alega que uma refinaria italiana comprou ouro de um comerciante que o compra ilegalmente na região da floresta amazônica, de acordo com documentos da polícia, e divulgações corporativas mostram que a refinaria forneceu o metal precioso para quatro das maiores empresas de tecnologia do mundo .

Registros públicos da Amazon.com (NASDAQ: AMZN ), Apple (NASDAQ: AAPL ), Microsoft (NASDAQ: MSFT ) e Alphabet (NASDAQ: GOOGL ) nomeiam a empresa privada italiana Chimet como fonte de algum ouro usado em seus produtos. As empresas de tecnologia costumam usar pequenas quantidades do metal em placas de circuito para eletrônicos de consumo.

De acordo com documentos policiais obtidos pela empresa de jornalismo investigativo Repórter Brasil e revisados ​​pela Reuters, a polícia federal brasileira acusou Chimet de comprar milhões de dólares em ouro do comerciante CHM do Brasil, que supostamente adquiriu o metal precioso ilegalmente de garimpeiros.

A CHM do Brasil, respondendo às perguntas por meio de um advogado, disse que todo o seu ouro foi adquirido legalmente com documentação adequada.

A mineração ilegal aumentou no Brasil desde que o presidente de direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019, defendendo os invasores e buscando legalizar a mineração em terras indígenas.

As minas não regulamentadas destruíram as terras da floresta tropical na Amazônia enquanto poluíam rios com mercúrio mortal. Os mineiros entraram em confronto violento com as tribos indígenas que protegiam suas terras, deixando um rastro de morte, doenças e intimidações.

O think tank brasileiro de sustentabilidade Instituto Escolhas estimou que o país produziu 84 toneladas de ouro ilegal nos primeiros dois anos de Bolsonaro no cargo, um aumento de 23% em relação aos dois anos anteriores e equivalente a quase metade da produção total de ouro do Brasil.

 “Uma empresa que está comprando ouro do Brasil já sabe que há um risco enorme de comprar ouro ilegal – ouro de sangue da Amazônia”, disse Larissa Rodrigues, autora do relatório Escolhas.

Um representante da Chimet disse que a empresa cortou relações com a CHM ao saber das alegações em outubro de 2021, quando a polícia realizou batidas em nove estados brasileiros e no distrito federal visando a CHM e outros supostamente envolvidos no comércio ilegal de ouro.

Um documento policial resumindo a investigação datado de agosto de 2021 afirma que Chimet supostamente comprou 2,1 bilhões de reais (US$ 385 milhões) em ouro da CHM entre 2015 e 2020.

Um porta-voz da Polícia Federal no estado do Pará se recusou a comentar a investigação porque ela está em andamento e permanece sob sigilo. As acusações provavelmente serão anunciadas quando a investigação for concluída ainda este ano, disse ele.

Os promotores federais teriam então que decidir se apresentariam queixa, acrescentou.

As quatro empresas de tecnologia dos EUA listaram a Chimet entre mais de 100 refinarias de ouro em suas cadeias de suprimentos durante o período de cinco anos da investigação e nas divulgações mais recentes de 2021.

A Chimet não tem um relacionamento direto com as quatro grandes empresas de tecnologia, mas vende ouro para bancos que podem revendê-lo para diversos usos, disse o representante da empresa, Giovanni Prelazzi, em comunicado à Reuters. Ele não citou os bancos.

A Apple não abordou especificamente a Chimet, mas disse em comunicado que suas políticas proíbem o uso de minerais extraídos ilegalmente. As empresas que não podem cumprir são removidas de sua cadeia de suprimentos, disse a fabricante do iPhone.

Amazon, Alphabet e Microsoft se recusaram a comentar.

A Chimet disse que, após tomar conhecimento da investigação da CHM no Brasil, contratou a empresa de contabilidade Deloitte para realizar uma auditoria de seus outros fornecedores e em abril de 2022 foi novamente certificada pela associação de mercado de barras LBMA como atendendo aos padrões de fornecimento responsável de ouro.

Um representante da LBMA disse à Reuters que as ações da Chimet mostraram que problemas semelhantes não existiam com outros fornecedores e que os métodos de verificação estavam sendo fortalecidos.

Não registrado

Os documentos policiais alegam que a CHM não estava registrada no Banco Central do Brasil como uma entidade legalmente autorizada a comprar e vender ouro, conhecidas como DTVMs.

A CHM não aparece no diretório online do banco central de DTVMs registradas. É ilegal para qualquer pessoa, exceto mineradores e suas associações, comprar e vender ouro no Brasil sem tal registro.

A CHM disse que não comprou ouro como instrumento financeiro e que não é necessário registro para comprar ouro como commodity.

O banco central disse que não regulamenta “operações com ouro classificado como commodity”.

Uma análise de 2020 das leis relevantes por promotores federais descobriu que esse registro é necessário para qualquer pessoa que não seja mineradora para comprar e vender ouro, independentemente de seu uso.

Registros financeiros de transferências bancárias mostram que a CHM comprou ouro da cooperativa e diretamente de vários indivíduos no sul do estado do Pará, que faz parte da Amazônia brasileira.

 A cooperativa COOPEROURI tem permissão para minerar em uma área próxima à reserva indígena Kayapó protegida, mas a polícia encontrou tanto a CHM quanto a cooperativa comprada de garimpeiros independentes sem licença, de acordo com os documentos da investigação.

A direção COOPEROURI não foi encontrada para comentar. 

O relatório da polícia disse que os garimpeiros cooperativos e individuais estariam extraindo minério ilegalmente na reserva indígena, embora não tenha indicado a base para essa alegação.

No relatório policial, imagens de satélite da reserva Kayapó – uma região maior que a Bélgica – mostram vastas faixas de piscinas de mineração lamacentas e pistas de pouso clandestinas para acessá-las.

(US$ 1 = 5,45 reais)


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

O que diria George Orwell ? Wikileaks libera informações sobre ações de contra-inteligência digital da CIA

A grande notícia do dia de hoje é a liberação de um mega pacote de dados pelo site Wikileaks (Aqui!) sobre as ações de contra-inteligência da Agência Central de Inteligência (CIA) que incluem o hackeamento de telefones, computadores e até televisores.(Aqui!Aqui!Aqui!Aqui! e Aqui!).

Pelo menos uma fonte crível na questão das formas de ação da contra-inteligência estadunidense, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, já utilizou a sua conta pessoal no Twitter para indicar que o pacote de dados liberado pelo Wikileaks parece ser genuíno (Aqui!).

wiki cia 2

A novidade deste vazamento não é tanto por se confirmar algo que se desconfiava estar ocorrendo, visto a fragilidade dos sistemas de segurança da maioria dos equipamentos que usam os sistemas operacionais da Apple e da Google.   Na verdade, a novidade mesmo é o fato de que a própria CIA foi hackeada e teve seus “modus operandi” dissecado por sabe-se-lá-quem, e que depois repassou para o Wikileaks vazar.

De toda forma, esse vazamento deverá ter alguns efeitos imediatos. O primeiro será um baque nas vendas dos televisores inteligentes da multinacional sul coreana SAMSUNG que aparentemente é a única marca que já foi transformada em zumbi pelos hackers da CIA. O segundo efeito deverá ser um aumento considerável nas medidas de segurança dos usuários dos sistemas não apenas da Apple e da Google, mas também do Linux que até agora era citado como quase impossível de ser hackeado.

Há ainda que se reconhecer o fato de que o Wikileaks que já era dado como morto e inútil por muitos, conseguiu aparentemente está mais vivo do que nunca. 

Por último, outro efeito inevitável desse vazamento será um aumento da demanda pelo livro “1984” do escritor inglês George Orwell que antecipou esse tempo onde a ingerência do Estado na área privada dos indivíduos, visando obviamente o controle social das massas, seria total (Aqui!). E 68 anos depois da primeira edição de “1984”  eis estamos aqui todos nós sob o olhar atento do “Grande Irmão” que no final não era comunista, mas sim o suposto campeão dos valores democráticos. George Orwell certamente iria apreciar essa ironia.