Estação seca mais quente reduz em 63% taxa de sobrevivência de aves da Amazônia

Impacto de aumento de 1º C na temperatura média foi observado em 29 espécies que vivem em trecho preservado da floresta

Mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha, papa-formiga-de-topete e cabeça-branca: três das 29 espécies de aves estudadas. Philip Stouffer 

Por Renata Fontanetto para a Revista Fapesp

Na Amazônia, muitas aves encontram refúgio na rica vegetação de menor porte que cresce abaixo da copa das árvores. Artigo publicado no periódico Science Advances sugere que o aumento de 1 grau Celsius (ºC) na temperatura média durante a estação seca, de maio a outubro, tenha reduzido em quase dois terços a taxa de sobrevivência aparente das aves que habitam sub-bosques da floresta tropical, mesmo que essa área esteja em uma região praticamente sem interferência humana.

A conclusão do estudo se baseia em um trabalho de modelagem estatística que associou dados de temperatura e de pluviosidade com números de captura e de recaptura de 4.264 exemplares de 29 espécies de aves, previamente pegas, identificadas por meio de um anel e soltas na natureza. Os animais foram apanhados entre 1985 e 2012 em 20 pontos dentro dos 3.180 hectares de floresta preservada do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), situado a 80 quilômetros ao norte de Manaus. Composto de 23 parcelas de floresta, o PDBFF é uma unidade de conservação federal e a pesquisa em sua área é coordenada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) em parceria com o Instituto Smithsonian, dos Estados Unidos.

Segundo o estudo, o aumento de calor durante a estação seca reduziu em 63% a taxa média de sobrevivência aparente da comunidade das aves que vivem nos sub-bosques do PDBFF. Isso significa que, em razão do aumento da temperatura, a probabilidade de uma ave sobreviver de um ano para o outro caiu para cerca de um terço do que seria o esperado caso a temperatura tivesse se mantido mais amena.

“Aves tropicais são muito sensíveis às mudanças que afetam seu meio de vida”, afirma a Pesquisa FAPESP o autor principal do estudo, o ornitólogo Jared Wolfe, da Universidade Tecnológica de Michigan, nos Estados Unidos, e colaborador do Inpa. “Há uma influência bastante dramática de uma estação seca cada vez mais quente e árida na sobrevivência de praticamente todas as aves que analisamos no sub-bosque da Amazônia.”

No cenário geral, 24 das 29 espécies se mostraram afetadas pelo aquecimento da região, com tendência de impacto maior no grupo de aves que vivem por mais tempo. Espécies como o barranqueiro-pardo (Automolus infuscatus), o arapaçu-de-garganta-pintada (Certhiasomus stictolaemus), o bico-virado-miúdo (Xenops minutus) e o mãe-de-taoca-de-garganta-vermelha (Gymnopithys rufigula) estão entre as mais vulneráveis identificadas pelo estudo.

“No nosso modelo estatístico, os dados relativos à temperatura explicavam cerca de 85% da variação na taxa de sobrevivência aparente das aves”, comenta Wolfe. Quando um ano ficava mais quente, a taxa caía; quando esfriava, ela aumentava. O trabalho também calculou qual teria sido o impacto de uma redução de 10 milímetros (mm) de chuva durante a estação seca na taxa anual de sobrevivência aparente das aves. O efeito foi bem menor do que no caso do aumento da temperatura. Em média, a queda na pluviosidade estaria associada a uma redução de 14% na quantidade de aves da população estudada.

Sobrevivência aparente é um conceito usado para expressar a manutenção da vida em animais previamente identificados dentro de uma área determinada ao longo do tempo. A queda nessa taxa não significa necessariamente que houve morte entre os membros da amostra. Três fatores, que essa definição não distingue, podem jogar para baixo os números relativos à sobrevivência aparente: o óbito propriamente dito de membros da população estudada, a migração para fora da área de estudo e até a simples não recaptura de animais dentro do prazo esperado.

Área de sub-bosque dentro do projeto PDBFF, a 80 quilômetros de ManausVitek Jirinec

Quando uma ave não é recapturada, isso é sinal de que pode ter morrido ou simplesmente não foi pega de novo. Os autores do artigo utilizaram um modelo estatístico para distinguir essas duas probabilidades. Assim, ajustaram as estimativas de sobrevivência aparente, que indicam a probabilidade de uma ave ainda estar viva no ano seguinte.

É possível que o aumento da tem­peratura e a queda observada na chuva influenciem as aves a procurarem outro território, menos quente e com maior oferta de água. Mas a recorrência na falha de recaptura ano a ano é, na avaliação de Wolfe, um indicativo de que o calor e a secura vêm sendo mais fatais para os bichos.

A chuva, a disponibilidade de água e a diversidade do relevo local parecem ser importantes para criar microclimas que permitam às aves se refrescar diante de temperaturas cada vez mais altas. “Essas espécies têm a capacidade adaptativa para desenvolver respostas evolutivas que acompanham as condições que estão enfrentando agora?”, indaga o biólogo Philip Stouffer, da Universidade Estadual de Louisiana, outro autor do estudo, em entrevista a Pesquisa FAPESP. “Sob as condições atuais, as populações estão diminuindo e sua sobrevivência se reduz. Até agora, os resultados não são encorajadores.”

Segundo o biólogo, a resiliência das aves de sub-bosque depende da manutenção de amplos trechos de floresta intacta. Dessa forma, mesmo com populações em declínio, as espécies poderiam se manter viáveis. “Áreas mais baixas dentro da floresta, como ao longo de riachos, também são particularmente relevantes para proteger as aves, pois parecem fornecer nichos de refúgio”, observa Stouffer.

O ornitólogo Mario Cohn-Haft, curador do setor de aves do Inpa, também enfatiza que os resultados do estudo reforçam a importância de conservar grandes áreas de floresta intacta. “As mudanças climáticas se devem, em parte, ao desmatamento”, diz ele, que não participou do trabalho publicado na Science Advances. “Precisamos restaurar a floresta e parar de desmatar. Isso ajudará a restabelecer o clima e a preservar as condições necessárias para a manutenção da biodiversidade.”

Para a bióloga evolutiva Ana Paula Assis, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), o estudo feito na Amazônia se destaca por ter utilizado dados de longo prazo, de quase 30 anos. “Se eles obtiveram esses resultados trabalhando em áreas de mata virgem, imagine o quão pior deve ser o cenário em trechos de floresta desmatada ou que sofreram fragmentação”, indaga Assis, que também não participou do artigo.

Ela sugere um possível desdobramento para a pesquisa: tentar entender se existe alguma variação na taxa de sobrevivência entre as aves que possa estar relacionada a fatores hereditários. “Se alguns indivíduos das espécies mais ameaçadas conseguem sobreviver bem ao aumento de temperatura, talvez eles possam passar essa capacidade para os filhotes caso essa resiliência esteja baseada numa característica genética”, comenta a bióloga.

Estudos semelhantes ao feito no PDBFF foram realizados no Panamá e no Equador. Os trabalhos indicam que as aves, em especial as de espécies que comem insetos, estão desaparecendo das seções mais baixas e intermediárias das florestas. Trabalhos como o realizado na Amazônia, que vincula as mudanças do clima à sobrevivência das aves, ainda são raros e há poucos dados de longo prazo sobre essa questão.

A reportagem acima foi publicada com o título “Mais calor, menos aves” na edição impressa nº 349 de fevereiro de 2024.

Artigo científico
WOLFE, J. D. et al. Climate change aggravates bird mortality in pristine tropical forests. Science Advances. 29 jan. 2025.


Fonte: Revista Fapesp

Derretimento de geleira coloca em risco abastecimento de água e alimentos para 2 bilhões de pessoas, diz ONU

Relatório da Unesco destaca perda de geleiras “sem precedentes” causada pela crise climática, ameaçando ecossistemas, agricultura e fontes de água

Um pedaço de gelo flutua sobre a geleira Portage, perto de Girdwood, Alasca. Dois terços de toda a agricultura irrigada do mundo provavelmente serão afetados de alguma forma pelo recuo das geleiras. Fotografia: Mark Thiessen/AP

Por Fiona Harvey para o “The Guardian” 

O recuo das geleiras ameaça o suprimento de alimentos e água de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo, alertou a ONU, já que as atuais taxas “sem precedentes” de derretimento terão consequências imprevisíveis.

Dois terços de toda a agricultura irrigada no mundo provavelmente serão afetados de alguma forma pelo recuo das geleiras e pela diminuição da queda de neve nas regiões montanhosas, causados ​​pela crise climática, de acordo com um relatório da Unesco .

Mais de 1 bilhão de pessoas vivem em regiões montanhosas e, daquelas em países em desenvolvimento, até metade já está passando por insegurança alimentar. É provável que isso piore, pois a produção de alimentos nessas regiões depende das águas das montanhas, do derretimento da neve e das geleiras, de acordo com o World Water Development Report 2025 .

Os países desenvolvidos também correm risco: nos EUA, por exemplo, a bacia do Rio Colorado está em seca desde 2000, e temperaturas mais altas significam que mais precipitação cai na forma de chuva, que escorre mais rapidamente do que a neve das montanhas, agravando as condições de seca.

Audrey Azoulay, diretora geral da Unesco , disse: “Independentemente de onde vivemos, todos nós dependemos de alguma forma de montanhas e geleiras. Mas essas torres de água naturais estão enfrentando perigo iminente. Este relatório demonstra a necessidade urgente de ação.”

A taxa de mudança de geleiras é a pior já registrada, de acordo com uma pesquisa separada da Organização Meteorológica Mundial, que publicou seu relatório anual State of the Climate esta semana . A maior perda de massa de geleira em três anos já registrada ocorreu nos últimos três anos, descobriu o estudo, com Noruega, Suécia, Svalbard e os Andes tropicais entre as áreas mais afetadas.

A África Oriental perdeu 80% de suas geleiras em alguns lugares e, nos Andes, entre um terço e metade das geleiras derreteram desde 1998. As geleiras nos Alpes e nos Pireneus, as mais afetadas na Europa, encolheram cerca de 40% no mesmo período.

O declínio das geleiras teve um impacto adicional, acrescentou Abou Amani, diretor de ciências da água na Unesco, no sentido de que a perda de gelo substitui uma superfície reflexiva por solo escuro que absorve calor. “O derretimento das geleiras tem um impacto na refletividade da radiação [solar] e isso impactará todo o sistema climático”, ele alertou.

Mais avalanches também resultarão, pois a chuva caindo sobre a neve é ​​um fator importante por trás da formação de avalanches . A água acumulada de geleiras derretidas também pode ser liberada, causando inundações repentinas em vales ou para pessoas que vivem mais abaixo nas encostas . O permafrost também está derretendo, liberando metano dos solos das montanhas que as geleiras derretidas estão descobrindo .

Um estudo anterior, publicado no mês passado no periódico revisado por pares Nature, descobriu que metade da massa global de geleiras seria perdida até o final do século , se o aquecimento global não fosse interrompido. Alex Brisbourne, um geofísico de geleiras do British Antarctic Survey, disse: “As geleiras de montanha contêm alguns dos maiores reservatórios de água doce da Terra. A água derretida liberada no verão fornece o suprimento de água para um bilhão de pessoas e sustenta uma enorme quantidade de indústria e agricultura. O impacto [de tal derretimento] será sentido muito além daqueles imediatamente a jusante das geleiras.”

Esses impactos estão chegando em um momento em que muitas fontes de alimentos já estão sob pressão . Alvaro Lario, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad) e presidente da ONU-Água, pediu mais apoio às pessoas que vivem em regiões montanhosas afetadas. “A água flui para baixo, mas a insegurança alimentar sobe. As montanhas fornecem 60% da nossa água doce, mas as comunidades que protegem esses recursos vitais estão entre as mais inseguras em termos de alimentos”, disse ele.

“Devemos investir na resiliência deles para proteger geleiras, rios e um futuro compartilhado para todos nós.”


Fonte: The Guardian

A política climática do Brasil está numa encruzilhada

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, durante cerimônia de assinatura do contrato de navios da Transpetro para o Programa de Renovação da Frota Naval do Sistema Petrobras. Estaleiro Ecovix, Rio Grande. Imagem: Palácio do Planalto

Por Monica Piccinini para o The Ecologist 

O Brasil vive um momento crucial na história como anfitrião da 30ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) das Partes (COP30). 

Em novembro, os holofotes estarão voltados para Belém, capital do Pará, que sediará a COP30, reunindo líderes mundiais, ativistas, corporações e formuladores de políticas para enfrentar os desafios ambientais mais urgentes do mundo, onde os riscos nunca foram tão altos.

Isto é mais do que apenas uma cúpula global: é uma oportunidade para a nação se estabelecer como líder na agenda climática e dar um exemplo para o mundo. 

Urgente

Com os desastres climáticos se intensificando e o desmatamento ameaçando os ecossistemas mais críticos do planeta, o Brasil tem a responsabilidade e o poder de promover mudanças reais.

Para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a COP30 representa um momento decisivo. É uma chance de tomar medidas ousadas e decisivas, protegendo a rica biodiversidade do Brasil, interrompendo o desmatamento e a degradação da floresta amazônica e fechando a porta para uma maior expansão dos combustíveis fósseis. 

O mundo está observando para ver se o Brasil vai intensificar políticas concretas e execução que protejam seus recursos naturais. Se Lula aproveitar este momento, o Brasil não estará apenas sediando a COP30, mas estará liderando a carga em direção a um futuro mais sustentável e resiliente.

Cássio Cardoso Pereira, ecologista , biólogo conservacionista e editor dos periódicos BioScience , Biotropica e Nature Conservation , compartilhou sua perspectiva sobre a COP30.

Ele disse: “O Brasil está em uma encruzilhada. Eventos como COPs podem gerar ideias, mas sem um compromisso real, eles não conseguirão impulsionar a mudança urgente de que precisamos. 

Troca

“Declarações vazias sobre ter a maior floresta tropical do mundo e abundantes recursos renováveis ​​não significam nada se ignorarmos os incêndios, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a destruição implacável que os ameaçam.”

Em 2024, o mundo testemunhou novos recordes alarmantes nos níveis de gases de efeito estufa e no aumento das temperaturas da superfície do ar e do mar, conforme monitorado pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. 

Essas mudanças desencadearam eventos climáticos extremos em todo o mundo, inclusive no Brasil, destacando a necessidade urgente de as nações eliminarem gradualmente os combustíveis fósseis. 

No entanto, em vez de tomar medidas decisivas, os países, incluindo o Brasil, estão aumentando a produção de combustíveis fósseis, levando o planeta ainda mais para a crise.

O caminho do Brasil é profundamente preocupante. De acordo com o Ministério do Comércio do país, as exportações de petróleo subiram para US$ 44,8 bilhões neste ano, superando a soja como a principal exportação do país. 

Esta é uma oportunidade para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas. 

Degradação

Projeções da Rystad Energy indicam que até 2030, a produção de petróleo do Brasil ultrapassará sete milhões de barris de óleo equivalente por dia (boepd), elevando o país do sétimo para o quinto maior produtor de petróleo do mundo.

Em 2024, a gigante petrolífera estatal Petrobrás atingiu um nível de produção impressionante de 2,4 milhões de barris de petróleo por dia. Com o apoio total de Lula , a empresa está avançando com planos controversos para expandir a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, uma região ecologicamente frágil. 

Este projeto ameaça recifes de corais vitais, extensos manguezais e os meios de subsistência de comunidades indígenas e locais. Além desses perigos imediatos, os riscos de vazamentos de óleo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa podem ter consequências globais catastróficas.

Pereira enfatizou que as escolhas do Brasil hoje determinarão se ele conterá o colapso ambiental ou acelerará uma catástrofe climática.

Ele disse: “O Brasil deve promover um diálogo inclusivo e transparente, que ouça todas as vozes, especialmente as comunidades indígenas, em vez de ser abafado por desinformação e intolerância. Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. 

Acelerando

“E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a proposta desastrosa de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical mais perto do colapso.”

Ele acrescentou: “Se essas ameaças forem ignoradas e enterradas sob gentilezas diplomáticas, o Brasil não apenas falhará em suas metas de emissões, mas trairá sua responsabilidade com o planeta. A hora para uma ação real é agora,” 

rodovia BR-319 , um trecho de 885 km que liga a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, atravessa uma das regiões mais intocadas da floresta amazônica. 

Agora, com uma proposta de reconstrução de 406 km, esse projeto ameaça desencadear uma cadeia de destruição , transformando um ecossistema intacto em uma porta de entrada aberta para o desmatamento, o crime e a ganância corporativa. 

As consequências não seriam apenas locais, elas se espalhariam pelo Brasil e pelo mundo, acelerando o colapso climático e colocando as comunidades indígenas em risco extremo.

Reconstruída

No centro desse desastre iminente está a região da AMACRO , um hotspot de desmatamento que abrange os estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Se a BR-319 for reconstruída, ela abriria um caminho direto entre essas terras fortemente desmatadas e o coração intocado da Amazônia. 

Com a floresta tropical já se aproximando de um ponto de ruptura irreversível, esta rodovia pode ser o gatilho que a levará ao limite. 

A floresta tropical, há muito considerada o “pulmão da Terra”, desempenha um papel crucial na estabilização das temperaturas globais. Destruí-la aceleraria a mudança climática, tornando eventos climáticos extremos ainda mais frequentes e devastadores.

Além da catástrofe ambiental, o custo humano é impressionante. A rodovia exporia 69 comunidades indígenas , mais de 18.000 indígenas, a invasões de terra, violência e deslocamento. 

A grilagem de terras , a mineração e a extração de madeira já causaram danos à Amazônia, mas com a BR-319 recém-reconstruída, essas atividades se expandiriam descontroladamente. 

Crescimento

Mais de 6.000 km de estradas ilegais já foram construídas na BR-319 e, com mais expansão, o crime organizado só fortalecerá seu domínio na região, colocando em perigo tanto a vida dos indígenas quanto a dos defensores da floresta tropical.

A ameaça se estende além da terra. A destruição da floresta tropical pode interromper os “rios voadores”, correntes de ar carregadas de água que trazem chuva para vastas áreas do Brasil. 

Sem elas, as secas poderiam devastar a agricultura e o abastecimento de água, afetando milhões de pessoas. Pior ainda, o desmatamento poderia criar condições para que novas doenças zoonóticas passassem da vida selvagem para os humanos, aumentando o risco de outra pandemia global . Em um mundo que ainda luta contra os efeitos da COVID-19, esse é um risco grande demais para ser ignorado.

Apesar dos alertas urgentes dos renomados cientistas Lucas Ferrante e Phillip Fearnside, o governo brasileiro permanece impassível. 

Com o total apoio do presidente e apoio de políticos, líderes empresariais e até mesmo de algumas ONGs , a pavimentação da BR-319 está sendo impulsionada em nome do crescimento econômico. 

Ecossistemas

Mas os verdadeiros beneficiários são as poderosas indústrias por trás do petróleo e gás, do agronegócio e da mineração, tanto legais quanto ilegais, enquanto a Amazônia e seu povo sofrem o preço final.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), disse: “Isso é mais do que uma estrada; é um ponto de inflexão. 

“Desmatamento e degradação já são vistos ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, isso pode desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas além do controle. 

“A escolha é clara: ou ouça a ciência e proteja a floresta tropical, ou deixe que os lucros de curto prazo destruam um dos últimos grandes ecossistemas do mundo. O mundo está assistindo e o que acontecer a seguir definirá o futuro da Amazônia, do Brasil e do planeta.”

Bioeconomia

Na COP30, o Brasil demonstrará seu comprometimento em construir uma bioeconomia forte, uma oportunidade para liberar sua vasta riqueza natural e impulsionar o crescimento econômico.

No centro dessa ambição está a expansão agressiva dos biocombustíveis, um pilar fundamental da estratégia de descarbonização do Brasil, reforçada pela Lei do Combustível do Futuro do presidente Lula, aumentando a obrigatoriedade dos biocombustíveis no país.

No entanto, esse caminho não é sem consequências . A crescente demanda por culturas de biocombustíveis, cana-de-açúcar, soja, milho e óleo de palma ameaça a segurança alimentar, impulsiona o desmatamento e coloca imensa pressão sobre ecossistemas vitais. 

A conversão de terras acelera as emissões de gases de efeito estufa, enquanto o esgotamento da água, a erosão do solo e a poluição pelo uso de agrotóxicos levantam sérias preocupações sobre a sustentabilidade desse modelo.

No Pará, a expansão do óleo de palma tem gerado conflitos , marcados por denúncias de crimes ambientais e violência contra comunidades indígenas e tradicionais.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales , professor e pesquisador em política ambiental e governança de mudanças climáticas no Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo, disse: “A diplomacia do etanol do Brasil visa retratar a nação como consciente do clima, usando o biocombustível como alavanca nas negociações climáticas.

Carne bovina

“Muitos países seguiram o exemplo ‘bem-sucedido’ do Brasil ao integrar a bioenergia em suas políticas climáticas, embora seus custos sociais e ambientais sejam amplamente reconhecidos.”

O Brasil está em um momento decisivo. Sua bioeconomia estabelecerá um exemplo global de verdadeira sustentabilidade ou o progresso terá um custo irreversível?

Em 2024, o Brasil testemunhou uma crise ambiental catastrófica. De acordo com o monitor de incêndios do MapBiomas , impressionantes 30,8 milhões de hectares (119.000 milhas quadradas) de terra foram consumidos por incêndios, uma área maior que a Itália, marcando um aumento chocante de 79 por cento em relação a 2023. 

A Amazônia, já sob imensa pressão, enfrentou seu pior ano de incêndios em 17 anos. No centro dessa devastação estão os pecuaristas, limpando vastas extensões de terra para agricultura e pastagem.

Enquanto isso, o Brasil estabeleceu um recorde sombrio, exportando a maior quantidade de carne bovina de sua história: 2,89 milhões de toneladas avaliadas em US$ 12,8 bilhões, conforme relatado pela Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina (ABIEC). A maior parte dessa carne bovina foi para a China, seguida pelos EUA, Emirados Árabes Unidos e UE.

Violando

A pecuária é uma das principais responsáveis ​​pela destruição da Amazônia , sendo responsável por 88 % do desmatamento .

A ONG global Global Witness responsabiliza três grandes gigantes brasileiras de frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, por grande parte dessa devastação. Essas empresas estão ligadas à destruição de vastas extensões de floresta no Mato Grosso, uma área maior que Chicago.

A JBS, maior exportadora de carne bovina do mundo e segunda maior produtora de carne bovina , emprega mais de 250.000 pessoas globalmente e gerou uma receita estimada de US$ 77 bilhões em 2024, contribuindo com cerca de 2,1% do produto interno bruto (PIB) do Brasil. 

No entanto, os lucros da empresa são construídos sobre uma base de degradação ambiental, desmatamento e exploração. 

A JBS foi acusada de greenwashing , promoção de práticas insustentáveis ​​e violação de direitos humanos, incluindo trabalho infantil em seus frigoríficos nos EUA.

Destruindo o clima

Um relatório da ONG Mighty Earth revelou a extensão chocante desses crimes. JBS, Marfrig e Minerva obtiveram gado de um fazendeiro acusado de desmatar ilegalmente 81.200 hectares de terra, uma área quase quatro vezes maior que Amsterdã. 

Este fazendeiro também foi relacionado ao uso de um produto químico tóxico, 2,4-D (um componente do Agente Laranja), para desmatar suas terras, marcando o maior caso de desmatamento já registrado no Mato Grosso.

João Gonçalves, diretor sênior da Mighty Earth para o Brasil, disse: “Nossa análise recente mostra que a JBS ainda está ligada ao desmatamento desenfreado em suas cadeias de fornecimento de carne bovina no Brasil e está na parte inferior do Scorecard da Mighty Earth quando se trata de lidar com o problema. 

“A admissão feita há algumas semanas de que tem ‘controle zero’ de sua cadeia de suprimentos significa que a JBS não se importa de onde obtém sua carne, incluindo de fazendas que estão destruindo a Amazônia. 

“A JBS está mexendo nos limites da exigência de rastreabilidade até os fornecedores de gado, ao mesmo tempo em que expande maciçamente suas operações de carne que destroem o clima. 

Estratégias

Ele acrescentou: “Isso inclui um grande acordo com a China, que tem o apoio do presidente Lula, que prometeu acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030, mas seu apoio à expansão da JBS pode levar a Amazônia para mais perto de um ponto de inflexão irreversível. 

Os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil na COP30 e a ótica já não é boa com as mensagens confusas e ações contraditórias do governo.”

Em 2023, Lula estabeleceu o “Conselhão“, um conselho voltado para a promoção do desenvolvimento socioeconômico sustentável (CDESS). Este grupo, composto por cerca de 250 representantes de vários setores e da sociedade civil, foi formado para fornecer orientação sobre o desenvolvimento de políticas e estratégias econômicas, sociais e “sustentáveis”.

Entre os membros do grupo consultivo do CDESS estão grandes corporações como JBS, Copersucar, Cargill, Cosan, Raízen, Comgás, Novonor (antiga Odebrecht), Unilever, Braskem, Meta, Google, Microsoft.

Sustentável

Também integram o grupo figuras de destaque como Eraí Maggi Scheffer, um dos maiores produtores de algodão e soja do Brasil; Erasmo Carlos Battistella, empresário ligado ao agronegócio e à produção de biodiesel; e Rosana Amadeu da Silva, presidente da Central Nacional das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Biocombustíveis.

Quanta influência essas corporações realmente detêm sobre as políticas econômicas, sociais e ambientais do Brasil? Seu poder se estenderá para moldar o curso da COP30?

Enquanto o mundo se reúne neste momento crítico, a questão permanece: a COP30 se tornará mais um palco para as indústrias poluentes continuarem seus negócios normalmente, ou o Brasil aproveitará a oportunidade para demonstrar seu comprometimento com o futuro do planeta?

Esta é uma chance para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas sobre as forças do desenvolvimento irresponsável, lucro e ganância. Os riscos estão mais altos do que nunca, e o mundo está observando de perto. 

As promessas do presidente Lula serão mais do que apenas palavras, e elas evoluirão para as ações ousadas e transformadoras de que nosso planeta precisa tão urgentemente? O momento para uma ação decisiva é agora. O mundo está esperando que o Brasil lidere com integridade, coragem e uma visão para um futuro sustentável.

Esta autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Metade das emissões mundiais de CO2 vêm de 36 empresas de combustíveis fósseis, mostra estudo

Pesquisadores dizem que os dados fortalecem o argumento para responsabilizar as empresas por sua contribuição à crise climática

Se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, depois da China, dos EUA e da Índia. Fotografia: Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

Metade das emissões de carbono que causam o aquecimento global vêm de combustíveis fósseis produzidos por apenas 36 empresas, revelou uma análise.

Os pesquisadores disseram que os dados de 2023 fortaleceram o caso para responsabilizar as empresas de combustíveis fósseis por sua contribuição ao aquecimento global. Versões anteriores do relatório anual foram usadas em processos judiciais contra empresas e investidores.

O relatório descobriu que as 36 principais empresas de combustíveis fósseis, incluindo Saudi Aramco, Coal India, ExxonMobil, Shell e várias empresas chinesas, produziram carvão, petróleo e gás, responsáveis ​​por mais de 20 bilhões de toneladas de emissões de CO 2 em 2023.

Se a Saudi Aramco fosse um país, seria o quarto maior poluidor do mundo, depois da China, dos EUA e da Índia, enquanto a ExxonMobil é responsável por aproximadamente as mesmas emissões que a Alemanha, o nono maior poluidor do mundo, de acordo com os dados.

Os maiores emissores de combustíveis fósseis em 2023
As cinco principais empresas emissoras por tipo de propriedade, milhões de toneladas de CO2 equivalente

As emissões globais devem cair 45% até 2030 se o mundo quiser ter uma boa chance de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C, a meta acordada internacionalmente. No entanto, as emissões ainda estão aumentando, sobrecarregando o clima extremo que está tirando vidas e meios de subsistência em todo o planeta.

A Agência Internacional de Energia disse que novos projetos de combustíveis fósseis iniciados depois de 2021 são incompatíveis com atingir emissões líquidas zero até 2050. A maioria das 169 empresas no banco de dados Carbon Majors aumentou suas emissões em 2023, que foi o ano mais quente registrado na época.

“Essas empresas estão mantendo o mundo viciado em combustíveis fósseis sem planos de desacelerar a produção”, disse Christiana Figueres, chefe do clima da ONU quando o marco do acordo de Paris de 2015 foi entregue. “A ciência é clara: não podemos retroceder para mais combustíveis fósseis e mais extração. Em vez disso, devemos avançar para as muitas possibilidades de um sistema econômico descarbonizado que funcione para as pessoas e para o planeta.”

Emmett Connaire, da InfluenceMap, o thinktank que produziu o relatório Carbon Majors, disse: “Apesar dos compromissos climáticos globais, um pequeno grupo dos maiores produtores de combustíveis fósseis do mundo está aumentando significativamente a produção e as emissões. A pesquisa destaca o impacto desproporcional que essas empresas têm na crise climática e apoia os esforços para impor a responsabilidade corporativa.”

Um porta-voz da Shell disse: “A Shell está comprometida em se tornar um negócio de energia com emissões líquidas zero até 2050. Nossos investimentos em novas tecnologias estão ajudando a reduzir as emissões para a Shell e nossos clientes.” A Saudi Aramco não quis comentar. A Coal India, a ExxonMobil, a Chevron, a TotalEnergies e a BP não responderam aos pedidos de comentários.

Os dados da Carbon Majors foram usados ​​como evidência apoiando leis aprovadas nos estados de Nova York e Vermont nos EUA, que buscam compensação de empresas de combustíveis fósseis por danos climáticos. Os dados também foram citados por grupos legais como suporte para potenciais acusações criminais contra executivos de combustíveis fósseis e referenciados em ações regulatórias, como a reclamação da ClientEarth contra a BlackRock por enganar investidores.

O relatório Carbon Majors calcula as emissões liberadas pela queima de carvão, petróleo e gás produzidos por 169 grandes empresas em 2023. O banco de dados também inclui emissões da produção de cimento, que aumentaram 6,5% em 2023.

As 36 empresas responsáveis ​​por metade das emissões globais em 2023 incluem empresas estatais como a China Energy, a National Iranian Oil Company, a russa Gazprom e a Adnoc dos Emirados Árabes Unidos. As empresas de propriedade de acionistas nesse grupo incluem a Petrobras, sediada no Brasil, e a Eni, da Itália.

As 36 empresas são dominadas por empresas estatais, das quais há 25. Dez delas estão na China, o maior país poluidor do mundo. O carvão foi a fonte de 41% das emissões contabilizadas em 2023, o petróleo 32%, o gás 23% e o cimento 4%.

O conjunto de dados Carbon Majors também inclui emissões históricas de 1854 a 2023. Ele mostra que dois terços das emissões de carbono de combustíveis fósseis desde a Revolução Industrial são de 180 empresas, 11 das quais não existem mais.

Kumi Naidoo, presidente da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis , disse: “Estamos vivendo um momento crítico na história humana. É essencial que os governos se manifestem e usem sua autoridade para acabar com a causa raiz da crise em que nos encontramos: a expansão dos combustíveis fósseis.”


Fonte: The Guardian

Janeiro mais quente já registrado intriga cientistas climáticos

Monitor da UE diz que as temperaturas globais estavam 1,75 °C acima dos níveis pré-industriais, estendendo a série de máximas sem precedentes

Uma enorme pluma de nuvens de tempestade paira sobre uma paisagem árida ao pôr do sol

Nuvens de tempestade fora de época trazidas por La Niña pairam sobre um acampamento no interior do Rainbow Valley, Austrália. Fotografia: Genevieve Vallee/Alamy

Por Agências

Uma série de temperaturas globais recordes continuou, mesmo com o padrão climático La Niña resfriando o Pacífico tropical.

O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus disse que o mês passado foi o janeiro mais quente já registrado, com temperaturas da superfície do ar 1,75 °C acima dos níveis pré-industriais.

O programa de observação da Terra financiado pela União Europeia (UE) destacou condições mais úmidas do que a média no leste da Austrália e condições mais secas do que a média em outras partes do país.

Samantha Burgess, líder estratégica para o clima no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, disse: “Janeiro de 2025 é outro mês surpreendente, continuando as temperaturas recordes observadas ao longo dos últimos dois anos… O Copernicus continuará monitorando de perto as temperaturas oceânicas e sua influência em nosso clima em evolução ao longo de 2025.” As temperaturas da superfície do mar permaneceram excepcionalmente altas em muitas bacias oceânicas e mares.

Janeiro marcou o 18º mês dos últimos 19 a registrar temperaturas médias globais da superfície acima do nível pré-industrial de 1,5 °C. Sob o acordo climático de Paris , os líderes mundiais disseram que tentariam evitar que as temperaturas globais subissem mais de 1,5 °C – mas o limite foi baseado no aquecimento multidecadal de longo prazo e não nas temperaturas mensais de curto prazo.

Cientistas do clima esperavam que esse período excepcional diminuísse depois que o evento de aquecimento El Niño atingiu o pico em janeiro de 2024 e as condições mudaram para uma fase oposta e mais fria, La Niña.

Mas o calor permaneceu em níveis recordes ou quase recordes, gerando debates sobre quais outros fatores poderiam estar levando-o ao limite superior das expectativas.

Julien Nicolas, um cientista climático da Copernicus, disse à Agence France-Presse: “É isso que torna tudo um pouco surpreendente: não estamos vendo esse efeito de resfriamento, ou pelo menos uma frenagem temporária, na temperatura global que esperávamos ver.”

Espera-se que La Niña seja fraca, e Copérnico disse que as temperaturas predominantes em partes do Oceano Pacífico equatorial sugeriram uma desaceleração ou estagnação do movimento em direção ao fenômeno de resfriamento. Nicolas disse que ele pode desaparecer até março.

No mês passado, Copernicus disse que as temperaturas globais médias entre 2023 e 2024 excederam 1,5C pela primeira vez. Isso não representou uma violação permanente da meta de longo prazo de 1,5C sob o acordo climático de Paris, mas foi um sinal claro de que o limite estava sendo testado.

Cientistas dizem que cada fração de grau de aquecimento acima de 1,5 °C aumenta a intensidade e a frequência de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e secas.

Copernicus disse que o gelo marinho do Ártico atingiu um recorde mensal de baixa em janeiro. A análise dos EUA esta semana mostrou que foi o segundo menor naquele conjunto de dados. No geral, não se espera que 2025 siga 2023 e 2024 nos livros de história: os cientistas preveem que ele será o terceiro ano mais quente até agora.

Copernicus disse que monitoraria de perto as temperaturas dos oceanos em busca de dicas sobre como o clima pode se comportar. Os oceanos são um importante regulador climático e sumidouro de carbono, e águas mais frias podem absorver maiores quantidades de calor da atmosfera, ajudando a diminuir as temperaturas do ar. Eles também armazenam 90% do excesso de calor retido pela liberação de gases de efeito estufa pela humanidade.

Nicolas disse: “Este calor está fadado a ressurgir periodicamente. Acho que essa também é uma das perguntas: é isso que tem acontecido nos últimos dois anos?”

As temperaturas da superfície do mar foram excepcionalmente quentes em 2023 e 2024, e Copernicus disse que as leituras em janeiro foram as segundas mais altas já registradas. “É isso que é um pouco intrigante – por que elas permanecem tão quentes”, disse Nicolas.

Os cientistas são unânimes em afirmar que a queima de combustíveis fósseis causou o aquecimento global a longo prazo e que a variabilidade climática natural também pode influenciar as temperaturas de um ano para o outro.

Mas ciclos naturais de aquecimento, como o El Niño, não conseguiam explicar sozinhos o que havia ocorrido na atmosfera e nos mares, e respostas estavam sendo buscadas em outros lugares.

Uma teoria é que uma mudança global para combustíveis de transporte mais limpos em 2020 acelerou o aquecimento ao reduzir as emissões de enxofre que tornam as nuvens mais parecidas com espelhos e reflexivas da luz solar.

Em dezembro, outro artigo revisado por pares analisou se uma redução em nuvens baixas havia deixado mais calor atingir a superfície da Terra. “Ainda é realmente uma questão de debate”, disse Nicolas.

O monitor da UE usa bilhões de medições de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas para auxiliar seus cálculos. Seus registros remontam a 1940, mas outras fontes de dados climáticos – como núcleos de gelo, anéis de árvores e esqueletos de corais – permitem que os cientistas expandam suas conclusões usando evidências de muito mais tempo no passado.

Cientistas dizem que o período atual provavelmente será o mais quente que o planeta já teve em 125.000 anos.


Fonte: The Guardian

Cientista climático explica porque decidiu mudar de Los Angeles antes dos incêndios de 2025

altadena fires

Por Peter Kalmus*
Estou completamente devastado pelos incêndios florestais de Los Angeles, tremendo de raiva e tristeza. A comunidade de Altadena perto de Pasadena, onde o incêndio de Eaton danificou ou destruiu pelo menos 5.000 estruturas, foi meu lar por 14 anos.
 
Mudei minha família há dois anos porque, como o clima da Califórnia continuava ficando mais seco, mais quente e mais ardente, temi que nosso bairro queimasse. Mas nem eu achava que incêndios dessa escala e gravidade iriam arrasar a cidade e outras grandes áreas da cidade tão cedo. E ainda assim as imagens de Altadena desta semana mostram uma paisagem infernal, como uma paisagem do romance climático estranhamente presciente de Octavia Butler, “Parábola do Semeador”.
 
Uma lição que a mudança climática nos ensina repetidamente é que coisas ruins podem acontecer antes do previsto. As previsões de modelos para impactos climáticos tendem a ser otimistas. Mas agora, infelizmente, o aquecimento está acelerando, superando as expectativas dos cientistas.
 
Temos que encarar o fato de que ninguém virá nos salvar, especialmente em lugares propensos a desastres como Los Angeles, onde o risco de incêndios florestais catastróficos é claro há anos. E muitos de nós enfrentamos uma escolha real — ficar ou ir embora. Eu escolhi ir embora.
 
Muitas vezes chamado de “o segredo mais bem guardado” de Los Angeles, Altadena é um vilarejo peculiar aninhado no sopé das colinas, escondido de todos os engarrafamentos da cidade, onde todos pareciam se conhecer. Cheguei com minha família em 2008 para começar um pós-doutorado em astrofísica. Parecia que tínhamos pousado no paraíso: guacamole ilimitado de um enorme abacateiro em nosso quintal; bandos de papagaios verdes gritando no alto; os gramados perfeitos do Caltech em Pasadena para deitar com meus filhos, mesmo em janeiro.
 
Comecei a me preocupar com as mudanças climáticas como estudante de pós-graduação em 2006. Minhas preocupações ficaram mais fortes à medida que o planeta esquentava. Em 2012, incapaz de desviar o olhar, mudei minha carreira de ondas gravitacionais para ciência climática, aceitando um emprego no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. Também comecei a criar galinhas e abelhas (como muitos dos meus vizinhos), a me voluntariar em grupos climáticos locais e a andar de bicicleta pela cidade para dar palestras sobre o clima.
 
Mas a crise climática continuou piorando, ano após ano. Eu queria gritar dos telhados para que as pessoas vissem o aquecimento global como a ameaça urgente que ele é. Escrevi artigos e tuítes com linguagem picante e fui cofundador de organizações sem fins lucrativos para um aplicativo climático e um grupo de mídia climática.
 
Então, em setembro de 2020, experimentei exaustão pelo calor pela primeira vez durante uma onda de calor intensa. No dia seguinte, o incêndio Bobcat, um megaincêndio, começou a alguns quilômetros do nosso bairro, no alto do sopé de Altadena. Em Los Angeles, bairros próximos a montanhas e áreas selvagens correm maior perigo de incêndios florestais. Nós nos preparamos para evacuar, mas, diferentemente dos incêndios que assolam agora, o incêndio estava contido principalmente em áreas selvagens. Ainda assim, por semanas, minha família e eu ficamos envoltos em uma nuvem de fumaça. Meus pulmões queimavam e meus dedos formigavam constantemente.
 

Depois do incêndio da Bobcat, Los Angeles não parecia mais segura. Eu temia pela saúde da minha família e me perguntava como iríamos evacuar se o bairro começasse a pegar fogo. Em 2022, minha esposa recebeu uma oferta de emprego em Durham, Carolina do Norte, e nos mudamos.

Tenho observado a tragédia desta semana se desenrolar de longe, juntando a história por meio de notícias locais, textos e vídeos de amigos, alguns dos quais perderam suas casas, tentando descobrir o que queimou e o que não queimou. O hospital de animais de estimação do nosso cachorro, desapareceu. A igreja onde os recitais de cordas dos nossos meninos aconteciam, desapareceu. O estranho Museu do Coelho, sobre o qual eu ficava pensando na minha bicicleta, esperando o sinal mudar; a simpática loja de ferragens que visitei centenas de vezes; a cafeteria onde eu encontrava amigos e ativistas climáticos; tudo desapareceu.

Meu antigo vizinho me mandou uma mensagem na quinta-feira para dizer que nosso pequeno beco sem saída queimou, a casa dele, a nossa e a de todos os nossos vizinhos, exceto uma. A linda casa em que criamos nossos filhos, desapareceu; e minhas lágrimas finalmente vieram.

Nenhum lugar é realmente seguro mais. Alguns meses atrás, o furacão Helene atingiu a parte oeste do meu novo estado e a cidade de Asheville, que muitos já consideraram um paraíso climático. O noroeste do Pacífico parecia seguro até a cúpula de calor de 2021. O Havaí parecia seguro até os incêndios mortais em Maui em 2023.

Para aqueles que perderam tudo em desastres climáticos, o apocalipse já chegou. E conforme o planeta esquenta, os desastres climáticos se tornarão mais frequentes e intensos. O custo desses incêndios será imenso e afetarão o setor de seguros e o mercado imobiliário.

O quão ruim as coisas vão ficar depende de quanto tempo deixaremos a indústria de combustíveis fósseis continuar a dar as cartas. As corporações de petróleo, gás e carvão sabem há meio século que estavam causando um caos climático irreversível, e seus executivos, lobistas e advogados escolheram espalhar desinformação e bloquear a transição para uma energia mais limpa. Em 2021, testemunhando perante o Congresso, vários CEOs se recusaram a encerrar os esforços para bloquear a ação climática ou assumir a responsabilidade por sua desinformação. Eles usam sua riqueza para controlar nossos políticos.

Precisamos construir pontes para pessoas de todos os lados do espectro político que estão acordando conforme o caos climático piora, apesar das falsidades grosseiras de muitos líderes republicanos.

Nada mudará até que nossa raiva se torne poderosa o suficiente. Mas quando você aceita a verdade da perda e a verdade de quem perpetrou e lucrou com essa perda, a raiva vem à tona, tão forte quanto os ventos de Santa Ana.

*Peter Kalmus é cientista climático em Chapel Hill, Carolina do Norte e estuda os futuros impactos do calor extremo na saúde humana e nos ecossistemas.

O ano mais quente já registrado levou o planeta a ultrapassar 1,5 °C de aquecimento pela primeira vez

As temperaturas mais altas registadas impulsionaram o clima extremo – com o pior a chegar, mostram dados da Uniao Europeia (UE)

aquecimentoA pessoa média foi exposta em 2024 a seis semanas extras de dias perigosamente quentes. Fotografia: Brook Mitchell/Getty Images

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O colapso climático elevou a temperatura global anual acima da meta internacionalmente acordada de 1,5 °C pela primeira vez no ano passado, potencializando condições climáticas extremas e causando “miséria a milhões de pessoas”.

A temperatura média em 2024 foi 1,6°C acima dos níveis pré-industriais, mostram dados do Copernicus Climate Change Service (C3S) da UE . Isso é um salto de 0,1°C em relação a 2023, que também foi um ano recorde de calor e representa níveis de calor nunca experimentados por humanos modernos.

O aquecimento é causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, e os danos a vidas e meios de subsistência continuarão a aumentar em todo o mundo até que o carvão, o petróleo e o gás sejam substituídos. A meta do acordo de Paris de 1,5 °C é medida ao longo de uma ou duas décadas, então um único ano acima desse nível não significa que a meta foi perdida, mas mostra que a emergência climática continua a se intensificar. Cada ano na última década foi um dos 10 mais quentes, em registros que remontam a 1850.

Os dados do C3S também mostram que um recorde de 44% do planeta foi afetado por estresse térmico forte a extremo em 10 de julho de 2024, e que o dia mais quente registrado na história ocorreu em 22 de julho.

“Agora há uma probabilidade extremamente alta de que ultrapassaremos a média de longo prazo de 1,5 °C no limite do acordo de Paris ”, disse a Dra. Samantha Burgess, vice-diretora da C3S. “Essas altas temperaturas globais, juntamente com os níveis recordes de vapor de água na atmosfera global em 2024, significaram ondas de calor sem precedentes e eventos de chuvas intensas, causando miséria para milhões de pessoas.”

A Dra. Friederike Otto, do Imperial College London, disse: “Este registro precisa ser uma verificação da realidade. Um ano de clima extremo mostrou o quão perigosa é a vida a 1,5 °C. As enchentes de Valência , os furacões nos EUA , os tufões nas Filipinas a seca na Amazônia são apenas quatro desastres do ano passado que foram agravados pelas mudanças climáticas. Há muitos, muitos mais.”

2024 confirmado como o ano mais quente já registrado
Temperatura média global em relação a uma linha de base pré-industrial, C

tempeaturas

“O mundo não precisa inventar uma solução mágica para impedir que as coisas piorem em 2025”, disse Otto. “Sabemos exatamente o que precisamos fazer para deixar de usar combustíveis fósseis, interromper o desmatamento e tornar as sociedades mais resilientes.”

Espera -se que as emissões de carbono em 2024 tenham estabelecido um novo recorde , o que significa que ainda não há sinal da transição para longe dos combustíveis fósseis prometida pelas nações do mundo na conferência climática da ONU em Dubai em dezembro de 2023. O mundo está a caminho de um aquecimento global catastrófico de 2,7 °C até o final do século.

A próxima grande oportunidade para ação vem em fevereiro, quando os países têm que enviar novas promessas de corte de emissões para a ONU. A probabilidade de se manter abaixo do limite de 1,5 °C, mesmo a longo prazo, parece cada vez mais remota . As emissões de combustíveis fósseis devem cair 45% até 2030 para ter uma chance de limitar o aquecimento a 1,5 °C. Várias outras análises importantes de temperatura devem ser publicadas na sexta-feira e encontrar níveis semelhantes de calor, incluindo o UK Met Office, que também descobriu que 2024 havia passado de 1,5 °C em 2024.

As temperaturas foram impulsionadas no primeiro semestre de 2024 pelo fenômeno climático natural El Niño , mas permaneceram muito altas no segundo semestre do ano, mesmo quando o El Niño se dissipou. Alguns cientistas temem que um fator inesperado tenha surgido, causando uma aceleração preocupante do aquecimento global, embora uma variação natural incomum de ano para ano também possa ser a razão.

Uma queda na poluição causada pelo transporte marítimo e nas nuvens baixas , que refletem a luz solar, contribuíram para um aquecimento extra, mas os cientistas ainda estão buscando uma explicação completa para as temperaturas extremas em 2024.

O ar mais quente retém mais vapor de água e o nível recorde registrado pelo C3S em 2024 é significativo, pois aumenta eventos extremos de chuva e inundações. Ele também se combina com altas temperaturas da superfície do mar, que alimentam grandes tempestades, para alimentar furacões e tufões devastadores. A pessoa média foi exposta no ano passado a mais seis semanas de dias perigosamente quentes , intensificando o impacto fatal das ondas de calor ao redor do mundo.

A sobrecarga de condições climáticas extremas causada pela crise climática já era clara, com ondas de calor de intensidade e frequência antes impossíveis agora atingindo o mundo todo, juntamente com secas e incêndios florestais mais violentos.

O Prof. Joeri Rogelj, do Imperial College London, disse: “Cada fração de grau – seja 1,4C, 1,5C ou 1,6C – traz mais danos às pessoas e aos ecossistemas, ressaltando a necessidade contínua de cortes ambiciosos de emissões. O custo da energia solar e eólica está caindo rapidamente e agora é mais barato do que os combustíveis fósseis em muitos países.”

O Prof. Andrew Dessler, um cientista climático da Texas A&M University nos EUA, respondeu aos novos recordes de temperatura sendo estabelecidos ano após ano, fornecendo a mesma declaração à mídia: “Todo ano, pelo resto da sua vida, será um dos mais quentes [já] registrados. Isso, por sua vez, significa que 2024 acabará sendo um dos anos mais frios deste século. Aproveite enquanto dura.”


Fonte: The Guardian

A Terra quebrou recordes de calor em 2023 e 2024: o aquecimento global está acelerando?

A Nature analisa se o pico de temperatura é uma anomalia ou uma tendência duradoura — e preocupante

temperatura Nature

A temperatura da Terra vem subindo há décadas. Crédito: Mark J. Terrill/AP/Alamy

Por Jeff Tollefson para a Nature 

A temperatura da Terra aumentou nos últimos dois anos, e os cientistas do clima anunciarão em breve que ela atingiu um marco em 2024: subindo para mais de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais . Mas esse pico repentino é apenas um ponto nos dados climáticos ou um indicador precoce de que o planeta está esquentando em um ritmo mais rápido do que os pesquisadores pensavam?

Essa questão tem estado no centro de vários estudos, bem como de uma sessão na reunião do mês passado da American Geophysical Union (AGU) em Washington DC. Alguns cientistas argumentam que o pico pode ser explicado principalmente por dois fatores. Um é o evento El Niño que começou em meados de 2023 — um padrão climático natural no qual a água quente se acumula no Oceano Pacífico tropical oriental, muitas vezes levando a temperaturas mais altas e clima mais turbulento. O outro é uma redução nos últimos anos na poluição do ar, que pode resfriar o planeta refletindo a luz solar de volta para o espaço e semeando nuvens baixas. No entanto, nenhuma das explicações é totalmente responsável pelo aumento da temperatura, dizem outros pesquisadores.

As nuvens claramente desempenharam um papel, de acordo com um estudo publicado na Science em dezembro, pouco antes da reunião da AGU 1 . Uma equipe de pesquisa identificou uma redução na cobertura de nuvens baixas em partes do Hemisfério Norte e nos trópicos que, combinada com o El Niño, foi grande o suficiente para explicar o pico de temperatura em 2023. Mas a causa dessa diminuição — e se ela pode ser atribuída a variações climáticas normais — continua sendo um mistério, dizem os autores. A diminuição da poluição do ar por si só não parece explicar isso. Eles sugerem que o aquecimento global em si pode estar causando alguma redução na cobertura de nuvens, criando um ciclo de feedback que pode acelerar a taxa de mudança climática nas próximas décadas.

“Eu teria muito cuidado ao dizer que isso é uma evidência clara [de aceleração], mas pode haver algo acontecendo”, diz o coautor Helge Goessling, um físico climático do Instituto Alfred Wegener em Bremerhaven, Alemanha.

Picos de temperatura global já aconteceram antes. Por que os cientistas estão tão preocupados com isso?

Um dos motivos é que as temperaturas globais estavam fora do comum em 2023 , com uma média de 1,45 °C de aquecimento acima da linha de base pré-industrial (veja ‘Surto de temperatura’), quebrando recordes anteriores. Esse nível de aquecimento está fora do intervalo do que os cientistas esperavam com base em tendências e modelos anteriores.

Aumento de temperatura: gráfico mostrando a temperatura média acima da linha de base pré-industrial desde 1940. Os últimos dois anos estabeleceram recordes de calor para a Terra e superaram as projeções dos cientistas. Os pesquisadores agora estão debatendo se o aumento de temperatura é devido à variação climática natural ou se indica que a taxa de aquecimento global está acelerando.

Fonte: Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus/Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo

Outro motivo é que o ano passado também foi muito mais quente do que o esperado. Cientistas projetaram que o início de 2024 seria quente devido ao El Niño. Mas eles também previram que as temperaturas cairiam depois que o padrão climático diminuísse e as condições no Pacífico equatorial retornassem ao normal em junho passado.

“Isso não aconteceu”, diz Zeke Hausfather, um cientista climático da Berkeley Earth, uma organização sem fins lucrativos na Califórnia que monitora as temperaturas globais. Em vez disso, as temperaturas globais permaneceram elevadas, quebrando mais recordes e provavelmente tornando o ano passado o mais quente já registrado por uma margem considerável. “Todos nós que fizemos projeções no início do ano subestimamos o quão quente 2024 seria.”

Há evidências de aceleração?

Alguns dizem que o pico massivo de temperatura pode acabar sendo um pontinho nos dados climáticos, devido em grande parte às novas regulamentações que abrangem a poluição do ar por navios oceânicos. Em 2020, a Organização Marítima Internacional das Nações Unidas implementou uma regra que exige uma redução de 80% nas emissões de enxofre de navios que navegam em águas internacionais. Uma análise de imagens de satélite, publicada em agosto, sugere que houve uma clara redução nos rastros de navios 2 , que são formados quando partículas de poluição contendo enxofre semeiam névoas baixas. As mudanças parecem se correlacionar com a redução mais ampla na cobertura de nuvens identificada pela equipe de Goessling.

“É quase uma prova cabal”, diz Andrew Gettelman, um cientista climático do Pacific Northwest National Laboratory em Richland, Washington. Se for verdade, diz Gettelman, isso indicaria que o recente pico de temperatura pode ser um fenômeno único, impulsionado por mudanças de curto prazo na poluição e um poderoso El Niño.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-024-04242-z

Referências

  1. Goessling, HF, Rackow, T. & Jung, T. Ciência https://doi.org/10.1126/science.adq7280 (2024).

  2. Gettelman, A. et al. Geofísica. Res. Lett. 51 , e2024GL109077 (2024).


Fonte: Nature

Crise climática está ‘causando caos’ no ciclo da água da Terra, mostra relatório

O aquecimento global está turbinando tempestades, inundações e secas, afetando ecossistemas inteiros e bilhões de pessoas

Enorme leito de rio seco com três pessoas caminhando

A seca obrigou os moradores a transportar água potável de Humaitá para a comunidade de Paraizinho ao longo do seco Rio Madeira, um tributário do Amazonas. Fotografia: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

A crise climática está “causando estragos” no ciclo hídrico do planeta, com inundações violentas e secas devastadoras afetando bilhões de pessoas, segundo um relatório.

A água é o recurso natural mais vital para as pessoas, mas o aquecimento global está mudando a maneira como a água se move pela Terra. A análise dos desastres hídricos em 2024, que foi o ano mais quente já registrado , descobriu que eles mataram pelo menos 8.700 pessoas, tiraram 40 milhões de suas casas e causaram danos econômicos de mais de US$ 550 bilhões (£ 445 bilhões).

O aumento das temperaturas, causado pela queima contínua de combustíveis fósseis, interrompe o ciclo da água de várias maneiras. O ar mais quente pode reter mais vapor de água, levando a chuvas mais intensas. Mares mais quentes fornecem mais energia para furacões e tufões, sobrecarregando seu poder destrutivo. O aquecimento global também pode aumentar a seca, causando mais evaporação do solo, bem como alterando os padrões de precipitação.

Enchentes repentinas mortais atingiram o Nepal e o Brasil em 2024, enquanto inundações de rios causaram devastação na Europa Central , China e Bangladesh . O supertufão Yagi , que atingiu o sudeste da Ásia em setembro, foi intensificado pela crise climática, assim como a tempestade Boris , que atingiu a Europa no mesmo mês.

As secas também causaram grandes danos, com a produção agrícola no sul da África caindo pela metade, fazendo com que mais de 30 milhões de pessoas enfrentassem escassez de alimentos. Os fazendeiros também foram forçados a abater o gado, pois suas pastagens secaram, e a queda na produção de represas hidrelétricas levou a apagões generalizados.

“Em 2024, a Terra experimentou seu ano mais quente já registrado e os sistemas hídricos em todo o mundo foram os mais afetados, causando estragos no ciclo da água”, disse o líder do relatório, Prof. Albert van Dijk.

Ele disse que 2024 foi um ano de extremos, mas que não foi uma ocorrência isolada. “É parte de uma tendência de piora de inundações mais intensas, secas prolongadas e extremos recordes.” O relatório alertou sobre perigos ainda maiores em 2025, à medida que as emissões de carbono continuaram a aumentar .

O Relatório Global Water Monitor de 2024 foi produzido por uma equipe internacional de pesquisadores de universidades na Austrália, Arábia Saudita, China, Alemanha e outros lugares. A equipe usou dados de milhares de estações terrestres e satélites orbitando a Terra para avaliar variáveis ​​críticas da água, como precipitação, umidade do solo, fluxos de rios e inundações.

Eles descobriram que recordes de precipitação estão sendo quebrados com regularidade crescente. Por exemplo, recordes de precipitação mensal foram estabelecidos 27% mais frequentemente em 2024 do que no ano 2000 e recordes diários de precipitação foram estabelecidos 52% mais frequentemente. Recordes de baixa precipitação foram estabelecidos 38% mais frequentemente. “Então estamos vendo extremos piores em ambos os lados”, disse Van Dijk.

No sul da China, de maio a julho, os rios Yangtze e Pearl inundaram cidades e vilas, deslocando dezenas de milhares de pessoas e causando centenas de milhões de dólares em danos às plantações. As inundações do rio em Bangladesh em agosto, após fortes chuvas de monções, afetaram quase 6 milhões de pessoas e destruíram pelo menos um milhão de toneladas de arroz.

Enquanto isso, na Espanha, em outubro, mais de 500 mm de chuva caíram em oito horas, causando inundações repentinas mortais. A cidade de Porto Alegre, no Brasil, foi inundada com dois meses de chuva em apenas três dias em maio, transformando estradas em rios.

“Eventos de chuvas intensas também causaram inundações repentinas generalizadas no Afeganistão e no Paquistão, matando mais de 1.000 pessoas”, disse Van Dijk. As inundações também desalojaram 1,5 milhão de pessoas.

Na Amazônia, a seca atingiu. “Incêndios florestais causados ​​pelo clima quente e seco queimaram mais de 52.000 km² somente em setembro, liberando vastas quantidades de gases de efeito estufa”, disse Van Dijk. “De secas históricas a inundações catastróficas, esses eventos extremos impactam vidas, meios de subsistência e ecossistemas inteiros.”

Os pesquisadores disseram que as previsões climáticas sazonais para 2025 e as condições atuais sugeriram que as secas podem piorar no norte da América do Sul, sul da África e partes da Ásia. Regiões mais úmidas, como o Sahel e a Europa, podem enfrentar riscos elevados de inundações.

“Precisamos nos preparar e nos adaptar a eventos extremos inevitavelmente mais severos”, disse Van Dijk. “Isso pode significar defesas mais fortes contra inundações, desenvolvimento de produção de alimentos e suprimentos de água mais resistentes à seca e melhores sistemas de alerta precoce. A água é nosso recurso mais crítico, e seus extremos – tanto inundações quanto secas – estão entre as maiores ameaças que enfrentamos.”


Fonte: The Guardian

Ferocidade dos furacões do Atlântico aumenta na medida em que o oceano aquece

Uma análise das tempestades do Atlântico mostra que as mudanças climáticas aumentaram a velocidade dos ventos dos furacões em uma média de quase 30 quilômetros por hora

furacaoUm homem avalia os danos causados ​​à sua casa pelo furacão Helene, que deixou um rastro de destruição da Flórida até a Virgínia. Crédito: Chandan Khanna/AFP/Getty

Por Alix Soliman para a Nature 

As mudanças climáticas intensificaram drasticamente quase 85% dos furacões que atingiram o Atlântico Norte entre 2019 e 2023, de acordo com um estudo de modelagem 1 . A velocidade do vento desses furacões aumentou em uma média de quase 30 quilômetros por hora — o suficiente para ter empurrado 30 tempestades para um nível acima na escala Saffir-Simpson de intensidade de furacões.

O estudo, publicado hoje em Environmental Research: Climate , atribui o aumento da intensidade dos furacões ao aquecimento do Oceano Atlântico, que por sua vez é impulsionado pela mudança climática causada pelo homem. Um relatório complementar , baseado na metodologia do novo artigo, sugere que a mudança climática fortaleceu todos os 11 furacões no Atlântico Norte — o Atlântico ao norte do equador — este ano.

“Nós, como seres humanos, temos nossas impressões digitais em todos esses furacões”, diz Daniel Gilford, o principal autor do estudo e cientista climático da Climate Central, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos em Princeton, Nova Jersey, que produziu o relatório complementar. “Se pudermos aumentar as temperaturas da superfície do mar, também podemos aumentar a rapidez com que um furacão pode girar.”

O estudo se soma a um crescente corpo de pesquisas que mostram que o aquecimento global amplifica os furacões. A elevação dos mares causada pelo aquecimento global também está intensificando os furacões, a pesquisa mostrou. E as tempestades estão atacando mais cedo na estação e produzindo mais chuvas do que os furacões anteriores.

Consequências devastadoras

A temporada de furacões do Atlântico deste ano foi devastadora. Por exemplo, o furacão Helene, que devastou o sudeste dos Estados Unidos em agosto, derrubou quase 80 centímetros de chuva em alguns locais. A tempestade matou mais de 200 pessoas e causou até US$ 250 bilhões em danos — um valor que colocaria Helene à frente do furacão Katrina de 2005 como o furacão mais caro a atingir os Estados Unidos.

Em Asheville, Carolina do Norte, a cidade dos EUA mais atingida por Helene, áreas próximas ao French Broad River foram “completamente devastadas e levadas pela água”, diz Carl Schreck, meteorologista tropical da North Carolina State University em Asheville. A região “sofreu mais danos causados ​​pelo vento do que eu esperaria de um furacão tão distante do interior”, ele diz, acrescentando que o vento derrubou árvores e linhas de energia, cortando as comunicações com a cidade por vários dias. Os ventos de Helene, que atingiram o pico de 225 quilômetros por hora, foram cerca de 26 quilômetros por hora mais altos do que seriam sem um efeito de aquecimento no Atlântico, de acordo com o relatório do Climate Central.

A inundação cortou a linha principal de água para os Centros Nacionais de Informação Ambiental, uma filial da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) no centro de Asheville que arquiva dados climáticos e meteorológicos globais. Isso desligou o resfriamento dos supercomputadores do centro, diz Schreck. “Nos dias após a tempestade, eles estavam realmente levando um caminhão de bombeiros para um dos lagos locais” e bombeando água do lago para completar o sistema de resfriamento. Alguns computadores superaqueceram e terão que ser substituídos, e o evento atrasou o relatório do Climate Central, que se baseou em dados do centro. Mas nenhum dado foi perdido, os arquivos em papel permaneceram secos e o centro está de volta e funcionando, ele diz.

Águas perigosas

Furacões são alimentados por água morna do oceano. Em teoria, quanto mais quente a água, maior a intensidade do furacão, que é medida pela velocidade do vento. A mudança climática forneceu bastante combustível: as temperaturas da superfície do mar aumentaram em aproximadamente 1°C no Atlântico Norte desde 1900 devido à mudança climática.

Para descobrir até que ponto a mudança climática é culpada pela intensidade dos furacões recentes nesta região, Gilford e seus coautores simularam como todos os 49 furacões que atingiram o Atlântico Norte entre 2019 e 2024 teriam se desenrolado se a mudança climática não tivesse aquecido o oceano. Então, os cientistas compararam as velocidades do vento das tempestades simuladas com as das tempestades reais.

Uma imagem de satélite do furacão Lee cruzando o Oceano AtlânticoO furacão Lee se intensificou para uma tempestade de categoria 5 em setembro de 2023. Crédito: NOAA/Getty

As mudanças climáticas intensificaram 30 dos furacões tanto que eles poderiam ser classificados como uma categoria mais alta na escala Saffir-Simpson do que seriam sem as mudanças climáticas. As mudanças climáticas provavelmente impulsionaram cinco tempestades — Lorenzo (2019), Ian (2022), Lee (2023), Milton (2024) e Beryl (2024) — nos últimos cinco anos para furacões de categoria 5, que a NOAA descreve como causadores de “danos catastróficos”.

“O estudo faz um trabalho muito louvável de quantificar a mudança que vimos”, diz Ryan Truchelut, cofundador e meteorologista chefe da Weather Tiger, uma empresa de previsão de tempo e clima em Tallahassee, Flórida. Ele diz que os autores do estudo usaram os melhores dados disponíveis e métodos estatísticos apropriados para tentar determinar se um furacão foi afetado pela mudança climática.

Schreck diz que o estudo é necessário, mas que fornecer um único aumento na velocidade do vento para cada tempestade, como os autores fizeram, em vez de uma faixa de valores com margens de erro, é “simplificado demais”. O modelo do artigo não leva em conta todas as complexidades do mundo real das condições oceânicas e do comportamento das tempestades que criam incerteza, ele diz.

“A mudança climática está aqui”, diz Gilford. “Precisamos ter mais conversas sobre reduzir rapidamente nossas emissões de gases de efeito estufa.”

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-024-03783-7

Referências

  1. Gilford, DM, Giguere, J. & Pershing, AJ Environ. Res. Clim. 3 , 045019 (2024).


Fonte: Nature