Os “bonsais da destruição climática”: em Campos, a motosserra parece ter virado instrumento de paisagismo

Em plena primavera e sob o agravamento da crise climática, árvores são mutiladas e abatidas, enquanto a arborização urbana de Campos dos Goytacazes parece estar sendo submetida a uma curiosa política de redução de copas, sombras e qualidade de vida


Quem circula pelas ruas de Campos dos Goytacazes pode estar testemunhando o surgimento de uma nova escola de paisagismo urbano. Nela, quanto menor a copa de uma árvore, melhor. Se os galhos forem eliminados quase completamente, melhor ainda. E, se a árvore for abatida de uma vez, talvez tenhamos atingido a perfeição estética pretendida pelos adeptos dessa modalidade bastante peculiar de gestão ambiental. Pelas imagens que registrei ontem na Beira Rio, parece que estamos diante de uma verdadeira epidemia de produção dos chamados “bonsais da destruição climática”, uma contribuição tipicamente campista à arte de transformar árvores de grande porte em monumentos à ausência de sombra.

Para quem não sabe, o bonsai é uma técnica de origem chinesa, posteriormente aperfeiçoada e difundida pelos japoneses, que consiste no cultivo de árvores em miniatura, mediante procedimentos cuidadosos de poda, condução de galhos, manejo das raízes e controle do crescimento. Trata-se de uma arte que exige conhecimento, paciência e respeito às características biológicas das espécies cultivadas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre cultivar um bonsai em um vaso e transformar árvores adultas das vias públicas em caricaturas de si mesmas. Enquanto o bonsai tradicional procura reproduzir, em escala reduzida, a beleza e a complexidade de uma árvore, o bonsai da destruição climática parece empenhado em eliminar justamente aquilo que torna uma árvore indispensável ao ambiente urbano: sua copa, sua sombra e sua capacidade de amenizar as temperaturas.

O problema seria apenas uma manifestação de mau gosto paisagístico se não estivéssemos vivendo um período de agravamento da crise climática global. Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde as temperaturas elevadas já constituem uma característica marcante do clima local, a presença de árvores nas ruas, calçadas e praças deveria ser considerada uma infraestrutura ambiental estratégica. Afinal, as copas das árvores reduzem a incidência direta da radiação solar sobre o pavimento, contribuem para amenizar as temperaturas por meio da evapotranspiração, interceptam parte das águas das chuvas e oferecem abrigo para diferentes espécies da fauna urbana. Ao reduzir drasticamente essas copas, estamos eliminando serviços ambientais que não podem ser substituídos por canteiros ornamentais, vasos de concreto ou promessas de futuros plantios.

Mas existe outro aspecto particularmente curioso nessa aparente febre de transformação das árvores campistas em bonsais gigantes: a escolha do mês de outubro para a realização dessas intervenções. Em muitas situações, especialmente para espécies de clima temperado e árvores caducifólias, o período de menor atividade vegetativa, frequentemente situado entre maio e agosto no hemisfério sul, oferece condições mais adequadas para determinadas modalidades de poda. Entretanto, esse calendário não pode ser aplicado indiscriminadamente às espécies tropicais, pois a época correta depende da espécie, de seu ciclo fenológico, das condições climáticas e da finalidade da intervenção. Em Campos, onde predominam condições climáticas quentes, o manejo deveria respeitar essas particularidades. Ainda assim, realizar podas drásticas em plena primavera, quando muitas árvores apresentam intensa brotação e crescimento, levanta questionamentos adicionais sobre os critérios técnicos empregados.

É importante esclarecer que a poda, quando necessária e corretamente executada, constitui uma prática legítima de manejo da arborização urbana. Galhos comprometidos, interferências perigosas com redes elétricas e problemas estruturais efetivamente identificados podem justificar intervenções. Entretanto, existe uma distância considerável entre uma poda tecnicamente fundamentada e a eliminação indiscriminada de grandes porções da copa. Cortes excessivos podem produzir ferimentos extensos, favorecer a entrada de organismos causadores de doenças, estimular brotações estruturalmente frágeis e comprometer a estabilidade futura das árvores. Em determinadas situações, aquilo que é apresentado como uma medida preventiva de segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário: árvores mais vulneráveis e potencialmente perigosas.

As fotografias que acompanham esta postagem, registradas em uma via pública de Campos dos Goytacazes, mostram árvores submetidas a intervenções severas, incluindo troncos praticamente desprovidos de copa e cortes recentes em galhos de grande porte. Não é possível determinar apenas pelas imagens quais justificativas técnicas foram apresentadas para cada intervenção, mas o resultado visual é suficientemente preocupante para exigir explicações. Afinal, quem está autorizando essas operações? Existem laudos individuais demonstrando sua necessidade? Quais profissionais estão definindo a intensidade das podas? E, sobretudo, existe algum planejamento municipal capaz de compatibilizar a segurança urbana com a preservação da cobertura arbórea?

Essas perguntas ganham ainda mais importância quando consideramos que pesquisas em andamento no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), vinculado ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), já identificaram um quadro preocupante de remoção de árvores no bairro do Flamboyant. Os levantamentos iniciais apontam uma relação de aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada, além de uma distribuição espacial desigual dos novos plantios. Isso significa que o problema não parece estar restrito à poda de algumas árvores isoladas, mas pode representar uma dinâmica mais ampla de empobrecimento da infraestrutura verde da cidade.

E aqui chegamos ao aspecto mais contraditório dessa história. Enquanto cientistas e organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar a cobertura vegetal das cidades como uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas, em Campos parecem existir setores empenhados em percorrer o caminho inverso. Em vez de ampliar as áreas sombreadas, reduzimos as copas. Em vez de preservar árvores adultas, que levaram décadas para alcançar seu porte atual, permitimos sua mutilação ou remoção. Em vez de tratar a arborização urbana como patrimônio ambiental coletivo, ela parece continuar sendo considerada um obstáculo inconveniente, que pode ser eliminado sempre que surgir alguma dificuldade administrativa.

Talvez os defensores dessa modalidade de paisagismo estejam imaginando que, com menos folhas e galhos, as ruas ficarão mais limpas e os serviços de manutenção serão simplificados. O problema é que as árvores não existem nas cidades apenas para satisfazer preferências estéticas ou facilitar o trabalho das equipes de limpeza. Elas cumprem funções ambientais essenciais, especialmente em um contexto de aquecimento global. E quem paga o preço de sua eliminação são principalmente os pedestres, os ciclistas, os trabalhadores que passam longas horas expostos ao sol e os moradores que não dispõem de recursos para se proteger das temperaturas elevadas.
Por isso, seria interessante que a Prefeitura de Campos dos Goytacazes esclarecesse quais são os critérios técnicos que orientam as podas e os abates atualmente realizados, identificando os responsáveis pelos serviços, os laudos que os fundamentam e as medidas previstas para preservar ou recuperar a cobertura arbórea. A população tem o direito de saber se está diante de uma política de manejo ambiental cientificamente fundamentada ou simplesmente de mais um capítulo da tradicional preferência por soluções rápidas, visualmente impactantes e ambientalmente desastrosas.

Enquanto essas explicações não aparecem, proponho que as árvores mutiladas sejam reconhecidas como representantes de uma nova categoria do paisagismo urbano: os “bonsais da destruição climática”. Diferentemente dos verdadeiros bonsais, que resultam de uma relação cuidadosa entre seres humanos e árvores, esses exemplares são produzidos mediante a supressão de grande parte da estrutura vegetal que deveria ser preservada.

E assim, em uma cidade que deveria estar se preparando para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, parece que estamos aperfeiçoando a arte de eliminar justamente aquilo que poderia nos oferecer algum alívio.
No ritmo em que as coisas caminham, talvez a próxima inovação do paisagismo campista seja substituir as árvores por postes de concreto. Afinal, estes não produzem folhas, não precisam de podas e, principalmente, não oferecem a inconveniência de fazer sombra.

Super El Niño rompe recorde antes do pico e empurra a Terra para águas desconhecidas

O fenômeno natural encontra uma atmosfera superaquecida pela queima de combustíveis fósseis, ampliando secas, enchentes, incêndios e fome em escala global

Em reportagem publicada neste domingo (21), o editor de meio ambiente do The Guardian, Damian Carrington, informa que o atual El Niño já ultrapassou o maior aquecimento anteriormente registrado no coração do fenômeno, embora seu pico seja esperado apenas para novembro ou dezembro. A anomalia da temperatura no Pacífico equatorial chegou a 3,05 °C acima da média de 1991–2020, superando os 3,02 °C observados em novembro de 2015. Na métrica preferida por muitos meteorologistas, o índice Niño 3.4, o recorde está igualmente próximo de ser rompido.

As projeções reunidas pelo cientista climático Zeke Hausfather são ainda mais inquietantes: a média de 14 modelos indica que o aquecimento pode alcançar 4 °C no final do ano. Para efeito de comparação, um El Niño já é caracterizado a partir de 0,5 °C, enquanto eventos acima de 2 °C são classificados como muito fortes e frequentemente chamados de “super El Niños”. Evidências extraídas de corais, anéis de árvores e registros históricos sugerem que um episódio dessa magnitude pode não ter ocorrido nos últimos mil anos.

É importante, contudo, não transformar o El Niño em uma explicação conveniente para todas as catástrofes que virão. Trata-se de uma oscilação natural do sistema climático, mas que agora se desenvolve sobre um planeta aquecido pela emissão continuada de gases de efeito estufa. A crise climática aumenta a temperatura de fundo sobre a qual o El Niño atua, enquanto o próprio fenômeno transfere mais calor dos oceanos para a atmosfera. É uma combinação explosiva: o aquecimento global fortalece os extremos associados ao El Niño, e o El Niño, por sua vez, intensifica temporariamente o aquecimento global. Pesquisas recentes indicam que a variabilidade desses eventos aumentou cerca de 37% desde a industrialização.

O resultado provável não será apenas um novo número nos gráficos climáticos. Serão secas mais prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, incêndios florestais, quebras de safras, aumento dos preços dos alimentos e pressão adicional sobre os sistemas de saúde e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda. Como sempre, os maiores custos recairão sobre populações que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, mas que vivem em territórios com infraestrutura precária e reduzida capacidade de resposta.

Para o Brasil, o alerta deveria ser tratado como assunto de Estado. Os padrões históricos associados ao El Niño indicam risco de excesso de chuva no Sul e de estiagem e calor intenso em áreas das regiões Norte e Nordeste, embora um evento tão extremo, combinado ao aquecimento global, possa produzir comportamentos fora dos padrões conhecidos. Também é necessário considerar os efeitos indiretos sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica, os reservatórios, os preços dos alimentos e a ocorrência de desastres urbanos. Preparação, neste caso, não significa divulgar alertas quando a chuva já começou ou distribuir água quando os reservatórios estiverem vazios, mas antecipar cenários, proteger populações vulneráveis e coordenar políticas públicas entre os diferentes níveis de governo.

A reportagem de Damian Carrington desmonta, sobretudo, a narrativa confortável segundo a qual ainda dispomos de tempo abundante para agir. O recorde foi ultrapassado meses antes do pico previsto, e 2027 poderá superar todas as marcas anteriores de temperatura global. O planeta já não está apenas se aproximando de uma zona de perigo: começa a operar fora dos parâmetros que orientaram nossa agricultura, nossas cidades e nossos sistemas de proteção social.

O El Niño é natural; a vulnerabilidade social, a dependência dos combustíveis fósseis e o despreparo governamental não são. Quando um fenômeno climático inevitável encontra um sistema econômico que continua queimando carvão, petróleo e gás como se a atmosfera fosse um depósito gratuito de resíduos, a catástrofe deixa de ser exclusivamente natural e passa a ser também uma escolha política. O “espantoso” El Niño descrito pelo The Guardian talvez seja uma prévia do clima que estamos fabricando — e uma demonstração de que a conta dessa fabricação será distribuída de maneira profundamente desigual.

A Terra entrou no modo autoforno: aquecimento pode gerar mais 0,4 °C até 2100

Estudo publicado na Environmental Research Letters mostra que o calor provocado pelas emissões humanas está ativando novas liberações de CO₂ e metano pela própria natureza

Um artigo publicado em 10 de setembro de 2026 na revista científica Environmental Research Letters, da IOP Publishing, traz um alerta particularmente incômodo: as projeções climáticas podem estar subestimando o aquecimento futuro porque muitos modelos ainda não representam adequadamente as emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo próprio aumento da temperatura. Intitulado “Projected amplification of global warming by warming-induced greenhouse gas emissions”, o estudo foi produzido por Sam Abernethy, Danielle Monteverde, Christina Schädel, Brian Buma, Philip B. Duffy, Robert B. Jackson, Susan M. Natali, Ilissa Ocko, Brendan M. Rogers e Benjamin Poulter.

O mecanismo analisado é uma típica retroalimentação climática positiva. As atividades humanas emitem dióxido de carbono e metano, a concentração desses gases aquece o planeta e o aumento da temperatura, por sua vez, estimula novas emissões provenientes de fontes naturais. Entre elas estão o degelo do permafrost, as áreas úmidas, lagos e rios e os incêndios florestais. O sistema climático deixa, portanto, de funcionar apenas como receptor das emissões humanas e passa a amplificá-las.

Por outro lado, com base em estimativas produzidas por modelos de processos naturais em três cenários socioeconômicos — SSP1-2.6, SSP2-4.5 e SSP4-6.0 —, a equipe calculou que as emissões de metano induzidas pelo aquecimento, considerando conjuntamente permafrost, áreas úmidas, águas continentais e incêndios, aumentam cerca de 97 milhões de toneladas por ano para cada grau adicional de aquecimento. No caso do dióxido de carbono liberado pelo permafrost e pelos incêndios, o acréscimo estimado chega a aproximadamente 7 bilhões de toneladas anuais por grau nos cenários intermediários analisados.

Ao incorporar essas emissões ao modelo climático MAGICC, os autores estimaram um acréscimo de 0,2 °C a 0,4 °C na temperatura global até 2100. Pode parecer pouco para quem ainda imagina a temperatura planetária como a regulagem doméstica de um aparelho de ar-condicionado, mas esse aumento representaria uma amplificação de 20% a 30% do aquecimento antropogênico posterior a 2020. Em um planeta que já se aproxima perigosamente dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, algumas frações de grau podem separar impactos graves de transformações potencialmente irreversíveis.

O trabalho também indica que dióxido de carbono e metano contribuiriam em proporções aproximadamente equivalentes para esse aquecimento adicional. Esse resultado reforça a importância de reduzir rapidamente as emissões de metano, cujo tempo de permanência na atmosfera é menor que o do CO₂, mas cujo poder de aquecimento é muito superior no curto prazo. Ao mesmo tempo, mostra que a redução do metano não substitui a necessidade de eliminar as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis.

As estimativas carregam incertezas expressivas: os autores calculam uma margem de aproximadamente 0,2 °C para o aquecimento adicional e uma faixa de 10 a 30 pontos percentuais para sua amplificação relativa. O estudo combina resultados de modelos de processos com um modelo climático simplificado, não constituindo uma previsão exata do que ocorrerá. Ainda assim, a incerteza não oferece conforto, pois funciona nos dois sentidos: o efeito real pode ser menor, mas também pode superar a estimativa central.

A principal mensagem do artigo é que os chamados “orçamentos de carbono” talvez estejam sendo tratados com uma precisão que não possuem. Se parte relevante das emissões naturais induzidas pelo aquecimento continua ausente dos modelos utilizados para estimar quanto ainda poderíamos emitir, então o espaço disponível para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C ou mesmo de 2 °C pode ser menor do que se supõe.

O  artigo publicado na Environmental Research Letters desmonta definitivamente a confortável fantasia de que ainda dispomos de tempo para uma transição climática lenta, subordinada aos calendários eleitorais e às taxas de retorno dos investimentos. Quanto mais o aquecimento avança, maior se torna a possibilidade de que florestas, solos congelados, áreas úmidas e ambientes aquáticos liberem quantidades adicionais de gases de efeito estufa. Nesse processo, a demora não apenas acumula emissões humanas: ela fortalece mecanismos naturais capazes de tornar o controle do aquecimento ainda mais difícil, caro e incerto.

‘Aumento exponencial diante dos nossos olhos’: ONU alerta para a aproximação de um El Niño recorde

Um arrozal afetado pela seca em Darul Imarah, Indonésia. O fenômeno El Niño pode levar 50 milhões de pessoas à fome aguda, segundo uma agência da ONU. Fotografia: Hotli Simanjuntak/EPA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para “The Guardian” 

O fenômeno climático El Niño está “aumentando de tamanho diante de nossos olhos”, afirmou a ONU. De acordo com as últimas previsões, é quase certo que o evento quebrará recordes de temperatura.

O El Niño provavelmente será o maior em pelo menos 1.000 anos e adicionará calor extra a uma atmosfera onde as temperaturas já estão subindo rapidamente devido ao aquecimento global. Essa combinação significa que 2027 está prestes a quebrar todos os recordes e se tornar o ano mais quente já registrado .

O aumento da temperatura causado pelo El Niño já está tendo impactos, desde o agravamento dos incêndios florestais na Indonésia até o enfraquecimento das vitais chuvas de monção na Índia . Os impactos se espalharão globalmente, desde um maior risco de incêndios na Austrália até inundações mais intensas na América do Sul. O Programa Mundial de Alimentos afirmou em agosto que o El Niño provavelmente levaria cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda .

A crise climática, causada pela poluição proveniente de combustíveis fósseis, já está intensificando eventos climáticos extremos e causando mortes , com a onda de calor mais extrema já registrada atingindo a Europa neste verão e resultando em pelo menos 35.000 mortes . O El Niño agravará ainda mais os impactos, com a escala do evento tendo sido descrita como “ verdadeiramente impressionante ” e um evento de “ nível Godzilla “.

O El Niño é um ciclo climático natural em que mudanças nos ventos sobre o Pacífico levam ao aumento da temperatura do oceano e à transferência de enormes quantidades de calor para a atmosfera. Os dados mais recentes, de segunda-feira, mostram que a temperatura do oceano no epicentro do El Niño está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. Isso já se aproxima da maior anomalia já registrada na era dos dados de satélite, de 3,1°C em 2015, e ainda faltam meses para o pico ser atingido.

A previsão é de que esse pico atinja cerca de 4°C em novembro, de acordo com a média de 14 modelos diferentes. Dados de análises de corais, anéis de árvores e documentos históricos sugerem que nenhum El Niño atingiu esse nível no último milênio, afirmou Zeke Hausfather, analista climático. Qualquer anomalia de temperatura acima de 0,5°C é classificada como El Niño.

“O El Niño está se intensificando diante dos nossos olhos”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. “A ciência não deixa dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão aquecendo. O mundo está na zona de perigo de eventos climáticos extremos. A corrida agora é entre os riscos crescentes e o nosso compromisso de agir contra as mudanças climáticas e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida.”

“O El Niño tem o potencial de causar um impacto devastador em comunidades e economias em todo o mundo”, disse Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU. “Já estamos vendo transtornos e devastação causados ​​por secas e inundações, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica.”

“Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização tão grande com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente da prestação de previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não temos tempo a perder.”

As atualizações da OMM sobre o El Niño são as previsões mais confiáveis ​​do mundo e baseiam-se em um consenso de modelos de centros de previsão climática de todo o planeta. A atualização mais recente, publicada na quinta-feira, afirma que o El Niño está firmemente estabelecido e se intensificará, tornando-se um evento “muito forte” nos próximos meses, com “grandes impactos”, incluindo inundações, secas e ondas de calor extremas, que persistirão até 2027.

Em algumas áreas, as temperaturas subsuperficiais do oceano registraram valores extraordinariamente 8°C acima da média durante julho e início de agosto.

Chris Jaccarini, da Unidade de Inteligência de Energia e Clima do Reino Unido, disse: “Eventos climáticos extremos em todo o mundo elevaram os preços dos alimentos, afetando os mais pobres com mais força. Isso não se aplica apenas aos alimentos que importamos, mas também aos que cultivamos em casa.

“Após cinco ondas de calor e uma seca generalizada, os agricultores britânicos que cultivam lavouras enfrentam agora a pior colheita de sempre em 2026. No entanto, sem medidas concretas, estes poderão ser os anos bons. A menos que reduzamos rapidamente as emissões e reforcemos a resiliência, o impacto das alterações climáticas continuará a agravar-se, com o El Niño a intensificar esta tendência a cada poucos anos.”


Fonte: The Guardian

ONU finalmente admite que o aquecimento global ultrapassará o limite climático de 1,5 ºC

Segundo um relatório, a Terra ultrapassará uma meta de longa data antes do final da década

Uma estação de resfriamento em Colônia, na Alemanha, ofereceu alívio durante uma onda de calor em junho, agravada pelas mudanças climáticas. Crédito: Ina Fassbender/AFP/Getty

Por James Dineen para “Nature” 

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C para evitar as consequências mais perigosas das mudanças climáticas está oficialmente morta. De acordo com um relatório divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o melhor que o planeta pode esperar, considerando sua atual trajetória de emissões, é um aquecimento de cerca de 1,8 °C acima dos níveis pré-industriais neste século.

“Obviamente, sim, procrastinamos em relação ao clima”, disse Inger Anderson, diretora-executiva do PNUMA, durante uma coletiva de imprensa em 1º de setembro. “E obviamente, sim, quando começamos a UNFCCC [Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima], sabíamos quais ações precisavam ser tomadas. E não as tomamos na velocidade que poderíamos.”

 Os quase 200 países que assinaram o Acordo de Paris sobre o clima em 2015 concordaram em reduzir as emissões de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para manter o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2 °C em relação à média pré-industrial, com a meta ambiciosa de limitar o aumento a 1,5 °C. Acima desse limite de 1,5 °C, os riscos de desencadear pontos de inflexão perigosos no sistema climático tornam-se mais agudos¹ e aumentam a cada décimo de grau de aquecimento a partir desse ponto, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

A meta de 1,5 °C permaneceu um objetivo importante nas negociações climáticas da ONU, mesmo com os países não conseguindo realizar os cortes drásticos necessários para alcançá-la. O tema da cúpula climática da ONU em Glasgow, Escócia, em 2021, foi “manter 1,5 °C ao alcance”, e a reunião climática da ONU no ano passado, no Brasil, terminou com uma resolução para “manter 1,5 °C ao alcance”, mesmo com pesquisadores apontando que as temperaturas médias globais em 2024 ultrapassaram 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez . A média de longo prazo usada para definir a meta agora deve ultrapassar 1,5 °C até o final da década.

Ao ultrapassar o limiar

O novo relatório do PNUMA, intitulado ” Limitando a Ultrapassagem”, reconhece a realidade de que os países não conseguirão evitar ultrapassar esse limite. “Este é o primeiro relatório de uma agência das Nações Unidas que afirma, sem ambiguidade, que ultrapassaremos os 1,5 °C nos próximos anos, devido à insuficiência de ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Andy Reisinger, pesquisador climático da Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, e um dos autores do relatório.

O relatório conclui que o aumento da temperatura do planeta ultrapassará 1,5 °C, atingindo um mínimo de cerca de 1,8 °C neste século, mesmo no cenário de emissões mais otimista. Esse cenário prevê que as emissões globais caiam pela metade na próxima década e alcancem emissões líquidas zero até meados do século — uma meta muito mais ambiciosa do que os compromissos formais de redução de emissões dos participantes, que atualmente colocam o mundo no caminho de um aquecimento de até 2,5 °C até 2100. “Todos os nossos caminhos futuros são caminhos de ultrapassagem”, disse Debra Roberts, cientista climática da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, e coautora do relatório, durante a apresentação.

Caso o aumento da temperatura se estabilize em torno de 1,8 ºC, o relatório sugere que ainda seria possível que ela retornasse a níveis abaixo de 1,5 ºC até o final do século, se a queda mais otimista nas emissões fosse acompanhada por uma rápida expansão dos esforços para remover o dióxido de carbono da atmosfera . Isso envolveria a expansão das florestas e a implantação de tecnologia para capturar o gás do ar e armazená-lo permanentemente.

O campo da remoção de CO₂ tem recebido crescente atenção desde que o IPCC reconheceu a necessidade dessa estratégia para atingir as metas climáticas. No entanto, o relatório sugere que o retorno a 1,5 °C exigiria a remoção de dezenas de bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera a cada ano, durante décadas, uma quantidade milhares de vezes maior do que as tecnologias de remoção de CO₂ têm proporcionado até o momento.

doi: https://doi-org.ez81.periodicos.capes.gov.br/10.1038/d41586-026-02753-5

Referências

  1. Armstrong McKay, DI et al. Science 377 , eabn7950 (2022).


Fonte: Nature

Super El Niño de 2026-2027 poderá antecipar em uma década o clima da Terra

Projeções mostram que 2027 pode atingir 1,76°C acima dos níveis pré-industriais e funcionar como uma janela para o clima que, pela tendência atual, seria esperado apenas por volta de 2037

O material mostrado acima e que foi publicado pelo The Washington Post em sua conta no Instagram chama atenção para uma característica particularmente preocupante do atual ciclo do El Niño: sua combinação com o aquecimento global provocado pelas emissões humanas poderá fazer com que o planeta experimente, já em 2027, temperaturas que, seguindo a tendência recente de aquecimento, seriam esperadas apenas por volta de 2037.

A comparação é especialmente didática porque mostra que o El Niño não cria sozinho o aquecimento global. O fenômeno funciona, neste caso, como uma espécie de “máquina do tempo climática”. Durante um El Niño intenso, enormes quantidades de calor acumuladas no Pacífico tropical ocidental deslocam-se para leste. A atividade atmosférica acompanha esse deslocamento e transfere parte do calor armazenado no oceano para a atmosfera; a circulação atmosférica, por sua vez, contribui para redistribuí-lo pelo planeta.

O problema é que esse fenômeno natural ocorre agora sobre um planeta que já foi profundamente aquecido pela ação humana. As concentrações crescentes de gases de efeito estufa, resultantes principalmente da queima de carvão, petróleo e gás natural, elevaram a temperatura média da Terra. O El Niño acrescenta temporariamente mais calor a esse sistema já aquecido.

É justamente essa combinação que torna os números apresentados pelo Washington Post tão significativos. Segundo as projeções reproduzidas pelo jornal, existe cerca de 95% de probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início dos registros instrumentais, que remontam ao século XIX. A temperatura média global poderia chegar a aproximadamente 1,76°C acima da média pré-industrial.

Isso não significa que o planeta terá atingido definitivamente esse patamar de aquecimento. Com o enfraquecimento do El Niño, 2028 poderá apresentar uma temperatura inferior à de 2027. Entretanto, esse recuo temporário não deve ser confundido com uma reversão do aquecimento global. O cientista climático Zeke Hausfather resume bem essa diferença ao observar que as emissões humanas estão acrescentando ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor comparável ao efeito de um El Niño.

A imagem da escada talvez seja a melhor forma de compreender o problema. Os grandes episódios de El Niño podem produzir degraus temporários para cima, enquanto as emissões humanas continuam elevando permanentemente o nível da própria escada. Depois que o El Niño desaparece, a temperatura pode recuar parcialmente, mas o planeta não retorna às condições climáticas anteriores.

Há ainda um aspecto político importante nessa discussão. O número de 1,76°C chama atenção porque ultrapassa temporariamente a referência de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Um único ano acima desse limite não significa formalmente que a meta tenha sido definitivamente ultrapassada, pois ela se refere ao aquecimento médio de longo prazo. Entretanto, experimentar antecipadamente temperaturas próximas de 1,8°C poderá revelar de maneira bastante concreta como funcionará um planeta permanentemente mais quente.

E é precisamente aí que o atual Super El Niño deve servir de alerta. Ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e enchentes não resultarão exclusivamente do El Niño, nem ocorrerão de maneira uniforme em todas as regiões. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura; ao interagir com um clima progressivamente aquecido, porém, aumenta a possibilidade de extremos mais severos em diferentes partes do planeta.

Para o Brasil, essa discussão deveria ocupar posição central no planejamento governamental. O país reúne grandes concentrações populacionais em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, extensas regiões sujeitas a secas e incêndios e uma infraestrutura urbana que frequentemente demonstra pouca capacidade de enfrentar eventos meteorológicos extremos. Conhecemos cada vez melhor os riscos, mas seguimos investindo muito menos do que seria necessário em prevenção e adaptação. Talvez essa seja a mensagem mais importante do material publicado pelo Washington Post. O Super El Niño de 2026-2027 não está simplesmente produzindo uma anomalia climática passageira. Ele poderá oferecer uma antecipação das condições que tendem a se tornar normais dentro de pouco mais de uma década se as emissões continuarem crescendo.

Nesse sentido, 2027 poderá funcionar como uma janela aberta para 2037. O que veremos através dela não deverá ser tratado como uma curiosidade meteorológica, mas como uma advertência sobre o mundo que estamos construindo. E, diferentemente do El Niño, que eventualmente termina, o aquecimento provocado pela acumulação de gases de efeito estufa não desaparecerá quando as águas do Pacífico voltarem a esfriar.


Fonte do material gráfico e das informações apresentadas nas imagens: Instagram do The Washington Post, publicação de 13 de agosto de 2026.

A meta de 1,5 °C já ficou para trás: Paulo Artaxo alerta para a urgência climática

Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil

No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e  Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.

Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.

Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.

Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.

Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.

Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].

AMOC tem uma probabilidade significativamente maior de colapsar do que se pensava e ameaça o clima da Terra

Cientistas afirmam que a descoberta é “muito preocupante”, pois um colapso seria catastrófico para a Europa, África e Américas

A circulação meridional de inversão do Atlântico é uma parte fundamental do sistema climático global e sabe-se que está no seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado da crise climática. Fotografia: Henrik Egede-Lassen/Zoomedia/PA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para  “The Guardian” 

O sistema crítico de correntes do Atlântico parece estar significativamente mais propenso a colapsar do que se pensava anteriormente, após uma nova pesquisa constatar que os modelos climáticos que preveem a maior desaceleração são os mais realistas. Os cientistas classificaram a nova descoberta como “muito preocupante”, pois um colapso teria consequências catastróficas para a Europa, África e Américas.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc) é uma parte fundamental do sistema climático global e já se sabia que estava em seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado da crise climática. Cientistas detectaram sinais de alerta de um ponto de inflexão em 2021 e sabem que a Amoc já entrou em colapso no passado da Terra.

Os cientistas do clima utilizam dezenas de modelos computacionais diferentes para avaliar o clima futuro. No entanto, para o complexo sistema AmOC, esses modelos produzem resultados bastante variáveis, desde alguns que indicam que não haverá desaceleração adicional até 2100 até outros que sugerem uma enorme desaceleração de cerca de 65%, mesmo quando as emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis forem gradualmente reduzidas a zero.

A pesquisa combinou observações oceânicas do mundo real com modelos para determinar o mais confiável, o que reduziu enormemente a dispersão da incerteza. Eles encontraram uma desaceleração estimada de 42% a 58% em 1100, um nível que quase certamente levará ao colapso.

A Corrente de Midlands (AMOC) é uma parte fundamental do sistema climático global, transportando água tropical aquecida pelo sol para a Europa e o Ártico, onde ela esfria e afunda, formando uma profunda corrente de retorno. Um colapso dessa corrente alteraria a faixa de chuvas tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos, mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão, e aumentaria o nível do mar em 50 a 100 cm no Atlântico.

O Dr. Valentin Portmann, do Centro de Pesquisa Inria Bordeaux Sud-Ouest, na França, e que liderou a nova pesquisa, disse: “Descobrimos que a AMOC vai diminuir mais do que o esperado em comparação com a média de todos os modelos climáticos. Isso significa que temos uma AMOC mais próxima de um ponto de inflexão.”

O professor Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, afirmou: “Este é um resultado importante e muito preocupante. Ele demonstra que os modelos ‘pessimistas’, que preveem um forte enfraquecimento da AMOC até 2100, são, infelizmente, os mais realistas, pois concordam melhor com os dados observacionais.”

Ele acrescentou: “Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de ultrapassarmos o ponto de inflexão do encerramento da Amoc, que se torna inevitável, em meados deste século, o que está bastante próximo.”

Rahmstorf, que estuda a AMOC há 35 anos, afirmou que um colapso deve ser evitado “a todo custo” . “Eu defendi isso quando pensávamos que a chance de um colapso da AMOC era de talvez 5%, e mesmo assim dizíamos que esse risco era muito alto, dados os impactos massivos. Agora parece que é mais de 50%. As mudanças climáticas mais dramáticas e drásticas que vimos nos últimos 100.000 anos da história da Terra ocorreram quando a AMOC mudou de estado.”

A Circulação Meridional de Revolvimento do Ártico (AMOC) está desacelerando porque as temperaturas do ar estão subindo rapidamente no Ártico devido ao aquecimento global. Isso significa que o oceano esfria mais lentamente nessa região. A água mais quente é menos densa e, portanto, afunda mais lentamente nas profundezas. Essa desaceleração permite que mais água da chuva se acumule nas águas superficiais salgadas, tornando-as também menos densas e retardando ainda mais o afundamento, formando um ciclo de retroalimentação da AMOC.

O sistema Amoc é extremamente complexo e sujeito a variações naturais aleatórias, o que torna impossíveis previsões precisas. No entanto, os cientistas preveem agora um enfraquecimento significativo, o que por si só poderá ter impactos graves nas próximas décadas.

A nova pesquisa, publicada na revista Science Advances , explorou quatro maneiras diferentes de usar observações do mundo real para avaliar os modelos. Os pesquisadores descobriram que um método chamado regressão de crista, pouco utilizado na ciência climática até então, apresentou os melhores resultados.

A Amoc é difícil de modelar porque é regida por diferenças sutis na densidade da água causadas por mudanças na salinidade em todo o Atlântico. A redução da incerteza na nova análise resulta da identificação dos modelos que melhor refletem a salinidade da superfície no Atlântico Sul, algo que os cientistas já sabiam ser importante. Isso torna o trabalho “muito confiável”, disse Rahmstorf.

Rahmstorf afirmou que a desaceleração da Amoc em 2100 pode ser ainda maior do que na nova avaliação pessimista. Isso ocorre porque os modelos computacionais não incluem a água do degelo da calota polar da Groenlândia , que também está contribuindo para o aumento da salinidade das águas oceânicas: “Esse é um fator adicional que significa que a realidade provavelmente é ainda pior.”


Fonte: The Guardian

Estudo mostra que aquecimento aumenta o risco de desnutrição infantil

desnutrição por calorEventos climáticos severos estão atingindo com mais força as populações vulneráveis, comprometendo o progresso na nutrição infantil. A foto mostra vítimas das enchentes em um abrigo no norte do Peru. Crédito da imagem: Rosa Quincho, Urpi/Diario La República

A análise, publicada na revista The Lancet Planetary Health, revelou que cada aumento de 1°C acima da temperatura média de 26°C está associado a um aumento de aproximadamente 10% na probabilidade de uma pessoa estar abaixo do peso para a idade e a um aumento de 8% no risco de estar abaixo do peso para a altura e ter baixa estatura para a idade.

A pesquisa foi baseada em dados de um período de 10 anos e de 6,5 milhões de crianças de 1 a 5 anos de idade de todas as regiões do Brasil.

“Infraestruturas precárias, insegurança alimentar crônica e acesso limitado a serviços de saúde […] reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental.”

Priscila Ribas, pesquisadora do Núcleo de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professora da Universidade Federal da Bahia, Brasil.

Diferentemente de outros estudos focados em eventos extremos isolados, os autores analisaram a temperatura média ao longo de todo o período e calcularam seu impacto cumulativo até 52 semanas após a exposição. Isso permitiu captar seus efeitos progressivos, visto que o impacto do calor na nutrição infantil geralmente se manifesta gradualmente.

“O estudo mostra que a exposição ao calor não só gera impactos imediatos, como também contribui para processos de desnutrição crônica que comprometem o desenvolvimento humano a longo prazo”, explicou a nutricionista Priscila Ribas, pesquisadora do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das autoras do estudo, à SciDev.Net .

De acordo com os resultados, a associação entre o aumento da temperatura e a piora dos indicadores nutricionais foi mais intensa nas regiões Norte e Nordeste – que concentram os maiores índices de pobreza no Brasil – em áreas rurais e entre os filhos de mães indígenas .

Para Ribas, isso representa um “efeito multiplicador sobre vulnerabilidades preexistentes”.

“A infraestrutura precária, a insegurança alimentar crônica e o acesso limitado aos serviços de saúde nessas áreas e grupos reduzem a capacidade de adaptação às variações de temperatura, transformando o estresse climático em um resultado biológico mensurável e expondo uma situação de injustiça ambiental”, destacou Ribas, que também é professor da Universidade Federal da Bahia.

Segundo a pediatra Alicia Matijasevich Manitto, professora da Universidade de São Paulo e não envolvida no estudo, os resultados são consistentes com o que tem sido observado em outras partes do mundo, especialmente na África subsaariana e em outras regiões tropicais.

Na opinião deles, o fato de os efeitos serem mais acentuados nos contextos mais vulneráveis ​​reforça a evidência de que as mudanças climáticas “podem agravar as desigualdades sociais em saúde”.

Efeitos diretos e indiretos

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 559 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a ondas de calor frequentes, definidas como períodos de pelo menos três dias com temperaturas máximas 10% acima da média histórica local. Nesse cenário, o UNICEF estima que, até 2050, todas as crianças e adolescentes do mundo estarão expostos a ondas de calor.

No Brasil, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, 5% das crianças entre 0 e 4 anos sofriam de desnutrição em 2025. Na América Latina e no Caribe, a desnutrição crônica nessa faixa etária era de 11,5% em 2022, de acordo com um relatório da Organização dos Estados Ibero-Americanos publicado no ano passado.

Os pesquisadores concordaram que crianças entre 0 e 11 anos têm características fisiológicas e metabólicas diferentes dos adultos, o que as torna mais vulneráveis.

“As altas temperaturas podem reduzir o apetite, aumentar o risco de desidratação e causar episódios de diarreia e infecções, afetando a absorção de nutrientes e causando perda de peso”, explicou Matijasevich Manitto.

Ribas acrescentou que as altas temperaturas favorecem a proliferação de patógenos e vetores de doenças , fazendo com que os bebês consumam menos calorias e percam nutrientes em um ritmo acelerado.

A nutrição infantil também pode ser afetada indiretamente, por meio dos efeitos das mudanças climáticas nos sistemas alimentares .

“ O calor extremo e os eventos climáticos adversos prejudicam a produtividade agrícola, reduzem a disponibilidade de alimentos e aumentam os preços, afetando o consumo nutricional das famílias mais pobres”, disse ele.

Danos futuros

O estudo alerta que as mudanças climáticas podem reverter os recentes avanços na nutrição infantil, alcançados graças ao desenvolvimento socioeconômico, à expansão da atenção primária à saúde e à redução das desigualdades.

Matijasevich Manitto explicou que diversos estudos mostram que a desnutrição infantil está associada a menor nível de escolaridade, menor produtividade econômica e menor renda ao longo da vida. “Uma nutrição adequada nos primeiros anos de vida é fundamental para o desenvolvimento cerebral e para as funções cognitivas e socioemocionais ”, enfatizou.

Reduzir a pobreza é uma medida eficaz para a adaptação às mudanças climáticas. Crédito da imagem: cortesia do jornal La República.

Os pesquisadores concordam que proteger as crianças do estresse térmico exige uma combinação de prevenção, preparação e uma resposta coordenada entre governos e sistemas de saúde . No entanto, a longo prazo, as soluções devem ser estruturais.

“Reduzir a pobreza não é apenas uma estratégia de justiça social, mas também pode servir como uma medida eficaz de adaptação às mudanças climáticas”, concluem os autores do artigo publicado na revista The Lancet Planetary Health .


Fonte: SciDev

Análise revela que países produtores de café estão ficando quentes demais para o cultivo dos grãos

Cinco países responsáveis ​​por 75% da oferta mundial de café registram uma média de 57 dias extras de calor por ano, o que prejudica a produção da cultura

Grãos de café estragados em um galho

Grãos de café danificados em San Tecla, El Salvador. As plantas, especialmente a variedade arábica, sofrem com temperaturas acima de 30°C. Fotografia: AFP/Getty Images

Por Damien Gayle para “The Guardian” 

Na Etiópia , berço do café, mais de 4 milhões de famílias dependem dele como principal fonte de renda. O café contribui com quase um terço das receitas de exportação do país, mas não se sabe por quanto tempo isso continuará.

“Os cafeicultores da Etiópia já estão sentindo o impacto do calor extremo”, disse Dejene Dadi, gerente geral da União de Cooperativas de Cafeicultores de Oromia (OCFCU), uma cooperativa de pequenos produtores.

Uma análise sugeriu que os países onde os grãos de café são cultivados estão se tornando quentes demais para o cultivo devido às mudanças climáticas.

Os cinco maiores países produtores de café, responsáveis ​​por 75% da oferta mundial, sofreram, em média, 57 dias adicionais de calor prejudicial à cultura do café por ano devido à crise climática, segundo dados da Climate Central, organização que pesquisa e divulga informações sobre a crise.

Dias de calor prejudicial ao café adicionados pela crise climática
Número anual de dias acima de 30°C, cinco maiores produtores de café, média de 2021-2025

Os grãos de café são provenientes principalmente de uma área conhecida como “cinturão do café”, entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, e precisam de condições específicas de temperatura e pluviosidade para prosperar.

As plantas, especialmente a variedade arábica, a mais apreciada, têm dificuldades em temperaturas acima de 30°C.

Segundo a indústria, são consumidas cerca de 2 bilhões de xícaras de café por dia. Mas essa indústria está sob pressão. De acordo com o Banco Mundial , os preços dos grãos de café arábica e robusta quase dobraram entre 2023 e 2025. Em fevereiro de 2025, os preços do café atingiram o valor mais alto de todos os tempos .

A análise da Climate Central contabilizou o número de dias com temperaturas acima de 30°C em regiões produtoras de café entre 2021 e 2025, e comparou esse número com o que teria ocorrido em um mundo sem poluição de carbono.

O país produtor de café mais afetado foi El Salvador , que, segundo os cálculos, teve 99 dias adicionais com calor prejudicial à cultura do café. O Brasil, maior produtor mundial de café, responsável por 37% da produção global, teve 70 dias adicionais com temperaturas acima de 30°C. A Etiópia, que responde por 6,4% da produção de café, teve 34 dias adicionais com temperaturas acima de 30°C.

Uma pessoa segurando grãos de café nas mãos

Os grãos de café precisam de condições específicas de temperatura e chuva para prosperar. Fotografia: André Penner/AP

“O café arábica etíope é particularmente sensível à luz solar direta”, disse Dadi. “Sem sombra suficiente, os cafeeiros produzem menos grãos e ficam mais vulneráveis ​​a doenças.”

A cooperativa Oromia distribuiu fogões de cozinha com baixo consumo de energia aos seus membros para desencorajar o desmatamento nas áreas florestais que servem de abrigo natural para o cultivo de café.

Segundo ativistas, o financiamento climático necessário para uma adaptação significativa é insuficiente. Os pequenos agricultores produzem de 60% a 80% do café, mas receberam apenas 0,36% dos fundos necessários para se adaptarem aos impactos da crise climática em 2021, de acordo com um estudo do ano passado.

Sem ajuda, eles só podem fazer até certo ponto, disse Dadi. “Para garantir o abastecimento de café, os governos precisam agir em relação às mudanças climáticas.”


Fonte: The Guardian