O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) vai elaborar um novo relatório, cuja “necessidade nunca foi tão grande”. Documento será apresentado a 28 de fevereiro
“A necessidade (deste documento) nunca foi tão grande, porque a situação nunca foi tão grave”, afirmou Hoesung Lee, durante uma teleconferência que abriu um período de discussão, à porta fechada, que vai decorrer durante duas semanas.
Com o aquecimento do planeta a acelerar, os impactos devastadores das alterações climáticas sucedem-se, com canículas, secas, tempestades ou inundações, os quais vão agora motivar aquele relatório do IPCC.
Em agosto último, em um outro documento do IPCC, os cientistas estimaram que a subida do mercúrio atingiria em torno de 2030 — dez anos mais cedo do que antecipado — os 1,5ºC estabelecidos como meta no Acordo de Paris.
Antes de uma terceira publicação, esperada para abril, sobre as soluções para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, esta segunda, cuja discussão começou hoje, trata dos impactos do aquecimento e da adaptação.
“Cerca de 4,5 mil milhões de pessoas sofreram uma catástrofe associada a um acontecimento meteorológico nos últimos 20 anos”
Espera-se que decline as consequências sobre todos os continentes e em todos os seus aspetos, como saúde, segurança alimentar, escassez de água, deslocação de populações ou destruição de ecossistemas.
“Cerca de 4,5 mil milhões de pessoas sofreram uma catástrofe associada a um acontecimento meteorológico nos últimos 20 anos”, acrescentou o diretor da Organização Meteorológica Mundial, Petteri Taalas, apontando a responsabilidade das energias fósseis.
Em quase todos os continentes, as pessoas veem as catástrofes em curso. Como em 2021, as chamas a devastarem o oeste dos EUA, a Grécia ou a Turquia, inundações a submergirem regiões da Alemanha ou da China, ou a temperatura a chegar aos 50ºC no Canadá.
E “sabemos (…) que o crescimento dos impactos climáticos supera de longe os nossos esforços de adaptação”, insistiu a diretora da agência da ONU para o Ambiente, Inger Andersen, considerando que o novo relatório do IPCC é “capital para ajudar os líderes mundiais a desenharem respostas aos impactos climáticos”.
Face à litania das catástrofes e à necessidade de reduzir as emissões em cerca de 50% até 2030 para não exceder o objetivo de 1,5ºC, os dirigentes mundiais prometeram em novembro, em Glasgow, durante a 26.ª Conferência das Partes (COP26) da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC, na sigla em Inglês), acelerar a luta contra o aquecimento global e financiar mais as medidas de adaptação.
“Insuficiente para afastar a catástrofe climática que continua a bater à porta”, declarou então o secretário-geral da ONU, António Guterres.
“Espero que este relatório seja um bom pontapé de saída” para a COP27, que vai decorrer no Egito, no final do ano, disse à AFP o enviado dos EUA para os assuntos do clima, John Kerry.
Relatório vai ajudar a “elaborar políticas e a tomar decisões”
O documento “vai integrar mais fortemente as ciências económicas e sociais e fornecer aos líderes, informação e conhecimento para os ajudar a elaborar políticas e tomar decisões”, disse, por seu lado, Hoesung Lee.
Em 28 de fevereiro vai ser apresentado este novo documento do IPCC, depois dos 195 Estados membros analisarem, linha a linha, o ‘resumo para decisores”, um condensado politicamente sensível dos milhares de páginas do relatório científico, preparado por 270 cientistas.
O foco da publicação é a adaptação.
Mas “há limites à adaptação”, sublinhou à AFP o climatologista Laurent Bopp, um dos coautores, evocando o risco de migrações importantes de populações.
“Em algumas zonas, se as temperaturas ultrapassarem níveis já muito elevados, a vida humana deixa de ser possível. Se em algumas zonas costeiras, o nível do mar subir mais de um metro, a proteção com diques deixa de ser possível”, exemplificou.
Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Diário de Notícias” [Aqui!].
Maximiliano Herrera, observador de condições meteorológicas extremas, diz que no ano passado provavelmente estará entre os cinco ou seis mais quentes da história
Em agosto de 2021, os incêndios florestais se espalharam pelo norte de Atenas, Grécia, quando as temperaturas atingiram 42 ° C (107,6 ° F). Fotografia: Miloš Bičanski / Getty Images
Por Bibi van der Zee para o “The Guardian”
Maximiliano Herrera, observador de condições meteorológicas extremas, diz que no ano passado provavelmente estará entre os cinco ou seis mais quentes da história
Mais de 400 estações meteorológicas em todo o mundo bateram seus recordes de temperatura mais alta de todos os tempos em 2021, de acordo com um climatologista que compila registros meteorológicos há mais de 30 anos.
Maximiliano Herrera acompanha as condições climáticas extremas em todo o mundo e publica uma lista anual de recordes quebrados no ano anterior. Ele e muitos outros climatologistas e meteorologistas que acompanham de perto essas questões esperam que 2021 provavelmente não seja o ano mais quente da história (Noaa e a Nasa publicarão seus resultados nos próximos dias).
E, como agora é a norma, um monte de novos recordes de calor foi quebrado, de acordo com Herrera. Dez países – Omã, Emirados Árabes Unidos, Canadá, Estados Unidos, Marrocos, Turquia, Taiwan, Itália, Tunísia e Dominica – quebraram ou empataram seu recorde nacional mais alto, 107 países bateram seu recorde mensal de altas temperaturas e cinco bateram seu recorde mensal de baixas temperaturas .
Dez recordes nacionais de temperatura foram quebrados ou igualados em 2021, incluindo o mais alto já medido com segurança na Terra
Alguns registros continentais e planetários também caíram: a África teve seus meses de junho e setembromais quentes de todos os tempos. Agosto trouxe 48,8C (119,8F) em Syracuse, Itália, a temperatura mais alta já registrada na Europa. Julho já havia atingido 54,4 ° C (130 ° F) em Furnace Creek, no Vale da Morte dos Estados Unidos– a temperatura mais alta com segurança registrada na Terra. (A temperatura registrada como 129,9F em 2020 também foi arredondada para 130F.)
Mas houve alguns eventos específicos que se destacaram particularmente para os especialistas. Para a meteorologista Patricia Nying’uro, cofundadora da Climate Without Borders e baseada no Departamento de Meteorologia do Quênia, as duas estações consecutivas de chuvas fracassadas no Quênia foram incomuns e forçaram o governo a se organizar para ajuda alimentar pela primeira vez em muitos anos .
“Você certamente pode ver o efeito da mudança climática em nosso clima no Quênia e globalmente. Estamos apenas juntando os dados para 2021, mas achamos que teremos visto uma temperatura anual 2,1 C mais alta do que o normal para algumas partes do país. As mudanças são muito perceptíveis, de um extremo a outro em um espaço de tempo muito curto.
24C na Espanha, 15C nos Alpes: final estranhamente quente para 2021 em partes da Europa
Esta foi uma das razões pelas quais Nying’uro ajudou a fundar a CWB, um grupo de meteorologistas e apresentadores de clima de todo o mundo que compartilham informações sobre eventos climáticos extremos. Eles também apoiam os apresentadores do clima para fazer conexões com as mudanças climáticas e comunicá-las ao público.
O meteorologistaScott Duncan , que coleta dados sobre o clima mundial, apontou para as ondas de calor do verão europeu, que quebraram recordes em vários países – e foram acompanhadas por incêndios florestais em todo o Mediterrâneo. Eles foram precedidos por um março quente, um choque frio e agudo no início de abril que “foi catastrófico para muitas empresas agrícolas na França” e, em seguida, as enchentes em julho. “Esses eventos realmente se destacaram para mim.”
Ele também destacou o calor no Alasca em dezembro, onde vários recordes foram quebrados por uma grande margem. “Isso foi extraordinário.”
A China viveu o ano mais quente de todos os tempos, de acordo coma Administração Meteorológica da China. Mas foi a chuva que atingiu a província central de Henan que realmente chocou: a região foi atingida por mais chuvas em três dias do que normalmente recebe em um ano inteiro. Centenas morreram, plantações e casas foram destruídas e a limpeza continua. Jia Xiaolong, vice-chefe do Centro Nacional do Clima, disse que a situação no ano passado foi anormal.
“O aquecimento foi o principal tema do clima da China em 2021. No contexto doaquecimento global , eventos climáticos extremos recorrentes se tornaram a norma, o que também é um grande desafio para a prevenção e mitigação de desastres.”
Outros eventos climáticos incomuns importantes no ano passado foram a onda de calor na Sibéria no verão e o congelamento profundo no Texas em fevereiro. Quase 200 pessoas morreram , milhões de casas ficaram sem energia e as consequências levaram a enormes disputas políticas.
Guy Walton, um meteorologista ativista que faz campanha contra a mudança climática desde o final dos anos 1980, disse que “o surto de frio em fevereiro de 2021 que levou ao colapso da rede elétrica no Texas e dezenas de mortes” foi “ironicamente atribuído à mudança climática por muitos” . Ele também destacou “o outono ameno / quente extraordinário que levou ao mês de dezembro mais quente já registrado para os Estados Unidos. Os Centros Nacionais de Informação Ambiental devem oficializar isso nos próximos dias. ”
Mas o evento chave de 2021 para a comunidade meteorológica e climatológica foi a onda de calor extrema que atingiu a costa oeste dos EUA em junho / julho, gerou uma cúpula de calor e quebrou recordes de até 5ºC em alguns lugares. Na época, Geert Jan van Oldenborgh(que morreu em outubro de 2021), do Royal Netherlands Meteorological Institute, chamou-o de “muito além do limite superior” e “surpreendente e abalador”.
“É claro que 2021 foi cheio de eventos extremos”, disse Herrera. “Mas se eu tiver que citar um, vou citar o que atingiu todos os climatologistas e meteorologistas do mundo”. Herrera apelidou o evento de “a mãe de todas as ondas de calor”.
“Eu confesso, eu nunca teria acreditado que isso fosse fisicamente impossível. A magnitude deste evento superou qualquer coisa que eu já vi depois de uma vida de pesquisa de eventos extremos em toda a história climática mundial moderna nos últimos dois séculos. ”
Enquanto isso, 2022 começou com uma série de recordes já quebrados noReino Unido e nos Estados Unidos nos primeiros dias do ano.
Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
Por Juliana Gragnani, Da BBC News Brasil em Londres
Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudanças climáticas no Brasil. Estão em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do país, ouvindo falar um professor da Universidade de São Paulo. Mas o que escutam é o contrário do que acredita a esmagadora maioria da comunidade científica do mundo. Ali, a mensagem transmitida é de que não existe aquecimento global causado pelo homem.
“Os objetivos [de quem fala em mudanças climáticas] são congelar os países em desenvolvimento. O Brasil é o principal foco dessas operações que envolvem meio ambiente e clima. A ideia da mudança climática e dessas questões ambientais são para segurar o nosso desenvolvimento”, afirmou o palestrante, o meteorologista Ricardo Felicio, sem respaldo científico, em uma entrevista concedida após o evento que aconteceu em 2019.
Na realidade, segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influência humana no aquecimento do planeta é “inequívoco”. É para limitar as mudanças climáticas por meio da redução na emissão de gases de efeito estufa que líderes se reuniram nas últimas duas semanas na COP26 em Glasgow, no Reino Unido.
No Brasil, a maior causa de emissões de dióxido de carbono é o desmatamento feito para expansão da agricultura e da pecuária.
Mas, na contramão do que diz a ciência, associações do agronegócio — de fazendeiros de soja, passando por cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas a agronomia e até uma empresa de fertilizantes — estão bancando palestras dos chamados “negacionistas climáticos”, pessoas que não acreditam que existam mudanças climáticas causadas pelo homem e que apresentam esse fato como uma fraude. As apresentações são direcionadas a outros fazendeiros, produtores rurais ou estudantes de agronomia.
Fim do Talvez também te interesse
A reportagem contou ao menos 20 palestras do tipo nesses ambientes nos últimos três anos feitas por Felicio e por outro professor. A citada no início desta reportagem aconteceu em 2019, e fez parte de um circuito universitário de um total de 11 palestras com o nome “Aquecimento global, mito ou realidade?” em nove faculdades e dois sindicatos no Mato Grosso. Todas elas foram bancadas pela Aprosoja Mato Grosso, a associação de produtores de soja e milho do Estado, maior produtor de soja do Brasil.
Ao mesmo tempo em que negam o aquecimento global antropogênico, as palestras pagas e vistas por ruralistas os absolvem de reconhecer seu papel nas mudanças climáticas. Elas seriam, de acordo com o conteúdo contrário ao consenso científico apresentado pelos professores, somente fruto de variações naturais, sem interferência alguma do homem.
Ao contrário desse setor “negacionista” do agronegócio, o presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, diz que a associação se pauta “pela melhor ciência” e que “jogar fora a ciência porque ela não nos traz só vantagens, mas também deveres, é no mínimo contraproducente, jogando contra a melhoria contínua”.
Palestras
Felicio, o professor do departamento de Geografia da USP contratado pela Aprosoja Mato Grosso em 2019, é conhecido por suas posições controversas — ultimamente, em relação à pandemia de covid-19. Em um vídeo publicado em agosto deste ano em seu canal do YouTube, chamou a pandemia de “fraudemia” e disse, sem base científica, que vacinas causam danos maiores que a covid-19. Em outro, afirmou que máscaras não são efetivas contra a covid-19. É também um notório negacionista das mudanças climáticas causadas pelo homem. Ficou conhecido em 2012, quando foi convidado ao Programa do Jô, da Globo, e, sem provas, negou o efeito estufa.
Ricardo Felicio (no canto esquerdo) e Luiz Carlos Molion (no canto direito) dão palestras pelo Brasil; na foto, eles participam de audiência pública no Senado
Durante três semanas, a reportagem tentou falar com Felicio por telefonemas, mensagens de texto e e-mails, mas não obteve resposta. O vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Beber, justificou o convite em entrevista à BBC News Brasil.
“A gente trouxe o Ricardo Felicio para fazer um contraponto com aquilo que é replicado na mídia hoje, que parece uma verdade absoluta. A gente não queria impor aquilo como uma verdade, mas sim trazer a um debate”, afirma. Para ele, as mudanças climáticas causadas pelo homem ainda são uma “incerteza” — embora já haja consenso científico em torno delas. Beber também disse não se lembrar quanto custou o ciclo de 11 palestras feitas por Felicio naquele ano.
Vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso diz que convite a professor considerado negacionista se deu para promover ‘contraponto com o que é replicado na mídia’
No ano passado, o meteorologista também foi convidado para falar no Tecno Safra Nortão 2020, uma feira para produtores rurais, lideranças, técnicos, pesquisadores e estudantes organizada pelo sindicato rural de Matupá, município no norte de Mato Grosso.
Segundo o vice-presidente do sindicato, Fernando Bertolin, ao menos cem pessoas, entre pequenos e grandes agricultores, pecuaristas e outras pessoas da cidade assistiram à palestra. Ele defende o convite, dizendo que, à época, Felicio estava “bem forte na mídia” e que sua palestra “foi um pedido dos produtores”. “A gente ouve todo mundo. Ele tem o embasamento teórico dele e a gente queria saber por que ele dizia aquilo.”
Bertolin diz não se recordar do valor da palestra de Felicio de cabeça, mas afirma que nenhuma das contratadas pela feira custou mais de R$ 15 mil.
Em 2018, Felicio concorreu, sem sucesso, ao cargo de deputado federal pelo PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro.
Um ano antes, o presidente tuitou um vídeo de uma entrevista em que Felicio nega a existência de mudanças climáticas causadas pelo homem. Bolsonaro escreveu: “Vale a pena conferir”. Consultada pela BBC News Brasil sobre esta recomendação feita por Bolsonaro, a assessoria da Presidência não respondeu.
O professor não foi aclamado apenas pelo presidente. Em 2019, Felicio foi convidado para dar uma palestra no Senado ao lado de outro acadêmico que não acredita no aquecimento global causado pelo homem, o professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), meteorologista Luiz Carlos Molion.
O convite para que os professores falassem em uma audiência pública conjunta das comissões de Relações Exteriores e de Meio Ambiente do Senado sobre as mudanças climáticas partiu do senador do Acre Marcio Bittar (hoje PSL, mas, na época, do MDB), um ex-pecuarista que faz parte da bancada ruralista.
Ao lado de Felicio, Molion é considerado um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil e autor das outras palestras contabilizadas pela reportagem.
Nos últimos três anos, Molion fez diversas palestras promovidas por entidades como a Cooperativa Agrícola de Unaí, em Minas Gerais, a Associação Avícola de Pernambuco, a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, com o patrocínio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo, a Central Campo, uma empresa especializada na venda de insumos agrícolas, a Feira Agrotecnológica do Tocantins, do governo do Tocantins, a feira de Agronegócios da Cooabriel, uma cooperativa de café com atuação no Espírito Santo e na Bahia, e o sindicato rural de Canarana, no Mato Grosso.
Molion também foi convidado para falar em universidades: o Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A BBC News Brasil procurou todas essas instituições para comentar sobre os convites que fizeram a Molion — leia as respostas abaixo e no fim desta reportagem.
A maior parte dessas palestras tem como tema as perspectivas climáticas para o ano seguinte e as “tendências para os próximos 10 anos”. Nas palestras — a maioria disponível no YouTube e vistas pela BBC News Brasil —, Molion de fato faz previsões para o ano seguinte, útil para que os produtores rurais se planejem para as próximas safras, mas reserva a última parte da palestra para falar sobre como o “aquecimento global é uma fraude” — novamente, uma afirmação sem embasamento científico.
Ele mostra um slide na parte final em sua apresentação de Powerpoint, com suas palavras finais. O texto da apresentação diz que o clima “varia por causas naturais”, e que “eventos extremos sempre ocorreram”. Afirma, também: “Aquecimento global é mito. CO2 não controla o clima, não é vilão (…) Redução de emissões: inútil!”
Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influência humana no aquecimento do planeta é “inequívoco”; no Brasil, a maior causa de emissões de gases do efeito estufa é o desmatamento
Na palestra promovida pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Aquicultura do governo do Tocantins em maio de 2020, por exemplo, Molion afirmou, contrariando a ciência, que o “aquecimento global é uma farsa, é um mito”. “Reduzir emissões como quer esse Acordo de Paris de 2015 é inútil, o Brasil tinha que pular fora porque reduzir emissões não vai causar nenhum benefício para o planeta, para o clima, porque o CO2 não controla o clima”, disse, indo contra a esmagadora maioria da produção científica dos últimos anos e aos esforço global de selar acordos para diminuir as emissões dos gases de efeito estufa.
A secretaria disse que o convidou, ao lado de outros palestrantes, para “alinhar o setor agropecuário quanto às diversas correntes existentes e auxiliá-los no seu planejamento e tomadas de decisão mais assertivas para seu empreendimento rural”.
Depois, em outubro de 2020, em um seminário virtual promovido pela Central Campo, uma empresa mineira especializada na venda de insumos agrícolas, Molion fez as mesmas afirmações sobre o CO2 e o Acordo de Paris.
O diretor da empresa, Artur Barros, disse por e-mail à BBC News Brasil que a empresa “sempre soube do posicionamento do professor Molion, que é muito pragmático quanto às questões climáticas” e “o profissional que tem maior assertividade nas previsões”. “A Central Campo, assim como grande parte dos produtores atendidos pela empresa, está muito alinhada ao posicionamento do professor Molion”.
À BBC News Brasil, Molion afirmou: “Procuro usar minhas palestras para o agronegócio, que não são poucas, para no terceiro bloco falar sobre as mudanças climáticas e a farsa do CO2 como controlador do clima global. Faço um diagnóstico local, previsão para safra e depois falo sobre a tendência do clima dos próximos dez, 15 anos, que é de resfriamento.”
Segundo Molion, ele dá 50 palestras por ano, “a grande maioria, 80%, 85% para o agronegócio”, cobrando R$ 4 mil por cada uma. Barros, da Central Campo, afirmou que foi este o valor que pagou pela palestra do professor.
O meteorologista diz que não se incomoda de ser chamado de “negacionista”, embora, ressalte, nunca tenha negado que houve aquecimento no planeta em um período específico no passado. “Eu levo o que acho que está correto, pode ser que daqui a alguns anos me provem que estou errado e vou reconhecer isto. Não sou paraquedista. Eu tenho visão muito crítica do clima local e global graças ao meu treinamento.”
Um dos seminários mais recentes de que participou teve também a presença de membros do governo Bolsonaro: o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro de Infraestrutura, Tarcisio Freitas. Foi um seminário virtual sobre a Amazônia em agosto deste ano organizado pelo Instituto General Villas Bôas, ONG do ex-comandante do Exército.
Contrariando o consenso da comunidade científica sobre as mudanças climáticas, Molion defendeu que o clima global varia naturalmente, sem influência da ação humana, e apresentou um slide em que dizia que o efeito-estufa, “como descrito pelo IPCC, é questionável”. Antes de passar a palavra para o ministro Freitas, afirmou: “CO2 não é vilão, quanto mais CO2 tiver na atmosfera, melhor”.
Vice-presidente Hamilton Mourão participou de seminário sobre a Amazônia que teve a participação do professor Luiz Carlos Molion; sua assessoria disse que ele se baseia em ‘dados científicos para emissão de suas ideias e opiniões’
A BBC News Brasil procurou a vice-presidência questionando por que Mourão aceitou participar de um seminário ao lado de um professor que nega que a ação do homem esteja contribuindo para o aquecimento global. Sua assessoria disse apenas que Mourão participou do evento a convite do Instituto General Villas Bôas e que “baseia-se em dados científicos para emissão de suas ideias e opiniões”.
A assessoria do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, afirmou que ele participou do seminário após convite feito pelo próprio general Villas Boas. A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, foi inicialmente anunciada como um dos nomes de ministros que participariam do seminário, mas sua assessoria informou que ela não participaria do evento, sem responder por que desistiu.
Negacionismo Climático no Brasil
A genealogia do negacionismo climático no Brasil começa nos anos 2000, quando a imprensa “dava pesos iguais para argumentos com pesos totalmente diferentes”, avalia o sociólogo Jean Miguel, pesquisador associado da Unifesp que estuda o tema. O debate sobre o assunto no Brasil se deu principalmente a partir do documentário americano Uma Verdade Inconveniente (2006), sobre a campanha do ex-vice-presidente americano Al Gore a respeito do aquecimento global.
Enquanto isso, um grupo pequeno de negacionistas na academia brasileira, incluindo Felicio e Molion, se pronunciavam publicamente sobre o tema. Para Miguel, eles são “verdadeiros mercadores da dúvida, trabalhando para destacar lacunas que toda ciência possui e amplificar incertezas”.
“[E quem os ouviu no Brasil] foi parte do agronegócio interessado na desregulamentação florestal”, responde Miguel.
Hoje, “as palestras fazem massagem no ego do produtor rural e criam a mentalidade de que esses grupos de agronegócio estão sendo injustiçados enquanto estão contribuindo para o PIB nacional”, diz o pesquisador.
Não significa que todos os produtores rurais sejam negacionistas. “A briga hoje é entre dois lados: o setor de agroexportação, que está mais em contato com compradores internacionais, portanto mais pressionado pela questão reputacional, e que faz investimentos a longo prazo, pensando na questão produtiva na próxima década, não na próxima safra”, diz Raoni Rajão, professor de gestão ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Outro lado do setor são os produtores, mais politizados e fortes apoiadores de Bolsonaro e toda sua agenda. Eles de certa forma compram esse discurso que toda a narrativa de mudança climática é algo para poder impedir o desenvolvimento do Brasil.”
Apesar de não começar no governo Bolsonaro, o negacionismo “encontra terreno fértil para proliferar” em sua gestão, avalia Miguel, citando algumas ações do governo atual, como o fechamento da secretaria responsável por elaborar políticas públicas sobre as mudanças climáticas, no início da gestão Bolsonaro (ela foi reaberta em meio a críticas no ano seguinte) e a desistência em sediara COP-25 que ocorreria no Brasil em novembro de 2019. Em sua campanha, em 2018, Bolsonaro também prometeu acabar com o que chamava de “indústria das multas” ambientais.
O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que ficou no cargo do começo do governo Bolsonaro até março de 2021, chegou a colocar em dúvida que as mudanças climáticas seriam causadas pela ação humana, na contramão do consenso científico.
Para sociólogo, negacionismo climático no Brasil não começou no governo Bolsonaro, mas encontrou ‘terreno fértil para proliferar’ em sua gestão
“Eles estão altamente informados pelo negacionismo climático. Mesmo que não digam que é uma fraude, de uma maneira interna vão criando as possibilidade de sabotar a ciência e as políticas climáticas nacionais, com formas práticas de negacionismo climático”, afirma Miguel.
Mas ações práticas terão de ser adotadas para que o Brasil cumpra as metas anunciadas pelo governo durante a COP-26: zerar o desmatamento ilegal no país até 2028, reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 50% até 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2050.
O desmatamento, causado pela expansão da agricultura e da pecuária, é responsável pela maior emissão de CO2 no Brasil.
Só entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma área de 10.851 km2 — mais ou menos metade da área do Estado de Sergipe — foi desmatada na Amazônia Legal, segundo dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O valor representou um aumento de 7,13% em relação ao ano anterior.
Esse crescimento teve um claro reflexo nas emissões de gases poluentes pelo Brasil em 2020. Houve um aumento de 9,5%, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, principalmente por mudanças no uso da terra e floresta, que inclui o desmatamento, e a agropecuária. O aumento aconteceu na contramão do mundo que, parado por conta da pandemia de covid-19, diminuiu as emissões em 7%.
Só entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma área de 10.851 km2 – mais ou menos metade da área do Estado de Sergipe – foi desmatada na Amazônia Legal
Para Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, a boa notícia é que, se o Brasil conseguir controlar o desmatamento, “as emissões cairão muito rapidamente”. “Se controlarmos o desmatamento, não há país no mundo que vai ter emissões menores proporcionalmente do que temos no Brasil, então acho que é uma oportunidade. Teremos um resultado incrível para o Brasil e para o planeta.”
Apesar de pertencer ao setor responsável pela maior parte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil, parte dos ruralistas diz acreditar ser injustamente acusada por ambientalistas.
As palestras do meteorologista Felicio no Mato Grosso, em 2019, “foram bem numa época em que era moda dizer que o agricultor era quem estava acabando com o mundo”, diz o produtor rural Artemio Antonini, presidente do sindicato rural de Nova Xavantina, no Mato Grosso. Também cético em relação às mudanças climáticas, Antonini ajudou a organizar a palestra de Felicio na região.
Na opinião de Rajão, da UFMG, “o agro como um todo toma as dores e se sente ofendido quando se fala de desmatamento”. “A reação é negar o desmatamento e a existência das mudanças climáticas.”
“Tomar as dores” porque, de fato, quem desmata primariamente não é produtor rural. Uma área desmatada começa com uma onda de especuladores – quem demarca a terra e serra dali a vegetação depois quem tenta regularizar a área -, em seguida vem o pecuarista e depois vem o agricultor, explica Rajão. “Por isso que quando dizem que não estão envolvidos com o desmatamento, é verdade, boa parte deles não está. Mas se beneficiam de um fornecimento de terra barata, que vem de todo o processo de desmatamento ilegal que às vezes aconteceu 10 anos antes.”
A ilegalidade é bastante concentrada. O estudo “As maçãs podres do agronegócio brasileiro”, de Rajão e outros pesquisadores, mostrou que mais de 90% dos produtores na Amazônia e no Cerrado não praticaram desmatamento ilegal após 2008. Além disso, apenas 2% das propriedades nessas regiões eram responsáveis por 62% de todo desmatamento potencialmente ilegal. O trabalho foi publicado na revista Science no ano passado.
“Agrosuicídio”
O agricultor de soja Ilson Redivo também esteve na plateia em uma das palestras que o professor Ricardo Felicio deu em 2019, no município de Sinop, norte do Mato Grosso.
Redivo migrou do Paraná para Sinop em 1988, inicialmente trabalhando, como a maioria dos migrantes, no setor madeireiro. “Era um grande polo madeireiro, e era o que dava retorno na época”, diz. Hoje, ele possui uma fazenda de 4200 hectares de milho e soja na região, e é presidente do Sindicato Rural da cidade.
Ele diz ter gostado da palestra de Felicio. Como ele, o produtor rural também rejeita a ciência estabelecida sobre o aquecimento global. Ele diz que é uma “narrativa econômica”, não ambiental, criada para conter o desenvolvimento do Brasil.
“Eu estou há trinta anos aqui, foi desmatado um monte e o clima continua da mesma forma, tá certo? Não houve alteração climática”, diz Redivo à BBC News Brasil.
Ecoando argumentos já usados por Bolsonaro, o agricultor diz que o Brasil é “um exemplo para o mundo em preservação ambiental”. “O produtor brasileiro é o cara que mais preserva.”
O argumento é repetido por outros produtores rurais. “Ninguém fala que o agricultor está deixando 80% e só usando 20% da área para produzir”, reclama o produtor rural Antonini.
Legenda da foto,Durante a COP-26, em Glasgow, Brasil prometeu zerar o desmatamento ilegal no país até 2028
Eles se referem à Reserva Legal, um dispositivo criado no Código Florestal Brasileiro que obriga os proprietários de terras na Amazônia a preservar 80% da floresta nativa (no Cerrado, o valor é de 35%; em outros biomas, 20%), algo que beneficia o próprio agronegócio, por meio dos serviços ambientais prestados pela floresta. Muitos agricultores acham isso injusto. Mas, na prática, nem todos respeitam essa exigência.
A pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) Ritaumaria Pereira conduziu entrevistas com 131 criadores de gado no Pará em 2013 e 2014 e descobriu que mais de 95% deles declararam preservar menos do que a quantidade exigida. Segundo ela, argumentam que, quando chegaram, a terra já estava nua, ou que no passado tinham o estímulo para desmatar, ou que não tinham recursos para regenerar 80%.
Para Pereira, da Imazon, para que o Brasil consiga cumprir as metas anunciadas durante a COP-26, será preciso investir em fiscalização na Amazônia, fortalecendo órgãos como o Ibama e o ICMBio.
Também será preciso combater o discurso do negacionismo climático. A mensagem transmitida a produtores rurais, diz ela, legitima o desmatamento, e “traz mais pessoas para esse pensamento, para que, num futuro próximo, validem assim tudo o que já desmataram”.
Para Rajão, da UFMG, é uma narrativa “que no curto prazo é confortante, mas no longo prazo contribui para o chamado ‘agrosuicídio’”.
POSICIONAMENTOS DE EMPRESAS QUE CONVIDARAM PROFESSORES PARA PALESTRAS
Cooperativa Agrícola de Unaí (Coagril)
A Cooperativa Agrícola de Unaí Ltda (Coagril) diz “ter contratado o professor Molion no intuito de obter informações acerca do regime de chuvas para a região de sua atuação, visando ao planejamento estratégico dos seus negócios e de seus cooperado”.
Associação Avícola de Pernambuco
“A AVIPE reforça seu caráter plural onde preza pela diversidade de ideias onde o debate de todos os pontos de vista precisa ser exaurido constantemente com o intuito da busca eterna de uma conclusão contingente sobre quaisquer assuntos. (…) Como associação, não nos cabe acreditar ou não se os fatos humanos causam mudanças climáticas, pois nosso papel não é de credo, mas sim de apoiar o debate científico por aqueles que se dedicam toda uma vida em pesquisa. Não condiz com nossos princípios, condutas e valores, selecionar uma parcela de opiniões do mundo científico para apoiar determinada conclusão com fins casuísticos ou individuais. Aspectos financeiros são reservados apenas aos nossos associados.”
Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, com o patrocínio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo
A Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail e WhatsApp, mas não respondeu.
O Crea-SP respondeu que “tem como missão legal o aperfeiçoamento técnico e cultural dos profissionais da área tecnológica, conforme a Lei 5.194”.
“Os eventos com essa finalidade, realizados pelas associações, são de responsabilidade de seus idealizadores e não necessariamente representam a posição do Crea-SP.
O Conselho reforça ainda que acredita em mudanças climáticas causadas pelas ações humanas e, como forma de apoiar medidas para combatê-las, é signatário dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.”
Cooperativa de café Cooabriel
Recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail, mas não respondeu.
Sindicato rural de Canarana
O presidente do sindicato, Alex Wisch, respondeu, por mensagem via WhatsApp: “Propomos que vocês indiquem um cientista de mesmo nível acadêmico do Prof. Molion para que todos possam ter conhecimento da verdade científica sobre esse tema. Podemos colaborar financeiramente com esse evento e inclusive sediar o evento.”
Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Por telefone, o vice-diretor do Instituto de Ciências Agrárias da UFMG, Helder Augusto, afirmou: “Na universidade, há diversidade de ideias e contrapontos. Não é um posicionamento da UFMG. É um ponto de vista dele, é uma fala relativa. A pessoa veio, fez palestra e pode falar o que bem entender porque é um ambiente público. A universidade não paga palestra para ninguém.”
Universidade Federal da Paraíba
“O evento foi realizado no auditório do Centro de Tecnologia da UFPB, organizado no âmbito do Departamento de Engenharia Mecânica, que aproveitou que o palestrante já estava em João Pessoa (PB) e o convidou para ministrar palestra na UFPB, portanto, neste caso em particular, sem ônus para a UFPB.
A iniciativa de convidar o pesquisador para ministrar palestra sobre seus estudos não se confunde com a visão, missão e valores da UFPB, entre os quais destaca-se o caráter público e autônomo da Universidade.
A UFPB defende o papel da academia e apoia a ciência e a pesquisa, o conhecimento gerado a partir de métodos científicos, no intuito de encontrar soluções para desafios em todas as áreas e geração de benefícios para a sociedade. Por meio da ciência, as teorias são constantemente testadas, visando sua comprovação ou substituição por outra teoria que resista à checagem. Não compete à Universidade aplicar censura prévia à ciência.”
Este texto foi inicialmente publicado pela BBC News [Aqui].
Combater as mudanças climáticas constitui-se em um dos principais desafios da humanidade neste século. Há reconhecida relevância da comunidade política e científica internacional quanto à importância em se efetuar o planejamento e a gestão ambiental em nível global, continental, por países, estados, municípios, bem como pelas empresas privadas, em especial as corporações de grande porte e as multinacionais (Políticas de ESG). Deve-se buscar a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias e serviços, com vistas a redução e adequação das várias atividades antrópicas, as quais vêm degradando a qualidade do ar, elevando temperatura e ameaça à biodiversidade e à vida e saúde humana no planeta.
Essas atividades intensificaram-se após a segunda guerra mundial, com a revolução industrial e a explosão demográfica, sendo urgente buscar um equilíbrio entre crescimento econômico desordenado, que difere de desenvolvimento econômico sustentável, e a necessidade de expansão de renda, emprego e alimentação, visando atender às necessidades humanas e da economia.
As atividades econômicas e as ações diárias das pessoas, de forma direta ou indireta, geram emissão de gases do efeito estufa (GEE), devendo elas serem adaptadas segundo a melhor tecnologia disponível e em alguns casos reduzidas, visando diminuir a concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. Este aquecimento global tem impactos profundos no planeta, contribuindo para o fenômeno da inversão térmica (camadas da atmosfera sofre inversão, ficando as mais frias próximas ao solo, com elevação das camadas mais quentes, gerando dificuldades na circulação do ar e maior concentração de poluentes).
Neste diapasão, de se consignar que a variação climática experimentada não é natural, extrapolando os parâmetros históricos. Segundo anotado pelos autores da cartilha produzida pela ABRAMPA (Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público), com base em informações do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): “as consequências do aumento de temperatura são graves para todos os seres vivos, incluindo o homem. Vale elencar alguns efeitos do aquecimento global: extinção de espécies animais e vegetais, alteração na frequência e intensidade de chuvas (interferindo, por exemplo, na agricultura e na saúde), elevação do nível do mar e intensificação de fenômenos meteorológicos (por exemplo: tempestades severas, inundações, vendavais, ondas de calor, secas prolongadas), entre outros.”
Para tentar evitar este cenário catastrófico que se avizinha, por meio das ações da COP-26 (Conferência do Clima), instância máxima da Organização das Nações Unidas (ONU), vinham sendo negociadas ações efetivas de combate à elevação da temperatura da terra em no máximo 1,5 °C. Entendem muitos cientistas que este é o último momento que temos para agir, de forma eficaz, visando evitar os eventos climáticos extremos e seus devastadores efeitos sobre o planeta ou porções dele.
Entretanto, a COP-26, realizada em Glasgow, na Escócia, encerrada no último dia 13 de novembro, ainda que tenha reconhecido a importância de combater as causas das mudanças climáticas, obtido o consenso científico em torno da necessidade de redução dos gases de efeito estufa, bem como a redução ilegal dos desmatamento e as queimadas florestais, o que ocorre especialmente em função das atividades agropecuárias em extensas áreas florestais, como no Bioma Amazônico, deixou muito a desejar quanto aos acordos formalmente assumidos pelas nações desenvolvidas.
Os aportes financeiros anuais que se destinariam a combater os efeitos deletérios nos ecossistemas ainda preservados ou que necessitem de recuperação, nos 134 países do denominado G-77, não viera como era esperado. Assim, é de se concluir que as promessas e declarações favoráveis dos grandes líderes mundiais na defesa do Meio Ambiente ficaram mais nas intenções do que nas ações, nada obstante os positivos efeitos de manifestações da sociedade civil, incluindo os jovens.
Fazia-se necessário um efetivo comprometimento com a redução dos gases do efeito estufa, decorrentes do uso de combustíveis fósseis (carvão e petróleo). É bem verdade que a precificação do carbono, via crédito de carbono, alivia um pouco o balanço das emissões, mas por outro lado acaba se constituindo em uma espécie de salvaguarda para justificar as atividades poluentes, distorcendo o princípio do poluidor-pagador.
Países altamente poluentes, como a China (emissão de 5 bilhões de toneladas de carvão por ano), Índia e Estados Unidos (onde estão as grandes companhias de petróleo), os três principais emissores de combustíveis fósseis em ordem decrescente, pouco se comprometeram, até porque a China nem mesmo compareceu à conferência.
Por outro lado os conhecimentos científicos acabaram sendo relegados, adiando-se os compromissos com os direitos fundamentais e com a democracia participativa na área ambiental, promovendo-se uma injustiça climática contra a humanidade, que não foi ouvida nas tomadas de decisões, em nome de uma disputa pela hegemonia econômica entre China e EUA.
Perde-se, assim, a oportunidade de mitigar e adaptar as atividades econômicas aos efeitos das mudanças climáticas, bem como se estabelecer um modelo de governanças internacional quanto às políticas públicas ambientais. Entretanto, a poluição ambiental e seus efeitos deletérios à humanidade e à biodiversidade não respeita fronteiras geopolíticas e nem fica na dependência de posicionamentos ideológicos de governos, devendo ser política de cada um dos países.
No tocante ao Brasil, seu chefe maior nem mesmo compareceu pessoalmente à COP-26, preferindo outras agendas internacionais, perdendo uma oportunidade de demonstrar que o Brasil quer se habilitar a receber recursos financeiros de outros países e da atividade privada. Perde-se a oportunidade de se dar efetivo passo rumo à economia verde e mudar os paradigmas do agronegócio, em especial aos olhos do mundo. Prejudica-se, o mercado para exportação. Não se pode perder de vista que o Brasil é exportador de commodities e altamente vulnerável a boicotes internacionais, decorrente de sua política antiambiental praticada nos últimos tempos.
Em resumo, observamos que os resultados da COP-26 constituíram-se em pequenos avanços, como por exemplo a substituição da eliminação dos combustíveis fósseis por mera menção à redução dos níveis de sua emissão, o que não atende às necessidades do estado de emergências climáticas em que já entramos, segundo renomados cientistas.
Urgente que alteremos as matrizes energéticas do país, substituindo a energia hidrelétricas por energia solar e energia eólica, com incentivos fiscais e financiamentos subsidiado por órgãos governamentais. Importante a implantação de equipamentos veiculares redutores de emissão de gás carbônico, bem como de veículos elétricos, hoje 10% da frota europeia.
Apesar da conjuntura geopolítica não favorável, bem como dos prejuízos decorrentes da retomada econômica no pós-COVID, este ainda não encerrado e que continua a ameaçar a economia mundial, urge que as medidas ambientais sejam retomadas em prol da garantia do futuro da humidade e dos ecossistemas, pois a natureza não pode esperar e a Terra não é resiliente o suficiente, já estando no limite de sua capacidade ecológica.
Passa do momento de substituirmos as palavras por ações, com as adaptações nas atividades econômicas, visando minimizar os efeitos deletérios das emissões de GEE no aquecimento global, adaptando-se as atividades econômicas poluentes, com absorção das externalidades negativas ao preço dos produtos e serviços oferecidos no mercado.
Deve-se construir um consenso internacional para apoio financeiro dos países desenvolvidos aos países pobres e em desenvolvimento, e não apenas haver transferência de tecnologia.
Necessário que o governo brasileiro efetivamente aja para demonstrar à comunidade internacional que mudou seus parâmetros de política ambiental. Do contrário, não haverá disposição de líderes mundiais das grandes potências e nem dos conglomerados internacionais, em investirem em um país que não zela pela proteção de seus bens naturais, considerados o celeiro do mundo, constituindo-se em um risco ao planeta e para a economia, graças ao passivo ambiental que vem gerando ao longo do tempo, inclusive com riscos às instituições financeiras.
O Brasil é reconhecido como um país-chave no equilíbrio climático do planeta, mas precisa se comportar como tal na mesa de negociações, construindo, de maneira madura, consensos e não produzindo dissensos. Antes de fazermos exigências por investimentos a fundo perdido no país, precisamos transformar promessas vagas em planos detalhados de ações, com cronogramas factíveis e cumpri-los. Só assim poderemos passar a gozar de credibilidade internacional e termos condições de impor nossos legítimos anseios e objetivos de contarmos com ajuda internacional para nos auxiliar na proteção ambiental do planeta, sem sacrificarmos a população e nosso produto interno bruto.
O Brasil, alheio aos anseios mundiais por um meio ambiente provedor de dignidade humana, e na contramão da história, perde mais uma oportunidade de compatibilizar economia e desenvolvimento econômico sustentável, tal qual previsto no artigo 170, inciso VI e art. 225 da Constituição Federal. A defesa do meio ambiente na legislação brasileira está na Carta Magna, não se tratando de ideologia de ambientalista, como alguns querem fazer parecer. Até porque meio ambiente faz parte do sistema de direitos humanos, por se tratar de direito fundamental, com proteção garantida em tratados internacionais, dos quais o país é signatário.
Ivan Carneiro Castanheiro é promotor de Justiça (GAEMA – MPSP), mestre em Direito pela PUC-SP, membro do MPD, Prof. da ESMP-SP e da UNIP e vice-diretor ABRAMPA – Região Sudeste.
Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo” [Aqui!].
As conferências do clima da ONU fazem parte do sistema imperialista mundial como a OMC, G20 ou G7. Uma entrevista com Christian Zeller, geógrafo da Universidade de Salzburg
Protestos paralelos por mais proteção climática durante a realização da COP 26 em Glasgow (6 de novembro de 2021)
Por Jakob Reimann para o JungeWelt
A 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática em Glasgow terminou na semana passada. A COP 26 se tornou uma cúpula histórica conforme anunciado?
Qualquer pessoa bem-humorada e talvez um pouco ingênua enfatiza os seguintes pontos na declaração final: Os governos estão comprometidos com o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 grau em comparação com 1850. Uma lenta eliminação do carvão deve ser iniciada. Espera-se que as emissões de gases de efeito estufa caiam 45% nesta década, em comparação com 1990. Os governos devem melhorar seus compromissos de redução de emissões e apresentar relatórios anuais. Mas, em última análise, tudo isso permanece muito geral e não vinculativo. Não custa nada alardear objetivos para o mundo.
A retórica do zero líquido em 2050 revela que os governos estão apostando em uma solução tecnológica. Isso é irreal e repleto de riscos enormes. O chamado “Zero líquido” desenvolve justificativas para que as empresas e seus governos continuem em seu curso anterior. Em algum momento, você será capaz de extrair quantidades gigantescas de CO2 da atmosfera e armazená-lo em algum lugar. Isso não é apenas um absurdo, mas também uma perspectiva criminosa. Falando de forma realista: a COP 26 é mais uma demonstração dos governos de que eles estão conscientemente mantendo a Terra em um caminho de aquecimento, e que estão sobrecarregando a sociedade global, especialmente os pobres, com consequências amargas.
Alok Sharma, presidente da conferência , descreve o chamado Pacto Climático de Glasgow como ” sem precedentes e realmente significativo ” .
Sim, a COP 26 foi significativa porque mostrou ao movimento climático e ao mundo todo mais claramente do que nunca que não se trata de falta de coragem por parte dos governantes, mas das limitações do modo de produção capitalista. Glasgow deixou claro que os governos continuam no curso que escolheram. A COP 27 acontecerá em Sharm El Sheikh, no Egito, sob a supervisão do ditador Al-Sisi, a COP 28 dos Emirados Árabes Unidos, cuja riqueza é em grande parte baseada no petróleo. O movimento climático deve parar de seguir as decisões dessas conferências. A COP pertence ao sistema imperialista mundial, tal como a OMC, o G20 ou o G7.
Em 2015, na COP 21 em Paris, decidiu-se limitar o aumento da temperatura global em comparação com a era pré-industrial a 1,5 grau, se possível. Atualmente, estamos cerca de 1,2 grau acima do ano de 1850. O que esses números significam?
Se os governos implementassem seus compromissos nacionais de redução dos gases de efeito estufa, o mundo provavelmente teria se aquecido em uma média de 2,7 graus até o final do século. Agora sabemos por experiência própria que os governos nem mesmo honram seus compromissos inadequados. Em outras palavras, é muito provável que o desenvolvimento real resulte em um aquecimento de pelo menos três graus até o final deste século. No entanto, as áreas de terra estão aquecendo cerca de uma vez e meia mais. O Ártico provavelmente aqueceria duas vezes mais rápido em comparação com a média. O sistema de aterramento ultrapassará os pontos de inflexão, o que significa que o processo de aquecimento assumirá uma dinâmica própria incontrolável.
Em breve, os semáforos compostos por SPD, Verdes e FDP presumivelmente governarão em Berlim, todos os três partidos estão mais ou menos apegados à abordagem do chamado crescimento verde. O capitalismo verde é uma contradição em termos?
O semáforo foca na modernização verde e nas medidas tecnológicas. O crescimento verde é uma contradição em termos. O modo de produção capitalista é baseado na acumulação de capital. Se gaguejar, escorregamos para uma crise com todas as consequências associadas como desemprego, empobrecimento, etc. O processo de acumulação de capital é sempre ao mesmo tempo um processo de conversão de material biológico, físico e químico, que por sua vez converte energia. Não podemos escapar desse contexto. A modernização verde baseia-se na construção de uma infraestrutura para energias renováveis com matérias-primas baratas, que por sua vez se baseia na pressão dos países imperialistas para baixo dos preços das matérias-primas. Condições neocoloniais acenam. Estou com medo,
As variedades de esquerda de um New Deal Verde, como aquelas representadas nos EUA por Alexandria Ocasio-Cortez e Bernhard Sanders, farão justiça à urgência da crise?
Eu concordo com as variantes de esquerda de um New Deal Verde, na medida em que as preocupações econômicas, sociais e culturais das classes trabalhadoras devem igualmente ser derramadas em um programa alternativo sob as condições de natureza limitada. Mas as propostas do New Deal Verde são, em certa medida, a variante de esquerda da modernização capitalista. Eles não questionam o poder do capital e a compulsão de acumular e crescer. Mesmo os New Deal verdes de esquerda não abalam a propriedade privada de instalações de produção estratégicas. Eles acham que o capitalismo pode ser domado socialmente e organizado de uma forma mais amiga do ambiente. É uma ilusão. Não existe margem de manobra econômica e material-energética para isso. Novos negócios verdes não são uma política real, eles são irreais.
Em sua pesquisa, você fala do capitalismo antropoceno. O que significa o termo?
Com a industrialização capitalista e o início da dinâmica de crescimento, as sociedades intervieram cada vez mais drasticamente no sistema terrestre. Tão forte que, com a grande aceleração após a Segunda Guerra Mundial, finalmente entramos em uma nova época geológica. O Holoceno estável e habitável dos últimos 12.000 anos é história, e estamos na era do Antropoceno dominado pelo homem. O sistema terrestre está se tornando cada vez mais instável e mudando rapidamente. Qualquer estratégia política que dependa de mudanças incrementais é construída sobre a areia nesta situação altamente instável.
Você literalmente representa posições radicais e clama por uma revolução eco-socialista. Com o que se parece?
A meta de 1,5 grau requer uma reconstrução e desmontagem historicamente únicas de grandes partes de todo o aparato produtivo de nossas sociedades. Isso só é possível se rompermos com a compulsão de acumular mais e mais capital e maximizar o lucro e superar o modo de produção capitalista – não apenas teórica e abstratamente, mas muito especificamente em nossas demandas cotidianas.
Precisamos de uma sociedade que produza menos e de forma diferente, transporte menos, cuide mais das pessoas e da natureza, compartilhe riquezas de forma justa e tome decisões em conjunto. Uma convulsão eco-socialista na sociedade visa a apropriação social democrática da produção, do setor financeiro e da infraestrutura de transporte e requer uma expansão massiva da infraestrutura pública, em grande parte gratuita. Só assim a sociedade pode ser organizada de forma democrática, socialmente justa e ecologicamente compatível. O objetivo central de uma alternativa eco-socialista é a divisão justa das horas de trabalho socialmente necessárias. Que significa,
Que papel os movimentos, especialmente os jovens, como Fridays for Future ou Extinction Rebellion, desempenham em seus conceitos?
O movimento climático internacional deve consistentemente e, em princípio, em todos os lugares, tomar o lado dos oprimidos. Movimentos como sexta-feira para o futuro são cruciais. Eles ajudam a mudar o equilíbrio social de poder. Nós, nos países ricos, devemos lutar junto com os movimentos sociais de outras partes do mundo para garantir que os países imperialistas, isto é, os grandes grupos de capital, paguem sua dívida ecológica. Isso significa que eles têm que apoiar financeiramente a reestruturação ecológica dos países pobres. Em primeiro lugar, isso significa que o movimento climático deve atender à demanda de alívio da dívida dos países pobres. Ao mesmo tempo, é importante aprendermos a pensar estrategicamente nesses e com esses movimentos. Temos que desenvolver abordagens de poder de contrapeso social concreto. Em casa no trabalho na escola, na universidade, em todos os lugares. É importante construir suas próprias estruturas estáveis. Um movimento eco-socialista defende que essas abordagens de contrapoder combinam e, em última análise, levam a um processo que fundamental e praticamente supera as estruturas de poder e propriedade existentes. Esse é o processo revolucionário.
Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].
O risco de ultrapassagem de pontos de não retorno no sistema climático – os chamados tipping points – poderia aumentar em cerca de 25% o custo econômico dos danos causados pela mudança climática em comparação com projeções anteriores. A estimativa reflete o cenário principal de um estudo publicado hoje (16/08) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences .
Pontos de não retorno ocorrem quando o aquecimento global empurra as temperaturas para além de um limite crítico, levando a impactos acelerados e irreversíveis. Entre os pontos de ruptura mais investigados pelos cientistas está o tipping point da Amazônia, que pode ser atingido se a floresta perder mais de 25% de sua área de ocorrência. A concretização desta hipótese secaria o bioma e o transformaria em uma bomba de emissão de carbono, além de alterar o regime de chuvas na América do Sul.
O trabalho publicado hoje foi realizado por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Nova York, da Universidade de Delaware e da London School of Economics and Political Science. Os autores – Simon Dietz, James Rising, Thomas Stoerk e Gernot Wagner – destacam que o cenário principal do estudo pode ser muito conservador, e que os custos dessas rupturas podem ser significativamente maiores: há uma chance de 10% de os pontos de não retorno pelo menos dobrarem os custos dos impactos da mudança climática, e uma chance de 5% de que eles tripliquem.
“Os cientistas climáticos há muito tempo enfatizam a importância dos pontos de ruptura do clima, como o degelo permafrost, a desintegração da camada de gelo e as mudanças na circulação atmosférica. No entanto, exceto por alguns poucos estudos fragmentados, a economia climática ignorou esses dados ou os representou de forma altamente estilizada”, afirma Simon Dietz, autor principal do artigo e professor da London School of Economics and Political Science. “Fornecemos estimativas unificadas dos impactos econômicos de todos os oito pontos de ruptura climática cobertos pela literatura econômica até o momento.”
As perdas econômicas indicadas no estudo ocorreriam em quase todos os lugares do mundo, e as estimativas incluem danos climáticos pela elevação do nível do mar em 180 países. Os autores acreditam que o modelo pode ser atualizado à medida que mais informações sobre os pontos de ruptura forem descobertas.
Os oito pontos de ruptura considerados no estudo são:• Ponto de não retorno da floresta tropical amazônica (também chamado de dieback ou tipping point) liberando CO2, que flui de volta ao ciclo do dióxido de carbono;
• Colapso da circulação meridional de capotamento do Atlântico (AMOC), interferindo em uma série de sistemas climáticos e na regulação da temperatura do planeta;
• Desintegração da Folha de Gelo da Antártida Ocidental, aumentando a elevação do nível do mar;
• Desintegração da Folha de Gelo da Groenlândia, o que aumenta a elevação do nível do mar;
• Perda de gelo marinho ártico, resultando em mudanças na forçagem radiativa, que afeta diretamente o aquecimento.
• Descongelamento do permafrost, levando ao feedback de carbono, resultando em emissões adicionais de CO2 e metano, que fluem de volta para os ciclos dos dois gases;
• Dissociação dos hidratos de metano oceânicos resultando em emissões adicionais de metano, que fluem de volta para o ciclo do metano.
• Variabilidade da monção de verão indiana afetando diretamente o PIB per capita na Índia.
Por Juan Bordera e Fernando Prieto para o site Contexto y Acción
Em 23 de junho, algo muito incomum aconteceu. A AFP (Agence France Press) vazou parte do conteúdo do sumário para políticos do Grupo II do IPCC ( Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ) – responsável por analisar os impactos das mudanças climáticas. A notícia correu o mundo, e a manchete mais repetida – tirada do próprio relatório – foi: “A vida na Terra pode se recuperar de grandes mudanças climáticas evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas. Não a humanidade ” . A anomalia reapareceu em dois meses. Outra violação no outrora hermético IPCC, outro vazamento.
O CTXT teve acesso ao conteúdo de outra parte do Sexto Relatório do IPCC, a organização na qual cientistas de todo o mundo, de diferentes áreas do conhecimento, colaboram voluntariamente e a título de prestígio, numa das mais promissoras cooperações internacionais esforços que existem. No IPCC buscam formar uma série de relatórios que, ultimamente a cada 5-6 anos, atualizem o conhecimento sobre o desafio – com duas faces que se entrelaçam – o mais importante que temos: adaptar-se ao caos climático que já geramos, e elucidar como caminhar em direção a uma economia e um modelo de energia que pode durar no tempo. Seus esforços são divididos em três grupos para preparar relatórios relacionados entre si: Ciência (Grupo I), Impactos (Grupo II) e Mitigação (Grupo III).
A explicação de por que esses vazamentos estão ocorrendo não admite dúvidas: há muita gente dentro da própria organização muito preocupada com a atual situação de emergência, pela tepidez de algumas das conclusões dos sucessivos relatórios, e também pelo manifesto dificuldade de captar nas políticas as medidas propostas. O IPCC está em funcionamento desde 1990 e, de então até agora, nada aconteceu além de um aumento muito evidente das emissões e dos efeitos colaterais negativos, embora isso seja responsabilidade da inércia econômica, social e política. É por isso que o conteúdo das sínteses para os políticos está a ser filtrado, para evitar que o relatório se transforme em demasia no processo e para chamar a atenção para isso numa década em que vamos arriscar tudo.
Qual e a situação atual? Resumindo: recordes extraordinários de temperatura não param de acontecer em todos os lugares, como o do Canadá há um mês, onde o recorde anterior foi quebrado por três dias consecutivos para chegar a cinco graus a mais de uma vez, muito perto de 50ºC. Também há inundações além de qualquer lógica, como as da Alemanha, Bélgica ou China, com centenas de desaparecidos e mortais, e claro, enormes prejuízos econômicos, além de enormes incêndios em grande parte do planeta. Nos últimos dias, a Grécia e a Turquia têm sido os bilhetes perdedores na loteria climática. Uma loteria em que todos os países têm muitos números e não haverá ganhador.
Feitas as apresentações , passemos ao relatório. Nesse caso, o vazamento é sobre a primeira minuta do sumário para os políticos do Grupo III, encarregado de analisar como reduzir emissões, mitigar e mitigar impactos. Algumas das diretrizes que podemos extrair da minuta do relatório, cujo conteúdo final será publicado em março de 2022, são:
– “Seria necessário que as emissões de CO2 atingissem o seu máximo antes de 2025 e atingissem o zero líquido entre 2050 e 2075”. Isso implica maior ambição no curto e médio prazo, e ações aceleradas e efetivas de implementação, que esbarram em obstáculos políticos, econômicos e sociais. O que pode ser mais eficiente do ponto de vista econômico pode ser politicamente inviável ou eticamente inaceitável. E isso é fundamental, as mudanças devem levar em conta a desigualdade para serem aceitas (veja o caso dos coletes amarelos).
– “Não devem ser construídas novas centrais a carvão ou a gás, devendo as actuais reduzir a sua vida útil”, que normalmente é superior a 30 anos, para cerca de 10 anos.
– É reconhecido que alcançar emissões líquidas zero requer um certo grau de captura e sequestro de carbono e remoção de carbono (CDR-CCS-BECCS). Tecnologias que não se desenvolvem muito longe disso, e que representam mais um pontapé de saída do pensamento de que a evolução tecnológica sempre virá em seu socorro. Contrariando absolutamente um dos princípios básicos da ciência: o princípio da precaução. Como se não bastasse, há pesquisas que levantam questões sobre o potencial do solo em armazenar tanto carbono. Ainda mais em um planeta em aquecimento.
– “A mudança tecnológica implementada até agora em nível global não é suficiente para atingir os objetivos climáticos ou de desenvolvimento. Desde 2010, o custo das tecnologias renováveis caiu acima das expectativas (especialmente solar -87%, e baterias -85%), mas no total, solar e eólica respondem por 7% do fornecimento de eletricidade. ” Os avanços esperados em outras tecnologias, como captura e sequestro de carbono, energia nuclear e CDR (remoção de dióxido de carbono), têm sido muito menos promissores.
– “O crescimento do consumo de energia e materiais é a principal causa do aumento dos Gases de Efeito Estufa (GEE). A ligeira dissociação do crescimento do uso de energia [e em grande parte motivada pela realocação da produção] não tem sido capaz de compensar o efeito do crescimento econômico e populacional ”. Isso mostra que os desenvolvimentos tecnológicos que permitem melhorias de eficiência e a mudança para fontes de energia de baixa emissão não são suficientes. Portanto, uma transição muito massiva no consumo de materiais ao redor do mundo pode até, temporariamente, disparar as emissões.
– Espera-se ser capaz de fazer uma transição do veículo leve de combustão para o veículo elétrico, enquanto para máquinas pesadas é reconhecido que ainda não há tecnologia apropriada (daí o compromisso questionável com o hidrogênio), e mais pesquisas devem ser feitas . O risco de ficar sem materiais essenciais para a bateria é explicitamente mencionado, mas depende muito da reciclagem de materiais.
A temperatura média na Terra é de cerca de 15 graus Celsius. Aumentar apenas dois graus seria como aumentar quase cinco graus em um corpo humano
–O aquecimento global associado aos vários cenários de emissão publicados varia de menos de 1,5ºC a mais de 5ºC em 2100 em comparação com os níveis pré-industriais. Os cenários de linha de base sem novas políticas climáticas levam a um aquecimento global médio entre 3,3ºC e 5,4ºC. A temperatura média na Terra é de cerca de 15 graus Celsius. Aumentar apenas dois graus seria como aumentar quase cinco graus em um corpo humano. Talvez essa comparação ajude a entender o motivo de tanta preocupação com os famosos dois graus. A estabilidade climática seria impossível e o risco de vida enorme. O problema é que a trajetória atual não só vai exceder diretamente esses dois graus, mas vai desencadear ainda mais os temidos mecanismos de feedback, que se os freios de emergência do sistema não fossem acionados imediatamente, eles nos levariam a uma mudança climática que já está completamente desenfreada. Apesar disso, não é necessário paralisar, há possibilidades de evitar os piores cenários, embora seja necessário atuar de forma coordenada. Já.
– “Não é incompatível lutar contra a pobreza energética e as alterações climáticas. Isso porque os maiores emissores são os mais ricos: os 10% mais ricos emitem dez vezes mais do que os 10% mais pobres. É por isso que aumentar o consumo dos mais pobres aos níveis básicos de subsistência não aumentaria muito as emissões ”.
– Destaca-se também a expansão de algumas atividades econômicas intensivas em emissões, por exemplo “a aviação aumentou 28,5% de 2010 a 2020”. Apesar disso, neste momento, o governo espanhol está feliz em dar milhões para a expansão dos aeroportos de Barajas e El Prat. Se forem seguidos os relatórios sucessivos que o IPCC vai tornar públicos nos próximos meses, esses projetos devem ser vistos como o mais absoluto absurdo que são, exceto para aqueles que lucram com eles. Evitar essas extensões seria um bom ponto de inflexão positivo, o que poderia significar uma mudança na dinâmica.
–Reconhecimento de que existe um problema não resolvido com os plásticos.
–É implicitamente aceito que os cenários de mitigação pressupõem perdas de PIB. No fundo, admite- se o que a própria Agência Europeia do Ambiente disse: a preservação do ambiente não é compatível com o crescimento econômico . De fato, o relatório aponta: “Em cenários que contemplam uma redução na demanda de energia, os desafios de mitigação são significativamente reduzidos, com menor dependência de remoção de CO2 (CDR), menor pressão sobre a terra e menores preços. Do carbono. Esses cenários não supõem uma diminuição do bem-estar, mas sim uma prestação de melhores serviços. ” Este é literalmente um cenário de adaptação ao decrescimento.
Em relação às medidas e medidas a serem tomadas, o relatório destaca que não existe um mecanismo de política ou sistema de governança único que possa, por si só, acelerar a transição necessária. Seria necessária uma combinação destes que serão diferentes em cada contexto.
Exemplos de mecanismos seriam os legislativos, que podem incentivar a mitigação ao fornecer sinais claros aos diferentes atores, através do estabelecimento de objetivos; ou a criação de instituições e mecanismos de mercado, como estabelecer um preço sobre o carbono, desde que a justiça social seja levada em consideração. Outros fatores que podem ajudar seriam os movimentos sociais climáticos – o IPCC está reconhecendo o trabalho das greves climáticas – que ajudam a provocar um aumento em outro dos fatores-chave: um alto percentual de pessoas comprometidas. Também enfatiza que as medidas para alcançar as reduções devem ser mudanças no comportamento social: menos transporte, realocação de trabalho, uma dieta mais vegetariana, etc.
E aqui está uma das chaves, a mudança radical essencial em um sistema econômico cuja operação perversa de acumulação e reprodução do capital na perpetuidade nos trouxe ao ponto crítico atual não é claramente mencionada. Um ponto em que é difícil esconder a evidência de que outro ponto, o sem volta, está, pelo menos, muito próximo. Como já aconteceu com a Amazônia, que emite mais carbono do que absorve, ou com a Groenlândia, que quebrou recordes de temperatura e despejou água doce e fria no oceano , aumentando o risco de desaceleração e colapso da corrente termohalina, o transportador cinto, vital para a estabilidade do nosso sistema climático. E cujo colapso teria consequências incalculáveis.
Se os freios de emergência do sistema não fossem acionados imediatamente, eles nos levariam a uma mudança climática que já está completamente descontrolada.
Aí podemos vislumbrar a pequena / grande falha do corpo, que por definição parece difícil de resolver e que fará com que esses vazamentos continuem a ocorrer: o IPCC trabalha na busca de consensos amplos, o que dificulta a tomada de posições mais ousadas. em conta no relatório final, e não estamos falando de cientistas radicais solitários: além da Agência Europeia do Meio Ambiente, a Nature, uma das revistas acadêmicas de maior prestígio do mundo já publicou estudos mostrando que a única “solução” tanto para a transição energética quanto para a emergência climática é assumir que continuar crescendo sem causar mais danos é obviamente impossível e, conseqüentemente, uma estabilização e / ou diminuição da energia precisa ser planejada. esfera material. Distribua para viver bem, mas dentro dos limites.
Recentemente, o barômetro do consumo responsável francês mostrou que a opinião pública é mais aberta do que muitos gostariam que você acreditasse. 52% dos franceses acreditam que o modelo baseado no mito do crescimento infinito deve ser totalmente abandonado. Assim, aumenta a esperança de trabalharmos na linha de aceitar o problema e ao mesmo tempo trabalhar para remediá-lo globalmente da forma mais justa possível, pois nossas chances de continuar crescendo sem travar na tentativa diminuem.
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* Agradecemos aos membros do coletivoScientist Rebellion por colaborarem em nos enviar o vazamento. Ao cientista do CSIC Antonio Turiel, pela orientação na realização deste artigo. E a alguns cientistas que não querem ser identificados – para evitar riscos ocupacionais – que também ajudaram. Eles sabem quem são.
* Será realizada nesta segunda-feira, dia 9 de agosto, a coletiva de imprensa de apresentação do relatório final do Grupo I.
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Juan Bordera é roteirista, jornalista e ativista da Extinction Rebellion and València en Transició.
Fernando Prieto é doutor em Ecologia, pelo Observatório de Sustentabilidade.
Este texto foi escrito inicialmente em Espanhol e publicado pelo site “Contexto y Acción” [Aqui!].
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou hoje um novo relatório sobre as ciências físicas que explicam as mudanças climáticas passadas, presentes e futuras.
O relatório apresenta as projeções mais recentes para o aumento da temperatura, avanços na atribuição de eventos climáticos extremos às mudanças climáticas, riscos maiores de alcançarmos pontos de inflexão em que impactos significativos se tornam irreversíveis e muito mais. Duas descobertas são especialmente relevantes:
• O mundo pode atingir 1,5°C de aquecimento nas próximas duas décadas. • Ainda resta uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C até 2100, mas será necessária agir de maneira decisiva e muito rapidamente para conter as emissões nesta década, bem como zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050.
Leia o posicionamento de Helen Mountford, vice presidente de Clima e Economia do World Resources Intitute (WRI):
“Se este relatório do IPCC não o assustar ao ponto de agir, deveria. O relatório elabora um quadro muito sério do mundo implacável e inimaginável que nos espera se nosso vício em queimar combustíveis fósseis e destruir florestas continuar. Uma das conclusões mais impressionantes é que podemos atingir 1,5°C de aquecimento uma década antes do que o IPCC havia previsto anteriormente”.
“As manchetes recentes sobre enchentes mortais, incêndios florestais e secas que acontecem ao redor do mundo parecem cenas de um romance distópico de ficção científica, mas são manifestações do aquecimento global que nossa poluição climática já induziu no sistema. Os impactos perigosos e custosos que estamos experimentando agora parecerão moderados em comparação com o que enfrentaremos se não limitarmos o aquecimento a 1,5°C até o final deste século. Isso reforça a urgente necessidade de as nações ricas fornecerem muito mais recursos financeiros aos países em desenvolvimento que são os mais vulneráveis aos impactos climáticos e os menos responsáveis pelas emissões. Este financiamento é essencial para que possam proteger pessoas, fontes de alimentos e recursos hídricos das consequências inevitáveis de um clima em transformação”.
“Embora as descobertas do IPCC sejam alarmantes, elas não podem se traduzir em desesperança ou falta de ação. Pelo contrário, a necessidade de cortar rapidamente as emissões de gases de efeito estufa ficará cada vez maior à medida que as temperaturas aumentam e os impactos climáticos pioram mais e mais. Esse relatório deve estimular cada país, empresa, cidade e cidadão a lutar com todas as forças para evitar todo aquecimento possível”.
“A boa notícia é que sabemos o que é necessário para evitar um futuro calamitoso e ao mesmo tempo gerar empregos e um crescimento econômico de baixo carbono. O relatório mostra que temos uma pequena janela de oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C, mas só o faremos se agirmos de forma decisiva. Fazer isso exigirá mudanças rápidas e radicais na maneira como usamos e produzimos energia, alimentos, administramos o uso da terra e transportamos pessoas e bens”.
“Nossa oportunidade de evitar impactos ainda mais catastróficos tem uma data de validade. O relatório sugere que esta década é nossa última chance de adotar as medidas necessárias para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Se falharmos coletivamente em reduzir de forma rápida as emissões de gases de efeito estufa até o fim da década, essa meta ficará fora de alcance”.
“Por muito tempo, diferentes interesses impediram o progresso e lançaram dúvidas sobre a ciência do clima, que é sólida como uma rocha. Esses dias devem ficar no passado”.
“Fique atento aos líderes mundiais que estão no cargo hoje. Nosso destino coletivo será determinado por suas escolhas. Este é um momento em que todos precisam remar na mesma direção e exigir que seus líderes tomem medidas climáticas corajosas, como se nosso futuro dependesse disso – porque realmente depende”.
Leia o posicionamento de Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil:
“O relatório do IPCC é explicito, temos 10 anos críticos diante de nós para conter o aumento da temperatura média da Terra. O papel do Brasil é acelerar a transição da sua economia para um modelo bem menos dependente de combustíveis fósseis. Nós podemos fazer isso através de energia limpa e biocombustíveis, e gerando empregos e novos mercados para empresas nacionais como a Petrobrás. Há oportunidades para o país de modernização e revitalização nesta crise global, mas quanto mais demorarmos para nos posicionarmos competitivamente, mais perderemos oportunidades e mercados.”
“Os desmatamentos na Amazônia e em outros biomas brasileiros contribuem para o aquecimento do planeta e não beneficiam o país, seu povo e sua economia formal. A ciência e a história recente do país revelam claramente que podemos produzir mais e melhor sem desmatar, e que os biomas são fundamentais para a agricultura e para garantir a segurança hídrica e energética de nossas cidades.”
Política negacionista de Jair Bolsonaro pode minar esforços climáticos globais e isolar o Brasil ainda mais no cenário econômico e político global
2021 poderá ser lembrado no futuro como o ano em que a natureza e os cientistas se uniram para dar o alerta: a janela de oportunidade para manter o aquecimento global em níveis minimamente seguros para a humanidade está se fechando. Eventos climáticos extremos simultaneamente nos dois hemisférios do planeta ocorreram justamente nas semanas que antecederam o lançamento do primeiro relatório da nova série de avaliações do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ocorrido nesta segunda-feira (09/08).
A ciência do clima nunca foi tão precisa e tão clara: a influência humana sobre o clima é um fato estabelecido e indiscutível e a hora de agir é agora. Embora alguns impactos climáticos não sejam mais reversíveis, como no caso do derretimento de geleiras e elevação do nível dos oceanos, o cenário geral ainda não está definido e essa é a grande mensagem deste relatório: as escolhas que fizermos agora determinarão nosso futuro. Limitar o aumento da temperatura em níveis relativamente seguros ainda é cientificamente possível. O que fizermos agora, o que empresas e políticos fizerem agora definirá nosso futuro.
Estamos no início da década mais decisiva da História para a ação climática. Com o novo relatório do IPCC, temos a mais abrangente e certeira avaliação do estado do clima no mundo e do que está por vir, dependendo do curso que escolhermos agora. Nos cenários de menor ação climática, as perspectivas são desastrosas: cada meio grau adicional de aquecimento global causa um aumento estatisticamente significativo nos extremos de temperatura.
O que o mundo está vivendo em 2021 já é afetado por um aumento médio de 1°C na temperatura e as perspectivas de curto prazo não são animadoras: o novo relatório do IPCC mostra que o mundo ultrapassará a meta de 1,5°C já na próxima década, antes do previsto pelo relatório anterior. Isso não significa que a meta de 1,5°C no longo prazo esteja comprometida. Embora os níveis de aquecimento global de 1,5°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais sejam excedidos até o final do século 21 em todos os cenários projetados pelo IPCC, o cenário de menor emissões mostra que no longo prazo o limite de 1,5°C ainda é possível – e essa é a boa notícia e também o principal alerta que este relatório traz: não podemos abrir mão dessa meta. Não podemos permitir que interesses pessoais, eleitorais e setoriais se sobreponham aos interesses da humanidade presente e futura.
Todos os cenários analisados pelo IPCC apontam para uma mesma conclusão: é preciso cortar emissões e cortá-las o mais rápido possível. Para isso, é preciso que todos se empenhem para alcançar a neutralidade de carbono antes de 2050: governos nacionais, subnacionais e empresas devem estabelecer planos consistentes, com ações concretas imediatas e metas intermediárias.
Para o Brasil e demais países da bacia amazônica, o conteúdo do relatório do IPCC traz alertas adicionais: ele confirma que já não basta zerar as emissões – é preciso remover o carbono já existente na atmosfera. Como a floresta amazônica é um dos grandes sumidouros naturais de carbono do planeta, sua preservação é mais importante que nunca. Estudos indicam que partes da floresta já estão emitindo mais carbono do que capturando, em função de sua degradação que, se persistir nos níveis atuais, poderá pressionar todo o bioma além de seu ponto de equilíbrio, afetando o clima em todo o planeta, mas mais especialmente na América do Sul, colocando em risco a segurança alimentar, hídrica e energética do Brasil. Infelizmente, esse é o cenário para o qual o presidente Jair Bolsonaro está conduzindo nosso país.
Outro alerta do IPCC que tem relação direta com o Brasil diz respeito ao melhor entendimento dos gases não-carbono que também têm efeito estufa, como o metano. As emissões diretas da agropecuária representaram 28% do total brasileiro em 2019 segundo o 8º relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), realizado pelo Observatório do Clima. Desse total, 61,1% vieram da fermentação entérica. Ou seja, além de ser um fator de pressão sobre a floresta, a pecuária é também emissora de gases para os quais o IPCC pede mais atenção.
Em um ano em que a conta da luz e o preço da comida subiram vertiginosamente por conta de fatores climáticos, o relatório do IPCC adverte: o aquecimento global intensificará ainda mais as mudanças nos ciclos da água, incluindo a variabilidade ano a ano e a severidade dos ciclos úmidos e secos.
“Certamente não precisamos de um novo relatório para nos dizer que estamos em uma emergência climática: ela já afeta milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já pagamos mais caro pela energia elétrica, por nossa comida e estamos em sério risco hídrico por causa do clima. O que o novo relatório do IPCC sinaliza são as opções que podemos fazer hoje para que o amanhã seja seguro para todos. Em todo o mundo, o desafio é mudar a matriz energética. No Brasil, onde boa parte de nossa energia já é limpa, o desafio é zerar todo o desmatamento, que é o que nos coloca como sexto maior emissor de gases de efeito estufa no mundo. A melhor ciência do planeta está nos mostrando que o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho da catástrofe e é isso que não podemos aceitar: interesses eleitorais e setoriais não podem prevalecer sobre o bem comum da nação.” Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.
Exemplo de como somos afetados pelas mudanças climáticas
Geada afeta áreas de restauração florestal na região da Serra da Mantiqueira
Mudas nativas plantadas em novembro e abril foram as mais atingidas
As geadas e temperaturas negativas registradas em julho na região da serra da Mantiqueira (divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais) afetaram diretamente até 80% das áreas em restauração do projeto Raízes do Mogi Guaçu, o equivalente à 47 hectares, em apenas uma das 18 áreas atingidas a estimativa é de que mais de 20.000 mudas já plantadas tenham sido afetadas. As geadas poderão atrasar os trabalhos de restauração em até um ano na região.
De acordo com Ana Balderi, co-fundadora e coordenadora de restauração florestal da Associação Ambientalista Copaíba, o fenômeno foi inédito na região. “Por meio da rede do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica , aplicamos técnicas e compartilhamos experiências com produtores da região sul do país, normalmente mais habituados com geadas. Infelizmente, ainda assim mais de 68.000 mudas foram atingidas ainda no viveiro e ainda não sabemos exatamente a extensão dos danos causados”, explica Balderi.
Das mais de 100 espécies nativas utilizadas para a restauração na região poucas apresentaram resiliência para eventos extremos. O Raízes do Mogi Guaçu é uma iniciativa do WWF-Brasil e da International Paper com apoio da HP, e prevê restaurar até 200 hectares nas áreas de nascentes do rio Mogi-Guaçu.
O que é o WG1 do AR6
O IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas. O IPCC não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos para embasar políticas mundiais globais e nacionais.
Desde sua fundação o IPCC produziu cinco grandes relatórios – o que começa a ser divulgado em 2021 é o sexto, daí a sigla AR6 (de Assessment Report, em inglês). Dada a amplitude e complexidade desses relatórios, eles são produzidos e divulgados em partes. O AR6 é composto por quatro partes: em 2021, é divulgada a parte de ciência física, resultado dos esforços de cientistas de todo o mundo, incluindo Brasil, reunidos no Grupo de Trabalho 1 (WG1, de working group, em inglês).Em 2022, virão as seções sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação, mitigação, e uma síntese geral será lançada em 2022).
O Grupo de Trabalho I é formado por especialistas que combinam coisas como observações de concentrações de gases de efeito estufa, medições de temperatura e precipitação, degelo e medidores do nível do mar. Eles executam modelos sofisticados em supercomputadores para obter uma imagem do sistema climático e como e por que ele está mudando. É aqui que obtemos nossa compreensão das mudanças climáticas passadas, presentes e futuras. No caso de projeções, os cientistas apresentam perspectivas para vários cenários de emissões: desde uma redução drástica e rápida das emissões até a continuidade do padrão atual.
Sobre o WWF-Brasil
O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 25 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Saiba mais em wwf.org.br
Cientistas afirmam que para reduzir impacto sobre o clima único nível tolerável de emissão de CO2 é zero
Que as mudanças climáticas atuais são causadas pelos humanos apenas os negacionistas duvidam. Mas os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) descobriram mais detalhes sobre essa contribuição antrópica: do aquecimento de 1,09oC observado entre 2011 e 2020 em comparação com o período pré-industrial (1850-1900), 1,07 oC – quase tudo – provavelmente deriva de atividades humanas como o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis.
Esta é uma das conclusões do Grupo de Trabalho 1 para o Sexto Relatório de Avaliação (AR6) divulgado nesta segunda-feira (9/8). As afirmações do IPCC têm sempre algum indicador de probabilidade, o que já fez o Painel ser acusado de “conservadorismo” e de facilitar o trabalho dos negacionistas. É exatamente por isso que o relatório de hoje causa apreensão.
Na linguagem do IPCC, o conjunto de eventos climáticos extremos recentes seria extremamente improvável de ocorrer sem influência humana. E ela provavelmente contribuiu para um aumento global da precipitação desde os anos 1950 e mais aceleradamente desde a década de 1980. Há alta confiança sobre a influência humana no aumento da precipitação extrema associada a ciclones tropicais, e é virtualmente certo que a frequência e a intensidade de extremos de calor e a intensidade e duração de ondas de calor aumentaram na maior parte do planeta desde 1950.
No relatório de hoje, o AR6 apresenta uma nova série de cenários de emissões – cinco no total – batizado de Projeto de Intercomparação de Modelos Climáticos Versão 6 (CMIP6). São dois cenários de baixas emissões (SSP1-1.9 e SSP1-2.6), um de médias (SSP2-4.5) e dois de altas (SSP3-7 e SSP5-8.5).
Em todos os cenários, a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris – limitar o aquecimento a 1,5o -, é ultrapassada no começo da próxima década, dez anos antes do previsto. No cenário SSP1-1.9, de emissões mais baixas, o aquecimento voltará a estar abaixo desse patamar somente no fim do século e em resposta a um corte ambicioso de emissões que começasse já.
A temperatura global entre 2081 e 2100 será muito provavelmente 1oC a 1,8oC mais alta do que entre 1850 e 1900 no melhor cenário de emissões e de 3,3oC a 5,7oC mais quente no pior cenário.
Algumas regiões semiáridas e a chamada Região da Monção da América do Sul, que engloba parte do Centro-Oeste brasileiro, da Amazônia, da Bolívia e do Peru, deverão ter os maiores aumentos de temperatura nos dias mais quentes do ano – até duas vezes acima da taxa de aquecimento global.
Outra novidade do AR6 são as estimativas regionalizadas de médio prazo (próximos 30 anos), que podem orientar medidas de adaptação. Todas as regiões do planeta sofrerão mudanças do clima nesse período, e essas mudanças serão maiores com 2oC do que com 1,5oC de aquecimento. Em 2050, se o limite de 2oC for atingido, muitas regiões terão aumento na probabilidade de vários eventos extremos simultâneos ou sequenciais, afetando, por exemplo, regiões produtoras de alimentos.
Longo passado pela frente
As emissões do passado já tornaram irreversíveis algumas consequências do aquecimento global, como o degelo, o aumento no nível do mar e as mudanças nos oceanos.
É virtualmente certo que o nível dos oceanos continuará subindo, já que a expansão térmica é irreversível na escala de centenas a milhares de anos, mas a elevação neste século dependerá do cenário de emissões: de 28 cm a 55 cm no melhor cenário (SSP 1.9) em relação à média 1995-2014; 63 cm a 1,02 m no pior (SSP 8.5). Neste pior cenário, picos de maré alta extrema que ocorriam uma vez a cada século poderão ocorrer uma vez por ano em 80% das localidades com medições de maré do mundo. Desde o início do século 20, o nível do mar subiu 20 cm, mas a taxa de elevação está crescendo: passou de 1,35 mm por ano entre 1901 e 1990 para 3,7 mm por ano entre 2006 e 2018.
Também é virtualmente certo que o oceano aqueceu nos últimos 50 anos e é extremamente provável que a influência humana seja o principal causador desse aquecimento, assim como da acidificação dos mares. Somente entre 2011 e 2020, o aquecimento da temperatura dos oceanos foi de 0,88oC. Neste século, o aquecimento do oceano pode ser duas vezes maior no melhor cenário (SSP1-2.6) e até oito vezes maior no pior (SSP5-8.5), em comparação ao período de 1971 a 2018. As ondas de calor marinhas também estão mais frequentes e a influência humana muito provavelmente contribuiu com 84% a 90% delas desde 2006.
O derretimento de geleiras como as dos Alpes, dos Andes e do Himalaia é a maior causa isolada (41%) do aumento do nível do mar entre 1901 e 2018, enquanto o degelo da Groenlândia e da Antártida respondem por 29%. Na última década a cobertura de gelo marinho no Ártico e nas geleiras atingiu a sua menor extensão em 170 anos no inverno e em mil anos no verão. O derretimento atual das geleiras é o mais acelerado em 2 mil anos.
E a massa das geleiras continuará diminuindo durante décadas mesmo se a temperatura global for estabilizada. Uma previsão de alta confiança é a de que os mantos de gelo da Antártida e da Groenlândia continuarão a perder massa neste século.
A circulação meridional do Oceano Atlântico muito provavelmente se enfraquecerá no século 21 em todos os cenários de emissão. A magnitude deste declínio ainda têm alto grau de incerteza. A confiança de que ela não sofrerá um colapso abrupto é média, o que impactaria nos padrões de tempo e no ciclo da água em grande parte do mundo, alterando os padrões de chuvas na África, Ásia e América do Sul.
Emissões zero ou caos
Segundo o IPCC, para diminuir em qualquer medida o aquecimento global em curso é fundamental que as emissões líquidas de dióxido de carbono (CO2) sejam zeradas. Cada trilhão de toneladas de CO2 emitidas cumulativamente na atmosfera causa um aquecimento global de 0,27oC a 0,63oC, o que é conhecido como resposta climática transitória às emissões. Além disso, a concentração de outros gases de efeito estufa, como o metano (CH4), precisam ser substancialmente reduzidas.
As concentrações dos três principais gases de efeito estufa – CO2, metano e óxido nitroso (N2O ) – são as maiores em 800 mil anos. Somente em relação ao CO2, as concentrações atuais não se repetem há pelo menos 2 milhões de anos.
Desde 1850, a humanidade já emitiu 2,390 trilhões de toneladas de CO2. Para que a chance de estabilizar a temperatura em 1,5oC seja a maior possível, a humanidade não poderá emitir mais do que 300 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a seis anos de emissões mundiais atuais de gases de efeito estufa.