Enquanto o calor aperta, a poda drástica continua dilapidando a arborização em Campos

A poda drástica da arborização urbana caminha exatamente na direção contrária do que uma cidade deveria fazer para se adaptar às mudanças climáticas

A fotografia abaixo, feita na esquina entre Riachuelo e Sete de Setembro em Campos dos Goytacazes, mostra uma prática que continua sendo tratada como corriqueira: a poda extremamente severa de árvores urbanas, com a retirada de grande parte de suas copas. O problema é que, em tempos de agravamento da crise climática, aquilo que já poderia ser considerado um manejo inadequado da arborização passa a representar também um sério equívoco de política urbana.

Árvores não são meros elementos decorativos das cidades. Suas copas produzem sombra, reduzem o aquecimento de calçadas, ruas e edificações e, por meio da evapotranspiração, contribuem para diminuir a temperatura do ambiente urbano. Além disso, ajudam na retenção da água das chuvas, na captura de carbono e de material particulado e oferecem abrigo e alimento para a fauna. Retirar drasticamente uma copa significa eliminar, justamente nos meses mais quentes, boa parte desses serviços ambientais.

A situação se torna ainda mais contraditória diante da perspectiva de um El Niño muito forte, que poderá contribuir para condições de calor particularmente severas no Brasil no final de 2026 e início de 2027. Para uma cidade quente como Campos dos Goytacazes, preparar-se para temperaturas extremas deveria significar aumentar a cobertura arbórea e preservar árvores adultas, principalmente nas áreas densamente urbanizadas, e não transformar árvores de grande porte em troncos praticamente desprovidos de copa.

Há ainda outro problema: podas excessivamente severas podem provocar estresse, favorecer doenças e produzir brotações estruturalmente frágeis, reduzindo a estabilidade e a longevidade das próprias árvores. Assim, uma intervenção muitas vezes justificada em nome da “segurança” pode, quando tecnicamente inadequada, produzir novos problemas no médio prazo.

A imagem que ilustra esta postagem é, portanto, mais do que o registro de algumas árvores podadas. Ela sintetiza uma contradição que precisa ser enfrentada em Campos: não existe política séria de adaptação ao calor extremo sem uma política igualmente séria de arborização urbana. Em plena emergência climática, retirar indiscriminadamente as copas das árvores significa desmontar uma das poucas infraestruturas naturais de resfriamento que a cidade já possui — e ainda por cima gratuitamente. Por isso, mais do que interromper a prática das podas drásticas, é necessário que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente comece a desenvolver um Plano Diretor Municipal de Arborização, capaz de estabelecer critérios técnicos para plantio, escolha de espécies, manejo, poda, substituição e ampliação da cobertura arbórea. Diante do agravamento da crise climática e da perspectiva de episódios cada vez mais intensos de calor, arborizar Campos deixou de ser uma questão meramente paisagística para se tornar uma política essencial de adaptação climática e de saúde pública.

Quando as geleiras desabam: a crise climática chega ao Himalaia

O colapso ocorrido na fronteira entre o Nepal e a China mostra como o aquecimento da atmosfera pode ampliar a instabilidade das geleiras e transformar regiões de alta montanha em áreas de risco crescente

O que aconteceu ontem (26/8) na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, oferece mais um alerta sobre os riscos associados ao rápido aquecimento do planeta. As primeiras análises indicam que uma grande porção de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros, produzindo uma avalanche de gelo e rochas que bloqueou temporariamente um rio. O rompimento dessa barreira lançou, em seguida, uma enorme massa de água, lama, rochas e sedimentos pelos vales, destruindo comunidades e infraestrutura. A hipótese inicial de um terremoto como causa do desastre perdeu força depois que o USGS concluiu que o sinal sísmico registrado resultou do próprio colapso da geleira.

Ainda será necessário investigar em detalhe o papel do aquecimento global neste evento específico, e essa cautela é importante. Entretanto, o contexto climático é inequívoco: as geleiras do Himalaia estão perdendo massa rapidamente, e temperaturas mais elevadas favorecem o derretimento do gelo, a perda de estabilidade das geleiras e do permafrost e a formação de condições capazes de desencadear avalanches, deslizamentos e inundações repentinas. No caso de ontem, imagens de satélite chegaram a indicar uma forte redução da cobertura de neve nas horas anteriores ao colapso, possivelmente associada a temperaturas elevadas.

Disponibilizo abaixo um vídeo que mostra a impressionante violência do evento. As imagens ajudam a compreender por que aquilo que ocorre nas altas montanhas do Himalaia não deve ser visto como um fenômeno distante da crise climática global.

O fato é que à medida que o funcionamento do capitalismo aquece a atmosfera terrestre,  há uma alteração da estabilidade de geleiras, encostas, solos congelados e sistemas hidrológicos. O resultado é um planeta no qual eventos capazes de produzir grandes desastres podem surgir de forma cada vez mais abrupta e atingir populações que dispõem de poucos minutos — ou mesmo segundos — para reagir.

 

Oceanos mais quentes: o sinal de alerta que vem do mar

A reportagem “Com El Niño, dia mais quente em oceanos é registrado pelo Copernicus”, assinada pelo jornalista José Henrique Mariante, chama a atenção para uma dimensão da crise climática que muitas vezes recebe menos destaque do que o aumento da temperatura do ar: o aquecimento persistente dos oceanos. O texto, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, informa que os oceanos atingiram uma temperatura média global recorde de 20,96°C, segundo dados do serviço europeu Copernicus, superando o recorde anterior registrado em 2016.

O El Niño ajuda a explicar a intensidade do fenômeno, mas seria um erro atribuir o recorde exclusivamente a ele. Como a própria reportagem destaca, os oceanos acumulam grande parte do excesso de calor produzido pelo desequilíbrio energético provocado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa. O El Niño atua, portanto, sobre um sistema oceânico que já se encontra progressivamente mais quente em consequência do aquecimento global. Essa combinação ajuda a explicar por que novos recordes vêm sendo alcançados.

A questão merece extrema preocupação porque os oceanos não funcionam apenas como grandes reservatórios de água. Eles constituem um dos principais componentes do sistema climático terrestre, absorvem enorme quantidade de calor e participam ativamente da redistribuição de energia entre as regiões tropicais e as altas latitudes. Quando a temperatura oceânica aumenta de maneira persistente, modifica-se também a interação entre oceano e atmosfera, com consequências sobre evaporação, circulação atmosférica, precipitação e ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

Além disso, existe ainda um problema ecológico de enormes proporções. O aumento da temperatura da água submete ecossistemas marinhos a condições que muitas espécies não conseguem tolerar. Ondas de calor marinhas podem provocar branqueamento e mortalidade de corais, deslocamento geográfico de populações de peixes, alterações nas cadeias alimentares e mudanças na produtividade dos ecossistemas. A redução da mistura vertical da coluna d’água também pode dificultar o transporte de nutrientes das águas profundas para as camadas superficiais, justamente onde ocorre grande parte da produção primária dos oceanos.

A verdade é que essa transformação ultrapassa em muito uma discussão sobre conservação da biodiversidade. Bilhões de pessoas dependem direta ou indiretamente de pescados e outros organismos aquáticos como fonte de proteína, micronutrientes, renda e segurança alimentar. O deslocamento ou a redução dos estoques pesqueiros pode atingir de maneira particularmente severa populações costeiras e países nos quais a pesca artesanal desempenha papel fundamental na alimentação. Nesse sentido, o aquecimento oceânico transforma uma questão climática e ecológica também em um problema social e alimentar.

Por outro lado, também há uma retroalimentação preocupante. Durante décadas, os oceanos amorteceram parte importante do aquecimento provocado pelas atividades humanas ao absorverem grande quantidade do excesso de calor do sistema climático e uma parcela significativa do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Esse serviço planetário, entretanto, não possui capacidade ilimitada. Oceanos progressivamente mais quentes podem absorver calor adicional com maior dificuldade em determinadas regiões e circunstâncias, enquanto águas mais quentes também tendem a reter menos gases dissolvidos. Ao mesmo tempo, alterações na circulação, na estratificação e nos ecossistemas marinhos podem modificar a eficiência da chamada bomba biológica de carbono.

Por isso, talvez o aspecto mais inquietante do recorde apresentado por José Henrique Mariante seja justamente aquilo que um único número não consegue mostrar. 20,96°C parece uma diferença pequena quando observada em um termômetro doméstico, mas representa uma quantidade extraordinária de energia adicional quando aplicada à enorme massa de água dos oceanos do planeta. A elevada capacidade térmica da água significa que mudanças aparentemente pequenas na temperatura média oceânica correspondem a gigantescas acumulações de calor.

O recorde registrado pelo Copernicus deve ser entendido, portanto, como muito mais do que uma curiosidade estatística associada ao El Niño. Ele mostra que uma das principais estruturas reguladoras do clima terrestre está acumulando energia em níveis excepcionais. Os efeitos podem aparecer nos recifes de coral, nos estoques pesqueiros, na distribuição das chuvas, na intensidade das ondas de calor marinhas e atmosféricas e, finalmente, na mesa de populações que dependem do mar para obter alimento.

Finalmente, precisamos lembrar que o oceano durante muito tempo funcionou como um enorme amortecedor da crise climática. O problema é que o funcionamento da engrenagem capitalista ancorada no consumo de combustíveis fósseis está aquecendo justamente o amortecedor. E, quanto mais reduzirmos a capacidade oceânica de regular o sistema climático, maior será a quantidade de calor com a qual a atmosfera, os continentes, os ecossistemas e as sociedades humanas terão de conviver.

Os agrotóxicos não estão apenas nos deixando doentes, eles estão cozinhando o planeta

Por Lee Evslin para “The New Lede”

Escrevo isto como pediatra que passou mais de uma década documentando como os agrotóxicos afetam direta e negativamente a saúde das crianças. Mas há uma segunda história escondida dentro daquela que costumo contar, e ela raramente entra no debate: o mesmo sistema de agricultura industrial baseado em agrotóxicos sintéticos e fertilizantes nitrogenados também está silenciosamente destruindo o planeta.

O recente aquecimento recorde do Oceano Pacífico, as mortes causadas pelo calor na Europa, os incêndios florestais em todo o mundo e a onda de calor que assola os EUA criam uma necessidade urgente de compreender todos os principais fatores que impulsionam as mudanças climáticas, incluindo aqueles sobre os quais normalmente não falamos.

Descobriu-se que os sistemas alimentares globais produzem  16 bilhões de toneladas métricas  de CO2 equivalente por ano, ou aproximadamente  um terço  de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Dois insumos agrícolas em particular, os agrotóxicos e os fertilizantes nitrogenados sintéticos, merecem muito mais atenção do que geralmente recebem nas discussões sobre saúde ou clima.

Os agrotóxicos e as mudanças climáticas representam um ciclo vicioso  Pesquisadores descreveram recentemente um padrão com consequências perigosamente abrangentes. 

  1. Os agrotóxicos são produzidos a partir de combustíveis fósseis, e sua produção consome muita energia. A fabricação de um quilograma de ingrediente ativo de  agrotóxico requer, em média, cerca de dez vezes mais energia do que a fabricação de um quilograma de fertilizante nitrogenado.
  2. Os agrotóxicos continuam a emitir substâncias mesmo após a aplicação. Muitos volatilizam-se para o ar como compostos que contribuem para a formação de ozono, e os fumigantes de solo amplamente utilizados  aumentam drasticamente as emissões de óxido nitroso do soloOs agrotóxicos também perturbam as comunidades microbianas do solo. Isto  degrada um dos sistemas naturais de remoção de carbono mais importantes da agricultura .
  3. O agravamento das mudanças climáticas enfraquece as plantações e pode gerar mais insetos e ervas daninhas mais resistentes. Essa combinação exige ainda mais agrotóxicos e fertilizantes.
  4. Resultado final: mudanças climáticas cada vez piores e um número crescente de substâncias químicas perigosas em nossos alimentos, nossa água e em todos os nossos corpos.

Os fertilizantes nitrogenados atuam como superpoluentes  Quando o uso intensivo de agrotóxicos degrada o solo, o uso abundante de fertilizantes torna-se vital apenas para manter o crescimento das plantações. O fertilizante nitrogenado sintético é fabricado combinando nitrogênio atmosférico com hidrogênio proveniente do gás natural sob calor e pressão extremos, um processo que, por si só, responde por cerca de  39%  da pegada climática do fertilizante.

Mas, assim como acontece com os agrotóxicos, o problema maior surge depois que o produto chega ao campo. Os micróbios do solo convertem o nitrogênio aplicado em óxido nitroso, um gás com um poder de aquecimento cerca de  273 vezes maior que o do dióxido de carbono. Uma avaliação recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as emissões de óxido nitroso provenientes da agricultura aumentaram 40% entre 1980 e 2020 , e o classificou como um “superpoluente” devido ao seu papel duplo no aquecimento global e na destruição da camada de ozônio.

Além disso, os agricultores aplicam rotineiramente  muito mais nitrogênio do que as culturas conseguem utilizar , chegando a 5,8 milhões de toneladas métricas em excesso somente em 2023 no cinturão do milho e da soja, produzindo emissões equivalentes à circulação de 8 a 14 milhões de carros a gasolina adicionais. O nitrogênio não utilizado não desaparece simplesmente. Ele se infiltra no lençol freático e chega aos cursos d’água, alimentando a  proliferação de algas e a eutrofização  , que geram ainda mais gases de efeito estufa.

O problema do solo  Um solo saudável é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas a agricultura intensiva em produtos químicos esgota esse reservatório em vez de o aumentar. O contraste na captura de carbono entre a agricultura convencional atual e a agricultura orgânica/regenerativa é dramático. Os sistemas orgânicos  sequestram carbono do solo a uma taxa aproximadamente quatorze vezes maior do  que a agricultura convencional. Práticas regenerativas, quando aplicadas corretamente, poderiam  sequestrar até 23 gigatoneladas de CO2 até 2050 , e  o plantio direto, por si só, já foi associado a reduções de CO2 de até 47% .

As empresas de sementes químicas frequentemente afirmam que as culturas transgênicas Roundup Ready também facilitam e tornam mais comum o plantio direto, permitindo que os agricultores eliminem ervas daninhas com produtos químicos em vez de arar. Mas até mesmo essa solução está se desfazendo. Com a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato,  a intensidade do preparo do solo aumentou novamente desde 2008 , e uma análise amplamente citada constatou que a alegação subjacente de redução de carbono pelo plantio direto com base em produtos químicos pode ser  um artefato de amostragem superficial do solo  , em vez de um ganho líquido real. A solução para o solo pode ser menos duradoura do que a indústria alega e vem acompanhada da própria dependência química que impulsiona a crise de saúde.

E a crise de saúde não é hipotética  Um  estudo de 2025 do Centro Médico da Universidade de Nebraska  descobriu que um aumento de 10% na exposição a misturas de agrotóxicos estava associado a um aumento de 36% nos casos de câncer cerebral e do sistema nervoso central em crianças e a um aumento de 23% nos casos de leucemia. Um  relatório de Iowa de 2026  relacionou a taxa de câncer do estado, agora a segunda mais alta do país, em parte à exposição a agrotóxicos. Não se trata dos mesmos produtos químicos aparecendo por coincidência em duas notícias ruins diferentes. Trata-se do mesmo modelo de negócios.

A argumentação climática contra esse sistema não é especulativa. Ela se baseia em um crescente corpo de pesquisas sobre o ciclo de vida e emissões em campo, abrangendo fabricação, aplicação e efeitos subsequentes nos ecossistemas. Como essas emissões são difusas, espalhadas por milhões de fazendas em vez de concentradas em algumas chaminés, elas escaparam do escrutínio regulatório que aplicamos a usinas de energia e frotas de veículos. Isso está começando a mudar à medida que os pesquisadores constroem um levantamento mais completo da cadeia de suprimentos de agroquímicos. As políticas públicas, porém, ainda não acompanharam essa mudança.

Não estamos obrigados a escolher entre alimentar as pessoas e manter o planeta e as pessoas que nele habitam saudáveis.

Reduzir a aplicação desnecessária de nitrogênio, intensificar a fiscalização de agrotóxicos e investir em práticas regenerativas nos ajudará a reconstruir o carbono do solo e a reduzir a dependência de agrotóxicos e fertilizantes. As duas lutas, saúde e clima, nunca foram separadas. Já passou da hora de começarmos a tratá-las como tal.

(Os artigos de opinião publicados no The New Lede representam os pontos de vista dos autores e não necessariamente a perspectiva dos editores do TNL.)

Lee A. Evslin, MD, FAAP, é pediatra certificado e ex-CEO de hospital. Foi membro da Força-Tarefa de  Agrotóxicos patrocinada pelo estado do Havaí e recebeu reconhecimento especial da Academia Americana de Pediatria por seu trabalho legislativo, que ajudou a tornar o Havaí o primeiro estado a proibir o clorpirifós. É autor do livro ”  Café da Manhã na Monsanto: O Roundup em nossos alimentos está nos deixando mais doentes, mais gordos e mais tristes?”  e foi palestrante principal na Cúpula de Ciência da Assembleia Geral da ONU de 2022, sobre o tema da toxicidade do glifosato.


Fonte: The New Lede

Enquanto a ciência climática toca a sirene, os governos apertam o botão da soneca

O alerta de Eliot Jacobson converge com o diagnóstico do IPCC e com os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre sobre a gravidade da crise climática

O professor Eliot Jacobson escolheu um título deliberadamente brutal para seu artigo mais recente, publicado no boletim The Climate Casino: “More Fucked Today than Yesterday”, algo como “estamos mais ferrados hoje do que ontem”. A linguagem rompe com a cautela habitual dos relatórios científicos, mas o diagnóstico central encontra respaldo nas principais instituições que monitoram o clima da Terra. O sistema climático global continua se deteriorando, enquanto governos, empresas e sociedades agem como se ainda dispusessem de tempo abundante para enfrentar a crise.

Jacobson examina indicadores como a temperatura média global, o aquecimento dos oceanos, o desequilíbrio energético da Terra, a redução do albedo e a perda de gelo polar. Esses dados não pertencem a um campo marginal da ciência. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NASA, o programa europeu Copernicus, a Organização Meteorológica Mundial e o IPCC trabalham com as mesmas variáveis para avaliar o estado do sistema climático.

A principal diferença entre Jacobson e os grandes organismos científicos não está nos dados, mas na linguagem e no ritmo da análise. O IPCC reúne milhares de estudos, constrói consensos e organiza suas conclusões por níveis de confiança e probabilidade. Esse processo assegura enorme robustez científica, mas também produz documentos que muitas vezes chegam ao público depois que novos recordes já alteraram o quadro observado. Jacobson acompanha séries atualizadas e procura transmitir a velocidade com que os limites anteriores vêm sendo superados.

Por isso, seu discurso pode parecer mais alarmante do que os relatórios do IPCC. No entanto, ambos apontam para a mesma direção. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC afirma de forma inequívoca que as atividades humanas provocaram o aquecimento global e já produziram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera. Essas transformações aumentam a frequência e a intensidade de eventos extremos e atingem com maior severidade as populações que menos contribuíram para a crise climática.

Jacobson dedica atenção especial ao aquecimento dos oceanos. As águas absorvem a maior parte do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa. Esse acúmulo favorece ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, deslocamento de populações de peixes, proliferação de algas tóxicas e alterações nas cadeias alimentares. O calor oceânico também pode fornecer mais energia para tempestades tropicais e ampliar o potencial destrutivo de eventos extremos.

O desequilíbrio energético da Terra constitui outro eixo de sua análise. O planeta absorve atualmente mais energia do que devolve ao espaço. Os gases de efeito estufa dificultam a saída da radiação infravermelha, enquanto mudanças nas nuvens, nos aerossóis, no gelo e na neve alteram a quantidade de energia solar refletida. Enquanto esse desequilíbrio persistir, o sistema climático continuará acumulando calor.

A redução do albedo amplia ainda mais o problema. Superfícies claras, como gelo e neve, refletem grande parte da radiação solar, enquanto oceanos e solos escuros absorvem mais energia. Quando o gelo derrete, superfícies mais escuras ficam expostas, acumulam calor adicional e aceleram o próprio derretimento. Jacobson chama esse processo de “grande escurecimento” do planeta, expressão que sintetiza a perda progressiva da capacidade terrestre de refletir a energia solar.

A ciência ainda investiga o peso relativo de cada um desses mecanismos, e algumas projeções apresentadas por Jacobson carregam incertezas importantes. A comunidade científica ainda precisa determinar se os recordes registrados desde 2023 indicam uma aceleração estrutural do aquecimento ou se resultam de uma combinação entre mudança climática, El Niño, redução de aerossóis e outras formas de variabilidade natural.

Essa incerteza, porém, não justifica complacência. Em situações que envolvem consequências potencialmente catastróficas, a incerteza deveria reforçar o princípio da precaução. O IPCC afirma que cada fração adicional de grau amplia riscos, perdas e danos. A diferença entre 1,5 °C, 2 °C ou mais de aquecimento não constitui uma abstração estatística, pois representa maior pressão sobre ecossistemas, sistemas agrícolas, infraestrutura, saúde pública e disponibilidade de água.

O IPCC também adverte que existe uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente para garantir um futuro habitável. Reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões ainda poderiam desacelerar perceptivelmente o aquecimento nas próximas décadas. Portanto, o clima futuro não está completamente determinado. A humanidade ainda pode limitar parte dos danos, mas cada ano de atraso reduz o orçamento de carbono restante e exige transformações futuras ainda mais abruptas.

O principal obstáculo já não é a falta de conhecimento. A ciência demonstrou a origem humana do aquecimento, identificou seus mecanismos e descreveu grande parte de suas consequências. A dificuldade encontra-se nas instituições políticas e econômicas que continuam protegendo a expansão do petróleo, do carvão, do gás natural, do desmatamento e de padrões de consumo incompatíveis com a estabilidade climática.

O próprio IPCC reconhece a distância entre as metas anunciadas e as políticas efetivamente adotadas. Os compromissos nacionais continuam insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C, enquanto os investimentos em mitigação e adaptação permanecem muito abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, governos seguem aprovando infraestruturas fósseis que permanecerão em operação durante décadas.

Jacobson torna essa contradição impossível de ignorar. Os organismos científicos descrevem uma emergência, mas os governos tratam a crise climática como apenas mais uma agenda administrativa. As conferências internacionais se repetem, as metas se acumulam e as emissões globais continuam incompatíveis com os objetivos oficialmente anunciados.

Essa dissociação entre ciência e decisão política aparece com clareza no Brasil. O país procura se apresentar como liderança ambiental, mas amplia a produção de petróleo, defende novas fronteiras de exploração, incentiva grandes projetos de mineração e autoriza empreendimentos com elevado consumo de energia, água e infraestrutura. A expansão dos datacenters, por exemplo, avança sem que o debate público examine adequadamente seus impactos cumulativos sobre os territórios, os recursos hídricos e os sistemas elétricos.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma das comunidades científicas mais qualificadas do mundo para analisar a crise climática. Os trabalhos do físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e participante das avaliações do IPCC, demonstram as relações entre a floresta amazônica, os aerossóis, a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o clima regional e global. Artaxo alerta há anos que o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global enfraquecem os mecanismos ecológicos que permitem à Amazônia regular o clima e transportar umidade para outras regiões da América do Sul.

As pesquisas coordenadas por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acrescentaram evidências decisivas a esse diagnóstico. A partir de medições atmosféricas realizadas com aeronaves, Gatti e seus colaboradores demonstraram que áreas do leste e do sudeste da Amazônia perderam parte de sua capacidade de absorver carbono. Nessas regiões, as emissões associadas às queimadas, ao desmatamento e à degradação florestal já podem superar a absorção realizada pela vegetação.

Esses resultados mostram que a crise amazônica não pertence apenas ao futuro. As áreas mais desmatadas registram temperaturas mais elevadas, estações secas mais longas e maior vulnerabilidade ao fogo. O desmatamento reduz a evapotranspiração, diminui a formação de chuvas e cria condições que favorecem novas perdas florestais. A degradação passa, assim, a alimentar sua própria continuidade.

As evidências produzidas por Artaxo e Gatti convergem com os reiterados alertas públicos do climatologista Carlos Nobre. Há décadas, Nobre chama atenção para o risco de a Amazônia alcançar um ponto de inflexão, a partir do qual a perda florestal e o aquecimento poderiam desencadear uma transformação extensa e potencialmente irreversível do ecossistema. O prolongamento das estações secas, o aumento das temperaturas, os incêndios recorrentes e a redução da capacidade de reciclar umidade constituem sinais coerentes com esse risco.

Carlos Nobre também destaca que a preservação da Amazônia interessa a todo o continente. A floresta influencia a distribuição das chuvas, sustenta grande parte da biodiversidade planetária e armazena enormes quantidades de carbono. Sua degradação ameaça a produção agrícola, a geração hidrelétrica, o abastecimento urbano e a estabilidade climática muito além das fronteiras do bioma.

Os três cientistas brasileiros analisam dimensões complementares do mesmo processo. Paulo Artaxo investiga as relações entre floresta, partículas atmosféricas, nuvens e clima. Luciana Gatti mede diretamente as mudanças no balanço de carbono. Carlos Nobre integra essas evidências em um diagnóstico sistêmico sobre o risco de ruptura do equilíbrio ecológico e climático da Amazônia.

Esses trabalhos demonstram que o Brasil não pode alegar desconhecimento. O país possui dados, instituições e capacidade técnica para compreender os riscos que enfrenta. Apesar disso, as decisões estratégicas do Estado frequentemente subordinam o conhecimento científico aos interesses imediatos das cadeias petrolíferas, minerais, agropecuárias e financeiras.

A contradição se torna ainda mais grave porque o Brasil combina enorme vulnerabilidade climática com elevado potencial de mitigação. O controle do desmatamento poderia produzir resultados rápidos, enquanto a restauração florestal, a transformação dos sistemas alimentares, o fortalecimento do transporte coletivo e a expansão planejada das energias renováveis poderiam reduzir emissões e desigualdades ao mesmo tempo.

No entanto, o Brasil continua tratando a proteção ambiental como obstáculo ao crescimento e o licenciamento como uma formalidade a ser flexibilizada. A mesma lógica aparece na adaptação. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, incêndios e erosão costeira já afetam milhões de brasileiros, mas os governos continuam investindo menos na prevenção do que nas respostas emergenciais posteriores aos desastres.

O mérito do texto de Eliot Jacobson reside em recusar a transformação dos recordes climáticos em uma nova normalidade. Uma temperatura oceânica sem precedentes não representa apenas mais um ponto em um gráfico. Uma temporada excepcional de incêndios não constitui apenas uma anomalia anual. A repetição desses eventos altera as condições de existência das sociedades e dos ecossistemas.

Jacobson também identifica um fracasso da comunicação. A imprensa noticia recordes durante alguns dias e depois retorna à rotina como se o problema tivesse desaparecido. Governos anunciam metas para 2030 ou 2050, mas aprovam hoje projetos que ampliarão as emissões durante décadas. Empresas divulgam compromissos de neutralidade climática enquanto expandem a exploração de combustíveis fósseis.

A linguagem contundente de The Climate Casino procura romper essa normalização. Ela não substitui o rigor científico do IPCC nem dispensa a necessidade de distinguir observações, projeções e hipóteses. No entanto, expõe uma questão que os documentos institucionais nem sempre conseguem comunicar: a distância entre a gravidade das evidências e a lentidão da resposta política tornou-se uma fonte adicional de risco.

Jacobson não anuncia simplesmente um apocalipse inevitável. Ele mostra que cada novo recorde reduz o tempo e as condições disponíveis para agir. O IPCC chega à mesma conclusão ao afirmar que a janela de oportunidade para garantir um futuro habitável se fecha rapidamente.

A leitura conjunta dessas duas formas de comunicação produz uma conclusão incômoda. A humanidade não enfrenta a crise climática por falta de informação. Ela enfrenta a crise porque os interesses que lucram com a destruição ambiental ainda controlam grande parte das decisões econômicas e políticas.

Os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre reforçam esse diagnóstico no contexto brasileiro. A Amazônia já emite sinais claros de alteração funcional, partes da floresta perderam capacidade de absorver carbono e o risco de cruzar limiares críticos cresce com a continuidade do desmatamento e do aquecimento global. O Estado brasileiro não pode celebrar sua ciência no exterior enquanto ignora suas conclusões dentro do país.

Estamos em uma situação pior do que ontem não porque o colapso total aconteça de um dia para o outro, mas porque cada dia de emissões adicionais acumula energia no sistema climático, amplia os riscos e reduz as possibilidades de evitar mudanças irreversíveis. Amanhã poderá ser ainda pior caso a sociedade continue confundindo prudência científica com autorização para a inércia.

A crise climática exige redução imediata das emissões, interrupção do desmatamento, proteção e restauração dos ecossistemas, abandono da expansão das fronteiras fósseis e investimentos públicos maciços em adaptação. A ciência internacional e brasileira já cumpriu sua tarefa de formular o alerta. Resta saber se as sociedades conseguirão construir força política suficiente para transformar esse conhecimento em ação antes que as advertências atuais se convertam em descrições tardias de oportunidades definitivamente perdidas.

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino”  recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

El Niño está de volta e o planeta pode estar às portas de um novo período de extremos climáticos

Análise publicada por Marshall Shepherd na Forbes alerta que o aquecimento do Pacífico poderá evoluir para um evento intenso, agravando secas, enchentes, incêndios florestais e a insegurança alimentar em um planeta já superaquecido pelas mudanças climática

A confirmação oficial da formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico não representa apenas uma mudança cíclica do sistema climático. Segundo análise do climatologista Marshall Shepherd, publicada na revista Forbes, os indicadores atuais sugerem que o fenômeno pode evoluir para um evento de grande intensidade, com potencial para alterar profundamente padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

As projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam uma probabilidade elevada de que o episódio de 2026-2027 figure entre os mais fortes desde o início dos registros sistemáticos, em 1950. Essa possibilidade é especialmente preocupante porque o El Niño se desenvolve sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias recordes devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a variabilidade natural do clima passa a atuar sobre uma nova linha de base muito mais quente, potencializando seus efeitos.

Marshall Shepherd destaca que o fenômeno não deve ser visto como uma simples curiosidade meteorológica. O aquecimento anormal das águas do Pacífico modifica a circulação atmosférica global e desencadeia uma cascata de impactos: secas severas em algumas regiões, chuvas torrenciais em outras, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais, perdas agrícolas e alterações importantes nos ecossistemas marinhos.

Para o Brasil, os sinais merecem atenção redobrada. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados à redução das chuvas na Amazônia e no Nordeste, ao aumento do risco de queimadas e ao comprometimento dos recursos hídricos, enquanto a região Sul pode experimentar precipitações muito acima da média e enchentes de grandes proporções. Essas mudanças afetam diretamente a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano e a biodiversidade.

O aspecto talvez mais importante da análise de Shepherd é o reconhecimento de que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos são amplificados pelo aquecimento global antropogênico, criando uma combinação particularmente perigosa. A energia adicional acumulada nos oceanos e na atmosfera funciona como combustível para eventos extremos mais frequentes e intensos, tornando mais vulneráveis justamente as populações que dispõem de menos recursos para adaptação.

Esse cenário também lança luz sobre a fragilidade dos sistemas alimentares globais. Alterações simultâneas nos regimes de chuva de grandes regiões produtoras de grãos, associadas a ondas de calor persistentes e incêndios florestais, podem provocar perdas significativas de produção e aumentar a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos. Países em desenvolvimento e populações de baixa renda tendem a suportar o maior peso dessas transformações, ampliando desigualdades já existentes.

Há ainda um aspecto político que merece destaque. Embora a ciência venha alertando há décadas sobre o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, grande parte dos governos continua investindo pesadamente na expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, aprofundando justamente o problema que torna fenômenos como o El Niño cada vez mais destrutivos. O resultado é um círculo vicioso em que a sociedade paga duas vezes: primeiro pelos impactos da crise climática e depois pelos elevados custos econômicos e sociais da adaptação e da reconstrução.

Assim, mais do que acompanhar a evolução das temperaturas do Pacífico, é fundamental compreender que o possível fortalecimento do El Niño constitui um alerta sobre os limites do atual modelo de desenvolvimento. Se as previsões se confirmarem, o planeta poderá enfrentar, nos próximos meses, uma combinação particularmente perigosa de extremos climáticos, insegurança alimentar, perdas econômicas e agravamento das injustiças ambientais. Ignorar esses sinais significará aceitar que eventos cada vez mais severos deixem de ser exceções para se tornarem parte permanente da nossa realidade.

El Niño está se formando no Pacífico e, segundo especialistas, provavelmente intensificará os eventos climáticos extremos

Meteorologistas preveem que será o ciclo mais forte do século, enquanto o secretário-geral da ONU a classifica como um “alerta climático urgente” 

Um bombeiro carrega uma mangueira ao longo de uma estrada enquanto um incêndio se alastra ao fundo.

Um bombeiro monitora as chamas causadas pelo incêndio Hughes em Castaic, Califórnia, em 22 de janeiro de 2025. Fotografia: Jae C Hong/AP

Por Dani Anguiano para “The Guardian”

O El Niño , fenômeno climático que intensifica as condições meteorológicas em todo o mundo, chegou oficialmente e poderá atingir níveis históricos no outono, disseram autoridades americanas na quinta-feira.

Os meteorologistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmaram a formação do El Niño no Oceano Pacífico, próximo ao equador, que está mais quente que o normal e afeta os padrões climáticos globais.

Cientistas já haviam alertado que o El Niño deste ano poderia ser o mais forte do século. António Guterres, secretário-geral da ONU, descreveu o El Niño como um “alerta climático urgente”.

Segundo a NOAA, havia 63% de probabilidade de o El Niño se intensificar tanto no final do outono e início do inverno que “estaria entre os maiores eventos El Niño já registrados historicamente, desde 1950”.

Nos Estados Unidos, o El Niño tem sido associado a tempestades mais intensas no sul, aumento do risco de inundações por maré alta, proliferação de algas na costa oeste e alterações nos padrões migratórios da vida marinha. Mas essas condições afetam o clima em todo o mundo, alterando as correntes de jato e modificando os padrões de chuva, o que pode levar a tempestades mais severas, aumento das temperaturas e secas.

“Cada El Niño é diferente; cada um é único, com sua própria marca em nosso clima”, disse Ken Graham, diretor do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) da NOAA, em um comunicado. “O monitoramento avançado e uma melhor compreensão dos padrões do El Niño permitem que o NWS preveja melhor e prepare melhor o público e nossos principais parceiros para o que está por vir.”

Isso afeta os padrões climáticos ao trazer “muito calor extra para a superfície, alimentando muitos eventos extremos em muitos lugares ao redor do mundo”, disse Abby Frazier, cientista climática da Universidade Clark.

Ela disse que “a situação pode ficar crítica muito rapidamente”, especialmente no Pacífico.

Os efeitos variam conforme a região. O El Niño geralmente atenua – mas não elimina – a atividade da temporada de furacões no Atlântico, porém a intensifica no Pacífico. Assim, enquanto as costas leste e do Golfo dos EUA podem ter um alívio, o Havaí e outras ilhas correm maior risco, disse Frazier. Normalmente, o fenômeno resulta em invernos mais chuvosos na Califórnia.

O Oriente Médio, assolado pela seca, poderá se beneficiar, disseram cientistas climáticos. Outras regiões, porém, enfrentam maiores riscos. Partes do oeste da América do Sul – onde os primeiros fenômenos El Niño foram observados décadas atrás – frequentemente sofrem com chuvas torrenciais e inundações, além de verões excepcionalmente quentes. A Índia enfrenta ondas de calor mais intensas, enquanto a seca, os incêndios florestais e o calor ameaçam a Austrália.

O nordeste da África provavelmente sofrerá com mudanças climáticas bruscas, passando de secas intensas a chuvas perigosamente fortes, disse Muhammad Azhar Ehsan, cientista climático da Universidade de Columbia e especialista em El Niño.

O fenômeno El Niño pode beneficiar a indústria agrícola dos EUA, afirmou Jon Gottschalck, chefe da divisão operacional do Centro de Previsão Climática da NOAA.

Michael Ferrari, meteorologista e chefe de pesquisa da empresa de pesquisa de investimentos Moby, disse que as condições para grãos e sementes, especialmente soja, parecem favoráveis ​​em 18 dos principais estados produtores, mas são mais incertas quando se trata de laticínios e gado.

Mas especialistas alertam que as condições podem levar a um choque no abastecimento global de alimentos, com culturas como milho e arroz especialmente vulneráveis ​​ao El Niño e à seca, reduzindo a produção de alimentos na África do Sul, Índia, Indonésia, Vietnã e Brasil.

As Montanhas Rochosas do norte e o sudoeste – onde há uma seca de neve “fora de controle” – podem receber fortes chuvas de verão, disse Gottschalck. O maior impacto nos EUA costuma ocorrer no inverno, quando o sul fica mais úmido e o noroeste do Pacífico mais quente e seco.

Mas, no geral, o aumento das temperaturas causado por esse padrão climático pode prejudicar o crescimento econômico americano, afirmou Marshall Burke, economista climático de Stanford. Diversos cientistas climáticos preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado devido aos efeitos tardios do El Niño, que deve atingir seu pico no outono ou inverno.

“Temos evidências bastante claras de que a economia dos EUA cresce mais lentamente quando as temperaturas estão acima do normal”, disse Burke.

Os eventos climáticos extremos causados ​​pelo El Niño também dependem de quando ele se desenvolve.

Normalmente, os fenômenos El Niño se formam no verão, atingem o pico no final do outono ou início do inverno e desaparecem na primavera seguinte, disseram os cientistas.

No entanto, a equipe de Ehsan prevê que este El Niño atingirá seu pico um ou dois meses antes, com base em fortes indícios das últimas semanas. O cientista climático da Universidade de Princeton, Gabriel Vecchi, afirmou que grandes El Niños como este também tendem a durar mais tempo.

Os primeiros indícios – incluindo o aquecimento das águas na superfície do Pacífico – têm sido tão fortes e perceptíveis que todos os meteorologistas têm previsto o mesmo El Niño extremamente forte, disse Vecchi, acrescentando que as previsões do El Niño costumam ser muito inconsistentes nesta época do ano.

Cientistas preveem El Niños mais intensos à medida que o mundo aquece devido à queima de carvão, petróleo e gás, disseram Frazier e outros. Mas ela afirmou ser muito cedo para dizer se este El Niño faz parte disso.

Mesmo antes de se formar oficialmente, este El Niño já havia recebido apelidos que variam de “super” a “Godzilla”.

“Em vez de termos medo, podemos pedir às pessoas que estejam preparadas”, disse Ehsan, da Universidade Columbia.

O Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, afirmou que no Reino Unido isso poderia “aumentar a probabilidade de condições climáticas mais instáveis ​​no final do ano, incluindo uma maior chance de clima mais ameno, úmido e ventoso durante o outono e o início do inverno”.

A Associated Press contribuiu com reportagens.


Fonte: The Guardian

El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

O oceano do amanhã: Por que o equilíbrio do planeta depende dos mares

 

Por Luiz Drude de Lacerda & Edmo Campos,  Academia Brasileira de Ciências

Em meados da Década da Ciência Oceânica (2021-2030), a humanidade enfrenta um ponto crítico. O bem-estar das gerações futuras e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos o Oceano. Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente a humanidade.

O Gigante que Regula a Vida

O Oceano cobre 63% da superfície global e é o grande regulador do clima e dos ciclos biogeoquímicos. Ele atua como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo:

  • 30% do CO2 emitido por atividades humanas.
  • 90% do excesso de calor gerado por essas emissões.

No entanto, essa proteção tem um preço alto. O aumento da temperatura da água está alterando correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.

As Ameaças em Curso

  1. Correntes e Clima em Risco

Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, está enfraquecendo e corre o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir um “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. Por exemplo, o Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul mais quente, impactando drasticamente a biodiversidade marinha e terrestre, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.

  1. Ondas de Calor e Perda de Biodiversidade

Em decorrência da absorção do excesso de calor, o oceano está se aquecendo. Esse aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas, o que ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende do mar.

  1. Desoxigenação e Acidificação

O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio. Isso altera a distribuição de grandes peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.

  4. O Legado da Poluição

A mudança climática está amplificando a escala da poluição local para o nível global. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, estão se tornando mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição para as populações humanas.

O Mar Profundo e a Nova Governança

O leito oceânico, abaixo de 200 metros, é vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um avanço na governança global. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.

Conclusão

O Oceano não é apenas uma fonte de recursos, fármacos e energia; é a infraestrutura que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico através de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã.