El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

O oceano do amanhã: Por que o equilíbrio do planeta depende dos mares

 

Por Luiz Drude de Lacerda & Edmo Campos,  Academia Brasileira de Ciências

Em meados da Década da Ciência Oceânica (2021-2030), a humanidade enfrenta um ponto crítico. O bem-estar das gerações futuras e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos o Oceano. Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente a humanidade.

O Gigante que Regula a Vida

O Oceano cobre 63% da superfície global e é o grande regulador do clima e dos ciclos biogeoquímicos. Ele atua como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo:

  • 30% do CO2 emitido por atividades humanas.
  • 90% do excesso de calor gerado por essas emissões.

No entanto, essa proteção tem um preço alto. O aumento da temperatura da água está alterando correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.

As Ameaças em Curso

  1. Correntes e Clima em Risco

Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, está enfraquecendo e corre o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir um “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. Por exemplo, o Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul mais quente, impactando drasticamente a biodiversidade marinha e terrestre, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.

  1. Ondas de Calor e Perda de Biodiversidade

Em decorrência da absorção do excesso de calor, o oceano está se aquecendo. Esse aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas, o que ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende do mar.

  1. Desoxigenação e Acidificação

O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio. Isso altera a distribuição de grandes peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.

  4. O Legado da Poluição

A mudança climática está amplificando a escala da poluição local para o nível global. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, estão se tornando mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição para as populações humanas.

O Mar Profundo e a Nova Governança

O leito oceânico, abaixo de 200 metros, é vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um avanço na governança global. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.

Conclusão

O Oceano não é apenas uma fonte de recursos, fármacos e energia; é a infraestrutura que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico através de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã.

‘Impactos profundos’: dados mostram que o calor recorde dos oceanos está intensificando os desastres climáticos

Os oceanos absorvem 90% do aquecimento global, tornando-se um indicador claro do avanço implacável da crise climática

Gaivotas voam acima das ondas quebrando na praia enquanto o sol nasce em um céu alaranjado.

O calor extra intensifica os furacões e tufões, provoca chuvas mais torrenciais e inundações maiores, e resulta em ondas de calor marinhas mais longas. Fotografia: Michael Probst/AP

Por Damian Carrington para “The Guardian”

Os oceanos do mundo absorveram quantidades colossais de calor em 2025, estabelecendo mais um novo recorde e alimentando eventos climáticos extremos, relataram cientistas.

Mais de 90% do calor retido pela poluição de carbono causada pela humanidade é absorvido pelos oceanos. Isso faz do calor oceânico um dos indicadores mais evidentes do avanço implacável da crise climática, que só terminará quando as emissões caírem a zero. Quase todos os anos, desde o início do milênio, foram registrados novos recordes de calor oceânico.

Esse calor extra intensifica os furacões e tufões que atingem as comunidades costeiras, provoca chuvas torrenciais mais intensas e inundações maiores , além de resultar em ondas de calor marinhas mais longas , que dizimam a vida nos mares. O aumento da temperatura também é um dos principais fatores que contribuem para a elevação do nível do mar por meio da expansão térmica da água do mar, ameaçando bilhões de pessoas.

Medições confiáveis ​​da temperatura dos oceanos remontam a meados do século XX, mas é provável que os oceanos estejam em seu nível de aquecimento mais alto em pelo menos 1.000 anos e aquecendo mais rapidamente do que em qualquer outro momento nos últimos 2.000 anos .

A atmosfera armazena menos calor e é mais afetada por variações climáticas naturais, como o ciclo El Niño-La Niña. A temperatura média do ar na superfície em 2025 deverá ser aproximadamente igual à de 2023, sendo o segundo ano mais quente desde o início dos registros em 1850, e 2024 o mais quente. No ano passado, o planeta entrou na fase mais fria de La Niña do ciclo do Oceano Pacífico.

“A cada ano o planeta aquece – bater um novo recorde tornou-se um disco riscado”, disse o professor John Abraham, da Universidade de St. Thomas, em Minnesota, EUA, e parte da equipe que produziu os novos dados.

“O aquecimento global é o aquecimento dos oceanos”, disse ele. “Se você quer saber o quanto a Terra já aqueceu ou a velocidade com que aquecerá no futuro, a resposta está nos oceanos.”

análise, publicada na revista Advances in Atmospheric Sciences , utilizou dados de temperatura coletados por diversos instrumentos nos oceanos e compilados por três equipes independentes. Esses dados foram usados ​​para determinar o conteúdo de calor dos 2.000 metros superiores dos oceanos, onde a maior parte do calor é absorvida.

A quantidade de calor absorvida pelo oceano é colossal, equivalente a mais de 200 vezes a quantidade total de eletricidade consumida pela humanidade em todo o mundo. “O aquecimento dos oceanos continua a exercer impactos profundos no sistema terrestre”, concluíram os cientistas.

O aquecimento dos oceanos não é uniforme, com algumas áreas aquecendo mais rapidamente do que outras. Em 2025, as áreas mais quentes incluíam os oceanos tropicais, o Atlântico Sul, o Pacífico Norte e o Oceano Antártico. Neste último, que circunda a Antártida, os cientistas estão profundamente preocupados com o colapso do gelo marinho no inverno nos últimos anos

O Atlântico Norte e o Mar Mediterrâneo também estão ficando mais quentes, além de mais salgados, mais ácidos e menos oxigenados devido à crise climática. Isso está causando “uma mudança profunda no estado dos oceanos, tornando os ecossistemas marinhos e a vida que eles sustentam mais frágeis”, disseram os pesquisadores.

 Enquanto a temperatura da Terra continuar aumentando, o conteúdo de calor dos oceanos continuará subindo e os recordes continuarão sendo quebrados”, disse Abraham. “A maior incerteza climática é o que os humanos decidirão fazer. Juntos, podemos reduzir as emissões e ajudar a salvaguardar um clima futuro onde os humanos possam prosperar.”


Fonte: The Guardian

O mundo já está acabando: uma resposta a Elias Jabbour

Mina de carvão perto do distrito de Hailar, China. Imagem: Wikimedia Commons 

Por Eduardo Sá Barreto para “Blog da Boitempo”

Seria mais prudente não escrever um texto como este. Por um lado, caso o texto não tenha tração alguma, terei gastado um tempo precioso reprisando coisas que já disse de maneira mais sistemática em outros lugares. Por outro lado, caso tenha tração, posso ser tragado numa polêmica com um dos intelectuais comunistas mais prestigiados do país na atualidade. A verdade é que, contra meu melhor juízo, senti-me obrigado a responder algumas observações críticas que Elias Jabbour muito cordialmente apresentou a mim, em conversa pessoal, e depois repetiu em sua participação na mesa “Anticolonialismo e marxismo, durante a primeira Festa de Aniversário do Marx no Rio de Janeiro, promovida pela Boitempo em 28 de junho de 2025.

Apesar de Jabbour, em alguma medida, reproduzir objeções que não mereceriam ser revisitadas pela enésima vez, a relevância que ele tem, a importância do evento e a pertinência de parte de suas observações cobram uma manifestação. Dando o benefício da dúvida que o camarada merece, podemos admitir que um tempo de fala que dura entre 5 e 10 minutos não é suficiente para desdobrar de modo satisfatório qualquer tipo de raciocínio compatível com o nível de complexidade dos assuntos sendo ali discutidos. Creio que, havendo mais tempo, Jabbour poderia ter desenvolvido mais adequadamente seus comentários, que acabaram soando irresponsavelmente taxativos e superficiais. De qualquer forma, é o que temos para começar.

Antes de mais nada, é importante reconhecer que uma das críticas feitas por Jabbour deve simplesmente ser acolhida. Realmente, é perturbador (inaceitável mesmo) que numa discussão sobre a questão climática e sobre transição energética a China não seja sequer mencionada. Como o próprio Jabbour evidencia em seu trabalho, a China é um fenômeno de relevância central em boa parte das questões decisivas de nosso tempo. Não é perdoável desconhecer os fundamentos e os traços mais marcantes dessa experiência em curso (embora, convenhamos, em uma fala de 5 a 10 minutos, pouco mais se poderia fazer do que mencioná-la).  

Suponho, pelo teor de sua fala, que ele esperava ouvir algo a respeito dos aspectos virtuosos dessa experiência, no que tange à questão climática e energética. De fato, há coisas que impressionam. Entre 2008 e 2023, a participação da energia solar na matriz energética chinesa saltou de menos de 0,01% para 3,20%.1 Em termos absolutos, essa expansão representa um crescimento alucinante de 352.791%. Outro resultado expressivo é a ampliação da participação da energia eólica de 0,14% em 2008 para 4,85% em 2023, representando um crescimento da oferta primária por essa fonte de 6.152,38%. Ainda olhando para as fontes de baixa intensidade de emissões (em comparação com os combustíveis fósseis), nesse período de 15 anos a China ampliou a oferta primária de energia nuclear em 487,5%, e de energia a partir de hidroelétricas em 78%.  

É seguro afirmar que nenhum país do mundo vem se movendo tão rapidamente quanto a China nesse domínio. Isso certamente é fruto de uma capacidade indiscutivelmente singular que o Estado chinês tem de conceber e levar a cabo políticas públicas orientadas pelo horizonte de uma sociedade ecológica. Também é seguro afirmar que nenhum desses resultados seria viável na ausência dos investimentos massivos que o governo vem fazendo para este fim. Talvez por isso Jabbour tenha sido levado a afirmar que o país vem “enfrentando e vencendo essa batalha pela reversão da crise climática”. Aqui começam nossos desacordos e acabam as boas notícias. 

Em primeiro lugar, a “reversão da crise climática” sequer é algo que está em jogo. Há pelo menos três décadas, o esforço global tem se voltado para a meta de limitar o aquecimento do planeta a 2ºC acima do período-base (equivocadamente chamado de pré-industrial). Na última década, a meta de limitar o aquecimento a 1,5ºC foi muito ventilada, mas mesmo nos Acordos de Paris a meta de fato continua sendo um aquecimento máximo de 2ºC. Todo o debate existente, bem como a elaboração e implementação de políticas climáticas, estão modulados por essa meta. E nela não há nada que remeta à possibilidade de reversão em um prazo previsível. Na verdade, não há nada que remeta nem mesmo à estabilidade das condições climáticas. Um planeta 2ºC mais quente é um planeta consideravelmente mais convulsivo. Segundo relatório mais recente do IPCC, “para qualquer nível de aquecimento futuro, […] os impactos de longo prazo previstos são múltiplas vezes maiores daquilo que é atualmente observado”2. Se todo o esforço em marcha fosse aderente ao que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento a 2ºC (ou a 1,5ºC) — e se, além disso, esse esforço fosse plenamente exitoso —, teríamos interrompido o aquecimento, mas não a multiplicação dos impactos. 

Mas o que, exatamente, a ciência vem dizendo ser necessário fazer?

Suspeito, pela afirmação taxativa do camarada a respeito da “reversão” vitoriosa, que Jabbour estaria tentado a responder que o necessário é ampliar rapidamente a participação de fontes renováveis na matriz energética nacional. De imediato, é preciso ter clareza que “vencer a batalha climática” não é algo que está ao alcance de uma única nação (por mais relevante que ela seja). Mesmo se admitíssemos que o necessário é simplesmente a reconfiguração da matriz energética, a escala em que isso deveria ocorrer para ter relevância é global (ainda que a busca por isso seja nacionalmente determinada). Se apenas um país vencer a batalha, todos perdem a guerra. No entanto, é um equívoco se restringir à matriz energética, que apenas nos informa as participações relativas de cada fonte, não os níveis absolutos em que elas são usadas. Isso nos leva ao segundo ponto. 

O que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento dentro dos limites acordados é o zeramento líquido das emissões oriundas de atividades humanas, o que exige, pelos prazos preconizados, uma descarbonização fulminante. Mesmo se deixarmos momentaneamente de lado o ritmo em que isso deveria acontecer, uma coisa é certa: no plano energético, a direção da mudança é a contração da escala em que consumimos combustíveis fósseis. Ao sairmos do domínio das grandezas relativas para o domínio das grandezas absolutas, a incomparável transição energética chinesa revela determinações que o otimismo de Jabbour não tem como contemplar.

É verdade que entre 2008 e 2023 a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética chinesa caiu de 92,02% para 81,56%. Contudo, também é verdade que, no mesmo período, a oferta primária de energia a partir do carvão cresceu 36%, do petróleo cresceu 106% e do gás natural cresceu 394%. Combinadas as três fontes, a expansão foi de 61,5%. Numa leitura muito generosa, podemos chamar isso de transição energética, mas não de descarbonização.  

É comum aludir a todos os efeitos virtuosos que são viabilizados por essas trajetórias. Fazendo uma rápida colagem de trechos da fala de Jabbour, poderíamos mencionar que nesse caminho a China retirou “800 milhões de pessoas da linha da pobreza”, “entregou independência nacional”, “investiu mais que o dobro do resto do mundo” em energias limpas. Nenhum desses resultados é desprezível ou indesejável. Mas aqui temos uma amostra do preço de obtê-los.

Apenas para reforçar, o preço é: continuar acelerando rumo ao colapso das condições materiais, ecológicas de suporte à vida no planeta e, obviamente, às sociedades humanas. Não há exercício de poder político que possa perseguir emancipação num planeta em vias de se tornar inabitável. Não há exercício de poder político que possa suspender a operação de leis de funcionamento da natureza. Então me desculpe, Elias, mas o raciocínio “minha corrente exerce poder político em vários países, então o mundo não vai acabar, pessoal” é uma falácia grosseira que se explica apenas pela circunstância de um deslize numa fala improvisada. Custo a crer que num contexto mais formal você estaria disposto a afastar com um politicismo tão pobre os riscos de um colapso iminente. 

A pertinência da afirmação de que “é impossível haver uma reconexão do ser humano com a natureza fora da elevação da técnica” é discutível. Porém, mesmo que a admitamos, seria incorreto tratar o “desenvolvimento das forças produtivas” como uma espécie de elevação neutra da nossa capacidade de intervir, que poderia ser mobilizada para o “bem” ou para o “mal”, dependendo de quem exerça o poder político. No mundo em que vivemos, as forças produtivas não são apenas colocadas a serviço da acumulação de capital; elas são paridas pela lógica do capital e só se viabilizam economicamente se proporcionarem, além de maior produtividade, expansão da produção, do giro da produção, do consumo; enfim, das condições mais básicas da acumulação. Ainda que, numa hipótese ousada, supuséssemos que o Partido Comunista Chinês exerce poder político de tal forma que consegue impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas nacionais imunes à racionalidade do capital, pergunta-se: dada a inserção chinesa no mercado mundial, os resultados proporcionados por essas forças produtivas não estarão condenados a satisfazer os mesmos critérios de viabilidade? 

Voltando à linha anterior de raciocínio, chegamos ao terceiro ponto. No trecho anterior, contrapus os resultados chineses e a reivindicação de vitória na batalha climática ao que a ciência vem preconizando como medidas/resultados necessários para evitar o pior. Na realidade, até esse exercício demonstra-se excessivamente otimista, porque supõe que as metas tradicionalmente perseguidas de limitação do aquecimento são exequíveis. No capitalismo, nunca foram. Todavia, mesmo abstraindo do metabolismo ingovernável do capital, se um dia já foram, já não são mais. O limiar de aquecimento de 1,5ºC já vem sendo rompido sistematicamente desde meados de 2023 (em medidas diárias, mensais, anuais e de 12 meses) e não há indicações consistentes que retornaremos para níveis abaixo desse patamar.3 Além disso, já é possível projetar um aquecimento superior a 2ºC para o início dos anos 30.4 Se acrescentarmos a esse entendimento os impactos previsíveis que viriam com tal aquecimento, a conclusão de que o “mundo já está acabando” se apresenta muito mais lúcida e cientificamente embasada do que a garantia motivacional de que o “mundo não vai acabar”.  

Como isso não imporia limites a aspirações diversas de desenvolvimento? É claro que o Brasil não é uma Dinamarca. É claro que há nações em circunstâncias ainda piores que as do Brasil. Evidentemente, é absolutamente defensável a ambição de ascensão material de nações pobres e periféricas. Não seria exagero dizer que tal ascensão é justa e necessária. Daí a consternação de Jabbour com o que ele denomina de “militância contra o desenvolvimento”. Ela de fato existe, ainda que tenha muito menos enraizamento e circulação do que ele dá a entender. Ademais, na medida em que ela existe, Jabbour parece supor que ela é motivada por algum tipo de divergência no plano moral, por concepções éticas que eventualmente colocam a natureza (em abstrato) acima das satisfações de necessidades humanas.  

Em meu juízo, não é esse o caso. Na medida em que há realmente posicionamentos contrários ao assim chamado desenvolvimento econômico, eles são motivados por um entendimento de que não há base material para a universalização desse tipo de processo. Já é um clichê admitirmos que a afluência material de um estadunidense médio não é generalizável. Tornou-se clichê justamente porque é um consenso fácil. Por outro lado, talvez surpreenda que, pela mesma métrica em que se enuncia a afirmação anterior, seria necessário afirmar também que a afluência material de um brasileiro médio tampouco é generalizável. Ao invés de simplesmente apelar para o senso comum, porém, também seria adequado dizer: é perfeitamente possível reconhecer que a elevação da afluência material das periferias do mundo é necessáriajusta e, ao mesmo tempo, biogeofisicamente inviável.

Assim como é o caso da interação entre meio ambiente e a dinâmica das forças produtivas,5 tenho um número já grande de textos publicados que exploram teoricamente a tensão entre desenvolvimento e meio ambiente.6 Em geral, Marx é a principal referência, mas aqui posso inclusive utilizar o trabalho do próprio Jabbour para expor meu ponto principal.  

Em seu best-seller com Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI, é dito, logo no início: “O núcleo central do nosso argumento é que as limitações ao mercado no metamodo de produção não podem ser superadas na atual fase histórica, mas apenas paulatinamente, e no longo prazo”.7 Há motivos para concordar e há motivos para discordar, mas isso não vem ao caso agora. Importante é ter em vista que os autores projetam a transformação substantiva num horizonte de longa duração. Surpreendentemente, na página seguinte, asseveram: “a menos que encontremos um caminho para além do modo de produção atualmente dominante, que ainda é capitalista em nível global, o Antropoceno pode ser o período do fim da humanidade e de muitas outras espécies”.8 Se juntarmos as duas afirmações com os horizontes de tempo veiculados tanto pela ciência quanto pela diplomacia climática nas grandes convenções globais, seremos surpreendidos com o corolário de que “o mundo vai acabar”. Nem precisamos recorrer a material externo, contudo. Os próprios autores nos informam, repetindo a ideia, mas acrescentando a urgência, que “a menos que a humanidade supere urgentemente o saque capitalista dos recursos limitados do planeta, o período do Antropoceno pode marcar o fim da humanidade e de muitas outras espécies”.9 Apesar dessa ironia do destino, isso tampouco vem ao caso agora. Queremos conectar esse entendimento nuclear central com outro entendimento apresentado que é relevante para o tema do desenvolvimento. 

Jabbour é um ardoroso proponente e defensor do desenvolvimento que, insiste ele, transcorre ao longo de um tempo consideravelmente distendido. Suponho que, mesmo concedendo para variantes burguesas do significado de desenvolvimento, o que ele tem no centro de sua defesa é uma concepção de desenvolvimento socialista. Uma caracterização exaustiva do que seria essa concepção não cabe num texto como esse, mas em alguns momentos da obra, Jabbour e Gabriele proporcionam aproximações sintéticas de seu significado. Na página 109, por exemplo, dizem que a “estratégia socialista, tanto quanto a capitalista, deve procurar aumentar progressivamente o tamanho relativo do setor improdutivo [grosso modo: público]. […] Em ambos os modos de produção, a única maneira de permitir o funcionamento das atividades improdutivas é atribuir-lhes financiamento (direta ou indiretamente) através de parte do excedente gerado no setor produtivo [grosso modo: privado, orientado para o lucro]. Portanto, a viabilidade do macrossetor improdutivo depende da transferência de fundos do produtivo e, portanto, está restrita à capacidade de geração de excedentes deste último”.10

Ora, mesmo que não entendamos excedente como mais-valor11, como mais-trabalho objetivado, a conclusão incontornável é que a estratégia de desenvolvimento socialista vislumbrada por Jabbour é estruturalmente dependente daquilo que ele denomina de macrossetor produtivo, que continuaria operando ainda por muito tempo pela lógica da acumulação desmedida12 de excedente. No núcleo dinâmico da estratégia de desenvolvimento preconizada pelos autores, portanto, continua prevalecendo o mesmo tipo de vetor dinâmico que lança a humanidade à destruição suicidária. Em outras palavras, mais simples, numa leitura generosa da noção jabbouriana de desenvolvimento, o desenvolvimento especificamente socialista não escapa do mesmo tipo de inviabilidade ecológica do desenvolvimento capitalista. Admitindo o que dizem Jabbour e seu coautor, haveria mais motivos para argumentar pela inviabilidade do desenvolvimento, não menos.  

O quadro é sem dúvidas desalentador, desesperador. Futuros que consideramos necessários, desejáveis e justos estão sendo concretamente destruídos em ritmo acelerado. Reconhecer isso não implica nenhum tipo de fatalismo niilista, como sugere Jabbour. Ao contrário, o que se depreende do mapeamento intransigentemente sóbrio da situação é a urgência de um processo de ruptura revolucionária, é a erosão completa de qualquer condição de sustentação de perspectivas gradualistas. A implicação é muito impactante mesmo, mas não é exagerada: só a revolução serve e talvez nem ela sirva. Só é possível enxergar niilismo nisso se nos desfizermos de nossas pretensões revolucionárias ou se desconhecermos quase por completo o processo de colapso climático em curso.  

Notas

  1. Todos os dados sobre energia apresentados a seguir estão disponíveis em https://ourworldindata.org/energy-mix ↩︎
  2. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023, p. 15; ênfase adicionada.  ↩︎
  3. HANSEN, J.; KHARECHA, P. 2025 Global Temperature, 2025. Disponível aqui.  ↩︎
  4. HANSEN, J.; KHARECHA, P.; LOEB, N.; SATO, M.; SIMONS, L.; TSELIOUDIS, G.; von SCHUCKMANN, K. How we know that global warming is accelerating and that the goal of the Paris Agreement is dead, 2023. Disponível aqui.  ↩︎
  5. Cf. p.ex. Sá Barreto, O capital na estufa, Rio de Janeiro: Consequência, 2018.  ↩︎
  6. Cf. p.ex. Sá Barreto, Ecologia marxista para pessoas sem tempo, São Paulo: Usina, 2022.  ↩︎
  7. Jabbour; Gabriele, China: o socialismo do século XXI, São Paulo: Boitempo, 2021, p. 31.  ↩︎
  8. Ibidem, p. https://blogdaboitempo.com.br/2025/08/04/o-mundo-ja-esta-acabando/32; grifo meu.  ↩︎
  9. Ibidem, p. 65; grifo meu.  ↩︎
  10. Ibidem, p. 109; grifo meu.  ↩︎
  11. Entendimento que os autores curiosamente rejeitam de maneira insistente. ↩︎
  12. i.e., que não apresenta um limite imanente e que tampouco deveria ser contida, dada a função estratégica que os autores atribuem a ela. ↩︎

***
Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

Ritmo de adaptação de florestas tropicais é mais lento que o necessário para fazer frente à crise climática

Árvores de grande porte e madeira densa são as mais afetadas. Pesquisas publicadas recentemente nas revistas Science e Nature alertam para a possibilidade de empobrecimento radical dos biomas

Mata Atlântica: o Núcleo Santa Virgínia, localizado no Parque Estadual da Serra do Mar, município de São Luiz do Paraitinga (SP), é uma das áreas pesquisadas no estudo (foto: Carlos Alfredo Joly)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistas Science e Nature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.

“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.

Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”

Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade. “Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.

Monitoramento contínuo

Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos.”

Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros.”

As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly. “Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade.”

A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP. “Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática.”

Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos.”

Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador. “Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes.”

Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento.”

Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos.”

As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima.”

Os estudos receberam apoio da FAPESP por meio de cinco projetos (03/12595-712/51509-812/51872-519/24049-5 e 22/14605-0).

O artigo Tropical forests in the Americas are changing too slowly to track climate change pode ser acessado em: www.science.org/doi/10.1126/science.adl5414.

E o estudo Canopy functional trait variation across Earth’s tropical forests está disponível em: www.nature.com/articles/s41586-025-08663-2.


Fonte: Agência Fapesp

Emissões passadas dos gases causadores do efeito de estufa podem elevar o nível do mar em quase 60 cm, conclui estudo

Por Dana Drugmand para o “The New Lede”

As emissões que retêm o calor, liberadas ao longo de mais de um século e meio pelos maiores produtores de combustíveis fósseis e cimento do mundo, devem fazer com que o nível global do mar suba cerca de 30 a 60 centímetros até o ano 2300, mesmo que as emissões futuras sejam drasticamente reduzidas, de acordo com uma nova pesquisa revisada por pares.

estudo , publicado em 18 de março na revista Environmental Research Letters, é o primeiro a medir como as emissões passadas de gases de efeito estufa de empresas de combustíveis fósseis podem contribuir para o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, uma das consequências das mudanças climáticas causadas pelo homem, de acordo com os autores.

“Esta pesquisa contribui para o  crescente corpo de trabalho  que quantifica como as emissões passadas dos produtores de combustíveis fósseis prejudicarão as gerações futuras”, disse Delta Merner, coautor do estudo e diretor associado do Science Hub for Climate Litigation na Union of Concerned Scientists, em uma declaração . “Comunidades insulares e costeiras suportarão o peso desproporcional dos impactos da elevação do nível do mar ao longo do tempo, incluindo danos à infraestrutura, perda de habitat, intrusão de água salgada, aumento de inundações, encargos econômicos e deslocamentos forçados.”

Os pesquisadores também descobriram que quase metade (37% a 58%) do aumento atual da temperatura do ar na superfície e cerca de um terço (24% a 37%) do aumento global do nível médio do mar até o momento podem ser atribuídos às emissões históricas dos 122 maiores produtores de petróleo, gás, carvão e cimento, conhecidos como “Carbon Majors”. O estudo se baseia em análises anteriores que examinam como as emissões decorrentes dos produtos dessas empresas contribuem para os impactos das mudanças climáticas, incluindo o aquecimento da superfície, o aumento do nível do mar as condições de seca que ajudam a alimentar incêndios florestais .

O estudo examinou ainda quais seriam os impactos no aquecimento da superfície e nos níveis do mar se as grandes empresas de carbono tivessem reduzido as emissões eliminando a produção em períodos anteriores, como depois de 1950, quando pelo menos algumas empresas começaram a perceber que seus produtos impactariam o sistema climático, e depois de 1990, quando a comunidade internacional começou a abordar as mudanças climáticas.

“Em todos os cenários, descobrimos que o mundo teria sido mais frio e os níveis do mar mais baixos se as emissões de combustíveis fósseis tivessem sido eliminadas mais cedo”, explicou Shaina Sadai, a principal autora do estudo, em uma postagem de blog .

Se as emissões de combustíveis fósseis tivessem parado depois de 1990, por exemplo, o estudo estimou que o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, atribuível às emissões passadas das grandes empresas de carbono, teria sido de cerca de 15 a 35 centímetros — menor do que os 25 a 53 centímetros esperados atualmente.

Pesquisas que analisam os impactos da falha em controlar as emissões são importantes para avançar nos esforços para responsabilizar os poluidores, disse Jennifer Jacquet, professora da Escola Rosenstiel de Ciências Marinhas, Atmosféricas e da Terra da Universidade de Miami, que não estava envolvida no estudo.

“À medida que nosso mundo muda significativamente para pior como resultado das mudanças climáticas, espero que tentemos responsabilizar os principais responsáveis ​​por essas mudanças — tanto em termos de poluição de carbono quanto de poluição de informação — nos tribunais e no mercado global, onde esse tipo de estudo será confiável”, disse Jacquet.

O nível médio global do mar está atualmente em seu nível mais alto desde que os registros de satélite começaram em 1993, e a taxa de elevação do nível do mar dobrou ao longo desse tempo, de acordo com um novo relatório da Associação Meteorológica Mundial. Esse relatório observa que as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e outros gases que retêm calor são as mais altas dos últimos 800.000 anos. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos, de acordo com o relatório.

Apesar desses indicadores de uma crise climática piorando, os EUA estão aumentando a produção de combustíveis fósseis sob a nova administração Trump enquanto atacam a ciência climática e a energia limpa e revertem as políticas climáticas federais. Trump, que anteriormente chamou a mudança climática de farsa , está tirando os EUA do Acordo Climático de Paris, e sua administração tem como alvo agências que fazem ciência climática crítica e trabalho de previsão do tempo com cortes profundos, incluindo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). Um escritório da NOAA no Havaí que serve como o principal suporte para o Observatório Mauna Loa, que monitora as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, pode ter seu arrendamento cancelado como parte desses cortes.

Com os compromissos globais já aquém do que é necessário para atingir emissões líquidas zero até 2050, de acordo com as Nações Unidas, mudanças na posição do governo dos EUA sobre as mudanças climáticas podem afastar ainda mais o mundo do caminho, disse Sadai.

“Cada atraso [na ação para mitigar as mudanças climáticas], mesmo que seja de apenas algumas décadas, terá consequências a longo prazo”, disse ela.

(Imagem em destaque por Point Normal no Unsplash .)


Fonte: The New Lede

Nas partes mais intocadas e intocadas da Amazônia, os pássaros estão morrendo. Cientistas podem finalmente saber o porquê

As populações vêm caindo há décadas, mesmo em áreas de floresta não danificadas por humanos. Especialistas passaram duas décadas tentando entender o que está acontecendo

Um papa-moscas real da Amazônia: pássaros estão morrendo em partes intocadas da floresta amazônica e pesquisadores têm trabalhado para entender o porquê. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer

Por Tess McClure para o “The Guardian”

Alguma coisa estava acontecendo com os pássaros em Tiputini. O centro de pesquisa de biodiversidade, enterrado nas profundezas da Amazônia equatoriana, sempre foi especial. É surpreendentemente remoto: uma pequena dispersão de cabines de pesquisa em 1,7 milhões de hectares de floresta virgem. Para os cientistas, é o mais próximo que se pode chegar de observar a vida selvagem da floresta tropical em um mundo intocado pela atividade humana.

Quase todos os anos desde sua chegada em 2000, o ecologista John G Blake estava lá para contar os pássaros. Levantando-se antes do sol, ele registrava a densidade e a variedade do coro do amanhecer. Caminhando lentamente pelo perímetro dos lotes, ele anotava todas as espécies que via. E por um dia a cada ano, ele e outros pesquisadores lançavam enormes redes de “névoa” que capturavam pássaros voadores em sua trama, onde eles eram contados, desembaraçados e soltos.

Uma vista curva de uma floresta tropical exuberante e enevoada

Uma vista de olho de peixe da floresta tropical de planície do topo da torre de dossel em Tiputini. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

Durante anos, essas contagens capturaram as flutuações anuais dos pássaros; eles tiveram anos bons e ruins, estações em que os ninhos foram interrompidos por tempestades e outras em que eles explodiram. Mas por volta de 2012, Blake e seus colaboradores puderam ver que algo estava mudando. Os pássaros estavam morrendo: não em massa de uma vez, atingidos por uma praga, mas geração após geração. As flutuações anuais que ele passou uma década registrando lentamente interromperam seus saltos ascendentes, a linha de tendência se transformando em uma inclinação descendente inflexível. Em 2022, seus números haviam caído quase pela metade. Blake não precisava do gráfico para lhe dizer que algo estava errado; quando ele se levantou para ouvir o coro do amanhecer, ele podia ouvir que estava abafado. As canções estavam faltando. Algumas espécies simplesmente desapareceram.

“Há alguns deles que não ouço há alguns anos”, ele diz, por uma conexão de vídeo quebrada do centro de pesquisa; longe do mundo exterior, ele tem energia intermitente e depende de uma conexão via satélite. “Definitivamente, há algumas espécies que, por qualquer razão, parecem não estar mais aqui.”

Um pequeno pássaro com cabeça vermelha, rosto e peito amarelos e asas e cauda pretas pousa em um galho.

Manakin macho de cauda metálica ( Pipra filicauda ) em um poleiro em Tiputini. Fotografia: Tim Laman/NPL/Alamy

Na América do Norte e na Europa, os cientistas há muito alertam que o número de pássaros está diminuindo, mas isso tem sido explicado principalmente pelo contato deles com humanos. À medida que cidades e fazendas se expandem, as florestas ao redor delas se tornam fragmentos, os habitats dos animais encolhem, a poluição contamina os rios, pesticidas e fertilizantes matam insetos. Até mesmo animais de estimação são um fator — nos EUA, gatos domésticos estão matando cerca de 4 bilhões de pássaros por ano. Tiputini, no entanto, é um dos poucos pedaços do planeta que não sente diretamente essas pressões: nenhuma fazenda próxima, nenhuma fábrica poluente, nenhum madeireiro invasor, nenhuma estrada. No entanto, seus pássaros estavam morrendo.

Em outros locais remotos ao redor do mundo, cientistas estavam começando a observar tendências semelhantes. No Brasil, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (BDFFP) é um estudo ecológico localizado nas profundezas da floresta primária da Amazônia, inacessível por estrada. Essas regiões abrigam algumas das florestas vivas mais antigas do planeta – elas escaparam dos eventos da era glacial que reconstruíram as florestas nos EUA e na Europa com o crescimento e recuo das geleiras. “Na Amazônia, tivemos bolsões de florestas estáveis ​​ao longo de milhões de anos”, diz o ecologista Jared Wolfe, um dos cientistas pesquisadores do projeto. “O local é realmente incrível.”

Mas em 2020, quando pesquisadores compararam o número de pássaros com a década de 1980, eles encontraram uma série de espécies em declínio profundo . Em outro local no Panamá, cientistas trabalhando em um trecho de 22.000 hectares de floresta intacta vinham coletando dados sobre pássaros desde meados da década de 1970. Em 2020, seus números caíram vertiginosamente: 70% das espécies haviam diminuído, a maioria delas severamente; 88% haviam perdido mais da metade de sua população. Em alguns locais, os cientistas estão começando a observar “um colapso quase completo da comunidade”, diz Wolfe. “Isso está ocorrendo em ambientes intocados, o que é realmente perturbador.”

Uma piscina de lama em uma floresta densa.

O estudo ecológico do BDFFP está localizado nas profundezas da floresta amazônica primária brasileira, inacessível por estrada. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec

Por décadas, cientistas vêm tentando entender o que está acontecendo. Blake e a ornitóloga colaboradora Bette A Loiselle publicaram seu primeiro artigo documentando os declínios em 2015, mas não puderam dizer definitivamente o que os estava causando. Eles testaram pássaros para doenças e parasitas e não encontraram nenhuma ligação clara. Eles consideraram a possibilidade de que uma toxina ou poluente desconhecido tivesse se infiltrado – mas não havia evidências disso. “Suspeito que o que quer que esteja causando esses declínios seja algo muito mais disseminado”, diz Blake. “Não seria algo específico da área de Tiputini.”

A resposta mais provável, concluíram eles, era a crise climática. “Há muito pouco mais — pelo menos que eu saiba — que tenha impactos mundiais de tão grande escala”, diz Blake.

Uma década depois, seus instintos estão se mostrando corretos. Esta semana, Wolfe e colaboradores publicaram um novo trabalho ligando diretamente o aumento das temperaturas ao declínio de pássaros. Sua pesquisa, publicada na Science Advances , rastreou pássaros que vivem no sub-bosque da floresta no BDFFP em comparação com dados climáticos detalhados. Eles descobriram que estações secas mais severas reduziram significativamente a sobrevivência de 83% das espécies. Um aumento de 1 °C na temperatura da estação seca reduziria a sobrevivência média dos pássaros em 63%.

Exatamente como o calor está causando o declínio do número de pássaros é difícil de identificar, diz Wolfe, mas “esses pássaros estão intrinsecamente ligados a pequenas, pequenas mudanças na temperatura e na precipitação”. Uma das maneiras mais imediatas pelas quais um planeta em aquecimento prejudica a vida selvagem é colocá-la fora de sintonia com suas fontes de alimento: quando menos insetos sobrevivem às estações secas, ou as folhas florescem e os frutos amadurecem em épocas diferentes, os pássaros se veem incapazes de forragear e alimentar seus filhotes. Seus ninhos começam a falhar. Em poucas gerações, seus números caem.

Em uma clareira na floresta, um homem se inclina sobre uma longa mesa coberta de apetrechos científicos, olhando por cima do ombro de um segundo homem que está sentado examinando as asas de um pequeno pássaro que ele está segurando.

Luke Powell, à esquerda, e Jared Wolfe coletam dados de pássaros capturados em redes de neblina. Fotografia: Cortesia de Tristan Spinski

As perdas documentadas nessas estações remotas têm implicações muito além dos pássaros. “A ideia sempre foi que se você tem grandes extensões de floresta, então isso vai proteger tudo”, diz Blake. “E, bem, isso protege muitas coisas. Mas aparentemente não tudo.”

A maior parte da conservação ocidental funciona seccionando áreas selvagens, como parques ou reservas nacionais. Esses lugares são como arcas: reservatórios de vida selvagem que esperamos que sejam salvos, mesmo que as pessoas transformem a terra ao redor deles. Mas o que os pesquisadores estavam vendo com pássaros sugeria que essas arcas são muito mais frágeis do que se pensava inicialmente.

Dois prédios baixos com telhado de zinco ficam em ângulos retos em meio à densa floresta.

Uma das estações de pesquisa do BDFFP. Fotografia: Cortesia de Vitek Jirinec

Wolfe compara o problema à poluição em um grande corpo de água. Quando cientistas medem a qualidade da água, eles pensam sobre poluição de duas maneiras. A poluição de “fonte pontual” pode ser um cano de óleo jorrando: está causando um dano enorme, mas ao fechá-lo você conserta o problema. “Fonte não pontual” seriam os pequenos pingos de óleo vindos de cada carro na área, levados das estradas para os cursos d’água: cada contribuição pode ser minúscula, mas o efeito cumulativo pode ser enorme – e difícil de desligar. “É muito difícil de combater”, diz Wolfe. O que está acontecendo com os pássaros “parece uma fonte não pontual; um problema complexo e perverso onde você tem colapsos em interações biológicas que estão causando esses declínios”.

Mas perceber o que está acontecendo é necessário para desenvolver soluções, diz Wolfe. “Uma coisa da qual estou ficando particularmente cansado como pesquisador profissional é escrever esses obituários para pássaros”, ele diz. A pesquisa em regiões intocadas também pode revelar soluções potenciais: dados iniciais sugerem que algumas florestas estão resistindo aos declínios. Identificar o porquê — e protegê-los — é crucial.

Um pássaro marrom com bico pontudo e afiado, crista amarela e bochechas vermelhas.

Um pica-pau-castanho ( Celeus elegans ) na Amazônia. Fotografia: Cortesia de Philip Stouffer

Para os cientistas que estão vendo pássaros desaparecerem, há tristeza em assistir a alguns dos lugares mais belos e ecologicamente ricos do mundo entrarem em declínio. “É deprimente”, diz Blake. “Quando chegamos aqui e começamos a procurar, ficamos totalmente surpresos com a quantidade de pássaros que havia e sua diversidade. Continuamos fazendo o trabalho – mas é mais difícil ficar animado em fazê-lo porque há muito pouco.”


Fonte: The Guardian

Talvez os recifes de corais não estejam condenados, afinal, revela uma nova pesquisa

Um experimento de dois anos descobriu que os recifes de corais podem resistir em água aquecida melhor do que o esperado — com uma grande ressalva

corais
Por Warren Cornwall para o “Anthropocene” 

Os recifes de corais são alguns dos ecossistemas mais ricos e ameaçados do planeta. Mas talvez eles não estejam tão perto do limite quanto pensávamos.

Cientistas vêm alertando que, sem reduções drásticas na poluição climática, a maioria dos recifes do mundo estará morta neste século , cozida por ondas de calor submarinas.

No entanto, um experimento recente e elaborado no Havaí sugere que, embora os recifes de corais sofram, eles não serão todos destruídos, desde que os humanos consigam cumprir as metas internacionais para controlar o aquecimento global.

“Este foi um resultado muito surpreendente, já que quase todas as projeções do futuro dos recifes sugerem que os corais deveriam ter morrido quase completamente”, disse Christopher Jury, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Biologia Marinha do Havaí (HIMB) da Universidade do Havaí em Mānoa, um renomado centro de pesquisa de corais.

Não há dúvidas de que o aquecimento das águas já está cobrando um preço alto dos recifes de corais. Uma onda de calor em 2016 matou pelo menos metade dos corais construtores de recifes de águas rasas na Grande Barreira de Corais da Austrália. Desde então, o recife foi atingido por mais quatro ondas de calor que desencadearam branqueamento em massa, onde altas temperaturas fazem com que os pólipos de corais rejeitem as algas simbióticas que vivem em seus tecidos. Como as algas são uma fonte importante de alimento, o branqueamento coloca os corais em risco de morrer de fome. No ano passado, as temperaturas da água ultrapassaram 100 °F no Caribe, matando alguns corais imediatamente .

As previsões de que os recifes de corais estão à beira do desaparecimento dependem de uma combinação de estudos de laboratório e monitoramento da sobrevivência de espécies individuais importantes de corais. Mas isso pode ignorar as maneiras como uma comunidade inteira de recifes de corais funciona. Para obter uma imagem mais completa, Jury e seus colegas criaram o que equivalia a aquários de 70 litros em uma estação de pesquisa na borda da ilha de O’ahu.

Esses 40 tanques foram povoados com pedaços de 8 espécies diferentes de corais e uma coleção de outros habitantes do recife. A água era canalizada de uma baía próxima. Alguns tanques eram alimentados com água do mar comum em temperatura normal. Outros tinham água que tinha sido aquecida ou tinha a química alterada para imitar temperaturas mais altas e níveis de acidez esperados para o final deste século.

“Em vez de focar em apenas uma ou duas espécies isoladamente, incluímos todo o complemento de espécies de recifes, de micróbios a algas, invertebrados e peixes, sob condições realistas que eles experimentariam na natureza”, disse Rob Toonen , cientista marinho do HIMB e um dos autores seniores do estudo.

Ao longo de dois anos, os pesquisadores rastrearam a evolução desses recifes em miniatura. Eles coletaram informações sobre quantos corais sobreviveram e quanto carbonato estava sendo criado ou perdido conforme os pólipos de coral construíam seus exoesqueletos.

No final, mesmo nos recifes submetidos a uma combinação de temperaturas mais altas e mais acidez, a sobrevivência dos corais caiu em 35%, em vez da destruição total que poderia ser esperada. A quantidade de área coberta por corais aumentou de 3% no início para mais de 20% nesses tanques, em comparação com 40% de cobertura nos tanques que foram mantidos nas condições atuais. E esses mesmos recifes atingidos pelo golpe duplo de calor e acidez ainda criaram novo material de exoesqueleto, embora a 56% da taxa nos tanques regulares, os cientistas relataram no final de outubro no Proceedings of the National Academy of Sciences .

“Essas comunidades de recifes experimentais persistiram como novas comunidades de recifes em vez de entrarem em colapso”, disse Jury.

Isso não quer dizer que eles saíram ilesos. Além de crescerem mais lentamente e terem menores taxas de sobrevivência, os recifes experimentais com água mais quente também se tornaram menos diversos, pois alguns corais se saíram melhor do que outros. Uma espécie, Pocillopora meandrina , comumente conhecida como coral couve-flor, quase desapareceu. Outra, Porites evermanni , parecia virtualmente imperturbável pelo calor. As espécies restantes ficaram em algum lugar no meio.

Os pesquisadores oferecem algumas razões pelas quais esses mini-recifes se saíram melhor do que o esperado. Muitos estudos anteriores se concentraram em corais mais sensíveis ao calor, em vez de uma gama mais ampla de espécies de corais ou outros organismos que compõem um ecossistema. Essa maior diversidade pode explicar por que esses recifes continuaram a crescer.

Em meio aos sinais esperançosos, há uma grande ressalva: o experimento testou apenas aumentos de temperatura de 2°C, aproximadamente em linha com as metas do tratado climático negociado em Paris em 2015. A meta central é manter as temperaturas globais médias neste século “bem abaixo” de 2°C acima dos níveis pré-industriais.

Mas no final de outubro, as Nações Unidas emitiram sua última atualização sobre o quão bem os países estavam se saindo para atingir essa meta. Atualmente, alertou , o mundo está a caminho de um aumento de 2,6-3,1°C.

Para Jury, as novas descobertas acrescentam urgência adicional à mudança dessa trajetória. “O reconhecimento de que os recifes de corais não estão condenados se tomarmos as medidas apropriadas sobre as mudanças climáticas e os estressores locais reforça a necessidade de atingir essas metas”, disse ele.

Jury, et. al. “ Experimental coral reef communities transform yet persist under mitigated future ocean warming and acidification. .” Proceedings of the National Academy of Sciences . 29 de outubro de 2024.

Imagem: obra de arte de Courtney Mattison no Museu Florence Griswold


Fonte: Anthropocene

Concentrações de poluentes que aquecem a atmosfera da Terra atingiram níveis recordes em 2023

A concentração de dióxido de carbono aumentou mais de 10% em apenas duas décadas, relata a Organização Meteorológica Mundial

emissõesO aumento de poluentes e CO2 na atmosfera é impulsionado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM. Fotografia: Mark Waugh/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian”

A concentração de poluentes que aquecem o planeta e obstruem a atmosfera atingiu níveis recordes em 2023, disse a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Foi descoberto que o dióxido de carbono está se acumulando mais rápido do que em qualquer outro momento da história da humanidade, com concentrações aumentando em mais de 10% em apenas duas décadas.

“Mais um ano, mais um recorde”, disse Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. “Isso deve fazer soar o alarme entre os tomadores de decisão.”

O aumento foi motivado pela queima “teimosamente alta” de combustíveis fósseis pela humanidade, descobriu a OMM, e agravado por grandes incêndios florestais e uma possível queda na capacidade das árvores de absorver carbono.

A concentração de CO2 atingiu 420 partes por milhão (ppm) em 2023, observaram os cientistas. O nível de poluição é 51% maior do que antes da Revolução Industrial, quando as pessoas começaram a queimar grandes quantidades de carvão, petróleo e gás fóssil.

Concentrações de poluentes fortes, mas de curta duração, também aumentaram. As concentrações de metano atingiram 1.934 partes por bilhão (ppb), um aumento de 165% em relação aos níveis pré-industriais, e o óxido nitroso atingiu 336,9 partes por bilhão (ppb), um aumento de 25%, disse.

Saulo disse: “Estamos claramente fora do caminho para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2C e almejar 1,5C acima dos níveis pré-industriais. Isso é mais do que apenas estatísticas. Cada parte por milhão e cada fração de grau de aumento de temperatura tem um impacto real em nossas vidas e em nosso planeta.”

A queima de combustíveis fósseis – como a gasolina para abastecer um carro ou o carvão para alimentar uma usina termelétrica – libera gases que retêm a luz solar e aquecem o planeta.

A OMM alertou que esse aquecimento pode levar a feedbacks climáticos que são “preocupações críticas” para a sociedade, como incêndios florestais mais fortes que liberam mais carbono e oceanos mais quentes que absorvem menos CO2.

Houve uma ligeira desaceleração no crescimento das emissões globais na última década, mas um forte crescimento contínuo nas concentrações atmosféricas, disse Glen Peters, um cientista climático do Cicero na Noruega, que não estava envolvido no estudo. “[Isso] deve nos dar motivos para pensar sobre quão fortes os sumidouros de carbono permanecerão em um clima em mudança.”

A Terra experimentou pela última vez uma concentração comparável de CO2 há alguns milhões de anos, quando o planeta estava 2-3 °C mais quente e o nível do mar estava 10-20 metros mais alto.

Peters disse que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera são a “medida mais precisa” do progresso da humanidade. “Os dados mostram, novamente, que não estamos fazendo muito progresso na redução de emissões.”

O anúncio da OMM vem antes da cúpula climática Cop29 no Azerbaijão no mês que vem. Ele segue um relatório do Programa Ambiental da ONU na quinta-feira que descobriu que o mundo está a caminho de aquecer 3C até o final do século. Líderes mundiais prometeram impedir que ele aquecesse 1,5C.

Joeri Rogelj, cientista climático do Imperial College London e coautor do relatório, disse: “Os níveis recordes de dióxido de carbono em nossa atmosfera são o resultado lógico das quantidades recordes de gases de efeito estufa que nossas economias continuam a despejar em nosso ar ambiente.”

Cientistas estimam que investimentos de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões são necessários a cada ano para reduzir as emissões a zero até meados do século.

“As tendências atuais verão o aquecimento global cruzar todos os limites de aquecimento que os líderes globais concordaram no acordo climático de Paris de 2015”, disse Rogelj. “[O relatório] também mostra que isso não precisa ser o fim da história.”


Fonte: The Guardian