Um levantamento realizado pela pesquisadora Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ajuda a dimensionar uma tendência preocupante na agricultura brasileira. O gráfico abaixo mostra que, entre 2019 e 2024, o consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu muito mais rapidamente do que a área cultivada.
Enquanto a área plantada aumentou 17,98%, a quantidade de agrotóxicos comercializados no país saltou 46,25% no mesmo período. Em outras palavras, o uso desses produtos cresceu 2,6 vezes mais do que a expansão da área agrícola.
Esse descompasso não é um detalhe estatístico. Uma parte significativa desse aumento está associada ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em diversos países, devido aos seus efeitos nocivos sobre o meio ambiente e a saúde humana. No Brasil, muitos desses produtos chegam ao mercado por meio da importação de agrotóxicos genéricos, produzidos majoritariamente na China.
O paradoxo é evidente. Cerca de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são aplicados em culturas voltadas à exportação, e a China figura justamente como o principal destino de boa parte dessas commodities agrícolas. Assim, produtos químicos proibidos em várias partes do mundo acabam sendo amplamente utilizados aqui para produzir alimentos e matérias-primas destinados ao mercado internacional.
O resultado é uma grave situação de injustiça ambiental: os impactos ambientais e sanitários ficam no Brasil, enquanto os benefícios econômicos da produção agrícola se concentram nas cadeias globais de comércio.
Diante desse cenário, torna-se urgente tirar do papel a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos e ampliar os investimentos em modelos de produção capazes de reduzir a dependência desses insumos. Promover a produção de alimentos livres de agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental — é também uma medida essencial para proteger a saúde da população brasileira e os ecossistemas do país.

