Enquanto o rio morre, o mar avança: o caso de Atafona

Processo erosivo intensificado por alterações no fluxo do Paraíba do Sul e influência das mudanças climáticas ameaça distrito de São João da Barra 

Conheça a cidade brasileira que já está sendo engolida pela elevação do  oceano

Por Júlia Mendes, Fotos e vídeos por Thiago Freitas,para o “OECO”

Quem passa pelo Pontal da Praia de Atafona, em São João da Barra (RJ), vê algumas placas com o escrito “Ilha da Convivência” ou “Bem vindo à Ilha”. Mas, ao olhar para frente, só é possível enxergar uma grande faixa de areia e alguns pequenos quiosques à beira do rio. Aquele extenso areal dava lugar, no passado, ao delta da foz do Rio Paraíba do Sul. A erosão na ilha, com início na década de 50, foi um dos primeiros registros de um processo crescente que hoje vem ameaçando todo o território de Atafona, distrito localizado a 200 metros da Ilha da Convivência no passado. 

Dentre os quiosques instalados no atual Pontal de Atafona, avistamos uma placa escrito “Barraca da Benilda”. Assim como as mais de 300 famílias que viviam na ilha, a de Benilda Nunes também teve que sair de sua casa na Ilha da Convivência por conta da ação do mar. Já faz 7 anos que mora no continente, em Atafona, e dedica a vida à sua barraca no espaço que antes era ocupado pela ilha onde nasceu e cresceu. “Tive que sair porque o mar estava invadindo [a casa], a areia ficava em cima da janela. Aí já não tinha mais como fazer nada para comer, porque, quando vinha esse vento de cá, a areia invadia em cima das telhas, caía tudo em cima das coisas”, detalhou.

Assim como outros moradores da ilha, Dona Benilda foi morar nas casas disponibilizadas pela prefeitura em Atafona, além do auxílio financeiro, que recebeu por apenas três meses. Hoje, ela conta com a renda da barraca para sobreviver. 

Dona Benilda administra hoje sua barraca no areal que antes dava lugar à ilha da Convivência. Foto: Thiago Freitas

Dona Benilda administra hoje sua barraca no areal que antes dava lugar à ilha da Convivência. Foto: Thiago Freitas

Situado na costa norte do RJ, o município de São João da Barra é composto por seis distritos: São João da Barra (sede), Atafona, Barcelos, Cajueiro, Grussaí e Pipeiras. Os mais de 36,5 mil habitantes, segundo o IBGE, concentram-se principalmente na sede do município e no distrito de Atafona, ambos localizados na zona costeira. Apesar dos efeitos das mudanças climáticas e da erosão refletirem em todo a costa do município – e do estado como um todo – o distrito de Atafona é conhecido mundialmente devido a sua vulnerabilidade geográfica, com o avanço do mar destruindo casas, ruas e a infraestrutura do local há décadas. 

Os primeiros registros de impactos erosivos na região datam de 1954, na Ilha da Convivência. Na década de 1970, dunas cada vez mais altas e densas começaram a atingir Atafona. Apesar de não ser possível eleger um causa específica que explique sozinha o fenômeno intenso da erosão no distrito, os usos da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul e os impactos das mudanças climáticas são duas das principais culpadas pelo problema que assola o local. 

“Precisamos contextualizar isso [a erosão em Atafona] com toda a bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. Ou seja, para entender o fenômeno que ocorre em um segmento muito específico do litoral, temos que ir para escalas muito mais amplas de fatores causadores desse problema e nem sempre é simples determinar o principal ou não nessa equação”, explica o geógrafo Eduardo Bulhões, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). 

Outras causas como o desmatamento da Mata Atlântica e o crescimento populacional das cidades no entorno do curso fluvial também são consideradas pela academia. 

“Não existe uma única causa. Os problemas são somatórios de questões ambientais e características geográficas e históricas, posicionamento de correntes marítimas… Então é tudo um somatório”, explica a secretária de Meio Ambiente de São João da Barra, Marcela Toledo. No entanto, ela lembra que o desvio das águas do Paraíba do Sul para beneficiar metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo causou grandes impactos sobre a cidade pequena que é São João da Barra, como o aprofundamento do processo erosivo no município.  

“As metrópoles são sempre mais importantes devido a sua densidade demográfica que as cidades menores, estamos [o município de SJB] hoje no final dessa linha… Eu acho que é importante dizer que todo esse processo impacta na segurança hídrica da cidade e também na fauna e flora aqui, extremamente ameaçadas com a perda de vazão do rio, e também como um rio é tão importante para uma cidade”, completou. 

Rio perdendo a sua força 

Principal curso d’água da região sudeste, o Rio Paraíba do Sul abastece mais de 14 milhões de brasileiros, além dos seus usos para irrigação, energia elétrica e diluição de esgotos, segundo a Agência Nacional de Águas de Saneamento Básico (ANA). A partir da Usina Elevatória de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ), há o desvio de cerca de 2/3 do rio para o sistema hídrico do Rio Guandu para abastecer a cidade do Rio de Janeiro e áreas urbanas periféricas. 

A elevatória de Santa Cecília faz parte do principal sistema de geração de energia do Grupo Light, o Complexo de Lajes. Até 1952, quando a estrutura foi construída, o Rio Guandu era um pequeno córrego. Hoje, ele atende mais de 9 milhões de fluminenses, com 80% do abastecimento de água potável da Região Metropolitana do RJ, de acordo com a Cedae. Enquanto isso, com todos esses usos no Paraíba do Sul, impactos vão sendo gerados de forma clara na foz, onde Atafona está localizada.

Durante o último século, mais de 60% da vazão líquida – a quantidade de água que o rio joga no oceano – do Paraíba do Sul foi reduzida, segundo o Atlas da Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana. “É como se o rio contasse com 40%”, disse Bulhões.

Em períodos de seca no município, por exemplo, a dinâmica da foz é ainda mais instável, como explica Marcela. Isso porque, a vazão do Paraíba torna-se ainda menor, impedindo embarcações de saírem e até mesmo a captação de água é paralisada, devido à salinização do rio. “Aí temos que tentar sobreviver com as águas dos poços profundos do aquífero. Temos manobras vindo de Grussaí e Atafona, para poder trazer a água potável para a sede do município que está impossibilitada de captação”.

Associado a isso, há o transporte de sedimentos de areias, que acontece de forma natural no curso fluvial. No entanto, uma vez que o rio perde seu volume de água, perde também a capacidade de suprir o litoral com essas areias. “Elas [as areias] acabam faltando ao ecossistema da praia, especificamente em Atafona. O equilíbrio de qualquer praia é dado entre areias que chegam e areias que saem. Quando eu reduzo o suprimento e mantenho a remoção, a praia entra num desequilíbrio e aí isso a gente dá um nome de erosão”, explicou Bulhões.

Orla de Grussaí e Atafona. Foto: Thiago Freitas

O fenômeno da acreção aumenta a orla de Grussaí (na parte de baixo da imagem) e estreita a de Atafona (parte de cima da imagem) a partir do transporte natural de sedimentos. Foto: Thiago Freitas

Enquanto o estreitamento da costa de Atafona acontece devido à erosão, Grussaí, o distrito vizinho, vai alargando sua faixa costeira. O fenômeno, chamado de acreção, acontece em função do transporte de sedimentos, que vão sendo deslocados pela própria movimentação do rio. “Pela falta de força do rio, ele vai tirando sedimento. Esse sedimento bate na força da onda, é deslocado na costa e empurrado para Grussaí”, disse Marcela. 

Todo esse processo de erosão costeira torna-se ainda mais grave quando há uma comunidade estabelecida no local, como é o caso de Atafona. O distrito começou a ser ocupado por pescadores e se estabeleceu como uma pequena vila. A partir da década de 50 passou a ser um balneário, girando em torno da atividade de veraneio, com frequentadores considerados da elite, principalmente moradores de Campos dos Goytacazes e outras cidades vizinhas. Atualmente, também têm influência portuária forte, devido à proximidade do Porto do Açú. Em paralelo ao seu crescimento, Atafona também passou a lidar com a erosão, que acontece no local há mais de 70 anos de forma incessante.  

Publicado em 2018, um estudo da Revista Nature analisou os fenômenos de erosão e acreção de praias ao redor do mundo. Segundo a análise, a praia de Atafona já recuou quase 180 metros em mais de 30 anos – cerca de três quarteirões. Casas, ruas, bares, comércios, um prédio de quatro andares, uma escola, o farol da praia e duas igrejas foram algumas das estruturas que o mar tomou nas últimas três décadas.

Morador de Atafona há 49 anos, José Luiz Gonçalves Rosa, conhecido por todos da região como Nenéu, pesca todos os dias com sua prancha improvisada – dois pedaços quebrados de uma prancha amarrados um em cima do outro. São poucos os dias que consegue capturar algum peixe para vender ou comer em seu almoço. Emocionado, ele conta que precisa ficar perto do mar, mas não consegue pagar o aluguel de uma casa na orla. Já foram quatro casas perdidas para o mar. A última, onde viveu durante 15 anos, foi derrubada pela defesa civil devido às ondas que já atingiam o imóvel . “Para a gente que trabalha com pesca, ficar perto do mar é necessário. E eu amo estar perto do mar”, contou, com lágrimas nos olhos. 

Nenéu nasceu na Ilha da Convivência, em 1974, mas foi para a Atafona com apenas um ano de idade devido à ação do mar no local, que já vinha avançando fortemente na época. A ilha, que hoje não existe mais, tinha igreja, posto de gasolina, escola e era repleta de casas. Atualmente, a parte que restou do local é um território pertencente a São Francisco de Itabapoana, município vizinho a São João da Barra. 

Sentado em seu barco quebrado, Nenéu está em frente à sua antiga residência, derrubada pela defesa civil devido ao avanço do mar. Foto: Thiago Freitas  

Sentado em seu barco quebrado, Nenéu está em frente à sua antiga residência, derrubada pela defesa civil devido ao avanço do mar.

Nenéu em frente a essa mesma casa, ainda em pé, em 2023. Foto: Thiago Freitas

Nenéu em frente a essa mesma casa, ainda em pé, em 2023. Fotos: Thiago Freitas

Mudanças climáticas aceleram o processo

Ventos mais fortes, ondas com maior poder destrutivo e outros eventos climáticos extremos também fazem parte desse contexto de destruição em Atafona. O que antes era um processo que vinha acontecendo ao longo de décadas, tem se intensificado e acelerado cada vez mais.  

Segundo Bulhões, ondas de tempestade vindas do sul e sudoeste com ventos gerados por ciclones são uma das condições climáticas que mais assolam o litoral fluminense e especificamente Atafona. “Esses ciclones estão ficando cada vez mais fortes e frequentes, são os ciclones extratropicais. Eles geram bastante energia para a costa e transportam areias para o litoral com muita efetividade. Isso faz com que o litoral mude muito rapidamente”, explicou. 

Além disso, as condições de tempo bom, quando o céu está claro e limpo, também são consideradas nesse processo. Moradores e frequentadores de Atafona conhecem bem o famoso vento nordeste, que permite que o calor extremo do Rio de Janeiro não incomode tanto assim o distrito. No entanto, esse vento tão querido pela população atafonense também tem ficado cada vez mais intenso. “Se o oceano está ficando mais agitado, maior energia é direcionada pela costa, então há maior capacidade destrutiva das ondas no litoral”, lembrou o pesquisador. De acordo com um estudo ainda não publicado do grupo de pesquisa Unidade de Estudos Costeiros, da UFF,  nos últimos 80 anos os ventos ficaram 15% mais fortes na Bacia de Campos.

Em agosto de 2024, a ONU emitiu um relatório de alerta para o aumento do nível do mar ao redor do mundo, baseado em medições da NASA. Atafona aparece no ranking ao lado da cidade do Rio de Janeiro, com a estimativa de que o nível do mar pode subir de 12 a 21 cm até 2050, em ambos os locais. Além disso, o relatório traz que de 1990 a 2020, o mar subiu 13 cm, tanto em Atafona quanto no município carioca. As previsões foram feitas com base em um cenário de aquecimento global de 3°C até o final do século. 

“5 cm, 10 cm, 20 cm, não é de fato o que vai fazer uma cidade ser inundada, mas contribui. Porque com poucos centímetros sobre a superfície do oceano, nós estamos falando de um volume colossal de água que também entra em movimento com os eventos climáticos extremos, ou seja, é mais água para ser movimentada em direção ao litoral, gerando maior energia e maiores impactos potenciais para zonas litorâneas já vulneráveis como Atafona”, comentou Bulhões. 

Segundo o mapa de suscetibilidade a inundações de São João da Barra, elaborado com base em dados do IBGE/ANA (2019), mais de 86% da área total do município é suscetível de forma média ou alta a inundações. No caso de Atafona, além da elevação do nível do mar, o risco de obstrução da foz também faz o local ser ainda mais vulnerável a enchentes. 

Escombros, ruínas e um turismo apocalíptico

Passeando pelas ruas de Atafona, o que mais se vê são casinhas de muro baixo, alguns comércios e pessoas conversando nas calçadas. Mas, ao se aproximar da praia, ruínas e escombros de construções passam a ser o destaque da paisagem. Enquanto os moradores parecem estar acostumados com os destroços no cenário, o distrito recebe turistas curiosos que se impressionam ao ver, ao vivo, o  “cenário do fim do mundo”. 

Frequentador de Atafona desde 1 ano de idade e jornalista com diversas matérias sobre o local, Aluysio Barbosa conta que a sua impressão é que há uma certa banalização e espetacularização do cenário atual do distrito. “O que parece é que só um novo capítulo de uma velha história que se repete sempre. Acho que as pessoas já banalizam o avanço do mar em Atafona e, de certa maneira, é como se a destruição tivesse virado um espetáculo aqui”, contou. 

Os visitantes tiram fotos e gravam vídeos em meio aos destroços e ruínas de casas na praia, muitas repletas de grafite, pichações e alusões ao “fim do mundo”. Em paralelo, há também o lazer em torno dos escombros. O distrito, ainda mais frequentado na época do verão, recebe turistas e veranistas a todo momento.  

Ao longo de toda orla de Atafona, turistas, veranistas e moradores desfrutam da praia do balneário ao lado de escombros e ruínas. Foto: Thiago Freitas

Foto: Thiago Freitas

Kauan Amaral, de 19 anos, é morador de Atafona desde que nasceu e conta que sente certa frustração ao ver os turistas tirando fotos apenas das ruínas do lugar onde cresceu e tanto aprecia. “Eles só gostam de ver quando o processo está no final. Por exemplo, quando alguém vem aqui, não tira foto de uma casa inteira, só dela caindo”, disse. 

Também é comum se deparar com escombros ou resquícios de construções ao mergulhar no mar da Praia de Atafona. Em alguns locais, é possível encontrar placas da Defesa Civil com o escrito: “Atenção! Área imprópria para banho devido a escombros”.  Materiais como tijolos, cimento ou concreto vão sendo dissolvidos com o tempo pelo mar, segundo Bulhões. No entanto, o mais perigoso são os vergalhões, que permanecem por longos períodos. 

Há solução?

Em décadas de fenômeno erosivo intenso na costa de Atafona, nenhuma ação foi feita para mitigar o problema. Segundo Bulhões, não há medida que possa solucionar definitivamente a questão erosiva em Atafona, devido às suas causas múltiplas e complexas. No entanto, é possível realizar ações que atuem nos sintomas do problema e que podem retardar o processo erosivo no local. 

Obras estruturais, como espigões ou quebra-mar, são umas das medidas consideradas quando se trata de avanço do mar e erosão costeira. No entanto, além dos altos custos, esse tipo de obra pode gerar impactos ambientais negativos, tanto localmente, quanto em municípios vizinhos. As estruturas também podem, a longo prazo, serem destruídas pelo mar.  

“Ações aqui em São João da Barra de obras de construção civil, pensando por exemplo em espigões ou quebra mares, elas devem ter uma análise de impacto de vizinhança que deve ser feita pelo governo federal. Então nós temos nosso interesse em impacto local, mas o agir precisa ser com os órgãos federais e estaduais. Por isso que a gente foi à Brasília, por isso que a gente tem dialogado, por isso que a gente precisa agir junto”, comentou a secretária de Meio Ambiente, Marcela Toledo.

Outro tipo de obra estrutural seria a adição mecânica de areia, conhecida como recuperação artificial de praias. Nesse caso, a proposta é pegar a areia de um local e adicionar em outro. “É basicamente fazer de forma artificial aquilo que o Rio Paraíba do Sul não consegue fazer naturalmente”, explicou Bulhões, que propôs esse tipo de obra para Atafona em um relatório realizado em 2018. Segundo ele, apesar de ser fundamentada nas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), essa medida também apresenta altos custos e alguns impactos ambientais. No entanto, ela permite que haja um controle a longo prazo da erosão. “É  um mecanismo que precisa ser periodicamente refeito, uma vez que essas areias vão continuar saindo, mas você criaria dentro do município uma expertise e um programa de transposição artificial de areias”, explicou. Assim, tanto a população, quanto o poder público teriam a possibilidade de se programar e conter a erosão de forma periódica. 

“Todas essas intervenções têm seus prós e contras e o que precisa ser avaliado é o custo-benefício, não só econômico, mas também ambiental. As grandes intervenções também tem que ter uma justificativa de custo ambiental positivo para que essa área sensível que é o litoral do RJ não seja negativamente impactada por mais um tipo de intervenção”, completou o professor. 

Foto: Thiago Freitas

Há, portanto, a necessidade de uma estratégia vinda do poder público que entenda as causas do problema e, principalmente, haja no intuito de retardar o processo e tratar os sintomas da questão, que afetam milhares de habitantes e frequentadores de Atafona. Segundo Marcela, o litoral brasileiro pertence à União, mais especificamente à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e, por isso, o município não teria aval para agir sobre a costa. No entanto, a legislação federal traz que estados e municípios também são responsáveis por zelar pela zona costeira e pelas áreas litorâneas. A lei 7661/1988, que institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, aponta que os municípios podem aderir e criar os próprios planos municipais de gerenciamento costeiro. 

“A orla é do SPU, então não é um território municipal, e sim federal. Nós precisamos que o órgão federal atue conosco por questão de governabilidade e governança. Nós temos o impacto, mas a governança sobre esses recursos são federais. E nesse momento, ao longo desse tempo todo, tudo que eu encontrei e busquei entender foi que nenhuma ação foi de fato implementada por nenhum desses órgãos”, disse Marcela. 

Para que qualquer tipo de obra ou ação seja feita, é necessária a realização de um estudo técnico, com dados e análises atuais do cenário de Atafona. Em abril deste ano, a prefeitura de São João da Barra iniciou esse processo com a publicação de um edital para o início dos estudos. No entanto, até a data de realização desta matéria, a licitação encontra-se embargada sem data marcada para a republicação. Em nota, a prefeitura alegou que, na abertura das propostas, recebeu manifestações de pedidos de esclarecimentos e impugnação “que estão sendo cuidadosamente analisados pela equipe técnica responsável pela elaboração do processo”. Concluídas as adequações necessárias, traz a nota, o edital será republicado. 

Em maio deste ano, foi realizada uma reunião entre o governo municipal e representantes da Associação SOS Atafona e do Grupo Quarentena, movimentos da sociedade civil que atuam em prol de soluções e medidas para Atafona. Na ocasião, os representantes políticos presentes mencionaram a intenção de republicar o aviso da licitação de contratação da empresa para o estudo no mês de junho, com a readequação do edital prevista para julho. No entanto, até a data de publicação desta matéria, não houve tal publicação. 


Fonte: OECO

Uma crônica sobre a erosão em Atafona: o caso de um castelo vazio esperando a chegada do mar ameaçador

Imaginemos o caso de uma figura com vida prosaica que consegue a divina intervenção para comprar o imóvel dos seus sonhos.  Após breve preambulação, acha-se um imóvel que por suas características o preço surge como uma verdadeira bagatela. E melhor ainda, com título de propriedade dentro dos conformes!

Após o negócio fechado e a mudança feita, surgem aqueles problemas normais de quem nunca pegou na enxada, a começar pelo cuidado do jardim que não é tão grande, mas grande o suficiente para causar alguns calos em mãos destreinadas. Mas nada disso é problema, pois no pedaço moram amigos de fé e que lhe abrem os caminhos para conversas muito intelectuais, dignas de uma burguesia que pode estar decadente, mas não perde o rebolado.

Entretanto, com o passar do tempo, o castelo se torna assombrado. Não por almas penadas, mas pela contínua, ainda que paulatina, chegada das águas do mar.  Aí o aparente negócio da China se transforma em compra de ouro de tolo, já que não é nada fácil vender um castelo que em um tempo nada distante vai se juntar a outras tantas edificações que jazem sob o peso de águas revoltas.

Moral da história: Atafona não é para principiantes.

Lerdeza e discursos vazios retardam a adaptação climática e agravarão os custos da elevação do mar no Brasil

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Com as evidências irrefutáveis de que nas próximas décadas teremos uma elevação importante no nível médio do mar seria de se esperar que os governantes brasileiros estivessem soando os alarmes de emergência.  Afinal, a previsão de que regiões inteiras estão destinadas a serem invadidas pelas águas oceânicas é algo que não se pode dar simplesmente de ombros, pois os custos econômicos e humanos prometem ser colossais.

Mas o que se vê é uma combinação de ignorância premeditada e a aplicação de fórmulas que são uma espécie de enxuga gelo debaixo de temperaturas equatoriais.  Isso, é preciso que se diga, é uma completa irresponsabilidade já que os estudos científicos estão trazendo informações que deveriam ser levados com a devida seriedade.

Agora, segundo o que foi divulgado por um veículo da mídia corporativa campista, o que teria declarado a Prefeitura Municipal de São João da Barras após a forte repercussão de um relatório da ONU que prevê que Atafona é um hotspot  no processo de intrusão de águas marinhas nas regiões costeiras do planeta:

“Dentro desse contexto, a orientação foi para a elaboração de um estudo de viabilidade técnica e econômica para que seja analisado o atual cenário para as possíveis soluções. O município já contratou a elaboração do termo de referência e está nas fases finais da elaboração do edital de licitação para a contratação deste estudo. Há um processo de aquisição de uma área em Atafona para construir casas populares para essas pessoas que foram atingidas”.

Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta  para erosão costeira - 13/11/2021 - Ambiente - Folha

O Distrito de Atafona vem sendo engolido pelo mar,  mas até agora nada foi feito para conter o processo

Essa resposta parece ser uma mistura da tática do enxugar gelo com a ideia tosca de que vai bastar mover casas de um ponto para outro para que os impactos da chegada das águas marinhas seja resolvido.  Além disso, falar a estas alturas na contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para definir possíveis soluções é como aquele sujeito que fala em em comprar detectores de fumaça logo após a sua casa ser totalmente consumida por um incêndio.

Sem ter lido os programas de governo dos candidatos a prefeito de São João da Barra, a começar pelo da atual prefeita, Carla Caputi, eu sou capaz de prever que não há nenhuma menção de que será adotada a adoção de uma política pública voltada para preparar o município para a necessária adaptação ao irreversível processo de mudança climática que está ocorrendo na Terra neste momento, mas cujos efeitos mais drásticos serão sentidos nos próximos anos e décadas.

O mais lamentável é essa lerdeza em adotar medidas urgentes ainda custará muito dinheiro e vidas com o tipo de postura que se verifica nos governantes dos estados e municípios costeiros do Brasil.

Mas como não quero dizer que não dei dicas propositivas e apenas critiquei, republico abaixo os mapas contendo as previsões para as áreas que serão inundadas em São João da Barra com diferentes cenários de elevação do nível médio do mar. Como se pode inferir a partir desses mapas,  o problema da intrusão das águas marinhas está longe de estar restrito a Atafona.

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Invasão do mar no Norte Fluminense: muito além de Atafona

Erosão na praia de Atafona pode ter solução federal | São João da Barra | O  Dia

Como sempre acontece, até por falta de redações dignas deste nome, a mídia corporativa local resolveu dar repercussão a um relatório técnico produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a elevação do nível do mar, o chamado “Surging seas in a warming world” que em uma das suas tabelas inclui o Distrito de Atafona como um dos pontos críticos a serem atingidos em um futuro não muito distante (ver imagens abaixo).

O problema é que a situação envolvendo a inevitável elevação do nível do mar associada às mudanças climáticas e ao degelo das calotes polares e geleiras terrestres vai muito além de um ponto individual na costa fluminense. No mapa abaixo que está incluso do relatório da ONU, o que vemos é que todas as áreas costeiras do nosso planeta já vem sofrendo com níveis variados de elevação das águas oceânicas.

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Com isso, os alarmes de emergência já deveriam estar soando com bastante força, na medida em que boa parte da população humana não apenas está vivendo em cidades, mas também em cidades costeiras. No caso do Brasil, cidades importantes como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Santos e Florianópolis estão com o futuro ameaçado, na medida em que as estimativas existentes é que terão partes importantes tomadas pelas águas do mar. No entanto, esse problema está completamente ausente das plataformas dos candidatos a prefeito, o que não chega a ser surpresa porque a questão ambiental é uma ilustre ausente nos programas e debates eleitorais.

Em relação à parte que nos toca, tenho que lembrar que no dia 24 de junho de 2022, compartilhei aqui neste blog a notícia da publicação de um artigo científico em que fui co-autor com o meu ex-orientando e hoje doutor em Ecologia e Recursos Naturais, José Luiz Pontes da Silva Junior, que apresentava previsões (otimistas e pessimistas) para a invasão das águas oceânicas em todo o município de São João da Barra e não apenas para Atafona como acabou de fazer o relatório preparado pela ONU (ver imagens abaixo).

A repercussão baixa daquela publicização se deu provavelmente por dois fatores: a) a prevalência da máxima de que santo de casa não faz milagres, e b) a informação de que boa parte do município de São João da Barra poderá ficar debaixo d’água, incluindo parcelas do V Distrito onde está localizado o Porto do Açu.

O fato inescapável é de que precisamos nos preparar para um futuro em que a linha da costa deverá se mover para locais onde já esteve em um passado não muito distante, engolindo áreas urbanas e estruturas portuárias. Essa preparação deverá incluir o deslocamento de populações inteiras das áreas em que se encontram neste momento, bem como a construção de estruturas de proteção que minimizem a entrada e ação erosiva das águas oceânicas em determinadas regiões. 

E aqui não se trata de um cenário de filme de catástrofe, mas de uma previsão baseada naquilo que as pesquisas científicas já indicam com um nível confiável de estimativa.  É que, como diz o relatório da ONU, desde o início do Século XX,  o nível médio global do mar subiu mais rápido do que nos últimos 3.000 anos e a taxa de elevação continua aumentando. Assim, é se preparar ou se afogar, e os dados já estão rolando.

Mar avança e preocupa praias da Região Norte Fluminense

Assim como Atafona, Farol, Macaé e Rio das Ostras também sofrem com erosão

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Atafona|Avanço do mar é conhecido mundialmente (Foto: Josh)

Por Ocinei Trindade para o J3News

Na praia do Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes, uma família vai à região do Lagamar durante o verão, mas não consegue entrar no mar agitado. O avanço do mar tem destruído parte da orla, ameaçado a vegetação, construções e a estrada. A faixa de areia está cada vez mais reduzida. A constatação é de pesquisadores que estudam o fenômeno no Norte Fluminense. Estima-se que nos últimos 30 anos, trechos da praia campista perderam até 130 metros de faixa de areia. O processo erosivo mais conhecido ocorre em Atafona, São João da Barra, desde os anos 1960. Entretanto, grande parte do litoral do Rio de Janeiro e do Brasil sofre com o avanço do mar. Isto compromete cidades e parte do meio ambiente. Para combater o problema, ações governamentais são necessárias, mas pouco tem sido feito.

Farol de São Thomé|Estrada já foi destruída

A reportagem conversou com alguns moradores da localidade. Eles dizem que o avanço do mar em Farol tem piorado nos últimos anos. “Quando tem ressaca forte, a gente sente mais o perigo”, conta Maria Kelly Pereira que vive próximo à praia com a família. A estrada da orla vem sendo danificada com as ondas, o que dificulta o trânsito. Um bosque e algumas casas estão ameaçadas na região do Lagamar. O secretário de Defesa Civil de Campos, Alcemir Pascoutto, diz que o governo municipal está atento ao avanço, e que tem buscado prováveis soluções por meio de pesquisas e estudos científicos, além de parcerias com órgãos das esferas estadual e federal.

“Nós tivemos um recuo da orla em direção ao continente de cerca de 120, 130 metros. A Defesa Civil vem trabalhando, principalmente nos períodos de ressacas onde temos destruição de estrada. Estamos buscando fazer um novo traçado. Em momentos de ressaca, o mar já consegue atravessar a pista e provocar danos maiores em estruturas, inclusive prédio público no Lagamar. Nós temos ali um centro médico. Se nenhuma medida for tomada, logo estaremos sendo atingidos diretamente com os efeitos das ressacas”, comenta o secretário. Ele também destacou o avanço do mar em outra extremidade da praia, a 12 quilômetros dali, no acesso à localidade Maria Rosa e Lagoa do Açu, que se encontra interditado parcialmente.

No fim do ano passado, a prefeitura promoveu um encontro sobre desastres naturais e erosão costeira na orla marítima de Campos. Participaram representantes de cidades da região, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) e também da Capitania dos Portos de São João da Barra. O geógrafo marinho Eduardo Bulhões, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) é referência no assunto. Ele apresentou uma série de estudos sobre o avanço do mar na região:

Macaé

“Entre São Francisco do Itabapoana e Rio das Ostras, temos um litoral de aproximados 200 km. Podemos constatar para esse litoral que 32% estão em erosão, outros 34% estão em acreção (aumento gradual devido à acumulação de sedimentos) e outros 33% encontram-se em estabilidade. Ou seja, um terço da linha de costa da região sofre algum grau de erosão, seja ele mais ou menos intenso. Campos, por exemplo, está em primeiro lugar, uma vez que 58% da orla apresentam algum grau de erosão quando são comparados dados dos últimos 40 anos. Enquanto isso, no mesmo período, Macaé tem apenas um trecho de aproximados 3 km (9%) com tendência erosiva”, explica.

Pesquisas sobre erosão

De acordo com Eduardo Bulhões, quanto à intensidade do fenômeno erosivo, a condição mais crítica é quando as taxas de erosão são superiores a cinco metros por ano, condição chamada de erosão extrema. No mundo, apenas 4% das praias apresentam esse padrão e aqui na região esse percentual é pequeno, de 1,5% e está concentrado em posições junto à foz do Rio Paraíba do Sul, na localidade de Atafona e na Ilha da Convivência.

“Quanto às causas da erosão, devemos lembrar que sempre há um desequilíbrio no volume de areias em consequência das perdas serem superiores ao suprimento desses materiais para o segmento de praia específico em questão. Esse desequilíbrio pode ter várias causas, mas está associado principalmente à incapacidade da praia se recuperar após um evento específico e esporádico de ressaca. Isso é mais comum em praias urbanas. Está associado a uma interrupção parcial, ou total, no transporte de areia que chega e se movimenta ao longo do litoral. Isso está normalmente ligado à construção de barragens em rios (gerando redução nas vazões líquidas e sólidas); atividades de mineração de areias nos leitos fluviais e/ou construção de grandes estruturas costeiras, como espigões, molhes, guias-correntes”, diz o pesquisador da UFF.

O biólogo marinho Carlos Rezende é especialista em oceanografia química e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Ele considera que o avanço do mar possui especificidades em cada região. “Estamos em um período definido como Antropoceno, no qual as atividades humanas são responsáveis por transformações planetárias significativas. As regiões costeiras merecem atenção especial devido à sua história de colonização e atividades econômicas. A interface entre o continente e o oceano enfrenta uma pressão considerável devido à ocupação humana, uma vez que 21% e 40% da população mundial vivem respectivamente a 30 km e 100 km da costa. As principais causas incluem urbanização com ocupação irregular, agricultura, aquicultura, portos e controle hidrológico das bacias de drenagem para usos múltiplos. Esses são os principais fatores que desestabilizam o equilíbrio dinâmico da região costeira, desenvolvido ao longo do Holoceno (aproximadamente 11 mil anos), e agravado pelo aumento do aquecimento global e do nível do mar”.

Carlos Rezende vê com preocupação o processo erosivo no estuário do Rio Paraíba do Sul. “Isto se alonga por décadas e nada foi feito pelo Município, Estado ou União. Reconheço que é um rio federal com um grande comitê criado em 1997 (Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul) e um comitê criado em 2009 (Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana). Precisamos que estes comitês também se posicionem com mais força para termos ações concretas. Considero que o controle da vazão, com uma redução ao longo do tempo de aproximadamente 50% para o uso na bacia, iniciou estes eventos erosivos na costa, onde vários quarteirões desapareceram e depois as alterações climáticas vieram para aprofundar este processo, gerando eventos extremos de grande intensidade. O município de Macaé apresenta um elevado nível de vulnerabilidade devido ao rápido processo de urbanização motivado pelas atividades de prospecção de petróleo. O Brasil possui um extenso litoral, com diversas cidades em áreas vulneráveis. No caso do estado do Rio de Janeiro, cerca de 11 milhões de pessoas estão em risco, e nas 12 maiores cidades costeiras brasileiras, mais de 19 milhões estão em situação vulnerável devido ao aumento do nível do mar. É uma discussão importante, especialmente neste momento em que tratamos das próximas eleições. Nunca incluímos nos planos de governo metas claras para lidar com as questões relacionadas às adaptações das cidades diante das mudanças climáticas”, avalia.

O geógrafo e pesquisador da Uenf, Marcos Pedlowski, atenta para um estudo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo que mostrou que o nível do mar no litoral paulista subiu cerca de 20 centímetros nos últimos 73 anos. “Esse mesmo estudo apontou que  até 2050 a elevação pode chegar a 36 centímetros se o padrão de emissão de dióxido de carbono (CO2) não cair. Se extrapolarmos os dados desse estudo para o Rio de Janeiro, provavelmente poderemos ter mais mudanças em um ritmo mais rápido do que o atual. No caso do Norte Fluminense, penso que os pontos de erosão costeira poderão aumentar em número e intensidade. O futuro será marcado por interações complexas entre fenômenos de caráter local e os de níveis regional e global. O alarme de urgência para que sejam desenvolvidas políticas urbanas de adaptação climática já deveria ter soado.  É uma situação muito preocupante, na medida em que as estruturas necessárias para a adaptação são muito caras e implicam em grandes investimentos.  A situação é agravada pela predominância de um modelo de urbanização que é social, economicamente e racialmente segregado. As próximas décadas serão marcadas por grandes dificuldades, especialmente para os segmentos mais pobres da população. A construção de barreiras físicas para fazer frente ao processo de erosão costeira já está sendo feita em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. No entanto, se não houver um processo de planejamento integrado, a construção de estruturas físicas não passará de mero paliativo, representando ainda desperdício de dinheiro público”, observa. 

As entrevistas completas com os pesquisadores da UFF e da Uenf estarão disponíveis no site do J3News ao longo da semana.

Ações governamentais na região

Rio das Ostras|

Nas últimas décadas, o avanço do mar em cidades como Campos, Macaé, São Francisco de Itabapoana, Rio das Ostras e São João da Barra, entre outras, tem provocado prejuízos urbanos e ambientais. A reportagem questionou os governos municipais sobre medidas de enfrentamento do processo de erosão no litoral. O Instituto Estadual do Ambiente, que representa o governo estadual, também foi indagado acerca de ações na região. Em nota, o Inea informou apenas que “a Secretaria de Estado de Habitação está em tratativas com o Governo Federal para as obras de intervenções necessárias para conter o avanço do mar em Atafona”. Saiba como se posicionam algumas prefeituras, a seguir.

São João da Barra
O processo de erosão costeira das últimas seis décadas na praia de Atafona e, mais recentemente, na praia do Açu vem ocasionando impactos negativos ao meio ambiente e à economia. Em nota, a prefeitura diz que “tem buscado junto aos órgãos estaduais e federais soluções eficazes para enfrentar a questão. Algumas propostas foram apresentadas, porém são necessárias comprovações e modelagens dos impactos, bem como a verificação de sua eficiência através de um estudo sobre o processo da erosão costeira, levando em consideração suas múltiplas influências e a dinâmica das mudanças climáticas. Com o diagnóstico atualizado será possível adotar ações de curto, médio e longo prazo”.

Macaé
A Secretaria de Defesa Civil informou que monitora os imóveis que estão localizados na poligonal de risco da praia da Fronteira, onde a erosão é maior. “Foram demolidos 40 imóveis e 13 estão a demolir. Há 67 processos para análise em seguimento, e 27 imóveis com moradores resistentes à adesão de demolição. A Defesa Civil realiza trabalho de monitoramento diariamente”.

São Francisco de Itabapoana
De acordo com a secretária de Meio Ambiente, Luciana Sofiatti, os efeitos do avanço do mar são sentidos em menor escala, se comparados aos municípios vizinhos. “Estamos monitorando frequentemente através do grupo de trabalho instituído para elaboração do Plano Municipal de Gerenciamento costeiro. Nos últimos anos, tivemos alguns registros de eventos isolados de erosão costeira/ marinha, sem grandes prejuízos, e que logo foram controlados através de ações integradas entre diversas secretarias do município”.

Rio das Ostras
A Prefeitura de Rio das Ostras deu início à elaboração do Termo de Referência, documento que reúne estudos técnicos preliminares, para licitar serviço de consultoria especializada com o objetivo de identificar as causas da erosão e da progradação (processo natural de ampliação das praias provocado pelo mar). “O passo seguinte será a elaboração de Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) para a mitigação dos impactos negativos da erosão costeira que engloba as praias da Tartaruga e do Abricó. Isto visa fundamentar, por meio de análise sistêmica de diferentes variáveis sociais, ambientais, econômicas e técnicas, a alternativa mais adequada para orientar a construção de medidas mitigadoras e compensatórias desses impactos”, conclui a nota.


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Este texto foi originalmente publicado pelo J3News [Aqui!].

Os refugiados ambientais de Atafona

Mar já engoliu casas de 15 quarteirões e vai obrigando antigos moradores de balneário a mudarem de casa, de cidade e de profissão

ata 5Imóvel destruído pelo mar em Atafona: mais de 300 casas engolidas em 15 quarteirões criaram centenas de refugiados ambientais em balneário no litoral norte do Estado do Rio (Foto: Carolina Gomes)

Por Carolina Gomes para o Projeto Colabora

Ronaldo Cravo era conhecido no Balneário de Atafona, em São João da Barra, a cerca de 350 quilômetros ao norte da cidade do Rio, pelo seu famoso pirão de peixe e pelas frases otimistas nas paredes de seu bar, o “Não Me Viu”, tomado três vezes pelo avanço do mar. Em meados dos anos 1990, o comerciante e cozinheiro, nascido e criado da Praia de Atafona já havia perdido também duas casas no balneário: foi dormir nas ruas e virou alcoólatra.

“Vi essa praia crescer e estou vendo o mar comer de volta. Eu tinha uma palafita dentro do manguezal, e, na frente dele, tinham cinco ruas de casas com cooperativas, frigoríficos, postos… Tinha vida. De uns anos para cá, tudo foi levado pelo mar e ninguém toma providência”, disse Ronaldo ao dar entrevista, em outubro, sobre sua vida de refugiado ambiental. Havia se recuperado com a ajuda dos filhos e estava há 18 anos sem consumir bebida alcoólica. Morava numa parte do imóvel onde mantinha o bar na mesma Avenida Atlântica que margeia a praia, mas via o mar se aproximando de novo.

Cravo morreu de infarto, aos 63 anos, sem ver a solução para o avanço do mar, cada vez mais feroz, mudando a geografia do Pontal de Atafona e bloqueando a foz do Rio Paraíba do Sul. “A água do poço, de tão salgada, não serve nem para dar banho nos cachorros, porque a veia do mar já está aqui por baixo”, lamentava o cozinheiro, enquanto recordava vizinhos e amigos, que trocaram de cidade.

ata 4Ronaldo Cravo, em entrevista pouco antes de sua morte: duas casas e o bar perdidos para o mar em Atafona (Foto: Carolina Gomes)

A vida de Ronaldo foi uma das centenas afetadas pelo avanço do mar. Moradores da região ainda são obrigados a deixar suas casas, e pescadores estão com dificuldades para se manter em atividade em função da erosão costeira, que ocorre desde a década de 1970 e vem se agravando, nos últimos anos, com as mudanças climáticos. São os refugiados ambientais do Balneário de Atafona, onde mais de 300 casas, distribuídas por 15 quarteirões, já foram levadas pelo mar.

De acordo com a ONG Oxfam, os desastres climáticos tornaram-se a principal causa da deslocação de pessoas em todo o mundo na última década e forçaram mais de 20 milhões por ano a deixarem as suas casas. Em estudo apresentado no dia da abertura da Cúpula do Clima da ONU em Madri, a organização aponta que atualmente é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos”.

Ter a casa inundada não é novidade para Mary Lúcia Tavares, que mora à beira da praia em Atafona. Nas últimas semanas, o mar avançou mais e invadiu novamente sua residência. Ela precisou esperar que a água escoar e as escavadeiras retirarem areia dos portões; a Defesa Civil vistoriou o lugar e liberou a permanência dos moradores, por ora. A dona de casa já viu muitos vizinhos serem levados para residências sociais pela prefeitura, após o mar abalar a estrutura das casas.

Como todos os moradores mais antigos, a dona de casa lembra dos imóveis que foram sendo levados pelo mar: o farol da Marinha, o prédio da Colônia de Pesca, bares, pequenas lojas, a Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, o posto policial, um posto de combustível para os barcos. Em 2008, a erosão costeira provocou a queda do único prédio de Atafona, com 48 apartamentos.

ata 3O mar já visitou a casa de Mary Lúcia onde os móveis estão sobre caixas plásticas: “Nesses dias, ninguém dorme, fica todo mundo andando pela rua. O mar é engraçado, tem hora que ele tá lá longe, daqui a pouco ele tá jogando aqui pertinho” (Foto: Carolina Gomes)

Mary Lúcia sabe que sua casa, em que os móveis estão sobre caixas plásticas, é uma das próximas. Ela sofre de ansiedade e dorme com a ajuda de remédios, já que a preocupação não lhe permite descansar, atenta para acordar os vizinhos quando a água invadir as casas novamente. “Nesses dias, ninguém dorme, fica todo mundo andando pela rua. O mar é engraçado, tem hora que ele tá lá longe, daqui a pouco ele tá jogando aqui pertinho”, conta.

Doutor em Geologia e Geofísica Marinha pela UFF, o professor Eduardo Bulhões explica que o problema de Atafona acontece por causa do déficit de areia na praia. “Todas as praias se equilibram com areias que chegam e que saem. Em Atafona, esse equilíbrio foi quebrado, então entra menos areia do que sai e, por isso, a praia entra em um processo de erosão extrema”, explica. Esse desequilíbrio foi quebrado pelo processo de urbanização e de ocupação do litoral e das margens do Rio Paraíba do Sul, que deságua no mar em Atafona.

O geólogo e geofísico acrescenta que Atafona sofre déficit de sedimento, pois o Paraíba do Sul não consegue repor a quantidade de areia necessária para manter o equilíbrio. “O rio não consegue fazer isso desde a década de 80, sobretudo após construções de barragens ao longo do seu leito. Isso fez com que ele não consiga empurrar a areia para praia, ao passo que o mar continua removendo essa areia”, esclarece Eduardo Bulhões.

Foz fechada

O desequilíbrio ambiental teve novo ápice no final de outubro quando a foz do Rio Paraíba do Sul, em Atafona, foi fechada pela areia. A água do rio só está desaguando no Oceano Atlântico no vizinho município de São Francisco de Itabapoana, através de um braço menor do curso d’água. O desequilíbrio não é apenas ambiental, mas também econômico, já que hoje os pescadores – a maioria da população de Atafona vive da pesca – precisam seguir até São Francisco do Itabapoana para ir para alto-mar. Muitos voltam da pesca sem esperança.

À beira do rio, no Pontal de Atafona, ficam frigoríficos de peixes onde as embarcações atracam, descarregam, enchem o tanque de gasolina e o depósito de gelo, antes de os pescadores saírem de novo para o alto-mar e voltarem até uma semana depois. Nos últimos anos, apenas barcos com menos de 10 toneladas conseguiam atravessar a foz do Rio, já que a areia estava assoreada na foz do rio o que já fazia com que alguns barcos atolassem na barra.

ata 2O pescador Nilson Ferreira e o drama de quem está sofrendo com a mudança climática: fechamento da foz do Rio Paraíba do Sul dificulta ainda mais a vida de quem vive da pesca (Foto: Carolina Gomes)

Nilson Ferreira, de 44 anos, pesca desde os 8 anos de idade. Seu pai o incentivou a ser pescador, mas ele pede para que seus filhos não sigam na profissão. “A renda caiu porque não consigo mais sair com tanta frequência por causa do fundo do rio. Tem dia que saio às quatro da manhã e volto sem nada. Não temos mais acesso ao cais para carregar e descarregar a mercadoria. Às vezes fico até devendo, as contas do mês não fecham”, lamenta Nilson, que pensa em mudar de ramo ou se mudar de Atafona, como fizeram muitos outros pescadores do pontal.

O Rio Paraíba do Sul sofre com a redução de sua vazão, o assoreamento, o desmatamento nas margens e um processo de salinização na foz, que causa prejuízo às produções pesqueiras, além de extinguir manguezais. Os ambientalistas alertam que, se, de um lado, o Paraíba do Sul perde vazão pela ação humana, do outro, o aumento do nível dos oceanos, provocado pelo aquecimento global e as mudanças climáticas, faz o mar subir de forma mais intensa e violenta em Atafona.

Sem solução à vista

Pesquisadores observam a região há décadas, mas não há consenso sobre a melhor forma de resolver o problema. Em 2015, estudo realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias apontava para necessidade de construção de nove espigões costeiros – estruturas para conter o mar – com comprimento de 240 metros cada e espaçados entre si para compartimentar a praia e evitar a perda de areia, além de um aterro de 100 metros de largura, a transferência de um volume de areia de 2.650.000 metros cúbicos e de um volume de pedra de 262.650 metros cúbicos. Esse projeto estava orçado, na ocasião em cerca de R$ 100 milhões.

Em 2018, o próprio professor Eduardo Bulhões apresentou, a pedido da Defensoria Pública de Barra de São João, estudo e proposta para enfrentar a erosão costeira em Atafona, que parte da dragagem e do bombeamento hidráulico de areias compatíveis de dentro da calha fluvial do Paraíba do Sul para o pontal de Atafona. Esta “transposição artificial de areias” – como é chamada no estudo – seria complementada pelo espalhamento deste material por uma faixa de 1,5 km com a formação de dunas artificiais. O custo deste projeto ficaria entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

ata 1Restos de casas destruídas pelo mar em Atafona: combinação de erosão costeira e mudanças climáticas (Foto de Oscar Valporto)

Nenhum dos projetos avançou. Em março de 2019, a maré subiu quase dois metros e foram necessários mobilizar caminhões de areia para formar uma barragem e evitar a chegada da água em pontos mais vulneráveis da praia. Em julho, uma nova subida brusca da maré alagou mais de uma dezena de casas. No fim de outubro, parte do asfalto desmoronou na esquina da Avenida Atlântica com a rua Elias Beirute por conta da erosão costeira.

Os moradores temem que Atafona se transforme numa nova Ilha da Convivência. O lugar fica a 850 metros do pontal e era residência de pescadores. Já chegou a reunir 400 famílias, mesmo com a água potável chegando em barcos e sem luz elétrica. Hoje, o panorama é diferente. Quem visita o local não vê nada além de uma faixa de areia. Até o mês passado, chegar até a Ilha só era possível de barco, entretanto, agora que foz do Rio Paraíba do Sul secou, o trajeto pode ser feito a pé. “O rio secou, está todo mundo revoltado e com medo que seque tudo, e os barcos não consigam sair mais”, conta Mary Lúcia

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

A erosão em Atafona avança em meio à inércia dos (des) governos

Estive hoje no Pontal de Atafona para uma atividade de campo da disciplina de Geografia Geral que ministro para discentes do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense e o que vi me deixou impressionado. É que por alguns anos não usei essa parte da costa sanjoanense para ilustrar os processos que decorrem da ação de processos naturais e antrópicos na modelagem costeira ( ver imagens abaixo).

Apesar desse processo erosivo não ser recente, o que  mais me impressionou é o estágio atual em que a perda da face de areia parece estar ocorrendo de forma mais acelerada,  em que pese o fato de estarmos uma período de chuvas intensas que altera o padrão de descarga do Rio Paraíba do Sul em relação a pelo menos os três últimos anos. Mas nem esse volume acentuado parece estar compensando a força das correntes que atuam naquela área.

Interessante notar que há vários anos são anunciadas medidas para mitigar o processo de erosão no Pontal de Atafona. Mas entram governantes e saem governantes (muitas vezes os mesmos que tinham saído antes) e nada é feito. 

A consequência disso é que provavelmente em campos futuros deverei ter ainda mais exemplos a dar sobre como a inércia governamental somada à ação das forças da natureza contribuíram para a destruição de um dos pontos mais bonitos e atrativos do litoral norte fluminense.

Mas é interessante notar que os estudantes que estavam no campo parecem ter apreciado bem a oportunidade de ver fora da sala de aula alguns dos processos que apresentei em sala de aula. Só não tenho muita certeza se isso serve de consolo para quem está perdendo suas casas e sossego em Atafona.

Pescadores de Atafona articulam manifestação para fechar Porto do Açu

Por Arnaldo Neto

As dificuldades que os pescadores de Atafona têm enfrentado (veja o vídeo) para conseguir passar pela barra — canal de acesso ao mar — ganhou destaque neste mês de julho, com recorrentes cenas de barcos encalhados na foz do Paraíba. Com o rio perdendo força, bancos de areia estão se formando e bloqueiam a passagem dos barcos. A classe pesqueira já se reuniu (aqui) no último dia 9 com representantes das secretarias de Pesca, Maio Ambiente e Obras de São João da Barra, por intermédio da vereadora Sônia Pereira (PT), para debater o assunto e buscar uma solução. Somente na última semana, três barcos ficaram encalhados na foz. Eles alegam que, de imediato, seria necessário a dragagem da área, feita por um navio que executou o serviço de aprofundamento e a abertura de um canal no Porto do Açu.

De acordo com o secretário de Pesca do município, Joel Serra, o secretário de Obras, Marcos Sá, já apresentou um projeto para desobstrução do canal de navegação e uma reunião com o prefeito Neco (PMDB), agendada para esta segunda-feira (27), vai discutir os próximos passos em busca de uma solução para o problema. “Na segunda-feira teremos uma reunião com o prefeito Neco, os secretários de Obras e de Meio Ambiente. Estamos recolhendo assinatura dos pescadores, para anexar um abaixo assinado ao projeto. Uma coisa é certa, do jeito que está não dá para ficar”, relatou Joel.

Em vídeo publicado nas redes sociais (aqui), os pescadores mostram as dificuldades encontradas para passar pelo canal até mesmo com a maré cheia. No áudio, é possível ouvir seus relatos e o aviso que irão organizar uma manifestação em frente à Prefeitura e a ameaça de fechar o Porto do Açu caso uma solução imediata não seja apresentada.

Os pescadores acreditam que a Prumo e outras empresas do Porto devem participar do projeto, como forma de medida compensatória aos impactos do empreendimento na principal atividade econômica de Atafona. Além disso, eles alegam que se o canal fechar, o entreposto pesqueiro — apresentado como plano de compensação da ainda LLX em 2009 —, com obras que se arrastam desde 2012, ficaria inutilizável, se um dia ficar pronto. “Era só a draga que eles usam no Açu vir aqui e abrir o canal de navegação. A gente sabe que isso (a barra fechar) é a força da natureza, mas precisa ser feito alguma coisa para ajudar o pescador”, relatou Carlos Pereira, ex-vereador e proprietário de embarcações.

FONTE:http://fmanha.com.br/blogs/arnaldoneto/2015/07/27/pescadores-de-atafona-articulam-manifestacao-para-fechar-porto-do-acu/

O DIA produz matéria sobre a erosão marinha em São João da Barra

Seca agrava avanço do mar em São João da Barra

Para especialista, baixo nível do Rio Paraíba do Sul influencia fenômeno

EDUARDO FERREIRA

Rio – A velocidade cada vez maior com que o mar avança e destrói construções no litoral de São João da Barra, Norte Fluminense, pode ter relação direta com a estiagem que assola o Rio Paraíba do Sul no estado. Dados da Defesa Civil do município apontam que nos últimos quatro meses, o mar avançou cerca de oito metros nos distritos de Atafona e Açu. O fenômeno acontece desde a década de 1970, mas está se agravando na cidade onde o Paraíba do Sul deságua e o nível do rio já chega a 2,20 metros — o normal seria 4,8m. Um quarteirão, 15 ruas e cerca de 500 casas já desapareceram do mapa.

Escombros na Praia de Atafona: força do mar se intensificou com baixo nível do Paraíba, diz especialista. Foto:  Nanci de Azeredo / Foto do leitor

De acordo com o oceanógrafo David Zee, o rio funciona como um espigão hídrico enfrentando as ondas. Quando sua vazão diminui, o equilíbrio de força com o mar acaba. Ele explica que o litoral tem muitos sedimentos de areia e argila. Com o rio baixo, o carregamento desses detritos diminui e, com isso, há um menor aporte de água doce. “Todo o material se acumula na embocadura do Paraíba do Sul. O mar, então, passa a atuar com mais intensidade. O equilíbrio de forças que existia antes está acabando. O ciclo hídrico está todo desbalanceado”, ressaltou o oceanógrafo.

Duas famílias tiveram que deixar suas casas na última semana, em Atafona, porque corriam risco de morte. “As pessoas moravam em frente à praia e a onda estava alcançando as residências. O mar está impróprio para banho por causa dos escombros”, disse o sub-coordenador de Defesa Civil do município, Wellington Barreto.

Ex-moradora de Atafona, a professora Vera Lúcia Fernandes, 52 anos, teve que se mudar há dois meses para a casa da irmã, em Campos dos Goytacazes, por causa do avanço do mar. “Tive que sair com meus dois filhos porque me sentia ameaçada. Fiquei triste porque sempre morei em São João da Barra, mas não tive condições de ficar. Não tenho dinheiro para comprar outra casa. Infelizmente não podemos fazer nada contra a natureza”, lamentou.

O prefeito José Amaro de Souza, o Neco, pediu um estudo para o Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH) e espera receber conclusão até o próximo mês, já com os números e custos de todo o projeto, que inclui Atafona. Já para o Açu, a prefeitura solicitou à empresa Prumo Logística, responsável pelo porto, que custeasse o estudo junto ao mesmo instituto.

Cenário de destruição

Quem passa por Atafona e Açu pode perceber os entulhos que chamam a atenção à beira-mar. São dezenas de casas destruídas. No Açu, uma área equivalente a três campos de futebol foi levada pelo mar. “Várias pessoas abandonaram suas casas antes mesmo de a Defesa Civil interditar. A situação é preocupante porque o mar não para de avançar”, disse.

Moradora do Açu, a aposentada Gracilda Francisca do Nascimento, 71, relembra a orla antes de tudo começar. “Aqui havia barracas, cadeiras e bares. Meu medo é a água do mar destruir tudo”, disse. Já a freira Nanci de Azeredo fez fotos dos estragos. “Aquela casa (foto) caiu na sexta-feira (dia 20). As pessoas estão em estado de alerta. Há muitas casas interditadas. O mangue que tinha em Atafona não existe mais”, disse.

Porto do Açu nega ligação a fenômeno

Para o pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF, Aristides Soffiati, as obras do Porto do Açu agravaram a situação. “A empresa fez dois espigões. Abriu um canal no continente para fazer um estaleiro e criou dois prolongamentos de pedra”. Com isso, a água passa, mas a areia fica e causa o engordamento da praia. “O mar está perdendo areia. Não encontra mais a resistência da praia”.

A Prumo, responsável pelo porto, contratou a Fundação Coppetec para realizar um estudo e diz que o resultado indicou ser inviável associar o estreitamento da faixa de areia às obras do porto.

FONTE: http://odia.ig.com.br/odiaestado/2015-03-07/seca-agrava-avanco-do-mar-em-sao-joao-da-barra.html

Terceira Via: Defesa Civil de SJB está em alerta e monitora praia do Açu

No dia 23 de setembro, os moradores do Açu foram surpreendidos pela invasão do mar. Na segunda-feira (10), o mar voltou a avançar

A Defesa Civil de São João da Barra está em alerta monitorando a praia do Açu devido aos impactos ambientais ocorridos no local nos últimos meses. O órgão informou que o avanço do mar “sempre acontece quando há maré alta ou ressaca” e enfatizou que não há decreto de emergência sobre esse fato e nenhuma família está desabrigada ou desalojada nas imediações do Açu.

 No dia 23 de setembro, os moradores do Açu foram surpreendidos pela invasão do mar na principal avenida da localidade. No dia seguinte, uma equipe do Ministério Público Federal (MPF) fez um levantamento na área, onde foram coletados depoimentos da população residente, além de fotos e vídeos. Na segunda-feira (10), moradores voltaram a viver o drama com o avanço do mar.

 O local fica na área de influência direta do Complexo Industrial do Superporto do Açu – empreendimento que vem acentuando o processo de erosão do mar.

 O ambientalista Aristides Soffiati compara os impactos causados na Praia do Açu com a Praia de Atafona. “As duas praias sofrem o processo de erosão. Em Atafona esse processo acontece há cerca de 50 anos. Já no Açu acontece recentemente em função das obras do Complexo. Em ambos os casos, o homem acentuou os fenômenos naturais”, disse.

 O Complexo Logístico Industrial Portuário do Açu vem sendo investigado pelo MPF desde 2008 quando foi instaurada uma ação civil pública para apurar o licenciamento do Porto do Açu, da extração do minério, em Minas Gerais, e do mineroduto. De acordo com o procurador Eduardo Oliveira, a obra do complexo logístico causa impactos em três estados brasileiros e, por esse motivo, a licença deveria ser concedida em conjunto por um órgão federal, como manda a lei.

FONTE: http://jornalterceiravia.com.br/noticias/norte-noroeste-fluminense/59639/defesa-civil-de-sjb-esta-em-alerta-e-monitora-praia-do-acu