Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato

Agência Ambiental dos EUA rejeita alerta científico de câncer causado por atrazina, corrobrando críticas feitas pela Syngenta

getty-images--CbolgNepiA-unsplash

Por Brian Bienkowski e Carey Gillam para “The New Lede” 

Órgãos reguladores dos EUA estão rejeitando uma nova pesquisa de especialistas internacionais em câncer que alerta para a ligação entre o câncer e o pesticida atrazina, amplamente utilizado, ridicularizando a equipe de cientistas e ecoando as críticas da Syngenta, fabricante da atrazina.

Segundo um porta-voz da Agência de Proteção Ambiental (EPA), a EPA não vê necessidade de agir rapidamente em relação à nova avaliação divulgada no mês passado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde.

A IARC tem “um longo histórico de conclusões gravemente equivocadas”, afirmou a porta-voz da EPA, Carolyn Holran.

Em novembro, a IARC classificou a atrazina — o segundo herbicida mais utilizado nos EUA, depois do glifosato — como provavelmente cancerígena para humanos”, após uma longa revisão de anos de estudos científicos.

O grupo citou evidências de estudos em humanos, animais e mecanismos que levaram às suas conclusões, incluindo pesquisas que associam a substância química ao linfoma não Hodgkin em humanos. A IARC afirmou haver evidências “fortes” em estudos mecanísticos que demonstram que a atrazina apresenta características-chave de carcinógenos, incluindo inflamação, estresse oxidativo e morte celular.

A IARC tem “um longo histórico de conclusões gravemente equivocadas” – afirmou Carolyn Holran, porta-voz da EPA.

A classificação como cancerígena não foi uma surpresa para os defensores da saúde pública e ambiental, que há muito tempo pedem a proibição da atrazina não apenas por preocupações com o câncer, mas também devido a pesquisas que a associam a danos reprodutivos e ao desenvolvimento.

Uma pesquisa realizada pela própria Syngenta há mais de 20 anos mostrou altas taxas de câncer entre os trabalhadores de sua fábrica de pesticidas, um fato que a empresa não divulgou até ser obrigada por um processo judicial.

“Isso deveria ser apenas mais um prego no caixão da atrazina”, disse Lori Ann Burd, diretora de programa de saúde ambiental e advogada sênior do Centro para a Diversidade Biológica. “Apesar de todas as evidências crescentes, parece que nada está sendo feito para conter esse produto químico terrível que é proibido em tantos outros lugares.” 

A atrazina é proibida em cerca de 60 outros países, incluindo toda a União Europeia, mas os agricultores dos EUA aplicam aproximadamente 70 milhões de libras do pesticida em seus campos todos os anos, geralmente usando-o para cultivar milho, sorgo e cana-de-açúcar, de acordo com estimativas da EPA .

Incitar o medo?

A IARC possui quatro classificações para as diferentes substâncias, práticas de estilo de vida e outros fatores ambientais que analisa para determinar os níveis de risco para os seres humanos – e a maioria das conclusões de mais de 1.000 dessas análises foi considerada pela IARC como “não classificável” quanto à carcinogenicidade.

A classificação atribuída à atrazina – “provavelmente cancerígena” – é a mais rara emitida pela IARC. A segunda classificação mais rara é “cancerígena”.

“Isto deve ser apenas mais um prego no caixão da atrazina.” – Lori Ann Burd, Centro para a Diversidade Biológica

No entanto, a EPA considera a classificação da atrazina pela IARC como “apenas mais um exemplo da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde usando uma abordagem profundamente falha em suas avaliações de câncer”, disse Holran.

Ela afirmou que a IARC está simplesmente fomentando o medo, salientando que a avaliação científica final completa do grupo não deverá ser publicada antes do final de 2026 ou 2027 .

Quando a avaliação completa da IARC estiver disponível nos próximos dois anos, a agência considerará se há alguma nova descoberta científica a ser levada em conta para fins regulatórios, disse Holran. O atrazina está atualmente em processo de registro pela agência, mas Holran não comentou sobre o andamento do processo. 

Avaliações anteriores da EPA concluíram que “a totalidade das evidências disponíveis não sustenta uma associação entre a exposição à atrazina e o câncer em humanos”. 

O resumo da classificação da atrazina pela IARC foi publicado no periódico The Lancet Oncology no mês passado. É prática comum da IARC publicar os resumos bem antes do extenso volume final das classificações.

Holran fez coro às críticas da Syngenta, que emitiu um comunicado no mesmo dia em que a conclusão da IARC foi divulgada, apontando de forma depreciativa para classificações anteriores da IARC sobre práticas como beber bebidas muito quentes , trabalhar como barbeiro ou cabeleireiro exposto a produtos químicos para coloração capilar , consumir carne vermelha e trabalhar no turno da noite — todas classificadas pela IARC como “provavelmente cancerígenas”.

Em seu comunicado, a Syngenta classificou o relatório como “totalmente inconsistente com o consenso científico de cerca de 50 autoridades reguladoras e órgãos de especialistas científicos em todo o mundo” e afirmou que a IARC “não avalia sistematicamente a qualidade nem a consistência” dos estudos que examina ao fazer suas avaliações.  

A classificação da IARC não estabeleceu uma “relação causal entre a exposição à atrazina e o aumento do risco de câncer”, afirmou a Syngenta.

Sob escrutínio há anos

A atrazina tem sido alvo de escrutínio há anos, em meio a evidências científicas que associam a exposição a defeitos congênitos, baixo peso ao nascer, disfunções hormonais, alguns tipos de câncer e problemas no sistema imunológico. Um estudo de 2011 concluiu que a atrazina “causa efeitos graves na saúde humana”, que variam desde efeitos no sistema nervoso, sistema imunológico, rins, coração e fígado, até hormônios e enzimas. Ela é considerada um disruptor endócrino , o que significa que pode interferir no sistema hormonal humano.

Embora os trabalhadores agrícolas sejam considerados o principal grupo populacional exposto à atrazina, o produto químico é comumente levado das lavouras dos campos agrícolas para os cursos d’água e é um poluente recorrente no abastecimento de água potável para milhões de americanos.

Russell Cattley, pesquisador e professor da Universidade de Auburn e presidente do grupo de trabalho da IARC sobre atrazina, composto por 22 membros, não comentou se a nova classificação deveria ou não impactar as decisões regulatórias nos EUA, mas afirmou que as classificações “são frequentemente usadas como base para políticas, diretrizes, avaliações de risco e recomendações nacionais e internacionais para minimizar os riscos de câncer”.

Questionado sobre as críticas da Syngenta, Cattley afirmou que o grupo “revisa rigorosa e sistematicamente estudos disponíveis publicamente, principalmente da literatura científica revisada por pares, e avalia a força das evidências de que um agente pode causar câncer em humanos”, acrescentando que o grupo sobre a atrazina era composto por 22 especialistas internacionais independentes de 12 países. 

Daniele Mandrioli, cientista italiano e membro do grupo de trabalho da IARC sobre atrazina, afirmou que a determinação da concentração de atrazina foi baseada em um “forte consenso” do grupo de trabalho da IARC.

Ele afirmou que a descoberta do grupo sobre a atrazina poderia “servir globalmente como uma avaliação de risco sólida e independente, na qual as autoridades de saúde pública e todas as partes interessadas poderiam confiar e adotar”.

Documentos internos obtidos por meio de litígios contra a empresa relacionados à atrazina revelaram que a empresa fez de tudo para desacreditar ou silenciar os críticos do herbicida, incluindo a contratação de uma agência de detetives para investigar cientistas de um painel consultivo federal, o pagamento secreto a terceiros para que parecessem apoiar de forma independente a segurança da atrazina e a tentativa de difamar a reputação de um cientista que constatou impactos alarmantes da atrazina em anfíbios.

Steve Tillery, o advogado que descobriu os arquivos internos da Syngenta em uma batalha judicial de nove anos, afirmou que as evidências dos danos causados ​​pela atrazina são claras e que a Syngenta trabalhou para ocultar essas evidências.

“Eles não têm sido transparentes”, disse ele sobre a empresa. “Pelo que vimos, trata-se de uma substância química que quase certamente causa diversos tipos de doenças humanas muito graves.”

Ele disse que a EPA deveria tomar providências.

“Quando se trata de vidas humanas, de sofrimento humano, acho que a primeira e mais importante obrigação da EPA e desses fabricantes é a segurança das pessoas que usam esses produtos químicos”, disse Tillery.

Substância química diferente, mesmo debate

As críticas da EPA e da Syngenta à IARC são semelhantes à reação da EPA e da fabricante de pesticidas Monsanto quando a IARC classificou o herbicida glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015. A Monsanto, que introduziu os herbicidas à base de glifosato na década de 1970, chamou o trabalho da IARC de ciência lixo e trabalhou para intimidar e assediar os pesquisadores de câncer, pressionando os EUA a cortar o financiamento da agência de pesquisa do câncer.

Antes disso, as classificações da IARC não eram normalmente vistas como controversas, mas a Monsanto e seus aliados trabalharam para desacreditar a organização e suas conclusões. Um grupo que comprovadamente recebe financiamento da indústria química também atacou a IARC por sua classificação de um tipo de substância per e polifluoroalquilada (PFAS).

Desde que a IARC classificou o glifosato, mais de 150.000 ações judiciais foram movidas por pessoas que alegam que a exposição a herbicidas à base de glifosato da Monsanto, como o Roundup, causou o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin.

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) ainda mantém a posição de que o glifosato provavelmente não causa câncer em humanos, e o governo Trump se posicionou esta semana ao lado da Bayer , que comprou a Monsanto em 2018, em sua batalha contra o processo judicial em andamento sobre o Roundup.

“A EPA se contorceu toda para negar as conclusões da Organização Mundial da Saúde sobre o glifosato e para se manter firme em sua avaliação, então não tenho muita esperança de que eles analisem a atrazina com a mente aberta sob a atual liderança política”, disse Burd. 

A classificação da IARC surge depois de a EPA ter revisto, em outubro, a sua determinação anterior de que a atrazina provavelmente prejudica mais de 1.000 espécies ameaçadas de extinção. A agência, juntamente com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, afirmou agora, em outubro, que a atrazina representa pouco ou nenhum risco para as espécies ameaçadas de extinção.

Philip Landrigan, diretor do Observatório Global de Saúde Planetária do Boston College, afirmou que é provável que a posição da EPA sobre a atrazina permaneça inalterada, apesar das preocupações levantadas pela IARC.

“Acho que a EPA, sob a atual liderança, encontrará uma maneira de ignorar isso”, disse ele. No entanto, ele tinha esperanças maiores em relação a outros países.

“Os processos regulatórios não mudam da noite para o dia”, disse ele. “Mas acho que veremos mudanças acontecendo nos próximos dois anos.”

Imagem em destaque: Getty Images para Unsplash+


Fonte: The New Lede

MPF do Mato Grosso do Sul cobra 29 empresas por contaminarem o Pantanal com atrazina

Processo busca indenização de R$ 300 milhões e suspensão do uso da Atrazina após comprovação de dano ambiental

Ação cobra 29 empresas por contaminarem o Pantanal com agrotóxico

Técnico colhe amostra d’água de rio após denúncia de contaminação por agrotóxico

Por Ângela Kempfer para Campo Grande News

Ação Civil Pública tenta responsabilizar 29 fabricantes, importadoras e comercializadoras do setor agroquímico pela contaminação de rios e solo do Pantanal com agrotóxico. O MPF (Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul) ajuizou a ação também contra o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por omissão diante dos prejuízos ambientais à Bacia do Alto Paraguai, causados pelo “uso massivo e persistente do agrotóxico Atrazina”.

Na lista de alvos da ação estão grandes nomes do setor que podem ser obrigados a pagar R$ 300 milhões a título de indenização por danos morais coletivos e danos ambientais irreversíveis. Caso percam o processo, o valor deve ser destinado ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos ou fundo ambiental específico.

Contra esses grupos, o Ministério Público garante que reúne documentação técnica e científica “robusta”. Segundo o órgão, “estudo de campo realizado por pesquisadores da Embrapa, com participação da Comissão Pastoral da Terra e UFMT (atual UFR), FUNAI e MPT em outubro de 2018, analisou a presença de agrotóxicos em águas superficiais, subterrâneas (poços), de abastecimento urbano e até mesmo da chuva na BAP. Os resultados são alarmantes”, argumenta o MPF.

Os laudos mostram que a atrazina foi um dos ingredientes ativos mais recorrentes, detectada em 15 dos 25 pontos avaliados, “demonstrando sua circulação contínua na bacia”.

Segundo a ação, embora as concentrações estejam abaixo dos limites brasileiros, elas ultrapassam referências internacionais mais restritivas, como as adotadas pela União Europeia.

Na avaliação do MPF, o risco é grande para as comunidades ribeirinhas do Pantanal. Por isso, pede liminar que determine a suspensão imediata da compra e venda de produtos que contenham o princípio ativo da Atrazina.

Outra medida solicitada é a apresentação, no prazo máximo de 60 dias, de um plano de trabalho para o diagnóstico completo da contaminação no solo e nas águas da Bacia em questão, “executado por entidade técnica independente”.

O órgão ainda cobra que Ibama implemente imediatamente um programa de monitoramento de resíduos de agrotóxicos na região. Por fim, o Ministério Público defende a condenação das empresas a executar um Plano de Recuperação de Área Degradada.

Já sobre o Ibama, o pedido é para implementação de programas de monitoramento ambiental da atrazina e reavaliação de seu registro.

Rio Dourados 

O Ministério Público já havia ingressado com ação semelhante na Justiça, com pedido de reparação no mesmo valor, referente a danos no Rio Dourados, que corre por 11 municípios.

O processo cita estudo da Embrapa que identificou presença de atrazina em todas as 117 amostras coletadas em 2021 na bacia do rio de onde vem 40% da água que abastece Dourados.

O relatório apontou ainda os metabólitos DEA e 2-hidroxiatrazina em mais de 90% das coletas. A pesquisa concluiu que o quadro representa contaminação crônica porque o herbicida se desloca com facilidade no solo e alcança rios, córregos e poços.

As análises incluíram aldeias como Panambizinho, Jaguapiru e Bororó, onde a substância foi encontrada em água de torneira, poços e riachos. Os técnicos registraram maior movimentação do produto no período chuvoso.

O estudo ressaltou que a atrazina é classificada como desreguladora endócrina e não apresenta dose segura definida. Na época, o dossiê chamou a atenção para o uso de agrotóxicos em um município onde a soja rendeu R$ 2 bilhões.

Em outra denúncia recente sobre o agrotóxico, a partir do “Dossiê Águas do Cerrado”, grupo encontrou atrazina e mais dois tipos de agrotóxicos no Assentamento Eldorado II, em Sidrolândia. O levantamento foi realizado pela CPT (Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra) em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).


Fonte: Campo Grande News

The Lancet Oncology publica monografia de Grupo de Trabalho que avaliou risco de câncer de três agrotóxicos usados no Brasil

Grupo de Trabalho avaliou risco de câncer dos agrotóxicos atrazina, alaclor e do vinclozolina

Atrazine's Effect On Populations | Morris & Dewett

Atrazina, um herbicida amplamente utilizado no Brasil e proibido na União Europeia, é classificado como cancerígina por grupo internacional de pesquisadores

De outubro a novembro de 2025, um Grupo de Trabalho composto por 22 cientistas de 12 países reuniu-se na Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), em Lyon, França, para finalizar a avaliação da carcinogenicidade da atrazina, do alaclor e do vinclozolina.

A atrazina e o alaclor foram classificados como “provavelmente carcinogênicos para humanos” (Grupo 2A), com base em uma combinação de evidências “limitadas” de câncer em humanos com evidências “suficientes” de câncer em animais experimentais e evidências mecanísticas “fortes” em sistemas experimentais. O vinclozolina foi classificado como “possivelmente carcinogênico para humanos” (Grupo 2B), com base em evidências “suficientes” de câncer em animais experimentais e em evidências mecanísticas “fortes” em sistemas experimentais. Essas avaliações serão publicadas no Volume 140 das Monografias da IARC. 1

Para cada um desses pesticidas, os trabalhadores de fábricas e da agricultura apresentam as maiores exposições, que podem ocorrer durante a produção de pesticidas e atividades agrícolas ou hortícolas, principalmente por inalação e absorção dérmica. A exposição da população em geral ocorre principalmente pela ingestão de água potável e alimentos, e geralmente é considerada baixa. A atrazina e o alaclor são persistentes no meio ambiente e foram detectados em matrizes ambientais, especialmente na água. O vinclozolina não é persistente no meio ambiente.

A atrazina é um herbicida triazínico clorado de amplo espectro, usado principalmente no cultivo de milho, sorgo e cana-de-açúcar. Seu uso como pesticida foi proibido na União Europeia e em diversos outros países, mas continua sendo amplamente utilizado em outros locais. Na população em geral, o contato com gramados residenciais pode resultar em doses dérmicas e orais acidentais de curto prazo mais elevadas do que as provenientes de alimentos ou água potável.

Há evidências “limitadas” em humanos de que a atrazina causa linfoma não Hodgkin (LNH) positivo para a translocação cromossômica t(14;18). Dois estudos de caso-controle relataram fortes associações positivas entre a exposição à atrazina ou triazinas (em um período em que a atrazina era a triazina predominante utilizada na área do estudo) e LNH positivo para translocação (razão de chances meta, 2,03; IC 95% 1,12–3,68), e nenhum aumento de risco para casos de LNH negativos para translocação. 2,3 A translocação t(14;18) foi considerada relevante porque pode dificultar a apoptose celular. O Grupo de Trabalho considerou que o viés e os fatores de confusão poderiam ser descartados com razoável confiança, mas que o papel do acaso não poderia. Para todos os outros tipos de câncer considerados, os estudos disponíveis em humanos não mostraram resultados positivos consistentes, e as evidências foram consideradas “inadequadas”.

A evidência “suficiente” de câncer em animais experimentais para a atrazina baseou-se no aumento da incidência de neoplasias malignas em ratas em múltiplos estudos bem conduzidos, incluindo dois que seguiram as Boas Práticas de Laboratório (BPL). A atrazina causou adenocarcinoma da glândula mamária em ratas Sprague-Dawley4 e adenocarcinoma do útero em ratas Fischer 344/LATI.

Há fortes evidências mecanísticas de que a atrazina exibe características-chave de carcinógenos (CKs). A atrazina induz estresse oxidativo em sistemas experimentais. Diversos estudos em roedores mostraram aumento na produção de espécies reativas de oxigênio e em desfechos de danos oxidativos a lipídios e DNA em múltiplos órgãos, além de redução do estresse oxidativo na presença de antioxidantes. A atrazina induz inflamação in vivo, incluindo aumento da expressão de genes dependentes de NF-κB e alteração do equilíbrio de citocinas Th1 e Th2. A atrazina é imunossupressora; em roedores, diminuiu a contagem de leucócitos e células T efetoras, aumentou as células Treg reguladoras e diminuiu a resposta de hipersensibilidade tardia. A atrazina modula os efeitos mediados por estrogênio em sistemas experimentais. A atrazina aumentou a atividade da aromatase (CYP19). Ela modulou o receptor de estrogênio de membrana mER/GPR30/GPER5 em diversas linhagens de células de câncer de mama humano, tanto hormônio-sensíveis quanto triplo-negativas. Em ratos Wistar machos, a atrazina reduziu os níveis séricos de testosterona, hormônio luteinizante e hormônio folículo-estimulante.⁶  A atrazina também alterou a proliferação e a morte celular in vitro e induziu hiperplasia em diversos tecidos de roedores.

O alaclor é um herbicida cloroacetanilida que tem sido amplamente utilizado em culturas como milho e soja. Outrora um dos herbicidas mais utilizados globalmente, o uso do alaclor diminuiu drasticamente após o início das restrições regulatórias na década de 1990, e hoje seu uso é muito menor.

Há evidências “limitadas” de que o alaclor causa câncer de laringe em humanos, com base em evidências de um único estudo de coorte amplo e de alta qualidade com aplicadores de pesticidas.⁷ Foi encontrada uma forte associação dose-resposta entre o alaclor e o câncer de laringe, que permaneceu inalterada em diferentes períodos de latência e após o ajuste para uma série de coexposições e potenciais fatores de confusão, incluindo outros pesticidas, tabagismo, álcool e outros fatores de risco para câncer de laringe. A possibilidade de acaso não pôde ser descartada com razoável certeza, pois se tratava de um achado isolado para um tipo de câncer não comumente associado à exposição a pesticidas. Para todos os outros tipos de câncer, as evidências foram consideradas “inadequadas”, pois os estudos disponíveis não apresentaram resultados positivos consistentes.

A evidência “suficiente” em animais experimentais para o alaclor baseia-se no aumento da incidência de neoplasias malignas ou de uma combinação apropriada de neoplasias benignas e malignas em ambos os sexos de duas espécies em múltiplos estudos bem conduzidos, incluindo um que cumpriu as Boas Práticas de Laboratório (BPL). O alaclor causou adenoma ou carcinoma bronquioloalveolar (combinados) em camundongos albinos CD-1 machos.8 Em ratos Long-Evans machos e fêmeas, o alaclor causou tumores malignos no estômago. Em machos, o alaclor também causou tumores malignos e benignos ou malignos (combinados) na cavidade nasal9 e na glândula tireoide. Em fêmeas, o alaclor também causou tumores benignos ou malignos (combinados) na cavidade nasal e tumores malignos na glândula tireoide, no timo e no útero.

Há fortes evidências mecanísticas de que o alaclor exibe efeitos característicos em sistemas experimentais. O alaclor modula efeitos mediados por receptores, demonstrando modulação in vitro da via do receptor de estrogênio. O alaclor alterou a proliferação celular no tecido nasal de ratos e camundongos em múltiplos estudos. Hiperplasia também foi observada no tecido nasal e no estômago de roedores. O vinclozolina é um fungicida que tem sido usado principalmente em frutas e vegetais, mas também em gramados. Na década de 2000, seu uso foi gradualmente eliminado na União Europeia, nos EUA e em vários outros países, mas permanece em uso em outros locais.

As evidências sobre o câncer em humanos são “inadequadas” para o vinclozolina, pois os resultados relatados nos poucos estudos disponíveis foram em grande parte nulos.

A evidência “suficiente” de câncer em animais experimentais para o vinclozolina baseia-se no aumento da incidência de neoplasias malignas ou em uma combinação apropriada de neoplasias benignas e malignas em ambos os sexos de duas espécies em múltiplos estudos que cumpriram as Boas Práticas de Laboratório (BPL). O vinclozolina causou carcinoma hepatocelular em camundongos fêmeas C57BL/6/JICO.10 Em ratos Wistar machos, o vinclozolina causou carcinoma hepatocelular e tumores benignos ou malignos de células de Leydig (combinados). Em fêmeas, o vinclozolina causou adenoma ou carcinoma (combinado) da glândula adrenal e do córtex adrenal, tumores benignos ou malignos de células C (combinados) da glândula tireoide e adenocarcinoma do útero. 11

Há fortes evidências mecanísticas de que o vinclozolina exibe efeitos carcinogênicos em sistemas experimentais. Ele induziu alterações em marcadores epigenéticos associados a vias carcinogênicas in vitro e in vivo. O vinclozolina aumenta os marcadores inflamatórios in vitro e induz inflamação crônica em roedores em diversos tecidos, incluindo a próstata.12 .O vinclozolina modula a via de sinalização de andrógenos in vitro. Na ausência de andrógenos, o vinclozolina ou seus metabólitos induziram a secreção do antígeno prostático específico (PSA). O vinclozolina e seus metabólitos promoveram a proliferação celular in vitro 13 e induziram hiperplasia em roedores em diversos tecidos, incluindo a próstata.

Membros do Grupo de Trabalho da Monografia:

RC Cattley (EUA) – Presidente da Reunião; AJ De Roos (EUA); D Mandrioli (Itália); N Pearce (Reino Unido); A Pronk (Países Baixos); A Soshilov (EUA) – Presidentes das Reuniões dos Subgrupos; SO Abarikwu (Nigéria); I Baldi (França); DB Barr (EUA); LE Beane Freeman (EUA [ausente]); S Bortoli (França); A Connolly (Irlanda); MA Dalvie (África do Sul); MJM Ferreira (Brasil); MB Genter (EUA); L Le Hégarat (França); S Lorenzetti (Itália); JR McLaughlin (Canadá); P Møller (Dinamarca); CC Montagner (Brasil); HCS Silveira (Brasil); T Toyoda (Japão); DH Volle (França)

Observadores

 R Bars, Regulatory Science Associates, Reino Unido; A Charlton, Syngenta, EUA; M Kemeny, BASF, Alemanha; NR Visconti, Bayer Crop Science US, EUA


Fonte: Lancet Oncology

MPF pede suspensão da venda de agrotóxicos à base de atrazina e que o Ibama determine reavaliação de registros

Procuradoria no MS requer à Justiça a indisponibilidade de R$ 300 milhões do conjunto das 29 empresas que faturam com o herbicida, que envenenou toda a Bacia do Rio Dourados. Objetivo é garantir reparação à coletividade lesada

Por Cida de Oliveira*

Proibida desde 2004 na UE, atrazina está entre os agrotóxicos mais vendidos no Brasil. Foto: Arquivo EBC

O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF/MS) protocolou nesta terça (18), na Justiça Federal no Estado, uma Ação Civil Pública pedindo que 29 empresas sejam proibidas de vender produtos à base do ingrediente ativo atrazina. São fabricantes, importadoras e revendedoras, como a Syngenta, gigante do setor, e a Amaggi, empresa do conglomerado de Blairo Maggi, um dos maiores produtores de soja. A lista completa está no final da reportagem.

Segundo a ação, à qual a reportagem teve acesso, outra reivindicação é que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), seja obrigado a iniciar, de imediato, um processo para reavaliação do registro, visando à proibição de produtos no Brasil que contenham o ingrediente ativo.

A petição pede ainda a indisponibilidade de bens das 29 empresas no valor de R$ 300 milhões, no prazo de 30 dias, como garantia do custeio das medidas de compensação do dano causado. Ou seja, o envenenamento de toda a Bacia do Rio Dourados por esse produto perigoso, que motivou a ação do MPF. Segundo o documento, o montante corresponde a 0,3% do faturamento anual do setor de agrotóxicos no Brasil, em torno de R$ 100 bilhões. De acordo com o procurador Marco Antonio Delfino de Almeida, autor da ação, trata-se de uma fração, que não inviabiliza economicamente as empresas. Mas chama a atenção de dirigentes e acionistas para a seriedade do problema.  Uma mensagem “de que envenenar comunidades inteiras não sairá barato e será cobrado conforme a finalidade preventiva do dano moral coletivo ambiental.

Conforme o documento, não se trata de uma indenização material para reembolsar despesas específicas, mas os danos morais coletivos decorrentes, como gastos médicos, perdas econômicas nas aldeias indígenas, descontaminação ambiental. E o valor proposto, defende o procurador, poderia alimentar um fundo gerido pelo Poder Público, revertido em melhorias, como instalação de sistemas de filtragem de água nas aldeias, construção de unidades de saúde ou laboratórios de monitoramento. E até mesmo indenizações individuais complementares em casos de doença comprovadamente ligada à atrazina, por exemplo.

“Considerando que o SUS gasta R$ 4 bilhões/ano no tratamento do câncer, dos quais uma parcela possivelmente ligada à exposição química, uma indenização de R$ 300 milhões corresponde a menos de um mês de gastos oncológicos do país – valor plausível para ser investido preventivamente na região foco, evitando futuros gastos bem maiores (princípio da precaução)”, pondera o autor. Em outras palavras, “o montante estaria em sintonia com a magnitude do problema de saúde pública em jogo e poderia servir para mitigar esse problema, sem configurar enriquecimento sem causa de ninguém, mas sim fortalecimento da coletividade lesada”.

Essas 29 empresas, segundo reivindica o MPF, deverão apresentar, de forma solidária, em até 60 dias, um plano de trabalho detalhado para o diagnóstico completo da contaminação por atrazina e seus principais produtos de degradação no solo, nas águas superficiais e subterrâneas da Bacia Hidrográfica do Rio Dourados. Esse diagnóstico deverá ser executado por entidade técnica independente e de notória especialização, com cronograma de execução não superior a 12 meses, sob pena de multa diária no valor de R$ 1 milhão.

Omissão do Ibama

Na petição são destacados dispositivos legais que sustentam a responsabilidade do Ibama no controle e fiscalização da produção, comercialização, uso e homologação de análise de risco ambiental de todos os agrotóxicos. E a competência para reavaliar os já registrados quando surgirem evidências de danos graves ao meio ambiente e à saúde relacionados. “Portanto, legalmente, o Ibama não pode se eximir de agir em face de contaminações difusas por agrotóxicos de alto risco”, sustenta.

Assim, o órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima “é réu em face da sua omissão em promover o adequado monitoramento ambiental dos resíduos de atrazina em flagrante descumprimento dos princípios constitucionais da legalidade e da eficiência”.

“Há informações científicas e regulatórias robustas sobre os riscos ambientais da atrazina, tornando imperativa a atuação vigilante do órgão ambiental. Apesar disso, o Ibama não adotou as medidas proporcionais à gravidade do caso. Diferentemente da União Europeia – que proibiu completamente a atrazina há duas décadas – no Brasil esse agrotóxico segue amplamente comercializado e aplicado”. Dados do próprio instituto mostram que a atrazina aparece com frequência entre os agrotóxicos mais vendidos no país. Em 2017, foi o 6º ingrediente ativo mais comercializado no Brasil, com cerca de 29 mil toneladas vendidas naquele ano. “Mesmo com tamanha difusão e potencial de dano, não consta que o Ibama tenha instaurado tempestivamente um processo de reavaliação ambiental da atrazina ou proposto restrições severas de seu uso”, argumenta.

O princípio ativo e seus produtos usados como herbicidas foram banidos na União Europeia em 2004, após surgirem evidências da contaminação generalizada e persistente de águas superficiais e aquíferos e dos riscos à saúde humana. Estudos associam a substância a distúrbios do sistema endocrinológico, sistema nervoso central, fígado e interferências nos hormônios reprodutivos.

Mais de 2 mil toneladas de atrazina

A Bacia do Rio Dourado, cuja contaminação motivou a Ação Civil Pública, ocupa uma faixa no sentido Oeste-Leste, desde as imediações da Serra de Maracaju até a foz do Rio Dourados no Rio Brilhante. Está situada na sub-bacia do Rio Ivinhema, que, por sua vez, insere-se na Bacia Hidrográfica do Rio Paraná. Trata-se de uma área de intensa atividade agropecuária, como a soja, o milho e a cana ocupando mais da metade do território. Mais de 2.200 toneladas de atrazina foram comercializadas ali somente em 2019, em lavouras ao redor de comunidades indígenas.

Segundo estudos realizados realizados a pedido do MPF na água das aldeias de Panambizinho, Jaguapiru e Bororó, havia resíduos de atrazina e seus metabólitos nas torneiras, poços e em córregos. Um deles, publicado em março de 2021, que monitorou resíduos de 46 agrotóxicos em três pontos do Rio Dourados entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020, detectou o herbicida em 87% de todas as amostras coletadas. Além disso, produtos gerados em sua degradação, a deetilatrazina (DEA) e a 2- hidroxiatrazina, foram encontrados em 100% das amostras, evidenciando a contaminação crônica do corpo hídrico. As maiores concentrações de atrazina foram observadas em março de 2020, coincidindo com o período de plantio do milho safrinha e a ocorrência de chuvas, o que confirma a rota de contaminação a partir das lavouras. Um segundo monitoramento ao longo de todo o ano de 2021 mostrou o agravamento do cenário de poluição. A atrazina foi detectada em 100% das 117 amostras coletadas.

Pulverização de agrotóxicos contaminou as águas da Bacia do Rio Dourados, prejudicando comunidades

Ciclo da exposição

Ainda segundo o documento, a responsabilidade do Ibama e das 29 empresas transcende a simples contaminação ambiental, materializando-se em um ciclo contínuo e multifacetado de exposição humana ao perigo químico da atrazina. “Um ciclo que começa com a exposição aguda e severa dos trabalhadores rurais e se expande de forma crônica e silenciosa para toda a sociedade, por meio da contaminação da água e dos alimentos. Na exposição ocupacional, os trabalhadores rurais são as vítimas primárias e mais intensamente expostas aos produtos perigosos das rés”.

E mais: “A absorção ocorre simultaneamente por múltiplas vias ­– dérmica (pele), respiratória (inalação de névoas de pulverização) e oral (ingestão acidental) —, sobrecarregando os mecanismos de defesa do corpo e potencializando os efeitos tóxicos, especialmente em exposições de longo prazo. A intoxicação aguda, com sintomas como espasmos, náuseas e dificuldade respiratória é a face mais visível do dano.” No entanto, prossegue, “o dano mais profundo é a intoxicação crônica, que deteriora a saúde lentamente, atingindo órgãos e funções vitais e culminando em doenças graves que podem levar anos para se manifestar, como câncer e distúrbios reprodutivos”. “Este cenário trágico, que remete ao legado de morte e incapacitação deixado por outros venenos como o DDT no Acre, é o futuro que se desenha para as vítimas da atrazina caso nenhuma medida reparatória e preventiva seja tomada”, alerta Marco Antonio Delfino de Almeida.

O procurador vai além: “O dano causado pelos produtos das rés não se limita à área de aplicação. A atrazina, por sua alta persistência e mobilidade, é transportada pela chuva das lavouras para os rios, contaminando os recursos hídricos que abastecem a população. As análises da Embrapa no Rio Dourados são a prova cabal deste processo: com a atrazina e seus derivados presentes em praticamente 100% das amostras de água, fica evidente que a substância se tornou um componente permanente daquele ecossistema hídrico. Isso transforma um problema ocupacional em um grave problema de saúde pública. A população em geral, incluindo crianças, gestantes e idosos, passa a ser cronicamente exposta à atrazina ao beber água”.

A situação é agravada, segundo ele, pela “frouxidão da legislação brasileira, que permite na água uma concentração de atrazina vinte vezes maior que o limite de segurança estabelecido na União Europeia. Se considerarmos a mistura de todos os agrotóxicos monitorados, a água no Brasil pode conter uma carga química 2.706 vezes superior ao limite europeu, sem que isso acione mecanismos regulatórios ou sanitários específicos, o que evidencia uma discrepância relevante entre os padrões normativos aplicados.”

Ele lembra também que a exposição se completa com a contaminação dos alimentos. Relatórios do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Anvisa, demonstram que a atrazina é encontrada em diversas culturas. “Mais grave ainda é a constatação de seu uso ilegal em alimentos para os quais não há autorização, como abobrinha, alface, feijão, mamão, pimentão e uva”.

Riscos criados”

“Isso revela uma falha sistêmica de controle e, para os fins desta ação, demonstra que o risco criado pelas rés ao colocar a atrazina no mercado se dissemina de forma imprevisível e incontrolável por toda a cadeia alimentar, chegando à mesa de consumidores em todo o território nacional. Neste ciclo perverso, o trabalhador e a trabalhadora rural carregam um fardo duplo: são as vítimas da exposição ocupacional aguda no campo e, com suas famílias e toda a sociedade, são vítimas da exposição crônica e ambiental pela contaminação da água e dos alimentos. A exposição no trabalho é, portanto, agravada pela exposição geral, em um ciclo contínuo de envenenamento. Cada etapa deste ciclo — da aplicação na lavoura à presença no copo d’água e no alimento — tem como ponto de partida a decisão das rés de fabricar e comercializar um produto sabidamente perigoso e persistente. A responsabilidade por todas as formas de exposição humana recai, portanto, sobre quem gerou o risco e lucrou com ele”.

Saiba quem as empresas envolvidas na ação:

  1. Ouro Fino Quimica S.A
  2. Nortox S.A.
  3. Zhongshan Química do Brasil Ltda.
  4. Globachem Proteção de Cultivos do Brasil Ltda.
  5. Rainbow Defensivos Agrícolas Ltda.
  6. Jubailireg Brasil Ltda.
  7. Adama Brasil S.A.
  8. Agro Import do Brasil Ltda.
  9. CCAB Agro S.A.
  10. Ameribrás Indústria e Comércio Ltda.
  11. CHDS do Brasil Comércio de Insumos Agrícolas Ltda.
  12. Sharda do Brasil Comércio de Produtos Químicos e Agroquímicos Ltda.
  13. Crotect Crop Science Ltda.
  14. Lemma Agronegócios Importação e Exportação Ltda.
  15. Perterra Insumos Agropecuários S.A.
  16. Solus do Brasil Ltda.
  17. Pilarquim Br Comercial Ltda.
  18. Tudo Rural Agronegócios do Brasil Ltda.
  19. Syngenta Proteção de Cultivos Ltda.
  20. ALTA – America Latina Importação e Exportação Ltda.
  21. Oxon Brasil Defensivos Agrícolas Ltda.
  22. Iharabras S.A. Indústrias Químicas
  23. Amaggi Exportação e Importação Ltda.
  24. Cropchem Ltda.
  25. Nutrien Soluções Agrícolas Ltda.
  26. Ameribrás Indústria e Comércio Ltda.
  27. ISK Biosciences do Brasil Defensivos Agrícolas Ltda.
  28. Albaugh Agro Brasil Ltda.
  29. Willowood Agriscience Representação Comercial Ltda.

Leia também:

Por que 70% dos agrotóxicos largamente usados no Brasil foram banidos na União Europeia?

Agrotóxicos contaminam água da chuva e de poços artesianos no Mato Grosso

Parecer técnico identifica graves riscos à saúde de centenas de agrotóxicos banidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil


*Cida de Oliveira é jornalista

Sonia Corina Hess dá depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em lixeira química por agrotóxicos banidos na União Europeia

A professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess, dá um depoimento esclarecedor sobre a transformação do Brasil em destino preferencial de agrotóxicos banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

Assista ao vídeo e reflita: como podemos ter tantas benesses para os fabricantes desses venenos altamente poderosos?

Agrotóxicos com potencial cancerígeno poluem o ar em zonas agrícolas no interior de SP

Das amostras coletadas em pesquisa, atrazina e malationa são as substâncias mais associadas ao risco de câncer humano; atrazina teve maior concentração em região agrícola

Malationa e permetrina foram os compostos mais detectados em áreas urbanas e industriais, enquanto a atrazina predominou nas zonas agrícolas – Foto: NRCS Photo Gallery/USDA / Domínio Público 

Por Ivanir Ferreira, Arte: Gustavo Radaelli* para o Jornal da USP 

Um estudo do Instituto de Química (IQ) da USP detectou a presença de agrotóxicos no ar tanto em áreas urbanas e industriais quanto nas rurais, desmistificando a ideia de que o ambiente no campo seja mais limpo do que o da cidade. As análises foram feitas em células epiteliais de pulmão humano expostas a soluções de  agrotóxicos e a material particulado (MP) atmosférico, coletados em três regiões do Estado de São Paulo: Piracicaba – região agrícola; São Paulo – região urbana e Capuava, Santo André – região industrial. Malationa e permetrina foram os compostos mais detectados em áreas urbanas e industriais, enquanto a atrazina predominou nas zonas agrícolas.

Segundo a autora da pesquisa, Aleinnys Marys Barredo Yera, o agrotóxico atrazina — um composto organoclorado — representa o maior risco de câncer para populações em áreas rurais. Já o malationa, da classe dos organofosforados, oferece maior perigo nas regiões urbanas. “Os agrotóxicos organoclorados são altamente persistentes no ambiente, com capacidade de se acumular no solo, na água e na cadeia alimentar. Já os organofosforados, embora se degradem mais rapidamente, são extremamente tóxicos e podem causar efeitos neurológicos agudos em casos de exposição direta”, diz a pesquisadora. No meio rural, o uso desses compostos é comum no controle de pragas agrícolas, e em áreas urbanas, substâncias como o malationa também são empregadas no combate a mosquitos transmissores de doenças por meio de pulverização.

Mulher negra de cabelo crespo e curto, usa vestido preto com risco branco.

Aleinnys Marys Barredo Yera – Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a pesquisa, a exposição contínua por 24 horas a concentrações iguais ou superiores a 352 picogramas por metro cúbico (pg/m³) desses agrotóxicos no ar pode aumentar significativamente o risco de câncer ao longo da vida, especialmente em bebês, considerados mais vulneráveis e baixo peso corporal.  Aleinnys explica que essas substâncias são citotóxicas, têm potencial para causar danos ou morte celular, além de possuírem propriedades oxidativas, o que favorece a formação de radicais livres e pode provocar danos a proteínas, células e até ao DNA humano.

Concentrações médias de agrotóxicos encontradas no ar em São Paulo, Piracicaba e Capuava -2017

Ar em zona rural pode ser mais tóxico que o urbano

A pesquisa também derruba a percepção de que áreas rurais tenham o ar mais limpo do que as regiões urbanas.

“Em Piracicaba, amostras de material particulado atmosférico devido à presença de  agrotóxicos e outros compostos orgânicos apresentaram níveis mais altos de carcinogenicidade, citotoxicidade e potencial para induzir estresse oxidativo do que as amostras coletadas em uma região da capital paulista”, relata a professora Pérola Castro Vasconcellos, orientadora do estudo.

Mulher branca, de cabelos grisalhos, veste blusa verde

Pérola Castro Vasconcellos – Foto: Arquivo Pessoal

Cálculos de exposição diária por inalação de pesticidas também mostraram que as populações que moravam na área agrícola estavam mais expostas do que as que moravam nas regiões urbanas. Compostos como heptacloro e malationa, ambos associados a riscos cancerígenos, foram encontrados em níveis mais elevados na zona agrícola do que na urbana, o que indica maior risco de desenvolvimento de câncer entre a população rural.

O estudo ainda mostrou que a combinação de diferentes  agrotóxicos presentes no ar tem efeito tóxico mais significativo do que a ação isolada de cada composto. “Como as amostras de Piracicaba continham uma maior mistura desses contaminantes, os efeitos à saúde tendem a ser mais severos”, explica Aleinnys.

Coletas por região

Em 2018, amostras de material particulado foram coletadas simultaneamente em três regiões durante 26 dias, com análise das concentrações diárias de agrotóxicos para avaliar a qualidade do ar. Em São Paulo, o equipamento de medição foi colocado no terraço do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, na Cidade Universitária, região arborizada, e próxima (2 km) da Marginal Pinheiros, um dos lugares de possíveis alvos de aplicação de  agrotóxicos. Em Piracicaba, no Campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP e em Capuava, região metropolitana de São Paulo, próximo ao Polo Petroquímico.

De acordo com a professora Pérola, os sítios onde foram feitas as coletas apresentaram picos de concentração de agrotóxicos em momentos diferentes, o que revela o uso intensivo dessas substâncias em diversos setores. A atrazina teve sua maior concentração em Piracicaba, região agrícola, com 163 pg/m³, enquanto em São Paulo, a área urbana, atingiu 93 pg/m³. Em Capuava, zona industrial, a substância não foi detectada. Já a substância malationa apresentou os maiores níveis no sítio de Capuava (concentração média de 101 pg/m³), seguida por São Paulo (88 pg/m³) e Piracicaba (79 pg/m³). O composto permetrina, por sua vez, foi mais encontrado no sítio da capital paulista (concentração média de 140 pg/m³), seguida de Capuava (108 pg/m³) e Piracicaba (93 pg/m³).

Agrotóxico São Paulo (urbano) Piracicaba (rural) Capuava (industrial)
Atrazina 93 pg/m³ 163 pg/m³ 0
Malationa 88 pg/m³ 79 pg/m³ 101 pg/m³
Permetrina 140 pg/m³ 93 pg/m³ 108 pg/m³

Em São Paulo, capital, foram coletadas amostras de material particulado durante duas campanhas, nos anos de 2017 e 2018. Em 2017, dos 34 pesticidas estudados, 18 foram detectados e 13 quantificados. Os compostos mais frequentes encontrados nas amostras foram o permetrina 1 e 2 (100%), diazinon (93%), β-endosulfan (87%), bifentrina (60%) e etiona (53%). Na campanha de 2018 foram estudados 11 compostos e sete foram detectados com alta frequência, com destaque para o malationa.

Em Piracicaba, município localizado a 369 km da capital paulista, as análises de amostras de material particulado foram realizadas em 2008 e 2018. Na campanha de 2018, feita simultaneamente com outras cidades, quatro agrotóxicos foram detectados em todas as amostras coletadas: atrazina (163 pg/m³), heptacloro (78 pg/m³), cresoxim metílico (50 pg/m³) e λ-cialotrina (210 pg/m³).

Segundo Aleinnys, apesar de ocupar a segunda posição em concentração (163 pg/m³), “o atrazina merece maior atenção, porque esse agrotóxico permanece por mais tempo no meio ambiente e sua dispersão na atmosfera ocorre tanto na fase particulada quanto na gasosa por até 11 meses após a aplicação, reforçando seu potencial de contaminação atmosférica”.

Entre os agrotóxicos encontrados em 2008, alguns chamam a atenção pela sua presença significativa. O inseticida etiona, amplamente utilizado em diversas lavouras, foi detectado em todas as amostras analisadas, com a maior concentração registrada de 160 pg/m³. Outro agrotóxico amplamente detectado foi o λ-cialotrina, também comum em áreas agrícolas.

Aleinnys explica que embora o etiona e o λ-cialotrina sejam frequentemente usados em regiões rurais na agricultura, alguns estudos  mostraram a presença destas substâncias em áreas urbanas, sugerindo que os pesticidas podem se dispersar para fora de sua área de aplicação direta. “Em 2017, medições feitas nas cidades de São Paulo e em Houston (EUA) encontraram concentrações mais elevadas de λ-cialotrina, 41 pg/m³ e 57 pg/m³, respectivamente, superando os 27 pg/m³ observados em Piracicaba”, diz.

O heptacloro, um agrotóxico que já havia sido banido no Brasil quatro anos antes da coleta, foi detectado em todas as amostras coletadas em Piracicaba, com concentrações máximas de 89 pg/m³. “Esse resultado indica a persistência do composto no ambiente, mesmo após a proibição de seu uso, o que levanta questões sobre os impactos a longo prazo e a eficácia da fiscalização do uso de substâncias proibidas”, relata a pesquisadora.

Em Capuava, situada na região de Santo André, na grande São Paulo, campanhas de amostragem foram realizadas entre 2015 e 2018. Durante os quatro anos de coleta, o agrotóxico malationa foi o mais detectado em todas as amostras. Em 2015, os pesticidas mais frequentemente encontrados (em mais de 50% das amostras) foram o malationa (100%), o β-endosulfan, o permetrina 1 e 2 (93%) e o heptacloro (87%). A maior concentração registrada foi de 827 pg/m³ para o permetrina 2, o que representa o nível mais alto já reportado para um agrotóxico no material particulado atmosférico do Estado de São Paulo.

Em 2016, o malationa continuou a ser o único composto detectado em todas as amostras, com a maior concentração registrada de 161 pg/m³. Em 2017, observou-se o maior número de compostos detectados por amostra, com destaque para o etiona, que alcançou a maior concentração registrada no período, 750 pg/m³. Em 2018, os resultados foram similares.

A pesquisadora diz que os testes de potencial oxidativo, que expuseram células epiteliais de pulmão humano ao material particulado coletado nas áreas estudadas e a soluções de pesticidas, indicaram que amostras de Capuava apresentaram forte correlação entre pesticidas organoclorados e o estresse oxidativo celular — um fator que pode causar danos crônicos ao sistema respiratório. Segundo a pesquisadora, esses compostos são reconhecidos como disruptores endócrinos, e estudos de saúde na região já apontaram aumento nos casos de disfunções na tireoide. Ela destaca a necessidade de um estudo epidemiológico mais aprofundado para investigar essas possíveis relações.

Agricultura brasileira

A pesquisadora Aleinnys reconhece que a agricultura é crucial para a economia brasileira, com o País sendo líder global na produção de diversos alimentos. No entanto, esse crescimento resultou na expansão das áreas cultivadas e no uso intensivo de agrotóxicos, tornando o Brasil o maior consumidor dessas substâncias. A pesquisadora aponta que a solução não é eliminar os agrotóxicos, pois sua ausência poderia reduzir a produção de alimentos em até 78%, dependendo das condições específicas de cada região e das práticas agrícolas implementadas. Contudo, ela enfatiza a necessidade de um controle mais rigoroso sobre a quantidade aplicada e os tipos de agrotóxicos utilizados, tanto no campo quanto nas áreas urbanas.

Parte da pesquisa que trata sobre as concentrações dos agrotóxicos e os riscos da inalação já foi publicado em três artigos científicos:  Pesticides in the atmosphere of urban sites with different characteristics, Particulate matter–bound organic compounds: levels, mutagenicity, and health risks Occurrence of Pesticides Associated to Atmospheric Aerosols: Hazard and Cancer Risk Assessments. Em junho de 2025, será apresentada a tese pelo Instituto de Química da USP,   Agrotóxicos na Atmosfera de Cidades do Estado de São Paulo: Avaliação de Riscos para a Saúde, orientada pela professora Pérola de Castro Vasconcelos e coorientada pela professora Ana Paula de Melo Loureiro, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP. 

Mais informações: professora Pérola de Castro Vasconcellos (orientadora da pesquisa), perola@iq.usp.br e Aleinnys B. Yera (autora da pesquisa), aleinnysb@usp.br; professora Ana Paula de Melo Loureiro, apmlou@usp.br

*Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Nesta publicação, o termo originalmente utilizado foi pesticida, mas optei por utilizar agrotóxico que me parece mais correto conceitual e empiricamente.

Fonte: Jornal da USP

Estudo levanta preocupações sobre o uso indevido de atrazina no centro-oeste dos EUA

Por Douglas Main para o “The New Lede”

Produtores de milho nos estados do Centro-Oeste parecem estar desrespeitando regulamentações que visam proteger importantes cursos d’água da contaminação com o herbicida tóxico atrazina, de acordo com uma análise de imagens de satélite e dados de campo que ocorre enquanto reguladores dos EUA ponderam mudanças nas regras de uso do pesticida.

A análise, que foi conduzida por um consultor da indústria agrícola em Illinois e compartilhada com o The New Lede, encontrou o que poderia ser potencialmente milhares de violações por fazendeiros em Illinois e estados vizinhos. A análise se concentrou em pontos geográficos onde campos agrícolas plantados por produtores de milho são vistos próximos a cursos d’água, e assume que os fazendeiros pulverizaram suas plantações com atrazina, uma prática comum no Centro-Oeste dos EUA.

Embora não tenha sido possível determinar se a atrazina foi usada nos campos, o produto químico é aplicado na maioria dos acres de milho no estado, e as imagens de satélite mostram caminhos claros para o fluxo de produtos químicos agrícolas dos campos para as águas. Os críticos dizem que as informações expõem problemas críticos com a regulamentação atual da atrazina, que é conhecida por representar uma série de riscos à saúde de humanos e animais e é considerada um contaminante perigoso da água.

As imagens e os dados de apoio da análise foram enviados esta semana à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) pelo Centro de Diversidade Biológica (CBD), que também obteve as informações do consultor, que deseja permanecer anônimo.

Embora a análise tenha identificado áreas de preocupação em vários estados, ela se concentra em Illinois, o segundo maior estado produtor de milho do país. Em apenas três condados de Illinois, e ao longo de lagos importantes que fornecem água potável para o estado, a análise mostra quase 1.000 parcelas de terra onde fazendeiros plantaram milho e soja bem perto de rios, córregos e lagos, dentro de zonas de proteção necessárias onde a pulverização de atrazina não é permitida. (Fazendeiros no Centro-Oeste normalmente fazem rodízio de plantio de milho e soja.) 



Uma imagem de satélite mostra o escoamento superficial de um campo agrícola em Illinois canalizando para ravinas e fluindo para um riacho, uma das áreas onde seria impróprio pulverizar atrazina.

No geral, havia mais de 1.420 locais individuais nas parcelas de terra onde a área cultivada era menor do que os 66 pés necessários do nexo onde o escoamento entra em córregos ou rios, de acordo com a análise. Havia mais de 100 parcelas com culturas plantadas mais perto do que a margem de 200 pés necessária como uma zona de não pulverização ao longo das bordas de lagos e reservatórios de água potável. Essas zonas de amortecimento, ou recuos, são descritas no rótulo da atrazina.

“Dado o alto uso de atrazina no milho em Illinois (estimado em 90%), a erosão observada adjacente a muitos desses campos, evidências de escoamento considerável em canais dentro de muitos desses campos e/ou a presença de bueiros/vertedouros que desviam das faixas de filtragem em muitos desses campos, é provável que muitos desses campos sejam uma fonte considerável de atrazina em águas superficiais próximas”, disse o CBD em sua submissão à EPA.

A análise e os dados de suporte devem ser levados em conta pela EPA à medida que finaliza novas regras projetadas para reduzir o escoamento de atrazina e fornecer melhor proteção para cursos de água contra contaminação por atrazina, afirma o CBD. O período de comentários públicos sobre o novo plano fecha na sexta-feira.

“A ignorância deliberada não é mais uma opção para a EPA porque estamos literalmente mostrando a eles o quão ruim é esse problema, campo por campo, no estado mais contaminado com atrazina do país”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do CBD.

Uma história de contaminação

Atrazina é o segundo herbicida mais comumente usado nos EUA e na maioria dos estados do Centro-Oeste. Os fazendeiros dependem muito da eficácia da atrazina para matar ervas daninhas em campos de milho, em particular, mas o amplo uso criou preocupações com a qualidade da água em todos os estados produtores de milho.

Pesquisas mostraram que a atrazina é um  desregulador endócrino que tem sido associado ao aumento do risco de vários tipos de câncer,  parto prematuro , defeitos congênitos e diminuição da função imunológica.

A Syngenta, fabricante de longa data de herbicidas de atrazina, pagou mais de US$ 100 milhões em 2012 para resolver litígios com sistemas de água comunitários em seis estados do Centro-Oeste sobre contaminação por atrazina. Mas a água contaminada persistiu como um problema.

Em Illinois, o foco da análise, muitos riachos, lagos e reservatórios foram encontrados contaminados com atrazina, incluindo aqueles que fornecem água potável pública. Mais de 50 serviços de água que atendem mais de 150.000 pessoas em Illinois foram encontrados com contaminação por atrazina em suprimentos de água em níveis que excedem as diretrizes de saúde definidas pelo Environmental Working Group (EWG), de acordo com um relatório recente de qualidade de água potável do EWG .

Com a contribuição da Syngenta, a agência propôs fazer várias mudanças nas regras sobre o uso de atrazina, incluindo o estabelecimento de um “nível de preocupação equivalente à concentração” (CELOC) em 9,7 partes por bilhão (ppb) em córregos e lagos. Esse nível é permitido antes que quaisquer esforços de mitigação sejam necessários em qualquer bacia hidrográfica.

O novo CELOC é quase três vezes maior do que o nível de 3,4 ppb proposto pela EPA em 2016 e reiterado pela agência como adequadamente protetor em 2022. Mas é menor do que os níveis historicamente permitidos. A agência diz que os novos limites não criarão nenhum risco à saúde humana e protegerão a vida aquática, incluindo peixes e anfíbios.

A agência também propôs expandir o número de opções de medidas de mitigação que os produtores podem escolher. A EPA descreve sua abordagem como voltada para fornecer “máxima flexibilidade (reconhecendo os altos benefícios da atrazina) ao mesmo tempo em que aborda a necessidade de mitigação” da contaminação por atrazina.

Sob as medidas propostas pela EPA, em áreas onde as concentrações de atrazina na água excedem o CELOC, os agricultores podem escolher entre um “menu de mitigação” baseado em pontos, destinado a promover práticas que reduzem o escoamento. Alguns agricultores podem obter pontos com base nas propriedades de seus campos ou ações que eles tomam que estão associadas a escoamentos mais baixos.

A quantidade de pontos que os agricultores precisam varia de acordo com a área e inclui fatores como quantidade de chuva, tipo de solo e se os agricultores irrigam ou cultivam suas terras. Os agricultores precisam de até seis pontos para cumprir as instruções do rótulo proposto. Praticar agricultura sem plantio direto rende três pontos, assim como não irrigar.

Os críticos dizem que os pontos são alcançados com muita facilidade e não farão muito para impedir a poluição de atrazina em cursos d’água. Olhando apenas para Illinois como exemplo, usando a análise de localização de campo, o novo plano de mitigação não reduziria o escoamento de atrazina em 99% dos campos “vulneráveis ​​ao escoamento” em Illinois, disse o CBD. Mesmo em bacias hidrográficas onde os níveis de atrazina são mais de quatro vezes maiores que o CELOC, os agricultores não precisariam fazer nada diferente sob o plano de mitigação proposto pela EPA, disse o CBD.

Nos comentários do CBD que acompanham os dados da análise de Illinois, o CBD disse à EPA que o problema geral de contaminação é “assustador”.

“A contaminação por atrazina é tão disseminada que níveis perigosos do pesticida são previstos em cursos d’água em 11.249 bacias hidrográficas dos EUA… de 82.921 bacias hidrográficas nos EUA continentais”, escreveu o CBD em sua carta à EPA. “Isso é 1/8 da massa terrestre de todo o território continental dos EUA. As áreas contaminadas incluem cerca de 20% de todas as terras usadas para agricultura nos EUA — aproximadamente 250 milhões de acres alimentando cursos d’água contaminados em todo o país.”

Onde campos e águas se encontram

Na análise conduzida pelo consultor agrícola, imagens de satélite mostraram uma série de rotas onde o escoamento de campos agrícolas parece estar entrando em águas superficiais. Em um exemplo, o consultor identificou um campo onde áreas cultivadas confinavam com um riacho que cortava o campo. Seis pontos de erosão foram identificados onde água, solo e produtos químicos agrícolas poderiam ser transportados diretamente para a água.

O consultor disse que uma avaliação completa do Condado de Champaign encontrou 499 pontos individuais de bueiro/erosão em 269 campos que margeiam riachos. Supondo que toda a área cultivada seja pulverizada, como é prática padrão, esses campos estariam violando os rótulos de atrazina.

Um mapa dos locais ao redor de Champaign, Illinois, com áreas de proteção insuficientes para pulverização de atrazina.

Observando os lagos de Illinois que fornecem água potável aos moradores, a análise descobriu que 14 desses lagos tinham pelo menos um campo onde as plantações eram feitas dentro da zona de 200 pés que supostamente serve como proteção contra o escoamento.

E, como o CBD relatou à EPA, havia 85 parcelas de terra identificadas com “alta vulnerabilidade de escoamento” para os cursos d’água que alimentam o Lago Springfield, que atende 150.000 pessoas e tem um histórico de problemas de contaminação por atrazina. A imagem também mostra locais de potenciais violações fora das propriedades administradas pela Illinois Nature Preserves Commission, que incluem áreas naturais sensíveis protegidas pela lei estadual. As propriedades incluem o Lago Wagon , no sudoeste de Illinois, e o Lago Calamus , a leste de Springfield.

“Há evidências substanciais de uso indevido generalizado de produtos químicos” em Illinois e outros estados produtores de milho, conclui a análise do consultor.

O Departamento de Agricultura de Illinois, a agência que investiga o uso indevido de pesticidas, recusou uma entrevista para esta história, mas a porta-voz Lori Harlan disse que “os solicitantes não são obrigados a enviar seus registros de pesticidas, então o Departamento de Agricultura de Illinois não teria um registro de onde as aplicações de atrazina ocorreram”.

Alguns dos proprietários de terras identificados na análise possuíam campos que apresentavam múltiplos pontos de potencial escoamento, mas esses proprietários não responderam aos pedidos de comentários, e não se sabe se eles de fato aplicaram atrazina perto dos cursos d’água.

Sem a confirmação do proprietário, é impossível saber se os locais identificados como potenciais fontes de violações e escoamento de atrazina foram pulverizados com atrazina. Os fazendeiros poderiam simplesmente deixar essas áreas cultivadas perto de cursos d’água sem pulverização, ou usar um tratamento diferente para ervas daninhas.

Deixar partes dos campos sem pulverização seria incomum, no entanto, disse Vernon Rohrscheib, um fazendeiro que também trabalha como aplicador de herbicidas em Fairmount, Illinois. “Não há muitos acres de milho que não recebam alguma forma de atrazina”, disse ele.

Os fazendeiros ou seus aplicadores contratados geralmente pulverizam campos inteiros de uma vez, sempre que possível. Para pulverizar uma mistura diferente de herbicidas em bordas próximas a cursos d’água, um aplicador teria que carregar uma mistura diferente e voltar uma segunda vez.

O produtor de milho de Illinois, Tom Smith, disse que as potenciais violações eram “um grande problema”. Smith, que também cultiva soja e outras culturas, disse que parou de usar atrazina anos atrás devido a preocupações ambientais. Agora, ele cultiva algumas culturas organicamente, sem o uso de pesticidas.

Para realmente reduzir o escoamento e a deriva de atrazina, as zonas de proteção, também chamadas de recuos, são medidas vitais e, se os agricultores não seguirem essas diretrizes, isso criará um problema significativo, disse Micheal Owen, um cientista de ervas daninhas e especialista em extensão que se aposentou recentemente da Universidade Estadual de Iowa.

“Qualquer coisa que potencialmente comprometa o meio ambiente é importante e errada”, disse Owen.

A EPA disse que não poderia comentar sobre as preocupações com a atrazina. A Syngenta não respondeu a um pedido de comentário.

(Carey Gillam contribuiu para esta reportagem.)

Foto em destaque da Getty Images para Unsplash+)


Fonte: The New Lede

Proposta da EPA para atrazina, agrotóxico vinculado a danos reprodutivos, volta a cair com Donald Trump

Por Douglas Main para o “The New Lede” 

Os reguladores ambientais dos EUA estão planejando alterar os níveis permitidos de um herbicida associado a problemas de saúde reprodutiva para uma concentração que, segundo os críticos, desconsidera anos de riscos documentados à saúde e ao meio ambiente — o que pode marcar uma nova frente de batalha dentro do governo Trump.

A proposta da Agência de Proteção Ambiental (EPA), apresentada no final de 2024 sob o governo Biden, permitiria concentrações do herbicida atrazina de até 9,7 partes por bilhão (ppb) em riachos e lagos antes que quaisquer esforços de mitigação fossem necessários.

Isso é quase três vezes maior do que o nível de 3,4 ppb proposto pela EPA em 2016 e reiterado pela agência como adequado em 2022. Mas é menor do que um nível pressionado pela administração Trump anterior. Também é menor do que a referência de longa data de 10 ppb que estava em vigor de 2011 a 2019, e menor do que a fabricante de atrazina Syngenta diz ser necessário.

A ação da agência foi recebida com indignação pelos defensores da saúde ambiental, que dizem que a influência da indústria está anulando a ciência sólida, e anos de luta para reduzir a contaminação de cursos d’água por atrazina estão em risco.

“É um soco no estômago de todas as pessoas que trabalharam para nos proteger desse veneno incrivelmente prejudicial”, disse Nathan Donley , diretor de ciências da saúde ambiental do Centro de Diversidade Biológica.

Atrazina é um produto químico herbicida amplamente utilizado, popular entre fazendeiros, particularmente aqueles que cultivam milho, e descobriu-se que o produto químico contamina fortemente o abastecimento de água potável em todo o país, levantando preocupações com a saúde humana. O produto químico foi proibido para uso como herbicida na União Europeia desde 2003.

Pesquisas mostraram que a atrazina é um disruptor endócrino que pode afetar o desenvolvimento sexual de sapos — castrando sapos quimicamente e feminilizando anfíbios machos. Os efeitos são vistos em exposição a níveis bem abaixo de 1 ppb — mais de 10 vezes menor do que o novo limite proposto para segurança ambiental, conhecido como CE-LOC, ou nível de preocupação equivalente à concentração.

Em uma ampla variedade de espécies, incluindo mamíferos, a atrazina faz com que andrógenos, ou produtos químicos masculinizantes, sejam convertidos em estrogênio. Também foi associada a um risco aumentado de vários tipos de câncer, parto prematuro , defeitos congênitos e função imunológica diminuída.

A Syngenta, a principal fabricante de atrazina, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Mas o site da empresa afirma que a atrazina é bem estudada, boa para o meio ambiente e não perigosa.

“Não há ligação entre atrazina e desregulação endócrina em níveis de exposição no mundo real”, afirma a empresa.

Embora os defensores da saúde pública digam que o novo nível permitido é alto demais para ser realmente protetor, a posição mais recente da EPA discorda. Antes de Biden deixar o cargo, o porta-voz da EPA, Remmington Belford, observou em uma declaração enviada em resposta a perguntas que a nova proposta CE-LOC seguiu uma reavaliação do painel consultivo científico de 2023 de um subconjunto de estudos sobre o tópico.

“A EPA não prevê nenhum risco à saúde humana decorrente da exposição à atrazina em águas superficiais e água potável”, acrescentou Belford.

A EPA está atualmente recebendo comentários públicos sobre a proposta. O período de comentários termina em 18 de fevereiro, embora a agência diga que os comentários devem ser recebidos até 3 de fevereiro.

Não está claro se a proposta será impactada por mudanças na administração da EPA sob o recém-empossado presidente Donald Trump. Mas a administração Trump anterior provocou um alvoroço quando tentou aumentar o CE-LOC para 15 ppb.

Cientistas da EPA relataram que interferência administrativa os forçou a desconsiderar descobertas científicas para respaldar esse nível, e a medida foi contestada com sucesso no tribunal.

Vai e volta

Conforme definido, o CE-LOC deve fornecer um limite que proteja peixes, invertebrados e anfíbios no ecossistema aquático. Mas concordar sobre onde esse nível deve estar tem sido uma batalha prolongada entre a Syngenta e os apoiadores que pressionam por níveis mais altos contra os defensores da saúde e do meio ambiente que pressionam por níveis mais baixos.

A EPA tem oscilado sobre a questão em meio a mudanças políticas na liderança da EPA.

Em uma carta de 2022 da Administradora Assistente da EPA, Michal Freedhoff, para um grupo de defesa da indústria, Freedhoff citou “confusão” sobre as posições de mudança da agência sobre o assunto. Ela disse que os 15 ppb assumidos pela primeira administração Trump representavam uma “decisão política”, mas os melhores dados sobre o assunto — conforme analisados ​​em 2016 antes de Trump assumir o cargo e novamente durante a administração Biden — apoiavam os 3,4 ppb.

Não está claro por que a agência passou de 3,4 ppb para 9,7 ppb antes de Biden deixar o cargo, mas muitos suspeitam que a pressão corporativa seja uma possível culpada.

A Syngenta tem um longo histórico de tentar influenciar descobertas regulatórias sobre atrazina e outros produtos pesticidas e usar táticas secretas para desconsiderar a ciência independente, e alguns observadores dizem que a pressão da empresa e seus apoiadores é um fator-chave na mudança de posição da EPA. A Syngenta é uma das maiores empresas agroquímicas do mundo e é de propriedade da ChemChina, uma gigante química estatal chinesa.

Registros internos divulgados por meio de litígio há mais de uma década mostram que a empresa tem um histórico de uso de várias táticas para silenciar as críticas à atrazina, incluindo investigar cientistas em um painel consultivo da EPA, assediar um cientista que estudava a atrazina e outras medidas , como recrutar “aliados terceirizados” para apoiar a segurança de seus produtos, ao mesmo tempo em que parece ser independente da empresa.

Táticas semelhantes foram usadas pela Syngenta para minimizar os riscos de seus herbicidas paraquate, revelou o The New Lede após obter milhares de registros internos da empresa .

O pesquisador Tyrone Hayes , um ecotoxicologista e biólogo do desenvolvimento da UC-Berkeley que estuda a atrazina há quase 30 anos, disse que a ação da EPA para permitir um nível tão alto de atrazina na água é inexplicável, dada a evidência de danos da atrazina ao meio ambiente. A pressão da indústria é a única explicação razoável para a ação da agência, disse ele.

Jason Rohr , um pesquisador que estudou a atrazina na Universidade de Notre Dame, disse que a última medida da EPA de estabelecer uma referência em 9,7 é “um pouco decepcionante”.

“Eu esperava que [a EPA] fosse na direção oposta, que houvesse mais regulamentações e restrições, especialmente na última década, com tudo o que aprendemos”, disse ele.

Em um artigo de 2021 , Rohr escreveu que a história da atrazina “representa um exemplo clássico de fabricação de incerteza e distorção da ciência para atrasar decisões regulatórias indesejadas”.

O artigo relata como a Syngenta e outros grupos da indústria regularmente “distorceram a ciência” em direção a resultados favoráveis; atacaram e negaram a ciência percebida como prejudicial aos seus interesses; assediaram cientistas como Hayes e, em geral, “fabricaram incerteza” para atrasar ou impedir regulamentações.

Além dos efeitos de desregulação endócrina da atrazina, ela suprime a atividade de plantas aquáticas e algas, que formam a base de toda a cadeia alimentar. “A atrazina, como muitos herbicidas, suprime a produtividade primária, [que] tem potencial para ter efeitos em cascata em todos os outros organismos”, disse Rohr.

Medidas de mitigação

O CE-LOC é a concentração média de atrazina encontrada em corpos d’água que “quando excedida, apresenta uma chance maior que 50% de afetar negativamente” um ambiente aquático, de acordo com a EPA. Ele é destinado principalmente para proteger plantas aquáticas, que a atrazina, um herbicida, suprime diretamente — mas também deve ser definido em um nível que não machuque animais.

A proposta sobre atrazina é parte de um plano mais amplo para implementar um conjunto de medidas de mitigação   destinadas a reduzir danos associados à atrazina. Junto com a alteração do CE-LOC, a proposta da EPA inclui um “ menu de mitigação ” baseado em pontos destinado a promover medidas que reduzam o escoamento, como deixar campos agrícolas sem cultivo.

A quantidade de pontos que os agricultores precisam varia de acordo com a área e inclui fatores que a EPA tentou levar em consideração, como o uso de atrazina pela comunidade, a quantidade de chuva e o tipo de solo.

Em algumas áreas, os fazendeiros precisam apenas de três “pontos” para cumprir as instruções do rótulo proposto; em outras áreas, são cinco. Praticar o plantio direto rende três pontos — mas isso não é suficiente para eliminar o risco de escoamento, acusam os críticos.


Fonte: The New Lede

Depois de 20 anos da proibição na Europa, MPT quer banir o agrotóxico cancerígeno Atrazina no Brasil

trator

Com um lapso de duas décadas, o Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou com uma ação para finalmente proibir o agrotóxico Atrazina no Brasil, que em 2021 representou sozinho 5% do total de agrotóxicos consumidos em nosso país.  A atrazina é agente químico especialmente pernicioso por ter uma grande mobilidade nos solos, o que faz que haja uma rápida migração para sistemas aquáticos, incluindo os rios de onde se tira a água de abastecimento das cidades brasileiras.

Banido na União Europeia desde 2003 por ter sido associado a uma série de doenças graves, incluindo diversos tipos de câncer, a Atrazina é um herbicida de amplo uso nas grandes áreas de monocultura que se espalham pelo território brasileiro, especialmente as de soja. Segundo, a  professora aposentada Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Atrazina é apenas um dos diversos agrotóxicos banidos na Europa que continuam sendo legalmente vendidos no Brasil que são conhecidos por causar diversos tipos de câncer.

Em um webinário realizado ontem pelo Grupo de Trabalho sobre Agrotóxicos da  Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental/RP-G(S)A , o professor Wanderlei Pignati (UFMT), os agrotóxicos são parte essencial do motor que move o agronegócio brasileiro (ver vídeo abaixo).

Outro aspecto importante da conexão entre agronegócio e agrotóxicos é o fato de que são empresas da China (principal importador da soja brasileira) que, segundo a Forbes, responderam por 80% do fornecimento da Atrazina vendida no Brasil em 2022, sendo a empresa sino-chinesa Syngenta a principal delas. Essa conexão demonstra que a conexão entre produção e venda de commodities agrícolas tem como consequência o estabelecimento de um modelo agrícola especialmente pernicioso para o meio ambiente e especialmente para a saúde dos brasileiros (ver figura abaixo).

doenças

Desta forma, a eventual proibição da Atrazina deverá ser apenas a primeira de muitas, visto que neste momento o agronegócio está utilizando diversos agrotóxicos altamente perigosos que já foram banidos não apenas na Europa, mas também na China que é hoje o principal produtor de agrotóxicos no mundo. Há ainda que se lembrar que neste exato momento está em tramitação no Senado Federal o chamado “Pacote do Veneno” que promete afrouxar ainda mais a legislação relacionada à importação, produção e exportação de agrotóxicos altamente perigosos, incluindo aqueles que são conhecidos como causadores ou indutores de câncer.

Lamentavelmente o governo Lula até agora vem mantendo a toada adotada pelo governo Bolsonaro e prossegue, contrariando as promessas feitas na campanha eleitoral de 2022, liberando agrotóxicos altamente perigosos em um ritmo acelerado.