Manifesto de seções sindicais do Andes – Regional/RJ contra a implementação autoritária e forçada de ensino remoto

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Nós, de Seções Sindicais do ANDES-SN do Estado do Rio de Janeiro, expressamos publicamente nosso repúdio à ação das administrações de instituições federais e estaduais de ensino do estado, em conjunto com a associação “Redetec” e a empresa pública “MultiRio” (ligada à Prefeitura do Rio de Janeiro), de promover um curso de capacitação em ensino remoto para docentes com o seguinte mote: “conheça o programa de capacitação que visa apoiar o Ensino Remoto Emergencial a ser implementado na fase de isolamento social imposto pela COVID-19”.

1. Refutamos a ideia de que a universidade “não está fazendo nada”: é uma visão equivocada e simplista que desconsidera que o trabalho acadêmico-docente compreende o tripé ensino, pesquisa e extensão. No período de isolamento social, estamos realizando, além de tarefas administrativas, as relativas à divulgação científica, desenvolvendo orientações, submetendo projetos, estudando, publicando, fazendo e avaliando relatórios, além de uma série de atividades acadêmicas e extra-acadêmicas;

2. As aulas estão suspensas devido à pandemia, e as universidades seguem os protocolos da OMS e sanitários, medidas necessárias para evitar o contágio e o colapso nos serviços de saúde. Trata-se de um motivo de força maior e seguiremos sem atividades presenciais até que haja condições adequadas de retorno às salas de aula. Não aceitaremos quaisquer medidas que ponham em risco a integridade de nossos(as) trabalhadores(as) e de toda a comunidade acadêmica;

3. Diante das medidas de isolamento social, é preciso que as atividades remotas sejam debatidas e construídas por toda a comunidade acadêmica, com a participação de todos os setores da universidade, respeitando e fortalecendo o sentido da autonomia universitária;

4. Defendemos a autonomia universitária e repudiamos toda e qualquer iniciativa proveniente de instituições exteriores à universidade, sejam elas públicas ou privadas. As universidades dispõem de quadros próprios qualificados para informar o debate sobre ensino remoto e uma comunidade acadêmica capaz de identificar, propor e construir soluções que venham ao encontro de seus interesses;

5. Consideramos inválida qualquer iniciativa de implementação de aulas remotas não pactuadas nos conselhos universitários e instâncias deliberativas das Universidades, IF e CEFET, sem a participação da coletividade dos docentes, discentes e servidores técnicos. Decisões tomadas sem transparência ou respaldo das respectivas comunidades acadêmicas são autocráticas e contrárias ao espírito democrático e inclusivo que deve reger a vida universitária;

6. Quaisquer tentativas de implementar ensino ou aulas remotas desrespeitando as instâncias democráticas das Instituições de Ensino são ilegítimas, autoritárias e serão consideradas por nossas entidades um constrangimento e interpretadas como assédio moral. Tomaremos todas as medidas cabíveis para que os direitos de nossas categorias sejam respeitados.

Assinam esse manifesto:

  • Adcefet
  • Adesfaetec
  • Adopead
  • Aduenf
  • Aduff
  • Adunirio
  • Asduerj

Uenf: de Darcy Ribeiro a Regina Duarte?

Muitos ainda devem ser lembrar daquela propaganda feita pelo então candidato José Serra mostrando a atriz global e latifundiária Regina Duarte dizendo que estava com medo pelo futuro do Brasil caso Lula ganhasse as eleições presidenciais. Pois bem, mais de uma década depois daquela peça ter sido levada ao ar, eu tenho ouvido repetidas manifestações dentro do campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) que me transportam ao mundo previsto por Regina.É que, invariavelmente, muitos que criticam a situação em que a UENF foi colocada se declaram estar “com medo” de vir a público para proferir algo que seria básico em uma instituição universitária: uma simples opinião.

Uma das explicações para essa situação de medo é estrutural. É que apesar do ciclo autoritário ter sido oficialmente encerrado em 1985, os impactos da ditadura militar de 1964 têm sido duradouros sobre a sociedade brasileira, onde as universidades estão inseridas. Assim, se a herança autoritária da ditadura está permeada nas relações gerais da sociedade brasileira, não haveria por que não estar dentro das universidades.

Mas existem outras explicações mais simples do que a herança da ditadura. A carta-ameaça do reitor Silvério Freitas ao signatários do “Manifesto em Defesa da UENF” é um exemplo prático de como muitos, especialmente entre os professores, foram levados ao estado “Regina Duarte” de ser e vivenciar o cotidiano da instituição. Afinal, fica patente que a universidade é dirigida por um grupo que não tolera a crítica, e não hesita em lançar mão de instrumentos administrativos para tentar coagir quem ousa fazer aquela coisa básica que é emitir uma opinião crítica.

Por outro lado, não é possível deixar de notar que o homem que idealizou o projeto UENF não entrou na história por ter medo. Aliás, muito pelo contrário. Darcy Ribeiro, com todas as suas contradições e ambivalências políticas, pode ser chamado de qualquer coisa, menos de medroso. Darcy viveu na sua plenitude e desafiou por anos a fio a sentença de morte ditada por um câncer, e morreu sem medo.

Assim, me parece no mínimo contraditório que a sua última obra, a UENF, seja dominada pelo espírito de Regina Duarte e não de Darcy Ribeiro. Se for para ser assim, que se mude o nome da universidade para “Uenf Regina Duarte”.  Pelo menos ficaria mais fidedigno e correto com Darcy.

De minha parte, prefiro continuar construindo a instituição sonhada por Darcy Ribeiro, onde o medo não tenha espaço e, tampouco, a mediocridade.