Pesquisadores encontram mercúrio em peixes da Baía de Guanabara

Estudo avalia risco à saúde de pescadores e comunidades costeiras

Os maiores níveis de contaminação foram registrados na Ilha do GovernadorUFF/Divulgação
 
Por Rafael Cardoso para Agência Brasil 

Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) identificou a presença de mercúrio em peixes da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e avaliou os riscos à saúde de pescadores e moradores que têm o pescado como principal fonte de proteína. O estudo analisou oito espécies de peixes e amostras de cabelo de integrantes de colônias de pescadores em Magé, Itaboraí, cidades da Região Metropolitana, e na Ilha do Governador, na Zona Norte carioca.

Os pesquisadores constataram mercúrio nos peixes em concentrações que estão dentro do intervalo permitido na legislação brasileira. Mesmo assim, sugerem que o consumo tenha variação de espécies, para não incluir apenas os peixes com maiores concentrações, como o robalo. Já entre os pescadores, houve casos em que a contaminação supera o limite indicado por autoridades sanitárias, o que indica exposição maior dos trabalhadores ao metal pesado.

O trabalho é de Bruno Soares Toledo, sob orientação de Eliane Teixeira Mársico, ambos do Programa de Pós-Graduação em Higiene Veterinária e Processamento Tecnológico de Produtos de Origem Animal (PPGHIGVET-UFF).

A Baía de Guanabara sustenta milhares de famílias que dependem da pesca artesanal. Cerca de 4 mil pescadores estão vinculados à Associação de Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (Rede Ahomar), em um território onde vivem aproximadamente 8 milhões de pessoas.

A intensificação de atividades industriais, o tráfego marítimo, o lançamento de resíduos domésticos e industriais aumentam a liberação de substâncias tóxicas no ambiente aquático

Resultados

A primeira etapa da pesquisa avaliou a presença de mercúrio total (HgT) em oito espécies de peixes de diferentes hábitos alimentares. Entre as espécies analisadas estavam sardinha, robalo, corvina e tainha.

Os limites estabelecidos pela legislação brasileira são de até um miligrama de mercúrio para cada quilograma de peixes predadores (mg/kg) e 0,5 mg/kg para não predadores.

Os resultados mostraram variações significativas entre as espécies: a sardinha apresentou valores muito baixos de mercúrio, em torno de 0,0003 mg/kg. Já o robalo teve a maior concentração, com 0,2218 mg/kg.

“A concentração detectada não é alta, mas expressa a necessidade de maior espaçamento entre as refeições. Precisa existir um intervalo maior entre o consumo”, explica o pesquisador Bruno Toledo.

“Nosso intuito não é que as pessoas deixem de consumir os peixes, mas que haja um rodízio entre as espécies. Desta forma, a possível exposição ao mercúrio será amenizada”, complementa.

Na segunda etapa, os pesquisadores analisaram amostras de cabelo humano, método reconhecido internacionalmente para identificar exposição crônica ao mercúrio. Utilizando como referência os limites indicados pela Organização das Nações Unidas (ONU), entre 1 e 2 mg/kg, o estudo encontrou valores que variaram de 0,12 mg/kg a 3,5 mg/kg entre os voluntários.

“Isso significa que tivemos voluntários com resultados acima do limite previsto, o que indica maior exposição, possivelmente relacionada ao consumo frequente de peixe”, diz Eliane Mársico.

Impactos na saúde

As amostras foram coletadas em realidades distintas dentro do mesmo estuário, com maiores concentrações na Ilha do Governador, seguidas por Magé e Itaboraí. A frequência de consumo e as espécies mais capturadas podem explicar essas diferenças.

Uma parcela dos peixes é direcionada para consumo próprio, principalmente aqueles com menor valor comercial. Os outros são comercializados, o que significa que os impactos na saúde podem se estender para além das três regiões pesquisadas.

Segundo a ONU, a inalação ou ingestão de grandes quantidades de mercúrio pode provocar consequências neurológicas sérias. Entre os sintomas, estão tremores, insônia, perda de memória, dores de cabeça, fraqueza muscular e até morte.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que dois grupos são especialmente vulneráveis: fetos cujas mães têm altos níveis de mercúrio em seu sangue e populações mais expostas a altos níveis da substância, como os pescadores de subsistência.

Benefício coletivo

A equipe de pesquisadores da UFF pretende devolver os resultados do estudo às comunidades pesquisadas. A ideia é levar as informações de forma acessível, para contribuir com a saúde coletiva.

“Os pescadores não têm conhecimento completo do problema. A percepção deles é o quanto diminuiu a oferta de peixes e outras espécies de pescado ao longo dos anos. Além disso, relataram que o tamanho dos peixes capturados está diminuindo bastante a cada período. De forma geral, eles entendem que é a poluição e acúmulo de resíduos líquidos e sólidos na baía”, diz Bruno.

“Nossa proposta é apresentar os dados em banners claros e diretos, que ficarão expostos na Associação de Pescadores, para que todas as colônias compreendam os resultados e saibam como se proteger”, complementa.

Para Eliane Mársico, a compartilhar os resultados da pesquisa é parte essencial do trabalho científico.

“Os pescadores querem saber e é necessário que tenham essa informação para que possam se prevenir, fazer um rodízio entre as espécies que consomem e evitar impactos no futuro. Nosso foco é garantir a essas comunidades a tranquilidade de se alimentar com algo que gostam e podem”, diz a pesquisadora.


Fonte: Agência Brasil

Em leilão do pré-sal, manifestantes exigem o fim dos novos projetos de petróleo e gás

Um mês após vender imagem de defensor do meio ambiente, na COP26, governo Bolsonaro ignora impactos às comunidades e estimula a piora da crise climática

unnamed (42)Pescadores da Baía de Guanabara erguem faixas contra a exploração de petróleo e gás, durante protesto em frente ao hotel Windsor Barra, no Rio de Janeiro, onde a ANP realizou, nesta sexta-feira, leilão de excedentes do pré-sal. Crédito: Lucas Landau/350 .org

Na manhã desta sexta-feira (17/12), ambientalistas da 350. org e pescadores artesanais de oito associações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro fizeram um protesto em frente ao Windsor Barra Hotel, na capital fluminense, para pedir o fim dos novos projetos de petróleo e gás na costa brasileira.

A ação ocorreu ao mesmo tempo em que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizou, dentro do hotel, a licitação dos volumes excedentes da cessão onerosa das áreas de Sépia e Atapu, no pré-sal da Bacia de Santos.

Os pescadores levaram para a porta do hotel um barco e redes de pesca, para lembrar aos executivos das empresas participantes do certame que as comunidades pesqueiras do Grande Rio de Janeiro sofrem diariamente com os impactos da extração, do transporte e do refino de petróleo e gás.

“Os lances das empresas no leilão de hoje serão, amanhã, os impactos que nos atingem, como os vazamentos de óleo e a contaminação dos recursos pesqueiros”, diz Alexandre Anderson, liderança nacional dos pescadores artesanais e presidente da Associação dos Homens e Mulheres da Baía de Guanabara (Ahomar), organização sediada em Magé.

O desastre é a regra

Um dos danos provocados pelo setor de petróleo e gás na região é a contaminação frequente de trechos da Baía de Guanabara por óleo e produtos químicos utilizados pelas companhias. Pequenos e grandes vazamentos, bem como descargas intencionais dessas substâncias, são constatados quase semanalmente pelos pescadores.

“As falhas, as más condutas e a falta de manutenção são a regra, e não a exceção, nas operações dos terminais e das refinarias no Rio de Janeiro”, afirma Alexandre Anderson.

Na percepção dos pescadores, a quantidade e a qualidade dos peixes vem diminuindo progressivamente na região, como resultado da poluição, com impactos para a renda de milhares de famílias e para a alimentação dos moradores de toda a região metropolitana.

Também prejudicam a atividade dos pescadores artesanais as restrições impostas pelas companhias de petróleo e gás à circulação de pequenos barcos em algumas áreas da baía. Muitas vezes ilegal, a limitação das áreas de deslocamento ocorre justamente em áreas tradicionais da pesca artesanal.

Quando denunciam as irregularidades que testemunham, os pescadores acabam sendo alvos de ameaças anônimas e nem sempre veem as autoridades tomarem providências. Segundo associações da categoria, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro tem se destacado pelo seu trabalho de apoio às comunidades, mas os processos legais de reparação ou correção de uma ilegalidade muitas vezes são lentos e insuficientes.

Até hoje, por exemplo, as comunidades pesqueiras percebem os danos do pior vazamento da história na Baía de Guanabara, em janeiro de 2000. À época, um rompimento no duto que conectava a Refinaria Duque de Caxias, ligada à Petrobras, ao terminal da Ilha D’Água provocou o despejo de 1,3 milhão de metros cúbicos de óleo e graxa no mar.

Impedidos de trabalhar durante meses, os pescadores receberam indenizações inferiores à perda de renda que tiveram, e os pagamentos só começaram a ser feitos mais de 13 anos depois do desastre. Muitos pescadores ainda esperam pela compensação. Além disso, os moradores das áreas afetadas contam que a fauna marinha da região sente os impactos até hoje.

“Quando ocorre um vazamento, grande ou pequeno, o dano para o meio ambiente e para quem depende do mar dificilmente é compensado. Até porque não há compensação financeira que pague a impossibilidade de trabalhar e de exercer suas atividades culturais, duas grandes honras do pescador”, afirma Alexandre Anderson.

 

Crédito: Lucas Landau/350. org

Impactos climáticos

Outro dano provocado pelos setores de petróleo e gás às comunidades vulneráveis, incluindo os pescadores artesanais, é o agravamento da crise climática, que afeta mais intensamente as famílias de baixa renda e aquelas que dependem diretamente do equilíbrio ambiental para realizar seu trabalho.

Relatório divulgado em agosto pelo painel de cientistas do IPCC apontou que a intensidade e a frequência dos extremos climáticos já aumentou e deve continuar se elevando, nos próximos anos, em consequência do aquecimento global, que tem na queima de petróleo, gás e carvão sua principal causa.

Contrariando a imagem que tentou vender na mais recente conferência do clima da ONU (COP26), de defensor da sustentabilidade, o governo brasileiro agrava a emergência climática, ao colocar à disposição das empresas de petróleo e gás novas áreas de extração.

“Um mês depois da COP26, o Brasil contradiz todo o seu discurso ambiental e convida empresas que estão sob pressão global para reduzir suas operações a seguir extraindo combustíveis fósseis com o seu apoio. É como se o país estivesse pedindo ao mundo para não ser levado a sério”, afirma Ilan Zugman, diretor da 350 .org na América Latina.

Zugman lembra também que os dois campos vendidos nesta sexta-feira ficaram sem ofertas no primeiro leilão da cessão onerosa, em 2019, e voltaram ao mercado, desta vez, com preços 70% inferiores aos originais.

“O governo entregou Atapu e Sépia quase de graça às empresas porque sabe que o mundo já está caminhando em direção ao fim do petróleo e do gás. Ao invés de correr para tentar obter as migalhas da velha economia, o Brasil poderia se tornar referência em energias renováveis e atrair investimentos em setores que geram emprego e distribuem renda”, diz Zugman.

No protesto desta sexta-feira, estiveram presentes as seguintes organizações: Associação dos Homens e Mulheres da Baía de Guanabara (AHOMAR), Associação de Caranguejeiros e Amigos do Mangue de Magé (ACAMM), Associação dos Pescadores da Vila dos Pinheiros e região da Baía de Guanabara, Associação dos Trabalhadores na Pesca de Magé e Guapimirim (ATPMG), Associação dos Pescadores Livres dos Bancários (APELONEAS), Sindicato dos Pescadores Profissionais e Pescadores Artesanais do Estado do Rio de Janeiro (SINDPESCA-RJ), Grupo de Pescadores Unidos por uma Pesca Justa de São Gonçalo, Liga dos Pescadores do Rio de Janeiro (LIPESCA) e 350 .org.
 

Crédito: Lucas Landau/350. org