Debate na OAB/RJ: Palestrantes denunciam atentados e irregularidades na Baía de Guanabara

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Irregularidades das indústrias em torno da Baía de Guanabara, como o refino de petróleo que seria praticado pela Petrobrás, a ligação da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a demarcação, por parte das petrolíferas, de áreas de exclusão aos pescadores artesanais sem nenhum controle foram algumas das denúncias feitas nesta quinta-feira, 9, em evento na sede da Seccional, por parte da Comissão de Direitos Humanos (CDHAJ) da casa, da Associação Homens do Mar na Baía de Guanabara (Ahomar), do analista ambiental do Instituto Chico Mendes Breno Herrera e do pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Alexandre Pessoa.

 Segundo os relatos, a segurança privada contratada por empresas próximas à Baía age de forma abusiva no controle dessas áreas de exclusão, que seriam impostas arbitrariamente. “Eles atiram em quem inadvertidamente entra em área de exclusão, quando poderia ser usado outro tipo de advertência. As empresas de segurança têm que cumprir seu papel legal. Não podem agir como polícia ou pior, como capangas, como capitães do mato. Isso é inadmissível”, frisou o presidente da CDHAJ Marcelo Chalréo.

Ele ainda frisou que as áreas são demarcadas na maioria das vezes de forma clandestina: “As áreas de exclusão são colocadas além do que é determinado pela Marinha, que são a 100 metros do local de funcionamento da indústria. E eles colocam em muitos casos de 200 a 300 metros, além de determinarem áreas aleatoriamente, em posições não oficiais”.

De acordo com o presidente da Ahomar, Alexandre Anderson, que representou os pescadores, não há como os trabalhadores saberem os locais permitidos para a pesca. “Se não houver uma intervenção de lideranças, pesquisando previamente com a Marinha esses locais de proibição, os pescadores ficam sem saber aonde podem entrar. O que acontece é que, ou são presos ilegalmente por essas firmas de segurança privada ou levam tiros dos mesmos”.

Na ocasião, foi projetado um vídeo, realizado pela antropóloga e mídia ativista Raffaella Moreira em parceria com a comissão, que contém registros dos atentados e depoimentos dos pescadores e dos especialistas presentes na palestra. “Esse vídeo será encaminhado às entidades competentes com pedidos de providência em relação a essas denúncias”, afirmou Chalréo.

Além da perda de espaço no trabalho dos pescadores, o evento tratou também do progressivo aumento da degradação ambiental na região: “Isso se dá pela poluição industrial e orgânica, simultâneas ao estabelecimento de grandes indústrias no entorno da Baía”, explicou o analista ambiental Breno Herrera, citando a ampliação do Complexo Petroquímico de Duque de Caxias, o assentamento de dutos para transporte de gás natural e a construção do Comperj.

Porém, o pesquisador Alexandre Pessoa ressaltou a amplitude da discussão: “Não se trata de um assunto puramente ambiental, porque não estamos falando da extinção de uma determinada espécie de peixe, mas da vulnerabilidade de todo o território e dos impactos à saúde ambiental de todo esse território”.

 Segundo Chalréo, a Ordem trabalhará no apoio a iniciativas para que se diminua os riscos. “A grande indústria está se estabelecendo em áreas com populações tradicionais e esse estabelecimento é muito agressivo. O que buscamos é que as empresas permitam pelo menos uma possibilidade mínima de convivência com os pescadores artesanais, a comunidade que vive no entorno da Baía”.

FONTE: http://www.oabrj.org.br/noticia/90575-palestrantes-denunciam-atentados-e-irregularidades-na-baia-de-guanabara

OAB/RJ promove debate sobre a crise socioambiental na Baía da Guanabara e em seu entorno

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro, promove no próximo dia 09 de Abril um debate sobre a grave crise socioambiental que afeta neste momento a Baía da Guanabara e os ecossistemas localizados no seu entorno. 

O evento ocorrerá a partir 18:00 horas no Salão Nobre da OAB/RJ que está situada na Avenida Marechal Câmara, 150- 9o. andar, Castelo, no centro da cidade do Rio de Janeiro. 

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Matéria do Estadão traz dados interessantes sobre a degradação ambiental na Baía da Guanabara

A matéria abaixo foi publicada pelo jornal O ESTADO DE SÃO PAULO no dia 01 de janeiro de 2015 continua bastante atual e merece ser lida com atenção. Até porque é bem raro ler materiais da mídia corporativa brasileira que merecem o adágio de “jornalismo”.  Até porque uma das fontes da matéria  é o Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar (Ahomar), que por causa dos conflitos socioambientais resultantes da mudança no perfil de uso da baía, com a instalação de complexos industriais, foi obrigado a deixar a Praia de Mauá, no município de Magé, para ser incluído no programa federal de proteção à vitimas e  testemunhas.

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Guapimirim: Área de Proteção Ambiental faz 30 anos sob ameaça de complexo petroquímico

Felipe Werneck

Último grande remanescente de manguezais da Baía de Guanabara, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim acaba de completar 30 anos sem motivo para comemoração. A criação da reserva foi resultado de grande movimento em defesa da baía, na virada dos anos 1980, que obrigou o governo a desistir de liberar terrenos para indústrias e para a especulação imobiliária na região.

Situada no recôncavo leste, no fundo da baía, a APA abrange os últimos rios limpos da bacia hidrográfica. Hoje, um dos ativistas é o pescador Alexandre Anderson, da Associação Homens do Mar (Ahomar). Envolvido nos conflitos socioambientais resultantes da mudança no perfil de uso da baía, com a instalação de complexos industriais, ele já recebeu ameaças de morte e foi obrigado a deixar a Praia de Mauá, no município de Magé.

“Isto aqui está destinado a acabar”, diz ele ao percorrer com a reportagem o ainda preservado Rio Macacu, dentro da APA. Anderson referia-se aos impactos provocados pelo Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), projeto bilionário da Petrobrás. Em 2011, a empresa foi obrigada a compensar danos ao meio ambiente causados pela obra. O termo de compromisso previa o plantio de mudas nativas de Mata Atlântica em uma área de 4.584 hectares, maior que o Parque Nacional da Floresta da Tijuca. No entanto, segundo o último balanço da Petrobrás, a recomposição havia atingido apenas um trecho de 500 hectares.

“O cumprimento das condicionantes não é característica marcante dos licenciamentos que envolvem a Petrobrás. Diante do quadro negativo, com a Operação Lava Jato e a queda das ações da empresa, o risco de não serem cumpridas é muito grande e compromete a própria validade da licença ambiental”, diz o analista Rogério Rocco, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e ex-superintendente do Ibama no Rio.

Sem herdeiros

O pescador Marcelo Rodrigues, de 37 anos, relata que precisa trabalhar todos os dias para juntar cerca de R$ 700 no fim do mês. “A pesca diminuiu muito na baía. O que prejudica é a poluição e essas obras e plataformas, que limitam o nosso espaço.” Ele não quer que os dois filhos sigam a profissão. “O camarão, que era o nosso décimo terceiro nesta época, sumiu. A pescaria não tem futuro na baía.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE: http://atarde.uol.com.br/brasil/noticias/1649708-area-de-protecao-ambiental-faz-30-anos-sob-ameaca-de-complexo-petroquimico

“Somos homens do Mar”: a resistência dos pescadores artesanais na Baía de Guanabara

Alexandre Anderson na Universidade Federal Fluminense, outubro 2014. Foto de Grettel Navas.

Alexandre Anderson na Universidade Federal Fluminense, outubro 2014. Foto de Grettel Navas.

Por Grettel V. Navas, da ALBA SUD, na Adital

No sábado, 11 de outubro, tive a oportunidade de conversar com Alexandre Anderson, pescador, fundador e atual presidente da Associação Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), organização de 1.870 pescadores e pescadoras da Baía de Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Desde o ano 2000, ele lidera uma luta contra a contaminação e os efeitos negativos das construções da empresa de capital brasileiro Petrobras, entre os que se destaca o Complexo Petroquímico no município de Itaboraí (a 25 quilômetros da Baía).

“Somos ativistas forçados, resistimos ou morremos”

Da cidade do Rio de Janeiro cruzamos a Baía de Guanabara e chegamos a Niterói, onde Alexandre se refugia com sua família (esposa, filhos e neto) em um apartamento pago pelo governo federal. Esta situação é resultado das inúmeras ameaças de morte e seis atentados que recebeu nos últimos anos. Entre 2009 e 2013, Alexandre viveu sob o Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, que lhe permitia ter uma escolta 24 horas por dia para garantir sua segurança. Porém, esse formato não é suficiente, pois, mesmo estando sob custódia do Programa, sofreu vários atentados com armas de fogo, que atingiram diretamente seu corpo e o barco no qual viajava. Por essa razão, desde o ano passado, ele se encontra em “situação de exílio”, o que implica em ter que mudar de residência de tempos em tempos pelo Estado, para desviar a atenção daqueles que pagariam por sua vida e, assim, encerrar sua militância contra a empresa Petrobras.

Essa situação, além de perturbar sua família pela mudança constante de residência ou a distancia de Magé, da praia, seu lugar de pesca e da luta, que se deram com os outros e as outras pescadoras. Como teme por sua vida e pela de sua família, Alexandre decidiu realizar uma militância diferente e aumentar a voz dos pescadores tanto no Brasil como no mundo inteiro. Contar a história da Ahomar e gritá-la pelo mundo em diferentes espaços (acadêmicos, organismos internacionais, fundações, congressos…) é importante para ele, na medida em que possa fazer um chamado à comunidade internacional para condenar as ações a que os e as pescadoras da Baía de Guanabara estão expostos, pelo simples fato de resistir e lutar para manter seus modos de vida. Sua exposição internacional o tem levado a receber asilo político por parte da Holanda, Alemanha, Irlanda e Itália.

Crédito Fotografia: Ahomar

Crédito Fotografia: Ahomar, O custo socioambiental do crescimento econômico brasileiro

Em 2007, quando o presidente Lula da Silva estava no poder, o governo brasileiro inaugurou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que consiste, entre outras coisas, em aumentar o investimento em infraestrutura para a extração de gás e petróleo. Dentro do PAC se encontra a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que compreende 4.500 hectares, o qual, segundo a documentação do caso no Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil, terá um investimento de 21 milhões de dólares americanos e tem como objetivo aumentar a capacidade da refinaria da Petrobras e, assim, atender ao aumento da demanda brasileira com outros derivados, como diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e gás de cozinha. As construções começaram em 2008 e se prevê que estarão finalizadas em 2016.

Embora o Comperj seja localizada em outro município, Itaboraí, sua baía, é utilizada para o estacionamento e manutenção de petroleiros, estaleiros e plataformas, para a reparação de barcos e outras instalações, as quais, no entanto, requerem um perímetro de segurança muito mais amplo do que o espaço que ocupam fisicamente e, em todo esse perímetro, é proibida a entrada de qualquer pescador. Além disso, o risco ambiental de ter essas embarcações ameaça, constantemente, os ecossistemas marítimos (que se mantêm vivos) e a atividade produtiva dos pescadores. Então, embora na Baía não se extraia petróleo, localiza-se todo esse maquinário que, juntamente com oleodutos e gasodutos, causa barreiras físicas para os pescadores e mortandade dos peixes pelas altas temperaturas em que circulam.

Para o início das obras, não foi realizado nenhum processo de consulta nem processo participativo com os pescadores, que são reconhecidos pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) como comunidades tribais, por serem herdeiros dos saberes ancestrais dos Caiçaras, povo Tupi que habitava a ilha e vivia da pesca desde o século XVI.

A pesca artesanal como atividade produtiva está ameaçada em todo o mundo e os conflitos entre pequenos pescadores e a pesca industrial são cada vez mais comuns. No entanto, no caso da Ahomar, o conflito se instalou, principalmente, por duas causas: a apropriação do espaço físico da Baía (pelas construções da Petrobras) e a contaminação de suas águas (que respondem a políticas de saneamento historicamente disfuncionais).

Baía de Guanabara, ao fundo construções da PETROBRÁS. Foto de Grettel Navas

Baía de Guanabara, ao fundo construções da PETROBRÁS. Foto de Grettel Navas

A Baía de Guanabara está localizada no Estado do Rio de Janeiro, compreende 4.066 km² e, além de ser a segunda maior Baía do Brasil (depois da Baía de Sepetiba), é uma das mais contaminadas. Sua degradação progressiva se deve às políticas (inexistentes ou precárias) de saneamento do Estado do Rio de Janeiro. A maioria das águas negras, dejetos industriais e resíduos sólidos da cidade, desemboca na baía, o que, desde ano passado, tem produzido a mortandade de diferentes espécies de animais e afetado diretamente sete municípios e ilhas que banham a Baía.

No entanto, por suas características biofísicas, a água da Baía está em constante intercâmbio com as do oceano e, aparentemente, ela se regenera, tem resiliência suficiente e se autolimpa constantemente. Para os pescadores da Ahomar, se a contaminação fosse a única ameaça haveria atividade pesqueira por mais dois anos. Sua verdadeira consequência – segundo afirma Alexandre Anderson – é a indústria gasífera e petrolífera, que se impôs desde a construção da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), que iniciou sua atividade em 1961. Esta refinaria foi, lamentavelmente, notícias no ano 2000 por um dos maiores acidentes ambientais que já ocorreram no Brasil, quando, por negligência, ocorreu o vazamento de 1.3 milhões de litros de petróleo. As consequências são vistas até os dias de hoje, já que a contaminação a Baía não pode regenerar.

Resistência dos pescadores artesanais na Baía de Guanabara

No ano 2000, depois do vazamento de petróleo pela Reduc, os pescadores e pescadoras começaram a denunciar esse e outros efeitos negativos na Baía. Segundo eles, viram-se obrigados a criarem uma organização de participação legítima para a defesa de seus direitos como cidadãos, daí a ideia da criação da organização Ahomar, alegando que, muito além de serem pescadores, eles eram “homens e mulheres do mar”. A associação foi legalizada em 13 de janeiro de 2007 com 498 pescadores e pescadoras que, atualmente, chega a 1.870, com o objetivo de proteger a Baía e as atividades da pesca artesanal.

O conflito foi se intensificando e, em 2009, os pescadores da Ahomar ocuparam as obras nas quais estava sendo construído um gasoduto submarino e terrestre para a transferência de gás natural (GNL) e de gás liquefeito de petróleo (GLP). Essa construção deixaria totalmente disfuncional a pesca na praia de Mauá – Magé, lugar de origem de Alexandre e onde pescam a maioria dos associados da Ahomar. A ocupação durou 38 dias e foi o marco que iniciou um conflito muito mais violento entre a Petrobras e os pescadores da Ahomar. A partir desse momento, os pescadores têm sido ameaçados, quatro deles foram assassinados e um deles se suicidou pelo estresse do conflito, segundo afirmou Alexandre.

Ocupação do gasoduto. Foto de Ahomar.

Ocupação do gasoduto. Foto de Ahomar.

Em maio de 2009, Paulo Santos Souza, naquele momento tesoureiro da Ahomar, foi vítima de um assassinato em sua própria residência. Em 2010, um dos fundadores da Ahomar, Márcio Amaro também foi assassinado. O fato ocorreu em frente da sua esposa e filhos. Os últimos assassinatos foram os de Almir Nogueira de Amorim e João Luiz Telles Penetra, em junho de 2012. O manifesto de repúdio a esses fatos foi assinado por mais de 100 organizações de diversas partes do mundo. Nele, é relatado o que está acontecendo do seguinte modo: “ambos desapareceram na sexta 22 de junho de 2012 quando saíram para pescar. O corpo de Almir foi encontrado no domingo, 24 de junho, amarrado junto ao barco, que estava submerso próximo a praia de São Lourenço, em Magé, Rio de Janeiro. O corpo de João Luiz Telles (Pituca) foi encontrado na segunda, 25 de junho, com os pés e mãos amarrados em posição fetal, próximo a praia de São Gonçalo, Rio de Janeiro” (Ahomar, 2012).

Para Alexandre, esses assassinatos foram, além de grandes perdas para a organização, uma mensagem direta aos membros da Ahomar para que cessem sua luta. O ocorrido entristeceu profundamente os pescadores, os debilitou e gerou medo na Baía, mas não os desmobilizou, mas os empurrou para lutar com mais força e afinco, agora também pela lembrança dos que se foram. Alexandre afirma que, além dessas mortes e do suicídio por estresse de outro companheiro, dezenas de pescadores já sofreram “assassinatos invisíveis”, e que ele mesmo é vítima, ao sentir uma profunda tristeza por não poder pescar, viver sob ameaças e fora do seu local de residência.

Segundo o Deadly Environment, o Brasil é o país do mundo com mais mortes de ambientalistas, com 448 casos reportados entre os anos de 2002 e 2003, seguido por Honduras, com 109 no mesmo período. O aumento de mortes é uma constante na América Latina, assim como sua impunidade. Nessa questão, o Brasil não tem sido uma exceção e, apesar dos manifestos e relatórios da Anistia Internacional e outras agências, nenhuma das quatro mortes foi esclarecida, nem tampouco os atentados diretos que Alexandre sofreu. Embora, segundo a Ahomar, os assassinos são pagos por pessoas que estão obtendo ganhos econômicos com a industrialização da Baía, funcionários do Estado do Rio de Janeiro, do governo municipal e da segurança pública local.

Fortalecimento da organização e novas estratégias de resistência

Quando ocorreu o vazamento da Reduc, quem avisou sobre a contaminação ambiental foram os pescadores, assim como quando a Baía sofre algum dano são os pescadores quem, por sua relação tão próxima, se dão conta, de forma imediata, dessas irregularidades. A ação do governo brasileiro em tomar decisões que só têm enfoque economicista e de crescimento do PIB [Produto Interno Bruto], como a exploração de petróleo e de gás, sem levar em conta as comunidades, é excluir aqueles que poderiam ser os melhores aliados para a segurança social, ambiental e econômica da Baía. No entanto, essas sinergias, pelo choque de percepções, de valores e da intensidade do conflito, parecem agora impossíveis. Ao que parece, a Petrobras designou um porta-voz para iniciar um diálogo com os pescadores e cessar o conflito, mas, quando foi perguntado, recentemente, a Alexandre sobre como haviam sido essas abordagens, ele respondeu não haver estado em nenhum diálogo.

O conhecimento e os saberes ancestrais que têm os pescadores sobre a Baía, sobre seus ciclos, suas espécies, seu zoneamento, não são levados em conta por parte do governo brasileiro que, por meio da Petrobras, vê a Baía somente como um espaço para o estacionamento de navios, de experimentação e limpeza de barcos. Tampouco levam em conta os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, que percebem a Baía como um depósito de águas residuais, de dejetos sólidos e industriais. As tentativas de limpeza da Baía começaram nos anos 1990, destas a mais conhecida é o “Programa de Descontaminação da Baía de Guanabara”, financiado pelo governo japonês e que terminou em um desperdício de recursos econômicos sem mudanças reais.

A Ahomar tem realizado também um esforço por inovar e ampliar suas estratégias de luta para proteger a Baía e garantir a atividade daqueles jovens – cada vez menos – que querem seguir o exemplo de seus pais e serem pescadores. Uma delas consiste em mostrar a “face bonita” da Baía, explicar que esta tem vida e seus ecossistemas, embora se encontrem em uma situação muito crítica, podem ser salvos. Assim, há três anos, e com ajuda de estudantes de mestrado e doutorado, estão criando mapas para um melhor conhecimento da Baía, indicando as possíveis zonas de exclusividade e, dessa forma, no futuro, tentar influir nas decisões políticas tomadas em relação à Baía.

Paradoxalmente, o governador do Rio de Janeiro, juntamente com a organização das Olimpíadas de 2016, expõe a Baía de Guanabara como um espaço atrativo para as competições de vela. Talvez a pressão dos atletas ou sua rejeição em entrar na Baía por causa da contaminação ambiental e da violência social mencionada anteriormente sirvam como medida de pressão para se concretizarem as promessas. O tempo já começa a apertar.

Fonte: http://racismoambiental.net.br/2014/11/08/somos-homens-do-mar-a-resistencia-dos-pescadores-artesanais-na-baia-de-guanabara/

Ato público em defesa da Baía da Guanabara e dos seus pescadores

ATO PÚBLICO: NÃO À MORTANDADE DE PEIXES NA BAÍA DE GUANABARA E A CRIMINALIZAÇÃO DOS PESCADORES

Dia: 7 de Novembro (sexta feira), às 10 hs na porta do INEA (Instituto Estadual do Ambiente) – Av. Venezuela, No. 110 – Praça Mauá.

Há quase um mês vem ocorrendo a mortandade de TONELADAS de peixes na Baía de Guanabara, além da morte de tartarugas e boto.

Os órgãos ambientais (Secretaria Estadual do Ambiente e o INEA) acusam os pescadores pela mortandade, criminalizando esta categoria profissional que já vem sofrendo com os impactos dos mega-empreendimentos industriais e o aumento das “áreas de exclusão de pesca”, onde os pescadores são proibidos de trabalhar, retirando o sustento destas famílias que vem empobrecendo, enquanto aumenta a poluição e a destruição do meio ambiente.

Enquanto isso, continuam impunes os crimes ambientais provocados por indústrias que operam no entorno da baía; as obras das petroleiras e as dragagens licenciadas a toque de caixa cujo volume de sedimentos (lama) estimado num volume de 3 a 4 estádios do Maracanã que encontra-se parcialmente contaminado por metais pesados altamente poluentes e perigosos ao meio ambiente e à saúde, despejados ilegalmente na entrada da baía, prejudicando a pesca, o lazer, o turismo e a balneabilidade das praias. Outros graves problemas são o grande volume de esgotos sem tratamento oriundo dos municípios do entorno e o lixo flutuante. Também a estiagem prolongada pode estar provocando o aumento da cunha salina (intrusão salina) já que houve uma redução do volume de água doce que desce dos rios que deságuam na Baía de Guanabara.

O FÓRUM DOS PESCADORES E AMIGOS DO MAR está solicitando uma atuação imediata por parte dos Ministérios Públicos Federal e Estadual para que seja feita uma investigação de fato isenta, através da adoção de um Sistema de Monitoramento Ambiental independente a ser executado com participação de um pool de Universidades Públicas e instituições acadêmicas. A sociedade não pode permitir a extinção dos pescadores e o desmantelamento cultural destas comunidades tradicionais.

A nossa querida e bela Baía de Guanabara, assim como os Povos da Baía estão pedindo SOCORRO!!!

Ambientalista e morador, Sérgio Ricardo traça cenário sombrio sobre da Ilha do Governador

Alexandre Anderson, presidente da AHOMAR, faz palestra em Berlin denunciando o abandono da pesca artesanal pelo governo brasileiro

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Alexandre Anderson* (Associação Homens e Mulheres do Mar -AHOMAR) participou da Conferencia Internacional (Neo-)Extractivismo y el Futuro de la Democracia en América Latina, de 13 a 14 de Maio de 2014, em Berlin – Alemanha, promovido pelo Departamento de América Latina de la Fundación Heinrich Böll.

A programação apresentou os seguintes painéis:

  •  (Neo-)Extractivismo y Democracia en América Latina –  Tendencias actuales y retos
  • “Territorios” y conflictos sobre participación y democracia en el contexto del (Neo-Extractivismo)
  • Casos ejemplares: “Territorios” y conflictos sobre participación y democracia en el contexto del (Neo-Extractivismo)
  • Gobernanza local de materias primas – Industrias extractivas, conflictos sociales y desafíos institucionales
  • Casos ejemplares: Transferencia de impuestos y política local en Perú
  • Gobernanza global de materias primas – ¿Cómo garantizar políticas ecológicas, sociales y orientadas a los derechos humanos?
  • Democracia y gobernanza de materias primas: alternativas al modelo de desarrollo extractivista

Anderson participou do painel:

Casos ejemplares: “Territorios“ y conflictos sobre participación y democracia en el contexto del (Neo-)Extractivismo

Famatina/Argentina – Ana Di Pangracio, Fundación Ambiente y Recursos Naturales (FARN)

Magé, Estado de Río de Janeiro, Brasil – Alexandre Anderson, Associação dos Homens e Mulheres do Mar (AHOMAR)

San Miguel El Progeso /México – María Luisa Aguilar, Centro de DDHH de la Montaña Tlachinollán

Moderación: Annette von Schönfeld, Heinrich-Böll-Stiftung, México und Dawid Bartelt, Heinrich-Böll-Stiftung, Brasil.

Veja mais fotos Aqui

*Alexandre Anderson é ativista ambiental e pescador. Desde 2007 luta pelos direitos dos pescadores artesanais em Magé, na Baía de Guanabará, Rio de Janeiro. Como Presidente da Associação de Homens e Mulheres do Mar (AHOMAR) é comprometido com a campanha contra a expansão da indústria de petróleo que avança na região. AHOMAR e outras organizações da sociedade civil criticam por exemplo a construção de um grande complexo petroquímico, mais plataformas de petróleo e oleodutos na baía, que ameaçam o meio ambiente e, portanto, os meios de subsistência dos pescadores locais. Reinvidica o esclarecimento dos assassinatos de quatro membros da Associação. Até hoje, nenhum caso foi levado ao tribunal.

Conheça mais sobre a luta dos pescadores e pescadoras da Baía de Guanabara na entrevista com Alexandre Anderson 

FONTE: http://planetamovimentojanetemelo.blogspot.com.br/2014/05/alexandre-anderson-presidente-da-ahomar.html

Vitória! “Justiça determina que Petrobrás indenize pescadores por obras na Baía de Guanabara entre 2007 e 2009″

Por CombateRacismoAmbiental

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IBDA – A justiça determinou no processo nº 0005161-16.2011.8.19.0029 que tramita na 1ª Vara Cível de Magé que a PETROBRÁS pague indenização a 96 famílias de pescadores artesanais atingidos pelas obras dos projetos GNL e GLP na Baía de Guanabara em até um salários mínimo mensal durante os 18 meses da obras, corrigido monetariamente e com juros de 1% ao mês a contar da citação, independente da prova da sua culpa. Segundo o juízo nexo causal ficou demonstrado pelo Estudo de Impacto Ambiental.

A Associação Homens do Mar da Baía de Guanabara – AHOMAR propôs o ICP junto ao MPF e acompanha a causa desde então.

A petição inicial do processo narra que o objeto da ACP é garantir o direito dos pescadores artesanais, em face da implementação de um gasoduto a fim de que sejam ressarcidos dos prejuízos causados. O ICP que originou a Ação foi instaurado em 27/4/2009 e apurou que a instalação do gasoduto causou a impossibilidade da atividade pesqueira na região estando tudo previsto no RIMA/EIA que instrui a petição inicial. Vamos acompanhar o caso e divulgar em nosso site.

Veja a integra da decisão: Sentença ACP 96 famílias

Fonte Sitio TJ/RJ, http://racismoambiental.net.br/2014/08/rj-vitoria-justica-determina-que-petrobras-indenize-pescadores-por-obras-na-baia-de-guanabara-entre-2007-e-2009

Alexandre Anderson, um símbolo da luta contra as corporações poluidoras

Há pouco mais de 2 anos tive a possibilidade de participar de um seminário promovido pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da FIOCRUZ que me deu a possibilidade de conhecer pessoalmente o líder dos pescadores artesanais da Baía da Guanabara, Alexandre Anderson, que nos ofereceu naquele dia uma visão completa dos problemas que estavam sendo infringidos sobre a sua categoria por empresas envolvidas nas operações petrolíferas naquele rico ecossistema. O detalhe é que Alexandre Anderson compareceu ao evento acompanhado de proteção policial, visto que se encontrava ameaçado de morte. Em sua própria narrativa, Alexandre nos contou o que vem a ser ” o movimento Homens do Mar e como ele tem atuado para combater o efeito nocivo que a Petrobras, principalmente por conta do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), tem causado à pescaria artesanal. “Estamos em uma luta pela vida. Hoje parece que a legislação não vale para as grandes empresas. Exemplo disso são os barcos rebocadores que ficam próximos à praia, os dutos de condução de gás e óleo localizados em posição acima do permitido”.

Pois bem, passado todo esse tempo, a situação na Baía da Guanabara não só não melhorou, mas como também os ataques às lideranças dos pescadores continuaram, incluindo o extermínio físico de vários deles, sem que a polícia consiga apurar, e muito menos prender, os assassinos e os mandantes de uma série de mortes. Além disso, como estamos vendo em diferentes denúncias, a poluição do ecossistema ameaça não apenas a realização das provas de iatismo dos Jogos Olímpicos de 2016, mas também acabar com o sustento de centenas de famílias.

E nisso tudo e apesar disso tudo, Alexandre Anderson continua firme na luta pelo direito de seus camaradas, ainda que continue precisando de proteção armada e ser constantemente movido para dificultar a ação dos que querem eliminá-lo, como uma forma de quebrar a resistência dos pescadores artesanais da Baía da Guanabara.

Para mim, Alexandre Anderson é um continuador da luta de outros mártires recentes da maioria pobre da população brasileiro cujo maior ícone é Chico Mendes. Mas como herói bom é herói vivo, é necessário que se cobre a apuração e punição dos que estão tentando eliminar essa importante liderança.