A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

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Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

Crise no horizonte: Brasil dependente da exportação de commodities vê seu saldo comercial despencar

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As reformas ultraneoliberais implementadas ao longo de 2019 pelo dublê de ministro da Fazenda e banqueiro, Paulo Guedes, prometiam permitir a retomada do crescimento da economia brasileira.  Entretanto, os números da balança comercial mostram que as promessas dos benefícios em troca de mais sacrifício dos brasileiros não saíram do papel (ver figura abaixo).

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O mais preocupante é que dos 11 principais produtos de exportação, 10 deles foram commodities agrícolas e minerais, o que evidencia a fragilidade da posição brasileira em um economia globalizada que é comandada por um portfólio que vai na direção da alta tecnologia com produtos com alto valor agregado.

Com a crise militar instalada no Oriente Médio pelo assassinato do general iraniano Qasem Soleimani a possibilidade é que diminua o apetite pelas commodities que impediram o Brasil de ter déficit no lugar de superávit em 2019.  Em outras palavras, as perspectivas econômicas para a economia brasileira são ainda piores em 2020 do que foram no ano que acaba de se encerrar.

Com isso é bem provável que o Brasil passe pelas mesmas fortes turbulências que sacudiram diversos países sul americanos em 2019. E, pior, com um governo que não consegue apontar nenhum caminho de construção de alternativas, visto que se apoia em uma proposta de destruição do Estado nacional e de um forte alinhamento com a economia e com a ação intervencionista dos EUA. 

Eduardo Bolsonaro brinca de General Custer e China pode se tornar o “Last Stand” do Brasil

eduardo bolsonaro

Todos minimamente familiarizados com a história militar dos EUA já deve ter ouvido falar do General George Armstrong Custer (que na verdade terminou seus dias como Capitão) e seu fatídico final na Batalha de Little Big Horn. 

Pois é exatamente do General Custer que me lembro quando começo a ler as declarações do deputado federal Eduardo Bolsonaro sobre as relações comerciais do Brasil com a China. É que seja qual for a opinião que o filho do presidente possa ter sobre o que bem lhe apetecer, não me parece que ficar provocando o principal parceiro comercial do Brasil seja algo que trará bons resultado para a nossa já combalida economia.

Para melhor ilustrar o que considero um completo “nonsense”  ficar repercutindo as posições do governo dos EUA como se fosse de interesse do Brasil, posto abaixo dois mapas dos estados brasileiros mostrando os principais parceiros comerciais nos quesitos de exportação e importação.

Como os mapas mostram, o Brasil depende muito mais da China para vender suas coisas e dos EUA para comprar o que precisa para, entre outras coisas, gerar a produção que vai acabar nos portos chineses.  

Por isso, ao continuar provocando o país do qual mais estados brasileiros dependem para exportar sua produção, o que Eduardo Bolsonaro pode acabar causando é um prejuízo incalculável aos interesses dos exportadores brasileiros.  Desta forma, a China pode acabar sendo transformada numa espécie de “Last Stand” do Brasil se não a verve de Eduardo Bolsonaro não for amansada.

Como a China está neste momento num grande confronto com o governo Trump, quanto mais tempo demorar para que isto aconteça, maior será a chance de que uma crise política ocorra.