Com o “agro” é assim: o lucro é todo meu, o prejuízo é todo de vocês

Crescem pedidos de recuperação judicial no agronegócio goiano - Empreender  em Goiás

Todos os brasileiros estão acostumados a ouvir a cantilena de que o agro é isso, o agro é aquilo, e que o agro carrega o Brasil nas costas.  A verdade, porém, é que o Brasil, principalmente os brasileiros pobres, carrega o agro nas costas, normalmente com subsídios diretos e indiretos, e com financiamentos para lá de generosos.

A crise que engolfa o Banco do Brasil por causa do calote gigantesco que seus clientes do “agro” estão dando apenas demonstra isso de forma que não se pode esconder.  Assim, notícias publicadas pela mídia corporativa dão conta que neste momento o Banco do Brasil possui nada menos que 20 mil devedores ligados ao “agro”, o que está derrubando as suas taxas  de lucro, a instituição publiciiuzou uma queda de 60% no lucro, que caiu para R$ 3,8 bilhões, na última quinta-feira (14/8).  E isso não é fortuito, na medida em que o Banco do Brasil é responsável por metade do financeiro do “agro” brasileiro.

Um pimenta a mais nessa situação preocupante para o principal banco público brasileiro é que parte dos devedores do “agro” está se aproveitando de forma maliciosa de uma mudança feita na legislação do instituto da recuperação judicial (RJ) para não pagar suas dívidas. O truque implica em utilizar a RJ sem antes tentar renegociar suas dívidas diretamente com o Banco do Brasil. De quebra, escritórios de advocacia estariam fazendo propaganda em redes sociais para que os produtores não paguem suas dívidas e os contratem para cuidar da RJ.

Como a já apontou a Coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fatorelli, em um estudo feito em 2021,  a análise dos orçamentos públicos de todas as esferas – federal, estadual e municipal – mostra que a participação do agronegócio no financiamento do Estado é negativa, devido às inúmeras isenções e subsídios, incentivos fiscais etc. de tal maneira que os tributos arrecadados do setor são próximos de zero. 

Agora com esse calote gigantesco que está sendo cometido contra o Banco do Brasil, a coisa fica ainda mais explícita, pois já não se trata mais de não contribuir com o financiamento do Estado, mas de ser uma fonte gigantesco de drenagem de recursos. Afinal de contas, quem tem dúvidas que esse calote vai acabar sendo assimilado “pela viúva”, ao custo de um maior empobrecimento da classe trabalhadora?

O fato é que com o “agro” é assim: o lucro é todo meu, e o prejuízo é todo de vocês.

E antes que eu me esqueça: o que será que apareceria se uma auditoria pública fosse feita de todos os empréstimos que agora estão inadimplentes? Quantos desses empréstimos foram realmente usados para o fim para o qual foram tomados (isto é, o financiamento dos plantio e colheita) e quantos foram usados em atividades diversas? Algo me diz que muito desse dinheiro foi parar em outras coisas, inclusive especulação no mercado financeiro.

O Banco do Brasil sangra por causa da dívida gigantesca do agronegócio: entenda as razões

O dossiê da inadimplência do agro que derruba a ação do Banco do Brasil em 30%: como surgiu, quem deve e por que BBAS3 sangra na Bolsa. Banco estatal se viu nos últimos dois meses no centro do pessimismo do mercado; ação saiu da casa dos R$ 29 para os atuais R$ 19

Mercado tem visão negativa sobre os resultados do Banco do Brasil (BBAS3) no 2º trimestre de 2025. (Foto: Adobe Stock)

Mercado tem visão negativa sobre os resultados do Banco do Brasil (BBAS3) no 2º trimestre de 2025. (Foto: Adobe Stock)

Por Luíza Lanza, Editado por Wladimir D’Andrade para o E-Investidor Estadão

O Banco do Brasil divulgará na noite da quinta-feira (14) o balanço financeiro mais aguardado da temporada do segundo trimestre de 2025. A estatal se encontra no centro das preocupações do mercado financeiro desde quando divulgou, em maio, um resultado muito aquém do esperado para o primeiro trimestre, retirou o guidance (metas) do ano e deu início a uma tempestade perfeita que derrubou as ações BBAS3 em mais de 30%, para os R$ 19,24 do fechamento desta terça-feira (12). O vilão principal? Ainadimplência do agronegócio.

Nesses dois meses, a BBAS3 saiu do posto de ação “queridinha” dos dividendos para um papel que deve ser evitado. Analistas cortaram as projeções de lucro e colocaram a recomendação das ações do Banco do Brasil em revisão.

Assim, às vésperas do balanço do segundo trimestre (2T25), o E-Investidor conversou com especialistas e reuniu análises de grandes bancos para entender com profundidade a tão falada inadimplência,o que está acontecendo no agroe como a carteira de crédito rural, que por muito tempo era tida como o grande trunfo do BB, deflagrou o caos nas ações do banco estatal.

Em resumo, há um componente macro decorrente da queda dos preços das commodities e problemas de safra enfrentados nos últimos anos. Mas existem também questões jurídicas relacionadas a mudanças nas provisões do banco contra calotes e na Lei de Falências.

O que está acontecendo com o agronegócio do Brasil?

A crise no agronegócio não começou em 2025, mas nos anos anteriores, quando os produtores rurais foram impactados pela queda dos preços das commodities agrícolas, pela alta dos custos com insumos e por problemas climáticos.

Trator faz pulverização em plantação; agronegócio sofre com queda dos preços das commodities e alta dos custos dos insumos.
Trator faz pulverização em plantação; agronegócio sofre com queda dos preços das commodities e alta dos custos dos insumos. (Imagem: Dusan Kostic em Adobe Stock)

Em relatório temático divulgado em junho, o Itaú BBA pontuou que os produtores rurais normalmente usam uma boa safra para reinvestir em terras e maquinário em vez de acumular poupanças. Mas, após vários anos de colheitas altamente lucrativas, o Brasil enfrentou uma série de problemas climáticos nas safras de 2022/23 e 2023/24.

“Uma das razões para a pressão na inadimplência pode ser a sequência negativa de acúmulo de dívidas do produtor rural por conta de safras anteriores que ficaram abaixo do esperado”, diz o BBA.

Mas o impacto da produção pode ter sido só o estopim. Rodrigo Gallegos, sócio da RGF Associados e especialista em reestruturação, destaca que o problema começou antes, em meados de 2020, quando boa parte do setor se alavancou na pandemia da COVID-19. Na época, bancos e o governo ampliaram a concessão de crédito para impedir uma “quebradeira generalizada” no País.

Com as cadeias produtivas paralisadas, os produtores foram se endividando e logo a rolagem de dívidas se tornou mais difícil. Afinal, de lá para cá, a taxa básica de juros brasileira saltou de 2% para os atuais

“A despesa financeira começou a ‘comer’ o caixa das empresas, o que levou o produtor a atrasar pagamentos e o colocou em uma crise financeira enorme. Tudo isso com o dólar alto e uma economia que, apesar da taxa de desemprego baixa, não tem sido tão boa”, explica Gallegos.

Um levantamento da Serasa Experian mostra que o cenário de inadimplência da população rural no primeiro trimestre de 2025 chegou a 7,9%. No mesmo período de 2024, o índice era de 7%.

O impacto da Lei de Falências e o risco moral no campo

Além da alta da inadimplência, dados do Serasa Experian mostram que 389 produtores optaram pela recuperação judicial (RJ) no primeiro trimestre de 2025. Trata-se de uma alta de 21,5% em relação aos últimos três meses de 2024. Desse total, 195 RJs vieram do perfil de pessoa física.

As informações da datatech mostram que os produtores que não possuem registro de propriedade, como arrendatários ou integrantes de grupos econômicos e familiares, são os que mais optam pela RJ. “Esse é um perfil que costuma operar com margens mais estreitas, pois além dos custos da atividade em si, arca com despesas adicionais, como o pagamento pelo uso da terra. Em cenários de maior volatilidade climática e de crédito, encontram desafios maiores na gestão financeira e no acesso a garantias, o que explica, em parte, a busca por instrumentos de reequilíbrio judicial”, considera Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.

Junto ao combo de piora macro e microeconômica, há ainda um outro ponto impulsionando uma alta no número de recuperações judiciais no setor. Em 2020, a Lei de Falências foi atualizadapara permitir que o produtor rural, na pessoa física, também acesse o instrumento legal, que antes ficava restrito a empresas. A mudança é tida por especialistas como justa, dado que muitos produtores pequenos centralizam as atividades no campo na pessoa física. 

Imagem de milho estragado no pé, em alusão a falências no agronegócio.
Lei de Falências foi atualizada em 2020 para permitir que o produtor rural na pessoa física também possa usufruir dela. (Imagem: Firn em Adobe Stock)

Mas isso também abriu uma brecha para certo excesso nas RJs, um movimento que muita gente ligada ao setor vem atribuindo a escritórios de advocacia regionais, que estão incentivando os produtores a optar pelo instrumento. O próprio BB fez esse alerta na última teleconferência de resultados.

O Itaú BBA chama a questão de “moral hazard”, um termo utilizado para se referir a dilemas de risco moral, quando há incentivos assimétricos em uma relação contratual.

“O processo agora é mais fácil para os produtores solicitarem recuperação judicial. Combinado com um histórico recente de aumento de renegociações e prorrogações, pode ter criado um risco moral. Eles podem ter capacidade de pagar, mas sua disposição para fazê-lo pode ter diminuído“, diz o banco em relatório.

O modelo de empréstimos ao agronegócio do Banco do Brasil

A alta nos pedidos de recuperação judicial pesa mais sobre o BB do que sobre os pares privados porque o banco estatal está mais exposto a pequenos produtores. Mas também tem a ver com o modelo de concessão de crédito utilizado pela estatal, que oferece a garantia via penhor de safra.

Em uma carta temática divulgada em julho, em que defende que o mercado ainda subestima os riscos da tese do BB, a Legacy, gestora de multimercados com R$ 20 bilhões em ativos no portfólio, pontua que a garantia via penhor de safra funcionou por muitos anos para o Banco do Brasil. Mas que não é mais adequada à nova realidade de inadimplência do agro.

Os pares privados oferecem crédito rural via alienação fiduciária da terra, um mecanismo de recuperação mais direto e eficiente, diz a gestora. Veja a opinião da Legacy aqui.

Rodrigo Gallegos, da RGF, explica que aalienação fiduciária da terra é mais segura do que a garantia via penhor de safra por um motivo único: pode ser cobrada mesmo que o produtor entre na Lei de Falências. “Na alienação fiduciária, o crédito é automaticamente extraconcursal. O devedor não pode colocar a dívida na RJ, então o credor pode ir atrás da garantia”, diz.

Desde 2020, o penhor de safra também é extraconcursal, mas tem uma execução mais complexa por depender da produção da safra em si. É difícil, por exemplo, contabilizar a parte dos grãos que faz parte da garantia e qual não, assim como a logística de venda da safra dificulta a execução da garantia.

Publicidade

Por causa disso, com a alta nas RJs, o BB tem tido dificuldade em executar as garantias previstas nos contratos e sofrido mais do que outras instituições.

Por que a inadimplência pesa mais sobre o BBAS3 do que sobre outros bancos?

A inadimplência do agro está pesando muito mais sobre o Banco do Brasil do que sobre outros bancos. Os principais pares privados – Itaú, Bradesco e Santander – já divulgaram seus balanços do 2T25. Entre resultados bons e ruins, em nenhum a carteira do setor agrícola foi manchete.

Há uma justificativa para isso. Entre crédito rural e agroindustrial, o Sistema Financeiro Nacional como um todo tem R$ 735 bilhões. Desse total, cerca da metade está na carteira de crédito do Banco do Brasil.

Pedro Ávila, analista de banco da Varos, explica que há décadas o BB funciona como o principal braço operacional do governo federal no fomento ao agronegócio. Além de administrar o Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), ele canaliza a maior parte dos recursos do Plano Safra, oferece linhas de crédito rural subsidiadas em todo o País e, graças à sua capilaridade, financia desde pequenos produtores familiares até grandes cooperativas e agroindústrias.

“Por ser o maior financiador do agro, um problema sistêmico no setor inevitavelmente afeta o BB”, diz Ávila

Esse perfil de financiador do pequeno produtor e da agricultura familiar faz a carteira de crédito agro do BB ser muito ligada à pessoa física, uma característica menos presente nos outros bancos e que torna a estatal mais suscetível às instabilidades no momento. É justamente ainadimplência do crédito ligado ao pequeno produtor que está em disparada.

Mudanças na forma de fazer as provisões

Quando um banco empresta recursos a terceiros, ele é obrigado a reservar uma parte do valor emprestado para cobrir eventuais inadimplências. Isso é chamado de provisionamento – na prática, um “caução” que a instituição precisa ter se levar o calote. Mas a regra para contabilizar isso nos balanços mudou, acarretando em impacto no balanço do primeiro trimestre de 2025 do BB e que deve continuar pesando.

Até o fim de 2024, os bancos seguiam o modelo de perda incorrida, em que os créditos eram classificados conforme o tempo de atraso em faixas de A a H. Cada uma exigia uma provisão mínima, de 0,5% a 30%, conforme o período de atraso entre 90 e 120 dias.

Em 2025, a norma mudou com a nova resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) nº 4.966. A medida obriga as instituições financeiras a anteciparem as provisões, exigindo classificação dos ativos e introduzindo o modelo de perda esperada em três estágios, dos clientes de baixo risco (estágio 1) até altíssima probabilidade de inadimplência (estágio 3), passando ainda por risco significativo (estágio 2).

Com esses estágios, a norma obriga que as empresas façam as provisões bancárias antecipadamente e não apenas no momento em que ocorrem, como acontecia anteriormente. O BTG destaca no relatório que, na Resolução 4.966, os empréstimos inadimplentes com mais de 30 dias podem exigir provisões de aproximadamente 30%, enquanto os com mais de 90 dias chegam a uma média de 70%.

Como a carteira de crédito do Banco do Brasil é muito superior à dos pares privados, o banco também foi mais afetado pela mudança nas provisões. Pedro Ávila, da Varos, destaca que o setor corresponde a 32% do crédito concedido pela estatal; no Itaú, Santander ou Bradesco, a parcela não ultrapassa os 10% do total, ele estima.


Fonte: E-Investidor Estadão

Agronegócio, um gigante de pés de barro: Dívida recorde do agro abala Banco do Brasil

O agro não anda muito pop no Banco do Brasil (BB)

Juliana Sayuri e Graciliano Rocha para o UOL 

O BB, principal financiador do agronegócio no país, registrou R$ 12,73 bilhões em atrasos de mais de 90 dias nos pagamentos do setor.

O desfalque puxou uma queda de 60% no lucro no segundo trimestre, segundo dados divulgados na noite de anteontem.

“É o maior nível de inadimplência já visto no agro na história do Banco do Brasil”,
afirmou ontem a presidente do banco, Tarciana Medeiros.

Mais da metade das dívidas (52%) são de produtores do Sul e do Centro-Oeste.  Devendo na praça, o agro vem recorrendo cada vez mais às recuperações judiciais. Dos R$ 12,73 bilhões devidos, R$ 2,27 bilhões são fruto de recuperações.  A crise para justificar os processos é atribuída a diversos fatores: pandemia, altos juros, falta de financiamento acessível, entre outros.

Há outras questões, no entanto, que vêm escapando às análises macroeconômicas, apurou o UOL: má-fé e fraude, com pedidos de recuperações judiciais que não se enquadram na lei. Escritórios de advocacia oferecem esse tipo de serviço.

Advogados ouvidos pela reportagem alertam que é preciso separar o joio do trigo.

O assunto está no radar do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

No fim de maio, o ministro Mauro Campbell Marques, corregedor-nacional de Justiça, abriu uma comissão especial “para o aprimoramento da atuação do Poder Judiciário nos processos de recuperação judicial e falência de produtores rurais”.

O Banco do Brasil monitora hoje 808 clientes sob recuperação, num total de R$ 5,4 bilhões –parte do valor não entrou no balanço pois se refere a pagamentos cujo vencimento ainda não ocorreu.

Imagem: Arte/UOL

‘Instrumento de barganha’

  • Desconto de 20% sobre as dívidas; 
  • Carência de 2 anos para começar a pagar as dívidas;
  • Prazo de ao menos 10 anos para pagar todas as dívidas.

Isso é o que promete um escritório de advocacia de Goiânia que se define em seu site como “a fortaleza jurídica do produtor rural”.

Os tópicos estão em um informativo do escritório que incentiva produtores rurais a pedir recuperação judicial, dispositivo descrito como “instrumento de barganha” para “blindar todo seu patrimônio de cobranças judiciais e arrestos”.

“Não importa o que as pessoas vão pensar de você se você optar pela
recuperação judicial. Se você tiver bem ou mal, vão falar mal de você da mesma
forma. A questão é que, se não for você para proteger o seu patrimônio, o seu
legado, que você recebeu de herança ou lutou a vida inteira para construir,
ninguém fará isso por você”. -Trecho do informativo “Na Defesa do Brasil que Produz”

Especialistas ouvidos pelo UOL dizem que isso é uma distorção da lei das recuperações judiciais e, em certos casos, pode configurar fraude.

Recuperação judicial é um instrumento jurídico que deveria ser tratado como último recurso antes de uma empresa precisar pedir falência. O dispositivo permite congelar as cobranças de uma empresa por 180 dias (o chamado “stay period”).

O objetivo é que, nesse período, a empresa consiga organizar as contas da casa, pagar a quem deve e dar continuidade às suas atividades. 

Não é, portanto, um dispositivo para blindar o patrimônio ou prolongar o pagamento de dívidas por anos. No entanto, a alta de pedidos de recuperação judicial no agronegócio indica que propostas do tipo têm encontrado terreno fértil.

Segundo os últimos dados da Serasa Experian, divulgados no fim de julho, os pedidos dispararam no primeiro trimestre de 2025: uma alta de 45% em relação ao mesmo período de 2024.

“Muitos produtores enfrentam custos altos, prazos longos para receber, maior
exigência de garantias e dificuldades na rolagem de dívidas, fatores que
pressionam o caixa e reduzem as margens para manobras.” -Marcelo Pimenta, Diretor de agronegócio da Serasa Experian

Imagem: Arte/UOL

‘Indústria de recuperações judiciais’ 

O advogado especialista Marcelo Winter, de São Paulo, observa uma tendência de pedidos irregulares de recuperação no agronegócio. Winter considera a prática “irresponsável e oportunista”, prejudicando todo o setor.

“Muitos dos pedidos atuais não refletem uma real situação de crise econômicofinanceira, mas sim estratégias protelatórias e por vezes pouco fundamentadas.  Essa prática indevida compromete a credibilidade do próprio instrumento da recuperação judicial. Tal cenário tem gerado insegurança e afastado investidores do setor.”

-Marcelo Winter, Advogado

A juíza Daniela Muller, presidente da Amatra 1 (Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 1ª Região) do Rio, diz que a situação relatada “foge totalmente do escopo da lei”.

“O empresário é o responsável pelos riscos do negócio —até porque é ele que fica com o lucro, com os benefícios. O trabalhador precisa do salário para sobrevivência. A lei de recuperações judiciais deveria servir exclusivamente para reestruturação da empresa, para continuar existindo e gerando  empregos dignos.  Não pode servir para dar descontos, ainda mais em questões trabalhistas. Nas distorções, o que se faz é tentar livrar empresários de suas dívidas.”

-Daniela Muller, Juíza

Há relatos de que, nas últimas edições da Agrishow, feira agrícola de Ribeirão Preto, advogados estavam abordando produtores rurais com orientações sobre recuperações judiciais, inclusive sobre como ocultar patrimônios.

Segundo a imprensa especializada no setor, o diretor de agronegócio do Santander, Carlos Aguiar, disse na Agrishow deste ano que o aumento de pedidos de recuperação judicial no setor é preocupante, por envolver produtores atraídos por promessas ilusórias de quem, segundo ele, lucra com a fragilidade alheia. 

Aguiar se referiu, na ocasião, a uma “indústria” da recuperação no campo, “que enriquece advogados enquanto empobrece o produtor”. 

Os advogados autores da cartilha citada no início desta reportagem tomaram para si a responsabilidade de responder. 

Num reels do Instagram, gravado na época na frente de uma agência do Santander e vestindo cinto de fivela, o advogado Leandro Marmo diz: “Tendo que recorrer à medida extrema que é a recuperação judicial, é porque realmente não restou nenhuma alternativa para que pudessem tentar continuar produzindo, gerando emprego, sem ter o risco de perder seu patrimônio”.

Marmo é sócio do escritório João Domingos Advogados Associados, autor do informativo. 

O UOL procurou Marmo e Domingos.

O escritório afirmou que o documento não faz promessas. “Há, sim, um resumo dos potenciais efeitos práticos da recuperação judicial, com base em jurisprudência consolidada e na experiência real do escritório em dezenas de casos concretos”, diz (leia a nota na íntegra). O advogado Antonio Frange também tem, em seu site, uma página dedicada a recuperações que lista, entre os “resultados esperados”, 70% de desconto nas dívidas e prazo de até dez anos para pagamento delas.

O escritório, instalado em São Paulo e em Cuiabá, diz no site oficial que já atuou em mais de mil casos.

O UOL procurou o escritório por email e por telefone, mas não teve resposta.

Caminhão com soja em Lucas do Norte, em Mato Grosso. Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Caso Safras

Um dos casos mais discutidos por advogados especialistas no agronegócio é atualmente o Safras. Prestes a perder uma fábrica em Cuiabá, o conglomerado mato-grossense pediu recuperação apontando dívidas de R$ 2 bilhões, um passivo recorde no estado.

Winter considera que o caso é emblemático: a Justiça viu irregularidades no pedido, como a falta de documentos e a inclusão indevida de produtores rurais que, na verdade, não são produtores rurais. O processo foi suspenso.

“É um precedente importante: isso mostra para o mercado que não é qualquer pedido que deve ser aceito”, diz. 

Num comunicado à imprensa referente aos dados da Serasa Experian, o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal) também destacou que o “excesso” de pedidos pode abalar a confiança do mercado.

“O setor precisa encontrar um modelo de negócios sustentável”, diz a nota.

Um nicho que está se desenvolvendo nos últimos tempos é o das “agfintechs”, diz Henrique Galvani, CEO da Arara Seed, plataforma de Ribeirão Preto especializadaem startups do agro.

“O agro precisa inovar no acesso ao mercado de capitais, como alternativa e complemento ao Plano Safra. É a ponte entre o campo e a Faria Lima”, afirma.


Fonte: UOL 

BB, Bradesco e Itaú lideram ranking dos que financiam desmatadores da Amazônia e do Cerrado

Maior parte do crédito liberado é destinada para as indústrias da soja e da pecuária bovina, setores com amplo histórico de violações socioambientais na Amazônia e no Cerrado brasileiro

Foto-relatorio-FF-1

Por Igor Ojeda/ Edição Paula Bianchi 

Banco do Brasil (BB), Bradesco e Itaú lideram um ranking global das 30 instituições bancárias que mais concederam créditos para 159 empresas de produção de commodities com risco de desmatamento que operam na América do Sul, Sudeste Asiático e África Central e Ocidental entre janeiro de 2018 e junho de 2024.

Disparado na liderança, o BB destinou, nesse período, mais de 95 bilhões de dólares, especialmente para os setores de soja (47 bilhões de dólares) e carne bovina (45 bilhões). Em seguida, vem o Bradesco (um total de mais de 14,5 bilhões de dólares) e o Itaú Unibanco (12 bilhões de dólares no total). 

Os dados estão presentes no relatório “Financiando o colapso da biodiversidade. Rastreamento de bancos e investidores que impulsionam o desmatamento tropical”, divulgado na última quarta-feira (16) pela Coalizão Florestas & Finanças, aliança global de organizações da sociedade civil da qual a Repórter Brasil faz parte e que cobra o fim do financiamento a atividades predatórias em florestas tropicais

O estudo analisou fluxos de créditos e participações em financiamentos a 300 empresas de seis setores de commodities – soja, carne, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira – cuja produção representa altos riscos de desmatamento de florestas tropicais, perda de biodiversidade e violações de direitos humanos. Um levantamento inicial foi publicado em dezembro de 2023.

Mais cinco bancos brasileiros aparecem na lista: Banco do Nordeste (5° lugar), Banco da Amazônia (7º), Sicredi (20º), Banrisul (21º) e Grupo Safra (24º).

“A grande maioria dos créditos – 70% – vai para a América do Sul, com as indústrias da soja e da pecuária bovina recebendo a maior fatia. Esse financiamento alimenta diretamente a destruição da floresta amazônica, um dos ecossistemas mais importantes da Terra”, afirmou à Repórter Brasil Merel van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças.

Para Christian Poirier, diretor de Programas da Amazon Watch, uma das organizações que integram a Coalizão Florestas e Finanças, “os bancos brasileiros estão particularmente expostos a esses riscos ao possibilitarem que algumas das indústrias mais destrutivas que existem operem na Amazônia e em outros locais de grande biodiversidade”. “Essas instituições precisam ser rigorosamente reguladas e responsabilizadas por ameaçarem nosso futuro coletivo”, defende. 

O que dizem os bancos

À Repórter Brasil, o BB afirmou que não financia empresas responsáveis por “dano doloso” ao meio ambiente e que possui “um framework de finanças sustentáveis totalmente alinhado ao Acordo de Paris e aos principais standards de sustentabilidade internacionais”. Diz também que “todas as operações de Custeio e Investimento contratadas pelo Banco passam por rigoroso processo de verificação Socioambiental”. 

O Bradesco respondeu que todas as operações do programa de crédito rural do banco passam por um rigoroso processo de análise que contempla aspectos socioambientais e que cumpre integralmente todas as regras de concessão do programa. “A metodologia utiliza restritivos cadastrais para sinalizar riscos identificados a partir do cruzamento dos dados com listas públicas que dispõe sobre prática de crimes/danos socioambientais, monitoramento das áreas financiadas por satélite e visitas prévias de campo por engenheiros agrônomos para avaliação de financiamentos concedidos em áreas localizadas na região Amazônica, entre outras ferramentas de análise”, afirmou a instituição em nota enviada à reportagem.

O Itaú Unibanco, por sua vez, respondeu que segue “rigorosamente” o Código Florestal e que reafirma o compromisso com o cumprimento das leis e práticas socioambientais. “O banco mantém uma governança bastante criteriosa para a concessão de crédito para seus clientes corporativos, em especial aqueles com classificação prévia de alto risco, que passam por análises mais aprofundadas, com foco no risco socioambiental e climático”, afirma.

O Sicredi afirma que “possui processos e regras para liberação e manutenção de crédito em conformidade com as melhores práticas de gestão do mercado, amparados por uma Política de Sustentabilidade e por uma Política de Gerenciamento de Riscos Sociais, Ambientais e Climáticos”.

Já o Banco da Amazônia informou que adota uma postura rigorosa, não concendendo crédito rural a empreendimentos localizados em imóveis rurais com embargos de órgãos ambientais e que utiliza dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite para monitorar e avaliar o desmatamento. “Esta política visa garantir que nossos financiamentos não contribuam para a degradação ambiental, especialmente em Áreas de Proteção Permanente (APP), matas nativas ou áreas de reserva legal”.

A íntegra das respostas dos cinco bancos pode ser lida aqui. Os demais bancos foram procurados, mas não retornaram aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Soja e carne

Segundo o levantamento da Coalizão Florestas & Finanças, desde a aprovação do Acordo de Paris, em 2015, as maiores instituições bancárias do mundo financiaram em mais de 395 bilhões de dólares os seis setores pesquisados. Mais de um quinto desse total (77 bilhões de dólares) foi desembolsado apenas entre janeiro de 2023 e junho de 2024. 

Em relação à produção de soja no Brasil, o estudo menciona os problemas socioambientais causados por gigantes do setor como Cargill e Bunge, empresas ligadas ao desmatamento e à expulsão de comunidades tradicionais na Amazônia e no Cerrado em razão da expansão de suas operações. 

Um dos conflitos lembrados pelo relatório é a luta do povo indígina Munduruku em defesa de seu território no Pará contra a construção da ferrovia conhecida como Ferrogrão – promovida por ambas as empresas –, o que, segundo o relatório, poderia resultar em desmatamento em grande escala e em violações dos direitos de indígenas e comunidades locais.

Ainda de acordo com o documento, comunidades tradicionais do Pará acionaram judicialmente a Cargill diante de sua intenção de construir um porto em suas terras tradicionais. Além disso, a companhia é objeto de uma queixa apresentada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no ano passado por conta de violações ambientais e de direitos humanos. 

Em resposta encaminhada à Repórter Brasil, a Bunge afirma estar comprometida em desenvolver práticas agrícolas sustentáveis em todas suas cadeias de suprimentos e “apoiar projetos que protejam o meio ambiente, respeitem os direitos humanos e melhorem o bem-estar econômico de agricultores, colaboradores e comunidades locais”. “Usamos recursos disponíveis para garantir que cumpramos nossos compromissos, incluindo tecnologia de satélite de ponta para monitorar áreas prioritárias na América do Sul”, diz. A íntegra do posicionamento pode ser lida aqui.

A reportagem também enviou questionamentos à assessoria de imprensa da Cargill, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. 

Outro exemplo “gritante” destacado pelo estudo é o da JBS, maior processadora de carnes do mundo. Entre 2018 e junho de 2024, a empresa recebeu mais de 1,1 bilhão de dólares em créditos, e em julho de 2024 contava com 719 milhões de dólares em investimentos. “O fracasso da empresa em rastrear suas cadeias de fornecimento de gado contribuiu para a pecuária ilegal em terras indígenas, incluindo a destruição de 477 quilômetros quadrados da Terra Indígena Parakanã, no Pará”, diz o relatório.

A JBS respondeu que desde 2009 avalia, por meio de monitoramento geoespacial, “milhares de potenciais fazendas fornecedoras de bovinos diariamente”. “A Política de Compras de Matéria-Prima da JBS proíbe a compra de propriedades com desmatamento ilegal, áreas de embargo ambiental, unidades de conservação e terras indígenas ou quilombolas, entre outros requisitos, como estar na Lista Suja do Trabalho Escravo”, afirma a nota à reportagem.

Marco Global da Biodiversidade

Para a Coalizão Florestas & Finanças, os números revelam como, sob a inação dos governos, as finanças globais têm impulsionado a degradação de ecossistemas tropicais e, assim, contribuído para a aceleração da crise global de biodiversidade, apesar da existência de acordos internacionais como o Marco Global da Biodiversidade (GBF, na sigla em inglês), aprovado em 2022 durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP15), realizada em Montreal, no Canadá. 

De acordo com o relatório, o “financiamento atual está alimentando a crise que está levando as florestas tropicais na Amazônia, na Bacia do Congo e no Sudeste Asiático ao colapso ecológico”. “As evidências indicam que, desde a adoção do GBF em 2022, a Meta 14 – que exige o alinhamento dos fluxos financeiros com as metas de biodiversidade – tem sido amplamente ignorada”.

A Coalizão Florestas e Finanças defende que é preciso alterar o fluxo de financiamentos de atividades ambientalmente destrutivas para soluções sustentáveis. “Os povos indígenas, guardiões de longa data da biodiversidade, são fundamentais nesses esforços, e devem ser apoiados por proteções legais e financeiras mais fortes.”

‘Greenwashing’

O relatório chama a atenção, ainda, para o que classifica como “uma falsa narrativa de sustentabilidade” das instituições financeiras, cujas práticas apresentam uma lacuna crescente entre compromissos e ações. De acordo com o documento, mais da metade dos 30 principais bancos que financiam setores ligados ao desmatamento integram iniciativas voluntárias voltadas para uma atuação que leve em conta a preservação ambiental. 

No entanto, segundo os pesquisadores, não foi possível encontrar evidências que sugiram que essas iniciativas tenham restringido fluxos financeiros prejudiciais. Assim, “tais estruturas voluntárias permitem que as empresas pareçam sustentáveis enquanto continuam com práticas destrutivas”.

A Bunge é citada pelo estudo como um exemplo desta situação. Líder no comércio de soja no Cerrado brasileiro, ela integra a “Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza” (TNFD, na sigla em inglês). “Apesar de estar ligada a mais de 60 mil hectares de desmatamento e abusos de direitos humanos, a Bunge usa a estrutura da TNFD para relatar de forma seletiva sobre os riscos relacionados à natureza, mascarando seus danos ambientais”, alerta a Coalizão Florestas e Finanças. 

O relatório critica também sistemas de certificação que não garantem exigências básicas, como a de que empresas excluam de sua cadeia produtiva qualquer elo que promova desmatamento ou violações de direitos humanos. “As instituições financeiras que dependem dessas certificações são cúmplices dessa lavagem verde (greenwashing), que perpetua ainda mais os danos ambientais”, afirma o documento.

“As instituições financeiras e seus clientes corporativos têm bastante experiência na fraude do ‘greenwashing’. Ao promoverem falsas soluções, como, por exemplo, créditos de carbono e de biodiversidade, aparentam estar promovendo ações relacionadas a questões climáticas e de biodiversidade, quando, na realidade, apenas encontraram uma nova forma de continuarem lucrando com a destruição”, critica Merel van der Mark.


Fonte: Repórter Brasil

Bancos públicos e privados financiam desmatamento na Amazônia: fazendas com queimadas ilegais receberam R$ 2,6 bilhões

quimadas ilegais

Por Fábio Bispo para “InfoAmazonia”

Pelo menos 1.389 propriedades que obtiveram financiamento registraram fogo dentro de seus limites entre julho e agosto deste ano. Algumas delas se sobrepõem a unidades de conservação e já estavam embargadas por infrações ambientais. Normas federais permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas.

Parte da fumaça que se espalhou pelo Brasil em agosto deste ano teve origem em queimadas dentro de áreas na Amazônia financiadas por crédito rural, modalidade de financiamento bancário dedicada à produção agropecuária. Pelo menos 1.389 propriedades que receberam os recursos registraram fogo dentro dos seus limites de 1º de julho a 26 de agosto, segundo levantamento da InfoAmazonia com base nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e nos registros do Banco Central. A análise considerou áreas com crédito ativo em 2024.

Essas fazendas receberam, ao todo, R$ 2,6 bilhões em crédito rural, incluindo imóveis que sofreram queimadas e possuem áreas sobrepostas a seis unidades de conservação, entre elas o Parque Estadual de Guajará-Mirim, a Floresta Nacional do Jamanxim e a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu. Dessas, 86 propriedades com registros de fogo nos últimos dois meses já tinham áreas embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por infrações ambientais.

Em meio à intensa fumaça produzida pelo fogo, a InfoAmazonia flagrou alguns desses casos durante sobrevoos realizados nos dias 20 e 21 de agosto, no sul do Amazonas e norte de Rondônia, em parceria com a equipe de monitoramento da organização Greenpeace.

Em um trecho de 100 km entre os municípios de Cujubim e Porto Velho, em Rondônia, mais de uma dezena de fazendas embargadas queimavam. Todas têm crédito rural ativo e estão sobre uma área de floresta pública não destinada.

As florestas públicas não destinadas são áreas da União e recebem esse nome justamente por não terem uma destinação oficial definida pelo Estado. Elas ainda não foram transformadas em unidades de conservação, destinadas para reforma agrária ou demarcadas como terras indígenas ou quilombolas, nem foram transferidas para proprietários privados, apesar de estarem sob a responsabilidade e posse do poder público.

. Ali, em 2018, chegou a ser criada Estação Ecológica Soldado da Borracha, mas a proteção foi extinta no mesmo ano por decreto do legislativo estadual

Região que chegou a ser destinada para unidade de conservação, entre Porto Velho e Cujubim, em Rondônia, concentra fazendas embargadas com crédito rural ativo. Fonte: CAR/Ibama/BC/Inpe. Análise e visualização: InfoAmazonia.

“Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal”, afirma Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil, sobre as fazendas na extinta ESEC Soldado da Borracha. 

Diversas propriedades nessas áreas acessaram o crédito rural. Algumas estão embargadas por desmatamento, mas todas elas fizeram uso do fogo de forma ilegal.

Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil

Norma do Banco Central ignora queimadas ilegais

As normas do Banco Central do Brasil e do governo federal para o financiamento do agronegócio na Amazônia permitem que o crédito rural seja destinado a áreas onde ocorrem queimadas ilegais.

Essas linhas de financiamento são subsidiadas por recursos dos correntistas, dos próprios bancos e do orçamento público. As condições para a concessão do crédito são definidas pelo Manual de Crédito Rural (MCR 2-9), do Banco Central do Brasil, que estabelece quais são as normas socioambientais e climáticas que as instituições financeiras devem seguir para concessão do crédito. 

O MCR proíbe o financiamento de áreas em unidades de conservação, em florestas públicas não destinadas e para propriedades embargadas, mas se limita à ocorrência de embargo por desmatamento. Ou seja, há uma brecha: outros crimes ambientais, como o uso ilegal de fogo, não entram na lista de impeditivos para que um fazendeiro tenha acesso ao dinheiro.

“Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural”, afirma a porta-voz do Greenpeace.

Não importa se a propriedade está embargada por desmatamento, por uso do fogo ou outro tipo de irregularidade, ou se ela foi multada. Ela não deveria acessar os recursos do crédito rural. Nós, se não pagamos nossas contas, a nossa fatura do cartão, não conseguimos acessar financiamento. Mas quem comete infrações ambientais, com multas milionárias, continua acessando os recursos do crédito rural.

Thaís Bannwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), há limitações para o embargo de áreas queimadas, pois a legislação exige nexo causal para identificação da autoria — podem haver casos de fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso é diferente no caso de desmatamento e degradação, que geram uma responsabilização direta para o proprietário ou ocupante de uma área.

“A legislação atual exige que seja estabelecido nexo causal no caso dos incêndios, ou seja, que o proprietário de fato pôs fogo e não foi um fogo acidental ou provocado por terceiros. Isso dificulta muito uma ação remota, por imagens de satélite, e que portanto acaba tendo uma atuação mais limitada”, explica o MMA.

Em Lábrea, no sul do Amazonas, a reportagem flagrou o fogo se alastrando pela floresta ao lado de pastagens recém-abertas, já com gado, em áreas próximas a fazendas financiadas com crédito rural. Nessa região, também foram observadas queimadas em propriedades localizadas na divisa do Parque Nacional Mapinguari.

Focos de incêndio próximo de reserva ecológica do Mapinguari, no Amazonas. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

“É importante frisar que todas essas queimadas são provocadas por ação humana, seja no manejo inadequado das pastagens ou colocando fogo diretamente na floresta, que, em uma situação de seca dessas que enfrentamos, rapidamente se espalha. Cerca de 90% do desmatamento e queimadas na Amazônia é para abrir áreas de pastagens”, destaca Bannwart.

Em agosto, foram registrados 38,2 mil focos de fogo na Amazônia, segundo o satélite de referência (Aqua) monitorado pelo Inpe, o maior número para o mês em 14 anos. O estado do Amazonas contabilizou 10.328 focos, a pior quantidade da série histórica, que reúne os dados de queimadas desde 1998. O recorde anterior era de 2022, quando o estado atingiu, pela primeira vez, 8.659 registros.

Já em Rondônia, agosto encerrou com 4.522 focos de fogo, o maior registro em cinco anos. Em 28 de agosto, o governo estadual proibiu o uso de fogo por 90 dias. No Pará, foram registrados 13.803 focos, também o maior número em 14 anos.

Um outro levantamento, divulgado pelo Greenpeace Brasil, mostrou que 2.261 áreas embargadas na Amazônia e Cerrado, entre 2018 e 2023, conseguiram obter crédito rural no país. Em 748 casos (33%), os embargos são por desmatamento e, mesmo com a proibição legal para este tipo de crime, os financiamentos foram liberados.

A organização identificou 1.728 propriedades na Amazônia que foram penalizadas pelo Ibama, mas ainda assim receberam o benefício. Em 122 desses casos (7%), elas foram embargadas pelo uso ilegal do fogo, mas receberam, ao todo, R$ 54,6 milhões de bancos públicos e privados.

Essas mesmas 122 propriedades, que já haviam sido embargadas, geraram uma dívida de R$ 57 milhões em multas ambientais ao Estado. Segundo o Greenpeace, os proprietários dessas áreas embargadas por fogo com crédito rural ativo também são responsáveis por outras infrações que somam R$ 145,5 milhões.

O Banco do Brasil é a instituição que mais investiu dinheiro na produção rural em áreas com embargos por uso ilegal do fogo, segundo o Greenpeace, com 266 operações de crédito entre 353 financiamentos destinados para áreas embargadas por fogo na Amazônia e Cerrado. Em segundo lugar, está o Banco da Amazônia, que destinou recursos para 61 financiamentos. As demais operações foram realizadas por cooperativas e bancos privados.

Em 51 das operações mapeadas, os financiamentos ocorreram antes dos embargos, mas permanecem ativos. No entanto, em 302 casos (85,56%), os financiamentos foram liberados quando as áreas já estavam embargadas.

BB financiou gado em fazenda incendiária no Parque de Guajará-Mirim

Em 20 de abril de 2021, os deputados de Rondônia aprovaram a exclusão de 226 mil hectares do Parque Estadual de Guajará-Mirim e da Reserva Extrativista Jaci-Paraná, com o objetivo de viabilizar a pecuária nessas áreas protegidas. A Lei Complementar 1.089/21 reduziu os limites do parque e da reserva. Na época, o discurso era de que já havia 150 mil cabeças de gado na região. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou que a lei é inconstitucional e a proteção ambiental foi devolvida, mas já era tarde: o desmatamento nessas áreas disparou.

Em 2021 e 2022, propriedades sobrepostas ao parque e à reserva obtiveram crédito rural. Uma delas é uma fazenda no interior do Parque de Guajará-Mirim, que recebeu R$ 976 mil do Banco do Brasil para recria e engorda de gado. 

A área foi praticamente toda desmatada em 2021, mas não foi alvo de fiscalização. Em janeiro de 2022, a fazenda obteve o financiamento, que foi encerrado em janeiro deste ano. Nos últimos dias 11 e 12 de agosto, essa área registrou focos de queimada, segundo os dados do Inpe.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fazenda financiada com crédito rural no Parque Estadual de Guajará-Mirim

Área no interior da unidade de conservação, em branco, começou a ser desmatada em 2021, um ano anos de receber recurso do Banco do Brasil.

A fazenda fica na localidade conhecida como Bico do Parque, que faz divisa com a Terra Indígena Karipuna, justamente onde os indígenas têm denunciado as invasões. 

Pelo menos 854 propriedades num raio de até 10 quilômetros do território foram beneficiadas com o crédito rural, considerando créditos ativos e encerrados. Em 174 imóveis, há sobreposições com embargos do Ibama por infrações ambientais. Em seis áreas com financiamento ativo, incluindo áreas embargadas, houve registro de fogo nos últimos dois meses.

A pressão já reflete em prejuízos “sociais, culturais e econômicos para a comunidade local”, de acordo com o líder indígena Adriano Karipuna. Ele diz que o gado avança pela área homologada do território “à base de desmatamento ilegal e queimadas”.

“Nós temos sofrido muito com as queimadas e as invasões em nosso território. É algo que não viamos com tanta frequência, mas que agora se tornou constante. Nós já temos fazendas ilegais de gado dentro do território”, afirma o indígena. No mês passado, o governo federal cumpriu a recomendação do STF para retirada de invasores da Terra Indígena Karipuna.

Banco do Brasil inclui queimadas em proibições

Em resposta à InfoAmazonia, o Banco do Brasil informou, em nota, que “adota medidas proativas e voluntárias” em suas linhas de financiamento para o crédito rural. O banco afirma que não financia empreendimentos rurais localizados em áreas embargadas por desmatamento ilegal e que utiliza ferramentas automatizadas para verificar restrições legais. 

“Todas as operações de crédito contam com cláusulas que permitem a decretação do vencimento antecipado e a suspensão imediata dos desembolsos em caso de ocorrência de infringências socioambientais; e o Banco faz valer essa cláusula sempre que qualquer irregularidade é constatada”, diz a nota (leia aqui a íntegra do posicionamento do Banco do Brasil).

Apesar de não constar entre as práticas vedadas pelo manual do BC (MCR-29), o Banco do Brasil disse que incluiu recentemente “a verificação de sobreposição do imóvel com áreas embargadas por uso de fogo”.

O banco não comentou sobre os casos identificados pela organização ambiental para áreas com embargos do Ibama financiadas com crédito rural, nem informou se fará uma revisão destes casos ou de outros casos.

InfoAmazonia também perguntou ao Banco Central sobre a concessão de crédito rural para propriedades envolvidas em crimes ambientais e queimadas ilegais na Amazônia, mas a instituição financeira não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Já o Banco da Amazônia afirmou que adota uma “rígida Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática”, e que todas as operações de crédito são analisadas com base nos critérios estabelecidos pelo Banco Central.

“Toda a operação recebe tratamento de análise socioambiental, realizada em ferramenta digital contratada para auxiliar a este fim, com exceção das operações dispensadas pelo próprio Manual de Crédito Rural – MCR”, afirmou, em nota, a instituição.

O MMA informou que o órgão tem atuado junto com o Banco Central para ampliar restrições do crédito rural para áreas que causem a destruição da floresta. A pedido da pasta, no ano passado, a norma do Banco Central “ampliou os embargos para todos os biomas e incluiu as notificações estaduais”, segundo o órgão.

O presidente Lula (PT) e a ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, pediram abertura de investigação para ações criminosas nos incêndios recentes no Brasil. A partir do pedido, a Polícia Federal instaurou 31 inquéritos, sendo 29 para investigar incêndios na Amazônia e no Pantanal, e dois em São Paulo.

Procurada para comentar os casos de queimadas registradas em áreas beneficiadas com crédito rural, a Presidência encaminhou a solicitação da reportagem aos ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e da Agricultura e Pecuária. Mas até o momento não obtivemos retorno.

Como analisamos áreas incendiadas com financiamento ativo

InfoAmazoniaidentificou as áreas beneficiadas com crédito rural, disponibilizadas pelo Banco Central, a partir do Cadastro Ambiental Rural (CAR) indicados nas operações de financiamentos. Para esta análise, a reportagem considerou somente as operações bancárias com vencimentos a partir de 2024, para considerar os financiamentos ativos. Esses dados foram cruzados com os registros de focos de calor detectados pelo satélite NOAA-21 e disponibilizados pelo Inpe (registros entre 1º de julho e 26 de agosto). As mesmas áreas do CAR foram cruzadas com os registros de embargos do Ibama.


Fonte: InfoAmazonia

Florestas & Finanças lança novo relatório sobre o financiamento de projetos que causam o colapso da biodiversidade

A 'Crossroads' for Humanity: Earth's Biodiversity Is Still Collapsing - The  New York Times

 A Coalizão Florestas & Finanças começou a compartilhar o seu novo relatório intitulado Financiando o Colapso da Biodiversidade.  Este relatório  pretende ser um equivalente ao relatório Banking on Climate Chaos, mas agora voltado para os impactos causados por grandes financiamentos bancários sobre a biodiversidade.

O relatório mostra que, desde a assinatura do Acordo de Paris, os bancos forneceram pelo menos 307 bilhões de dólares em crédito às 300 maiores empresas de commodities com risco de desmatamento tropical. Além disso, investidores institucionais detinham 38 bilhões de dólares em títulos e ações nestas empresas, em setembro de 2023, sendo que 66% desse total é proveniente de apenas dois países: os Estados Unidos e a Malásia.

A análise das políticas das instituições financeiras mostra que elas são perigosamente inadequadas. A pontuação média das políticas foi de apenas 17%, com quase metade pontuando abaixo de 10%.

O relatório exige que os governos e as instituições financeiras atuem com urgência para parar e reverter a perda de biodiversidade, respeitar e priorizar os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, promover uma transição justa, garantir a integridade dos ecossistemas e alinhar os objetivos institucionais para todos os sectores.

desmatamento 1

A Florestas & Finanças irá realizar um webinário para apresentar as principais análises do relatório no dia 21 de fevereiro de 2024, às 10:00 horário de Brasília. Clique aqui para fazer sua inscrição.
Você também pode pesquisar a base de dados de fluxos financeiros, e as avaliações de políticas, no site da Florestas & Finanças.

15 maiores tomadores

Quinze maiores tomadores de financiamentos que causam riscos à biodiversidade na América do Sul

A Florestas & Finanças é uma iniciativa de uma coalizão de organizações de campanha e pesquisa, incluindo Rainforest Action Network, TuK Indonesia, Profundo, Amazon Watch, Repórter Brasil, BankTrack, Sahabat Alam Malaysia e Friends of the Earth US. As demandas do relatório também foram endossadas por vários parceiros.

Em manifesto, organizações repudiam financiamento do Banco do Brasil à gigante da carne BRF

ONGs assinam carta de repúdio a linha de crédito bilionária e apontam falta de compromisso da instituição com o combate à crise climática

caged chickens

São Paulo, 19 de dezembro de 2022 — Organizações de proteção animal e de defesa do consumidor assinam manifesto enviado ao Banco do Brasil repudiando a renovação de linha de crédito no valor de R $1,5 bilhão para a BRF, uma das maiores empresas processadoras de carne do mundo. As organizações alegam que o empréstimo vai na contra-mão da sustentabilidade e que a instituição deve passar a redirecionar suas concessões de crédito a modos de produção agrícola sustentáveis.

“É inadmissível que uma instituição como o Banco do Brasil vá na direção oposta de todas as recomendações para uma economia sustentável que ajude o Brasil a mitigar os efeitos da crise climática”, afirma Taís Toledo, gerente de relações corporativas da Sinergia Animal, organização internacional de proteção animal e uma das signatárias da carta. 

Além da Sinergia Animal, também assinam a carta o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a World Animal Protection, a Mercy for Animals, Animal Equality e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor.

O agro e a crise climática

Conforme as organizações relatam em seu manifesto, para que se atinja as metas do Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2021, deve haver uma transição significativa dos atuais modos de produção de alimentos para práticas mais sustentáveis, baseadas mais na produção de vegetais e menos na de carne animal.

“A indústria agropecuária representa justamente o oposto do que devemos almejar para evitar a completa catástrofe climática. Ela é uma das principais responsáveis pela perda de biodiversidade, pelo desmatamento e por cerca de um terço de todas as emissões globais de gás metano”, afirma Toledo. A longo prazo, o gás metano possui um impacto até 25 vezes maior do que o de dióxido de carbono.

Segundo o relatório do IPCC, se não houver reduções imediatas e em larga escala nas emissões de gases de estufa, evitar que o aumento de temperatura em 1,5°C ou 2°C pode ser impossível. “Quando se trata da pecuária, o CO2 é emitido principalmente por mudanças no uso da terra – por exemplo, o desmatamento para abrir áreas para pastagem ou cultivo de grãos, como a soja, para alimentação animal – enquanto o metano é predominantemente resultado da digestão dos animais explorados para consumo humano”, relatam as ONGs em seu manifesto.

A percepção dos brasileiros sobre o clima

“81% dos brasileiros acima de 18 anos consideram a crise climática uma questão importante, segundo o IPEC. Por isso, não podemos aceitar nem nos calar quando instituições como o Banco do Brasil usam o dinheiro do cidadão brasileiro para agredir a segurança das futuras gerações do meio-ambiente nacional”, explica Toledo. Ainda segundo o levantamento do IPEC, de 2021, 77% dos brasileiros atribuem o aquecimento global principalmente à ação humana. 

“Assim, pedimos que o Banco do Brasil faça um reconhecimento público da necessidade de se afastar de financiamentos na produção pecuária intensiva e de redirecionar as concessões de crédito a práticas agrícolas sustentáveis”.

Sobre a Sinergia Animal:

A Sinergia Animal é uma organização internacional que trabalha em países do Sul Global para diminuir o sofrimento dos animais na indústria alimentícia e promover uma alimentação mais compassiva. A ONG é reconhecida como uma das mais eficientes do mundo pela renomada instituição Animal Charity Evaluators (ACE)

Bancos brasileiros são os principais financiadores do desmatamento na Amazônia e no Cerrado

bb

Os setores de carne bovina e soja têm sido dois dos principais motores do desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado nos últimos anos. As instituições financeiras com exposição a esses setores podem estar inadvertidamente contribuindo para as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Conforme as partes interessadas globais reagem a essas ameaças, as instituições financeiras podem ficar cada vez mais expostas aos riscos financeiros. Este relatório, usando dados de Florestas e Finanças , mostra quem está financiando esses dois setores.

Baixe o PDF aqui: Bancos nacionais financiam 74% da carne bovina e soja brasileira

Principais conclusões:

  • Os financiamentos fornecidos aos setores de carne bovina e soja no Brasil totalizaram US $ 100 bilhões de 2013 a abril de 2020 . De acordo com a base de dados do Forests & Finance, foram fornecidos a estes setores US $ 82 bilhões em empréstimos e US $ 13 bilhões em underwritings, bem como US $ 5 bilhões em ações e US $ 1 bilhão em títulos.
  • 74 por cento do financiamento total identificado originou-se de instituições financeiras brasileiras. Eles forneceram US $ 66,2 bilhões em empréstimos e US $ 5,4 bilhões em subscrição. Eles também detêm US $ 3,0 bilhões em ações e US $ 3,0 milhões em obrigações. O Banco do Brasil foi de longe o maior financiamento (US $ 42,4 bilhões).
  • As instituições financeiras estrangeiras contribuíram com US $ 14,5 bilhões para o setor de carne bovina e US $ 11,2 bilhões para a indústria da soja. Santander, Rabobank, HSBC e JPMorgan Chase estão entre os 25 maiores financiadores.
  • Esses quatro bancos têm políticas de desmatamento enquanto financiam empresas de soja e carne que têm sido repetidamente associadas ao desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Sua principal exposição é para os três grandes frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, junto com o trader de soja Cargill.
  • O elemento-chave na cadeia de financiamento é o Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil. Gerenciado pelo Banco Central do Brasil, o sistema canalizou empréstimos para setores agrícolas, principalmente carne bovina e soja, constituindo 91 por cento de todos os empréstimos identificados nesta pesquisa. Devido a exigências legais, cerca de dois terços do financiamento vêm de depósitos em bancos brasileiros, enquanto as taxas de juros de aproximadamente 75% do crédito são subsidiadas.
  • Os investidores europeus têm influência para se engajar no desmatamento. Uma vez que o Sistema de Crédito Rural não oferece um mecanismo eficaz para promover a agricultura sustentável, uma maior atenção da UE e do BCE sobre o risco de desmatamento pode fazer com que os financiadores europeus fiquem mais alertas sobre a reputação e o risco de investimento.

Setores de carne bovina e soja são os dois principais motores do desmatamento no Brasil

Nos últimos anos, a pecuária no bioma Amazônia e o cultivo da soja em direção ao Cerrado têm sido os principais motores do desmatamento no Brasil.Como mostrou o relatório da Chain Reaction Research de agosto de 2020 sobre a cadeia de abastecimento da carne bovina brasileira, a expansão do setor (Figura 1) é impulsionada pelo aumento da demanda nos mercados de exportação em meio a mudanças políticas, legislativas e de fiscalização favoráveis. A pecuária é responsável pelo desmatamento em grande escala, estimado em 80% do desmatamento em todos os países com cobertura florestal amazônica. Outra motivação para a criação de gado é a conversão da terra subjacente, que pode ser usada para diferentes commodities. A pecuária é uma operação de baixo custo que impede que as florestas voltem a crescer.

O forte aumento na área de cultivo de soja (Figura 2) é impulsionado por seu papel como uma importante fonte de proteína de alta qualidade e facilmente digerível para a pecuária, bem como uma fonte de óleo vegetal. O farelo de soja representou cerca de 70 por cento da produção mundial de farelo de sementes oleaginosas para a indústria pecuária em 2019/20.

Dados anuais do INPE mostram que após oito anos de queda, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal voltou a aumentar em 2013, e atingiu 11,1 mil km 2 por ano em 2020, a maior taxa anual desde 2008. No Bioma Cerrado, estimativa de desmatamento para 2019 foi de 6,5 mil km 2 .

Figura 1: Tamanho do rebanho bovino Brasil

Fonte: USDA

Figura 2: Área de cultivo de soja no Brasil

Fonte: USDA

Os setores de carne bovina e soja do Brasil receberam US$ 100 bilhões em financiamento

Em uma base regional, as instituições financeiras sul-americanas fornecem 74% do financiamento total desde 2013 que foi identificado por Forests & Finance. UE27 e América do Norte seguem com 11 por cento e 6 por cento, respectivamente. Embora o tipo de financiamento da UE27 esteja concentrado em empréstimos (81%), os bancos e investidores norte-americanos estão igualmente ativos em todas as formas categorizadas neste relatório. Financiadores do Leste Asiático e outros países europeus forneceram fundos relativamente pequenos, mas ainda consideráveis, enquanto o Leste Asiático estava mais focado no setor de soja e a Europa (ex-UE27) mais focada em carne bovina.

Figura : Financiamento total identificado por região de origem (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, a região “Europe Other” consiste principalmente no Reino Unido, Noruega e Suíça

Empréstimos como o tipo dominante de financiamento

Os empréstimos representaram 81 por cento do financiamento total identificado por Florestas e Finanças. A Forests & Finance identificou US $ 81,6 bilhões em empréstimos, que se destacou como a fonte de financiamento mais importante para os dois setores. Underwritings de US $ 13,2 bilhões foram a segunda maior fonte de financiamento. No entanto, envolveram mais investimentos estrangeiros devido à natureza mais internacional das emissões de ações e obrigações. As participações em ações e títulos eram relativamente pequenas.

Figura 4 : Financiamento total identificado por tipo (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, Empréstimos e subscrição constituem o tipo de fluxo de financiamento, enquanto as participações em ações e títulos são categorizadas como participações. 95% do financiamento é na forma de fluxos, o que representa todos os empréstimos e underwriting identificados entre 2013 e abril de 2020 em uma base cumulativa. O tipo de financiamento de holding reflete os registros mais recentes disponíveis em abril de 2020.

Figura 5 : Mapa de empréstimos e subscrição fornecidos aos setores brasileiros de carne bovina e soja pelos bancos

Fonte: forestandfinance.org, NRCS: National Rural Credit System, em USD

Figura 6 : Mapa de participação e títulos nos setores brasileiros de carne bovina e soja por investidores

Fonte: forestandfinance.org, em USD

Banco do Brasil é o maior financiador da carne bovina e soja brasileira

Os bancos brasileiros forneceram a maior parte do financiamento total para os setores de carne bovina e soja, respondendo por 81% do total. Doze dos 25 maiores financiadores listados na Figura 7 são bancos brasileiros. O Banco do Brasil, controlado pelo governo (59% de propriedade de órgãos federais do Brasil), está no topo da lista por uma margem muito ampla. O Banco do Brasil destinou US $ 42,4 bilhões aos setores de carne bovina e soja entre 2013 e abril de 2020 (42,3% do total), principalmente na forma de empréstimos, mas também por meio de subscrição, títulos e participações acionárias.

No total, os 25 maiores financiadores responderam por 90% do financiamento identificado fornecido aos dois setores, sendo US $ 60,5 bilhões para carne bovina e US $ 29,5 bilhões para soja. As instituições financeiras de fora do Brasil com exposição considerável são o Santander da Espanha com US $ 5,1 bilhões, o Rabobank da Holanda com US $ 3,0 bilhões, o HSBC do Reino Unido com US $ 2,5 bilhões e o JPMorgan Chase dos Estados Unidos com US $ 0,9 bilhão.

Figura 7 : 25 principais financiadores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, visto em outubro de 2020, * John Deere Bank é o braço de financiamento de leasing da empresa de equipamentos agrícolas

Instituições estrangeiras com compromissos ambientais

Todas as instituições financeiras estrangeiras identificadas com exposição significativa têm relações de financiamento com pelo menos uma das empresas na Figura 8, que é uma seleção de empresas com ligações ao desmatamento mencionadas anteriormente por Chain Reaction Research ( JBS , Marfrig , Minerva , Cargill , Bunge ). Mesmo assim, as instituições financeiras mantiveram-se ativas no relacionamento com essas empresas, com base nos dados de financiamento mais recentes.

Figura 8 : Exposição de instituições estrangeiras selecionadas a empresas de risco florestal (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, (L): Empréstimos, (U): Underwriting, (S): Participação, * Sistema Nacional de Crédito Rural, o valor em dólares das exposições mostrado na tabela foi ajustado para apresentar as proporções relativas à carne bovina e soja Atividades. Os valores originais são maiores para toda a empresa.

A lista a seguir mostra as políticas ambientais das instituições financeiras listadas na Figura 8 e nas Avaliações de Políticas do Banco de Florestas e Finanças (consulte o Apêndice 1):

  • Santander: “ Desmatamento líquido zero até 2020” – Soft Commodities Compact
  • Rabobank: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “Política forte do setor de risco florestal ” e obteve uma pontuação de 39 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • HSBC: De acordo com o documento de Política de Commodities Agrícolas do banco nos setores de Soja, Pecuária e Rubberwood, “o HSBC não fornecerá conscientemente serviços financeiros a clientes de alto risco envolvidos diretamente ou com fornecedores envolvidos em desmatamento, ou seja: a conversão de áreas (geralmente florestas) necessárias para proteger HCVs; a conversão de florestas tropicais primárias; ou apuramento por queima. ”
    • A política do banco foi avaliada como “ Boa política do setor de risco florestal com algumas lacunas ” e obteve uma pontuação de 30 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • JP Morgan Chase: “ Desmatamento líquido zero até 2020” (ver fonte ) – Soft Commodities Compact
    • A política do banco foi avaliada como “ Política do setor de risco florestal justa com lacunas ” e obteve 28 de 50 na Avaliação de Políticas do Banco de Florestas e Finanças.
  • Bank of America: De acordo com o documento da Estrutura de Política de Risco Social e Ambiental do banco sob lista proibida, “o Bank of America não se envolverá conscientemente em atividades ilegais, incluindo extração ilegal de madeira ou fogo não controlado – incluindo transações em que um cliente se envolva em extração ilegal de madeira uso do fogo para limpar terras florestais. ”

Esse grupo de financiadores, dominado por instituições financeiras europeias, fornece 14% do financiamento total para empresas brasileiras de soja e carne bovina. Eles podem enfrentar risco de reputação devido às suas políticas de desmatamento e mudanças na regulamentação (europeia) sobre o desmatamento e a devida diligência nas cadeias de abastecimento.

Fornecer financiamento para setores de risco florestal, neste caso carne bovina e soja, especialmente para JBS, Marfrig, Minerva e Cargill e Bunge, (uma seleção de empresas vinculadas ao desmatamento mencionadas pelo CRR) pode expor os bancos a riscos financeiros e de reputação por meio desmatamento. Em particular, os financiadores da Europa podem enfrentar risco de reputação devido ao foco crescente em cadeias de abastecimento sem desmatamento pelas regulamentações europeias .

Empréstimos são a maior fonte de financiamento, tendo o sistema de crédito rural como principal canal

Noventa e um por cento dos empréstimos foram concedidos por meio do Sistema Nacional de Crédito Rural, onde o destinatário final e o prazo de vencimento dos recursos não são divulgadosA lista dos 25 maiores provedores de empréstimo (ver Figura 9) cobre 95 por cento de todos os empréstimos originados entre 2013 e abril de 2020. Enquanto os bancos brasileiros ocupam a maior parte da lista com o Banco do Brasil na liderança, a maioria desses empréstimos locais são facilitada através de um sistema de financiamento chamado sistema Nacional de crédito Rural (sistema Nacional de crédito Rural) As informações do Banco Central do Brasil, que também administra o sistema de crédito, sugerem que o financiamento do programa se baseia principalmente em regras. Por exemplo, inclui exigências de reserva legal para depósitos à vista e de poupança rural em bancos brasileiros. Além disso, as taxas de juros para a maior parte do crédito que o sistema oferece são subsidiadas. Informações mais detalhadas sobre como os dados são incorporados ao banco de dados Florestas e Finanças estão incluídas no Quadro 1 abaixo.

Figura 9 : 25 principais provedores de empréstimos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org 

Sistema Nacional de Crédito Rural do Brasil

A análise do Sistema Nacional de Crédito Rural com base nos dados do Banco Central do Brasil revela que a maior parte do crédito rural concedido tem como destino os setores de carne bovina e soja. Embora o total de empréstimos em aberto concedidos por meio do programa tenha crescido de R $ 272 bilhões (US $ 82 bilhões) em maio de 2017 para R $ 320 bilhões (US $ 59 bilhões) em maio de 2020, o valor em US $ diminuiu devido a uma forte desvalorização da moeda local. O valor total do empréstimo pendente no programa correspondeu, em média, a 9,5% dos empréstimos em todo o sistema bancário brasileiro nos últimos quatro anos. O nível de originação anual de crédito implica cerca de 20 meses de maturidade média dos créditos do sistema.

Figura 10 : Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil (em bilhões de dólares)

Fonte: Banco Central do Brasil

Figura 11 : Sistema Nacional de Crédito Rural por tipo de beneficiário e subsídio

Fonte: Banco Central do Brasil

Em média, 75% dos empréstimos concedidos pelo Sistema Nacional de Crédito Rural entre junho de 2017 e junho de 2020 foram subsidiados com taxas de juros inferiores às do mercado. Embora as pequenas propriedades familiares recebam taxas de juros mais baixas com mais subsídios (ver Figura 11), elas receberam apenas cerca de 13% do total de empréstimos. As taxas de juros anuais subsidiadas foram 30% mais baixas em comparação com as taxas definidas livremente (não subsidiadas) para as propriedades não familiares e 55% mais baixas para as propriedades familiares. 

Figura 12 : Taxas médias anuais de juros do Sistema Nacional de Crédito Rural no Brasil

Fonte: Banco Central do Brasil

O efeito do Sistema Nacional de Crédito Rural no desmatamento

A pesquisa de impacto do Sistema Nacional de Crédito Rural aponta para uma mudança na política de crédito do sistema em 2008. A aprovação do crédito rural subsidiado na Amazônia está condicionada à comprovação do cumprimento da regulamentação ambiental. Principalmente por meio de uma redução nos volumes de crédito (principalmente em municípios onde a pecuária é a principal atividade econômica), o desmatamento no bioma Amazônia entre 2009 e 2011 foi 60% menor do que teria sido sem restrições de crédito.

Em sua nota de política para 2020 , o Banco Mundial afirmou que um pequeno número de grandes fazendas recebe a maior parte do financiamento rural, enquanto 85% de todos os fazendeiros no Brasil não têm acesso ao crédito. Além disso, a maior parte do crédito rural é para financiamento do tipo capital de giro de curto prazo, com financiamento de investimento de prazo mais longo limitado. Assim, a probabilidade de o crédito rural afetar positivamente os investimentos em agricultura sustentável é considerada baixa.

Figura 13 : Empréstimos por região (em milhões de dólares)

Figura 14 : Empréstimos * (milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org. * A diferença nos fluxos de empréstimos entre os diferentes números do relatório decorre dos ajustes do setor em dados de Florestas e Finanças (ver anexo 1), bem como da exclusão de alguns dos financiadores do Sistema Nacional de Crédito Rural (ver caixa 1)

Subscrição

A subscrição cumulativa de emissões de ações e títulos entre 2013 e abril de 2020 totaliza US $ 13,2 bilhões. Desse total, 77% são destinados às emissões de títulos dos três grandes frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva. Uma vez que quase todas essas emissões de títulos foram denominadas em dólares americanos, as instituições financeiras internacionais tiveram uma participação elevada, subscrevendo 60 por cento do tamanho total dos negócios, significativamente maior em comparação com sua contribuição em empréstimos.

Figura 15 : 25 maiores subscritores (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Desenvolvimento histórico

O total de subscrição identificado caiu para US $ 334 milhões em 2015, principalmente por causa da seca. Isso foi seguido por um ano de expansão, com negócios atingindo US $ 3,2 bilhões.

Figura 16 : Subscrição Regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Participação

Os dados de participação são mais diversificados devido ao envolvimento de fundos de ações globais, especificamente na forma de ETFs. Quando a participação de 21,3 por cento do BNDES (Banco de Desenvolvimento do Brasil) (no valor de US $ 2,1 bilhões, ajustado para a participação das operações de carne bovina da JBS) na JBS é excluída como uma exceção, os investidores norte-americanos têm o maior percentual de 49 por cento contra 33 por cento para América do Sul. O BNDES desinvestiu da Marfrig no final do 1T2020, vendendo sua participação de 30% na empresa (no valor de cerca de US $ 500 milhões). O BNDES afirmou que pretende desinvestir também da JBS, mas a venda ainda não se concretizou.

Figura 17: Participação regional (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org, ajustado pela participação do BNDES na JBS

Figura 18 : 25 principais acionistas (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Bondholding

Bondholding é a menor área de financiamento identificado recebido pelos setores de carne bovina e soja no Brasil, com apenas US $ 663 milhões, totalizando apenas 0,7 por cento do financiamento total identificado. Os investidores locais da região da América do Sul praticamente não têm participações nos títulos, enquanto a América do Norte (58%) e a UE27 (29%) têm a maior exposição.

Figura 19 : Obrigações regionais (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Figura 20 : 25 principais detentores de títulos (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

Financiadores europeus em posição de se envolver com soja e carne bovina

Ao financiar 12% do financiamento total da carne bovina e soja no Brasil, os investidores e bancos europeus têm o potencial de contribuir para a redução do desmatamento nas cadeias de abastecimento da carne bovina e da soja. Quando o JPMorgan Chase e o Bank of America estão incluídos, 14% do financiamento é feito por meio de instituições financeiras com políticas de desmatamento.

Grande parte do financiamento dos setores brasileiros de soja e carne bovina flui por meio de crédito rural de bancos brasileiros, que atualmente têm impacto mínimo na agricultura sustentável. No entanto, os financiadores europeus enfrentam risco de reputação devido ao desenvolvimento de regulamentos da UE sobre o desmatamento nas cadeias de abastecimento. Além disso, o Banco Central Europeu (BCE) dá um peso cada vez maior aos riscos de mudança climática, desmatamento e biodiversidade. Todos os financiadores enfrentam riscos de investimento, pois as empresas que financiam podem ser confrontadas com um acúmulo de risco de acesso ao mercado, risco de regulamentação e risco de financiamento. As participações no capital também podem perder valor devido ao risco de reputação.

Como os bancos e investidores europeus também são financiados por seus próprios investidores, essas instituições financeiras também estão em posição de evitar a repetição das perdas causadas pelo financiamento da indústria de combustíveis fósseis, que também está ligada às mudanças climáticas.

Apêndice 1: Florestas e finanças

Objetivo, escopo, metodologia e parceiros da Forests & Finance, resumidos no site:

Forestsandfinance.org visa destacar o papel que as finanças desempenham na viabilização do desmatamento tropical. É o resultado de extensas pesquisas e investigações por uma coalizão de organizações de campanha e pesquisa, incluindo Rainforest Action Network, TuK INDONESIA, Profundo, Amazon Watch, Repórter Brasil e BankTrack. O banco de dados Forests & Finance avalia os serviços financeiros recebidos por mais de 300 empresas e mais de 16.000 empresas de risco florestal de pequena escala que receberam financiamento que estão diretamente envolvidas na carne bovina, óleo de palma, celulose e papel, borracha, soja e madeira tropical (“ setor de risco florestal ”) cadeias de suprimento e cujas operações impactam as florestas tropicais naturais no Sudeste Asiático, Brasil, bem como na África Central e Ocidental. Nem todas as empresas selecionadas para o banco de dados estão envolvidas em operações prejudiciais. Contudo, todos estão envolvidos em operações de grande escala em regiões de florestas tropicais que apresentam alto risco de causar desmatamento e impactos sociais associados. As instituições financeiras que fazem negócios com essas empresas estão, portanto, altamente expostas aos riscos de desmatamento.

Os bancos de dados financeiros Refinitiv (anteriormente conhecido como Thomson EIKON), Bloomberg IJGlobal, TradeFinanceAnalytics, arquivos de registro de empresas, bem como relatórios de empresas disponíveis publicamente, foram usados ​​para identificar empréstimos corporativos, crédito e facilidades de subscrição fornecidas às empresas selecionadas no período 2013-2020 (Abril). Os investimentos em títulos e ações das empresas selecionadas foram identificados por meio da Refinitiv e da Bloomberg na data de depósito mais recente disponível em abril de 2020. Essas bases de dados financeiras fornecem acesso a dados de mercado em tempo real, notícias, dados fundamentais, análises, ferramentas de negociação e mensagens. O portal Transparência do BNDES e o portal do Banco Central do Brasil foram usados ​​para identificar fluxos financeiros adicionais para empresas de risco florestal no Brasil. Esta pesquisa fornece um conjunto de dados de nível de negócio de relacionamentos específicos entre empresas selecionadas e qualquer instituição financeira vinculada. Das mais de 300 empresas pesquisadas, apenas 230 empresas tinham financiamentos identificáveis ​​onde o financiador, o valor do financiamento e a data de início eram conhecidos dentro do período de estudo.

As empresas com atividades comerciais fora do setor de risco florestal registraram valores reduzidos para apresentar com mais precisão a proporção do financiamento que pode ser razoavelmente atribuída às operações do setor de risco florestal da empresa selecionada. Quando as informações financeiras disponíveis não especificavam a finalidade do investimento ou da divisão de recebimento dentro do grupo da empresa-mãe, os fatores de redução foram calculados individualmente pela comparação das atividades do setor de risco florestal de uma empresa em relação às atividades totais do grupo-mãe. Ajustadores adicionais foram calculados para empresas que operam em várias geografias dentro do escopo desta pesquisa.

Os bancos comerciais identificados neste estudo foram avaliados para determinar a força de quaisquer políticas publicamente disponíveis relevantes para a tomada de decisão de investimento no setor de risco de floresta tropical e, subsequentemente, pontuados de acordo com uma série de critérios que incorporam padrões ambientais, sociais e de governança. Cada um dos principais bancos recebeu uma pontuação sobre o escopo de suas políticas e seus padrões ambientais e sociais. A Metodologia de Avaliação de Políticas do Forests & Finance Bank é baseada no Fair Finance Guide (FFG) com foco no setor de risco florestal.

Os dados e avaliações apresentados neste site não foram fornecidos ou autorizados por nenhuma das instituições financeiras ou clientes em causa. Embora todas as tentativas tenham sido feitas para pesquisar e apresentar dados e avaliações de forma precisa e objetiva, é difícil garantir a precisão total. Isso se deve principalmente à falta de consistência e transparência na maneira como as instituições financeiras e clientes do setor de risco florestal registram as principais informações financeiras e empresariais. Onde houve ambigüidade nas informações de origem dos serviços financeiros, os autores deste site agiram com cautela, resultando em uma provável subestimação dos verdadeiros montantes de financiamento envolvidos. Os autores estão empenhados em corrigir quaisquer erros identificados na primeira oportunidade.

Visite o site para mais informações e para usar o banco de dados.

Apêndice 2: Principais destinatários de financiamento identificados por Florestas e Finanças

Figura 21 : 25 maiores destinatários de financiamento (em milhões de dólares)

Fonte: forestandfinance.org

fecho
Esta reportagem foi inicialmente escrita em inglês e publicada pela Chain Reaction Research [Aqui! ] .

De mãos beijadas: BB entrega carteira de R$ 3 bi para BTG Pactual, criado por Paulo Guedes

guedes-bb

Por Daniel Valença*

Em “estranha” movimentação ocorrida no dia primeiro de julho deste ano, o Banco do Brasil cedeu uma carteira com 3 bilhões em créditos “perdidos”, isto é, em que os empréstimos concedidos são considerados difíceis de serem quitados.

Um exemplo nos ajuda a entender a questão: vamos supor que o BB tenha emprestado R$ 30 mil para um de seus clientes. Receando não receber o pagamento, o Banco do Brasil vende os direitos de crédito contra os tomadores de empréstimo por R$ 3 mil. Daí o banco comprador da carteira, por meio de investigação, consegue reaver R$ 10 mil, resultando num lucro de R$ 7 mil. 

Na prática, por R$ 371 milhões, o banco BTG Pactual se tornou credor de quase 10 vezes o preço que pagou, podendo, em cima desse crédito, ter lucros gigantescos. 

A estranha venda de créditos podres do Banco do Brasil ao BTG Pactual - GGN

Mesmo tendo sido uma operação de valor e tamanho inéditos no mercado financeiro brasileiro, não se tem notícia de nenhum processo licitatório pela carteira. Suspeito, para dizer o mínimo.

Mais estranho ainda é que, coincidentemente ou não, a dinheirama foi arrebatada pelo banco fundado por ninguém menos que Paulo Guedes, que – vejam só – foi quem indicou o presidente do Banco do Brasil. 

Mandatário este que, assim como o ministro da “granada no bolso dos servidores” que o nomeou, defende a privatização do banco público que preside.

Ou seja, além de ir sorrateiramente privatizando riquezas públicas, este governo ainda beneficia os amigos do Chicago Boy. Para os bancos privados, tudo, para amplas massas da população, “trabalhem”, senão vira “vida boa”.

Precisamos, portanto, construir a política oposta: se, neste governo, o Estado está totalmente voltado para aumentar os lucros do rentismo e espoliar as classes trabalhadoras, precisamos construir um projeto político da classe trabalhadora, que oriente o Estado para as amplas massas e exproprie o rentismo e as classes possuidoras.

Movimento sindical, movimento feminista, movimento negro, sem terra e sem teto, os partidos de trabalhadores, as mais diversas das frações das classes trabalhadoras – aqueles e aquelas que vivem do seu trabalho – devem construir uma ampla frente de esquerda que tenha uma premissa: para salvar vidas, fora Bolsonaro e fora Mourão; que a classe trabalhadora possa exercer seu direito ao isolamento e que os quase 200 mil milionários brasileiros paguem a conta da luta contra a pandemia.

Ouça podcast sobre o assunto  abaixo

.

*Daniel Valença é professor da graduação e mestrado em Direito da UFERSA, Vice-Presidente do PT/RN, e associado do IPDMS (GT – Direito e Marxismo)

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Bomba “X” ameaça o Banco do Brasil

O Banco do Brasil está cercado de possibilidades de más notícias, incluindo a possível votação pelo STF de questões relacionadas a diversos planos de estabilização econômica, mas uma delas foi plantada pela “generosidade” do governo Dilma com o ex-bilionário Eike Batista.  É que recentemente o Banco Votorantim foi obrigado a reconhecer uma dívida de R$ 570 milhões da OS(X) junto ao BNDES.

O problema que ninguém quis ressaltar na época da “generosidade” com a OS(X) é que o Banco do Brasil possui 50% do Votorantim e, por causa disso, vai ter uma perda de R$ 224 milhões no quarto trimestre de 2013.  Com isso todas as expectativas de lucros do Banco do Brasil deverão ficar comprometidas,  já que está mais do que claro que a OS(X) não terá como honrar mais essa dívida, dados os robustos prejuízos que a empresa continua tendo.

Em suma, no final para livrar a cara de Eike Batista, quem arca com o problema são os acionistas do Banco do Brasil e a população pagadora de impostos.