Omissão e engano: as marcas da Vale no TsuLama da Samarco

As duas matérias abaixo foram publicadas pela Folha de São Paulo e mostram duas facetas explícitas da Vale no caso do TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton): engano e omissão.

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Na primeira matéria, fica demonstrado que a Vale inicialmente omitiu o montante de sua lama que estava depositada na barragem do Fundão. É que, como mostra a matéria, o valor de rejeitos da própria Vale não eram os módicos 5% como a empresa declarou inicialmente, mas significativos 28%. Não que isto mude em nada a situação já que metade do capital da Mineradora Samarco é da Vale, mas é importante notar como essa omissão de responsabilidade protegia a marca “Vale” ao colocar na “joint venture” o peso maior pelo lançamento de rejeitos. É que, ao contrário da Vale, a Samarco pode ser facilmente substituída por outra marca de fantasia.

O segundo aspecto que eu considero revelador sobre a postura da Vale em relação ao assunto foi o fato de que a Mineradora Samarco teria levado duas horas para comunicar às autoridades mineiras a ruptura da barragem do Fundão e os terríveis impactos humanos e ambientais que já estavam ocorrendo ao longo da passagem do TsuLama.  É que querendo ou não, a Vale é co-proprietária da Mineradora Samarco e possui uma infraestrutura de comunicação que teria permitido uma reação mais rápida, a qual poderia ter minimizado as consequências do TsuLama.

Mas em ambos os casos, o que se viu foi a opção pelo engano e pela omissão de informações que, agora se sabe, são fundamentais para entender o fenômeno e a aplicar as devidas punições que o caso requer.

Incidente em Mariana: quanto mais se apura, mais irresponsabilidade aparece

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Apesar da maioria da mídia corporativa estar enterrando rapidamente o incidente envolvendo a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) para debaixo da lama que escorre pelo Rio Doce afora, as informações que continuam aparecendo principalmente nos jornais publicados em Minas Gerais confirmam que a barragem do Fundão era uma hecatombe esperando para explodir.

Um primeiro artigo assinado pelo jornalista Mateus Parreiras mostra que nos  15 meses que antecederam a explosão da barragem do Fundão, a a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) havia aumentado havia aumentado em 80% a deposição de rejeitos no local (Aqui!).  Segundo o que apurou Mateus Parreiras,  “entre 2013 e 2014, o ritmo de despejos foi de 250 mil metros cúbicos de rejeitos a cada 30 dias, passando de 27 milhões acumulados para 30 milhões. Neste ano (2015, grifo meu), o acúmulo cresceu 83%, chegando a 55 milhões, o que dimensiona média de 1,7 milhão de metros cúbicos por mês entrando na Barragem do Fundão.

Um segundo artigo assinado pela jornalista Sandra Kiefer, mostra que pari-passu  ao aumento da deposição de rejeitos, uma série de remendos foram feitos de forma aparentemente desqualificada na barragem do Fundo, sem sequer informar os órgãos ambientais (Aqui!). No artigo é apresentada a informação apurada pelo  promotor de Justiça Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam) do Ministério Público de Minas Gerais que teria apurado “que a mineradora Samarco fez uma série de reparos na Barragem de Fundão, comparados a remendos, que não eram informados aos órgãos de defesa ambiental e que às vezes sequer tinham projetos, mas que tornaram comprometidas as condições de segurança da estrutura”.

Combinadas essas duas matérias explicitam um quadro de completa irresponsabilidade por parte da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) que privilegiou o lucro em nome da segurança, e de descontrole por parte dos órgãos ambientais. A simples informação de que os projetos de segurança eram preparados pela Samarco e chancelados pelos órgãos ambientais reforça ainda mais essa combinação de (ir) responsabilidades que resultaram no TsuLama que atingiu a calha do Rio Doce e o mar do Espírito Santo.

E pensar que depois disso tudo ainda tenhamos assistido o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), enviar e aprovar um decreto que retira de fato os frágeis controles que existiam no processo de licenciamento ambiental de barragens e outros empreendimentos com potencial poluidor!

Diante desse cenário, é essencial que, ao contrário de casos anteriores, não deixemos o TsuLama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) ser esquecido e empurrado para debaixo do tapete. Afinal, uma sociedade que não aprende com seus erros, tenderá a repeti-los. Será que é isso que queremos?