Tsunami de rejeitos tóxicos em Bento Rodrigues

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Para quem ainda não entendeu a extensão da tragédia social e ambiental causada pelo explosão das barragens de rejeitos em Mariana, esse vídeo pode deixar as coisas mais claras.  Para mim, pelo menos deixou!

Depois de ver essas imagens será que alguém vai conseguir concordar com o Sr. Altamir Rôso, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, que teve a cara de pau de declarar que a Mineradora Samarco como uma das vítimas no rompimento das duas lagoas de rejeitos tóxicos que varrem a localidade de Bento Rodrigues do mapa? (Aqui!)

Vídeo feito por morador mostra momento em que tsunami de rejeitos invade propriedade rural em Bento Rodrigues

Reproducao-TV-Globo

Recebi via o aplicativo Whatsapp um vídeo feito por um morador da localidade de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG), que mostra o momento em que o tsunami de rejeitos vindos das duas barragens  da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

Tenho apenas uma palavra para descrever o que mostra o vídeo: impressionante!

 

O Tempo: Moradores pediram sirenes à Samarco, mas empresa negou

O assunto teria sido abordado em várias reuniões com a empresa, mas em todas, representantes da Samarco negaram o aparelho.

 

Por DANILO EMERICH, ESPECIAL PARA O TEMPO

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Moradores do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central do Estado, principal comunidade atingida pela ruptura da barragem de rejeitos Fundão, afirmam que solicitaram diversas vezes sirenes para alertar possíveis desastres. No entanto, a Samarco, dona da estrutura, teria negado o equipamento no local, alegando não ser necessário.

A informação foi repassada por diversos moradores da região à reportagem do O Tempo. O assunto teria sido abordado em várias reuniões com a empresa, mas em todas, representantes da Samarco negaram o aparelho.

Nesta sexta-feira (7), O engenheiro civil da Samarco Germano Silva Lopes, que participou da entrevista coletiva em Mariana sobre o acidente, informou que a atitude da empresa após a ruptura foi acionar as autoridades e o plano de ação emergencial.

‘Nunca poderia imaginar uma tragédia tão grande’, lamenta prefeitoPresidente da Samarco diz que garantirá integridade das pessoasPresidente da Samarco diz que barragem era monitorada rotineiramenteSamarco ainda não confirma número total de vítimas em tragédiaLama e minério de barragens inundam centro de Barra LongaAções da Vale, controladora da Samarco, caem em bolsas pelo mundo

“Não houve sinal de sirene para a população, houve contato telefônico e contato com as autoridades”, disse o engenheiro civil da Samarco.

O engenheiro afirmou que um tremor foi sentido na unidade às 14h dessa quinta-feira (5). “De imediato, fomos até ao local para fazer inspeções e constatamos que, naquele momento, a barragem não apresentava nenhuma anomalia. Nós não sabemos como se deu o processo de ruptura e foi um momento muito rápido”, afirmou.

O Tempo procurou a assessoria de imprensa da Samarco para se posicionar o motivo para a não instalação das sirenes ou se o equipamento vai ser instalado em outras barragens da empresa, no entanto, a nota oficial enviada não responde aos questionamentos.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cidades/moradores-pediram-sirenes-%C3%A0-samarco-mas-empresa-negou-1.1160171

Tragédia de Mariana: MP critica política de concessão de licenciamento do Estado

Para promotor, não adianta o Estado conceder licença se não fiscalizar

Em coletiva de imprensa na tarde desta sexta-feira (6) o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto criticou a política de concessão de licenciamento do Estado, que seria “muito flexível”

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“Não basta ter licenciamento ambiental, isto não é salvo conduto. Da mesma forma não basta ao Estado conceder o licenciamento se não fiscalizar. O Estado tem que se aparelhar e não apenas ficar recebendo relatórios, aprová-los, sem ir ao local”. A frase é do promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, que é coordenador do Núcleo de Combate a Crimes Ambientais do Ministério Público (MP) e concedeu entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (6) sobre o rompimento de duas barragens da Samarco, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, na região Central do Estado. 

Para ele, a política de concessão de licenciamento do Estado é muito flexível, sendo necessário um monitoramento periódico. “Na medida em que o Estado sinaliza que pode perdoar, anistiar a dívida de R$ 140 milhões em multas, de um total de R$ 700 milhões, está sinalizando que pode-se descumprir as normas ambientais. Mas não se pode dizer que o Estado é conivente com o acontecido”, afirmou Pinto. 

Foi instaurado nesta sexta-feira o inquérito civil público para apurar causas e consequências do pior acidente com danos ambientais de Minas Gerais. O prazo para a entrega de laudo apontando causas do desabamento da barragem Fundão e Santarém é de 30 dias. Ainda de acordo com o promotor, a primeira hipótese com a qual o MP trabalha para o rompimento da barragem é o descumprimento de alguma norma técnica. “O número de mortos é menor do que a proporção do ocorrido”, disse. 

Um laudo técnico encaminhado pelo MP à Superintendência Regional de Regularização Ambiental (Supram), em 2013, na época da revalidação do licenciamento do empreendimento da Samarco, já apontava que a barragem do Fundão apresentava riscos e exigia um plano de contingenciamento. 

O laudo

O documento emitido pelo órgão há dois anos questionava a viabilidade da recomposição de Mata Atlântica no local e solicitava ao Instituto Prístimo um parecer técnico. A partir deste parecer o MP detectou que havia uma série de condicionantes a serem observadas para a concessão da renovação. Alguns destes condicionantes eram: um plano de contingenciamento em caso de acidentes que deveria ser feito; a necessidade de um monitoramento geotécnico; a Samarco deveria fazer auditorias periódicas na estrutura; e a empresa deveria cumprir os itens obrigatórios ao licenciamento. 

Estas e outras observações não citadas na coletiva foram encaminhadas em forma de relatório, pelo MP, à Supram, em 2013. Como o empreendimento era licenciado, o MP não instaurou inquérito à época do relatório.

“Independente das causas da tragédia, a Samarco deverá ser responsável pelas indenizações inclusive por danos patrimoniais. Deve-se fazer a pergunta: por que empreendimentos desta natureza, considerados de risco, tão próximos de áreas populacionais?”, questionou o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto.

 FONTE: http://www.otempo.com.br/cidades/para-promotor-n%C3%A3o-adianta-o-estado-conceder-licen%C3%A7a-se-n%C3%A3o-fiscalizar-1.1160567

Rompimento de barragens da Samarco “não é um acidente”, diz membro do MAM

Foto: Frente em Defesa de Ouro Preto e Região

Marcio Zonta diz que vistoria nas barragens não é feita pelo órgão público, mas exclusivamente pelas empresas, que a fazem “conforme sua lucratividade não seja abalada”

Por José Coutinho Junior*, Da Redação

“Não é um acidente”! É assim que o militante do Movimento dos Atingidos pela Mineração (MAM), Marcio Zonta, classifica o rompimento de duas barragens na cidade mineira de Mariana, na noite desta quinta-feira (5).

Zonta critica o fato de que nenhum órgão público faz de fato uma vistoria nas barragens e que, pelo ritmo da extração mineral, isso acaba ficando por conta das próprias empresas.

“Não há uma auditoria externa que possa dizer, ‘é necessário isso e aquilo e o gasto será de tanto’. A empresa faz conforme a lucratividade dela não seja abalada. Há um descontrole total da mineração no Brasil e todas as políticas de ritmos de extração,  armazenamento de rejeitos e escoamento dos minérios são especialmente monitorados e feitos pela própria empresa”, critica.

Leia a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Como o MAM avalia esse incidente que ocorreu na barragem de Bento Rodriguez?

Marcio Zonta: A gente tem avaliado que, primeiro, não é uma catástrofe e, segundo, que não é um acidente. É um acontecimento de total responsabilidade das empresas. A mineração é uma coisa que se expande sobre a natureza e as comunidades, só que não há um planejamento da empresa para que você tenha a possibilidade para prever este tipo de acidente.

Por exemplo, a empresa faz este tipo de barragem mas não há uma fiscalização constante pelo próprio descumprimento com a legislação local, com as comunidades e com as questões ambientais. E ai você tem um acontecimento dessa proporção, que se você tivesse um mínimo de planejamento não poderia acontecer em uma região que é mineradora há mais de 300 anos, como é Minas Gerais. A Vale está lá há quase 70 anos. Há experiência o suficiente para conter este tipo de acontecimento, então a opinião do MAM é que as empresas podem coibir este tipo de acontecimento e, ao não fazer isso, ela é a principal responsável pelos mortos e desaparecidos.

A Samarco disse que licenças ambientais da barragem estavam em dia com os órgãos competentes e que ela faz o monitoramento constante…

MZ: Este é o problema, a empresa faz a própria vistoria. Não há uma auditoria externa que possa dizer “é necessário isso e aquilo e o gasto será de tanto”. A empresa faz conforme a lucratividade dela não seja abalada. Então ela faz o próprio planejamento a partir do que pretende gastar. 50% (das ações) da Samarco é da Vale. A Vale mais uma vez é a grande responsável por este acontecimento. Isso é uma coisa que acontece no Brasil. Quem faz a licença ambiental dessas mineradoras? Elas contratam as empresas que fazem, ou seja, elas mesmas fazem para apresentar os laudos para a Secretaria de Meio Ambiente, Ibama, Instituto Chico Mendes, mas é um laudo próprio. A Vale para instalar qualquer projeto contrata as empresas que formularão os laudos, não há um contraponto.

A barragem estava em obra para aumento de capacidade. Alguns jornais disseram que a barragem já tem mais de 20 anos. Essa obra resolveria o problema?

MZ: Quando a gente vai discutir o ritmo de extração mineral, não estamos falando só quanto de minério você irá retirar do solo, mas o quanto cada região aguenta as especificidades da mineração, extração, a barreira de rejeitos e escoamento é feito em uma plataforma só. Quando há irresponsabilidade ou um planejamento péssimo você tem esse tipo de acontecimento. Nós estamos falando de uma barreira de vinte anos e uma empresa como a Vale não tem um técnico que avalie os riscos? Uma empresa com o “know how” que ela tem no ramo da mineração não consegue prever que a barragem poderia romper? Então ela sabe que há esses riscos, o problema é que ela não tem compromisso nenhum com as questões ambientais e com as comunidades. Como a lógica é de exaurir a todo vapor, nós teremos vários outros casos assim, a quantidade de rejeitos que vai se formando no dia a dia é muito maior que há 20 anos. Se essa explodiu com 20, outras com menos tempo, quatro ou cinco anos, também correm o mesmo risco porque o ritmo da mineração é outro.

O corpo de bombeiros chegou a dizer que nenhuma barreira de rejeitos é segura no Brasil…

MZ: Veja bem, o corpo de bombeiros ele chega na hora do acontecimento, o prejuízo já foi. E o antes? E o planejamento anterior à exploração? Ele não existe! A empresa é unilateral nas decisões, pouco o governo inibe. Uma notificação do Ibama ou outra coisinha, mas fica totalmente a cargo da empresa o que ela faz ou não. Você tem o Ministério Público que pode incidir, fazer uma denúncia, mas é mínimo. Há um descontrole total da mineração no Brasil e todas as políticas de ritmos de extração, armazenamento de rejeitos e escoamento dos minérios são especialmente monitorados e feitos pela própria empresa. Como a empresa esta com a cabeça no lucro, ela fará de tudo que barateie os custos.

E como deveria ser esse planejamento de mineração que respeitasse as comunidades o meio ambiente?

MZ: O novo Código de Mineração, que está sendo debatido pouco, toca nessas questões. O que teríamos que ter hoje, minimamente: elaboração de um projeto de mineração, quem senta para discutir o projeto de mineração, a comunidade local, a mineradora, o governo federal, estadual e municipal e determina conjuntamente como deve ser este plano de mineração para cada região, levando em consideração as especificidades de cada lugar.

Então, se você tivesse estes vários atores sociais que são impactados pela mineração decidindo o projeto. Acontece que é pura balela a consulta pública feita pelas empresas. Eles reúnem a comunidade, apresentam e ficam duas ou três horas dos engenheiros falando e abrem para duas perguntas. Ou seja, já estava definido. Como a legislação pede que você tenha audiência pública, eles fazem isso.

E o Brasil é signatário da convenção da OIT que cobra a consulta sobre os povos, principalmente indígenas, quilombolas e tradicionais, se você pode implantar determinado projeto ou não naquela região. E o país não segue isso. Tudo é aprovado em Brasília. A Vale quando quer aprovar algo faz direto de lá, isso é antidemocrático e antipovo.

Quem morreu em Bento Rodrigues não foi o dono da Vale, foi o trabalhador que é sempre explorado. Os atingidos foram as comunidades. Nossa opinião é, nós temos que descentralizar o poder das empresas nas decisões sobre os bens naturais, eles são finitos. Tem que acabar com essa falácia de que bens finitos são sustentáveis. Sustentável é renovável.

Os trabalhadores e alguns especialistas dizem que a lama que atingiu as casas pode estar contaminada. A Samarco disse que não, que é somente areia…

MZ: É impossível ser só areia, a mineração é um processo químico e os rejeitos são tóxicos. Não tem como dizer que é só areia, não existe isso. Há um processo minerador e usa diversas químicas e de várias outras contaminações que surgem pela mecanização. Se fosse só areia não morreria mata ao redor da barreira. Isso vira um colapso não só para as vítimas, mas também ambiental, contamina o solo, contamina as águas e rios e é uma situação que não se resolve fácil. Não sou especialista nisso, mas você vai levar muito tempo para estabilizar ambiental, social e culturalmente. Mariana é uma cidade pequena e o impacto é ainda maior.

*Colaborou: Victor Tineo e Bruno Pavan

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/33383

RFI: Descontaminação de lama tóxica em Minas pode custar mais de US$ 1 bilhão

Imagem aérea do distrito de Bento Rodrigues destruído pela onda de lama.

Imagem aérea do distrito de Bento Rodrigues destruído pela onda de lama. REUTERS/Ricardo Moraes
Por Rádio França Internacional

O Corpo de Bombeiros resgatou 500 pessoas que estavam ilhadas em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, em Minas Gerais, após o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco. O acidente, ocorrido ontem à tarde, deixou um morto, segundo balanço provisório. Pelo menos 14 pessoas estão desaparecidas. Analistas de mercado em Londres afirmam que o custo de descontaminação das áreas atingidas pela lama tóxica pode ultrapassar US$ 1 bilhão.

 Seis helicópteros do Corpo de Bombeiros trabalham na área do acidente em busca de vítimas,informa a Rádio Itatiaia, parceira da RFI em Minas. Um outro helicóptero está sendo usado para o transporte de autoridades e de técnicos de engenharia e meio ambiente que vistoriam a região.

As pessoas resgatadas passam por descontaminação para evitar potenciais danos causados pela lama tóxica. A técnica para eliminação do excesso de ferro consiste em lavar o corpo com água e sabão, de acordo com o Corpo de Bombeiros. As pessoas que apresentam ferimentos são transferidas para hospitais da região. Segundo informações oficiais dos bombeiros, a única vítima é um homem que, ao ver a avalanche de lama, teve um mal súbito.

Empresa não sabe o que causou o rompimento

Em nota oficial, a mineradora Samarco informou que ainda não é possível confirmar o que provocou o rompimento das barragens. A empresa colocou em prática, juntamente com as autoridades que trabalham no resgate das vítimas, um Plano de Ação Emergencial de Barragens.

“Até o momento, não é possível confirmar número de vítimas e desaparecidos. Todas as pessoas resgatadas com ferimentos estão sendo encaminhadas para pronto atendimento no hospital do município de Mariana e demais municípios próximos e, os desabrigados, para um ginásio de Mariana onde equipes prestam auxílio a todos. Neste momento, não há confirmação das causas e a completa extensão do ocorrido. Investigações e estudos apontarão as reais causas do ocorrido”, diz um trecho do comunicado.

França envia condolências ao Brasil

A França apresentou suas condolências ao governo brasileiro nesta sexta-feira (6) devido à tragédia. O porta-voz do ministério das Relações Exteriores francês, Romain Nadal, declarou que “nestes momentos dolorosos, a França apresenta suas condolências às famílias das vítimas e está ao lado das autoridades e do povo brasileiros”.

O acidente na região das cidades históricas de Minas teve forte repercussão na imprensa internacional. No Reino Unido, as ações da empresa australiana BHP Billiton, sócia da Vale na mineradora Samarco, caíram mais de 5% na Bolsa de Valores de Londres. Ao meio-dia, no horário local, as ações da BHP Billiton recuavam 5,37%. 

Descontaminação pode custar mais de US$ 1 bilhão

O analista de mercado Simon Davies, da empresa Canaccord Genuity, declarou à AFP que pelo fato de a Samarco ser administrada por duas gigantes mundiais do setor de minério, o rompimento das barragens de dejetos tem impacto sobre a reputação das mineradoras. “Embora não haja impacto econômico imediato, se for comprovada negligência, podem haver outras consequências”, estima Davies. 

Analistas do Deustche Bank avaliam que a mineradora Samarco poderá ficar fechada por vários anos e que o custo de limpeza e descontaminação do local pode ultrapassar US$ 1 bilhão.

FONTE: http://www.brasil.rfi.fr/brasil/20151106-franca-envia-condolencias-ao-brasil-por-tragedia-em-minas-gerais

Tragédia em Mariana: BBC e as 5 perguntas ainda sem respostas sobre as causas da explosão das barragens

Desastre em Mariana: 5 perguntas sem resposta sobre rompimento de barragem

AFP
Image copyrightAFP.  Rompimento de barragem liberou ‘mar de lama’ que soterrou diversas casas

O rompimento de duas barragens de uma mineradora liberou uma enxurrada de lama que causou grande destruição em um distrito de Mariana, em Minas Gerais, e deixou pelo menos um morto.

As barragens de Fundão e Santarém, da mineradora Samarco, entre os municípios de Mariana e Ouro Preto, se romperam na quinta-feira à tarde, e liberaram uma onda de lama que teria chegado a 2,5 m de altura.

Moradores relataram um cenário de devastação no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, o mais atingido, a cerca de 2 km do rompimento. Há relatos de desaparecidos e pessoas ilhadas, mas o número real de vítimas ainda é desconhecido.

Veja abaixo algumas perguntas ainda sem resposta sobre o desastre.

O que causou o rompimento?

A Samarco disse ter registrado dois pequenos tremores na área duas horas antes do rompimento, por volta das 16h20 de quinta-feira, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mariana.

Não se sabe o que teria causado estes tremores – se seriam abalos sísmicos ou a força do próprio rompimento.

A empresa inicialmente informou que apenas uma barragem havia se rompido, a de Fundão, mas informou à noite que uma segunda barragem, a de Santarém, também sofreu ruptura.

Em comunicado divulgado em sua página no Facebook nesta sexta-feira, a empresa disse que “não há confirmação das causas e a completa extensão do ocorrido” e que “investigações e estudos apontarão as reais causas”.

Segundo a Samarco, a última fiscalização das barragens pela Superintendência Regional de Regularização Ambiental (Supram) foi em julho deste ano e indicou que elas estavam em “totais condições de segurança”.

A lama pode ser tóxica?

Reuters
Reuters. Lama eliminada por barragens devastou região de Bento Rodrigues

Sabe-se que as barragens continham água e rejeitos de minério de ferro. A maioria deste material é considerada de baixo potencial poluidor, segundo artigo da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto.

A empresa disse nesta sexta que o rejeito é inerte. “Ele é composto, em sua maior parte, por sílica (areia) proveniente do beneficiamento do minério de ferro e não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde”.

Especialistas seriam enviados à área nesta sexta-feira para avaliar o material que vazou.

Há risco de novos rompimentos?

 

Reuters
Reuters/ Estradas foram interrompidas e acesso a áreas é realizado apenas por helicópteros

O Corpo de Bombeiros estaria monitorando uma terceira barragem para verificar o risco de rompimento.

Não é a primeira vez que barragens se rompem em Minas Gerais. Em 2014, um acidente em Itabirito, a cerca de 60 km de Belo Horizonte, deixou três trabalhadores mortos.

Quantas pessoas podem ter sido afetadas?

afpAFP/ Distrito de Bento Rodrigues, a cerca de 2km do acidente, foi o mais afetado

O distrito de Bento Rodrigues tem cerca de 600 moradores.

Outros vilarejos foram atingidos pela lama e a estimativa é de que até 2 mil pessoas possam ter sido afetadas. Mas estes moradores foram alertados e tiveram tempo de buscarem abrigo.

A Prefeitura de Mariana confirmou um morto, mas este número pode subir.

Por que informações de vítimas são conflitantes?

AFP
AFP/ Sobreviventes foram socorridos na quinta-feira à noite, mas teme-se que haja mais feridos e soterrados

Alguns veículos de comunicação falaram em números mais altos de mortos – citando fontes não oficiais.

A incerteza se deve em parte ao acesso restrito ao distrito de Bento Rodrigues, realizado apenas por helicóptero. Imagens aéreas de TV mostraram casas completamente destruídas e soterradas por lama.

Moradores relataram haver vários desaparecidos e pessoas ilhadas.

As operações aéreas de resgate seriam retomadas nesta manhã.

FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151106_minasgerais_perguntas_hb

Mariana e São João da Barra: em meio a minas, minerodutos e portos, agoniza o Neodesenvolvimentismo neoextrativista

porto do açu

A tragédia social e ambiental causada pela explosão de duas lagoas de rejeitos tóxicos em Mariana (MG) possui paralelos que merecem ser analisados com o que temos vivido no Norte Fluminense, mais precisamente no V Distrito de São João da Barra. 

É que se à primeira vista não há qualquer ligação meritória de ser notada, eu aponto que o caso é justamente o contrário, tantas são as coisas que ligam esses dois casos. Então vejamos os pontos de ligação:

  1. Em Mariana temos uma mina que é explorada por uma “joint venture” formada pela Vale e pela mineradora australiana BHP Billiton, a Mineradora Samarco, que transporta o minério extraído por meio de um mineroduto que termina em Anchieta (ES), e é ali exportado via o Porto de Ubú. 
  2. Em São João da Barra, temos um porto controlado por uma corporação estudanidense (a EIG Global Partners que aqui se apresenta como Prumo Logística Global) que irá exportar minério extraído por uma corporação sul africana, a Anglo American, que transporta o minério extraído em Conceição do Mato Dentro (MG) por um mineroduto operado pela Ferroport, uma joint venture formada pela Prumo Logística Global e por ela própria (i.e., Anglo American).

Então o que temos unindo Mariana, Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais com Anchieta no Espírito Santo e São João da Barra no Rio de Janeiro? Além de minas de minério de ferro, minerodutos e portos, eu acrescentaria graves riscos sociais e ambientais, com episódios ocasionais que misturam tragédia humana, graves prejuízos ao ambiente natural e omissão dos responsáveis, sejam eles privados ou estatais.

Além disso, o que está acontecendo  nessas minas, minerodutos e portos expõe de forma emblemática os intestinos do modelo Neoextrativista disfarçado de Neodesenvolvimentismo que embalou boa parte dos investimentos de infraestrutura que foram e estão sendo realizados por todo o território nacional desde o início do governo Lula para transformar o Brasil na maior potência mundial de commodities.

Assim, o que foi enterrado ontem em Mariana não foram apenas casas, seres humanos e seus sonhos de vida, mas um modelo de inserção do Brasil na economia globalizada. É justamente esse modelo Neoextrativista que começou a sangrar quando a China iniciou a esfriar sua demanda por commodities minerais e agrícolas que estrebucha diante de nós. O problema é que como não existe uma alternativa pensada a um modelo que se esgotou muito mais rápido do que seus mentores pensavam que iria, teremos provavelmente que continuar imersos na lama que tudo isto efetivamente representa para o Brasil.

Um pequeno consolo que eu tenho é que, dado o tamanho da tragédia que ocorreu em Mariana, é provável que determinados processos que dormitavam em gavetas empoeiradas agora ganhem “tracking” e velocidade, de forma que possamos finalmente ver alguns desdobramentos concretos para a reparação dos graves prejuízos que já foram causados pelo Neoextrativismo contra os segmentos mais pobres e politicamente marginalizados da população brasileira, seja em Mariana, Conceição do Mato Dentro, Anchieta ou São João da Barra. 

Tragédia em Mariana: mais uma vez a imprensa internacional tem cobertura mais completa e objetiva

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A explosão de duas áreas de contenção de rejeitos tóxicos da Mineradora Samarco ocupou ontem parte do noticiário da imprensa corporativa brasileira, mas foi na mídia internacional que apareceram detalhes mais completos sobre o caso, e sobre as corporações privadas envolvidas.

Um exemplo da diferença das coberturas dadas ao caso se refere aos termos usados para definir o que aconteceu. Enquanto por aqui se usou o termo “rompimento”, a agência usou ‘burst” o que pode ser traduzido com “explosão” (Aqui!). A diferença não é apenas semântica, já que romper ou explodir uma bacia de rejeitos pode ter causas bastante diferentes, bem como penalizações perante a lei.  

Outra informação crucial que passou em branco na imprensa brasileira foi sobre quem são os proprietários da Mineradora Samarco. Essa informação no plano internacional foi oferecida tanto pela Reuters como pelo jornal “The Guardian” (Aqui!) que informaram aos seus leitores que a empresa é uma “joint venture” que reúne a brasileira Vale e a australiana BHP Billiton, e que a mina de Germano é um empreendimento cuja propriedade é de 50% para cada uma das delas. Confesso que já deveria ter me perguntando antes sobre quem eram os verdadeiros donos da Samarco, mas agora esta charada está resolvida.   O “The Guardian” também reporta que o minério de ferro escavado na área do desastre é transportado para o Espirito Santo na forma de borra onde é beneficiado de forma primária antes de ser exportado (por meio de mineroduto e transporte pelo Porto de Ubú em Anchieta, acrescento eu).

Já a Reuters inclui a informação de que as corporações da mineração se encontram em dificuldades por causa da queda nos preços do minério de ferro e outras commodities por causa do esfriamento das demandas vindas da China que é a maior consumidora de matérias primas industriais do planeta.  A Reuters informa ainda que a Mineradora Samarco produz anualmente 30 milhões de toneladas de ferro, o que representa aproximadamente 10% da produção brasileira.

Agora, voltando ao evento em si e à cobertura nacional, uma criança sobrevivente narrou á Folha de São Paulo que todos os moradores da localidade de Bento Rodrigues esperavam que um dia houvesse a explosão das bacias de rejeito da Mineradora Samarco (Aqui!). Assim, como é que as autoridades mineiras e suas agências ambientais permitiram que esta situação chegasse ao ponto das bacias de rejeito explodirem? Essa pergunta é que deveria ser feita em face das intermináveis concessões de novas áreas de mineração que estão sendo expedidas em Minas Gerais e outras partes do território brasileiro.

Finalmente, essa explosão de rejeitos e suas consequências sociais e ambientais ocorre em meio a uma tentativa de impor um novo código de mineração que seja ainda mais permissivo para as grandes mineradoras. Esse será mais um golpe contra os interesses da população brasileira que, como vemos no caso de Bento Rodrigues, acaba sendo pagando os maiores preços para que corporações nacionais e internacionais saqueiem o Brasil.

samarco