Dos guardanapos em Paris ao bife de ouro em Nova York: a persistência da elite fluminense desconectada dos pobres

Guardanapos na cabeça em Paris, bifes cobertos de ouro em Nova York: mudam os personagens e os cenários, mas permanece a mesma cultura política de ostentação e intimidade entre poder econômico e poder estatal

 

O contraste entre a chamada “farra dos guardanapos”, eternizada nas imagens de Sérgio Cabral e sua corte política em um restaurante de luxo em Paris, e as recentes revelações sobre os jantares milionários de Daniel Vorcaro com Cláudio Castro não é apenas uma coincidência histórica. Trata-se, na verdade, da manifestação contínua de uma mesma cultura política que parece atravessar diferentes governos e personagens do Rio de Janeiro: a naturalização do luxo obsceno em meio à deterioração das condições de vida da maioria da população fluminense.

Quando as fotografias da “farra dos guardanapos” vieram a público, elas causaram indignação porque simbolizavam algo maior do que uma simples festa. O episódio expunha um grupo de autoridades, empresários e operadores políticos celebrando em Paris enquanto o Rio de Janeiro já acumulava problemas estruturais em áreas fundamentais como saúde, educação, segurança pública e saneamento. Aquelas imagens acabaram se tornando um símbolo da distância que separava os ocupantes do poder da população que sofria os efeitos de uma gestão pública marcada por desperdícios, corrupção e prioridades invertidas.

Mais de uma década depois, o roteiro parece se repetir. Agora, o cenário não é um restaurante parisiense, mas encontros realizados em Nova York, marcados por degustações de uísque avaliadas em milhões de reais, vinhos que custam milhares de reais a garrafa e refeições que incluem os famosos bifes cobertos por folhas de ouro. Segundo as investigações em curso, esses encontros ocorreram em um contexto marcado por negociações envolvendo aportes do Rioprevidência no Banco Master, instituição ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro. As mensagens obtidas pelos investigadores indicam uma relação de proximidade que ultrapassava em muito os limites esperados entre um governador e um empresário beneficiado por decisões do poder público.

Há ainda um aspecto simbólico que torna a comparação entre os dois episódios ainda mais contundente. Assim como a famosa “farra dos guardanapos” ocorreu em Paris, as revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro apontam para encontros cercados por luxo extravagante em Nova York. Não se trata de um detalhe irrelevante. Em ambos os casos, membros das elites políticas e econômicas fluminenses demonstram uma particular predileção por celebrar seus privilégios em cenários internacionais de altíssimo padrão, longe da realidade cotidiana da população que vive no Brasil. Enquanto servidores públicos enfrentam perdas salariais acumuladas, aposentados e pensionistas convivem com a insegurança quanto ao futuro do Rioprevidência e milhões de fluminenses lidam diariamente com problemas de transporte, saúde, educação e segurança pública, seus governantes e aliados empresariais brindam em mesas sofisticadas de Paris ou Nova York. O recado transmitido por essas imagens é devastador: para uma parcela da elite dirigente, o Rio de Janeiro parece ser apenas o território de onde se extraem recursos e poder, enquanto os prazeres da vida são desfrutados em destinos exclusivos do exterior.

O aspecto mais perturbador não é apenas o valor extravagante dessas experiências de luxo. É a circunstância em que elas ocorrem. O Rio de Janeiro vive há anos uma situação de crise permanente. O estado acumula déficits fiscais, convive com hospitais sucateados, escolas sem infraestrutura adequada, servidores públicos submetidos a perdas salariais históricas e uma previdência social constantemente apresentada como ameaçada por desequilíbrios financeiros. Ao mesmo tempo, diversas regiões fluminenses enfrentam graves problemas ambientais, desde a contaminação industrial até a degradação de ecossistemas costeiros e urbanos.

Nesse contexto, a imagem de governantes degustando uísques milionários ou participando de banquetes extravagantes assume um significado político devastador. Não se trata apenas de ostentação. Trata-se da demonstração pública de que existe uma elite dirigente que parece acreditar estar completamente protegida das consequências de suas próprias decisões.

A “farra dos guardanapos” acabou se tornando um dos símbolos da derrocada política e judicial de Sérgio Cabral. O que as investigações posteriores mostraram foi que aquela celebração não representava um desvio isolado de comportamento, mas fazia parte de um ambiente onde a promiscuidade entre interesses públicos e privados havia se tornado regra. O episódio passou a ser visto como uma metáfora visual de um sistema de corrupção que drenava recursos públicos enquanto exibia riqueza e poder sem qualquer constrangimento.

As revelações envolvendo Cláudio Castro e Daniel Vorcaro produzem sensação semelhante porque reativam a memória coletiva de um estado que já experimentou os custos sociais dessa mistura entre luxo privado e gestão pública. A repetição dos símbolos  (jantares exclusivos, bebidas raríssimas, encontros reservados entre governantes e grandes empresários) sugere que, apesar das sucessivas operações policiais, prisões e escândalos, a cultura da impunidade continua profundamente enraizada.

Talvez o elemento mais grave seja justamente o contraste moral que emerge dessas situações. Enquanto aposentados e pensionistas convivem com incertezas sobre a sustentabilidade do Rioprevidência, enquanto servidores acumulam perdas inflacionárias e comunidades inteiras enfrentam carências básicas, parte das elites políticas e econômicas fluminenses parece viver em um universo paralelo, marcado por um consumo ostensivo que funciona quase como uma celebração da desigualdade.

O guardanapo amarrado na cabeça em Paris e o bife coberto de ouro servido em Nova York pertencem a épocas diferentes, mas expressam a mesma lógica política. Ambos se transformaram em símbolos de uma elite que parece incapaz de compreender os limites éticos entre a gestão da coisa pública e a busca incessante por privilégios privados. Mais do que demonstrações de riqueza, são retratos de um poder que se sente suficientemente protegido para ostentar luxo extremo enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades crescentes.

A repetição desse padrão sugere não apenas uma cultura de impunidade, mas também um profundo desprezo pelas condições concretas de vida da maioria dos cidadãos que sustentam, com seus impostos e trabalho, as estruturas do Estado. Em vez de aprender com os escândalos do passado, parte das elites fluminenses parece apenas trocar Paris por Nova York, os guardanapos pelos bifes de ouro e os personagens principais, preservando intacta a convicção de que os excessos continuarão sem consequências.

O caso torna-se ainda mais grave quando se observa que os episódios não envolvem apenas extravagâncias privadas. Eles aparecem associados a decisões que podem ter provocado impactos concretos sobre os cofres públicos e sobre o futuro de instituições fundamentais para milhares de famílias fluminenses. Quando governantes responsáveis pela gestão de recursos públicos aparecem desfrutando de luxos incompatíveis com a realidade da população que representam, em companhia de empresários potencialmente beneficiados por decisões estatais, o problema deixa de ser apenas moral e passa a ser político. Afinal, a mensagem transmitida é a de que há uma elite que governa para si mesma, protegida por relações de influência e convencida de que jamais precisará prestar contas de seus atos.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro segue convivendo com hospitais precários, escolas carentes de investimentos, servidores desvalorizados, aposentados inseguros e uma crise ambiental que avança sobre diferentes regiões do estado. O contraste entre essas dificuldades e os banquetes de Paris ou Nova York é tão chocante quanto revelador. Ele expõe um modelo de poder profundamente dissociado das necessidades coletivas e ajuda a explicar por que tantos cidadãos enxergam as instituições públicas com crescente desconfiança. Afinal, para quem observa de fora, parece difícil acreditar que aqueles que brindam com uísques milionários e bifes cobertos de ouro estejam verdadeiramente preocupados com os problemas enfrentados pela população comum.

Dos bifes de ouro do Catar aos milhões de famélicos brasileiros: um retrato explícito da desigualdade

ronaldo bife

Desde que o ex-jogador e atual empresário do futebol Ronaldo Nazário resolveu dar um mimo especial em restaurante para enricados a um grupo de jogadores da seleção brasileira de futebol que disputa a COPA FIFA 2023 no Emirado do Catar, temos lido uma série de posições favoráveis e contrários ao “churrasco folheado a ouro” que foi servido no banquete nababesco (ver vídeo abaixo). 

Um fato inegável é que, ao contrário de muitos outros banquetes nababescos, não houve ali uso de dinheiro público, o que nos leva ao inegável fato de que cada um gasta o seu dinheiro como quer.  Por outro lado, pode se dizer que em um país em que mais de 30 milhões de pessoas passam fome, os jogadores da seleção brasileira que participaram do evento mostraram completa falta de sensibilidade com uma parcela nada desprezível dos seus compatriotas.

Mas existe um problema mais básico que parece não ter chamado a atenção até agora. Um estudo realizado pela Confederação Brasiliera de Futebol em 2015 mostrou que em torno de 82% dos jogadores profissionais brasileiros ganhavam até R$ 1.000,00 e outros 14% ganham até 5.000,00, totalizando impressionantes 96%.  Já no grupo considerado como dos mais bem pagos (entre R$ 100 mil e acima de R$ 500 mil) o total era de 0,4%.  Outro estudo de 2021, mostrou uma melhora insignificante nesses números ao mostrar que a quantidade de profissionais da tabela ganhando até R$ 5.000,00 chega a 88%.

O problema é que raramente a mídia corporativa apresenta os números da realidade salarial dos jogadores de futebol, o que contribui não apenas para a glamourização de uma profissão de fôlego curto, mas também para o comportamento alienado e descompromissado daquele grupo que está posicionado dentro do extrato de 0,4%. 

Essa postura alienado em relação aos seus próprios pares aparece também em relação ao restante da população brasileira que hoje vive em uma condição de penúria extremada até para os padrões costumeiros da desigualdade social que existe historicamente em nosso país. Com isso, se normalizou posturas pró-governantes reacionários e anti-povo, como é o caso do apoio de vários atletas conhecidos ao presidente cessante Jair Bolsonaro.  Aliás, do atual selecionado só se sabe que dois jogadores possuem algum tipo de postura relacionada à preocupações sociais o que, convenhamos, não é de surpreender ninguém.

Em resumo, se as pessoas quiserem continuar torcendo pela seleção da CBF que o façam, mas que não se espera qualquer preocupação com a realidade brasileira. É que afora o fato de que a minoria que ali está não representa a condição da maioria da classe profissional a que pertencem, eles também sequer possuem residência fixa no Brasil. É que como também já faz a elite brasileira desde os tempos coloniais, o Brasil e seu tempo são, quando muito, fonte de extração de riqueza e não motivo de preocupação para com os que não participam de banquetes dourados para mesas propositalmente pequenas e seletas.