Dos bifes de ouro do Catar aos milhões de famélicos brasileiros: um retrato explícito da desigualdade

ronaldo bife

Desde que o ex-jogador e atual empresário do futebol Ronaldo Nazário resolveu dar um mimo especial em restaurante para enricados a um grupo de jogadores da seleção brasileira de futebol que disputa a COPA FIFA 2023 no Emirado do Catar, temos lido uma série de posições favoráveis e contrários ao “churrasco folheado a ouro” que foi servido no banquete nababesco (ver vídeo abaixo). 

Um fato inegável é que, ao contrário de muitos outros banquetes nababescos, não houve ali uso de dinheiro público, o que nos leva ao inegável fato de que cada um gasta o seu dinheiro como quer.  Por outro lado, pode se dizer que em um país em que mais de 30 milhões de pessoas passam fome, os jogadores da seleção brasileira que participaram do evento mostraram completa falta de sensibilidade com uma parcela nada desprezível dos seus compatriotas.

Mas existe um problema mais básico que parece não ter chamado a atenção até agora. Um estudo realizado pela Confederação Brasiliera de Futebol em 2015 mostrou que em torno de 82% dos jogadores profissionais brasileiros ganhavam até R$ 1.000,00 e outros 14% ganham até 5.000,00, totalizando impressionantes 96%.  Já no grupo considerado como dos mais bem pagos (entre R$ 100 mil e acima de R$ 500 mil) o total era de 0,4%.  Outro estudo de 2021, mostrou uma melhora insignificante nesses números ao mostrar que a quantidade de profissionais da tabela ganhando até R$ 5.000,00 chega a 88%.

O problema é que raramente a mídia corporativa apresenta os números da realidade salarial dos jogadores de futebol, o que contribui não apenas para a glamourização de uma profissão de fôlego curto, mas também para o comportamento alienado e descompromissado daquele grupo que está posicionado dentro do extrato de 0,4%. 

Essa postura alienado em relação aos seus próprios pares aparece também em relação ao restante da população brasileira que hoje vive em uma condição de penúria extremada até para os padrões costumeiros da desigualdade social que existe historicamente em nosso país. Com isso, se normalizou posturas pró-governantes reacionários e anti-povo, como é o caso do apoio de vários atletas conhecidos ao presidente cessante Jair Bolsonaro.  Aliás, do atual selecionado só se sabe que dois jogadores possuem algum tipo de postura relacionada à preocupações sociais o que, convenhamos, não é de surpreender ninguém.

Em resumo, se as pessoas quiserem continuar torcendo pela seleção da CBF que o façam, mas que não se espera qualquer preocupação com a realidade brasileira. É que afora o fato de que a minoria que ali está não representa a condição da maioria da classe profissional a que pertencem, eles também sequer possuem residência fixa no Brasil. É que como também já faz a elite brasileira desde os tempos coloniais, o Brasil e seu tempo são, quando muito, fonte de extração de riqueza e não motivo de preocupação para com os que não participam de banquetes dourados para mesas propositalmente pequenas e seletas.

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