Biodiversidade em perigo: agrotóxicos causam diminuição na quantidade de aves

En route pour les alternatives aux pesticides - Natura Sciences

Por Ulrike Bickel para “Amerika21”

Paris. Um novo estudo da França mostra o declínio das populações de aves com o uso frequente de agrotóxicos. O resultado é particularmente relevante para a América Latina, já que a região consome mais agroquímicos do mundo. Somente entre 2000 e 2020, a participação da região no consumo global de pesticidas aumentou de 44 para 51%, segundo a Organização das Nações Unidas para as Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isso foi apontado pelo estudo “Eles nos envenenam” do Center for Reproductive Rights.

Na América Latina, a conexão entre o uso de agrotóxicos e a extinção de espécies também é conhecida há anos, não apenas desde o relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sobre polinizadores, serviços ecossistêmicos e produção de alimentos em 2016. O uso de agrotóxicos sintéticos tem sido associado ao declínio das populações de insetos, aves e outros animais benéficos na América Latina há décadas.

O novo estudo francês, publicado em 14 de janeiro na revista Proceedings of the Royal Society B, compara dados sobre vendas de agrotóxicos com observações de espécies comuns de aves na França. Para 84% das espécies estudadas, quanto mais pesticidas eram vendidos, menor a população. O estudo demonstra o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, como destacado pelo jornal Le Monde e por agências europeias.

Diversos estudos já mostraram que agrotóxicos podem ter efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies, incluindo abelhas, minhocas e aves, bem como na saúde humana. Já em 2021, um estudo documentou que a população de aves de campo e urbanas na França havia diminuído 30% nas últimas três décadas.

O estudo traz novas percepções sobre as causas: a análise conecta dois bancos de dados sobre a venda de agrotóxicos na França e a observação de aves comuns. Segundo a primeira autora Anne-Christine Monnet, pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação do Museu Nacional de História Natural da França, a correlação é negativa para 84,4% das espécies estudadas: quanto mais agrotóxicos são vendidos, menor a abundância da espécie e de sua população. O efeito é muito forte, e muitas espécies são afetadas.

O estudo examina pela primeira vez os efeitos de 242 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos em toda a França. Foca em todos os tipos de aves comumente encontradas em áreas agrícolas, incluindo rouxinolos, pintassilgos e falcões. Além disso, os pesquisadores separaram o efeito direto dos agrotóxicos de outros fatores relacionados à intensificação da agricultura, como tamanho das parcelas, diversidade paisagística, sebes, tipo de cultura e uso de arado.

Os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França e da Universidade de Poitiers utilizaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Pesticidas por Distribuidores Autorizados por CEP.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a poluição local, os pesquisadores compararam os dados com outro banco de dados de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais. Eles encontraram muitas correlações positivas: quanto mais substâncias tóxicas eram aplicadas, mais resíduos eram encontrados na água.

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa científico que captura variações na biodiversidade na França. Das 64 espécies de aves que utilizam regularmente os habitats agrícolas estudados, 54 foram estatisticamente significativas ou quase significativamente menos comuns nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos. A contaminação dos campos afeta todas as espécies de aves.

De acordo com a Fundação para Pesquisa em Biodiversidade, que não participou do estudo, os resultados são muito significativos. A maioria das espécies estudadas reagiu negativamente ao aumento do uso de pesticidas. Os agrotóxicos afetam as aves tanto diretamente quando comem sementes tratadas ou insetos ou plantas contaminadas, quanto indiretamente ao reduzir as fontes de alimento disponíveis, como insetos.

O estudo, portanto, comprova descobertas da América Latina, onde os efeitos negativos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente são há muito tempo documentados em regiões agrícolas intensivas (relatou o Amerika21).


Fonte: Amerika21

Mais agrotóxico, menos pássaros: estudo francês comprova efeito de venenos agrícolas na biodiversidade

Um estudo francês publicado nesta quarta-feira (14) cruza dados sobre vendas de pesticidas e monitoramento de aves comuns e revela que, nas regiões onde os produtos fitossanitários são mais usados, a abundância de aves cai significativamente. Para 84% das espécies analisadas, quanto mais pesticida vendido, menor sua população. A pesquisa evidencia o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, destacou o jornal Le Monde e as principais agências europeias

Desde a década de 1990, cerca de um terço das populações de aves que vivem em áreas agrícolas teria desaparecido. (imagem ilustrativa) FRANCOIS NASCIMBENI / AFP

Por RFI 

Abelhas, minhocas, pássaros… Diversos estudos já demonstraram que os agrotóxicos podem causar efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies. Ainda assim, entender e medir com precisão o impacto desses produtos sobre a biodiversidade continua complexo. A pesquisa publicada nesta quarta-feira na revista Proceedings of the Royal Society B traz novos elementos: na França, a população de aves é menor nas áreas onde os pesticidas são mais comprados.

A análise que cruza duas bases de dados — sobre a comercialização de agrotóxicos na França e o acompanhamento de aves comuns — mostra o papel dos produtos fitossanitários no colapso da biodiversidade. 

“Para 84,4% das espécies analisadas, a correlação é negativa: quanto mais pesticidas vendidos, menor a abundância de espécies e população”, resume Anne‑Christine Monnet, primeira autora e pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação (Museu Nacional de História Natural da França/CNRS/Sorbonne).

“O efeito é muito forte. Muitas espécies são afetadas.” Na França, a população de aves comuns do campo e de áreas urbanas caiu quase 30% nas últimas três décadas”, atestou a pesquisadora.

Diferentemente de estudos anteriores, esta pesquisa analisa os efeitos de 242 substâncias diferentes, cobrindo toda a França metropolitana, e não apenas de um ou dois pesticidas específicos. Ela se concentra em todas as espécies de aves comuns que frequentam ambientes agrícolas, e não apenas naquelas especializadas nesses habitats. Além disso, os pesquisadores tentaram separar o efeito direto dos pesticidas de outros fatores ligados à intensificação da agricultura, como o tamanho das propriedades e a diversidade da paisagem.

Rouxinóis, pintassilgos e gaviões

Para chegar a esses resultados, os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e da Universidade de Poitiers usaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Produtos Fitossanitários por distribuidores autorizados. Essa base pública, criada em 2006 e acessível desde 2019, reúne informações sobre vendas de agrotóxicos associadas aos códigos postais dos compradores.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a contaminação ambiental local, os pesquisadores compararam os dados com outra base sobre resíduos de pesticidas em águas superficiais. “Encontramos muitas correlações positivas”, diz Anne-Christine Monnet. “Quanto mais substâncias tóxicas, mais resíduos aparecem na água.”

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa de ciência que registra variações na abundância de espécies na França. Entre os 64 tipos de aves presentes em ambientes agrícolas analisados — como rouxinóis, pintassilgos e gaviões — 54 apresentaram menor abundância nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos, de forma estatisticamente significativa ou próxima disso. “A contaminação dos campos afeta não apenas as espécies altamente dependentes desses habitats, mas todas as que os utilizam regularmente”, explicam os pesquisadores.

“Os resultados são muito fortes, mesmo quando análises desse tipo costumam ter limitações”, observa Stanislas Rigal, pesquisador da Fundação para a Pesquisa sobre a Biodiversidade, que não participou do estudo. A maioria das espécies analisadas responde negativamente ao aumento do uso de pesticidas.

Como os agrotóxicos afetam as aves

O impacto pode ser direto, quando os pássaros ingerem sementes tratadas ou se alimentam de insetos ou plantas contaminadas. Também há efeito indireto, ao reduzir recursos disponíveis, como insetos que serviriam de alimento.

Para garantir que os efeitos observados não fossem confundidos com outros fatores da agricultura intensiva, os pesquisadores incluíram em seus modelos variáveis como tipo de cultivo, tamanho das parcelas, extensão de cercas vivas, uso de arado, entre outros. “Assim, podemos verificar se os efeitos negativos dos pesticidas estão realmente ligados ao produto, e não ao tipo de cultura, por exemplo”, explica Monnet.

Os autores destacam ainda que, embora o acesso ao registro de vendas de pesticidas represente um avanço importante para estudar seu impacto, a base poderia ser aprimorada ao relacionar as vendas com as parcelas específicas onde os produtos são aplicados.


Fonte: RFI

Divulgação! Livro Direitos Humanos no Brasil 2025

A 26ª edição do livro Direitos Humanos no Brasil traz 30 artigos de 49 autoras e autores que analisam uma diversidade de temas como políticas agrárias, ambientais, trabalhistas e tributárias em 2025. Os artigos incluem dados e perspectivas sobre educação, cultura, direitos das mulheres, população LGBTQIA+, imigrantes, justiça climática, povos indígenas e comunidades camponesas.

Os efeitos da crise climática e o papel fundamental dos povos e comunidades tradicionais para a preservação da biodiversidade são temas centrais. Os povos indígenas, quilombolas e camponeses são guardiões do meio ambiente. O livro nos inspira também com a obra do fotógrafo João Ripper junto a comunidades tradicionais, com imagens belas, fortes e emocionantes. 

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Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas

Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Florestas destruídas por castores na Patagônia Argentina, em Tierra del Fuego. Foto: denisbin/Flickr

Por Lívia Inácio para o Ciência UFPR 

Em 1946, o governo argentino introduziu dez pares de castores canadenses na Tierra del Fuego, província no extremo sul do país. A ideia era fomentar a produção de casacos de pele, mas a população desses animais cresceu acima do esperado, o que levou à destruição de florestas inteiras. Situações assim, em que espécies introduzidas pela ação humana (as chamadas espécies exóticas invasoras) desequilibram ambientes sem preparo para recebê-las, são comuns no mundo todo. E um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisou pesquisas sobre o tema, concluiu que as espécies colocadas no novo ecossistema são mais eficazes em consumir recursos em comparação às nativas, causando desequilíbrio a longo prazo.

Essa hipótese já vinha sendo debatida por diversos autores, mas, pela primeira vez, foi testada com base em evidências quantitativas globais. A metanálise de estudos experimentais comparativos entre espécies nativas e exóticas foi conduzida pela bióloga Larissa Faria, doutoranda do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, orientada pelo professor Jean Vitule, do Departamento de Engenharia Ambiental.

O estudo, financiado pelo CNPq e Fulbright, contou ainda com a colaboração dos pesquisadores Jonathan Jeschke e James Dickey, associados à Freie Universität Berlin, da Alemanha; Ross Cuthbert e Jamie Dick, da Queen’s University Belfast, do Reino Unido; e Anthony Ricciardi, da McGill University, do Canadá.

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Para ser considerada invasora, uma espécie precisa estar aumentando sua população e causando algum impacto, explica Faria. Em alguns casos, a introdução delas é intencional para cultivo, pesca, caça esportiva ou ornamentação, mas há situações acidentais, como ocorre no vazamento de água de lastro de navios ou em escapes de cultivos. Em todas elas, existe interferência humana.

“As espécies invasoras representam risco pois são elementos novos em um ecossistema que evoluiu sem a presença delas. Isso causa um desequilíbrio ecológico, que pode ter impactos ambientais, sociais e econômicos”, diz a pesquisadora.

Faria exemplifica o fenômeno com a introdução da perca-do-Nilo no Lago Vitória, na África. O animal foi inserido para aumentar a produção pesqueira, mas, por ser um predador de grande porte, levou à devastação de diversas espécies nativas de peixes. Muitas foram extintas por serem vulneráveis a esse novo predador e não estarem preparadas para se defender dele.

Outro exemplo foi a introdução de javalis para corte de carne exótica no Brasil. Hoje, o animal está presente nos seis biomas brasileiros e em 2010 munícipios, causando impactos à saúde pública.

Domínio das espécies nativas é maior entre animais de água doce

O estudo da UFPR descobriu que as espécies nativas geralmente levam mais tempo para consumir suas presas e, consequentemente, consomem menos presas do que uma espécie exótica em um mesmo intervalo. Essa diferença na eficiência em consumir recursos pode explicar o impacto das espécies exóticas invasoras.

“O estudo mostra que as taxas máximas de consumo das espécies não nativas são, em média, 70% superiores do que as taxas das espécies análogas nativas”, diz o professor Vitule.

A pesquisa constatou também um desequilíbrio especialmente intenso entre moluscos, herbívoros e animais de água doce e há duas hipóteses para isso: a primeira tem a ver com o fato de que estudos com invertebrados e em ambientes de água doce são mais comuns porque podem ser realizados em pequenos aquários, sendo facilmente operacionalizados. Por isso, são necessários mais estudos em ecossistemas maiores, e com maior realismo, como em mesocosmos (sistemas experimentais projetados para simular um ecossistema sob condições controladas) e experimentos naturais.

Outra hipótese vem do fato de que ambientes aquáticos são isolados uns dos outros e, por isso, têm uma fauna específica que evoluiu adaptada às condições daquele local, com poucos mecanismos de defesa para lidar com ameaças externas.

“O que não sabemos ainda é se a superioridade das espécies exóticas pode ser explicada por algo intrínseco a elas ou se está mais relacionada a uma ingenuidade das presas que não conseguem escapar de maneira eficaz dos predadores até então desconhecidos”, diz Faria.

Ecólogos defendem maior fiscalização e divulgação do tema

Mas existe uma forma totalmente segura de inserir uma nova espécie em um ambiente? Segundo a pesquisadora, não. Isso porque é difícil prever os desdobramentos possíveis no novo local. Nesse sentido, ecólogos defendem a adaptação de espécies nativas para o cultivo intensivo em vez da inserção de novas espécies.

O problema é tão sério que o Brasil possui ao menos 85 instrumentos legais sobre esse tema na esfera federal, entre leis, decretos e instruções normativas, e legislações específicas de cada estado. Além disso, a introdução de espécies exóticas sem autorização é crime ambiental, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais 9605/1998.

Apesar disso, especialistas pedem mais esforços em prol dessa pauta, como uma maior fiscalização e divulgação do tema. “Não adianta haver uma lei proibindo, se as pessoas não sabem o que é uma espécie exótica invasora e soltam o estoque excedente de tilápias do seu pesque-pague no riozinho mais próximo da sua propriedade, por exemplo”, diz Faria.

Nesse sentido, o estudo da UFPR pode contribuir com o desenvolvimento de novas políticas públicas e protocolos que previnam desastres ambientais decorrentes da introdução de espécies exóticas invasoras, segundo Vitule.

Os próximos passos envolvem aplicar ainda mais o método experimental comparativo para investigar os impactos de espécies exóticas invasoras, a influência das mudanças climáticas e múltiplas invasões nesses movimentos. Cientistas pretendem ainda aumentar a quantidade de estudos em diferentes tipos de habitat e com grupos taxonômicos variados, para trazer mais robustez às evidências obtidas.

“A metodologia que estudamos poderia ser aplicada em protocolos oficiais de avaliação de impacto de espécies exóticas invasoras no país, auxiliando na prevenção de novas introduções ou na erradicação rápida das espécies já introduzidas que forem avaliadas como mais problemáticas do ponto de vista do consumo de recursos”, diz Faria.

➕ Leia o artigo Non-native species have higher consumption rates than their native counterparts“, publicado no periódico Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o artigo “Biological invasions: a global assessment of geographic distributions, long-term trends, and data gaps“, também publicado na Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o capítulo “Invasive species policy in Brazil: a review and critical analysis, publicado no livro Environmental Conservation, da editora Cambridge University Press (fechado; em inglês)


Fonte: Ciência UFPR

Tirando o véu do “land grabbing” no Sul Global: violência, deslocamentos forçados, desmatamento e erosão da biodiversidade

Os dez maiores proprietários transnacionais de terras do mundo controlam uma área maior que o Japão, de acordo com um novo relatório
Por Filipe Seufert e Shalmali Guttal para o “The Ecologist” 

Angelim é uma pequena comunidade rural no Piauí, nordeste do Brasil, onde pequenos agricultores e artesãos vivem há gerações. Seu modo de vida mudou drasticamente há alguns anos, quando uma empresa chegou e alegou ter comprado a terra. 

Moradores relatam ter sido ameaçados por homens armados. Eles enfrentaram desmatamentos e a destruição da vegetação nativa, essencial para seu sustento e modo de vida. 

Novas plantações de monoculturas começaram a secar as áreas úmidas. As plantações também utilizavam pesticidas, poluindo o ecossistema e ameaçando a saúde e o sustento dos moradores.

Desmatamento

Angelim está localizada no município de Santa Filomena e é apenas uma das muitas comunidades afetadas pelas aquisições de terras pela Radar Propriedades Agrícolas, uma empresa formada em 2008 como uma joint venture entre o fundo de pensão americano TIAA e a gigante brasileira do agronegócio Cosan. 

Nos últimos anos, a Radar adquiriu  mais de 3.000 hectares em Santa Filomena, somando-se às terras que já possui em toda a região do Matopiba, que inclui os estados brasileiros do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – a mais nova fronteira da agricultura industrial no Brasil.

Esta região fica no Cerrado, uma das  áreas de maior biodiversidade do mundo , lar de  12.000 espécies de plantas (35% endêmicas) e  25 milhões de pessoas , incluindo povos indígenas e pequenos fornecedores de alimentos. 

Mas  cerca de 55% do Cerrado já foi convertido em plantações comerciais de árvores, grandes monoculturas agroindustriais e pastagens para produção de gado. 

Grilagem de terras, especulação e desmatamento estão deslocando comunidades e  prejudicando o meio ambiente . Um dos principais participantes dessa expansão é a TIAA e sua empresa de gestão de ativos, a Nuveen. 

Devastador

A TIAA é uma das maiores proprietárias de terras do mundo e quase quadruplicou suas propriedades desde 2012. Administrando  1,2 milhão de hectares em dez países, ela ocupa o sétimo lugar entre os dez maiores proprietários de terras transnacionais do mundo, que juntos controlam 404.457 km² — uma área do tamanho do Japão, de acordo com um novo relatório da FIAN International e da Focus on the Global South.

Esse acúmulo de recursos e poder por entidades corporativas e financeiras alimenta o abuso dos direitos humanos, as desigualdades e a destruição ambiental, além de ressaltar a necessidade de políticas redistributivas.

Outros nesse grupo de elite incluem investidores financeiros como a Blue Carbon dos Emirados Árabes Unidos, a Macquarie da Austrália e a Manulife do Canadá, as gigantes do agronegócio Olam e Wilmar de Cingapura, a empresa madeireira chilena Arauco e a Shell do Reino Unido por meio da Raízen, uma subsidiária brasileira.

Esse acúmulo de terras nas mãos de algumas empresas transnacionais faz parte de uma tendência global de grilagem de terras que se intensificou após a crise financeira de 2008. Desde 2000, investidores transnacionais adquiriram cerca de  65 milhões de hectares de terra — o dobro do tamanho da Alemanha. 

Isso acelerou uma dinâmica de concentração de terras, que resultou em um por cento das fazendas controlando  70 por cento das terras agrícolas globais , uma tendência que coloca em risco os meios de subsistência de  2,5 bilhões de pequenos agricultores e 1,4 bilhão dos mais pobres do mundo, a maioria dos quais depende da agricultura.

Como demonstra o caso da comunidade de Angelim, a grilagem e a concentração de terras têm consequências devastadoras para comunidades e ecossistemas. Assim como a TIAA, sediada nos EUA, praticamente todos os principais proprietários de terras globais foram supostamente implicados em deslocamentos forçados, destruição ambiental e violência contra populações locais. 

Biodiversidade

A concentração de terras agrava a desigualdade, corrói a coesão social e alimenta conflitos. Mas também há consequências mais profundas. 

O fato de vastas extensões de terra, localizadas em diferentes jurisdições estaduais, serem colocadas sob o controle de entidades corporativas distantes em prol de cadeias de suprimentos globais ou fluxos globais de capital financeiro, vai diametralmente contra os princípios da soberania estatal e da autodeterminação do povo. 

Em particular, isso prejudica a capacidade dos estados de garantir que a posse da terra sirva ao bem público e permita a transição para modelos econômicos mais sustentáveis.

A questão de quem deve possuir e administrar a terra torna-se ainda mais urgente diante das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade. Proprietários de terras transnacionais estão associados a plantações de monoculturas industriais, desmatamento e outras práticas extrativas. 

Em contraste, até  80% das florestas intactas encontram-se em terras administradas por povos indígenas e outras comunidades rurais. Além disso, pequenos produtores de alimentos que praticam a agroecologia promovem maior biodiversidade, melhor gestão da água e produzem mais da metade dos alimentos do mundo, utilizando apenas  35% das terras agrícolas globais .

Despossuídos

Ironicamente, o valor ambiental das terras administradas pela comunidade desencadeou uma nova onda de grilagem de terras. As chamadas “grilagens verdes” (grilagens de terras para supostos fins ambientais) agora representam cerca de  20% dos negócios de terras em larga escala . Desde 2016, mais de  5,2 milhões de hectares na África foram adquiridos para projetos de compensação de carbono.

Espera-se que o mercado global de carbono  quadruplique nos próximos sete anos, e mais da metade dos dez maiores proprietários de terras do mundo já reivindicam participação nos mercados de carbono e biodiversidade. O “net zero” tornou-se um pretexto para expulsar comunidades de suas  terras .

Embora os debates globais sobre políticas fundiárias nos últimos dez anos tenham se concentrado em limitar os danos da grilagem de terras às pessoas e à natureza, a escala e a gravidade dessas tendências exigem uma mudança da regulamentação para a redistribuição. 

A desregulamentação neoliberal, bem como as políticas comerciais e outras políticas econômicas, impulsionaram a transferência maciça de terras e riqueza para o setor corporativo e os ultra-ricos. Políticas redistributivas são necessárias para reverter essa tendência. 

Combater a desigualdade fundiária é crucial para um futuro mais justo e sustentável. No entanto, poucos países implementam políticas fundiárias e programas de reforma agrária que buscam ativamente redistribuir e devolver terras a povos e comunidades despossuídos.

Agarrando

A estrutura internacional de direitos humanos exige que os estados estruturem seus sistemas de posse de terras de maneiras que garantam uma distribuição ampla e equitativa dos recursos naturais e seu uso sustentável. 

As ferramentas à disposição dos governos incluem redistribuição, restituição e proteção de sistemas de posse coletiva e consuetudinária, bem como medidas como tetos à propriedade da terra (inclusive por entidades corporativas), proteção e facilitação de direitos de uso de terras públicas e planejamento participativo e inclusivo do uso da terra. 

Esses esforços também devem ser acompanhados por políticas fiscais redistributivas, como impostos progressivos sobre a terra e a propriedade, que continuam  regressivos ou ineficazes na maioria dos países atualmente, perpetuando assim a desigualdade e permitindo a concentração de riqueza.

Como a apropriação de terras é impulsionada pelo capital global e pela acumulação de terras em jurisdições por corporações transnacionais e entidades financeiras, a cooperação internacional é essencial. 

Sustentável

A próxima Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (ICARRD), na Colômbia, em fevereiro de 2026, oferece um momento crítico para os governos concordarem com medidas que acabem com a grilagem de terras, revertam a concentração de terras e garantam uma distribuição ampla e sustentável dos recursos naturais. 

Para serem eficazes, essas discussões devem estar conectadas a iniciativas sobre uma  convenção tributária global e um mecanismo internacional para lidar com a dívida soberana, capacitando os estados a terem espaço fiscal para implementar políticas redistributivas baseadas em direitos humanos e transições justas. 

Também são importantes as disposições legais vinculativas que impedem que corporações transnacionais usem o poder do seu dinheiro para burlar as regras nacionais em busca de lucros.

Em um mundo que enfrenta crises interligadas — colapso climático, insegurança alimentar, pobreza persistente e desigualdade social — e uma reconfiguração do equilíbrio global de poder, há uma oportunidade de se afastar das políticas neoliberais que beneficiaram muito poucos e criar um futuro global mais justo e sustentável para todos.


Fonte: The Ecologist

Exploração no litoral brasileiro ameaça espécies, comunidades tradicionais e pesca artesanal, alerta diagnóstico inédito

Foto: Stéfano Girardelli / Unsplash 

 

A ocupação desordenada, a pesca industrial não manejada e projetos de infraestrutura colocam em risco tanto espécies marinhas e costeiras quanto os modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais. É o que aponta o “1º Diagnóstico Brasileiro Marinho-Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”, lançada na quinta (8). Conforme a publicação, essas populações sofrem com os impactos negativos de políticas de desenvolvimento, como poluição, degradação ambiental, e com políticas de conservação integral, que podem provocar retirada compulsória de populações tradicionais de seus territórios.

O documento sintetiza o conhecimento disponível sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos na zona costeira e no ambiente marinho brasileiros. Esse diagnóstico pode orientar iniciativas que previnam e reduzam impactos ambientais e sociais nessas áreas. Trabalharam na obra 53 especialistas acadêmicos e governamentais, 12 jovens pesquisadores e 26 representantes de povos indígenas e populações tradicionais do Brasil, em diálogo com atores do poder público e da sociedade civil. O projeto foi coordenado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e pela Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.

A publicação sucede o Sumário para Tomadores de Decisão, divulgado pela mesma equipe em novembro de 2023. O relatório integra o conhecimento acadêmico com saberes tradicionais, e inova ao apresentar um capítulo construído somente a partir das narrativas de povos e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas costeiros.

“Esses povos e comunidades tradicionais devolveram ao longo das décadas um profundo conhecimento sobre as dinâmicas dos ecossistemas que exploram e, muitas vezes, criaram ou adaptaram técnicas de manejo dos recursos que exploram para garantir a sua continuidade”, destaca Cristiana Simão Seixas, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que co-editou o documento junto com Alexander Turra e Beatrice Padovani Ferreira. Para a cientista, é essencial envolver essas populações em processos como a elaboração de planos de manejo de unidades de conservação, planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, planos de gerenciamento costeiro e planejamento espacial marinho.

A pesca industrial, se não manejada, pode inviabilizar o futuro da pesca artesanal. A preocupação está ainda no acesso às áreas exploradas, na medida em que as atividades consideradas depredatórias levam à exclusão das populações indígenas e tradicionais de seus territórios, o que tem sido observado nos processos de implantação de projetos de infraestrutura e ocupação desordenada em todo o litoral brasileiro. A pressão econômica acaba levando ao deslocamento dessas populações para áreas mais afastadas, longe de suas raízes ancestrais.

Seixas defende políticas públicas que fomentem o desenvolvimento integrado à conservação socioambiental. “Ou seja, não estamos falando de colocar as comunidades tradicionais em redomas de vidro e isolá-las do mundo exterior. Ao contrário, é necessário dar condições para que se desenvolvam socioeconomicamente, tendo acesso a educação e saúde de qualidade, mas que isso se dê de forma que não percam sua identidade e que continuem a praticar seus modos de vida, seja na pesca artesanal, no extrativismo ou nas roças tradicionais. E dentro dessa abordagem, o turismo de base comunitária, se fomentado adequadamente, pode ser uma excelente solução”, ressalta a autora.

A publicação recebeu recursos de uma emenda parlamentar do então Deputado Federal Rodrigo Agostinho, do Instituto Serrapilheira e do Programa Biota/Fapesp.


Fonte: Agência Bori

Estudo sobre plantas do Ártico revela um ‘sinal de alerta precoce’ de perturbação das mudanças climáticas

O aquecimento da tundra sofreu mudanças inesperadas, aumentando o alarme sobre os ecossistemas frágeis e aqueles que dependem deles

uma planta roxa cresce em um ambiente frio

Saxifrage roxa, uma planta da tundra, na Ilha Ellesmere, Nunavut. Fotografia: Anne Bjorkman

Por Leyland Secco para o “The Guardian”

Cientistas que estudam as plantas do Ártico dizem que os ecossistemas que abrigam a vida em alguns dos cantos mais inóspitos do planeta estão mudando de maneiras inesperadas, em um “sinal de alerta precoce” para uma região afetada pelas mudanças climáticas .

Em quatro décadas, 54 pesquisadores monitoraram mais de 2.000 comunidades de plantas em 45 locais, do Alto Ártico canadense ao Alasca e à Escandinávia. Eles descobriram que mudanças drásticas nas temperaturas e nas estações de cultivo não produziram vencedores ou perdedores claros. Algumas regiões testemunharam grandes aumentos na população de arbustos e gramíneas e declínios na de plantas com flores – que têm dificuldade para crescer sob a sombra criada por plantas mais altas.

Essas descobertas, publicadas na Nature , preenchem lacunas importantes de conhecimento para equipes na linha de frente de um clima em mudança.

“A mudança climática está tão disseminada por todo o Ártico, e estamos vendo essa magnitude de aquecimento quatro vezes mais rápido do que no resto do planeta. Esperávamos ver tendências e trajetórias muito concretas. Porque em outros biomas, isso acontece”, disse a autora principal Mariana García Criado, pesquisadora de pós-doutorado em biodiversidade da tundra na Universidade de Edimburgo. “Mas o Ártico é um lugar especial e muitas vezes inesperado.”

Os pesquisadores descobriram maior riqueza de espécies em latitudes mais baixas e locais mais quentes, enquanto as espécies e áreas com maior crescimento — e perda — estavam em áreas com maior aumento de temperatura.

No Ártico ocidental do Canadá , por exemplo, Isla Myers-Smith e seu grupo de pesquisadores “Team Shrub” documentaram ecossistemas mudando rapidamente, onde a tundra está “ficando verde” a uma velocidade incrível, à medida que arbustos como o salgueiro avançam para o norte e crescem mais.

Os arbustos são altamente competitivos: crescem mais altos e ofuscam outras plantas, extraindo mais recursos no processo. À medida que se estabelecem, expulsam o algodoeiro, os musgos e os líquenes, que levam centenas – às vezes milhares – de anos para crescer. Temperaturas mais altas e estações de crescimento mais longas significam que essa tendência dificilmente diminuirá e, de forma mais ampla, em todo o Ártico, o número e a diversidade de plantas continuarão crescendo.

“Muitas vezes, quando pensamos nos impactos das mudanças climáticas no planeta, pensamos na perda de biodiversidade, mas na tundra com temperatura limitada, as mudanças climáticas são multifacetadas”, disse ela em um comunicado à imprensa.

Embora o aumento da biodiversidade possa parecer uma mudança benéfica para a região, especialistas alertam que essas mudanças têm um custo alto.

“Esses ecossistemas são tão frágeis que qualquer mudança na composição de espécies pode ter efeitos realmente fortes em todo o resto. As mudanças começam com as plantas, e se as plantas se movem, tudo acompanha”, disse García Criado, acrescentando que manadas de caribus estão entre as vítimas mais prováveis, já que áreas descampadas da tundra, favorecidas pelo líquen que eles gostam de comer, são substituídas por arbustos.

“Isso tem efeitos em cascata para os animais do Ártico que dependem dessas plantas, também para a segurança alimentar de todas as pessoas que vivem no Ártico, para as comunidades locais e indígenas, mas também para o funcionamento geral do ecossistema.”

Greg Henry, professor de geografia na Universidade da Colúmbia Britânica que ajudou a estabelecer o sistema de coleta de dados do estudo, disse que a pesquisa envolveu milhares de horas de trabalho de campo em locais remotos, com equipes “enfrentando condições climáticas extremas, nuvens de insetos picadores e até mesmo encontros ocasionais com ursos polares”.

Mas os pesquisadores não tinham dados suficientes para incluir musgos e líquens no estudo. Esses criptógamos são essenciais para o funcionamento do ecossistema, particularmente no Ártico, onde há uma rica diversidade de espécies.

García Criado disse que os resultados ressaltam a profunda incerteza na compreensão dos efeitos que as mudanças climáticas têm na vida — e a maneira como o Ártico frequentemente serve como um prenúncio de mudanças que estão por vir.

“Todas essas mudanças que estamos observando não se limitam ao Ártico. Podemos vê-las no Ártico, mas as consequências se espalham muito além dos limites da região”, disse ela. “Queremos entender essas mudanças. E então precisamos nos preparar para elas. Porque não é uma questão de se elas podem acontecer – é uma questão de quando.”


Fonte: The Guardian

Cinzas de queimadas reduzem seres vivos e comida em ambientes aquáticos, sugere estudo

Experimento com mosquito que serve de bioindicador leva cientistas de três universidades federais a apontar impactos negativos dos incêndios florestais ainda pouco considerados em políticas públicas

Animais apresentaram deformações físicas e malformações que reduzem expectativa de vida. Na foto, mosquito adulto da espécie Chironomus sancticaroli. Foto: Ronnilda Araújo/Acervo Pessoal

Por Bruna Soares para o “Ciência UFPR” 

Incêndios florestais, além de devastarem quilômetros de áreas de vegetação, têm efeitos profundos e subestimados sobre os ambientes aquáticos. Isso é o que sugere uma pesquisa conduzida no Laboratório de Morfologia e Fisiologia de Culicidae e Chironomidae (Lamfic2) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ao indicar que as cinzas originadas de incêndios florestais causam danos significativos a uma espécie de mosquito não picador usada como indicador de impactos ambientais sobre organismos aquáticos.

Ao verificar as consequências de cinzas de baixa a moderada intensidade, que são as mais comuns e com menos compostos químicos, a pesquisa demostrou que larvas de mosquitos não picadores da espécie Chironomus sancticaroli expostas as cinzas sofreram redução da capacidade de transporte de oxigênio e aumentaram sua capacidade de detoxificação aos metais. Além disso as cinzas foram capazes de aumentar o estresse oxidativo, ou seja, uma dificuldade de compensar danos sofridos em nível celular, o que expõe o ser vivo a doenças e complicações de desenvolvimento.

Além dos problemas biológicos, as larvas apresentaram retrocessos morfológicos, isto é, deformações corporais. Exibiram redução no tamanho corporal, sugerindo impactos do ambiente com cinzas no crescimento e no desenvolvimento da espécie.

Outros organismos aquáticos também foram afetados, incluindo girinos, peixes e minicrustáceos Daphnia magna. Esses animais apresentaram alterações comportamentais e celulares ao serem expostos às cinzas. Com isso, os resultados apontam que os incêndios florestais e a poluição por cinzas não afetam apenas uma espécie, mas toda a cadeia alimentar aquática.

Publicados na revista Journal of Hazardous Material, os resultados estão na tese de doutorado da pesquisadora Ronnilda Maria Gonçalves Araujo e são parte de um projeto mais amplo sobre os efeitos das cinzas pós-incêndio florestal sobre a natureza. Além da UFPR, o projeto conta com cientistas de outras duas instituições, as universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Mato Grosso (UFMT).

Para Mário Antônio Navarro da Silva, professor do Departamento de Zoologia e coordenador do Lamfic2, o estudo avança ao expor impactos frequentemente ignorados das queimadas sobre os ecossistemas aquáticos.

“Os efeitos adversos sobre a biota aquática são profundos e afetam não só os organismos diretamente expostos, mas toda a cadeia trófica, que eventualmente pode impactar o consumo humano”, alerta Navarro.

Poluentes entram na cadeia alimentar e chegam aos seres humanos

Uma das dificuldades dos estudos de impacto de cinzas de queimadas sobre corpos d’água é definir a composição dessas cinzas. Isso porque as cinzas de incêndios florestais podem modificar de diferentes formas os parâmetros da água, como pH (medida de acidez), turbidez (grau de “sujeira” visível na água) e concentração de oxigênio. Para medir o melhor possível a situação, as amostras precisam ser coletadas rapidamente em relação ao incêndio.

As alterações causadas pelas cinzas comprometem a qualidade da água, tornando-a imprópria para consumo humano e afetando a saúde de outros organismos aquáticos. Quando a água contaminada por cinzas contém metais pesados e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), conhecidos pela ligação com mutações genéticas e câncer, o risco à saúde humana se torna maior.

No caso, as amostras de cinzas foram recolhidas do Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici (SC), em uma região montanhosa de Mata Atlântica. Nesse parque, as queimadas são de baixa intensidade, com impactos menos significativos para a fauna e a flora, e facilidade de contenção.

A análise de cientistas do Grupo de Química Ambiental da UFPR mostrou que as cinzas das pastagens contêm micro e nanopartículas com alta solubilidade — ou seja, se integram à água — e são ricas em metais e HPAs, poluentes de difícil degradação.

O experimento indicou que adicionar essas cinzas à água aumentou o pH — ou seja, mudou o ambiente deixando a água menos ácida — e os sólidos totais. Ao mesmo tempo, diminuiu os níveis de oxigênio dissolvido, um elemento essencial para a existência de fauna aquática.

Esses contaminantes também são capazes de se transferir para a cadeia alimentar, porque afeta seres que estão na base dessa cadeia. É o caso do Chironomus sancticaroli, que desempenha papel fundamental nos ciclos da natureza pelos quais matéria orgânica se transforma em nutrientes dentro d’água.

Como presas de peixes e outros animais, esses organismos contaminados podem resultar na bioacumulação de metais pesados e compostos tóxicos em níveis tróficos superiores, chegando eventualmente ao consumo humano.

Ensinamentos sobre políticas públicas e colaborações científicas

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação de Biodiversidade da UFMT, Ronnilda Araujo avalia que o controle rigoroso de queimadas é necessário para minimizar os impactos da poluição por cinzas nos ecossistemas aquáticos, devido à vulnerabilidade deles.

Quando incêndios são seguidos por ventos e chuvas intensos, as cinzas são transportadas para os corpos d’água, aumentando a contaminação e os riscos para a fauna local e para as comunidades humanas que dependem desses recursos.

“É essencial que as políticas públicas se concentrem não apenas na prevenção de incêndios, mas também no monitoramento e no controle das cinzas após os incêndios. A preservação da saúde dos ecossistemas aquáticos é fundamental para garantir a sustentabilidade desses ambientes”.

A pesquisa sugere ainda que as queimas controladas, uma estratégia de prevenção a incêndios pela redução da vegetação seca, seja aplicada o mais distante possível de ambientes aquáticos, a fim de minimizar os impactos sobre a biodiversidade e a saúde pública.

Responsável por reunir a equipe de cientistas, a pesquisadora é orientada na UFMT pelo professor Bruno Renaly Souza Figueiredo, do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC, coordenador de projetos de pesquisa sobre poluição de ambientes aquáticos por cinzas.

Em estudos anteriores, o grupo da UFSC indicou que a contaminação por cinzas impactar a cadeia alimentar ligada a rios e mares de duas formas: via bioacumulação e redução do estoque de pescado.

“Os organismos contaminados pelas cinzas podem transferir compostos tóxicos para animais maiores, como peixes, que, ao serem consumidos pelo ser humano, podem levar à intoxicação”, alerta Figueiredo.

A inserção da UFPR nessa dinâmica expande horizontes de atuação, propiciando ainda a interconexão de linhas de pesquisa já tradicionais na instituição, como a zoologia e a química ambiental.

“Colaborações não só aumentam a visibilidade, mas também favorecem a integração entre diferentes áreas do conhecimento e contribuem para o avanço das pesquisas interdisciplinares sobre as questões ambientais”, acredita Navarro.

Edição: Camille Bropp


Fonte: Ciência UFPR

Espécies invasoras ameaçam fauna endêmica de Fernando de Noronha

O arquipélago de Fernando de Noronha é formado por 21 ilhas de beleza e biodiversidade inegáveis, hoje ameaçadas por espécies invasoras. Crédito da imagem: foto pantai/Wikimedia Commons , licenciada sob Creative Commons CC BY 2.0 Deed

Todas essas espécies são invasoras e estão afetando a diversidade genética local e até a polinização das flores , conclui uma equipe de pesquisadores brasileiros que revisou a literatura especializada e entrevistou especialistas para avaliar os principais impactos desses animais nos serviços ecossistêmicos do arquipélago. Suas descobertas foram publicadas na revista científica Ecosystem Services.

“Nosso estudo apoia a gestão ambiental do arquipélago e destaca que estratégias para controle dessas espécies devem ser implementadas de forma integrada, considerando tanto a conservação da biodiversidade quanto as percepções da comunidade local.”

Guilherme Tavares Nunes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Espécies exóticas invasoras são plantas e animais introduzidos intencionalmente ou acidentalmente em um local fora de sua área de distribuição natural. Eles se reproduzem facilmente, a ponto de colocar em risco a sobrevivência de espécies locais.

A proliferação dessas espécies é uma das principais causas da perda de biodiversidade no mundo, mas muitas vezes é menos mencionada do que outros fatores, como mudanças climáticas e perda de habitat, disse ao SciDev.Net Ricardo Araújo, analista ambiental e chefe de pesquisa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Noronha .

Ele não fez parte da equipe de pesquisa, mas observa que “estudos como o publicado no Ecosystem Services são importantes para lançar luz sobre esse problema”.

O biólogo Guilherme Tavares Nunes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do estudo, explica que o turismo é uma atividade socioeconômica importante em Fernando de Noronha, impulsionada principalmente pelo turismo de sol e praia e observação de vida selvagem, “que corre um risco considerável no cenário atual”.

As autoridades brasileiras estabeleceram um limite máximo de 132.000 visitantes por ano para Noronha, ou 11.000 por mês. Desde 2022, os turistas também estão proibidos de trazer qualquer tipo de animal doméstico ou exótico para o arquipélago.

Os desafios enfrentados em Noronha são os mesmos enfrentados em outros ambientes insulares . Como a distribuição global de espécies exóticas invasoras reflete processos históricos de colonização e desenvolvimento econômico, pequenas ilhas tropicais estão entre os principais receptores de espécies invasoras, observam os autores. 

O rato preto chegou a Noronha nos navios dos exploradores europeus e atualmente está presente em quase todas as ilhas do arquipélago. Crédito da imagem: Cortesia de Taysa Rocha para SciDev.Net

Problemas com ratos e gatos são os mais comuns. É o caso da Ilha Pequena Caimão , localizada nas Ilhas Caimão, território ultramarino do Reino Unido no Caribe, onde os cientistas consideram a situação “urgente”. A ilha é invadida por um grande número de gatos selvagens , que estão dizimando a fauna nativa, incluindo o atobá-de-patas-vermelhas ( Sula sula ) e o ganso-patola-castanho ( Sula leucogaster ).

Em Noronha, uma espécie invasora que tem causado estragos é o rato preto ( Rattus rattus ). Acredita-se que tenha chegado a bordo dos navios dos primeiros exploradores europeus. Em pouco tempo, espalhou-se pelas ilhas do arquipélago, mesmo as mais isoladas e sem atividade humana. Estima-se que sua população atualmente chegue a dezenas de milhares.

Esses animais se alimentam de vegetais, frutas e grãos, mas também de ovos e filhotes de aves marinhas que usam a ilha para descansar, se alimentar e se reproduzir. “Alguns estão em risco de extinção, como o atobá-de-pés-vermelhos, o pássaro-tropical-etéreo [ Phaethon aethereus ] e o pernalta-de-noronha [ Elaenia ridleyana ]”, diz Nunes ao SciDev.Net .

Para sanar esse problema, o ICMBio Noronha realizou em 2018 um projeto piloto em colaboração com a ONG ambientalista WWF-Brasil, em uma ilha desabitada do arquipélago: a Ilha do Médio, utilizando um anticoagulante específico para ratos.

A iniciativa foi bem-sucedida e serviu de modelo para a aplicação da mesma estratégia no arquipélago de Abrolhos, formado por cinco ilhas no sul da Bahia. “Acreditamos que esse modelo pode ser usado em outras ilhas ou arquipélagos ao redor do mundo”, diz Nunes.

Outro predador abundante na ilha é o lagarto teiú ( Salvator merianae ). Alimenta-se de diversas espécies nativas, incluindo ovos e filhotes de tartarugas marinhas. Relatos sobre sua chegada ao arquipélago são contraditórios, mas sabe-se que ele está lá há pelo menos 100 anos. Sua população na ilha principal é estimada entre 7.000 e 12.000 indivíduos.

O lagarto teiú se alimenta de espécies nativas, incluindo ovos e filhotes de tartarugas marinhas. Crédito da imagem: ICMBio Noronha.

Mas foram os gatos ( Felis catus ) que causaram o maior impacto. Trazidos ao arquipélago por moradores locais para controlar a população de ratos, esses animais começaram a se reproduzir descontroladamente. “Estima-se que existam 1.287 gatos na ilha principal, dos quais cerca de 439 são selvagens”, diz Nunes.

Após analisar a dieta desses animais, os pesquisadores descobriram que os felinos se alimentam de aves marinhas e de um pequeno lagarto conhecido como mabuya ( Trachylepis atlantica ), endêmico do arquipélago.

“A mabuya se alimenta de larvas de insetos, formigas e restos de comida humana, além de néctar e flores, por isso atua como importante polinizadora e dispersora de sementes, contribuindo para a reprodução das plantas e o equilíbrio dos ecossistemas locais”, conta Nunes ao SciDev.Net . “Hoje, esse lagarto raramente é visto na ilha.”

A análise de fezes e isótopos estáveis ​​(várias formas de átomos cuja composição não muda com o tempo) dos gatos do arquipélago revelou ainda que muitos são portadores de uma cepa de Toxoplasma quase inexistente no restante do Brasil, “portanto, esses animais também representam um grave problema de saúde pública”, acrescenta a pesquisadora.

Gatos selvagens vivem na floresta e são muito difíceis de capturar e erradicar. Para uso doméstico, uma série de medidas foram adotadas. Crédito da imagem: ICMBio Noronha.

Para controlá-los, a solução tem sido a castração e a introdução de um microchip de identificação em gatos domésticos e sem donos capturados nas ruas. Estes últimos são levados para um abrigo para adoção ou para serem sacrificados caso ninguém os adote.

Gatos domésticos encontrados nas ruas também são levados para abrigos, e seus donos são multados entre 20% e 30% do salário mínimo (R$ 1.509,00, aproximadamente US$ 261). Ao mesmo tempo, são realizadas palestras de conscientização para a população local, incluindo escolas e turistas.

O problema continua sendo os gatos selvagens. “A solução seria a eutanásia, mas a ideia enfrenta resistência dos moradores locais e também é muito difícil capturá-los na floresta”, diz Araújo.

Segundo ele, a solução mais eficaz seria enviar o exército para caçá-los e eliminá-los, o que já foi feito antes. Na Ilha da Trindade, a 1.167 km da costa do Espírito Santo, cerca de 800 cabras foram abatidas por militares da Marinha, que administra a ilha, em uma operação iniciada em 1994.

Esses animais foram introduzidos na região há mais de 300 anos. Sem predadores naturais, eles se reproduziam descontroladamente, consumindo toda a vegetação, afetando cursos d’água e a fauna local, como as tartarugas marinhas, cujos ovos também comiam. A última cabra foi removida em 2005.

Estima-se que 476 espécies exóticas invasoras estejam presentes no Brasil, de acordo com um relatório temático publicado no início de 2024 pela Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

“Nosso estudo respalda a gestão ambiental do arquipélago e destaca que estratégias de controle dessas espécies devem ser implementadas de forma integrada, considerando tanto a conservação da biodiversidade quanto as percepções da comunidade local”, acrescenta Nunes.


Fonte: SciDev.Net

Estudo da Nature analisa mais de 4.000 espécies e mostra que é preciso grandes áreas de floresta para preservar diversidade

Plantação de cana-de-açúcar localizada na mata atlântica em Alagoas; estudo mostra que grandes extensões de floresta não perturbada são melhores para abrigar a biodiversidade

Florestas grandes e intocadas são melhores para abrigar a biodiversidade do que paisagens fragmentadas, de acordo com um novo estudo publicado na revista Nature.

Há consenso entre ecólogos de que a perda de habitat e a fragmentação das florestas reduzem a biodiversidade nos fragmentos remanescentes. No entanto, há debate sobre a priorização da preservação de muitas áreas pequenas e fragmentadas ou de grandes paisagens contínuas. O estudo liderado pelo ecólogo brasileiro da Thiago Gonçalves-Souza, da Universidade de Michigan, chega a uma conclusão sobre esse debate que já dura décadas.

“Fragmentação é prejudicial. Este artigo mostra claramente que a fragmentação tem efeitos negativos sobre a biodiversidade em diferentes escalas. Isso não significa que não devamos tentar conservar pequenos fragmentos quando possível, mas precisamos tomar decisões sábias sobre conservação”, afirma Gonçalves-Souza.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, da Universidade Estadual de Michigan e mais dez universidades brasileiras, entre elas Unesp, USP, UFPB e Unicamp. Eles analisaram 4.006 espécies de vertebrados, invertebrados e plantas em 37 locais ao redor do mundo.

O objetivo foi fornecer uma síntese global comparando diferenças de biodiversidade entre paisagens contínuas e fragmentadas. Os pesquisadores descobriram que, em média, as paisagens fragmentadas tinham 13,6% menos espécies na escala do ponto de coleta (chamada pelos autores de “escala da mancha”) e 12,1% menos espécies na região (chamada de escala da paisagem).

Além disso, os resultados sugerem que espécies generalistas —aquelas capazes de sobreviver em diversos ambientes— são as que predominam nas áreas fragmentadas.

Os cientistas investigaram três tipos de diversidade nesses locais: alfa, beta e gama. A diversidade alfa se refere ao número de espécies em um fragmento específico, enquanto a diversidade beta mede a diferença na composição de espécies entre dois locais distintos. Já a diversidade gama avalia a biodiversidade de toda a paisagem.

Gonçalves-Souza usa um exemplo para ilustrar o conceito: ao dirigir por campos agrícolas no Norte do Espírito Santo, pode-se notar pequenos fragmentos de floresta entre as plantações de cana ou pastos com criação de gado. Cada fragmento pode abrigar algumas espécies de aves (diversidade alfa), mas a composição dessas espécies pode variar de um fragmento para outro (diversidade beta). Já a biodiversidade total da paisagem—seja composta por fragmentos ou por uma floresta contínua—representa a diversidade gama da região.

“O cerne do debate é que algumas pessoas argumentam que a fragmentação não é tão ruim porque, ao criar habitats isolados, geramos composições diferentes de espécies, o que pode aumentar a diversidade gama”, explica Gonçalves-Souza. “Por outro lado, argumenta-se que, em áreas contínuas e homogêneas, a composição de espécies é muito semelhante.”

No entanto, pesquisas anteriores não compararam adequadamente paisagens fragmentadas e florestas contínuas, afirmou Gonçalves-Souza. Por exemplo, alguns estudos analisaram apenas um componente da diversidade ou compararam um pequeno número de florestas contínuas com dezenas de fragmentos.

“Nossa pesquisa mostrou que, ao utilizar dados padronizados e controlar a distância entre fragmentos, a fragmentação do habitat tem efeitos negativos sobre a biodiversidade,” diz o coautor Mauricio Vancine, ecólogo e pesquisador de pós-doutorado da Unicamp. “Isso tem implicações teóricas para a Ecologia e, mais importante, reforça que a fragmentação não pode ser vista como benéfica para a conservação das espécies.”

Para corrigir essa limitação, os cientistas levaram em conta as diferenças na amostragem entre diversas paisagens. Eles descobriram que a fragmentação reduz o número de espécies em todos os grupos taxonômicos e que o aumento da diversidade beta nas paisagens fragmentadas não compensa a perda de biodiversidade na escala da paisagem.

Além da biodiversidade, Gonçalves-Souza diz que a fragmentação das paisagens também compromete sua capacidade de armazenar carbono. “Ou seja, a fragmentação não apenas reduz a biodiversidade, diminuindo a diversidade alfa e gama, mas tem implicações para a prestação de serviços ecossistêmicos como o estoque de carbono.”

O pesquisador espera que o estudo ajude a comunidade conservacionista a superar o debate sobre paisagens contínuas versus fragmentadas e focar na restauração de florestas. “Em muitos países, restam poucas florestas grandes e intactas. Portanto, nosso foco deve estar no plantio de novas florestas e na restauração de habitats cada vez mais degradados. A restauração é crucial para o futuro, mais do que debater se é melhor ter uma grande floresta ou vários fragmentos menores.”


Fonte: Agência Bori