Paulo Artaxo fazendo apresentação sobre mudanças climáticas no Palácio do Planalto no dia 17 de setembro– Foto: Ricardo Stuckert/PR – CC BY-ND 2.0
O físico e professor da Universidade de São Paulo, Paulo Artaxo, que também é membro do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC) publicou umartigo que deveria ter servido como alerta para os governantes brasileiros, mas, principalmente no plano federal, com Jair Bolsonaro et caterva no controle do leme, o aviso passou completamente despercebido.
No artigo publicado pela revista Estudos Avançados, Artaxo alertava que nossa sociedade “está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Artaxo salinetou ainda que “essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente”.
O texto afirmava ainda que “entre as diferenças importantes nas três crises está a questão temporal: enquanto a crise na saúde associada ao Sars-CoV-2 pode durar cerca de dois anos, o impacto das mudanças climáticas pode durar séculos, a perda de biodiversidade é para sempre. Artaxo ponderava ainda que não haveria lockdown como o aplicado na pandemia da COVID-19, nas crises climáticas e de biodiversidade”.
Dentre as questões relacionando a perda das florestas e a mudança do clima, Artaxo citou o exemplo do estado de Rondônia onde o desmatamento alterou a circulação atmosférica, resultando em menos chuva nas áreas desmatadas e mais chuva nas áreas adjacentes. É que, com a devastação de mais de 50% da floresta em Rondônia, houve uma mudança no mecanismo que controla as chuvas, afetando o clima local e a agropecuária.
Dentre as muitas conclusões de Artaxo, uma das que considero cada vez mais urgente foi a de que a interferência das mudanças climáticas vêm influenciando alterações no regime de chuvas, na temperatura, no nível e na química de águas costeiras, causando mudanças na fenologia das plantas, no funcionamento de ecossistemas e, na distribuição da biodiversidade, inclusive na distribuição de vetores transmissores de doenças. Artaxo afirmava ainda que essas mudanças interagiriam entre si e com “múltiplos estressores” sociais e ambientais que poderiam ampliar seus impactos. Em função disso, muitas dessas dimensões das mudanças climáticas, e suas interações, precisavam ser mais bem compreendidas. As fortes alterações no regime de chuvas em todas as regiões do país iriam exigir soluções para minorar os problemas socioeconômicos advindos das secas mais fortes e frequentes, e inundações extremas em grandes áreas.
Passados pouco de mais de quatro anos dos alertas de Paulo Artaxo, eis que estamos diante não apenas de cenários teóricos, mas de fatos concretos. Mas mesmo diante deles, o que se vê é a ignorância e objetivamente a rejeição das evidências científicas, principalmente por parte daqueles segmentos que estão lucrando com a destruição das nossas florestas e dos importantes serviços ambientais. Isso prova que para mudar essa situação não basta ter conhecimento científico, mas força política para impor uma agenda governamental que se livre do domínio do agronegócio e das multinacionais que coletam a maior parte do lucro que ele gera.
Há que se notar que no dia 17 de setembro, Paulo Artaxo foi convidado para participar de uma reunião de emergência convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto para discutir o enfrentamento da crise climática no Brasil. Além de Lula, estavam presentes na sala os presidentes das duas casas do Congresso Nacional (Rodrigo Pacheco e Arthur Lira) e do Supremo Tribunal Federal (Luís Roberto Barroso), além do procurador-geral da República (Paulo Gonet), vários ministros de Estado e outras autoridades do mais alto escalão da política nacional.
Vamos ver se essa ida de Artaxo vai resultar em algo prático do ponto de vista das políticas federais que hoje objetivamente financiam a destruição das florestas brasileiras e envenenam nossos rios com agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo. E aqui a conta é simples: ou se muda essa equação ou o que se viu em 2024 é apenas um aperitivo do que está por vir.
Levantamento combinou pesquisa de campo e imagens de satélite para monitorar transformações em escala global, abrangendo 84 áreas de seis continentes entre 1984 e 2020. Análises mostraram grandes variações locais na biomassa, que oscilaram de um crescimento de 51%, nas regiões mais úmidas, a uma diminuição de 34% em zonas mais secas
Ema passeando na área de pesquisa no cerrado brasileiro, em Três Lagoas (MS).Crédito: Lucíola Santos Lannes
Por Malena Stariolo para o “Jornal da Unesp”
Quando se pensa em ambientes com rica biodiversidade, o mais comum é que venham à mente imagens exuberantes de florestas tropicais úmidas. O Brasil abriga dois exemplos celebrados mundialmente: a Amazônia, que abriga cerca de 10 mil espécies de árvores, e a Mata Atlântica, em que podem ser encontradas cerca de 140 diferentes espécies arbóreas compartilhando uma área relativamente pequena, pouco maior do que um campo de futebol. Porém, outra fonte importante de biodiversidade são as chamadas áreas campestres. Estudos chegaram a apontar que a biodiversidade presente nesses espaços écomparável àquela encontrada nas florestas tropicaise, em áreas menores do que 50 m², ela chega a apresentaruma maior variedade de espécies de plantasdo que ambientes florestados.
As áreas campestres estão em todos os continentes, com exceção da Antártica. Elas cobrem cerca de 40% de toda as terras emersas globais, e recebem muitos nomes, incluindo pradarias, pampas, estepes e savanas. Apesar de sua presença marcante, porém, as áreas campestres ainda são objeto de poucas pesquisas, o que prejudica diretamente a adoção de iniciativas e políticas públicas para a sua preservação. Segundo um estudo publicado em fevereiro deste ano pela Grasslands, Rangelands, Savannahs and Shrublands (GRaSS) Alliance, esses ecossistemas estão entre os menos protegidos globalmente ao mesmo tempo que mais da metade das áreas campestres sofreram com degradação dos seus espaços.
Em um esforço para compreender um pouco mais sobre esses ambientes, um grupo internacional de pesquisadores ligados à NutNet (Nutrient Network), uma rede global com foco em análises de áreas campestres, publicou um estudo analisando as variações desses ecossistemas nos seis continentes, ao longo de quase 40 anos. Intitulada Widening global variability in grassland biomass since the 1980s, a pesquisa foi publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, do grupo Nature, e contou com a colaboração da docente Lucíola Santos Lannes, da Faculdade de Engenharia da Unesp, campus de Ilha Solteira. Combinando análises de imagens de satélite e pesquisas de campo, o grupo pôde constatar que, enquanto regiões mais úmidas e quentes tiveram um aumento da biomassa das áreas campestres, locais secos e com menor biodiversidade apresentaram uma diminuição dessas áreas.
A biomassa é tudo o que conseguimos ver
De maneira geral, a biomassa vegetal de um ecossistema nada mais é do que a quantidade de plantas vivas presentes em uma determinada área. “Quando a planta recebe luz solar, produz fotoassimilados, como açúcares e outros componentes. Uma parte desse material é utilizada para as funções metabólicas e para a respiração, e outra é usada no crescimento da planta. A biomassa é a parte que cresce, a parte que nós conseguimos ver”, explica a bióloga.
Pela identificação dos padrões da biomassa os pesquisadores podem perceber de que maneira um ecossistema experimentou crescimento ou diminuição, e também estimar a duração da temporada do crescimento da vegetação, desde seu nascimento até a morte. Analisadas em conjunto com outros dados, como a variação de temperatura ou de chuvas, por exemplo, as informações sobre as variações da biomassa indicam tendências de desenvolvimento dos ecossistemas e apontam variações que podem ser utilizadas na elaboração de políticas públicas de preservação e restauração.
Na pesquisa, o grupo utilizou imagens de satélite para observar as alterações na biomassa de 84 regiões diferentes do planeta, coletadas entre 1984 e 2020. Para medir as alterações que ocorreram no período, foi empregado um índice de vegetação chamado NDVI, sigla para Normalized Difference Vegetation Index, ou Índice de Vegetação por Diferença Normalizada, em português. Esse indicador é utilizado em observações via sensoriamento remoto que medem a quantidade, saúde e vigor da vegetação em uma determinada área. Basicamente, o NDVI funciona como um “termômetro” da vegetação, indicando quão viva ela está a partir de cores de luz que as plantas refletem. Quando a planta está saudável, ela reflete muito infravermelho e pouco vermelho, informação que é identificada pelo NDVI para gerar uma pontuação: quanto mais alto o número, mais viva a planta está e, quando a área não tem vegetação ou a vegetação está morrendo, o número é baixo ou mesmo negativo.
Para complementar as análises feitas a partir das imagens geradas via satélite, equipes de pesquisadores espalhadas pelas 84 áreas estudadas em todo o planeta conduziram estudos de campo com o objetivo de garantir a precisão obtida pelo NDVI. “O trabalho de campo consiste em selecionar uma parcela da área estudada, cortar a biomassa e deixá-la secando no laboratório. Com a biomassa seca, nós fazemos uma pesagem e podemos identificar, por exemplo, que a biomassa de uma área é de 900 gramas por metro quadrado”, explica Lannes. Entre 2007 e 2020 o grupo realizou uma coleta anual em cada uma das regiões, comparando os resultados do campo com os obtidos pelo NDVI. Isso funcionou como uma garantia de que aquilo que era observado no satélite estava, de fato, acontecendo na terra.
Os resultados revelaram que as áreas campestres sofreram variações no mundo inteiro, e chegando a índices bastante expressivos, indo de um aumento de biomassa em até 51% em alguns lugares a um decréscimo de 34% em outros. As regiões com maiores aumentos de biomassa incluem o Ártico, noroeste do Pacífico e Europa Ocidental, enquanto áreas áridas na Austrália, Argentina e Califórnia apresentaram maiores declínios.
Embora a constatação de que o crescimento expressivo da biomassa possa parecer, inicialmente, uma boa notícia, Lannes destaca que, do ponto de vista do equilíbrio ecológico, não é necessariamente uma variação desejável. “A gente quer que a biomassa permaneça estável, não que aumente ou diminua”, diz a bióloga. Ela enfatiza que é preciso estar atento, também, aos motivos ensejando alterações. Esse é o tema de uma pesquisa que ela conduz. “A diminuição geralmente ocorre por conta da degradação ambiental. Por outro lado, o aumento da biomassa em áreas campestres não costuma ocorrer na forma de expansão da vegetação nativa, e sim por meio da sua substituição por vegetação cultivada. Em geral, são grandes monoculturas, como soja e milho. Isso não é algo desejável porque diminui a biodiversidade do ecossistema.”
O ecossistema depende da biodiversidade
“A biomassa é um dos principais componentes para a sobrevivência dos ecossistemas e para diversos processos ecológicos que ocorrem no planeta”, diz Lannes. Entre as diversas funções associadas está a ciclagem de nutrientes. Neste ciclo, a morte das plantas gera a queda das suas folhas que se depositam no solo e começam a se decompor. Isso resulta na liberação dos nutrientes que, até então, estavam contidos dentro delas, e serviam aos processos internos de respiração e crescimento. Estes nutrientes nutrem o solo, preparando o espaço para uma nova temporada de crescimento.
Outro papel importante desempenhado pela biomassa é sua ação na captura do gás carbônico, um dos principais gases de efeito estufa. Isso ocorre naturalmente durante o processo de fotossíntese das plantas, quando elas absorvem o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e liberam oxigênio. Estima-se que as áreas campestres armazenem aproximadamenteum terço dos estoques globais de carbono terrestre, o que faz desses ecossistemas importantes aliados na regulação e na mitigação das mudanças climáticas.
Para que possam cumprir de forma adequada essas e outras funções, entretanto, é essencial que essas áreas preservem sua biodiversidade, uma vez que esse fator será responsável por permitir que o ecossistema se desenvolva de maneira saudável, em especial por meio de um processo ecológico conhecido como “facilitação”. A facilitação ocorre quando características específicas de determinadas espécies permitem e favorecem o crescimento de outras. “Plantas com raízes profundas conseguem captar água em camadas subterrâneas e trazê-la à superfície. As gramíneas, com raízes curtas, podem então aproveitar essa água para facilitar seu crescimento. Além disso, elas produzem uma enzima chamada fosfatase, que libera fósforo no solo, permitindo que outras plantas se beneficiem desse nutriente para o próprio desenvolvimento”, explica.
Savana africana, em Serengeti, na Tanzania. O local é considerado uma das áreas campestres mais biodiversas no mundo. Crédtio: NutNet
A genética de cada espécie irá permitir que ela realize processos específicos, seja a captura de água, a liberação de enzimas, a fixação de nitrogênio ou algum outro. Por isso, explica Lannes, um sistema que seja biodiverso se mostrará mais resiliente às alterações climáticas. Essa resiliência permitirá que ele desempenhe funções que são aproveitadas também por atividades humanas – como no caso do sequestro de carbono ou da fixação de nutrientes no solo, que propiciam boas condições para a agricultura. Porém, quando a área é ocupada por monoculturas, o quadro é diferente. Uma vez que todas as plantas neste caso apresentam as mesmas características, elas competem pelos mesmos recursos. O resultado é um ambiente mais vulnerável, como um todo, a pragas, doenças e condições climáticas.
Padrão internacional
Um dos desafios enfrentados no campo dos estudos ecológicos é a falta de padronização na metodologia. Isso dificulta análises globais porque, ao seguir técnicas e métodos diferentes, uma pesquisa no Cerrado, por exemplo, não pode ser comparada com uma investigação feita na Tundra. Buscando solucionar essa problemática, em 2007 foi criada a Nutrient Network (NutNet), no Departamento de Ecologia, Evolução e Comportamento da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.
O projeto, que é responsável pela publicação do novo artigo, tem como foco ecossistemas de áreas campestres e é composto por ecólogos e biólogos ao redor do mundo que definiram padrões de coleta e análise específicos. O objetivo é que todos os integrantes sigam esses padrões, o que permite obter resultados comparáveis entre si, mesmo quando feitos por pesquisadores diferentes e áreas distintas.
Atualmente, a rede também conta com mais de 130 áreas campestres, em mais de 25 países espalhados nos seis continentes do globo. Lannes, que integra a rede desde 2015, é responsável por coordenar a única área brasileira da rede, localizada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, que se encontra a pouco mais de 60 km de Ilha Solteira.
Legenda: Coleta de biomassa no campo de Três Lagoas.Crédito: NutNet
Esses espaços são monitorados periodicamente, e forneceram os dados para o artigo. “Nós mantemos os protocolos padronizados, então os métodos que uso aqui são exatamente os mesmos adotados nessas mais de cem áreas. Com a coleta feita, alimentamos um banco de dados com informações como quantidade de biomassa, variedade de espécies, características do solo e incidência luminosa, entre outras informações que depois, são utilizadas nas pesquisas”, relata a docente.
Os resultados publicados até aqui representam um passo no sentido de formular uma compreensão, obtida de forma padronizada, e em um contexto global, desses ecossistemas que, de maneira geral, ainda são pouco estudados. Essas informações estão permitindo identificar as tendências gerais de mudança em diferentes partes do mundo, e assinalar regiões onde as áreas campestres estão diminuindo ou aumentando. Os próximos passos do estudo devem se debruçar sobre as causas por trás dessas alterações, e identificar quais podem ser os impactos caso as tendências continuem a evoluir da mesma maneira.
Monocultura de eucalipto reduz biodiversidade em até 30% em nascentes
Prática comum no território brasileiro, a substituição de vegetação nativa por monoculturas como o eucalipto provoca mudanças na estrutura do solo, que podem afetar o ambiente e a fauna de nascentes de rios próximas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostra que plantações de eucalipto reduziram em quase 30% o número de espécies de organismos aquáticos, entre eles insetos, encontrados em nascentes da Mata Atlântica.Os resultados da análise, publicados na sexta (2) na revista “Acta Limnologica Brasiliensia”, reforçam a qualidade ambiental de nascentes em áreas de mata preservada.
Os pesquisadores analisaram dez nascentes da bacia do rio Paraíba do Sul, em Minas Gerais, durante a estação seca de 2017 — metade em áreas com plantações de eucaliptos e a outra, com vegetação nativa. Eles coletaram amostras da água e sedimento em pontos diferentes das nascentes e analisaram a presença de macroinvertebrados aquáticos, incluindo insetos e vermes.
A pesquisa encontrou 8.474 macroinvertebrados aquáticos em áreas de florestas nativas e 5.261 em áreas de plantações de eucalipto, de 58 grupos. Embora a abundância total de macroinvertebrados não tenha diferido significativamente entre os dois tipos de vegetação, a riqueza de espécies foi significativamente menor nas áreas com plantações de eucalipto. Organismos aquáticos de seis grupos, como os trichoptera (friganídeos), psychodidae (família das moscas-de-banheiro) e tipulidae (pernilongos-gigantes), foram encontrados exclusivamente em nascentes de florestas nativas.
A presença desses grupos, especialmente sensíveis a alterações ambientais, indica que as nascentes com vegetação nativa possuem condições ecológicas mais favoráveis. Além dos macroinvertebrados, outros indicadores como cobertura vegetal, presença de matéria orgânica, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram analisados para avaliar a qualidade da água.
As florestas plantadas ocupam 9,5 milhões de hectares do país, sendo que 77,3% dessa área é de eucalipto, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é o principal exportador de celulose, e Minas Gerais se destaca como o estado com maior área de plantação de eucalipto, de 29%. Em 2022, a produção florestal foi responsável por 1,3% do PIB do país, segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária. Embora reconheça a importância do setor, a pesquisadora Sheila Peixoto, da UFJF, autora do estudo, aponta que os impactos negativos do eucalipto são bem conhecidos pela ciência. “Além dos impactos terrestres, com esse trabalho, percebemos que esse tipo de plantação afeta também as nascentes”, analisa.
Para Peixoto, a pesquisa pode incentivar as tomadas de decisão sobre a autorização, regulamentação e licenciamento de plantações de eucalipto, principalmente em áreas com nascentes. Além disso, os dados podem ser usados em futuros estudos sobre bioindicadores ambientais, que medem a qualidade da água desses ambientes.
Agora, os cientistas da UFJF pretendem focar em grupos biológicos mais sensíveis aos impactos ambientais, por meio de uma abordagem voltada para o biomonitoramento da qualidade das águas. “Vamos aumentar a coleta de dados para conseguirmos comparar a biodiversidade em nascentes com diferentes condições ecológicas”, antecipa a pesquisadora.
Os cientistas demonstraram mais uma vez que a crise climática está dizimando o único e gelado continente desabitado do mundo. Em 2023, os pesquisadores registraram a menor extensão de gelo marinho de todos os tempos na Antártica. Agora, um novo estudolançou luz sobreo papel que o colapso climático desenfreado está tendo nesta situação. De forma alarmante, está causando estragos na biodiversidade única da região polar sul.
Declínio do gelo marinho da Antártica
Em 20 de maio, os cientistas publicaramum novo estudo contundente sobre a extensão do gelo marinho na Antártida. Especificamente, revelou o papel fundamental que a crise climática teve nos níveis recorde de gelo marinho da Antártica do ano passado.
Cientistas da Pesquisa Antártica Britânica (BAS) descobriram que o aquecimento global impulsionado pelo capitalismo dos combustíveis fósseis resultou num nível mais baixo de gelo na superfície do oceano, uma vez em 2.000 anos.
Em comparação com um inverno médio das últimas décadas, a extensão máxima do mar Antártico coberto por gelo diminuiu em dois milhões km2. De forma alarmante, isto equivale a uma área quatro vezes maior que a França.
Os cientistas do BAS analisaram 18 modelos climáticos distintos. Através destes, descobriram que a crise climática quadruplicou a probabilidade de eventos de derretimento tão grandes e rápidos. Estas foram as conclusões de um novo estudo publicado na revista Geophysical Research Letters .
Crise climática, uma variável chave
Compreender a causa do derretimento do gelo marinho é complexo, pois existem muitas variáveis. Notavelmente, os cientistas disseram que a água do oceano, as temperaturas do ar e os padrões do vento podem afetá-lo.
No entanto, determinar o papel da degradação climática é fundamental. Isto é particularmente verdade, uma vez que a formação de gelo tem impactos globais, desde as correntes oceânicas até à subida do nível do mar.
Tal como o The Canaryrelatou anteriormente , embora alguns cientistas acreditem que os padrões de vento podem ser a principal causa da perda de gelo marinho na Antártida, os cientistas têm sugerido que a crise climática é provavelmente também um factor considerável. Agora, este novo estudo determina que este é o caso.
O próprio gelo marinho, que se forma a partir do congelamento da água salgada já existente no oceano, não tem impacto perceptível no nível do mar. Especificamente, isso ocorre porque a neve e o gelo são altamente refletivos. Então, quando isso dá lugar ao oceano azul escuro, a mesma quantidade de energia do Sol que foi devolvida ao espaço é absorvida pela água. É claro que isto acelera o ritmo do aquecimento global.
A principal autora do estudo, Rachel Diamond, disse à AFP que:
É por isso que estávamos tão interessados em estudar o que os modelos climáticos podem nos dizer sobre a probabilidade de ocorrerem perdas grandes e rápidas como esta.
No Ártico, o gelo marinho tem diminuído desde que os registos de satélite começaram na década de 1970. Por outro lado, a tendência de derretimento na Antártida é um fenómeno mais recente. De acordo com a BAS, o gelo marinho da Antártida aumentou “ligeira e continuamente” de 1978 a 2015.
No entanto, 2017 trouxe um declínio acentuado, seguido por vários anos de baixos níveis de gelo. Dadas estas tendências, os investigadores do BAS também fizeram projeções para ver se o gelo regressaria. Diamond disse à AFP que:
Não se recupera completamente aos níveis originais, mesmo depois de 20 anos.
Além disso, ela explicou que isso significa que:
o gelo marinho médio da Antártica ainda pode permanecer relativamente baixo nas próximas décadas
Perda de gelo impulsionando a crise da biodiversidade
A coautora Louise Sime expôs as repercussões disso em termos da crise de biodiversidade em curso. Ela disse que:
Os impactos… seriam profundos, inclusive no clima local e global e nos ecossistemas únicos do Oceano Antártico – incluindo baleias e pinguins
Por exemplo, tal como relatouo HG do The Canary em Agosto de 2023, outro estudo demonstrou as consequências devastadoras da perda de gelo marinho nas populações de pinguins-imperador. Conforme ela relatou, o estudo BAS publicado na revista Nature Communications Earth & Environment descobriu que:
em 2022, a extensa perda regional de gelo antártico causou falhas reprodutivas “catastróficas” em quatro grandes colônias de pinguins-imperadores. Esta é a primeira vez registrada que um estudo documenta um colapso tão generalizado na reprodução de colônias.
Criados nas camadas de gelo, eles morreram quando foram mergulhados no oceano antes de desenvolverem suas penas impermeáveis. Além disso, calculou que:
A perda de gelo marinho poderá levar 90% das colónias de pinguins-imperadores à extinção até ao final do século. Especificamente, este declínio devastador ocorrerá se os actuais níveis de aquecimento global continuarem.
Este novo estudo mostra mais uma vez como a intensificação da crise climática está a causar estragos. Crucialmente, está a exacerbar a subida do nível do mar, a destruir habitats vitais e a ameaçar a biodiversidade. À medida que as evidências aumentam, os riscos para as pessoas e para o planeta são cada vez maiores.
Imagem de destaque via Hannes Grobe/AWI/Wikimedia , cortada e redimensionada para 1200 por 900, licenciada sob CC BY 3.0
A Amazônia brasileira é uma das regiões de maior biodiversidade e ecologicamente importantes da Terra. No entanto, segundo um estudo que se encontra no prelo para publicação pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, os investimentos em pesquisa para a biodiversidade nos biomas amazônicos são desproporcionalmente baixos em comparação com outras regiões do Brasil (Ver figura abaixo).
Distribuição de recursos financeiros para projetos de pesquisa e bolsas entre macrorregiões brasileiras. As bolsas representam o número de bolsas individuais de mestrado, doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior) para a área de biodiversidade em 2022; O orçamento do projeto é o investimento realizado por Bolsas Universais financiadas pelo CNPq relacionadas à Botânica, Zoologia, Ecologia e Limnologia entre 2016 e 2022; O orçamento do PELD são os recursos entregues pelo CNPq em 2020 para monitoramento de locais de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, conforme situação da instituição executora. Todos os valores foram calculados considerando a conversão monetária da moeda de 1 USD para 5,34 BRL. A coluna (A) indica os valores totais; (B) a relação entre os valores totais e a população total de cada macrorregião (IBGE, 2022); e (C) a relação entre os valores totais e a área total (km²) de cada macrorregião.
Os autores do estudo mostram que em 2022, a Amazônia recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.
Além disso, os dados levantados pelos autores do estudo mostram que as instituições amazônicas receberam aproximadamente 10% de todo o orçamento federal gasto em subsídios e bolsas de estudo e cerca de 23% de todos os recursos destinados ao apoio a sítios ecológicos de longo prazo. Por outro lado, as cidades de Manaus e Belém concentram cerca de 90% de todas as bolsas e bolsas disponíveis para toda a região.
Um fato relevante que é mostrado no estudo é que, apesar do investimento per capita em pesquisa na Amazônia ser igual ou melhor do que o disponível para as regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, a distribuição de recursos por área é altamente desigual.
Finalmente, os autores do estudo argumentam que o aumento do financiamento da pesquisa para a região amazônica requer contribuições diferenciadas das agências federais e mais colaborações transnacionais e integração entre programas amazônicos e fundos internacionais.
Desmatamento é ameaça para a extinção de mais de 80% das espécies de árvores da Mata Atlântica como o pau-brasil, a araucária e o palmito-juçara
As Listas Vermelhas de Espécies Ameaçadas ajudam a tomar decisões sobre investimento em tempo e recursos de conservação da biodiversidade. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) e instituições parceiras publicado na quinta (11) na revista científica “Science” organizou uma lista vermelha de espécies de árvores da Mata Atlântica com risco de extinção e concluiu que 82% das quase 2500 espécies exclusivas desse bioma estão ameaçadas.
A Lista Vermelha contém quase 5000 espécies de árvores que ocorrem na Mata Atlântica e foi organizada a partir de três milhões de registros de herbários, inventários florestais e informações sobre biologia e ecologia das espécies. Muitas árvores emblemáticas do bioma foram classificadas como espécies ameaçadas de extinção, como o pau-brasil, a araucária, o palmito-juçara, o jequitibá-rosa, o jacarandá-da-Bahia, o angico e a peroba.
A pesquisa também classificou 13 espécies de árvores que ocorrem apenas na Mata Atlântica e em nenhum outro lugar do mundo, as chamadas espécies endêmicas, como possivelmente extintas. Por outro lado, cinco espécies que antes eram consideradas extintas na natureza foram redescobertas, caso da Campomanesia Lundiana e da Myrcia neocambessedeana.
Renato Lima, professor da USP e autor do artigo, explica que “o quadro geral é muito preocupante”, pois a maioria das espécies de árvores da Mata Atlântica foram classificadas em algumas das categorias de ameaça da União Internacional de Proteção da Natureza (IUCN), em decorrência da perda de suas florestas e árvores.
A construção da lista de espécies ameaçadas da Mata Atlântica se baseou em diferentes critérios da IUCN, inclusive alguns que incorporam os impactos do desmatamento. “Se tivéssemos usado menos critérios da IUCN nas avaliações de risco de extinção das espécies, o que geralmente tem sido feito até então, nós teríamos detectado seis vezes menos espécies ameaçadas”, avalia Lima.
Segundo destaca o estudo, a maioria das avaliações de risco de extinção disponíveis na IUCN se baseia apenas na distribuição geográfica das espécies, mas o declínio no número de árvores adultas causado pelo desmatamento é a principal causa de ameaça das espécies. “O uso desses critérios associados ao desmatamento aumenta drasticamente o nosso entendimento sobre o grau de ameaça das espécies da Mata Atlântica, que é bem maior do que pensávamos anteriormente”, finaliza o pesquisador.
Os cientistas fizeram ainda projeções sobre o impacto da perda de florestas em escala global, que incluíram as áreas de florestas tropicais. “As projeções indicam que entre 35% e 50% das espécies de árvores do planeta podem estar ameaçadas apenas devido ao desmatamento”, comenta Hans ter Steege, pesquisador co-autor do trabalho, do Naturalis Biodiversity Center, na Holanda.
O estudo considerou apenas o desmatamento e não as ameaças futuras, como as mudanças climáticas, que podem acelerar os riscos de extinção de espécies. Para garantir a conservação de espécies, os pesquisadores propõem como alternativas a conservação das espécies em jardins botânicos e bancos de material genético, além dos chamados Planos de Ação Nacionais (PANs), instrumentos de promoção de políticas públicas direcionadas à conservação e a recuperação de espécies ameaçadas no Brasil, em especial àquelas em risco iminente de desaparecer.
Outra saída para reverter as perdas de espécies de árvores na Mata Atlântica é a restauração florestal, explica André de Gasper, professor da Universidade Regional de Blumenau (FURB) e coautor do estudo. “Projetos de restauração, em áreas abertas ou em fragmentos degradados, podem selecionar preferencialmente as espécies regionais mais ameaçadas da Mata Atlântica, visando estimular a produção de sementes e mudas destas espécies e a recuperação das suas populações de árvores na natureza”, diz o autor.
Nova espécie batizada de Scobinancistrus raonii foi descrita pela primeira vez pela ciência
A construção da barragem da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, alterou o habitat de espécies de peixes nunca descritas pela ciência. Uma nova espécie de peixe cascudo foi descoberta na região por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela está descrita em artigo publicado na segunda (30) na revista “Neotropical Ichthyology”.
O peixe tem tons de verde-oliva escuro a preto e é coberto por manchas amarelas redondas, atingindo até 17 centímetros de comprimento. Ele foi batizado de Scobinancistrus raonii, em homenagem ao líder indígena Raoni Metuktire, cacique dos caiapós, povo que vive ao longo dos afluentes do rio Xingu, nos estados do Pará e Mato Grosso. Ele é um dos ativistas indígenas mais conhecidos no mundo por sua luta pela preservação da floresta amazônica, se colocando contra, em 2010, à construção da usina de Belo Monte.
Os resultados foram obtidos após a análise de 38 exemplares desta espécie não descrita de Scobinancistrus, coletados em expedições da equipe de pesquisa ao rio Xingu. Esses peixes são conhecidos de comunidades locais e do comércio aquarista desde a década de 1980 e ganharam o apelido de tubarão, por causa do formato roliço do seu corpo. Para que se pudesse confirmar a existência de uma nova espécie, foram analisadas as tonalidades e o formato das manchas, a forma do corpo, os dentes, a boca e outras estruturas que identificam os animais.
Segundo Lúcia Rapp Py-Daniel, uma das autoras do estudo, a descrição da espécie serve para confirmar a novidade. “A gente já conhece esse bicho há muito tempo. Ele já era vendido no comércio de pesca ornamental e era um bichinho muito diferente, mas na época não sabíamos em qual gênero ele se encaixava. Foi uma surpresa ver que não conseguimos encaixá-lo em nada que conhecíamos e que se tratava de uma nova espécie”, afirma a pesquisadora do INPA.
O estudo detalha que a nova espécie de Scobinancistrus habita principalmente a área alterada pela construção da barragem de Belo Monte, em Altamira, indo desde a Volta Grande do Xingu até a confluência com o rio Iriri. A descoberta ajuda a confirmar que existem novas espécies de animais habitando a região afetada pela hidrelétrica e que, por isso, é importante garantir a qualidade da água para protegê-las.
Para Py-Daniel, o trabalho também serve para suscitar o debate em torno do controle hidrológico da região, pois algumas espécies demandam água em abundância para a sobrevivência. “A área da Volta do Grande do Xingu é extensa e tem espécies que só ocorrem lá, então qualquer alteração do ambiente natural é gravíssima”, conclui.
Os pesquisadores seguem monitorando as espécies de peixes cascudos da região. Eles esperam que a documentação contribua para que os órgãos competentes estabeleçam estratégias de conservação, “já que os peixes são muito comercializados e exportados por causa da aparência colorida e atrativa” e agora também sofrem a ameaça de alteração no seu ambiente natural, finaliza a pesquisadora.
Artigo revela preocupações dos cientistas de que o plantio de árvores de uma única espécie ameaçam a flora e a fauna nativas, ao mesmo tempo que proporcionam benefícios insignificantes no controle das emissões de carbono
A plantação de árvores tem sido considerada vital para mitigar o aquecimento global, mas a investigação sugere que muitas vezes apoia menos biodiversidade. Fotografia: Alexis Huguet/AFP/Getty Images
Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”
Os esquemas de monocultura de plantação de árvores estão a ameaçar a biodiversidade tropical, ao mesmo tempo que oferecem apenas benefícios climáticos modestos, afirmaram ecologistas, alertando que ecossistemas como a bacia da Amazónia e do Congo estão a ser reduzidos ao seu valor de carbono.
Em meio a um boom no plantio de plantações de uma única espécie para capturar carbono, os cientistas instaram os governos a priorizar a conservação e a restauração de florestas nativas em detrimento das monoculturas comerciais, e alertaram que o plantio de faixas de árvores não nativas em regiões tropicais ameaça importantes flora e fauna. para um impacto climático insignificante.
Escrevendo na revista Trends in Ecology & Evolution, os ecologistas afirmaram que a crescente popularidade das plantações comerciais de pinheiros, eucaliptos e teca nos trópicos para compensação de carbono está tendo consequências indesejadas, como o ressecamento dos ecossistemas nativos, a acidificação dos solos, a exclusão de plantas nativas e a sobrealimentação de incêndios florestais.
“Apesar da ampla gama de funções e serviços ecossistêmicos fornecidos pelos ecossistemas tropicais, a sociedade reduziu o valor desses ecossistemas a apenas uma métrica – carbono”, diz o jornal. “É amplamente assumido que a maximização dos stocks permanentes de carbono também beneficia a biodiversidade, o funcionamento dos ecossistemas e aumenta os co-benefícios socioeconómicos – mas muitas vezes este não é o caso.”
A plantação de árvores tem sido considerada uma ferramenta importante na mitigação do aquecimento global, com dezenas de iniciativas públicas e privadas em curso para aumentar rapidamente a cobertura florestal em todo o mundo para atingir as metas líquidas zero. Contudo, a investigação indica que o benefício ambiental depende fortemente da escala e do tipo de restauração e requer enormes áreas de terra. Umestudo de 2019 estimouque permitir a regeneração das florestas naturais poderia devolver 40 vezes mais carbono do que as plantações.
Jesús Aguirre-Gutiérrez, ecologista da Universidade de Oxford que liderou o artigo, disse que os cientistas decidiram dizer algo depois de testemunharem o aumento das plantações comerciais nos trópicos.
“O plantio de árvores não deve ser visto como uma alternativa à rápida redução das emissões de combustíveis fósseis”, afirmou Simon Lewis, da University College London. Fotografia: Gabriela Biro/Alamy
“Realizamos muito trabalho de campo nos trópicos para pesquisar o que está acontecendo com as mudanças climáticas e vimos por nós mesmos o boom dessas plantações: tecas, coníferas e eucaliptos, apenas uma ou duas espécies”, disse ele. “Estes esquemas são uma vitória para a empresa que planta estas árvores, mas não para a biodiversidade. Este é o início deste fenômeno, daí a gravidade da situação.”
O documento estima que uma plantação com a dimensão combinada dos EUA, China, Rússia e Reino Unido teria de ser plantada para sequestrar um ano de emissões.
Embora as plantações sejam muitas vezes mais viáveis economicamente do que as florestas em pé, o documento destaca que muitas vezes sustentam um nível mais baixo de biodiversidade. Por exemplo, na savana brasileira do Cerrado, um aumento de 40% na cobertura florestal reduziu a diversidade de plantas e formigas em cerca de 30%.
Simon Lewis, professor de Ciência das Mudanças Globais na University College London, disse que é perigoso tratar as árvores como “nada mais do que pedaços de carbono”.
“É claro que as plantações são necessárias para os produtos de papel e madeira de que a sociedade necessita, mas rebatizar as plantações industriais como compensações de carbono é mais um problema do mercado não regulamentado de compensações de carbono. A plantação de árvores não deve ser vista como uma alternativa à rápida redução das emissões de combustíveis fósseis”, afirmou.
Thomas Crowther, professor de ecologia na ETH Zurique, coautor de um artigoque descobriu que existem 900 milhões de hectares (2,2 bilhões de acres) de terra fora de áreas urbanas e agrícolas adequadas para florestas, disse que colocar o valor do carbono de um ecossistema acima de tudo o resto estava errado.
“Sempre que valorizamos uma parte da natureza mais do que qualquer outra, incentivamos a propagação dessa parte em detrimento de todo o resto”, disse ele. “Historicamente, valorizamos as peças que usamos para alimentos, madeira, medicamentos, etc., mas agora estamos fazendo a mesma coisa com o carbono.”
Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
O governo Lula parece apostar em um aumento significativo das contribuições dos países ricos para desacelerar o processo de destruição da Amazônia, principalmente pelo aumento dos aportes no chamado “Fundo Amazônia”.
Essa fórmula está fadada ao fracasso, na medida em que são os próprios países ricos que geram as demandas por commodities agrícolas e minerais que constituem parte substâncial das razões pelas quais as florestas amazônicas estão sendo destruídas. Assim, a demanda por esses aportes em nome de uma suposta reparação pelo controle ambiental tem tanta chance de sucesso quanto solicitar às redes criminosas que operam na Amazônia que deixem de fazer isso em nome da paz social na região.
Por outro lado, a aposta “do pires na mão” esconde o fato que o Brasil possui reservas cambiais que poderiam ser mobilizadas para acelerar a adoção de pesquisas científicas e de políticas públicas que fortaleceriam o uso inteligente da biodiversidade contida nas floresta amazônicas. Mas o governo Lula, como todos os outros anteriores, prefere guardar essas reservas para continuar garantindo o funcionamento do cassino financeiro em que o nosso país foi transformado.
A esperança de qualquer mudança significativa na forma de usar recursos amazônicos claramente não está nos governos da região amazônica, mas nas populações indígenas e tradicionais que precisam da floresta para continuar existindo. Apoiar essas populações e suas organizações acaba sendo o que nos resta fazer diante da retórica que promete sustentabilidade por um lado, apenas para planejar e executar projetos de destruição.
Todos os biomas do Brasil estendem suas fronteiras para além do limite do país, com exceção da Caatinga, que é o único bioma 100% brasileiro, com predomínio no Nordeste. Mas seu rico patrimônio biológico está ameaçado. Segundo dados da pesquisa Contas de Ecossistemas, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Caatinga tem pelo menos 481 espécies de plantas e animais com risco de extinção, o que torna o bioma o terceiro mais ameaçado à sobrevivência da fauna e flora no País, perdendo apenas para o Cerrado e para a Mata Atlântica, respectivamente.
O estudo analisou 3.220 espécies da Caatinga e concluiu que 15% corre o risco de desaparecimento. O bioma conta com aproximadamente 5.311 tipos de plantas e animais únicos, como o famoso tatu-bola, a jaguatirica e o carcará. “Se engana profundamente quem acredita que a Caatinga é um bioma pobre, seu ecossistema é valioso e não é encontrado em nenhuma outra região do mundo”, destaca Samuel Portela, coordenador técnico da Associação Caatinga.
Segundo Samuel Portela, entre as principais causas dessa devastação estão o uso de lenha como matriz energética e as queimadas para cultivos agrícolas. “Essas ações vão, aos poucos, diminuindo as florestas, matando as plantas e ameaçando o habitat natural dos animais”, explica o coordenador.
Segundo a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado (Sema), no Ceará, existem 55 espécies ameaçadas de extinção. Esses animais estão incluídos em uma chamada lista vermelha, que conta com cinco categorias: tartarugas marinhas, mamíferos marinhos, aves, anfíbios e répteis e mamíferos terrestres.
A Associação Caatinga desenvolve diversas iniciativas para preservar o ecossistema. Entre elas está o projeto “RPPN: Conservação voluntária: gerando serviços ambientais”, que visa ampliar e aprimorar a gestão de áreas protegidas legalmente, com foco nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). “Existem hoje mais de 1.850 RPPNs no Brasil, protegendo mais de 833.000ha de áreas, sendo 44 no Ceará e 8 no Rio Grande do Norte. Estamos focando nesses dois estados, já que eles possuem quase a totalidade dos seus territórios inseridos na Caatinga e apresentam preocupantes dados de desmatamento acumulado”, declara Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga.
O projeto busca realizar a prospecção de áreas para a criação de futuras RPPNs, elaborar e revisar planos de manejo, realizar cursos de capacitação e apoiar a implementação das ações dos planos de manejo de unidades de conservação já existentes. O “RPPN: Conservação voluntária gerando serviços ambientais” é realizado pela Associação Caatinga e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.
Sobre a Associação Caatinga
A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é promover a conservação das terras, florestas e águas da Caatinga para garantir a permanência de todas as suas formas de vida. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.