Agronegócio e mercado financeiro avançam, de mãos dadas

Financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária

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Montagem sobre foto de Rosilene Miliotti / FASE

Por Leonardo Furhamann para o site “O Joio e o Trigo”

Para ‘facilitar’ a compra de geladeiras, TVs e outros bens, as redes de lojas de departamentos, como as Casas Bahia e o Magazine Luiza, têm seus próprios cartões para o financiamento dos bens adquiridos. Algumas ainda ofertam os tradicionais carnês, com os juros embutidos no parcelamento do valor das compras. As montadoras de automóveis também mantêm seus bancos, assim cuidam das operações financeiras relacionadas à aquisição e troca de carros. 

Apesar de menos visível ao consumidor, o agronegócio também vive uma expansão das atividades financeiras nas mais diversas etapas de sua produção. Os negócios são amplos. Vão desde a aquisição de terras até a comercialização da safra, muitas vezes paga adiantada ao produtor, e envolvem internacionalização das propriedades, seja pela aquisição, seja pelo arrendamento. 

Os principais alvos dessa cadeia globalizada e com grande participação de agentes do mercado financeiro são as commodities, produzidas principalmente pelo agronegócio, e os minérios. Duas riquezas abundantes no Brasil de hoje e que recebem uma atenção especial de uma parcela expressiva do Congresso Nacional e do Executivo, que buscam torná-las ainda mais lucrativas para quem especula no país.

Fundos de pensão na agropecuária

Tal financeirização se dá pela entrada de fundos de pensão e de investimentos nos negócios da cadeia agropecuária, como explica o professor Sérgio Pereira Leite – do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA-UFRRJ).

Os fundos podem participar diretamente na aquisição de terras ou no arrendamento de conjuntos de propriedades. Esses investimentos também podem ser feitos em empresas de maquinários e insumos e, depois, nos mecanismos de estocagem e comercialização do produto no mercado internacional. Como cada etapa pode gerar títulos e a garantia, em última análise, seria o produto final, existe uma multiplicação dos títulos relacionados a um mesmo produto. “Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas”, afirma. Assim, os negócios dos títulos se tornam mais importantes do que a produção em si, pois geram mais riqueza.

“Uma saca de soja produzida gera uma especulação em valor equivalente a mais de dez sacas.”

Tudo isso sem falar em processos de industrialização e na formação de novas cadeias. A soja, por exemplo, é produto na cadeia de plantio e se torna insumo quando entra na produção de ração para a produção de proteína animal.

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Um dos primeiros impactos da especulação no campo, segundo ele, é a valorização estratosférica do preço das terras, principalmente naquelas regiões que antes eram pouco exploradas pelo agronegócio, tratadas por eles como “novas fronteiras agrícolas”.

Um relatório feito pela ONG inglesa Planet Tracker e divulgado pelo site Mongabay, mostra que sete empresas de investimento seriam capazes de reduzir o desmatamento por conta da grande participação delas no mercado de soja. Elas são gestoras de fundos negociados em bolsas (ETFs, na sigla em inglês).

Segundo o levantamento, US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento. Os ETFs chegaram a um valor coletivo de US$ 6,7 trilhões de no segundo semestre de 2020. O relatório aponta que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. 

O estudo da Planet Tracker afirma ainda que o investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. Para além da questão ambiental, os dados mostram também o peso da financeirização no agronegócio global. Além de estarem presentes nas bolsas internacionais, esses fundos foram regulamentados no Brasil em 2002. Atualmente, são oferecidos pouco mais de 20 ETFs na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.

Expulsão e violência no campo

A situação fica clara quando é analisado o aumento de preço das terras no Matopiba (região que inclui partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que inclui a parte oeste destes estados do Nordeste e a leste do Tocantins e é chamada pelo agronegócio de uma das novas fronteiras agrícolas do país. 

Entre 2004 e 2017, época em que a inflação foi de 120%, as terras em Imperatriz e Açailândia, ambas no Maranhão, tiveram uma valorização de 594%; em Santa Maria (BA), 483%; Gurupi (TO), 471%; e Balsas (MA), 452%.

A média na região, segundo o estudo citado por Leite, foi de 390%. “Esta busca obsessiva por novos territórios está ligada ao desmatamento, à expulsão de povos originários e tradicionais de seus territórios e a violência no campo”, afirma.

Outras áreas que são alvo da valorização confirmam a relação direta com a expulsão das comunidades e o desmatamento, como a região de Humaitá, no Amazonas, Santarém, no Pará, e o Meio-Norte do Mato Grosso. “As terras se transformaram praticamente em um ativo financeiro”, comenta Leite. 

A situação trouxe mais jogadores para próximo da roleta. A tendência é global. Nos doze anos, segundo dados da Global Advisors, o número de fundos de investimento que atuam no setor agrícola e alimentício internacionalmente subiu de 38 para 441. Em 2017, eles geriam juntos cerca de US$ 73 bilhões. Fazem parte desse grupo de investidores os fundos de pensão soberanos, instituições bancárias, seguradoras, grupos de investimento familiar e grandes corporações, por exemplo. O objetivo principal dessa atuação é o estoque de riqueza.

Sul do Piauí. Foto: Rosilene Miliotti / FASE

Baixo custo de investimento

A falta de uma legislação capaz de controlar a atuação desses fundos e o custo relativamente baixo do investimento tornam o Brasil atrativo, assim como a Ucrânia e alguns países africanos. “Hoje, estima-se que 8,5 milhões de hectares no Brasil são controlados direta ou indiretamente por empresas estrangeiras”, afirma Leite. A conta inclui empresas que são subsidiárias locais de multinacionais, subsidiárias de holdings com atuação no Brasil e subsidiárias de holdings com sede fora.

O foco dessas empresas é em commodities, produtos que são colocados no mercado internacional com preços operados em bolsa, sem distinção de qualidade ou pela forma como é produzido. Além da soja, carne bovina, algodão, cana-de-açúcar e as madeiras pinus e teca são commodities internacionais. Esses produtos também concentram os subsídios públicos. No Sistema Nacional de Crédito Rural, de 60% a 75% dos recursos agrícolas são investidos em apenas quatro produtos: soja, café, cana e milho. 

Professora visitante da Universidade Federal do ABC, de São Paulo, Yamila Goldfarb destaca que, diferentemente do discurso apresentado pelo agronegócio, o setor cria poucos recursos para as contas públicas. “Além de contar com subsídios nas operações de crédito e isenções fiscais, com a Lei Kandir, de meados dos anos 1990, a arrecadação com a exportação de commodities passou a ser pífia”, afirma. 

Ela lembra que estados como São Paulo também isentam a compra de agrotóxicos da cobrança do ICMS. Outras mudanças na legislação tornaram a exportação de commodities a partir do Brasil mais atraente para os investidores internacionais, como as seguidas facilitações da regularização fundiária, que beneficiam grileiros e colocam mais terras no mercado.

Financiamento para aquisição

Essa mudança no perfil do capitalismo faz com que o agronegócio se preocupe cada vez menos com o abastecimento do mercado interno de alimentos, principalmente em países menos ricos, como é o caso do Brasil, afirma o defensor público de São Paulo Marcelo Carneiro Novaes. “O capitalismo financeiro não precisa de mercado consumidor e, por isso, é indiferente a questões de geração de emprego e renda”, diz. 

Ele explica que “o lucro das grandes empresas de insumos está mais ligado ao financiamento para aquisição do que ao produto em si. Quando você fala de um fundo como o Blackrock, que geria US$ 8,68 trilhões em janeiro deste ano, você vê como esses valores se deslocaram completamente da base material”, afirma. Esse valor é maior, por exemplo, do que o Produto Interno Bruto (PIB) de países como Alemanha e Japão.

Novaes cita como exemplos desse mercado os contratos de hedge (contratos antecipados de venda com valor fixado, são garantidores para grandes quedas de preço ou mudanças no câmbio), letras de crédito (são títulos emitidos pelos bancos para financiamento da atividade agropecuária, no caso) e cédulas de produto rural (títulos emitidos por produtores ou suas cooperativas, inclusive para bancos, rastreados na produção). As letras de crédito do agronegócio (LCA) começaram a ser emitidas em 2005 e são títulos oferecidos de renda fixa oferecidos por bancos. 

Criada nos anos 1990, a cédula de produto rural é emitida pelo próprio produtor. “São negócios com pouca ou nenhuma tributação e valores que entram e saem dos países livremente”, explica. Além disso, ao se ligarem à produção de commodities, as empresas e fundos também se beneficiam de isenções e subsídios dados pelo governo. Para ele, os grandes arrendamentos feitos por investidores fazem com que latifundiários possam ter grande lucro sem risco ou preocupação nenhuma. 

Em cooperativas, condições piores

No meio desse movimento, as cooperativas de crédito também se tornaram uma opção de negócio para produtores de médio e grande porte. As cooperativas de financiamento existiam desde o início do século passado, mas ganharam força principalmente a partir de meados dos anos 1990. O negócio envolve conseguir taxas melhores de juros e outras vantagens ligadas à entrada no mercado financeiro e uma melhor margem em negociações conjuntas. 

A antropóloga Luciana Schleder Almeida, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), pesquisou a vida dos produtores em Lucas do Rio Verde e Sorriso, ambos no Mato Grosso. “A entrada nas cooperativas é um privilégio dos grandes, os menores seguem dependendo de outras formas de financiamento, com condições piores”, afirma. 

Em municípios como esses, onde é grande a influência do agronegócio, segundo ela, a própria entrada em uma cooperativa de crédito de produtores se torna um sinal de status, parecido com a participação em outras entidades associativas locais. “Muitas vezes, os produtores menores também têm dificuldade de obter taxas menores em bancos públicos, o que faz com que eles passem a depender do financiamento das tradings”, explica.

Participação na política do agronegócio

O antropólogo Caio Pompeia, autor do livro Formação Política do Agronegócio (Editora Elefante e O Joio e O Trigo), vê uma maior participação dos agentes financeiros na atuação política do agronegócio na última década. A mudança é gradativa, mas já apresenta os primeiros sinais tanto na participação em entidades como nas pautas que defendem. “Os grandes bancos de varejo, até por uma questão de imagem, preferem atuar em grupos que têm a pauta ambiental junto”, diz.  

O Instituto Pensar Agro, ligado à Frente Parlamentar da Agropecuária, já tem entre seus sócios uma federação de seguradoras e uma cooperativa de crédito. “A bancada ruralista está defendendo mais programas de seguro rural, com uma forte participação de subsídios públicos, e deixando um pouco de lado a bandeira dos financiamentos públicos”, analisa. 

A FPA é a bancada que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional. Formado por entidades representativas de diferentes setores do agronegócio, o Instituto Pensar Agro se firmou como o braço empresarial da atuação da FPA. O ex-deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que já presidiu a FPA, foi eleito em fevereiro deste ano o presidente do instituto.

Os interesses e esforços da bancada ruralista na regularização de mais terras e no repasse de parte delas para fundos estrangeiros. No ano passado, o Senado aprovou, com relatório do atual presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), um projeto de lei para facilitar a aquisição de terras no Brasil por pessoas e empresas estrangeiras. O autor da proposta é Irajá Abreu (PSD-TO), filho da também senadora Katia Abreu (PP-TO), ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff e ex-presidente da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA).

Irajá também chegou a ser um dos relatores da MP da Grilagem, como foi chamada ironicamente por organizações ambientalistas sob o pretexto que beneficiava infratores ambientais. A Medida Provisória 910, anunciada pelo governo Bolsonaro, pretendia facilitar a regularização fundiária em terras públicas que foram invadidas e desmatadas de até 2,5 mil hectares. 

Mais do que interesses corporativos, a família Abreu e seus aliados têm interesse direto nos temas. Em abril de 2018, o empresário Moises Pinto Gomes, atual marido de Katia, esteve numa feira de negócios no Qatar para oferecer oportunidade a empresários locais. A mais vistosa delas, o Fundo Matopiba, criado para aquisição de terras e produção agrícola no Brasil. O fundo teria US$ 500 milhões, a serem aplicados na aquisição de fazendas a serem preparadas e aprimoradas para a produção de grãos (arroz, soja, sementes e milho) e o objetivo de gerenciar e operar a produção antes da alienação de terras e operações agrícolas.

Gomes esteve no Qatar pela empresa Agroinvest Brasil, criada em 2015, no mesmo ano em que se casou com a então ministra da Agricultura. Na empresa, ele é sócio do advogado Arno Jerke Junior, assessor parlamentar da senadora desde julho de 2018. Jerke é um colaborador de confiança da senadora. Pelas mãos de Katia, ele ocupou a Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Cooperativismo do Ministério da Agricultura e depois a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Antes, havia sido advogado da CNA e coordenador técnico do instituto ligado à entidade.

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Este texto foi originalmente publicado pelo site “O Joio e o Trigo”  [Aqui!].

Chance de reduzir desmatamento está nas mãos de apenas sete empresas de investimento, aponta relatório

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  • Os fundos ETFs (exchange-traded funds) e os fundos de índice são algumas das ferramentas de investimento mais populares disponíveis tanto entre investidores individuais quanto institucionais.

  • Algumas poucas empresas de gestão de ativos controlam entre 60% e 70% desses fundos, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker.

  • A análise da Planet Tracker descobriu que US$ 9,3 bilhões de ETFs são investidos em 26 empresas envolvidas com o comércio de soja e ligadas ao desmatamento.

  • O relatório conclui que as empresas financeiras nas quais as ETFs e os fundos de índice estão concentrados são fundamentais para combater o apoio financeiro ao desmatamento.

Por John C. Cannon em 9 Março 2021 | Traduzido por Carol de Marchi

Os fundos negociados em bolsa, ou ETFs, varreram o mundo financeiro, chegando a um valor coletivo de 6,7 trilhões de dólares no segundo semestre de 2020. Um ETF é uma espécie de híbrido entre uma ação facilmente negociável de uma única empresa e um fundo mútuo diversificado e de baixo custo que espalha o risco do investidor entre uma seleção de diferentes empresas.

Aparentemente uma solução ideal e atrativa tanto para investidores individuais quanto institucionais, essa prática equivale a apoiar o desmatamento e outros danos ambientais, de acordo com um relatório recente da think tank financeira Planet Tracker, sediada em Londres.

O relatório descobriu que 70% do mercado de ETFs está nas mãos das empresas financeiras americanas BlackRock, State Street Global Advisors e Vanguard. A respeito dos fundos de índice — que rastreiam os principais indicadores do mercado, como o S&P 500 em Nova York ou o FTSE em Londres e que possuem muitos ETFs vinculados a eles —, quatro empresas detêm 60% do mercado. Os principais participantes são Bloomberg, MSCI e S&P Dow Jones, sediadas nos EUA, e a FTSE Russell, baseada no Reino Unido.

Esse nível de influência significa que essas empresas têm uma enorme oportunidade de diminuir o apoio financeiro para as empresas que desmatam florestas — se elas optarem por fazê-lo, segundo John Willis, principal autor do relatório.

Land recently cleared to make way for oil palm in Indonesia. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Terra desmatada para dar lugar a plantação de palma na Indonésia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Os fundos de índice, e especialmente os ETFs, têm crescido em popularidade nas últimas décadas. O investimento total nestes produtos em 2020 foi cinco vezes maior do que em 2010. “Eles ainda estão crescendo a um ritmo fenomenal”, observa Willis.

Para se ter uma ideia da escala de apoio das ETFs ao desmatamento, Willis e seus colegas analisaram 26 empresas de capital aberto que produzem ou processam soja, e que também possuem vínculos com o desmatamento segundo uma lista ranqueada de empresas compilada pela plataforma de pesquisa Deforestation-Free Funds. A produção de soja está logo atrás da criação de gado como a maior força por trás do desmatamento nos trópicos, causando a perda de meio milhão de hectares de floresta a cada ano. A análise da Planet Tracker revelou investimentos no valor de US$ 9,3 bilhões de ETFs nessas empresas em meados de 2020.

Como esses mercados estão altamente concentrados nas mãos de apenas algumas empresas, eles “juntos têm poder desproporcional para atenuar o risco de desmatamento (bem como outros riscos de capital natural) no mercado de ETFs”, escrevem os autores do relatório da Planet Tracker. 

Cattle, pictured here in the Bolivian Chaco, are the primary driver of tropical forest loss. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Rebanho bovino no Chaco boliviano; a pecuária é a principal responsável pela perda de cobertura de floresta tropical no mundo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Redução imediata do desmatamento

Willis e seus colegas argumentam que esses gerentes de ativos deveriam livrar-se rapidamente de “empresas ligadas ao desmatamento em suas ofertas de produtos”. Eles também defendem os direitos dos consumidores de saber para onde seu dinheiro está indo.

Com os fundos de índice, essa transparência é descomplicada. Um investidor em um fundo de índice S&P 500 possui fatias de todas as 500 empresas que compõem o indicador mais conhecido do mercado de ações dos EUA. Como o mercado de ETF cresceu — e com ele a concorrência para clientes que procuram investimentos fáceis e de baixo custo —, as empresas financeiras desenvolveram instrumentos por vezes complicados a fim de obter os maiores retornos. As escolhas de investimentos feitas pelos gerentes acabam ficando camufladas nesses fundos, da mesma forma que a Coca-Cola protege a receita de seu refrigerante. A justificativa é que sua mistura especial de empresas é um segredo de propriedade que eles não querem que outras empresas de investimento roubem, nem querem avisar outros investidores sobre grandes ordens de compra ou venda que possam estar chegando.

“Essa falta de clareza significa que os investidores não têm como saber se esses fundos estão apoiando empresas com desmatamento em suas cadeias produtivas”, afirma Willis. “Como investidor, a primeira coisa que eu acho que preciso saber é: o que estou comprando? Porque em muitos casos, eu não comprarei”.

Para Willis a questão da escolha está relacionada à transparência. As empresas financeiras poderiam — e até certo ponto o fazem — fornecer fundos que não incluam investimentos em empresas que prejudiquem o meio ambiente, normalmente sob uma categoria conhecida como ESG, abreviação de Ambiental, Social e Governança (corporativa), em inglês.

De acordo com Willis, os gerentes desses fundos poderiam ir ainda mais longe, usando sua influência para convencer os próprios índices a excluir de suas carteiras as empresas ligadas ao desmatamento. Os investimentos das gestoras de ativos se espalham em muitos setores da economia. “Com essa abrangência, elas também têm a capacidade de orientar a direção dessas empresas”, escreve a equipe da Planet Tracker. Como outros acionistas, elas podem votar em propostas que tratem de questões como o desmatamento. Até recentemente, no entanto, os gerentes da ETF têm se mantido, em grande parte, fora dessa discussão.

Os autores do relatório apontaram para as descobertas das ONGs Profundo e Friends of the Earth U.S. analisando o impacto das empresas de gestão de ativos após o Fórum de Bens de Consumo, uma rede mundial de empresas sediada na França, comprometida em 2012 com o desmatamento líquido zero para seus países membros até 2020. As pesquisas das ONGs revelaram que, até setembro de 2020, BlackRock, State Street e Vanguard haviam se abstido ou votado contra 16 resoluções de acionistas destinadas a combater o desmatamento nas cadeias de fornecimento dessas empresas. 

Deforestation for soy plantations in the Peruvian Amazon. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento para plantação de soja na Amazônia peruana. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

A resposta

Várias das empresas financeiras listadas no relatório da Planet Tracker disseram à Mongabay que estão trabalhando para gerar mudanças.

“A equipe de Administração de Investimentos se envolve regularmente com executivos e conselhos, incluindo discussões com empresas relevantes sobre desmatamento e seus riscos para a sustentabilidade empresarial a longo prazo”, disse um porta-voz da Vanguard por e-mail. “Se uma empresa não fizer progressos para enfrentar tais riscos, nós os responsabilizaremos para promover e proteger o valor a longo prazo para nossos investidores.”

Um porta-voz da S&P Dow Jones disse que ela monitora “a evolução do mercado e a demanda dos investidores” para desenvolver novos índices adequados às exigências de seus clientes. “Por exemplo, oferecemos índices focados no meio ambiente destinados a atingir certas metas de sustentabilidade e excluímos empresas que não atingem essas metas”, disse o porta-voz da S&P por e-mail.

A Bolsa de Valores de Londres recusou-se a comentar o relatório. A Bloomberg, MSCI e State Street não responderam aos pedidos de entrevistas ou comentários.

Até o momento, poucos líderes financeiros participaram mais da conversa em torno do crescente mercado de ESG do que Laurence D. Fink, fundador e CEO da BlackRock. Em 2020, sua carta anual aos CEOs das empresas nas quais a BlackRock está investindo se concentrou na mudança climática, e especificamente em como ela afetará os balanços.

“Os investidores estão cada vez mais considerando estas questões e reconhecendo que o risco climático é um risco de investimento”, escreveu Fink.

No ano seguinte, a BlackRock diz ter acrescentado 51 ETFs de índice com foco no ESG a seu menu, com o objetivo de alcançar 150 ofertas desse tipo. (No final de janeiro de 2021, ela tinha 141 “soluções” ESG, de acordo com o site da empresa). Fundos como a Economia Circular BGF  prometem aos investidores que 80% de seu dinheiro irá apoiar as empresas que fazem parte da ética da “economia circular” minimizadora de resíduos. Os gestores do fundo também não compram participações em empresas relacionadas a petróleo, carvão e gás.

Recently cleared forest in the Bolivian Chaco for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.
Floresta recém desmatada no Chaco boliviano para cultivo de soja. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Em uma entrevista ao Aspen Times logo após a carta de Fink ter sido publicada em 2020, o ambientalista e autor Bill McKibben observou “a notícia bastante notável de que, após a pressão inflexível dos ativistas, a BlackRock está agora intensificando seus esforços para pelo menos começar a fazer algo a respeito da mudança climática”.

“Precisamos de muito mais do que isso”, acrescentou McKibben.

Ainda assim, Fink e a BlackRock foram criticados por não se movimentarem antes para abordar o apoio financeiro a emissores de CO2 e empresas de combustíveis fósseis. A recente preocupação da empresa em questões de ESG foi chamada de nada mais do que uma lavagem verde“.

Uma investigação realizada em 2020 pelo site de jornalismo ambiental ((o))eco descobriu que a BlackRock tinha investido mais de US$ 400 milhões através de vários fundos nos três maiores frigoríficos do Brasil. Coletivamente, as operações de gado da JBS, Marfrig e Minerva foram ligadas a 69 mil quilômetros quadrados de terra  sob o risco de desmatamento na Amazônia.

Além disso, uma investigação realizada pela Mongabay América Latina e Repórter Brasil revelou que a BlackRock investiu quase US$ 10 milhões na JBS, o maior exportador de carne do mundo, através de seu fundo Carbon Efficient Index. Embora não esteja na lista da BlackRock de ETFs de ESG, este fundo acompanha um índice brasileiro para empresas que adotam “práticas transparentes em relação às suas emissões de gases de efeito estufa”, de acordo com a ficha da BlackRock. Os documentos informativos do fundo não fazem nenhuma menção aos gases de efeito estufa contendo carbono emitidos como resultado do desmatamento.

Forest clearance in Bolivia for soy plantations. Image by Rhett A. Butler/Mongabay.

Desmatamento florestal para plantações de soja na Bolívia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay

Desmatamento em segundo plano

Ainda assim, a carta de Fink de 2021 foi muito esperada, refletindo a influência do maior gestor de ativos do mundo e sua carteira de 7 trilhões de dólares. Fink se baseia no conceito de zero líquido, no qual as empresas e os países trabalham para equilibrar suas emissões de carbono, ao mesmo tempo em que afirmam que é possível, sim, fazer dinheiro nessa mudança.

“Acreditamos também que a transição climática apresenta uma oportunidade histórica de investimento”, escreveu ele.

No entanto, não há qualquer menção ao desmatamento na carta deste ano nem na missiva de 2020. Após críticas sobre seu registro de voto como acionista, a BlackRock diz ter votado a favor de uma proposta relacionada ao desmatamento na reunião da Procter & Gamble em outubro de 2020. A proposta pediu à P&G que relatasse seus esforços para eliminar suas conexões com o desmatamento e a degradação florestal, especificamente em suas cadeias de fornecimento de celulose de madeira e de óleo de palma.

De forma geral, a BlackRock diz ter votado a favor de oito das nove propostas de acionistas relacionadas ao meio ambiente desde julho de 2020. A BlackRock se recusou a comentar publicamente este artigo.

Como McKibben, Willis afirma que, ainda que possuam os meios para saber quais investimentos acarretam riscos de desmatamento, empresas como a BlackRock têm que ser convencidas por ONGs e ativistas de que vale a pena confrontar cadeias de fornecimento causadoras de desmatamento, como as que produzem o fornecimento mundial de óleo de palma, borracha, madeira, gado e soja.

“Eles poderiam se dar ao luxo de fazer a pesquisa para fazer isso”, disse Willis. Com essas informações, então, quão complicado seria afastar esse risco de seus portfólios?

“Você poderia apertar um botão”, disse ele, “se você realmente quisesse”.

Imagem do banner: rebanho bovino na Colômbia. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

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Este texto foi originalmente publicado pela agência de notícias Mongabay [Aqui!].

Estudo revela como BNDES e Black Rock financiam a violência contra indígenas no Brasil

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Fernanda Wenzel e Pedro Papini

Entre janeiro de 2017 e junho de 2020, nove empresas associadas à invasão ou pressão sobre terras indígenas na Amazônia receberam 63,2 bilhões de dólares em investimentos. Aplicado nas companhias com a perspectiva de rentabilidade, o dinheiro acaba incentivando violações de direitos dos povos nativos da floresta, como disputa por terras, contaminação de rios, desmatamento e até violência física.

A conclusão é da terceira edição do relatório “Cumplicidade na Destruição“, produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em parceria com a ONG norte-americana Amazon Watch e lançado nesta terça-feira, 27 de outubro (quem quiser pode baixar o pdf do relatório [Aqui!]).

Os dados do estudo foram obtidos pelo observatório jornalístico De Olho Nos Ruralistas e pela instituição holandesa de pesquisa Profundo. As organizações mapearam recursos provenientes de 35 instituições financeiras em nove países diferentes, mas apenas duas são responsáveis por 26% do valor total dos investimentos: o banco estatal brasileiro BNDES, com US$ 8,5 bilhões aplicados em empresas que pressionam povos indígenas, e a BlackRock, que é maior gestora de ativos do mundo e destinou, no período, US$ 8,2 bilhões para as companhias associadas à violações de direitos na floresta.

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A JBS, maior produtora de carne do mundo e o frigorífico que apresentamaior risco de desmatamento da Amazônia em decorrência de suas operações, recebeu US$ 8,4 bilhões em investimentos, o equivalente a 15 vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente previsto para 2020. É a terceira empresa favorita do mercado financeiro entre as investigadas,  atrás apenas da Vale e da Anglo American, ambas do setor de mineração.

Segundo o relatório da 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, a pecuária ocupa 80% da área desmatada da Amazônia. A floresta dá lugar ao pasto, que alimenta um rebanho em franca ascensão. O número de animais na região passou de 47 milhões em 2000 para cerca de 85 milhões atualmente. Das 215 milhões de cabeça de gado contabilizadas hoje em todo o Brasil, quase 40% pastam na Amazônia – muitos deles dentro de terras indígenas, o que é ilegal, mas abastece a indústria.

Segundo os dados obtidos pelas entidades, dos US$ 8,4 bilhões investidos na JBS, quase metade – US$ 3,7 bilhões – vieram do BNDES. Oficialmente, obanco informa que suas ações valiam, em junho deste ano, R$ 12,3 bilhões, ou cerca de US$ 2,2 bilhões. O banco público é o segundo maior acionista do frigorífico, com 21,32% de participação, atrás apenas da família Batista.

“É uma contradição do BNDES. Ao mesmo tempo em que é o gestor do Fundo Amazônia, e deveria aplicar recursos para garantir a proteção ambiental, ele mesmo financia a destruição”, analisa Sônia Guajajara, da Coordenação Executiva da APIB.

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Prédio sede do BNDES no centro da cidade do Rio de Janeiro. Foto: Marcio Isensee e Sá

O terceiro maior acionista da JBS é a BlackRock, com participação minoritária (menor que 5%), mas cujos investimentos totais alcançam US$ 517,30 milhões. São 238 milhões em ações e 279 milhões em títulos de dívida, segundo o levantamento. Os dados são relativos à junho deste ano. Mas em agosto, a BlackRock informou ao ((o))ecoque mantinha US$ 332 milhões em ações da JBS, o que indica que a gestora de ativos parece estar aumentando sua fatia de participação na JBS, apesar de se apresentar como a porta-voz do investimento ambientalmente responsável no mundo.

Ao ((o))eco, a gigante financeira argumentou que não tem poder de decisão sobre essas participações, uma vez que o frigorífico integra índices do mercado financeiro que determinam a composição das carteiras de ativos ao redor do mundo. É o chamado investimento passivo,uma excelente forma de as corporações financeiras lavarem as mãossobre suas decisões de investimento.

“A BlackRock não possui uma política sobre como lidar com os investimentos que possam impactar o direito de povos indígenas. Tampouco tem se comprometido a pressionar as empresas nas quais ela investe para atuar pelo fim do desmatamento nas florestas tropicais como a Amazônia”, descreve o relatório da Apib e Amazon Watch.

 Além da JBS, a BlackRock informou ao ((o))eco que investia US$ 39 milhões na Marfrig e US$ 24 milhões na Minerva, respectivamente a 5ª e a 10ª no ranking do Imazon de risco de desmatamento e também alvos de investigações independentes que mostram como seus fornecedores indiretos criam animais ilegalmente em áreas de floresta.

O levantamento da APIB em parceria com a Amazon Watch levou em consideração, além da compra de ações, operações de crédito, como empréstimos e a compra de títulos de dívidas. Somando todos os tipos de aporte financeiro, os bancos Santander, da Espanha, e Fidelity Investments, dos Estados Unidos, superam os investimentos da BlackRock na JBS.

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“Tem muito subsídio para o setor da agropecuária, então todo mundo hoje quer desmatar para plantar capim e criar gado. E se o Acordo Mercosul-União Europeia sair, vai facilitar muito mais a exportação de carne e aumentar ainda mais a pressão por espaço para criar gado”, afirma Guajajara. Assinado em junho do ano passado após duas décadas de negociação, o acordopode vir por água abaixodevido à desastrosa gestão ambiental do governo brasileiro. 

JBS abate gado criado legalmente em áreas indígenas

Segundo o relatório da Apib e da Amazon Watch, “a JBS tem estado no centro de diversas violações de direitos socioambientais e de direitos humanos na Amazônia nos últimos anos”.

Em julho, um relatório da Anistia Internacional revelou que a companhia comprou gado bovino criado ilegalmente na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. No mês seguinte, a Agência Pública mostroucomo um pecuarista do Mato Grosso, que acumula mais de R$ 20 milhões em multas ambientais e cria gado ilegalmente dentro da Terra Indígena Kayabi, se tornou fornecedor da empresa. A situação não é nova. Em dezembro de 2018, ((o))eco havia identificado quatro fornecedores da JBS dentro da Terra Indígena Karipuna, em Rondônia.O rastreamento foi feito através da plataforma“Confiança Desde a Origem”,da própria JBS, que deveria mostrar a origem do gado abatido pelos frigoríficos da empresa em todo o Brasil.

Mas desde o ano passado, a multinacional reduziu drasticamente a transparência do sistema. Diante das novas denúncias, a pressão de investidores internacionais subiu de tom e o banco europeu Nordea chegou a retirar um investimento de R$ 240 milhões na empresa.

Como resposta, a JBS anunciou, em setembro, o compromisso de monitorar toda a sua cadeia de fornecedores até 2025. Mas Rosana Miranda, assessora de campanhas para o Brasil da Amazon Watch, lembra que a empresa tinha feito a mesma promessa em 2009. “Mais de dez anos depois, sem ter cumprido esse compromisso, a JBS se dá mais cinco anos de prazo quando estamos vivendo uma situação dramática nos biomas brasileiros. A JBS coloca muita ênfase na ideia de que o rastreamento da cadeia total de fornecedores não é feito porque é tecnicamente muito difícil. Mas todos os anos organizações da sociedade civil e agências de jornalistas independentes, com orçamentos muito menores, conseguem comprovar a existência de desmatamento dentro da cadeia de fornecedores da JBS. Então como a maior empresa de alimentos do mundo não consegue fazer isso?”, questiona.

De fato, ((o))eco mostrou que as ferramentas para monitoramento do rebanho brasileiro – do nascimento ao abate – já existem, embora ainda não conversem entre si.

Agro, mineração e energia são setores críticos

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Para identificar as empresas com maiores conflitos juntos aos povos indígenas no Brasil, a equipe do De Olho Nos Ruralistas analisou centenas de processos judiciais e fez uma série de entrevistas com associações e lideranças indígenas. Foram encontrados 797 casos judicializados envolvendo questões como contestação sobre demarcação, desapropriação e indenização por danos ambientais ou morais. Onze empresas estavam frequentemente associadas a estes conflitos, mas a Profundo só conseguiu levantar informações financeiras de nove delas.

Quatro destas empresas pertencem ao setor de mineração. A principal delas é a Vale, companhia que mais recebeu aportes de instituições financeiras segundo a análise da Profundo. O maior foco de conflitos da mineradora com povos indígenas se dá no Complexo de Carajás, o maior projeto de extração de minério de ferro do mundo, localizado no Pará. Laudos técnicos já comprovaram que a atuação da Vale na região levou à contaminação do Rio Cateté, principal fonte de água dos indígenas Xikrin. A empresa não paralisou as atividades mesmo durante a pandemia de coronavírus, o que foi apontado pelos indígenas como um dos fatores que levou este povo a ser um dos mais afetados pela doença no Pará

No mesmo setor, aparecem ainda as empresas Anglo American, com sede no Reino Unido, a canadense Belo Sun e a brasileira Potássio do Brasil.

Na área de energia, o relatório destaca as companhias Energisa Mato Grosso, Bom Futuro Energia, Equatorial Energia Maranhão e Eletronorte. A Equatorial Energia Maranhão (antiga Companhia Energética do Maranhão, a Cemar), esteve envolvida em um dos casos mais trágicos de violência contra indígenas no Brasil. Foi em 2017, quando indígenas Akroá-Gamellativeram as mãos decepadas. Segundo o relatório, as tensões locais que levaram a esse crime foram acirradas pelo projeto da empresa de instalação da linha de transmissão Miranda do Norte-Três Marias, com impactos no território Akroá-Gamella – uma etnia que busca há quatro décadas a demarcação de suas terras no Maranhão.

Segundo o levantamento da Profundo, a empresa recebeu US$ 346,6 milhões do banco espanhol Santander e tem entre seus principais acionistas a BlackRock, o Canada Pension Plan Investment Board (conhecida como CPP, é a empresa que adminsitra os fundos de pensão do Canadá), o fundo de pensão do governo da Noruega, a instituição financeira norte-americana Vanguard e a gestora de ativos britânica Schroders.

A Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, tem 50% de sua área ocupada ilegalmente por fazendas para produção pecuária. Foto: Marcio Isensee e Sá

No setor do agronegócio, além da JBS aparecem a Cargill e a Cosan S.A. A Cargill é uma das maiores traders de commodities do planeta, com receita líquida de R$ 50 bilhões no Brasil em 2019. No Pará, a atuação da Cargill na região do Tapajós – incluindo a construção de um complexo de portos para escoamento de grãos – é apontada como um fator decisivo para a expansão da soja e a consequente pressão sobre as Terras Indígenas. Um exemplo é o do Território Indígena Munduruku do Planalto Santareno, cercado por propriedades de soja, milho, sorgo e fazendas de pecuária. Segundo o relatório, os indígenas são alvo constante de ameaças por fazendeiros e grileiros da região e sofrem com os impactos dos agrotóxicos em suas lavouras e com a contaminação e assoreamento de rios e igarapés.

Segundo Rosana Miranda, da Amazon Watch, cada um destes setores atinge de forma diferente os povos indígenas. No caso da mineração, a pressão se dá principalmente pelos requerimentos de pesquisa dentro dos territórios tradicionais e, em casos extremos, até mesmo atividades de prospecção ilegais dentro destes territórios. O estudo destaca que os processos de exploração minerária em Terras Indígenas da Amazônia cresceram 91% desde o início do governo Bolsonaro. Um movimento estimulado por iniciativas como a PL 191/2020, que libera a mineração e o garimpo em Terras Indígenas. O projeto, apresentado pelo governo federal, pode ser votado a qualquer momento na Câmara.

“Outro eixo de pressão desses setores é o incentivo direto e indireto a atores locais como grileiros ou garimpeiros ilegais. Há também a omissão pela falta de controle sobre sua cadeia de fornecedores, que é o caso da JBS. Destaca-se ainda o desrespeito sistemático à legislação que protege as terras e direitos indígenas, principalmente o direito à consulta prévia livre e informada no caso de empreendimentos que impactem estes territórios”, conclui Miranda.

Para Miranda, os grandes investidores internacionais ganham ainda mais relevância diante do desmonte da política ambiental brasileira. “Esses investidores e grandes corporações financeiras têm o poder de incentivar ou moderar certos posicionamentos do governo brasileiro. Essas empresas têm uma responsabilidade, muitas delas assumiram compromissos públicos de políticas socioambientais e de mudanças climáticas, e os dados que trazemos mostram que estas políticas não estão sendo cumpridas”.

*Crédito da foto de destaque: Indígena Munduruku durante evento de mobilização contra a construção das hidrelétricas no Rio Tapajós em 2015. Marcio Isensee e Sá /Agência Pública.

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fecho

Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ((o))eco  que é feito pela Associação O Eco, uma ONG brasileira que se preza por não ter fins lucrativos nem vinculação com partidos políticos, empresas ou qualquer tipo de grupo de interesse [Aqui!].

A participação acionária da BlackRock em frigoríficos desafia a sustentabilidade na Amazônia

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  • A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, tem US $ 408 milhões investidos, por meio de vários fundos, nos três maiores frigoríficos do Brasil que operam na Amazônia.
  • Essas participações estão em desacordo com a posição declarada da BlackRock de buscar investimentos ambientalmente sustentáveis, visto que os frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva – estão intimamente associados ao desmatamento na Amazônia.
  • Especialistas dizem que o tamanho da participação da BlackRock nessas empresas pode ser decisivo para forçar os frigoríficos a adotar práticas livres de desmatamento.

Por Fernanda Wenzel, Pedro Papini e Naira Hofmeister

A gestora do fundo de Wall Street, BlackRock, administra 2,2 bilhões de reais (US $ 408 milhões) em ações dos três maiores frigoríficos brasileiros que operam na Amazônia hoje. As operações de compra e abate de gado da JBS, Marfrig e Minerva envolvem 6,9 milhões de hectares (17 milhões de acres) de terras com alto risco de desmatamento . Isso coloca os investimentos da BlackRock em desacordo com sua própria retórica pública dos últimos anos, na qual se posicionou como líder na priorização do setor financeiro de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) ao decidir onde investir o dinheiro de um cliente.

A maior parte de seu investimento nos frigoríficos brasileiros – 1,8 bilhão de reais, ou US $ 334 milhões – é na JBS, maior produtora de carne do mundo. A JBS também é a empresa mais exposta ao desmatamento na Amazônia ,segundo a organização conservacionista sem fins lucrativos Imazon. Em julho, relatório da Anistia Internacionalinformava que a JBS estava abatendo gado oriundo de fazendas ilegais localizadas em áreas de conservação e terras indígenas. A BlackRock também tem 213 milhões de reais ($ 39,5 milhões) investidos na Marfrig e 131 milhões ($ 24,3 milhões) no Minerva, que ocupam o quinto e décimo lugar , respectivamente, no ranking de risco de desmatamento do Imazon Investigações independentes também mostram que essas empresas têm fornecedores indiretos que criam gado ilegalmente na floresta.

A investigação da ((o)) eco analisou o conteúdo de 953 fundos de ações administrados pela BlackRock , dos quais 24 detêm ações de frigoríficos brasileiros. A BlackRock confirmou os dados para ((o)) eco; os valores são fornecidos na moeda local, com os valores em dólares baseados na taxa de câmbio de 18 de agosto.

Investimentos da BlackRock nos maiores frigoríficos operando na Amazônia (JBS, Marfrig e Minerva)

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Em janeiro deste ano, o CEO da BlackRock, Larry Fink, publicou uma carta aberta em que anunciava medidas para “posicionar a sustentabilidade no centro da estratégia de investimento” da empresa, a maior administradora de recursos do mundo.

Essa visão, aplicada aos seus investimentos nos frigoríficos brasileiros, pode fazer da BlackRock a força motriz para segurar as maiores empresas do setor de carne bovina em sua promessa de oferecer exclusivamente carne de desmatamento zero. Esse compromisso vem de 2009 , mas nenhuma das empresas ainda o cumpriu. A questão ressurgiu em julho, quando as empresas começaram a sofrer pressões de investidores internacionais que não queriam se associar aos incêndios e ao desmatamento que devastavam a floresta amazônica.

“A BlackRock é líder global em gestão de ativos, portanto, suas ações têm um efeito significativo em todo o setor”, diz Moira Birss, diretora de clima e finanças da Amazon Watch. “Ainda assim, parece que a empresa espera que as pessoas não olhem de perto os dados de investimento e olhem apenas as manchetes, que parecem ótimas.”

A Amazon Watch em 2018 lançou uma campanha acusando a BlackRock de ser a “ maior causadora do caos climático do mundo” . De acordo com a ONG, a BlackRock está entre os principais acionistas de 25 das maiores empresas de capital aberto do mundo associadas ao desmatamento em florestas tropicais da América Latina, África e Sudeste Asiático.

Culpe os ETFs

Do investimento da BlackRock nas três frigoríficas brasileiras, 1,8 bilhão de reais é considerado “investimento passivo”, onde a carteira do fundo espelha uma cesta de ações de referência e o gestor do fundo não interfere na proporção de ações detidas na carteira. Eles são conhecidos como fundos negociados em bolsa (ETFs), e a família iShares de ETFs da BlackRock responde por dois quintos da participação no mercado global de ETFs. “É importante observar que mais de 90% dos ativos patrimoniais da BlackRock sob gestão estão em fundos que rastreiam índices de terceiros”, disse a empresa em um comunicado. Leia a resposta completa da BlackRock aqui .

Os 953 iShares analisados ​​pelo ((o)) eco report são todos ETFs. A ideia por trás deles é que, como replicam índices de referência em termos de sua composição, como a bolsa de valores local, podem servir como um guia útil para os investidores. Na prática, o sistema deixa espaço para distorção e greenwashing, como ((o)) eco mostrou em julho .

Como os ETFs refletem a lista e a proporção de ações rastreadas nos índices de referência, os administradores de fundos não podem usar seu critério para adicionar ou remover empresas do fundo, ou aumentar ou diminuir os investimentos em empresas individuais. E isso dá à BlackRock motivos para manter esses investimentos. Um exemplo é o iShares MSCI Brazil ETF , um fundo que replica o índice MSCI Brazil do Morgan Stanley, e por meio do qual a BlackRock administra quase 500 milhões de reais ($ 92 milhões) em ações da JBS. O ETF também inclui 56 outras empresas brasileiras cujo preço das ações seria afetado se a BlackRock fechasse o fundo.

Ainda assim, mesmo mantendo participações nos frigoríficos por meio desses fundos passivos, a BlackRock promete que, até o final do ano, todo o seu portfólio ativo será norteado por critérios ambientais e sociais; atualmente, cerca de 70% desses fundos atendem aos critérios ESG.

A BlackRock afirma que divulga o conteúdo dessas carteiras de acordo com as “regulamentações dos mercados em que atua”. Nos Estados Unidos, por exemplo, é obrigatória a publicação semestral e anual de relatórios com conteúdo aberto sobre investimentos para que o público verifique seu conteúdo. No entanto, nos documentos de divulgação de seus produtos em 34 outros países, não foi possível acessar informações completas sobre carteiras gerenciadas ativamente. A obtenção desses dados exige uma busca nos sites das agências reguladoras dos respectivos mercados, o que nem sempre é uma tarefa fácil para muitos investidores de varejo.

Além disso, alguns países não exigem transparência total da carteira, mas apenas a divulgação dos 10 principais ativos de cada carteira. Em situações como essa, “o próprio gestor de ativos pode decidir o quanto deseja divulgar”, diz Ward Warmerdam, pesquisador sênior da Profundo, organização holandesa que defende maior transparência nos investimentos. “Na Noruega, por exemplo, alguns gestores de fundos divulgam integralmente e alguns divulgam apenas os 10 principais investimentos”, afirma.

Proporção dos fundos da BlackRock consultados pela equipe de reportagem
Apenas 953 fundos puderam ter seus investimentos verificados por meio dos sites do gestor de ativos em 34 países

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Carteiras administradas ativamente respondem por apenas 27% dos investimentos totais da BlackRock: 65% são em fundos passivos – incluindo os ETFs por meio dos quais a empresa continua investindo nos frigoríficos brasileiros. Uma ilustração de por que isso torna difícil conciliar a retórica de sustentabilidade da BlackRock com suas ações é a promessa do CEO Larry Fink de se desfazer de “produtores de carvão para usinas termelétricas”. Apesar do rebuliço que isso aumentou na imprensa e nos mercados financeiros, a nova postura da BlackRock significou a perda de apenas 20% desses ativos, de acordo com a Amazon Watch, frustrando aqueles que esperavam por um resultado mais significativo.

“Na verdade, a BlackRock se comprometeu a abrir mão de ações de empresas de carvão apenas entre seus fundos de administração ativa, que são uma pequena parte de seus negócios”, diz Birss, da Amazon Watch. “Além disso, existem muitas limitações quanto à quantidade ou tipo de carvão a ser evitado. Claro que isso é importante, mas é uma quantia muito pequena, considerando a escala da crise climática. ”

3 ° acionista da JBS

A participação da BlackRock na JBS, mesmo via ETFs, a torna a terceira maior acionista da empresa, atrás apenas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da família Batista que fundou a empresa. Segundo estudo da Forests and Finance , coalizão de seis ONGs que monitora a participação de instituições financeiras internacionais em atividades de risco ambiental.

Mesmo assim, a Forests and Finance não conseguiu rastrear totalmente a participação da BlackRock na JBS, avaliada em 1,3 bilhão de reais (US $ 240 milhões); A própria BlackRock disse à ((o)) eco que seus investimentos no frigorífico chegam a 1,8 bilhão de reais. “O setor financeiro é notório pela falta de transparência e por criar estruturas dentro das quais é quase impossível rastrear os proprietários [da empresa]”, afirma Merel van der Mark, coordenador de Florestas e Finanças. “Mas fazemos o nosso melhor para rastrear o máximo possível de participação dos acionistas”.

Com pelo menos 2% de participação na JBS, a BlackRock tem poder de voto nas decisões da empresa, ainda que sua influência direta seja reduzida. A estrutura acionária da indústria de carne bovina coloca mais poder nas mãos dos proprietários das empresas, limitando a capacidade de acionistas minoritários como a BlackRock de influenciar a conduta da empresa, afirma a BlackRock.

É por isso que a BlackRock afirma que buscará o diálogo institucional para promover mudanças na política ambiental e social. De acordo com sua assessoria de imprensa, promoveu encontros entre cinco empresas do agronegócio que atuam no Brasil – JBS, Marfrig, Minerva e as traders de commodities Bunge e ADM – “para discutir suas políticas e práticas sobre questões específicas de atuação na Bacia Amazônica, como uso da terra e gestão da cadeia de abastecimento.”

$ 90 milhões em investimentos ativos

A Forests and Finance também identificou a quantidade de títulos de dívida que a BlackRock comprou dos frigoríficos brasileiros, totalizando 64,5 milhões de reais ($ 11,9 milhões): 24 milhões de reais ($ 4,4 milhões) da JBS, 22 milhões de reais ($ 4,1 milhões) da Marfrig e 18 milhões de reais ($ 3,3 milhões) do Minerva. Florestas e Finanças calculou a proporção da compra de dívida que vai diretamente para atividades de financiamento relacionadas à pecuária; o valor total da dívida que a BlackRock comprou dos frigoríficos é mais que o dobro, em 134,2 milhões de reais (US $ 24,8 milhões).

Além disso, a BlackRock relata que seus investimentos ativamente gerenciados nos frigoríficos estão avaliados em 352 milhões de reais ($ 65 milhões). Isso coloca o valor total do investimento direto que o gestor mantém no setor mais associado ao desmatamento na Amazônia em 486 milhões de reais (US $ 89,7 milhões). Esse é o valor que a BlackRock opta ativamente por investir nas empresas, mesmo após análise de risco de exposição ambiental do setor. Ao contrário dos investimentos passivos, isso representa patrimônio e dívida que o gestor do fundo poderia desistir sem comprometer outras empresas.

Aqui, novamente, o principal destino dos investimentos ativos da BlackRock é a JBS. Só seu investimento direto, de 327 milhões de reais (US $ 60,4 milhões), é maior do que o valor desinvestido do frigorífico pelo banco finlandês Nordea em julho, após uma recente série de problemas como gado criado ilegalmente, corrupção e surtos de COVID-19 em suas fábricas no Brasil e nos Estados Unidos “A JBS foi de longe o mais problemático dos frigoríficos brasileiros”, disse Eric Pedersen , chefe de investimentos responsáveis ​​da Nordea, à ((o)) eco .

O desinvestimento chegou às manchetes em todo o mundo, inclusive no The Guardian e nas agências de notícias Bloomberg Reuters . Pela primeira vez, a maior empresa de carne bovina do planeta, com o maior número de fábricas na Amazônia – 31, segundo o estudo mais recente e ainda não publicado do Imazon – foi vista como tendo efeito real por causa do desmatamento.

Abandonar tantas ações de uma vez não teve o impacto esperado de sacudir o preço das ações da JBS. Em vez disso, o impacto foi mínimo. No início de julho, antes da venda do Nordea, as ações da JBS eram negociadas a 20,89 reais; chegaram a 22,95 em 7 de julho, antes de encerrar o mês com um aumento líquido de 21,54.

Não foi a primeira vez que um desinvestimento motivado por questões ambientais não obteve resultados práticos. No terceiro trimestre do ano passado , a gestora de investimentos Storebrand desinvestiu da Marfrig, segundo seu CEO, Jan Erik Saugestad, em comunicado à ((o)) eco em julho . No entanto, durante o período em que a Storebrand vendeu suas ações, o preço das ações da Marfrig aumentou 70%, 6,48 reais em julho para 11,02 em setembro.

Cotação de ações dos Meatpackers sob desinvestimento de bancos europeus
Storebrand vendeu suas ações na Marfrig no terceiro trimestre de 2019 e Nordea desistiu de suas ações na JBS em julho de 2020

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O grande volume de participação da BlackRock na JBS pode fazer a diferença, afirma Luiz Macahyba, consultor e sócio da Aondê-Consultoria Econômica. O tamanho das empresas de investimento conta em casos como este: A BlackRock opera em 36 países e tem clientes em mais de 100, e possui pelo menos 193 subsidiárias diretas e indiretas ao redor do mundo, duas delas no Brasil. De acordo com seu relatório trimestral mais recente divulgado em julho, a empresa tem US $ 7,32 trilhões em fundos sob gestão – uma soma cinco vezes o PIB do Brasil em 2019.

“Uma coisa é o Nordea anunciar que está se desfazendo da JBS, e outra coisa é a BlackRock, a maior administradora de ativos financeiros do mundo, fazer esse anúncio”, diz Macahyba. “Isso pode afetar as expectativas dos investidores em relação à lucratividade futura do grupo”.

Tamanho comparado dos gestores de ativos. A BlackRock gerencia recursos maiores do que o PIB do Brasil

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A BlackRock parece ter reduzido sua participação na JBS desde o início do ano em 17,4% a partir de agosto, segundo dados da Forests and Finance.

Mas, assim como com o desinvestimento da Storebrand da Marfrig e do Nordea da JBS, essa venda não teve impacto no desempenho das ações da JBS no mercado de ações. “Provavelmente são vendas feitas separadamente e em dias diferentes. É por isso que não afetou o preço ”, diz Macahyba.

Essas negociações também são realizadas sob grande discrição para evitar perdas para o investidor. O desinvestimento só é anunciado após a efetivação da venda das ações, ainda que o desinvestimento simbolize uma crítica pública da financeira à empresa e coloque sua credibilidade no mercado em questão.

Uma analogia é o proprietário de uma casa vendendo um apartamento porque um enorme vazamento está danificando toda a estrutura do imóvel, mas não menciona o problema ao fechar o negócio. Nesse caso, o BackRock parece ter vendido primeiro e explicado depois, atribuindo sua decisão à associação da JBS com desmatamento e corrupção.

“Esses grupos financeiros estão de fato progressivamente engajados nas questões ambientais, mas ninguém arranca dinheiro”, diz Macahyba. “Se o administrador do fundo vender tudo de uma vez, ele terá um grande prejuízo. Então, ele vende as ações em pequenas parcelas e depois anuncia a venda total para ganhar impacto político com sua decisão. ”

Lucro em meio a incêndios florestais

Os desinvestimentos graduais não afetaram o preço das ações, nem frustraram o clima otimista que presidia à divulgação dos resultados do segundo trimestre pela JBS .

A pressão dos investidores foi rapidamente esquecida, obscurecida pelo lucro líquido de 3,4 bilhões (US $ 626 milhões) – um salto de 54,8% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.

“Parabéns pelos resultados espetaculares! Fantástico!” um dos investidores declarou no evento de 14 de agosto.  Realmente impressionante”, disse outro. A apresentação online foi conduzida pelos principais executivos da JBS, incluindo o CEO global Gilberto Tomazoni e Wesley Batista Filho, CEO da JBS Brasil.

Um participante perguntou aos executivos se não seria melhor fechar todas as fábricas na Amazônia “por causa desse viés negativo vindo da imprensa, a que todos estão prestando mais atenção”. O assunto ganhou urgência no final de junho, quando se tornou pública uma reunião do governo do presidente Jair Bolsonaro . Naquela reunião, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu aproveitar a “oportunidade” proporcionada pela mídia e o enfoque público na pandemia do coronavírus – que matou mais de 100 mil pessoas no Brasil – para “dar um pulo ” e desregulamentar as normas ambientais.

Segundo executivos da JBS, a presença da empresa na Amazônia não é o problema, mas “parte da solução”. “Nossas operações podem trazer melhorias e mudanças positivas para a região com segurança”, disse Wesley Batista Filho. Ele ainda indicou que uma plataforma de controle de toda a cadeia produtiva da Amazônia está em estágio “muito avançado” de desenvolvimento, mas não deu previsão para o início do rastreamento indireto de fornecedores e nenhum dos investidores questionou a falta de uma linha de morte.

Os resultados do segundo trimestre da Marfrig, divulgados em 12 de agosto, também não mostraram nenhum impacto prejudicial da recente pressão de investidores internacionais contra o desmatamento. Em vez disso, a empresa teve “o melhor resultado de sua história, com lucro líquido de 1,6 bilhão [$ 295 milhões]”. Isso é um aumento de 1.743% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.

Os acionistas e sócios do Minerva também têm motivos para comemorar. No último trimestre, a empresa obteve lucro líquido de 253,4 milhões ($ 46,7 milhões) , seu melhor segundo trimestre de todos os tempos.

pastoA substituição de floresta por pastagem é uma das principais causas do desmatamento no bioma amazônico. Há falta de controle na cadeia de abastecimento para garantir que o desmatamento não esteja associado à produção de carne. Imagem de Marcio Isensee e Sá.

‘É o efeito de contaminação’

Enquanto JBS, Marfrig e Minerva saem ilesos dos efeitos do desmatamento, outros setores da economia brasileira temem que a crise dos incêndios na floresta tropical tenha um efeito negativo sobre seus negócios, mesmo que suas operações estejam localizadas longe da floresta. No início de julho, dirigentes de 38 grandes empresas e quatro associações de classe enviaram carta ao vice-presidente Hamilton Mourão , alertando que a imagem negativa do país no exterior “tem um efeito potencialmente danoso para o Brasil, não só do ponto de vista de reputação, mas efetivamente para o desenvolvimento de negócios e projetos fundamentais para o país ”.

O movimento cresceu e a carta já conta com 72 signatários, de acordo com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que lidera a iniciativa. Entre os que assinaram está a fabricante de papel e celulose Suzano, cujo diretor financeiro, Marcelo Bacci, falou em levar um mapa às reuniões com estrangeiros para convencê-los de que as unidades de produção da empresa estão localizadas longe da Amazônia.

“Em breve, veremos empresas do Pampa do Rio Grande do Sul [estado do Brasil] sendo impactadas pelo que acontece na Amazônia”, diz Robson Dias da Silva, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRRJ). “É o efeito da contaminação”, diz ele, acrescentando que quem depende de investimento estrangeiro pode ter mais dificuldade em obter financiamento ou pagar juros mais altos nos empréstimos.

Cole Martin, analista sênior de agronegócio da Fitch Solutions, diz que esforços como o mapa da Suzano e o rastreamento de produtos podem não ser suficientes para evitar que os exportadores brasileiros sejam prejudicados. “Para as empresas que importam, pode ser difícil rastrear e verificar o que é legal e o que não é, principalmente os fornecedores indiretos”, afirma. “Em vez de correr o risco de comprar algo que tem a ver com desmatamento e criar um problema para a empresa, com o tempo provavelmente será mais fácil para eles simplesmente constatar que não compram nada do Brasil.”

A preocupação com esse “efeito da contaminação” também levou o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) a assinar a carta. Em entrevista coletiva em 12 de agosto, Marcello Brito pediu que o governo federal estabeleça uma meta clara de redução do desmatamento. Ele também burlou as declarações do presidente Bolsonaro , para quem a pressão internacional para preservar a floresta tropical está encoberta por interesses comerciais.

“Precisamos aprofundar e ser mais maduros ao discutir essas questões porque os interesses comerciais sempre permanecerão firmes”, disse Brito. “O mais importante é identificar a consciência coletiva que evolui rapidamente – é isso que precisamos abordar. Serão as ações coletivas de produção ambiental e socialmente sustentável que preencherão este futuro espaço de negócios contra qualquer barreira geopolítica ”.

Ainda em julho, outra iniciativa mostrou que o desmatamento é um problema que se expandiu para além do radar dos ambientalistas e agora preocupa economistas. Doze ex-ministros das finanças e cinco ex-presidentes de bancos centrais assinaram uma carta aconselhando o governo a definir um caminho em direção a uma economia de baixo carbono. Entre os signatários está um amplo espectro de personalidades políticas, incluindo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (do PSDB), Pedro Malan, que foi ministro da Fazenda no governo Fernando Collor (PROS), e Nelson Barbosa, que chefiou o planejamento do administração de Dilma Rousseff (PT).

O Ministério da Economia, chefiado por Paulo Guedes, disse em um e-mail para ((o)) eco que “é inegável que o desmatamento ilegal na Amazônia prejudica imensamente a economia e a população brasileira” e que “embora o desmatamento ilegal seja um problema histórico, hoje temos um problema de imagem nacional que sabemos que o governo tinha a responsabilidade de resolver ”. Veja a resposta completa do ministério aqui .

“Acendeu-se um sinal de alerta porque o tema migrou do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério da Economia”, diz Silva, professor de economia. “Em breve, a Avenida Paulista [a Wall Street do Brasil] começará a ter problemas para levantar capital porque o selo brasileiro foi queimado.”

Acordo comercial europeu em dúvida

O impacto econômico mais gritante por ora é o possível fracasso do acordo comercial entre a União Européia e o bloco comercial sul-americano Mercosul (Mercosul em espanhol). O acordo foi assinado em junho de 2019 após 20 anos de negociações e, para que entre em vigor, deve ser ratificado por todos os países membros. Mas, citando o aumento do desmatamento na Amazônia, o parlamento holandês rejeitou o acordo , e órgãos legislativos na Irlanda, França e Bélgica já enviaram sinais no mesmo sentido.

Em 21 de agosto, a chanceler alemã Angela Merkel disse ter “sérias dúvidas” sobre a implementação do acordo devido ao aumento do desmatamento na Amazônia. Sua declaração veio após uma reunião com a ativista ambiental sueca Greta Thunberg.

Segundo a Embaixada da Alemanha no Brasil, “informações sobre o aumento do desmatamento podem ter um impacto negativo na opinião pública de outros membros da União Européia e também no desejo de muitos parlamentares de ratificar esse acordo”. O Ministério da Economia do Brasil afirmou que as “possíveis preocupações” com o meio ambiente serão tratadas no âmbito do acordo e que não internalizá-lo “é minar esses avanços institucionais e … a agenda ambiental de interesse bilateral”.

Martin, da Fitch Solutions, diz de forma mais clara: “O acordo entre a UE e o Mercosul está morto por enquanto.” Com sede em Londres, Martin diz que está acompanhando de perto o lançamento do European Green Deal , um pacto econômico ambientalmente sustentável criado para estimular a economia pós-pandemia. Entre as muitas medidas previstas para os próximos anos – como ampliação de áreas de proteção ambiental, redução do uso de agrotóxicos e menor consumo de carne – está a proposta de afastar do mercado europeu produtos associados ao desmatamento.

Este relatório é o quinto de uma série que investiga a relação entre o mercado financeiro e a indústria brasileira de carne bovina. Se desejar entrar em contato com a Redação com sugestões de reportagens, escreva para: quemfinanciaodesmatamento@gmail.com .

Esta história foi publicada originalmente  em português  pela ((o)) eco. 

Imagem do banner de uma fazenda cercada pela fumaça das queimadas no município de Novo Progresso, estado do Pará. Imagem de Marcio Isensee e Sá.