Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

A encruzilhada do bolsonarismo ameaça engolir Rodrigo Bacellar

Por Douglas Barreto da Mata

Que o eleitorado fluminense tem forte sotaque conservador não é novidade. É um fenômeno histórico, com poucos períodos de mandatos de políticos progressistas, o mais importante deles, Leonel Brizola.  Aliás, o conservadorismo não é um traço fluminense, mas nacional, apesar dos mandatos presidenciais do PT.  Não seria exagero dizer que o exercício da Presidência da República alterou muito mais o PT do que este alterou o país.  Mas resumir o conservadorismo fluminense ao bolsonarismo é um erro, ou um exagero que favorece a narrativa do interessado.

No atual momento, definir o peso e a resiliência desta manifestação política é crucial para determinarmos as possibilidades de sucesso deste ou daquele ator político, e neste caso aqui, deste texto, o que nos interessa é o que vai acontecer na eleição de governador, onde até aqui temos dois pretendentes, Rodrigo Bacellar e Eduardo Paes.  Dentre os dois, o que está em situação mais delicada é Bacellar. E por quê?  Ora, porque ele reivindicou uma pré-candidatura na aliança política que têm Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro como figuras de proa, ao mesmo tempo que foi, publicamente, rejeitado por ambos (e também por outras figuras de relevo do movimento bolsonarista).  Em resumo, Rodrigo Bacellar determinou sua trajetória como nome do bolsonarismo no Rio de Janeiro, e lhe foi negado este posto.

É possível a Rodrigo reconstruir sua (pré) candidatura, como afirmou o presidente nacional da federação União Brasil/PP, Antônio Rueda?  Possível é, tudo é possível, mas é pouco provável.  Como me ensinou um amigo especialista na observação da cena política, Rodrigo e Rueda não têm outra saída, senão manter ocupado o lugar dessa pré-candidatura, sob pena de verem desmoronar o já instável chão sob os pés de ambos. 

Se sinalizar a desistência antes do tempo, Rodrigo Bacellar pode ficar sem a vaga no TCE, sem o apoio de seus colegas de Alerj na eleição indireta para governador (caso Castro renuncie), enfim, enfrentará um final melancólico.  Por essa razão, Rodrigo Bacellar tem que manter as aparências que, neste caso, enganam pouco.

Não há mais espaço para Rodrigo Bacellar operar uma candidatura tipo “terceira via”, por várias razões.  A primeira, e mais óbvia, é a sua trajetória relacionada ao bolsonarismo no Estado, ainda que os bolsonaristas não o reconheçam como tal.  Também não há lugar para se mostrar um “moderado”, tanto pelo estilo pessoal do deputado, quanto pela sua base de apoio mais fiel, que tem na estridente trinca Alan-Amorim-Poubel sua face mais operacional. 

As pesquisas mostram que há um viés do eleitor que aponta para um certo cansaço com o bolsonarismo, apesar deste nome ainda ter importância na decisão do eleitor.  Ressaltamos que esse cansaço não é uma guinada para fora do espectro conservador, mas sim da sua forma mais extremista, justamente personificada na figura do ex-presidente, tudo isso incrementado pelas últimas trapalhadas do chamado “tarifaço de Trump”. 

Esse movimento do eleitorado favorece primeiro o favorito Eduardo Paes, que se situa como um centro-direita que “come com talheres”, e não “arrota à mesa”.  No entanto, Paes tem um grave problema, ou melhor, dois: a síndrome de Celso Russomano (o cavalo paraguaio de SP) e sua pouquíssima abrangência fora da Capital.  Paes é um cara que personificou tanto a “carioquice zona sul”, esse “tipo” que é ao mesmo tempo um conservador e elitista, mas “gente boa” e que “vai na roda de samba”. Essa imagem não permite a ele se colocar para além da Ponte Rio-Niterói.  Paes é irremediavelmente um carioca, nunca um fluminense. 

Faltou inteligência a ele, por exemplo, para distribuir a recepção de alguns dos eventos globais que aconteceram no Rio, criando um vínculo dos organizadores dessas cúpulas com prefeitos do interior, como da região serrana ou região dos lagos, para que os pré-eventos, que são comuns nestas cúpulas, quando delegações de preparação debatem os temas anteriormente, pudessem se espalhar por cidades turísticas, como Cabo Frio, Petrópolis, Penedo, ou até mesmo polos regionais, como Macaé ou Campos dos Goytacazes.

Como dizem na gíria, “comeu mosca”, porque pensou dentro da caixinha do “carioquismo”, porém, só o seu eleitorado na capital não o elege. Voltando ao bolsonarismo, alguns apostam que 2026 será o início do fim, onde o declínio do poder de intervenção no eleitorado estadual fluminense se fará bem visível. Já outros contestam, dizendo que será sim o início do declínio, mas não ainda a ponto de comprometer a capacidade do ex-presidente em ser um forte eleitor para quem resolver apoiar.

Penso que o bolsonarismo está em franca fragmentação. O encaminhamento das questões eleitorais no RJ é uma prova inconteste disso.  Seja pelo assédio jurídico, seja pelos erros de avaliação que levaram a erros estratégicos, o fato é que a comunidade política bolsonarista só tem um objetivo claro: eleger senadores, .e agora, mais um, tentar livrar o seu líder da cadeia.

Não seria pouco, é verdade, mas para quem teve a Presidência da República, uma bancada parlamentar federal significativa e ruidosa, diversos governadores, e que até bem pouco tempo, dominava as iniciativas nas redes sociais, é muito pouco.  Há alguns anos seriam impensáveis os movimentos de Washington Reis, oscilando entre o bolsonarismo e um acordo com Paes, e mesmo assim, em desagravo a Reis, os Bolsonaro retiraram o apoio a Cláudio Castro e a Bacellar. Castro, como sabemos, correu para salvar a própria pele, e deixou Bacellar “falando sozinho”. Como seria impensável que Silas Malafaia dissesse, aos quatro ventos, que se os Bolsonaro insistissem em Rodrigo Bacellar, ele estaria fora dessa campanha (alguns dizem que na verdade, ali os Bolsonaro falaram através do pastor). 

Em qualquer outro tempo, caso Washington Reis recuperasse sua elegibilidade, ninguém teria dúvidas de que ele se colocaria como opção junto ao bolsonarismo para a missão de enfrentar Eduardo Paes.  Quem olhar a sua “linguagem corporal” atual, não terá certeza de que o Czar da Baixada esteja 100% com Bolsonaro.  Na verdade, hoje, o Czar de Caxias é 100% ele mesmo, e olhem lá.

Enfim, a verdade é que temos uma enorme brecha no eleitorado conservador, que não quer um bolsonarismo estridente, mas ao contrário, quer algo que se achegue mais ao centro, mas não votará em Eduardo Paes.  Se Washington Reis não puder, ou não quiser ser esse nome, o bolsonarismo, sob pena de encolher ainda mais, vai ter que buscar um nome que preencha essa lacuna para fazer frente a Eduardo Paes.

A moral flexível do Bolsonarismo fica bem explícita em Campos dos Goytacazes

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A família do ex-presidente Jair Bolsonaro resolveu perpetuar a adjetivação do presidente Lula como sendo um “descondenado”. A partir dessa adjetivação que não possui base na realidade, todo tipo de chamadas desclassificantes são jogadas contra Lula.

Pois bem, em uma dessas reviravoltas que costumam colocar em xeque as narrativas da política brasileira e da campista em especial, a cabeça da  nova executiva municipal  do PL em Campos dos Goytacazes acaba de ser entregue ao afável e elegante Thiago Ferrugem, cujas atribulações com a justiça não foram poucas desde os tempos em que ocupou a cadeira de vereador. 

Há que se lembrar que em 2017, Ferrugem foi obrigado pela justiça a ostentar uma lustrosa tornezeleira eletrônica em função de sua suposta participação em um esquema que trocava a inclusão no programa social Cheque Cidadão por votos.

Assim, eu diria que quando se trata de atribuir adjetivos para quem tem ou teve problemas com a justiça, os bolsonaristas do PL deveriam olhar primeiro para dentro da própria casa.

Uma seita no filme errado, esse é o Bolsonarismo no Brasil

Durante anos, milhões de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro foram incitados com a retórica da guerra civil. Após o assalto às instituições no domingo, a radicalização deve continuar

09_BrasiliaAinda não chegou com os dois pés na realidade: muitos participantes do assalto ao distrito governamental se isolam em um mundo paralelo. Foto: André Borges, Keystone

Por Philipp Lichterbeck , Rio de Janeiro, para o Woz

Quem quiser entender a tentativa de golpe ocorrida na capital brasileira, Brasília, no domingo, deve primeiro examinar a mentalidade dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Observadores especialmente de esquerda tendem a descartá-los como fascistas, racistas e sexistas da classe média e alta branca. O bolsonarismo penetrou em todas as classes sociais e de forma alguma pode ser atribuído a uma cor de pele ou gênero específico. É verdade que, por exemplo, quase nenhum negro esteve envolvido na invasão do distrito governamental de Brasília, mas o número de “pardos” (como são chamados aqui os descendentes de negros e brancos) foi enorme. Foi igualmente impressionante quantas mulheres participaram entusiasticamente dos motins antidemocráticos.

Outra coisa é crucial: a firme crença dos bolsonaristas de que o Brasil está em perigo por causa da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, sim, que sua vitória eleitoral em outubro só foi possível por fraude, porque o “povo” tinha esse ladrão condenado e gangsters finalmente nunca eleitos. Os bolsonaristas acreditam firmemente que defenderam a pátria, a liberdade, a verdade e, em última análise, a verdadeira democracia.

Prólogo de um mês

Lula, por outro lado, estão convencidos, planeja instaurar uma ditadura comunista, dissolver a família tradicional, restringir a prática da religião cristã e abolir a liberdade de expressão. Além disso, Lula representa para ela – não totalmente errado – a típica disputa pelo poder em Brasília, onde um grande número de partidos e personalidades podem ser providos de cargos e cargos.

Os bolsonaristas, portanto, se veem como lutadores da liberdade que tentam fazer valer a verdadeira vontade do povo, que é reprimida pelas instituições estatais em interação com a “grande mídia”. É uma crença que se confirma a cada dia no mundo paralelo em que muitos bolsonaristas se isolaram. Apenas as informações que circulam ali apóiam suas ideias. Qualquer coisa que contradiga isso é ignorado ou reinterpretado sofisticamente. O bolsonarismo é impensável sem as redes sociais.

O movimento, com sua cosmovisão hermética e retórica quase religiosa da salvação, em última análise, assemelha-se a uma seita. Isso também explica a perseverança com que milhares acamparam em frente a quartéis por todo o Brasil desde a vitória eleitoral de Lula, exigindo um golpe militar. Eles se consideram legítimos para se opor a um governo ilegítimo; os fascistas são os outros para eles.

E não se esqueça: não se trata de uma minoria perdida. 58,2 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro, ou seja, 49,1% dos que votaram. Com 60,3 milhões de votos, Lula da Silva recebeu apenas 1,8 ponto percentual a mais.

Os acampamentos foram o prólogo de um mês para a tomada de Brasília. Após uma marcha de protesto, os bolsonaristas romperam cordões policiais inadequados e invadiram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Quebraram janelas e móveis, destruíram obras de arte, atearam fogo, urinaram e defecaram em móveis e jogaram aparelhos eletrônicos no chão. Obras de arte, armas e câmeras também foram aparentemente roubadas. O prejuízo pode chegar a milhões.

O que chamou a atenção em tudo isso foi que a polícia militar no Brasil, conhecida por sua brutalidade, não interveio e alguns policiais até tiraram selfies com os invasores. Não é segredo que as forças de segurança do Brasil são um reduto do bolsonarismo.

A dura resposta de Lula

Embora inicialmente se tenha dito que a polícia havia sido surpreendida pela agressividade dos manifestantes, logo surgiu a suspeita de que havia cálculo por trás da passividade. O serviço interno de inteligência do Brasil, ABIN, aparentemente alertou os responsáveis ​​​​em Brasília no início de que milhares de várias partes do país estavam a caminho para invadir a Praça dos Três Poderes. Agora o chefe de polícia da capital, ex-ministro de Bolsonaro, foi demitido e o governador de Brasília foi afastado do cargo.

O assalto às instituições não foi espontâneo. Os apelos à invasão dos centros de poder do país já circulavam nas redes bolsonaristas há dias. Instruções para ação também foram compartilhadas; dizia-se, por exemplo, que a invasão só deveria ser tentada quando uma massa crítica de pessoas se reunisse. A polícia agora está investigando quem estava por trás dessas ligações e quem financiou as viagens de ônibus que trouxeram os manifestantes a Brasília. Cerca de uma centena de empresas e firmas bolsonaristas são suspeitas, muitas das quais já haviam apoiado os acampamentos de protesto em frente ao quartel.

Os tumultos foram interrompidos no domingo depois que o presidente Lula da Silva, que estava em São Paulo, emitiu um decreto dando ao governo federal o comando do aparato de segurança da capital. Ele anunciou com raiva que os “vândalos e fascistas” seriam punidos. Novas unidades policiais chegaram prontamente à Praça dos Três Poderes; expulsaram os invasores e prenderam algumas centenas deles. Na segunda-feira, a polícia desmantelou os acampamentos em frente aos quartéis em todo o país. Em Brasília, cerca de 1.200 bolsonaristas foram detidos em um pavilhão esportivo para verificar a prática de atos criminosos.

Foi o início da dura resposta do Estado brasileiro. O juiz constitucional Alexandre de Moraes, que já é odiado entre os bolsonaristas por sua repressão aos produtores e divulgadores de notícias falsas, ordenou que as listas de hóspedes de hotéis e pousadas em Brasília sejam revisadas e dados de geolocalização e imagens de câmeras de vigilância sejam analisados. A conduta da polícia local também faz parte da investigação. Isso é facilitado pelo fato de os bolsonaristas filmarem sua invasão e postarem gravações de seus crimes em celulares como troféus. Em sensacional discurso na terça-feira, Moraes afirmou que não haveria “apaziguamento” contra os “terroristas”: “Se o apaziguamento tivesse funcionado, não teríamos a Segunda Guerra Mundial”,

Nos grupos de comunicação bolsonaristas, mas também na Jovem Pan (a contraparte brasileira da direitista norte-americana Fox News), fala-se agora do início da ditadura comunista que Lula sempre planejou. Os bolsonaristas presos foram tratados como prisioneiros em campos de concentração e os crimes em Brasília foram cometidos por provocadores plantados pela esquerda.

O grande perdedor

O assalto às instituições brasileiras era previsível. É o resultado da retórica incitante à guerra civil que o ex-presidente Bolsonaro, políticos aliados a ele, pastores evangélicos, influenciadores e empresários vêm promovendo há anos. Alguns denunciantes online ganharam muito dinheiro com suas postagens nas mídias sociais – e, portanto, um interesse em mais radicalização.

Mas eles podem ter ido longe demais. Políticos da esquerda à direita concordaram que os “terroristas” e os “conspiradores golpistas” deveriam ser punidos em toda a extensão da lei. Lula da Silva conseguiu se apresentar como um poderoso chefe de Estado que assume o comando e toma decisões. Já na segunda-feira convocou governadores de todos os partidos, ministros e os juízes constitucionais de Brasília para demonstrar união. A maioria dos observadores concordou: a jovem democracia brasileira, com apenas 35 anos, provou ser defensiva e forte no final.

O grande perdedor é Jair Bolsonaro. Só mais tarde ele reportou da Flórida para se manifestar no Twitter contra os atos de violência em Brasília. Suas ligações não foram atendidas. Como se o bolsonarismo não precisasse mais disso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Woz” [Aqui!].

Dica para reconhecer um bolsonarista

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Muito se fala e se aposta com o que acontecerá no Brasil após uma eventual derrota eleitoral do presidente Jair Bolsonaro nas eleições gerais de outubro. Mas como vários outros observadores da atual realidade brasileira, eu não me animo com a simples derrota eleitoral, pois o que se vê hoje é que o “Bolsonarismo” se tornou algo maior que o seu mito criador.  E mais que existem realmente figuras que incorporaram de forma profunda os elementos que parecem constituir os traços essenciais de um bolsonarista.  O trabalho, diriam alguns, seria ter um método para reconhecer quando se encontra um.

Mas pessoalmente acho que nem é preciso muito esforço para se reconhecer quando estamos diante de um legítimo bolsonarista.  Mas ainda que a maioria deles goste de falar alto e usar gestos rápidos e animados, a criatura bolsonarista é também reconhecida por comportamentos explosivos em face de situações que seriam resolvíveis com um pouco de graça e boa vontade.

Hoje, por exemplo, estava em um grande estabelecimento comercial quando a funcionária do caixa me orientou a pegar caixas grátis em um dispensário que se encontrava logo a lado.  Como estou fazendo uma obra em casa ,resolvi pegar três caixas em vez de uma.  Quando já tive colocado as caixas no carrinho de compras, um senhor que empurrava um carrinho com um criança pequena no interior me perguntou se poderia pegar uma das caixas. Eu prontamente entreguei uma delas a ele, mas o homem de cabelos comletamente grisalhos me disse que não era aquela que queria, e jogou com violência a caixa entregue por mim no depósito. Calmamente peguei a caixa jogada e disse a ele que se ele não queria, eu levaria comigo como havia planejado originalmente, dando-lhe rapidamente as costas.

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Saí dali pensando como alguém que sequer foi maltratado poderia ter tido uma reação tão intempestiva e agressiva, especialmente enquanto cuidava de uma criança pequena. A resposta que me veio à cabeça foi imediata… esse aí é bolsonarista.

Então fica a dica: se alguém em pública fala muito alto sem necessidade, usa gestos exagerados e tem reações agressivas sem provocação, vai por mim, estás diante de um bolsonarista. E aconselho, faça como eu fiz: reaja friamente e se afaste o mais rápido que puder dessa pessoa, pois nada de bom vai acontecer enquanto você estivcer perto desse tipo de pessoa.

A pandemia do Coronavírus coloca o Bolsonarismo nas cordas

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A forma singular de fazer política do presidente Jair Bolsonaro, aquela que alguns chamam de “Bolsonarismo”, já foi adjetivada de diversas formas, a maioria pouco lisonjeira.  Entretanto, cavalgando na onda de descontentamento de parcelas significativas da população brasileira com a forma de gerenciar o Estado por parte principalmente dos governos do Partido dos Trabalhistas (PT), o “Bolsonarismo” vinha surfando de forma fácil os mares revoltos criados por uma economia que não sai da profunda recessão em que se encontra desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas no que consiste exatamente o “Bolsonarismo”?  Eu diria que os ingredientes principais juntam uma clara rejeição ao conhecimento científico, o apelo aos valores religiosos e uma aposta quase ilimitada da suposta capacidade do individualismo como mecanismo de melhoria econômica, além dos elementos que apontam para uma forma peculiar de nacionalismo subordinado (no caso aos EUA).

Pois bem, todas as características que formam o núcleo central do “Bolsonarismo” estão agora em xeque pelo coronavírus. Para começo de conversa, a necessidade de uma resposta científica rápida joga por terras formulações que menosprezam o conhecimento científico e os cientistas que o produzem.  Está claro para a maioria das pessoas que será necessária a intervenção da ciência rápida e eficaz da comunidade científica para que uma vacina seja desenvolvida. 

Outro fundamento do “Bolsonarismo” que é reduzida a pó é a de que individualmente poderemos chegar a uma espécie de autosalvação econômica. As cenas de entregadores de comida e motoristas de aplicativos que agora não conseguem dinheiro sequer para comprar gêneros básicos já estão correndo o mundo e corroendo rapidamente a fábula de que pela precarização das relações de trabalho é possível se chegar a ganhos econômicos que dispensem a ação dos sindicatos. 

A última peça a cair está sendo o desmoronamento do governo de Donald Trump em face da rápida expansão da pandemia do coronavírus nos EUA. Como o “Bolsonarismo” é uma espécie de sub-Trumpismo, a eventual remoção de Donald Trump do poder nas próximas eleições presidenciais que deverá ocorrer nos EUA logo após o achatamento da curva da pandemia deixará o “Bolsonarismo” sem qualquer tipo de âncora ideológica e, pior, econômica.

Há quem tema que colocado na extrema defensiva, o presidente Jair Bolsonaro irá tentar recorrer a uma solução de força para preservar sua forma peculiar de ver o mundo. Ainda que isso não seja inteiramente descartável, eu diria que a maioria preocupação de Jair Bolsonaro deveria ser a de manter o cargo pelo qual tanto lutou.  É que até agora sua posição diante da pandemia do coronavírus tem sido pífia, o que poderá transformar o Brasil em uma espécie de área global de quarentena por tempo indefinido.