A charge dos 4 milhões: o almoço de Flávio Bolsonaro com a Globo e as contradições do movimento que transformou a emissora em inimiga

Uma charge publicada no meu perfil oficial no Instagram ultrapassou a marca de 4 milhões de visualizações em poucos dias. O número impressiona, mas talvez o aspecto mais importante dessa repercussão não seja propriamente sua dimensão quantitativa. O que merece uma reflexão mais aprofundada é a razão pela qual uma imagem aparentemente simples, mostrando Flávio Bolsonaro almoçando com dirigentes da Rede Globo enquanto apoiadores vestidos de verde e amarelo observam perplexos do lado de fora, conseguiu despertar tamanho interesse. Minha hipótese é que a charge tocou em uma das contradições mais evidentes do bolsonarismo: a distância entre o discurso de enfrentamento às instituições tradicionais e as práticas de aproximação com essas mesmas instituições quando isso se torna politicamente conveniente.

Para compreender essa contradição, é necessário recordar que a Rede Globo foi transformada, ao longo dos últimos anos, em um dos principais inimigos simbólicos do bolsonarismo. A expressão “GloboLixo”, repetida exaustivamente em manifestações, redes sociais e discursos políticos, não representava apenas uma crítica à linha editorial da emissora. Ela ajudava a construir uma identidade política baseada na rejeição ao que os seguidores de Jair Bolsonaro identificavam como parte de um sistema de poder comprometido com seus adversários. A Globo passou a representar, nesse imaginário, uma espécie de síntese dos interesses das elites tradicionais, da grande imprensa e de tudo aquilo que o movimento dizia combater.

É justamente essa construção simbólica que torna politicamente significativo o almoço de Flávio Bolsonaro com integrantes da direção do Grupo Globo, realizado no mesmo dia em que o candidato participaria de uma sabatina no Jornal Nacional. O encontro, por si só, não demonstra qualquer irregularidade ou acordo editorial. Candidatos e dirigentes de empresas de comunicação podem manter relações institucionais legítimas. Entretanto, quando uma liderança política pertencente a um movimento que passou anos tratando determinada emissora como inimiga participa de um encontro cordial com seus dirigentes, surge uma questão inevitável: como conciliar essa aproximação com o discurso anteriormente dirigido aos seguidores?

A charge conseguiu traduzir essa pergunta em uma única frase: “Ué… agora não é mais GloboLixo?”

A força dessa pergunta está precisamente no fato de que ela não foi colocada na boca de um adversário do bolsonarismo, mas de um personagem vestido com a camisa amarela da seleção brasileira, símbolo amplamente utilizado nas manifestações do movimento. Em outras palavras, a charge constrói a contradição a partir do próprio universo simbólico bolsonarista. Não é necessário um longo argumento para expor o problema. Basta apresentar a cena e deixar que o espectador confronte aquilo que foi repetido durante anos com a situação retratada.

Outro elemento importante é a organização espacial da imagem. De um lado, no interior de um restaurante sofisticado, aparecem Flávio Bolsonaro e os dirigentes da Globo, sorridentes, compartilhando uma refeição em um ambiente de conforto e cordialidade. Do outro, separados por uma parede de vidro, estão os apoiadores, perplexos diante da cena. O vidro não é apenas um recurso gráfico. Ele funciona como uma metáfora da distância que pode existir entre as lideranças políticas e aqueles que participam das mobilizações públicas em seu nome.

Enquanto os militantes são convocados a enfrentar adversários nas ruas e nas redes sociais, suas lideranças podem estabelecer relações pragmáticas com esses mesmos adversários nos espaços reservados de sociabilidade e negociação. Essa diferença não constitui uma exclusividade do bolsonarismo, mas adquire um significado particular quando o antagonismo contra determinadas instituições é apresentado como um elemento central da identidade política de um movimento.

A presença de uma garrafa do raríssimo Domaine de la Romanée-Conti 1945 amplia essa dimensão crítica. Evidentemente, o vinho é um recurso de exagero satírico, não uma afirmação sobre o que foi servido no encontro. Sua função é representar o universo dos privilégios econômicos e das relações sociais entre integrantes das elites políticas e empresariais. O contraste entre o luxo da mesa e a perplexidade dos apoiadores do lado de fora reforça uma questão que ultrapassa o episódio específico: até que ponto os conflitos políticos apresentados publicamente como irreconciliáveis correspondem às relações efetivamente mantidas entre seus protagonistas?

Há também uma dimensão que envolve diretamente o papel da Rede Globo na disputa eleitoral. A realização de um almoço entre dirigentes de uma das maiores empresas de comunicação do país e um candidato à Presidência, poucas horas antes de uma entrevista de grande repercussão nacional, suscita questionamentos legítimos sobre transparência e equidade no relacionamento com os concorrentes. Isso não significa afirmar que o encontro tenha interferido na condução da sabatina, algo que exigiria evidências específicas. Mas significa reconhecer que, em uma democracia, as relações entre proprietários de grandes meios de comunicação e lideranças políticas merecem escrutínio público, especialmente durante campanhas eleitorais.

Entretanto, acredito que o principal motivo da repercussão da charge esteja em outra dimensão. Ela expõe a tensão entre duas lógicas distintas: a lógica da mobilização política, frequentemente alimentada pela identificação de inimigos, e a lógica da disputa pelo poder, que pode exigir negociações e aproximações com atores anteriormente hostilizados. Quando essas duas lógicas entram em contato, surgem contradições que nem sempre são facilmente explicadas aos seguidores.

É possível que parte do público bolsonarista interprete o almoço como uma demonstração de pragmatismo político. Outros poderão considerá-lo uma aproximação incompatível com o discurso de enfrentamento à Globo. Já os críticos do movimento tendem a enxergar no episódio uma evidência da distância entre sua retórica e suas práticas. A charge consegue circular entre essas diferentes interpretações justamente porque transforma a contradição em uma pergunta, e não em uma explicação fechada.

Esse aspecto ajuda a compreender os mais de 4 milhões de visualizações. Em um ambiente digital marcado por disputas políticas intensas, uma imagem que mobiliza símbolos imediatamente reconhecíveis e apresenta uma incongruência de maneira humorística reúne condições favoráveis para ser compartilhada. A marca da Globo, as camisas amarelas, a figura de Flávio Bolsonaro e a expressão “GloboLixo” compõem uma narrativa que pode ser compreendida em poucos segundos. Além disso, a ironia provoca reações tanto entre aqueles que concordam com a crítica quanto entre os que desejam contestá-la.

É necessário, contudo, evitar uma interpretação precipitada dos números. Quatro milhões de visualizações não equivalem a quatro milhões de pessoas convencidas pela mensagem, nem demonstram, isoladamente, uma mudança nas posições políticas dos espectadores. O alcance de uma publicação pode resultar de compartilhamentos favoráveis, críticas, debates e mecanismos de distribuição da própria plataforma. Ainda assim, a dimensão da circulação indica que a imagem conseguiu despertar uma atenção pública muito superior àquela normalmente alcançada por uma publicação individual.

Para o Blog do Pedlowski, há uma lição particularmente interessante nesse episódio. A charge mostra que a crítica política não precisa necessariamente recorrer a textos extensos para apresentar uma questão complexa. Uma imagem bem construída pode condensar relações de poder, contradições discursivas e conflitos simbólicos em uma representação acessível, sem abrir mão de uma interpretação mais profunda da realidade.

Nesse sentido, a charge não se limita a satirizar um almoço. Ela oferece uma representação das relações entre lideranças políticas, grandes empresas de comunicação e bases militantes. Sua eficácia está em tornar visível uma tensão que frequentemente permanece diluída no noticiário cotidiano: a possibilidade de que instituições apresentadas publicamente como inimigas sejam tratadas, em determinadas circunstâncias, como interlocutoras legítimas pelas mesmas lideranças que estimularam sua rejeição.

Talvez seja essa a principal explicação para a repercussão alcançada. A charge não apresenta uma denúncia inédita, tampouco depende de uma revelação extraordinária. Ela reorganiza visualmente um acontecimento conhecido e evidencia uma pergunta politicamente incômoda.

Afinal, se a Globo foi apresentada durante tantos anos como uma inimiga do bolsonarismo, o que significa ver uma de suas principais lideranças compartilhando cordialmente a mesa com os proprietários da emissora?

O patriotismo de araque do bolsonarismo: da dancinha na Paulista ao pedido de uma bomba atômica contra o Brasil

Ao pedir que Donald Trump ataque o próprio país com armas nucleares, apoiadores de Flávio Bolsonaro expõem uma contradição grotesca: em nome da pátria, estão dispostos a celebrar sua destruição

O que aconteceu neste domingo (18), na Avenida Paulista, em São Paulo, durante uma manifestação de apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, deveria provocar indignação em qualquer brasileiro minimamente comprometido com a soberania nacional. Em meio a bandeiras verde-amarelas, coreografias eleitorais e palavras de ordem, um grupo de manifestantes resolveu exibir uma réplica de míssil com a inscrição “Trump nuke Brazil”, que pode ser traduzida como “Trump, ataque o Brasil com armas nucleares”. A cena, registrada em imagens e vídeos, foi noticiada pelo UOL, pela Revista Fórum e por outros veículos de comunicação. Não se tratou,  portanto, de uma invenção de adversários políticos, mas de uma manifestação pública cuja mensagem estava literalmente escrita no objeto carregado pelos participantes.

É difícil imaginar uma demonstração mais acabada da degradação do conceito de patriotismo promovida por determinados segmentos do bolsonarismo. Afinal, que espécie de patriota pede ao presidente de uma potência estrangeira que lance uma bomba atômica sobre o território de seu próprio país? Como alguém consegue conciliar o discurso de amor à pátria com a defesa, ainda que apresentada como provocação, de uma ação militar que provocaria mortes em massa, destruição ambiental e consequências sociais e econômicas potencialmente irreversíveis?

A contradição é ainda mais evidente quando lembramos que o bolsonarismo construiu parte importante de sua identidade política sobre a apropriação dos símbolos nacionais. A bandeira brasileira, as cores verde e amarela e as referências permanentes à pátria foram transformadas em elementos de identificação partidária. Entretanto, quando esses mesmos símbolos aparecem associados a um pedido de bombardeio nuclear do Brasil, o que se revela é uma concepção profundamente distorcida de nacionalismo, na qual a lealdade a determinados líderes políticos parece se sobrepor à própria existência da nação.

O episódio também não pode ser separado da crescente identificação de setores do bolsonarismo com Donald Trump. A admiração pelo presidente estadunidense ultrapassa, em alguns casos, a afinidade ideológica e assume características de subordinação política. A potência estrangeira passa a ser imaginada como uma espécie de autoridade superior, à qual se poderia recorrer para resolver conflitos internos que deveriam ser enfrentados exclusivamente pelas instituições brasileiras e pela vontade popular expressa nas urnas. Trata-se de uma inversão particularmente grave: aqueles que afirmam defender a independência nacional acabam recorrendo simbolicamente à tutela de Washington.

Nesse sentido, o míssil exibido na Avenida Paulista é mais do que uma manifestação de mau gosto. Ele constitui uma expressão extrema de uma lógica política segundo a qual o país pode ser submetido a pressões externas, sanções e até ameaças militares, desde que essas medidas favoreçam determinado projeto de poder. É a transformação da soberania nacional em uma variável subordinada aos interesses de uma facção política.

Convém também não banalizar o significado de uma arma nuclear. As bombas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, provocaram destruição devastadora e dezenas de milhares de mortes imediatas, além de um número muito maior de vítimas ao longo dos meses e anos seguintes. A exposição à radiação, os incêndios, as queimaduras e a destruição da infraestrutura urbana produziram consequências que permanecem como advertência histórica sobre a capacidade humana de aniquilação. Transformar esse instrumento de destruição em adereço de manifestação eleitoral revela, no mínimo, uma assustadora insensibilidade diante da vida humana.

Há ainda uma dimensão ambiental que não pode ser ignorada. Um ataque nuclear contra qualquer região brasileira produziria consequências potencialmente catastróficas sobre populações, ecossistemas, recursos hídricos e atividades econômicas. Dependendo da potência do artefato, do local atingido e das condições atmosféricas, a contaminação radioativa poderia ultrapassar amplamente a área inicialmente bombardeada. Para um movimento que frequentemente trata as preocupações ambientais como obstáculos ao desenvolvimento econômico, o pedido de uma bomba atômica representa uma espécie de culminância grotesca do desprezo pelos limites ecológicos e pela própria sobrevivência humana.

É verdade que não se pode atribuir automaticamente a Flávio Bolsonaro, aos organizadores do evento ou a todos os participantes a responsabilidade pela mensagem exibida por aquele grupo. As reportagens consultadas não demonstram que o candidato tenha autorizado ou endossado o pedido. Essa distinção é necessária. Entretanto, o fato de uma manifestação de apoio à sua candidatura ter servido de palco para semelhante demonstração torna indispensável uma condenação pública e inequívoca da mensagem. O silêncio, caso persista, poderá ser interpretado politicamente como tolerância diante de um comportamento absolutamente incompatível com o exercício responsável da Presidência da República.

Outro aspecto que merece reflexão é o contraste entre a atmosfera festiva da manifestação e a gravidade das ideias que nela circularam. O chamado “Bloquinho 22”, com suas músicas, coreografias e encenações, oferece uma representação quase caricatural de uma forma de mobilização política que privilegia o espetáculo em detrimento da discussão sobre os problemas concretos da sociedade brasileira. Enquanto milhões de trabalhadores enfrentam dificuldades relacionadas à renda, ao custo de vida, ao acesso à moradia e à precarização do trabalho, parte do debate político parece reduzida à celebração de lideranças e à produção de imagens destinadas à circulação nas redes sociais.

É nesse ambiente que manifestações extremas podem ser apresentadas como brincadeiras, provocações ou simples performances. Mas a linguagem política nunca é inteiramente inocente. Quando a destruição do próprio país passa a integrar o repertório simbólico de uma manifestação eleitoral, mesmo que seus autores não esperem a concretização do pedido, ocorre uma perigosa normalização da violência como instrumento de resolução dos conflitos políticos.

O problema, portanto, não é apenas a existência de um míssil inflável com uma inscrição absurda. É a possibilidade de que setores da sociedade passem a considerar aceitável a intervenção de uma potência estrangeira contra o Brasil, desde que isso represente uma derrota para seus adversários internos. Essa mentalidade corrói os fundamentos da democracia, pois substitui o reconhecimento da legitimidade do conflito político pela fantasia da eliminação do outro.

A soberania nacional não pertence a Lula, a Flávio Bolsonaro, a qualquer partido ou a qualquer movimento político. Ela pertence ao povo brasileiro, incluindo aqueles que pensam de maneira radicalmente diferente uns dos outros. Defender o Brasil significa reconhecer que os conflitos sobre os rumos do país devem ser resolvidos por meio de instituições democráticas, participação popular e respeito aos direitos fundamentais, e não pela invocação de forças militares estrangeiras.

A cena da Avenida Paulista deveria servir, inclusive, para uma reflexão mais ampla sobre os riscos de uma cultura política baseada na idolatria de líderes, no negacionismo e na hostilidade permanente às instituições democráticas. Quando a fidelidade a um projeto partidário se torna mais importante do que a preservação do próprio país, desaparece a distinção entre patriotismo e fanatismo.

No fim das contas, o episódio oferece uma imagem difícil de superar em sua carga de ironia: brasileiros vestidos com as cores nacionais, em uma manifestação de apoio a um candidato à Presidência da República, carregando um míssil que pede ao presidente dos Estados Unidos que destrua o Brasil.

Talvez seja essa a definição mais precisa do patriotismo de araque: amar tanto a própria facção política que se passa a desejar a destruição da pátria quando ela não se submete aos seus interesses.  E pensar que tudo isso aconteceu ao som de músicas e dancinhas eleitorais. 

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.

O Brasil não sobreviverá a mais quatro anos de negacionismo: no segundo turno, voto em Lula

Os leitores deste blog sabem que mantive uma posição crítica em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo de todo o seu terceiro mandato. Na maioria das minhas manifestações, o centro dessa crítica esteve naquilo que considero uma postura de negacionismo sutil diante de questões fundamentais, a começar pelas mudanças climáticas, mas não apenas. O atual governo tem se caracterizado por práticas de meio-termo, tentando conciliar preocupações sociais com a manutenção de uma política de controle fiscal que, objetivamente, impede o enfrentamento dos problemas produzidos pela profunda desigualdade econômica existente na sociedade brasileira.

Por outro lado, fui um crítico ainda mais contundente do governo de Jair Bolsonaro, especialmente no que se refere às questões ambientais e, mais ainda, à condução da pandemia de COVID-19. Além disso, sempre me pareceu evidente que uma das principais propostas de Jair Bolsonaro era desmantelar as concessões mínimas asseguradas a partir da Constituição Federal de 1988. Ao fazer isso, Bolsonaro pai acabou desmontando até mesmo medidas adotadas durante o regime civil-militar instaurado em 1964. Com essa postura, e de forma até coerente com seu projeto político, Jair Bolsonaro mostrou-se, em diversos aspectos, mais regressivo do que o próprio regime dos generais.

Agora, temos a possibilidade concreta do retorno do bolsonarismo ao governo federal, desta vez na figura do primogênito de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro. Tendo vencido o primeiro turno sem falar muito sobre seus planos de governo, Flávio certamente tentará evitar fazê-lo também durante o segundo turno. A razão é simples: aquilo que já se conhece de suas propostas aponta para a implantação no Brasil de uma versão igual ou ainda mais radical daquela adotada por Javier Milei na Argentina, envolvendo a privatização de empresas estatais estratégicas, o desmonte de políticas sociais que funcionam como anteparo mínimo contra a pobreza extrema e a adoção de políticas antiambientais que poderão fazer o Brasil retornar a taxas elevadas de desmatamento na Amazônia.

Há ainda um componente particularmente preocupante nesse projeto: a permanência da postura anticiência e do negacionismo que marcaram o governo de Jair Bolsonaro. Durante a pandemia de COVID-19, vimos até onde pode chegar um governo que despreza evidências científicas, transforma questões técnicas em batalhas ideológicas e trata o conhecimento produzido pelas universidades e instituições de pesquisa como um obstáculo a ser removido. O resultado dessa combinação de obscurantismo, improvisação e ideologia ficou dramaticamente exposto durante a crise sanitária.

Flávio Bolsonaro dá sinais de que essa postura não desapareceu com o pai. Um exemplo particularmente revelador ocorreu quando, questionado sobre o enfrentamento das mudanças climáticas, respondeu apontando o saneamento básico como uma das respostas para o problema. Evidentemente, ampliar o saneamento básico é uma necessidade urgente em um país no qual milhões de pessoas ainda vivem sem acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto. Mas apresentar o saneamento como resposta ao aquecimento global revela uma incompreensão preocupante sobre a natureza e a escala da crise climática. Uma coisa é defender políticas de saneamento, inclusive como componente da adaptação e da redução da vulnerabilidade social; outra, completamente diferente, é apresentá-las como substitutas de políticas destinadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, ao combate ao desmatamento, à transição energética e à adaptação dos territórios às mudanças climáticas já em curso.

E é justamente aí que o caráter tosco desse negacionismo se torna particularmente perigoso. O Brasil não enfrentará a crise climática com frases de efeito ou soluções improvisadas em palanques eleitorais. Enfrentará — ou deixará de enfrentar — um processo que já se manifesta por meio de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, alterações nos regimes de chuvas e crescente pressão sobre os sistemas urbanos, agrícolas e energéticos. Colocar novamente o governo federal nas mãos de forças políticas que tratam a ciência como adversária significaria perder anos decisivos justamente quando as condições climáticas estão se deteriorando rapidamente.

O problema tampouco termina nas fronteiras brasileiras. O Brasil abriga a maior parcela da Amazônia, possui uma das maiores biodiversidades do planeta e ocupa posição central nas disputas internacionais sobre clima, energia, florestas e uso da terra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro que retomasse o negacionismo climático, estimulasse o desmatamento e enfraquecesse novamente os organismos de fiscalização ambiental não produziria consequências apenas para os brasileiros. Em um momento em que limitar o aquecimento global exige redução acelerada das emissões, transformar novamente o Brasil em vetor de retrocesso ambiental seria desastroso para o país e contribuiria para agravar uma crise que é planetária.

Essa receita ainda inclui a entrega das reservas brasileiras de minerais estratégicos a empresas dos Estados Unidos, sob a justificativa de estabelecer um alinhamento estratégico com o governo de Donald Trump e, simultaneamente, criar uma espécie de contraposição à China, que ocupa posição dominante nas cadeias globais de terras raras. Além disso, esse alinhamento poderia se estender ao combate ao narcotráfico, inclusive com a possível presença de tropas estadunidenses em território brasileiro, o que representaria uma ameaça particularmente grave à soberania nacional.

Como ocorreu com seu pai, Flávio Bolsonaro, caso eleito, provavelmente chegaria ao governo acompanhado por quadros escolhidos mais pela fidelidade ideológica do que pela competência técnica. Isso tenderia a ampliar o grau de confusão e truculência governamental, sobretudo porque boa parte das medidas anunciadas ou insinuadas teria caráter profundamente antipopular, atingindo inclusive parcelas significativas da própria base eleitoral bolsonarista. Quando a fidelidade ideológica se combina com o desprezo pelo conhecimento científico, os resultados podem ser ainda mais graves, como a experiência recente do próprio Brasil já demonstrou.

Por isso, a escolha colocada neste segundo turno não diz respeito apenas à política econômica, ao destino das empresas estatais ou às políticas sociais. Ela envolve também decidir se o Brasil continuará, ainda que com todas as insuficiências e contradições do atual governo, reconhecendo a ciência e as mudanças climáticas como elementos que devem orientar políticas públicas, ou se retornará ao obscurantismo que caracterizou os anos de Jair Bolsonaro. Depois do que ocorreu durante a pandemia e diante do que já estamos experimentando com a crise climática, alegar desconhecimento sobre as consequências dessa escolha não será mais possível.

Todo esse cenário me leva a apontar, sem qualquer contradição com as críticas que fiz e continuarei fazendo ao atual governo, para a necessidade do voto em Lula no segundo turno. A situação social brasileira já é grave o suficiente para que nos arrisquemos a experimentar uma versão brasileira do programa de Javier Milei, aplicada a frio sobre uma sociedade marcada por níveis extremos de desigualdade. Acrescente-se a isso a possibilidade de retorno do negacionismo científico ao centro das decisões governamentais e teremos uma combinação potencialmente explosiva de regressão social, destruição ambiental e obscurantismo.

Mas, para derrotar Flávio Bolsonaro, será necessário ampliar o diálogo principalmente com aqueles que não foram votar no domingo passado. A disputa pelo eleitorado que compareceu às urnas será inevitavelmente difícil, ainda que exista alguma possibilidade de deslocamento de votos entre as duas candidaturas. Por isso, a ampliação da participação eleitoral e a disputa política daqueles que se abstiveram assumem importância decisiva.

E isso exige abandonar qualquer soberba e, sobretudo, qualquer depreciação da capacidade de escolha dos brasileiros e brasileiras. Quem pretende conquistar votos precisa primeiro compreender as razões pelas quais milhões de pessoas se afastaram das urnas ou deixaram de enxergar na atual alternativa governista uma resposta suficiente para seus problemas cotidianos. Tratar essas pessoas como ignorantes ou politicamente incapazes seria não apenas um erro político, mas talvez o caminho mais curto para entregá-las definitivamente ao bolsonarismo.

Não há, portanto, tempo a perder. É preciso começar desde já a trabalhar pela vitória de Lula no segundo turno, sem abandonar a crítica às limitações de seu governo e sem transformar o voto contra Flávio Bolsonaro em um cheque em branco para os próximos quatro anos. Derrotar o bolsonarismo nas urnas é a tarefa imediata. Enfrentar as políticas econômicas, sociais e ambientais que produziram o terreno no qual ele prospera continuará sendo uma tarefa para o dia seguinte.

E há uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo cujas políticas consideramos insuficientes e ter de enfrentar novamente um governo que transforma a própria realidade objetiva em inimiga. A experiência da pandemia deveria ter ensinado definitivamente o preço que uma sociedade pode pagar quando o negacionismo deixa de ser apenas discurso e passa a orientar políticas de Estado.

Por isso, no segundo turno, meu voto será em Lula. Sem cheque em branco, sem abandonar as críticas e sem qualquer ilusão de que uma vitória eleitoral resolverá as contradições profundas da sociedade brasileira. Mas com a convicção de que permitir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, agora sob o comando de Flávio Bolsonaro, seria um risco que o Brasil simplesmente não precisa — e talvez não possa — correr.

Como se diz atualmente nas manifestações que percorrem as ruas da Europa: às ruas, cidadãos!

Escala 6×1 expõe núcleo duro do bolsonarismo no Congresso e sinaliza agenda de eventual governo Bolsonaro II

Com apenas 22 votos contrários ao fim da jornada exaustiva, bancada do PL — especialmente a ala catarinense — revela a agenda ultraliberal que poderá orientar um eventual governo Flávio Bolsonaro em 2026

A aprovação, por ampla maioria, da PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 na Câmara dos Deputados revelou muito mais do que um simples embate sobre jornada de trabalho. O placar político mostrou um isolamento significativo dos setores mais conservadores do Congresso diante de uma pauta de forte apelo social, especialmente entre trabalhadores submetidos a rotinas exaustivas e salários baixos. Segundo levantamento publicado pelo UOL Notícias, apenas 22 deputados votaram contra a proposta.66x

O dado mais emblemático, porém, está na composição dessa minoria. Metade dos votos contrários veio do Partido Liberal (PL), legenda do pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro. Mais impressionante ainda é o fato de que nove desses parlamentares pertencem à bancada de Santa Catarina, transformando a seção catarinense do PL numa espécie de núcleo duro do bolsonarismo no Congresso Nacional.

A postura da bancada catarinense não surge do acaso. Santa Catarina consolidou-se, nos últimos anos, como um dos principais laboratórios políticos do bolsonarismo, reunindo parlamentares alinhados às pautas mais radicais da extrema direita brasileira. O fortalecimento da influência da família Bolsonaro no estado, inclusive com a articulação em torno de candidaturas ligadas diretamente ao clã bolsonarista, reforça esse perfil ideológico.

No debate sobre o fim da escala 6×1, esse alinhamento apareceu de forma cristalina. Enquanto a maioria da Câmara reconheceu o desgaste físico e mental provocado por jornadas contínuas e a necessidade de modernização das relações de trabalho, a ala mais radical do PL optou por se posicionar contra uma medida percebida por amplos setores da sociedade como civilizatória. O episódio ajuda a iluminar aquilo que muitas vezes fica obscurecido pelo discurso eleitoral genérico: quais interesses concretos seriam priorizados em um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro.

A votação também desmonta parte da tentativa recente de setores do PL de suavizar sua imagem junto ao eleitorado trabalhador. Mesmo após ensaios discursivos em defesa de modelos alternativos de jornada, integrantes da base governista acusaram o partido de tentar inviabilizar o avanço da proposta por meio de alterações consideradas desfiguradoras da PEC original.

No fim, a fotografia política deixada pela votação é bastante reveladora: de um lado, uma maioria parlamentar pressionada pelas demandas sociais por melhores condições de trabalho; do outro, um núcleo ideológico minoritário que segue apostando numa agenda ultraliberal e profundamente alinhada aos interesses patronais mais conservadores. A poucos meses da consolidação das alianças para as eleições de 2026, o episódio funciona quase como uma antecipação prática do que estaria em jogo numa eventual vitória presidencial do bolsonarismo.

Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

A encruzilhada do bolsonarismo ameaça engolir Rodrigo Bacellar

Por Douglas Barreto da Mata

Que o eleitorado fluminense tem forte sotaque conservador não é novidade. É um fenômeno histórico, com poucos períodos de mandatos de políticos progressistas, o mais importante deles, Leonel Brizola.  Aliás, o conservadorismo não é um traço fluminense, mas nacional, apesar dos mandatos presidenciais do PT.  Não seria exagero dizer que o exercício da Presidência da República alterou muito mais o PT do que este alterou o país.  Mas resumir o conservadorismo fluminense ao bolsonarismo é um erro, ou um exagero que favorece a narrativa do interessado.

No atual momento, definir o peso e a resiliência desta manifestação política é crucial para determinarmos as possibilidades de sucesso deste ou daquele ator político, e neste caso aqui, deste texto, o que nos interessa é o que vai acontecer na eleição de governador, onde até aqui temos dois pretendentes, Rodrigo Bacellar e Eduardo Paes.  Dentre os dois, o que está em situação mais delicada é Bacellar. E por quê?  Ora, porque ele reivindicou uma pré-candidatura na aliança política que têm Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro como figuras de proa, ao mesmo tempo que foi, publicamente, rejeitado por ambos (e também por outras figuras de relevo do movimento bolsonarista).  Em resumo, Rodrigo Bacellar determinou sua trajetória como nome do bolsonarismo no Rio de Janeiro, e lhe foi negado este posto.

É possível a Rodrigo reconstruir sua (pré) candidatura, como afirmou o presidente nacional da federação União Brasil/PP, Antônio Rueda?  Possível é, tudo é possível, mas é pouco provável.  Como me ensinou um amigo especialista na observação da cena política, Rodrigo e Rueda não têm outra saída, senão manter ocupado o lugar dessa pré-candidatura, sob pena de verem desmoronar o já instável chão sob os pés de ambos. 

Se sinalizar a desistência antes do tempo, Rodrigo Bacellar pode ficar sem a vaga no TCE, sem o apoio de seus colegas de Alerj na eleição indireta para governador (caso Castro renuncie), enfim, enfrentará um final melancólico.  Por essa razão, Rodrigo Bacellar tem que manter as aparências que, neste caso, enganam pouco.

Não há mais espaço para Rodrigo Bacellar operar uma candidatura tipo “terceira via”, por várias razões.  A primeira, e mais óbvia, é a sua trajetória relacionada ao bolsonarismo no Estado, ainda que os bolsonaristas não o reconheçam como tal.  Também não há lugar para se mostrar um “moderado”, tanto pelo estilo pessoal do deputado, quanto pela sua base de apoio mais fiel, que tem na estridente trinca Alan-Amorim-Poubel sua face mais operacional. 

As pesquisas mostram que há um viés do eleitor que aponta para um certo cansaço com o bolsonarismo, apesar deste nome ainda ter importância na decisão do eleitor.  Ressaltamos que esse cansaço não é uma guinada para fora do espectro conservador, mas sim da sua forma mais extremista, justamente personificada na figura do ex-presidente, tudo isso incrementado pelas últimas trapalhadas do chamado “tarifaço de Trump”. 

Esse movimento do eleitorado favorece primeiro o favorito Eduardo Paes, que se situa como um centro-direita que “come com talheres”, e não “arrota à mesa”.  No entanto, Paes tem um grave problema, ou melhor, dois: a síndrome de Celso Russomano (o cavalo paraguaio de SP) e sua pouquíssima abrangência fora da Capital.  Paes é um cara que personificou tanto a “carioquice zona sul”, esse “tipo” que é ao mesmo tempo um conservador e elitista, mas “gente boa” e que “vai na roda de samba”. Essa imagem não permite a ele se colocar para além da Ponte Rio-Niterói.  Paes é irremediavelmente um carioca, nunca um fluminense. 

Faltou inteligência a ele, por exemplo, para distribuir a recepção de alguns dos eventos globais que aconteceram no Rio, criando um vínculo dos organizadores dessas cúpulas com prefeitos do interior, como da região serrana ou região dos lagos, para que os pré-eventos, que são comuns nestas cúpulas, quando delegações de preparação debatem os temas anteriormente, pudessem se espalhar por cidades turísticas, como Cabo Frio, Petrópolis, Penedo, ou até mesmo polos regionais, como Macaé ou Campos dos Goytacazes.

Como dizem na gíria, “comeu mosca”, porque pensou dentro da caixinha do “carioquismo”, porém, só o seu eleitorado na capital não o elege. Voltando ao bolsonarismo, alguns apostam que 2026 será o início do fim, onde o declínio do poder de intervenção no eleitorado estadual fluminense se fará bem visível. Já outros contestam, dizendo que será sim o início do declínio, mas não ainda a ponto de comprometer a capacidade do ex-presidente em ser um forte eleitor para quem resolver apoiar.

Penso que o bolsonarismo está em franca fragmentação. O encaminhamento das questões eleitorais no RJ é uma prova inconteste disso.  Seja pelo assédio jurídico, seja pelos erros de avaliação que levaram a erros estratégicos, o fato é que a comunidade política bolsonarista só tem um objetivo claro: eleger senadores, .e agora, mais um, tentar livrar o seu líder da cadeia.

Não seria pouco, é verdade, mas para quem teve a Presidência da República, uma bancada parlamentar federal significativa e ruidosa, diversos governadores, e que até bem pouco tempo, dominava as iniciativas nas redes sociais, é muito pouco.  Há alguns anos seriam impensáveis os movimentos de Washington Reis, oscilando entre o bolsonarismo e um acordo com Paes, e mesmo assim, em desagravo a Reis, os Bolsonaro retiraram o apoio a Cláudio Castro e a Bacellar. Castro, como sabemos, correu para salvar a própria pele, e deixou Bacellar “falando sozinho”. Como seria impensável que Silas Malafaia dissesse, aos quatro ventos, que se os Bolsonaro insistissem em Rodrigo Bacellar, ele estaria fora dessa campanha (alguns dizem que na verdade, ali os Bolsonaro falaram através do pastor). 

Em qualquer outro tempo, caso Washington Reis recuperasse sua elegibilidade, ninguém teria dúvidas de que ele se colocaria como opção junto ao bolsonarismo para a missão de enfrentar Eduardo Paes.  Quem olhar a sua “linguagem corporal” atual, não terá certeza de que o Czar da Baixada esteja 100% com Bolsonaro.  Na verdade, hoje, o Czar de Caxias é 100% ele mesmo, e olhem lá.

Enfim, a verdade é que temos uma enorme brecha no eleitorado conservador, que não quer um bolsonarismo estridente, mas ao contrário, quer algo que se achegue mais ao centro, mas não votará em Eduardo Paes.  Se Washington Reis não puder, ou não quiser ser esse nome, o bolsonarismo, sob pena de encolher ainda mais, vai ter que buscar um nome que preencha essa lacuna para fazer frente a Eduardo Paes.

A moral flexível do Bolsonarismo fica bem explícita em Campos dos Goytacazes

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A família do ex-presidente Jair Bolsonaro resolveu perpetuar a adjetivação do presidente Lula como sendo um “descondenado”. A partir dessa adjetivação que não possui base na realidade, todo tipo de chamadas desclassificantes são jogadas contra Lula.

Pois bem, em uma dessas reviravoltas que costumam colocar em xeque as narrativas da política brasileira e da campista em especial, a cabeça da  nova executiva municipal  do PL em Campos dos Goytacazes acaba de ser entregue ao afável e elegante Thiago Ferrugem, cujas atribulações com a justiça não foram poucas desde os tempos em que ocupou a cadeira de vereador. 

Há que se lembrar que em 2017, Ferrugem foi obrigado pela justiça a ostentar uma lustrosa tornezeleira eletrônica em função de sua suposta participação em um esquema que trocava a inclusão no programa social Cheque Cidadão por votos.

Assim, eu diria que quando se trata de atribuir adjetivos para quem tem ou teve problemas com a justiça, os bolsonaristas do PL deveriam olhar primeiro para dentro da própria casa.

Uma seita no filme errado, esse é o Bolsonarismo no Brasil

Durante anos, milhões de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro foram incitados com a retórica da guerra civil. Após o assalto às instituições no domingo, a radicalização deve continuar

09_BrasiliaAinda não chegou com os dois pés na realidade: muitos participantes do assalto ao distrito governamental se isolam em um mundo paralelo. Foto: André Borges, Keystone

Por Philipp Lichterbeck , Rio de Janeiro, para o Woz

Quem quiser entender a tentativa de golpe ocorrida na capital brasileira, Brasília, no domingo, deve primeiro examinar a mentalidade dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Observadores especialmente de esquerda tendem a descartá-los como fascistas, racistas e sexistas da classe média e alta branca. O bolsonarismo penetrou em todas as classes sociais e de forma alguma pode ser atribuído a uma cor de pele ou gênero específico. É verdade que, por exemplo, quase nenhum negro esteve envolvido na invasão do distrito governamental de Brasília, mas o número de “pardos” (como são chamados aqui os descendentes de negros e brancos) foi enorme. Foi igualmente impressionante quantas mulheres participaram entusiasticamente dos motins antidemocráticos.

Outra coisa é crucial: a firme crença dos bolsonaristas de que o Brasil está em perigo por causa da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, sim, que sua vitória eleitoral em outubro só foi possível por fraude, porque o “povo” tinha esse ladrão condenado e gangsters finalmente nunca eleitos. Os bolsonaristas acreditam firmemente que defenderam a pátria, a liberdade, a verdade e, em última análise, a verdadeira democracia.

Prólogo de um mês

Lula, por outro lado, estão convencidos, planeja instaurar uma ditadura comunista, dissolver a família tradicional, restringir a prática da religião cristã e abolir a liberdade de expressão. Além disso, Lula representa para ela – não totalmente errado – a típica disputa pelo poder em Brasília, onde um grande número de partidos e personalidades podem ser providos de cargos e cargos.

Os bolsonaristas, portanto, se veem como lutadores da liberdade que tentam fazer valer a verdadeira vontade do povo, que é reprimida pelas instituições estatais em interação com a “grande mídia”. É uma crença que se confirma a cada dia no mundo paralelo em que muitos bolsonaristas se isolaram. Apenas as informações que circulam ali apóiam suas ideias. Qualquer coisa que contradiga isso é ignorado ou reinterpretado sofisticamente. O bolsonarismo é impensável sem as redes sociais.

O movimento, com sua cosmovisão hermética e retórica quase religiosa da salvação, em última análise, assemelha-se a uma seita. Isso também explica a perseverança com que milhares acamparam em frente a quartéis por todo o Brasil desde a vitória eleitoral de Lula, exigindo um golpe militar. Eles se consideram legítimos para se opor a um governo ilegítimo; os fascistas são os outros para eles.

E não se esqueça: não se trata de uma minoria perdida. 58,2 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro, ou seja, 49,1% dos que votaram. Com 60,3 milhões de votos, Lula da Silva recebeu apenas 1,8 ponto percentual a mais.

Os acampamentos foram o prólogo de um mês para a tomada de Brasília. Após uma marcha de protesto, os bolsonaristas romperam cordões policiais inadequados e invadiram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Quebraram janelas e móveis, destruíram obras de arte, atearam fogo, urinaram e defecaram em móveis e jogaram aparelhos eletrônicos no chão. Obras de arte, armas e câmeras também foram aparentemente roubadas. O prejuízo pode chegar a milhões.

O que chamou a atenção em tudo isso foi que a polícia militar no Brasil, conhecida por sua brutalidade, não interveio e alguns policiais até tiraram selfies com os invasores. Não é segredo que as forças de segurança do Brasil são um reduto do bolsonarismo.

A dura resposta de Lula

Embora inicialmente se tenha dito que a polícia havia sido surpreendida pela agressividade dos manifestantes, logo surgiu a suspeita de que havia cálculo por trás da passividade. O serviço interno de inteligência do Brasil, ABIN, aparentemente alertou os responsáveis ​​​​em Brasília no início de que milhares de várias partes do país estavam a caminho para invadir a Praça dos Três Poderes. Agora o chefe de polícia da capital, ex-ministro de Bolsonaro, foi demitido e o governador de Brasília foi afastado do cargo.

O assalto às instituições não foi espontâneo. Os apelos à invasão dos centros de poder do país já circulavam nas redes bolsonaristas há dias. Instruções para ação também foram compartilhadas; dizia-se, por exemplo, que a invasão só deveria ser tentada quando uma massa crítica de pessoas se reunisse. A polícia agora está investigando quem estava por trás dessas ligações e quem financiou as viagens de ônibus que trouxeram os manifestantes a Brasília. Cerca de uma centena de empresas e firmas bolsonaristas são suspeitas, muitas das quais já haviam apoiado os acampamentos de protesto em frente ao quartel.

Os tumultos foram interrompidos no domingo depois que o presidente Lula da Silva, que estava em São Paulo, emitiu um decreto dando ao governo federal o comando do aparato de segurança da capital. Ele anunciou com raiva que os “vândalos e fascistas” seriam punidos. Novas unidades policiais chegaram prontamente à Praça dos Três Poderes; expulsaram os invasores e prenderam algumas centenas deles. Na segunda-feira, a polícia desmantelou os acampamentos em frente aos quartéis em todo o país. Em Brasília, cerca de 1.200 bolsonaristas foram detidos em um pavilhão esportivo para verificar a prática de atos criminosos.

Foi o início da dura resposta do Estado brasileiro. O juiz constitucional Alexandre de Moraes, que já é odiado entre os bolsonaristas por sua repressão aos produtores e divulgadores de notícias falsas, ordenou que as listas de hóspedes de hotéis e pousadas em Brasília sejam revisadas e dados de geolocalização e imagens de câmeras de vigilância sejam analisados. A conduta da polícia local também faz parte da investigação. Isso é facilitado pelo fato de os bolsonaristas filmarem sua invasão e postarem gravações de seus crimes em celulares como troféus. Em sensacional discurso na terça-feira, Moraes afirmou que não haveria “apaziguamento” contra os “terroristas”: “Se o apaziguamento tivesse funcionado, não teríamos a Segunda Guerra Mundial”,

Nos grupos de comunicação bolsonaristas, mas também na Jovem Pan (a contraparte brasileira da direitista norte-americana Fox News), fala-se agora do início da ditadura comunista que Lula sempre planejou. Os bolsonaristas presos foram tratados como prisioneiros em campos de concentração e os crimes em Brasília foram cometidos por provocadores plantados pela esquerda.

O grande perdedor

O assalto às instituições brasileiras era previsível. É o resultado da retórica incitante à guerra civil que o ex-presidente Bolsonaro, políticos aliados a ele, pastores evangélicos, influenciadores e empresários vêm promovendo há anos. Alguns denunciantes online ganharam muito dinheiro com suas postagens nas mídias sociais – e, portanto, um interesse em mais radicalização.

Mas eles podem ter ido longe demais. Políticos da esquerda à direita concordaram que os “terroristas” e os “conspiradores golpistas” deveriam ser punidos em toda a extensão da lei. Lula da Silva conseguiu se apresentar como um poderoso chefe de Estado que assume o comando e toma decisões. Já na segunda-feira convocou governadores de todos os partidos, ministros e os juízes constitucionais de Brasília para demonstrar união. A maioria dos observadores concordou: a jovem democracia brasileira, com apenas 35 anos, provou ser defensiva e forte no final.

O grande perdedor é Jair Bolsonaro. Só mais tarde ele reportou da Flórida para se manifestar no Twitter contra os atos de violência em Brasília. Suas ligações não foram atendidas. Como se o bolsonarismo não precisasse mais disso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Woz” [Aqui!].

Dica para reconhecer um bolsonarista

bolsonarista

Muito se fala e se aposta com o que acontecerá no Brasil após uma eventual derrota eleitoral do presidente Jair Bolsonaro nas eleições gerais de outubro. Mas como vários outros observadores da atual realidade brasileira, eu não me animo com a simples derrota eleitoral, pois o que se vê hoje é que o “Bolsonarismo” se tornou algo maior que o seu mito criador.  E mais que existem realmente figuras que incorporaram de forma profunda os elementos que parecem constituir os traços essenciais de um bolsonarista.  O trabalho, diriam alguns, seria ter um método para reconhecer quando se encontra um.

Mas pessoalmente acho que nem é preciso muito esforço para se reconhecer quando estamos diante de um legítimo bolsonarista.  Mas ainda que a maioria deles goste de falar alto e usar gestos rápidos e animados, a criatura bolsonarista é também reconhecida por comportamentos explosivos em face de situações que seriam resolvíveis com um pouco de graça e boa vontade.

Hoje, por exemplo, estava em um grande estabelecimento comercial quando a funcionária do caixa me orientou a pegar caixas grátis em um dispensário que se encontrava logo a lado.  Como estou fazendo uma obra em casa ,resolvi pegar três caixas em vez de uma.  Quando já tive colocado as caixas no carrinho de compras, um senhor que empurrava um carrinho com um criança pequena no interior me perguntou se poderia pegar uma das caixas. Eu prontamente entreguei uma delas a ele, mas o homem de cabelos comletamente grisalhos me disse que não era aquela que queria, e jogou com violência a caixa entregue por mim no depósito. Calmamente peguei a caixa jogada e disse a ele que se ele não queria, eu levaria comigo como havia planejado originalmente, dando-lhe rapidamente as costas.

Pensamento-único-Laerte

Saí dali pensando como alguém que sequer foi maltratado poderia ter tido uma reação tão intempestiva e agressiva, especialmente enquanto cuidava de uma criança pequena. A resposta que me veio à cabeça foi imediata… esse aí é bolsonarista.

Então fica a dica: se alguém em pública fala muito alto sem necessidade, usa gestos exagerados e tem reações agressivas sem provocação, vai por mim, estás diante de um bolsonarista. E aconselho, faça como eu fiz: reaja friamente e se afaste o mais rápido que puder dessa pessoa, pois nada de bom vai acontecer enquanto você estivcer perto desse tipo de pessoa.