Um acerto de contas na Amazônia

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores estão resistindo ao desenvolvimento na floresta amazônica, que poderia levar seus ecossistemas a ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, durante visita às instalações da Regap, no Distrito Industrial Paulo Camilo Sul. Imagem: Ricardo Stuckert /  / Creative Commons 4.0.

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Fumaça paira sobre o sul da Amazônia, onde apenas algumas semanas atrás havia floresta. Ao longo de novas rodovias, caminhões de gado passam por rios com níveis de água baixos, e no vasto Cerrado vizinho, a soja se estende em direção a um horizonte antes coberto por vegetação nativa. O que está acontecendo não é um surto isolado de desmatamento, mas um momento decisivo para o modelo econômico que molda o Brasil moderno. 

Da carne bovina aos biocombustíveis, passando por créditos de carbono, blocos de petróleo e mega-represas, esta edição especial traça como práticas extrativistas familiares estão sendo reformuladas na linguagem do crescimento verde. Projetos de infraestrutura como a rodovia BR-319, a expansão das fronteiras dos combustíveis fósseis e o enfraquecimento das salvaguardas ambientais expõem um abismo crescente entre as promessas climáticas e a realidade. Esta não é apenas uma história de perdas, mas também de resistência. 

Líderes indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores resistem a um caminho que pode levar esses ecossistemas a pontos de inflexão irreversíveis. As consequências vão muito além das fronteiras do Brasil. O que acontecer lá terá repercussões nos sistemas alimentares globais, nos ciclos da água e no próprio clima.

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O que está em jogo

O desmatamento e a degradação florestal deixaram de ser fenômenos distantes em grande parte da Amazônia meridional brasileira. Fazem parte do cotidiano. Caminhões transportam gado por estradas recém-abertas; nuvens de fumaça se elevam de campos onde, poucas semanas antes, havia floresta. Durante a estação seca, os rios começam a secar, o horizonte se torna uma linha cinza opaca e o cheiro de madeira queimada se espalha por quilômetros, às vezes por dias. Em conjunto, essas histórias revelam não uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões ecológicas, políticas e econômicas que irão remodelar a Amazônia e o Cerrado nas próximas décadas. Isso não é obra de alguns poucos indivíduos isolados. É o resultado de decisões tomadas em escritórios e salas de negociação distantes, em Brasília, São Paulo, Pequim e capitais europeias. A demanda global, acordos políticos, novas rodovias e pacotes de financiamento convergem aqui, na orla da floresta. 

Na Amazônia e no Cerrado vizinho, forças poderosas colidem. O agronegócio avança cada vez mais em terras intocadas, enquanto projetos de petróleo e gás progridem, barragens são construídas e rodovias como a BR-319 atravessam regiões remotas. Ao mesmo tempo, batalhas por direitos territoriais indígenas e proteção ambiental se desenrolam silenciosamente no Congresso e nos tribunais, muitas vezes longe dos olhos do público, mas com consequências duradouras no terreno. Paralelamente a essa expansão, surge uma nova promessa: um futuro “verde” baseado em  biocombustíveis ,  mercados de carbono e a chamada  bioeconomia . Essas ideias são vendidas como soluções climáticas. Elas atraem investidores e aplausos. Mas muitas comunidades indígenas e tradicionais fazem uma pergunta simples: isso realmente manterá a floresta de pé, ou é extração disfarçada de discurso mais ameno?

As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

As consequências vão muito além do Brasil. A Amazônia e o Cerrado regulam  as chuvas em toda a América do Sul e ajudam a estabilizar o clima global, armazenando imensas quantidades de carbono. Só a Amazônia abriga mais da metade das florestas tropicais remanescentes do mundo e uma parcela extraordinária de sua vida selvagem. Se ela entrar em colapso a ponto de não se recuperar, as consequências serão sentidas nas colheitas, no abastecimento de água, na saúde pública e nas economias em todos os continentes. O que está acontecendo não é uma crise isolada, mas uma complexa teia de pressões políticas, econômicas e ecológicas. As escolhas feitas agora moldarão essas paisagens e as vidas a elas ligadas, por gerações.

Carne bovina e soja

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne bovina, abastecendo os mercados da China, Europa, Oriente Médio, Reino Unido e outros países. No entanto, a pecuária continua sendo o principal  fator de desmatamento e degradação na Amazônia brasileira. Vastos trechos de floresta são desmatados, muitas vezes ilegalmente, e convertidos em pastagens, uma transformação que pode levar semanas, mas cujos efeitos perduram por gerações. Pesquisadores que monitoram os padrões de desmatamento estimam que cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia acabam sendo convertidas em pastagens para gado. As implicações para os gases de efeito estufa são profundas: as emissões provenientes do desmatamento, incêndios,  metano e degradação do solo fazem do setor pecuário um dos maiores passivos climáticos do Brasil.

Os territórios indígenas estão cada vez mais cercados por pastagens. Incêndios provocados para limpar a terra frequentemente se alastram para as bordas das florestas, degradando ecossistemas que evoluíram sem queimadas regulares. Em anos de seca, esses incêndios podem ficar fora de controle. A fumaça não respeita as fronteiras demarcadas nos mapas. Para as comunidades que vivem na floresta, as consequências são imediatas. Os rios ficam obstruídos por sedimentos, os estoques de peixes diminuem e a fumaça aumenta as doenças respiratórias entre crianças e idosos. 

Luciana Gatti, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), afirmou: “Houve um aumento enorme nas exportações de madeira, carne bovina, soja, milho e minerais. Este é um projeto baseado na destruição da natureza para a venda de commodities primárias.  Os sistemas hídricos são prejudicados por esses modelos de desenvolvimento, com graves consequências para os ecossistemas e para a população brasileira, ao mesmo tempo que concentram riqueza e poder nas mãos de grandes latifundiários.”

Embora a pecuária seja a principal causa do desmatamento e da degradação na Amazônia,  a soja transformou o Cerrado, uma região de pastagens, florestas e savanas que abrange mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e alimenta as nascentes de oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Nas últimas cinco décadas, metade do Cerrado foi destruída. A soja industrial, grande parte destinada à alimentação animal para abastecer a China, a Europa, o Reino Unido e outros países, continua a se expandir e a destruir as áreas remanescentes. Diferentemente da Amazônia, o Cerrado possui menos proteções legais e menos fiscalização internacional. Com o endurecimento das leis em algumas partes da Amazônia, o agronegócio migrou para o Cerrado, onde a governança é muito mais frágil. Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou: 

“Ao contrário da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege as corporações e as cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.”

O sistema hídrico do Brasil  depende de uma delicada parceria entre a floresta amazônica e o Cerrado. Juntos, eles formam um vasto sistema hidrológico que transporta umidade pela atmosfera, armazena água subterrânea e estabiliza as bacias hidrográficas em grande parte da América do Sul. A bacia amazônica é o maior sistema de água doce do planeta, e o Cerrado abriga cerca de 80% das bacias hidrográficas do Brasil. Apesar dessa abundância, o Brasil está entrando em uma crise hídrica. Com o desaparecimento da vegetação nativa, os aquíferos recarregam mais lentamente e os rios que alimentam as grandes bacias hidrográficas do continente estão ficando mais secos. Os padrões de chuva se enfraquecem, as secas se prolongam e as ondas de calor se intensificam. O que começa como desmatamento se transforma em algo muito maior: uma lenta desestabilização do ciclo da água. Segundo Gatti, 2024 marcou o maior índice de emissões de carbono já registrado na Amazônia, impulsionado principalmente por incêndios. No entanto, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) do Brasil classifica as emissões dos incêndios na Amazônia como líquidas zero em sua metodologia oficial de contabilização, embora os incêndios sejam agora a maior fonte individual de emissões de carbono da região. 

Augusto Getirana, cientista pesquisador do Laboratório de Ciências Hidrológicas do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, falando a título pessoal, disse: “Uma crise hídrica no Brasil que resulta em interrupção da produção nacional de alimentos rapidamente se transforma em uma crise global. Vimos isso em 2021, quando os preços dessas commodities aumentaram substancialmente em todo o mundo.”

Comunidades relatam redução na disponibilidade de água e contaminação por agrotóxicos.

As comunidades tradicionais  de geraizeiros (comunidades tradicionais do Cerrado) e  quilombolas (comunidades formadas por afro-brasileiros fugitivos ou libertos da escravidão), muitas sem títulos de propriedade oficiais, encontram-se cercadas por monoculturas. A transformação não é apenas física, mas também cultural. Não se trata apenas de carne bovina ou soja, mas de um modelo de crescimento que desmata mais rápido do que a terra consegue se recuperar. Os lucros vão para o exterior, enquanto os danos permanecem, visíveis em rios esgotados, solos degradados e comunidades marginalizadas. Se isso continuar, o Brasil corre o risco de enfraquecer os próprios sistemas que sustentam seu povo e sua economia.

A rodovia BR-319

Poucos projetos simbolizam a encruzilhada da Amazônia de forma tão marcante quanto a  BR-319 . A BR-319 é ​​uma rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta. Construída na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira, e abandonada no final da década de 1980 devido à dificuldade de manutenção, a rodovia tornou-se o centro de um debate acirrado sobre o futuro da Amazônia. Ela corta uma das áreas mais intocadas da região. Os planos atuais do governo para reconstruí-la e asfaltá-la são apresentados como um impulso para o desenvolvimento regional e a conectividade com o restante do país, mas críticos alertam que a BR-319 pode acarretar consequências ambientais, sociais e de saúde de grande escala. Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),  explicou: “Pavimentar a rodovia BR-319 conectaria a Amazônia central, relativamente preservada, à região da AMACRO – um ponto crítico de desmatamento que recebeu o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), tornou-se um dos principais motores do desmatamento na floresta amazônica.”

Um líder indígena do povo Mura, da região do Lago Capanã Grande, compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia. (Seu nome foi omitido para garantir sua segurança.) Ele  disse : “Gostaria de expressar minha indignação perante todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição de nossos rios, destruição de nossa natureza. E isso está causando grandes problemas no fluxo de nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui, usamos a água do rio. O resultado dessa estrada será uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes de drogas e todos os tipos de drogas, como já acontece. A população indígena vive de alimentos da natureza; a população indígena não vive da pecuária. Os povos indígenas vivem de seus objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e extraem da natureza para sua sobrevivência e para proteger sua própria natureza. Sou contra essa pavimentação.”

A reconstrução da rodovia BR-319 é ​​particularmente perigosa porque incentiva a expansão para além da via principal. Uma rede de estradas secundárias não autorizadas já se ramifica do corredor, abertas por madeireiros, mineradores e grileiros. Assim que a rodovia principal estiver totalmente transitável durante todo o ano, espera-se que essas estradas secundárias cresçam rapidamente em um padrão em “espinha de peixe”, penetrando cada vez mais fundo em florestas que permaneceram praticamente intocadas. Os planos oficiais também incluem rodovias estaduais como a AM-366, AM-360, AM-343 e AM-356, projetadas para conectar a BR-319 a áreas florestais remotas como a região de Trans-Purus, abrindo ainda mais áreas que até agora foram amplamente protegidas da atividade humana em larga escala. Comunidades indígenas e tradicionais estão na linha de frente dessas ameaças. Existem 69 territórios indígenas e dezoito mil indígenas ao longo do trajeto da rodovia. Essas comunidades não foram devidamente consultadas, em violação à Convenção 169 da OIT, que exige o consentimento livre, prévio e informado antes que projetos que afetem terras indígenas sejam iniciados. Para essas comunidades, a rodovia não é apenas um projeto de desenvolvimento: ela ameaça seus meios de subsistência, rios, florestas e sobrevivência cultural.

As consequências ambientais seriam enormes. A Amazônia armazena vastas quantidades de carbono e gera os fluxos de umidade conhecidos como “rios voadores”, que sustentam as chuvas em todo o Brasil e além. A construção de uma rodovia pavimentada e a abertura das estradas secundárias planejadas acelerariam o desmatamento, fragmentariam habitats e liberariam grandes quantidades de carbono, comprometendo a capacidade da floresta de funcionar como um ecossistema estável. Cientistas alertam que a infraestrutura combinada poderia levar a Amazônia a um ponto de inflexão climático irreversível.  Os riscos à saúde já são evidentes e provavelmente aumentarão. A fragmentação da floresta e o aumento da atividade humana ao longo da BR-319 têm sido associados ao aumento de casos de malária, enquanto doenças como a febre de Oropouche têm apresentado surtos na região. A expansão para habitats naturais anteriormente intocados aproxima humanos e animais, aumentando o risco de transmissões zoonóticas, quando patógenos passam de animais para humanos, e criando condições para potenciais novas pandemias. “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas, intensificando o contato entre a fauna silvestre da floresta e a população humana e seus animais domésticos. Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições favoráveis ​​ao surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas”, explicou Fearnside.

A BR-319 também atrai o crime organizado, que já está em crescimento na região. A grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e a mineração prosperam onde a fiscalização é fraca, e uma rodovia pavimentada com múltiplas estradas secundárias tornaria essas atividades mais fáceis e lucrativas. Em vez de trazer benefícios às comunidades locais, a rodovia corre o risco de disseminar deslocamentos populacionais, violência e destruição ambiental. As decisões tomadas em relação à BR-319 e sua rede de estradas secundárias moldarão não apenas o futuro da Amazônia, mas também a estabilidade climática, a biodiversidade e a saúde humana em todo o Brasil, América do Sul e no resto do planeta nas próximas décadas.

Biocombustíveis

O Brasil há muito se posiciona como pioneiro em biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de soja são apresentados como alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Mudanças recentes nas políticas públicas aceleraram a obrigatoriedade da mistura de combustíveis fósseis e incentivaram a produção, mas por trás dos slogans reside uma realidade complexa. O cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, palma de óleo, soja e milho, culturas essenciais para a  produção de biocombustíveis , continua a se expandir para áreas ecologicamente sensíveis. Projetos rotulados como “verdes” ou “limpos” muitas vezes replicam a mesma lógica extrativista que definiu as ondas passadas de crescimento agrícola.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales, professor e pesquisador do Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo,  alerta : “Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes exercendo pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente negligenciava as preocupações socioambientais”. Ele acrescentou: “Essa coevolução insustentável de trajetórias de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, pela colonização de terras e pela expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura”.

Morales explicou que, assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala poderia intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Esses efeitos incluem desafios socioambientais significativos relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o desmatamento (ODS 15), as emissões de CO2 decorrentes da mudança no uso da terra (ODS 13), as perdas de nitrogênio (ODS 13, 14 e 15), a extração insustentável de água (ODS 14) e os riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros. Nesse contexto, o boom dos biocombustíveis se assemelha menos a uma solução climática e mais a uma intensificação de conflitos fundiários de longa data e da pressão ecológica. Embora o Brasil produza bilhões de litros de etanol e biodiesel anualmente, a contabilização completa dos impactos climáticos, incluindo as emissões decorrentes da mudança no uso da terra e a intensidade energética do cultivo, mina a alegação de que os biocombustíveis são inerentemente “verdes”.

Créditos de carbono

Créditos de carbono florestais são promovidos para financiar a conservação, permitindo que as empresas compensem as emissões residuais. Projetos de carbono florestal, incluindo os esquemas REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), multiplicaram-se na Amazônia. Em teoria, os créditos de carbono poderiam canalizar recursos para a proteção das florestas, criando incentivos econômicos para a manutenção da integridade ecológica. Na prática, a realidade muitas vezes fica aquém do esperado. Críticos argumentam que o sistema atual concede aos poluidores o que equivale a um passe livre para continuar emitindo, enquanto os direitos à terra, a governança e a fiscalização são negligenciados.

A ideia de que a compra  de créditos de carbono permite que uma empresa compense sua poluição enquanto as florestas globais permanecem intactas parece simplista, mas é contestada por acadêmicos, que revelam uma realidade muito mais complexa. Projetos que antes conquistaram reconhecimento internacional, como a iniciativa de conservação liderada pelos indígenas Suruí, ruíram sob a pressão da mineração ilegal e da expansão da pecuária, demonstrando que mesmo compensações bem elaboradas são vulneráveis ​​em ambientes legais e de fiscalização frágeis. Além disso, a permanência do carbono florestal é cada vez mais incerta em um mundo em aquecimento. Secas, incêndios e extração ilegal de madeira ameaçam a integridade dos estoques de carbono que sustentam os esquemas de compensação. Thales AP West, professor assistente titular do Instituto de Estudos Ambientais (IVM) da Universidade Livre de Amsterdã e uma das principais vozes entre os pesquisadores que analisam os mecanismos do mercado de carbono, alertou que, a menos que ocorra uma reforma sistêmica, a negociação de carbono continuará priorizando a conveniência em detrimento da integridade climática. Ele  afirmou : “A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.”

Para as comunidades indígenas, os mercados de carbono também podem mercantilizar territórios há muito governados por relações culturais e espirituais. As florestas tornam-se unidades de medida e de comércio, enquanto as questões de direitos territoriais e poder permanecem sem solução.

Bioeconomia

O Brasil promove a  bioeconomia como um caminho para o crescimento sem desmatamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um futuro em que a Amazônia se torna um centro de negócios sustentáveis, utilizando recursos renováveis ​​em vez de desmatar. Essa ideia se tornou um elemento-chave da estratégia climática do governo, atraindo grandes promessas de investimento e atenção internacional. Mas existe uma crescente discrepância entre o discurso otimista e a realidade. O termo “bioeconomia” tem sido usado para descrever tudo, desde pesquisa biotecnológica e mercados de carbono até grandes plantações de biocombustíveis e mineração, sem regras claras sobre proteção ambiental ou direitos das comunidades locais. Enquanto organizações como a Eco Invest Brasil captam bilhões para projetos “verdes”, críticos temem que a fragilidade das salvaguardas possa permitir que grandes empresas avancem sem a devida participação ou fiscalização local.

Ossi Ollinaho, professor da Universidade de Helsinque, alertou que a promessa de produtos verdes pode ser facilmente subvertida quando os incentivos econômicos ainda favorecem grandes monoculturas em detrimento da biodiversidade. Ele  advertiu : “A extensão desse conceito [de bioeconomia] à Amazônia e a contextos semelhantes de alta sociobiodiversidade acarreta o risco inerente de que ela acabe sendo transformada em celulose e vendida para obter lucro”. Em outras palavras, sem um planejamento cuidadoso, a bioeconomia pode acabar prejudicando as próprias florestas e comunidades que alega proteger.

Uma das questões é que o termo “bioeconomia” está sendo usado de forma ampla para abranger coisas muito diferentes. Colocar plantações industriais e produtos florestais de pequena escala na mesma categoria esconde o fato de que seus impactos são muito distintos. Culturas como soja, óleo de palma, milho e cana-de-açúcar, mesmo quando chamadas de “bioeconômicas”, ainda podem impulsionar mudanças no uso da terra, deslocar pequenos produtores e prejudicar a biodiversidade. O açaí é o exemplo mais conhecido. Antes um alimento básico local, agora é um produto global que vale mais de US$ 1 bilhão. Muitas vezes é usado como prova de que a bioeconomia funciona, mas a crescente demanda mudou a forma como é cultivado e colhido, remodelando partes da floresta e criando novas pressões sobre as pessoas que vivem ali há gerações. O que antes era visto como trabalho sustentável e comunitário agora faz parte de um sistema comercial maior que nem sempre beneficia aqueles que dependem da floresta.

Líderes indígenas e comunidades locais apontam que sempre viveram em harmonia com os recursos da floresta e dependeram deles. Castanha-do-pará, açaí e outros produtos fazem parte de suas economias há séculos. O que mudou foi a escala e o tipo de dinheiro externo que chega à região. Grandes iniciativas como a Amazônia 4.0, promovidas como caminhos de alta tecnologia para uma bioeconomia moderna, correm o risco de repetir os mesmos padrões de extração e desigualdade que há muito caracterizam a região.

Sem direitos fundiários seguros e poder de decisão para as populações locais, existe um temor real de biopirataria: empresas utilizando conhecimentos tradicionais e recursos genéticos sem justa compensação. O Brasil tem a oportunidade de modelar um tipo de crescimento econômico que realmente apoie tanto as pessoas quanto a natureza. Mas se as políticas permanecerem vagas e as salvaguardas forem frágeis, a bioeconomia poderá acabar sendo pouco mais do que um novo rótulo para padrões de extração já conhecidos. 

Petróleo e gás

Embora o Brasil se posicione como líder climático no cenário global, o país continua expandindo a exploração de petróleo e gás em um ritmo alarmante. Em junho de 2025, pouco antes da COP30, a Agência Nacional do Petróleo e Gás Natural (ANP) anunciou um leilão para direitos de exploração de 172 blocos de petróleo e gás, a maioria em alto-mar, incluindo 47 blocos na bacia amazônica. Essa medida evidencia uma crescente tensão entre os compromissos climáticos e o desenvolvimento contínuo de combustíveis fósseis. A Petrobras já perfura poços na margem equatorial da Amazônia, a apenas 500 km do rio Amazonas. Trata-se de um ecossistema extremamente sensível, lar de recifes de coral e manguezais. Já foram relatados vazamentos de petróleo na região. 

Segundo a Amazônia Real, a exploração planejada na foz do rio ameaça afetar diretamente diversas comunidades indígenas no estado do Amapá. Entre as mais vulneráveis ​​estão os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na, que vivem em três territórios indígenas oficialmente reconhecidos: Uaçá, Juminã e Galibi. Juntos, esses territórios abrangem aproximadamente 518.454 hectares e abrigam cerca de 13.000 pessoas em 56 aldeias, uma região que depende fortemente da floresta e dos cursos d’água para sobreviver.

Mais a oeste, na Amazônia, a Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, detém direitos de perfuração em vários blocos na bacia sedimentar do Solimões, perto do rio Purus, trajeto da futura rodovia BR-319. Essa área remota e em grande parte intacta da floresta tropical permanece notavelmente preservada, com ecossistemas e comunidades locais altamente dependentes das terras e rios circundantes. As preocupações ambientais são urgentes, pois novas estradas e infraestrutura podem abrir essas áreas isoladas para atividades industriais, pressionando a floresta por meio do desmatamento, da fragmentação do habitat e da extração de combustíveis fósseis em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis da Amazônia.

Em 2025, o Brasil avançou ainda mais na expansão da produção de combustíveis fósseis, com uma produção diária de petróleo e gás natural de pouco menos de 4,9 milhões de barris de óleo equivalente, representando um aumento de 13,3% em relação ao ano anterior. A produção de petróleo, por si só, responde por cerca de 3,7 milhões de barris por dia, dos quais mais da metade é exportada, vinculando a expansão brasileira diretamente à demanda global de energia. As consequências são claras e urgentes. O aumento  da produção de combustíveis fósseis eleva as emissões, intensificando os impactos climáticos já visíveis por meio de tempestades mais fortes, ondas de calor, inundações e perda de ecossistemas. Cada atraso na redução da dependência de combustíveis fósseis agrava os riscos futuros, e a janela para evitar os desfechos mais catastróficos está se fechando rapidamente.

Energia hidrelétrica

A energia hidrelétrica fornece mais de 50% da eletricidade do Brasil e é frequentemente celebrada como uma conquista nacional. Grandes barragens são promovidas como uma fonte de energia limpa, mas os custos sociais e ecológicos contam uma história muito mais dura. Em toda a bacia amazônica,  barragens inundaram vastas áreas de floresta, deslocaram milhares de comunidades indígenas e ribeirinhas e interromperam o fluxo dos rios dos quais essas comunidades dependem para obter alimentos como peixes. Elas desencadearam desmatamento e poluição generalizados e, ironicamente, contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano e dióxido de carbono. A chegada de trabalhadores aos canteiros de obras das barragens muitas vezes impulsiona a urbanização acelerada, sobrecarregando a infraestrutura local e alimentando o aumento da violência, da criminalidade e dos problemas de saúde física e mental. Os efeitos deixam cicatrizes profundas e duradouras em comunidades que já lutam para sobreviver.

Um exemplo marcante é o  complexo hidrelétrico de Belo Monte, no estado do Pará. Sua construção deslocou à força cerca de 40 mil pessoas, incluindo comunidades ribeirinhas e um quarto da população de Altamira, realocando-as para assentamentos remotos na periferia da cidade. Igor Cavallini Johansen, professor do Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), explicou: “Precisamos lidar com as persistentes desigualdades criadas pelas grandes barragens hidrelétricas – tanto na região de Altamira quanto em toda a bacia amazônica. Esse legado de desenvolvimento desigual, em que as comunidades locais arcam com os custos ambientais e sociais enquanto centros urbanos distantes colhem os benefícios energéticos, exige uma reparação urgente.”

Para Maria Francineide Ferreira dos Santos, Belo Monte levou mais do que sua casa. Levou seu paraíso. Morando em Paratizinho, ela se manifestou contra a destruição, apenas para ser forçada a ir para a cidade. Mesmo assim, ela nunca parou de lutar. Hoje, ela vive na Volta Grande do Xingu, não apenas como sobrevivente, mas como uma ferrenha protetora do rio e de seu povo. Ela  disse : “Todos os impactos que sofremos são irreparáveis. O primeiro impacto foi o maior crime que Belo Monte cometeu no Xingu, a morte dos peixes e o deslocamento de seu povo, que nasceu e cresceu nesta região, que vivia nas ilhas, sem direitos, sem ser ouvido, sem respeito, tendo suas casas arrancadas e queimadas, violando nossos direitos.”

Outro impacto foi ver nosso povo, que não entendia nada, perder suas casas, sendo transferido para a cidade onde os preços dos terrenos eram exorbitantes, sem nos dar as condições para sobreviver. O governo faz o que quer. Esta tem sido uma luta perdida. Nenhuma justiça foi feita.” Rodolfo Salm, ecologista, ativista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), que mora em Altamira, descreveu as consequências mais amplas do projeto: “O projeto hidrelétrico de Belo Monte é um claro exemplo de fracasso ambiental, social e econômico. Longe de trazer prosperidade, o projeto deixou a região economicamente fragilizada e ambientalmente danificada. A produção de energia em Belo Monte é instável, com o Rio Xingu apresentando níveis muito baixos durante a maior parte do ano, uma falha que já era conhecida antes mesmo do início da construção.”

Johansen destacou os danos irreversíveis causados ​​por barragens hidrelétricas em áreas de alta biodiversidade como a Amazônia: “Em primeiro lugar, esses projetos causam danos ecológicos irreversíveis – inundando vastas áreas de floresta tropical intocada, destruindo habitats únicos e potencialmente levando à extinção de espécies. Igualmente preocupante é o padrão consistente de violações dos direitos humanos. Comunidades indígenas e tradicionais enfrentam repetidamente o deslocamento sem consulta adequada ou compensação justa, como demonstrado de forma contundente pelo projeto Belo Monte. O cálculo climático para barragens tropicais também se mostrou falho. Em vez de serem soluções de energia limpa, seus reservatórios se tornam fábricas de metano à medida que a vegetação submersa se decompõe. Isso questiona a própria lógica de priorizar a energia hidrelétrica em regiões de floresta tropical. Talvez a lição mais crucial seja que não podemos mais justificar o sacrifício da riqueza ecológica e cultural da Amazônia por ganhos energéticos questionáveis. As evidências mostram claramente que, em áreas de alta biodiversidade, os custos de grandes barragens quase sempre superam os benefícios – uma realidade que exige uma mudança fundamental na política energética.” Apesar disso, as propostas para novas barragens continuam, frequentemente defendidas como essenciais para a segurança energética e o desenvolvimento industrial.

O campo de batalha legislativo

A expansão da infraestrutura e do agronegócio cresce nas regiões da Amazônia e do Cerrado, em paralelo a  propostas legislativas controversas . O controverso  Marco Temporal , um argumento jurídico que afirma que os povos indígenas têm direito apenas às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, tem sido alvo de intenso debate. Organizações indígenas argumentam que isso ignora os deslocamentos forçados ocorridos durante a ditadura e períodos anteriores. Essa lei poderia prejudicar as reivindicações de territórios não formalmente demarcados até 1988, abrindo-os para exploração. Os territórios indígenas permanecem entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação florestal. Estudos demonstram consistentemente menores taxas de perda florestal dentro de terras indígenas demarcadas em comparação com as áreas circundantes.

Enquanto isso, a Lei de Devastação (15.190/2025), que entrou em vigor em fevereiro deste ano, introduz um sistema de autolicenciamento. As empresas agora podem obter licenças ambientais preenchendo formulários online, dispensando os estudos de impacto ambiental. Anteriormente, o licenciamento podia levar de cinco a sete anos, mas agora pode ser concluído em apenas 12 meses. Isso facilitará projetos de infraestrutura de grande escala, como a reconstrução da rodovia BR-319, mineração, petróleo e gás e barragens. Essa lei também isenta de licenciamento 13 categorias de atividades, que vão desde a manutenção de estradas até o agronegócio. Especialistas em direito ambiental alertam que o enfraquecimento do licenciamento em um momento de expansão da infraestrutura pode exacerbar o desmatamento e a degradação, além de aumentar a poluição e os conflitos sociais. É fundamental destacar que pelo menos 40% das terras indígenas reconhecidas pelo Estado brasileiro estarão expostas ao desenvolvimento industrial, ao desmatamento e à mineração ilegal.

Para piorar a situação, a Moratória da Soja na Amazônia (MSA), de 2006, que impediu empresas de comprarem soja cultivada em áreas recém-desmatadas da Amazônia, está sendo enfraquecida à medida que as principais associações do setor de soja no Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), retiram seu apoio à medida. Essas associações representam grandes empresas globais do setor, como Cargill, Bunge, ADM, Louis Dreyfus e COFCO, cujas decisões de compra influenciam fortemente a proteção das florestas. Grupos ambientalistas alertam que, se o acordo ruir, poderá levar a mais desmatamento e violação dos direitos indígenas, enquanto alguns supermercados do Reino Unido e da Europa, incluindo Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Audi, Ocado e Waitrose, pressionam as empresas a manterem regras rígidas de fornecimento sem desmatamento.

Ação coletiva

O Brasil se encontra em um momento decisivo. De um lado, promessas de acabar com o desmatamento ilegal, de proteger o que resta da floresta, de agir em nome do clima. Do outro, poderosos interesses pressionam por mais gado, mais soja, mais mineração, mais estradas que cortam terras ancestrais. A linguagem da proteção é forte, mas a máquina da expansão é ainda mais. O que acontece em Brasília não ficará em Brasília. A fumaça que sobe da Amazônia não para nas fronteiras nacionais: torna-se parte do mesmo ar que todos respiramos. A pressão para desmatar não começa com uma motosserra: começa com a demanda global. O bife servido em Xangai, a soja usada para alimentar o gado na Europa, os minerais dentro dos celulares na Califórnia, a madeira usada para construir hotéis de luxo nos EUA, tudo está ligado de alguma forma ao que acontece nessas florestas. Empréstimos assinados em centros financeiros distantes da orla da floresta. Podemos viver a milhares de quilômetros de distância, mas nossas economias e nosso consumo estão intimamente ligados ao mesmo tecido. A floresta não está caindo isoladamente. Está sendo desmantelado por um sistema global que recompensa a extração e chama isso de progresso. Mas essa história ainda não terminou.

Existem escolhas que poderiam desviar a trajetória da destruição. Proteções mais rigorosas para a soja, compromissos reais de desmatamento zero que signifiquem algo na prática, e não apenas no papel. Projetos de infraestrutura recusados ​​quando ameaçam florestas intactas, leis ambientais aplicadas com a devida seriedade, porque de fato importam. Territórios indígenas reconhecidos e protegidos, não atrasados ​​ou contestados. Inúmeras vezes, as evidências mostram que onde os povos indígenas têm direitos territoriais seguros, a floresta permanece. Mas nem mesmo as melhores políticas nacionais, sozinhas, conseguirão deter o aquecimento global. A menos que o uso de combustíveis fósseis diminua drasticamente e rapidamente, a seca e os incêndios se intensificarão, e a Amazônia e o Cerrado secarão de dentro para fora. Há um ponto de inflexão além do qual a floresta não poderá se recuperar e, uma vez ultrapassado, nenhuma promessa ou cúpula a trará de volta.

A Amazônia e o Cerrado não são “recursos”. São sistemas vivos e pulsantes, vastas comunidades de água, solo, plantas, animais e pessoas, interligadas de maneiras que só agora começamos a compreender. Armazenam carbono, sim, mas também guardam histórias, línguas, remédios, canções. Regulam as chuvas que alimentam as plantações em toda a América do Sul, refrescam um planeta que está em crise. Protegê-los exige mais do que discursos eloquentes. Exige coragem política, ciência que seja ouvida e um profundo respeito pelas comunidades indígenas e tradicionais que defendem essas terras há gerações, muitas vezes correndo grandes riscos pessoais. Exige confrontar a incômoda verdade de que a expansão econômica desenfreada em um planeta finito é uma contradição.

Se falharmos, as consequências serão sentidas em colheitas perdidas e aumento dos preços dos alimentos, na escassez de água, em migrações forçadas, em conflitos por recursos cada vez mais escassos, em culturas e espécies perdidas para sempre. O desmantelamento desses ecossistemas não seria uma tragédia apenas do Brasil. Seria um acerto de contas global. No fim das contas, a Amazônia e o Cerrado são mais do que debates políticos ou slogans de campanha: são uma medida de quem escolhemos ser. Continuaremos trilhando um caminho onde o lucro a curto prazo se sobrepõe aos direitos humanos e à sanidade ecológica? Ou trilharemos um caminho diferente, moldado pela cooperação, justiça e humildade perante o mundo vivo? A janela está se fechando. As decisões tomadas agora reverberarão por gerações. E um dia, a história perguntará se defendemos a floresta quando ainda tínhamos a chance, ou se assistimos à sua queima e a consideramos inevitável.

 

Monica é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org .


Fonte: The Ecologist

A pavimentação da BR-319 trará aumento de riscos de biossegurança, aponta artigo publicado pela Science

Uma equipe de pesquisa coleta amostras em campo para monitoramento epidemiológico em áreas da Amazônia central.
FOTO: Ferrante et. al.
Lucas Ferrante e outros para “Science”
O desmatamento das florestas amazônicas representa riscos crescentes à biossegurança em escalas local, regional e global ( 1 ). O recente acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a exacerbar o desmatamento, acelerando a expansão do agronegócio brasileiro ( 2 ) — especialmente a pecuária e a produção de soja — em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia ( 3 ). Essa expansão está sendo ativamente facilitada pelo governo brasileiro por meio da consolidação da rodovia BR-319 ( 3 ), que liga Porto Velho a Manus, no centro do arco de desmatamento amazônico, e por meio de seu apoio político à mineração de potássio ( 4 ) em uma área do município de Autazes historicamente ocupada pelo povo indígena Mura ( 5 ). Além de afetar o desmatamento, esses projetos irão perturbar florestas, solos e sistemas hidrológicos intactos, forçando um novo contato entre humanos, animais e comunidades microbianas anteriormente isoladas ( 6 )
Análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central BR-319 e as áreas propostas para extração de potássio abrigam conjuntos microbianos desconhecidos enriquecidos em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes ( 6 ). A perturbação desses reservatórios cria condições ecológicas que facilitam a disseminação de patógenos e a recombinação genética com patógenos humanos conhecidos, amplificando os riscos globais de biossegurança ( 1 , 6 ).
A limitada capacidade institucional para detectar, conter e responder a patógenos emergentes na Amazônia já produziu consequências internacionais mensuráveis ​​( 1 ). A variante gama do coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) surgiu em Manaus e rapidamente cruzou fronteiras internacionais ( 7 ). Se consolidada, a rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente ( 1 , 6 ). Mais recentemente, uma nova linhagem do vírus Oropouche, originária do corredor da BR-319, expandiu-se para além do Brasil ( 8 ), com circulação confirmada na América Central e na Europa ( 9 , 10 ). Esses casos demonstram que o vazamento de patógenos da Amazônia não é um risco hipotético futuro, mas um processo contínuo, com implicações globais para a saúde pública ( 6 ).
Essas evidências foram formalmente submetidas ao Ministério do Meio Ambiente do Brasil ( 6 ), onde as autoridades são legalmente obrigadas a avaliar toda a documentação técnica. As mesmas obrigações se aplicam à autoridade estadual do Amazonas responsável pela licença para mineração de potássio em Autazes. Nossos resultados indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não apenas estão ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para o surgimento e a disseminação global de patógenos ( 6 ). Em consonância com o princípio de Saúde Única e o princípio da precaução ( 11 ), esses projetos justificam uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais.

Fonte: Science

As duas faces de Lula: líder climático global versus paladino da devastação amazônica

O presidente Lula é um daqueles personagens históricos que já alcançaram a transcendência de suas pessoas físicas.  A longa trajetória de criança pobre migrante para líder de uma das maiores economias do planeta dá essa condição a ele. Goste-se ou não dele, Lula já é uma daquelas figuras que estão marcadas na história não apenas do Brasil, mas do mundo.

Dito isso, Lula é uma daquelas esfinges que são aparentemente difíceis de serem decifradas. Basta ver a última participação na Assembleia Geral das Nações Unidas onde apareceu a face do líder carismático e antenado com as coisas do mundo, a começar pela luta em prol dos palestinos onde ele foi duro e certeiro. Mas o discurso de Lula também abrangeu áreas delicadas como a guerra contra a fome e a pobreza, bem como sobre a necessidade proteger o ambiente, a começar pela necessidade de se encontrar respostas para os problemas derivados das mudanças climáticas.  Lula inclusive propôs a criação de um conselho para monitoramento das ações climáticas globais e conclamou os países a se comprometerem com metas ambiciosas para redução de emissão dos gases que causam o efeito estufa.

Esse é a face de Lula que é consumida globalmente. A de um líder de esquerda pragmático, mas que não tem medo de tocar nos problemas candentes do mundo, nem de criticar, ainda que indiretamente, as pressões autoritárias do presidente Donald Trump contra a democracia, especialmente a brasileira. Digamos que esse é o Lula para o consumo externo, aquele que recebe afagos até de quem ele acabou de criticar, como foi o caso de Trump.

A outra face de Lula, a doméstica

Porém, para o consumo interno, sobre a outra face de Lula. Aquela face que deixa os grandes discursos de lado e parte para os acordos diretos e retos para manter o Brasil na sua condição de economia agromineral, e cada vez mais desindustrializada.  E é justamente na Amazônia que essa face doméstica mais causa danos porque impõe uma visão de economia do Século XIX, a da fronteira de recursos.

Quando Lula assumiu seu primeiro mandato, escrevi um texto na revista NovaAmérica onde eu previa um ataque à Amazônia por parte do governo que assumia.. Me baseei para fazer essa previsão em declarações que Lula fez durante a festa de Parintins onde ele atacava as restrições criadas pelo licenciamento ambiental para a expansão das hidrelétricas na Amazônia.  Depois disso, vimos a construção de Belo Monte e das hidrelétricas do Rio Madeira.  O fato é que com base no discurso Neodesenvolvimentista, o primeiro governo Lula acabou fazendo coisas que nem os governos militares conseguiram, sempre sob o manto do discurso em prol do desenvolvimento.

Agora em seu terceiro mandato, Lula resolveu atacar os técnicos do IBAMA por causa das exigências técnicas para liberação das licenças ambientais para exploração do petróleo na Foz do Amazonas que ele rotulou de “lenga-lenga”.  Depois de todas as pressões pouco republicanas, as licenças estão sendo concedidas sem que os problemas identificados pelos técnicos do IBAMA tenham sido resolvidos. 

Mas é na pavimentação da BR-319 que essa face pró-devastação de Lula fica ainda mais clara, pois até uma medida provisória (a 1308/25)  foi promulgada para estabelecer a chamada Licença Ambiental Especial (LAE). A questão é que a LAE permitirá não apenas a exploração do petróleo na Foz do Amazonas, mas também a pavimentação da BR-319, cujos efeitos sociais e ecológicos deverão ser devastadores sobre o último grande bloco intacto de floresta na Amazônia.   Mas a pavimentação da BR-319 também atingirá em cheio comunidades tradicionais, terras indígenas e a população da cidade Manaus, conforme mostrou artigo que foi divulgado neste espaço no dia de hoje.

Duas faces da mesma moeda

A verdade é que não me parece haver contradição alguma entre as duas faces de Lula. O que ele faz no plano internacional é fortalecer a sua imagem para tratativas que dependem diretamente da sua capacidade de fazer valer sua visão de desenvolvimento econômico no plano interno.  Eu diria que ele age para se colocar em uma posição de negociador menos precário, pois com a imagem de paladino de uma esquerda que não assusta, ele consegue impor sua agenda agromineral com mais facilidade no plano interno.  

E é até por isso que os governantes das economias centrais gostam de Lula, pois ele é um tipo de mascate viajante em quem se pode confiar. Ao contrário do instável Jair Bolsonaro que, acima de tudo, demonstrou ser um incompetente completo no tipo de tratativa em que Lula é mestre.

O problema é que mantidas as condições normais de temperatura e pressão em que Lula opera, o que teremos pela frente é mais devastação ambiental, mais agrotóxicos e mais dependência de produtos industrializados importados.  Tudo isso em nome de um modelo de desenvolvimento que se já era ruim no Século XIX, imaginem agora em um mundo que ronda o colapso climático.

Queimadas na BR-319 estão por trás de poluição do ar em Manaus, aponta estudo

Pesquisa descarta que origem da fumaça seja de queimadas no estado do Pará

BORI - Soluções para um conhecimento científico acessível

A origem da fumaça que encobriu Manaus por meses em 2023 está diretamente ligada ao aumento do desmatamento ao longo das rodovias BR-319 e AM-254, especificamente nos municípios de Manaquiri, Careiro e Autazes. A constatação é de pesquisa publicada na revista Discover Sustainability por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da  Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). 

Para verificar a relação entre a exploração de terras nas rodovias e a poluição na capital amazonense, a equipe utilizou dados atmosféricos do Observatório Amazon Tall Tower (ATTO), do INPA, situado cerca de 150 km a nordeste de Manaus, na direção do Pará, e de sensores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para verificar as emissões de material particulado PM2.5, indicador-chave de poluição atmosférica; dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); e dados de satélite do Projeto de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Em 12 de outubro de 2023, quando Manaus amanheceu encoberta por fumaça, a concentração de PM2.5 chegou a 314,99 µg/m³, valor 20 vezes superior ao limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, de 15 µg/m³.

Conforme a pesquisa, os incêndios foram agravados por uma seca extrema na Amazônia, resultante da combinação do El Niño e do chamado dipolo do Atlântico – quando as águas da porção norte do oceano ficam mais quentes, o que reduz a umidade que chega à Amazônia. Tais fenômenos criam condições propícias para incêndios florestais criminosos, que liberam grande quantidade de partículas de fumaça na atmosfera. A poluição intensifica a seca ao inibir a formação de chuva.

Sobre a origem da fumaça, Philip Fearnside, pesquisador do INPA e coautor do estudo, explica: “É descartado que a fumaça tenha vindo do Pará porque mensuramos tanto as emissões do estado quanto as do meio do caminho e elas não tinham a mesma proporção do nível de fumaça que chegou a Manaus”. A estação ATTO mostrou índices diários de qualidade do ar mais baixos em comparação com a média das estações localizadas ao sul de Manaus. Já os sensores da UEA em Santarém (PA) registraram picos após os verificados na capital amazonense — e com níveis inferiores. Além disso, mapas de vento e dados meteorológicos para outubro e novembro de 2023 indicaram uma grande pluma de fumaça originada da região sul de Manaus, claramente separada das emissões no Pará.

Segundo Lucas Ferrante, pesquisador da USP e principal autor do trabalho, observações de campo mostraram áreas queimadas nos municípios de Careiro e Autazes e no trajeto da BR-319, sendo rapidamente convertidas em pastagens, com presença de maquinário e gado.

Diante dos resultados, os pesquisadores enfatizam que a proposta de reconstrução da BR-319 é inviável e, aliada à fraca fiscalização ambiental, ameaça não apenas a biodiversidade e a estabilidade climática, mas também a sustentabilidade de centros urbanos que dependem da integridade ecológica da Amazônia. A estrada, que liga Manaus a Porto Velho, pode impactar 63 terras indígenas, cinco comunidades não reconhecidas e uma população de indígenas isolados, totalizando mais de 18 mil indígenas afetados pela rodovia. O governo federal afirmou que deve anunciar um “acordo definitivo” em setembro para a pavimentação da rodovia.

Porém, avalia Ferrante, “a BR-319 é uma fórmula para o desastre e servirá como espinha dorsal para aumento de incêndios e desmatamentos ilegais em área de floresta intacta, além de abrir áreas com reservatórios zoonóticos, com potencial de liberar novos patógenos preocupantes para a saúde global”. Segundo o estudo, as soluções passam por priorizar alternativas de baixo impacto, como a melhoria das vias navegáveis, e por políticas integradas que vão além da prevenção reativa de incêndios, confrontando a expansão ilegal da pecuária, grilagem de terras e falta de fiscalização, que alimentam continuamente a degradação ambiental na Amazônia.


Fonte: Agência Bori

Fiscalização do Ibama mira desmatamento e ramais ilegais na BR-319 em meio à expectativa por repavimentação

Por Observatório BR-319 

A BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou a ser foco de ações de fiscalização ambiental neste mês de julho. Servidores da Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, intensificaram operações no sul da estrada, especialmente na região da Vila de Realidade, no município de Humaitá (AM), diante do avanço do desmatamento e da abertura ilegal de ramais.

Durante a operação, foram apreendidos um trator usado para abertura de caminhos clandestinos e geradores de energia, além da lavratura de oito autos de infração. A atuação do Ibama também flagrou extração ilegal de madeira, o que, segundo o superintendente Joel Araújo, é o prenúncio de desmatamento em larga escala. “Antes de derrubar, os madeireiros retiram a madeira de maior valor comercial. E há dezenas de serrarias que se abastecem da floresta no entorno da BR-319, agravando o cenário”, alertou.

Segundo Araújo, a intensificação da fiscalização se dá em resposta à perspectiva de repavimentação do trecho do meio da rodovia, o que pode estimular novas invasões e grilagem. “Já atuamos há mais de dez anos na BR, mas agora, com a possibilidade de asfaltamento, é uma nova realidade. A estrada se tornou um vetor ainda mais crítico de pressão sobre a floresta”, disse.

A preocupação não é nova. Em 2023, uma nota técnica do Observatório BR-319 já havia apontado que a malha de ramais em quatro municípios da região — Canutama, Humaitá, Manicoré e Tapauá — era quase seis vezes maior que a extensão da própria BR-319. O documento associou essa expansão a práticas ilegais como grilagem, degradação e desmatamento.

Ramais sem autorização acendem alerta

O crescimento de acessos clandestinos também motivou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) a solicitar ao Ibama medidas urgentes. Em ofício encaminhado em junho, o Dnit informou ter identificado 26 ramais abertos de forma irregular entre os quilômetros 250 e 820 da BR-319, ressaltando o risco à segurança da via e à integridade da infraestrutura rodoviária.

Apesar do alerta, o Ibama-AM informou a dificuldade de agir sem informações mais precisas, como as coordenadas geográficas dos pontos denunciados. O órgão solicitou ao Dnit dados mais específicos para planejar novas etapas da fiscalização.

Plano BR-319: promessas e desconfianças

O site da Folha noticiou neste mês de julho um acordo entre os Ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente e Mudança do Clima em vista de viabilizar as obras na BR-319. Para a secretaria executiva do Observatório BR-319, embora o Plano BR-319 prometa medidas socioambientais rigorosas para evitar o histórico de destruição associado a grandes obras na Amazônia, seria mais prudente que o anúncio viesse acompanhado de ações imediatas, especialmente com a proximidade do verão amazônico, período crítico para o desmatamento e invasões. Em especial devido a maior condição de trafegabilidade na estrada e, assim, de acesso a áreas preservadas.

O Plano BR-319 prevê a contratação de uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) para mapear preocupações socioambientais, com foco em controle do desmatamento, fortalecimento de comunidades locais e regularização fundiária. Uma consultoria independente será responsável por organizar medidas de proteção em uma faixa de 50 quilômetros de cada lado da rodovia, considerada “zona crítica de impacto”, com ações de monitoramento, fiscalização e combate ao desmatamento.

Além disso, o plano contemplaria a proteção de terras indígenas e unidades de conservação, bem como o incentivo a cadeias produtivas locais e práticas agroflorestais, visando um desenvolvimento econômico sustentável. A Infra S.A., ligada ao Ministério dos Transportes, será responsável pela contratação da consultoria, que terá oito meses para elaborar a AAE.

Apesar do otimismo que o anúncio de um plano robusto pode gerar, o Observatório BR-319 tem alertado para os riscos inerentes a qualquer pronunciamento sobre a BR-319. O coletivo ressalta que o simples anúncio de medidas na rodovia costuma levar a um aumento imediato nas expectativas de valorização de terras, impulsionando o desmatamento ilegal, invasões e grilagem, antes mesmo que as ações de proteção sejam efetivamente implementadas.

A preocupação é amplificada pelo momento atual: estamos entrando no verão amazônico, período de menor pluviosidade e, consequentemente, de maior facilidade para práticas ilegais como queimadas e derrubada de floresta. Dados anteriores corroboram essa apreensão. Em 2022, ações de pavimentação do trecho do meio, mesmo sem licenciamento definitivo, coincidiram com um pico alarmante de desmatamento de 2.240 km² na região, representando 18% de toda a perda florestal na Amazônia Legal naquele ano. Embora tenha havido uma queda relativa em 2023, os números permanecem preocupantes.

A decisão recente da Justiça Federal, que restabeleceu a liminar suspendendo a licença prévia para o asfaltamento da BR-319, e que, no bojo do anúncio feito pelos ministérios, foi novamente posta em vigor, reforça a necessidade de cautela. O recurso do Observatório do Clima apontou “inconsistências legais, técnicas e ambientais” no processo de licenciamento, destacando que a concessão da licença prévia já havia desencadeado uma escalada de 122% no desmatamento no entorno da rodovia.

É importante ressaltar que a BR-319 atravessa um mosaico socioambiental complexo, com 19% de terras indígenas, 32,8% de unidades de conservação, assentamentos e áreas com questões fundiárias pendentes. A coordenação entre os ministérios é um passo positivo, mas a efetividade do plano dependerá da sua ágil implementação e da capacidade de coibir as atividades ilegais que historicamente acompanham o anúncio de obras na Amazônia.

E para além dos anúncios sobre o Plano BR-319 e suas consequências imediatas, outro ponto de preocupação foi a aprovação do Projeto de Lei 2.159/2021, o PL da devastação, que ressignificará e fragilizará os processos de licenciamento ambiental, afetando diretamente o processo atual da BR-319, assim como o direito das populações indígenas e tradicionais.  

Assim, o desafio dos ministérios será demonstrar que este acordo gerará a materialidade da governança no território, ainda que sob a nuvem ameaçadora desta nova regulamentação da nova lei geral de licenciamento.

Entre anúncios e retrocessos

O avanço do Plano BR-319 também coincide com a aprovação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei nº 2.159/2021, apelidado por ambientalistas de “PL da Devastação”. A nova lei muda as regras do licenciamento ambiental no país, enfraquecendo exigências e ameaçando direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.


Fonte: Observatório BR-319

A BR-319 ameaça a Amazônia em nome do ‘progresso’ e da política

Incêndios e desmatamento na floresta amazônica. Crédito da foto: ID 306384983 © Yuliia Kaveshnikova | Dreamstime.com

Por Monica Piccinini para “Medium” 

Em 15 de julho, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro dos Transportes, Renan Filho, anunciaram e assinaram formalmente um acordo delineando planos para reconstruir a polêmica rodovia BR-319.

À primeira vista, parece uma estratégia calculada com promessas de avaliações ambientais e estruturas de governança, mas por trás da retórica política existe uma verdade sombria e irreversível: a BR-319 pode ser o golpe final que levará a Amazônia à beira do colapso.

O caminho da destruição

A BR-319 é um trecho rodoviário de 885 km que corta uma das últimas áreas intocadas da floresta amazônica. Ligando Manaus a Porto Velho, ela atravessa floresta tropical intocada, terras indígenas e biodiversidade vital.

Originalmente construída durante a ditadura militar brasileira na década de 1970, foi abandonada em 1988 por ser econômica e ambientalmente inviável. Mas, como um fantasma do passado, a BR-319 continua retornando, desta vez com implicações muito mais perigosas.

Os governos tentam revitalizar a rodovia há décadas. No entanto, todos os estudos ambientais confiáveis confirmam que a pavimentação da BR-319 abriria uma caixa de Pandora de estradas ilegais, desmatamento, degradação, grilagem de terras e ocupação violenta.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), destacou as consequências alarmantes das atuais políticas ambientais brasileiras e a falta de salvaguardas eficazes. Ele enfatizou as implicações globais dessas decisões e seu impacto na região amazônica:

O país ignora sistematicamente os alertas da comunidade científica, apesar das evidências claras publicadas em periódicos importantes como Science, Nature e The Lancet. Esta é uma decisão deliberada que ameaça todas as nações do mundo.

Nesse contexto, o Brasil fica sem nenhuma salvaguarda ambiental eficaz, e a rodovia BR-319 se tornou uma rota para expansão do desmatamento, grilagem de terras, pecuária ilegal, crime organizado e extração de petróleo na Amazônia.

Governança: Uma ilusão perigosa

O governo afirma que estabelecerá um modelo de governança para monitorar a região. No entanto, até mesmo a Polícia Militar do Brasil declarou que qualquer cenário de governança é inalcançável e irrealista. Dado o terreno vasto e desafiador, nenhum órgão de fiscalização tem os recursos, o alcance ou a capacidade de conter o caos que a BR-319 desencadearia.

Hoje, mais de 6.000 km de estradas vicinais ilegais já cruzam a região, formando um padrão devastador em espinha de peixe que garante acesso sem precedentes a garimpeiros, madeireiros, grileiros e ao crime organizado. A BR-319 não seria apenas uma estrada, mas se tornaria uma artéria de destruição, alimentando uma vasta e descontrolada máquina de desmatamento.

Uma sentença de morte para a floresta tropical

A BR-319 conectaria a Amazônia Central à região da AMACRO, um foco de desmatamento que leva o nome dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Sua reconstrução teria consequências catastróficas, destruindo a biodiversidade e abrindo caminho para a exploração de um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

Intensificaria as mudanças climáticas ao liberar enormes quantidades de carbono armazenado. Alimentaria a mineração e a exploração madeireira ilegais, minando o Estado de Direito. Invadiria territórios indígenas, violaria seus direitos e colocaria suas vidas em risco. E criaria um terreno fértil para o florescimento do crime organizado.

Os danos não se limitariam à floresta. Os “rios voadores”, enormes correntes de ar que transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, seriam interrompidos. Esses rios voadores são essenciais para os padrões de chuva. Sem eles, grandes cidades e regiões agrícolas sofrerão secas devastadoras.

Mais de 70% das chuvas que abastecem o sistema hídrico da Cantareira , em São Paulo , provêm da Amazônia. Se a BR-319 avançar, a segurança hídrica da maior cidade do Brasil poderá estar em risco, com consequências diretas para a agricultura e o potencial colapso de todos os setores econômicos do país.

O custo humano: Doença e deslocamento

As consequências da BR-319 também seriam medidas em vidas humanas. Ao destruir ecossistemas florestais e avançar ainda mais em habitats de vida selvagem, este projeto cria condições perfeitas para o surgimento de novas doenças zoonóticas , aumentando o risco de outra pandemia global . Os casos de malária na região já aumentaram 400%.

A disseminação da febre de Oropouche , transmitida pelo pequeno mosquito Culicoides paraense , conhecido localmente como maruim, tem sido outro sinal alarmante. Entre 2022 e 2024, foram registrados mais de 6.000 casos de febre de Oropouche . Esses surtos, originados na região da AMACRO, já se espalharam pelo Brasil, para o estado do Espírito Santo, outros países da América do Sul e Caribe.

De acordo com o governo do Reino Unido , vários casos de Oropouche associados a viagens foram relatados nos EUA, Europa e Reino Unido.

Ferrante alerta sobre os graves riscos de biossegurança associados à destruição ambiental contínua na Amazônia:

O desmatamento e a degradação ambiental já estão invadindo áreas sensíveis que protegem reservatórios zoonóticos únicos. A linhagem do vírus Oropouche, que agora chega à Europa, é originária dessa região. No entanto, o governo brasileiro está abrindo uma verdadeira caixa de Pandora com novos vírus, bactérias e outros patógenos. As consequências para a biossegurança global serão catastróficas.

Se a BR-319 for adiante, a crise sanitária se agravará. A Amazônia se tornará um ambiente propício para futuras pandemias, e o Brasil arcará com o custo de uma catástrofe evitável.

Quem realmente se beneficia?

Os benefícios da BR-319 não serão repassados aos povos indígenas , cujas terras e vidas ela ameaça. Há 69 terras indígenas e 18.000 povos indígenas ao longo do traçado da rodovia. Nenhum deles foi devidamente consultado, apesar das proteções da Convenção 169 da OIT e da legislação brasileira.

Em vez disso, os principais beneficiários serão gigantes do petróleo e gás como Petrobras e Rosneft (russa), empresas de mineração como a Potássio do Brasil (canadense) e conglomerados do agronegócio como a JBS.

As operações de mineração legal e ilegal se expandirão. A pecuária, que já é responsável por pelo menos 88% do desmatamento na Amazônia, será turbinada. O resultado será mais florestas desmatadas, mais carbono na atmosfera e mais violência no local.

A rodovia também fortalecerá o controle do crime organizado. A grilagem de terras e o desmatamento ilegal já estão intimamente ligados às redes criminosas da região. A BR-319 criaria um corredor de exploração e conflito.

A miragem da bioeconomia

Alguns argumentam que a BR-319 é essencial para o desenvolvimento da chamada “bioeconomia” brasileira. Segundo o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável ( WBCSD ), a bioeconomia deverá gerar mais de US$ 7,7 trilhões globalmente até 2030. Esse conceito, no entanto, permanece mal definido e profundamente controverso.

Com a COP 30 se aproximando, o Brasil está impulsionando essa narrativa com força. Mas o que está sendo vendido como uma alternativa sustentável pode ser apenas uma nova forma de extração.

Sob a égide da bioeconomia, os projetos incluem créditos de carbono, biocombustíveis, produtos florestais madeireiros e não madeireiros, pesca, biotecnologia, turismo e até plataformas virtuais.

Foi proposto um projeto de lei para criar uma zona de livre comércio (ZLC) de bioeconomia em Belém, cidade-sede da COP30. O projeto oferece incentivos fiscais, desregulamentação e privilégios comerciais. Os beneficiários, mais uma vez, serão as corporações e as elites.

Longe de ser uma solução, a bioeconomia corre o risco de se tornar mais um veículo para a destruição da Amazônia por meio do greenwashing.

Devastação por lei

Por trás de toda essa devastação está a legislação criada para desmantelar as proteções ambientais do Brasil. O Projeto de Lei 2159/21, conhecido como “Projeto de Lei da Devastação”, permite que empresas autolicenciem seus projetos sem qualquer avaliação de impacto ambiental. Basta um simples formulário online.

Apoiado pelo poderoso bloco ruralista, grandes proprietários de terras e interesses do agronegócio, este projeto de lei abre caminho para a expansão desregulamentada em petróleo e gás, mineração, agronegócio e infraestrutura, incluindo a BR-319.

Em 17 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei da Devastação , que agora aguarda a sanção do presidente Lula. Isso representa um golpe significativo nos esforços do Brasil em prol da justiça ambiental e dos compromissos climáticos.

Outra lei, a 14.701/2023 (anteriormente PL490), conhecida como “marco temporal”, redefine os direitos territoriais indígenas. Ela estabelece que as comunidades indígenas só podem reivindicar terras se já as possuíssem em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira.

Ferrante disse:

O Brasil vive a maior vulnerabilidade ambiental de sua história. Essa decisão se alinha à aprovação do Projeto de Lei 2159/2021, que elimina o licenciamento ambiental para esse tipo de empreendimento, e ao avanço da chamada “tese do marco temporal”, que invalida o reconhecimento de terras indígenas demarcadas após 1988.

Essa lógica cruel ignora séculos de deslocamento e abre caminho para despejos violentos, concedendo à polícia militar a autoridade para remover povos indígenas de suas próprias terras ancestrais.

Que futuro escolhemos?

A BR-319 é mais do que uma rodovia; é o símbolo de uma escolha perigosa. Ela nos obriga a decidir entre dois futuros: um em que protegemos a Amazônia, respeitamos os direitos indígenas e traçamos um caminho sustentável; e outro em que sacrificamos tudo em prol de lucros de curto prazo, ganhos políticos e ganância corporativa.

O governo brasileiro precisa tomar uma decisão técnica de fato, baseada na ciência, não na política, porque, uma vez pavimentada a BR-319, não haverá mais volta. Se perdermos a Amazônia, perderemos o clima, perderemos a biodiversidade e perderemos nosso futuro coletivo.

Devemos nos perguntar: a destruição do planeta vale mais alguns quilômetros de estrada? É esse o legado que queremos deixar para as próximas gerações?


Fonte: Medium

Enquanto muitos lutam contra o PL da Devastação, governo Lula avança plano para pavimentar BR-319

Governo fecha acordo para construção da BR-319 - ClimaInfo

Pavimentação da BR-319 irá devastar último grande bloco de floresta relativamente preservado na Amazônia

Enquanto muitos se mobilizam contra a aprovação final do Projeto de Lei 2159/2021 , também conhecido como PL da Devastação, o governo Lula avança com seus planos desastrosos de pavimentar a BR-319.  Segundo matéria assinada pelo jornalista André Borges e publicada pelo jornal Folha de São Paulo, os Ministérios do Meio Ambiente (Marin Silva) e dos Transportes (Renan Filho) costuraram um acordo inédito para elaborar um plano socioambiental atrelado ao empreendimento, de forma a mitigar seus impactos.

Esse é o tipo de acordo “cheiroso” cujos efeitos práticos incluirão a abertura do último grande bloco de floresta relativamente intacta na Amazônia para a penetração de grileiros, garimpeiros e madeireiros que irão acelerar os processos de degradação florestal e desmatamento.

Acenar com um plano sociambiental em meio às pressões por mais derrubada de floresta por parte do latifúndio agro-exportador e outros predadores da floresta é basicamente uma embromação para ocultar que a chamada Agenda Climática do governo Lula não passa de outra grande embromação. 

E convenhamos que com a abertura da exploração do petróleo na região da Foz do Amazonas e a eventual pavimentação da BR-319, qualquer compromisso climático será inútil, na medida em que estarão sendo disparadas duas grandes bombas de emissão de gases de efeito estufa.

Finalmente, o que isso mostra é que, ainda que muito justa, a mobilização contra o  PL da Devastação é apenas um momento pontual em uma grande batalha em defesa do meio ambiente, dos povos tradicionais, e da maioria pobre da população, sem que se possa ter qualquer ilusão com as forças que hoje controlam o parlamento e o governo federal comandado pelo presidente Lula.

Com a COP30 se encaminhando para ser um fracasso completo, o que fazer?

Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução

O governador do Pará Helder Barbalho (à esquerda) e Lula, em Belém. Foto: Daleth Oliveira/Revista Cenarium

A realização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (a chamada COP30) na cidade de Belém tem sido apresentada como uma espécie de chance do Brasil se posicionar como um dos líderes da necessária transição para um novo modelo de relação societária com os ecossistemas naturais da Terra. 

Pois bem, o problema é que a propaganda em torno da COP30 não resiste a um mínimo de escrutínio em função das opções dominantes do governo Lula para iniciar qualquer coisa que se assemelhe à transição energética necessária para se arrefecer ou, pelo menos, retardar o colapso climático que se desenha em um horizonte cada vez mais carregado e próximo.

A primeira e talvez maior demonstração do descompromisso em nos preparar para o colapso que se avizinha é a insistência em abrir uma nova fronteira de exploração de petróleo e gás na foz do Rio Amazonas, convenientemente rebatizada de Margem Equatorial. A sugestão de que a renda petrolífera que venha a ser eventualmente obtida com as atividades petrolíferas na foz do Amazonas será em parte utilizada para acelerar a transição energética brasileira equivale à conversa de um bêbado que propõe ingerir mais vodca para alcançar a sobriedade. Basta olhar para o que está acontecendo em outra foz, a do Níger, para entender que a exploração do petróleo raramente traz outra coisa que não seja muita poluição e piora das condições socioambientais em que trabalhadores e camponeses precisam buscar seus meios de sobrevivência.

Mas o discurso pró-ambiente do governo Lula não está patinando apenas na foz do Amazonas, mas em outra região crítica para a contenção da crise climática em que se encontra o último grande bloco de floresta amazônica ainda razoavelmente intacto. Naquela parte da Amazônia, o governo Lula insiste em atender as demandas de latifundiários e empresas multinacionais que controlam a produção de soja ao pavimentar a chamada BR-319, que liga Manaus, capital do estado do Amazonas, a Porto Velho, capital de Rondônia. Se esse projeto se consumar, e nada indica que não o será, o que se verá em poucos anos é a perda de uma grande área de florestas que guarnece um grande estoque de biodiversidade e um gigantesco estoque de água. Várias pesquisas feitas na região da BR-319 já mostram que, mesmo antes da sua pavimentação, há um aumento considerável de estradas ilegalmente construídas que abrem caminho para a exploração madeireira e o grande garimpo ilegal de ouro – mantido por latifundiários e grandes burgueses do ramo às custas do aliciamento de camponeses sem terra.

A realidade é que o presidente Lula nunca foi realmente muito comprometido com a preservação ambiental da Amazônia, em que pese a importância estratégica da região para o equilíbrio ambiental não apenas do Brasil, mas do planeta. Desde seu primeiro mandato como presidente, Lula fez a opção por reforçar o papel brasileiro de supridor de commodities agrícolas e minerais, seguindo uma lógica neocolonial. Discurso pró-ambiente, quando muito, só mesmo em dias de festa.  A verdade é que os compromissos reais sempre estiveram com os “campeões nacionais” como a JBS e a Vale, apenas para começo de conversa, os quais foram abastecidos com várias centenas de bilhões de reais, enquanto a reforma agrária nunca saiu do papel.

Diante desse quadro, o que fazer em face do avanço dos sinais de que estamos nos aproximando de um período de grandes dificuldades causadas pela transição para um clima mais hostil para os seres humanos, mas especialmente para os mais pobres?

A primeira coisa sensata a se fazer será não depositar um grão sequer de expectativa na capacidade da COP30 de gerar as propostas e projetos necessários para nos prepararmos para o que está se aproximando no horizonte.  É que esta será mais uma conferência cujos resultados serão parcos e dominados pelos interesses das grandes corporações multinacionais que são as causadoras primárias das emissões de gases estufa. Ir até Belém para a COP30 não será apenas absurdamente caro, como já se anuncia na elevação exponencial das diárias dos hotéis. Será acima de tudo um desperdício de um tempo que não temos para perder.

Mas negar a efetividade do tipo de arranjo que organiza as negociações das COPs não será suficiente. Há que começar a radicalizar a organização política dos trabalhadores em prol de uma transição não apenas de modelo de consumo, mas essencialmente de organização societária. É preciso que se dissemine o conhecimento sobre a ameaça existencial que se está colocando sobre toda a Humanidade a partir da aceleração do caráter destrutivo que as formas de produção e consumo que caracterizam o sistema capitalista. Acima de tudo, há que se combater a falácia de que o capitalismo é capaz de resolver os problemas que ele gera a partir de fórmulas que não questionam as suas formas de produção e reprodução.

É chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível. 


Fonte: Jornal A Nova Democracia

BR-319: abrindo caminho para o deslocamento indígena e a catástrofe ambiental

Por Monica Piccinini para o “The Canary” 

Desde que os colonizadores europeus pisaram no Brasil , os povos indígenas têm lutado uma batalha implacável para proteger suas terras e preservar seu modo de vida. Séculos de opressão os forçaram a alterar suas culturas, tradições e crenças, mas sua resiliência permanece inquebrável. Hoje, eles ainda sofrem invasões violentas de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e crime organizado, mantendo suas comunidades presas em uma luta constante pela sobrevivência.

proteção das terras indígenas do Brasil é crucial para a sobrevivência da floresta amazônica. No entanto, vários projetos – incluindo exploração de petróleo e gás, expansão do agronegócio, criação de gado, produção de biocombustíveis , mineração legal e ilegal , exploração madeireira e crime organizado – ameaçam esse ecossistema vital.

Rodovia BR-319: uma estrada para lugar nenhum para os povos indígenas

A reconstrução da rodovia BR-319 na Amazônia , um dos projetos mais prejudiciais ao meio ambiente do mundo, serve como um catalisador para essas atividades destrutivas. Com 885 km de extensão, a rodovia conecta a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, cortando áreas intocadas da floresta tropical. Uma reconstrução proposta de 408 km abriria uma porta de entrada para o desmatamento , crime e exploração corporativa, impactando diretamente mais de 18.000 indígenas.

A Amazônia desempenha um papel crítico na regulação do clima global e na geração de vapor de água que traz chuva para o Brasil através dos “rios voadores”. A reconstrução da BR-319 interromperá esse sistema vital, ameaçando a saúde da região e o equilíbrio ambiental geral.

O desmatamento e a degradação ao longo da BR-319 interromperão os “rios voadores”, o que pode levar a secas devastadoras, escassez de alimentos e água e ao colapso do setor agropecuário brasileiro, incluindo a agricultura familiar, desestabilizando, em última análise, a economia do país.

ONGs sustentam a BR-319 às custas de comunidades indígenas

Territórios indígenas não são meramente terra – eles são lugares vivos, respirantes, ricos em história, cultura e significado. Essas terras guardam o pulsar das tradições, onde comunidades coexistem em um equilíbrio delicado e sagrado com os animais, a água, as florestas e a própria terra. Seu vínculo com a natureza é profundo e sagrado, pois sua própria sobrevivência depende de sua saúde e força. É um vínculo construído com base no respeito e no cuidado, uma promessa de nutrir a terra que os sustenta, garantindo que ela floresça para as gerações futuras.

No entanto, esse vínculo agora está ameaçado. Nas áreas ao redor da rodovia BR-319, lideranças indígenas do Lago Capanã Grande e Baetas têm relatado graves violações de seus direitos e crescentes ameaças devido à degradação de seus territórios e à expansão da rodovia. Houve também uma tentativa alarmante de organizações não governamentais (ONG) de validar o protocolo de consulta com as comunidades.

Essa situação preocupante surgiu durante um evento na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que contou com a participação do Ministério Público Federal, um representante do Ministério do Meio Ambiente, uma ONG e lideranças indígenas. O encontro foi organizado pelo pesquisador Lucas Ferrante e coberto pela Revista Cenarium.

A questão foi mais detalhada no artigo BR-319: Narrativas, Negócios e Poder , publicado pela Revista Cenarium em fevereiro. De acordo com o artigo, a ONG Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) produziu um documento alegando falsamente que a comunidade indígena havia sido consultada e concordado com a reconstrução da rodovia, desde que uma reserva extrativista fosse criada para protegê-los. Chocantemente, a comunidade só soube dessa aprovação depois de assinar o documento.

Rodovia BR-319: uma ‘manipulação de direitos’ e ‘violação’ de terras tradicionais

Em 2020, Ferrante viajou pela rodovia BR-319, entrevistando indígenas e líderes impactados pela estrada. Desde então, suas opiniões sobre os efeitos da rodovia permaneceram consistentes. Um líder indígena do Lago Capanã compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia (seu nome foi omitido para garantir sua segurança):

Gostaria de expressar minha indignação diante de todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição do nosso rio, destruição da nossa natureza.

E isso está causando grandes problemas no fluxo dos nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui usamos a água do rio. O resultado dessa BR vai virar uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes, todo tipo de droga, como já existe.

A população indígena vive de alimentos da natureza, a população indígena não vive de gado. Os povos indígenas vivem de objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e subtraem a natureza para si mesma para sua sobrevivência e protegem sua própria natureza. Eu sou contra essa pavimentação.

A expansão da BR-319 está impulsionando o rápido crescimento do agronegócio na região, particularmente em terras públicas não alocadas. Produtores de soja do Mato Grosso do Sul estão cada vez mais se mudando para Rondônia, comprando terras de pecuaristas que estão então se deslocando para o sul dentro do corredor da BR-319 para plantar soja. Essas terras são frequentemente confiscadas ilegalmente por meio de grilagem de terras, desmatamento ilegal ou despejos violentos de comunidades indígenas e tradicionais.

Essa situação chama a atenção para questões críticas como a Moratória da Soja, especialmente porque há tentativas crescentes de aboli-la, o que pode ter efeitos devastadores sobre o meio ambiente e as comunidades indígenas e tradicionais.

Lobby do agronegócio mira a Moratória da Soja

A Moratória da Soja do Brasil, estabelecida em 2006, é um acordo em que as empresas signatárias se comprometem a não comprar soja cultivada em terras desmatadas na Amazônia após julho de 2008. Este acordo tem sido uma ferramenta vital na luta contra o desmatamento. No entanto, agora ele enfrenta uma ameaça, pois o poderoso lobby do agronegócio do Brasil intensifica os esforços para desmantelá-lo. Como o maior produtor e exportador mundial de soja, as políticas agrícolas do Brasil têm imensas consequências globais.

Em outubro de 2024, o estado do Mato Grosso, principal produtor de soja, promulgou o Projeto de Lei 12.709/2024, efetivamente cortando incentivos fiscais para empresas que aderirem à Moratória da Soja. Em 19 de fevereiro, o presidente da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, Max Russi, fez a seguinte declaração:

Estamos todos unidos em defesa de um dos pilares mais importantes da nossa economia: o agronegócio.

No mesmo mês, uma reportagem preocupante da Repórter Brasil revelou que a Cargill, uma das maiores exportadoras de grãos brasileiros, estava sugerindo que iria se distanciar das regras da Moratória da Soja.

Em 11 de março, o ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, organizou uma reunião com líderes do agronegócio e o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, que está supervisionando o caso referente à Moratória da Soja. Entre as figuras-chave estavam Blairo Maggi, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e mentor político de Fávaro, bem como representantes de grandes gigantes agrícolas, como o Grupo Bom Futuro e a Amaggi, a maior trading company agrícola do país.

Preocupações surgem dos papéis e conexões sobrepostos envolvidos. A influência significativa de Maggi tanto na formulação de políticas quanto no agronegócio, juntamente com laços familiares e os interesses adquiridos de Amaggi na Moratória da Soja, levantam questões sobre a imparcialidade dessas discussões.

Fávaro manifestou forte oposição à Moratória da Soja, chamando-a de “discrepante” e “pouco profissional”, e declarou firmemente sua posição:

Tentei demonstrar que a Moratória da Soja também não é constitucional e estou confiante de que o Ministro Dino agirá nesse sentido.

Comunidades indígenas: um mero obstáculo na busca do lucro pelo agronegócio

Se a Moratória da Soja for suspensa, os produtores de soja migrarão para a Amazônia, desencadeando desmatamento desenfreado, degradação ambiental, poluição e violação dos direitos indígenas, incluindo violência e invasão de terras. Isso também pode resultar em um aumento acentuado nas emissões de gases de efeito estufa, levando a consequências sociais e ambientais desastrosas.

Em uma nação onde o agronegócio impulsiona a economia, os territórios indígenas são vistos como obstáculos ao crescimento capitalista implacável. Com o Congresso brasileiro dominado pela poderosa bancada ruralista, os “ruralistas”, há pouca preocupação com os direitos indígenas, pois eles pressionam incansavelmente por leis que atendam a seus próprios interesses. Para eles, a sobrevivência das comunidades indígenas é um mero obstáculo em sua busca por lucro.

O futuro da Amazônia, suas comunidades indígenas e nosso planeta estão em risco. A reconstrução da BR-319 não é apenas uma estrada – é um movimento perigoso que pode destruir séculos de herança e prejudicar o meio ambiente além do reparo. Se o Brasil seguir esse caminho, o dano será permanente, deixando cicatrizes profundas na terra, em seu povo e no mundo.

À medida que o mundo se prepara para a COP30 , a urgência de proteger a Amazônia e seus ecossistemas nunca foi tão clara. As decisões tomadas nesta cúpula terão um impacto profundo na preservação da Amazônia, e devemos garantir que a sustentabilidade, os direitos indígenas e a proteção ambiental ocupem o centro do palco nessas discussões.


Fonte: The Canary

BR-319: Estamos na estrada para lugar nenhum…

Luiz Inácio Lula da Silva, 2021. Casa de América / Creative Commons 2.0

Por Mônica Piccinini para o “The Ecologist”

BR-319: Uma rodovia para o caos climático no coração da Amazônia.

O governo brasileiro está enviando uma mensagem poderosa sobre seu compromisso com a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável enquanto o Brasil se prepara para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025, a COP30.

Central para esta mensagem é a proteção da floresta amazônica, vital para o equilíbrio ecológico do planeta. No entanto, um projeto controverso paira sobre essas declarações: a planejada rodovia BR-319 da Amazônia , uma proposta que desencadeou intenso debate sobre seu potencial de perturbar um dos ecossistemas mais críticos da Terra.

A reconstrução da rodovia BR-319, no Amazonas, que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta, cortando um dos blocos mais preservados da floresta tropical, pode desencadear uma reação em cadeia de crise climática com impactos severos e irreversíveis na Amazônia, no Brasil e em todo o planeta.

Ambição

Embora o governo brasileiro promova o projeto da BR-319 como essencial para o desenvolvimento econômico regional, ele representa uma das ameaças mais significativas à sobrevivência da Amazônia. 

Este projeto coloca em risco pelo menos metade da floresta tropical remanescente do Brasil, colocando 69 comunidades indígenas , 64 territórios indígenas e mais de 18.000 povos indígenas.

Durante uma visita ao Amazonas em setembro, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, demonstrou seu comprometimento e total apoio à reconstrução da rodovia BR-319 ao dizer : “essa estrada agora começará a ser construída”. Ele acrescentou : “A BR-319 é ​​uma necessidade para o estado do Amazonas, é uma necessidade para Roraima e uma necessidade para o Brasil”. 

Mas a ambição de Lula de liderar a agenda climática parece entrar em conflito com suas próprias políticas e ações . 

Reconstruir

Philip Fearnside, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e ganhador do prêmio Nobel da Paz, disse: “Em Manaus, todos os políticos apoiam a reconstrução da rodovia BR-319, com a condição de que o governo federal e, por extensão, os 99% dos contribuintes que vivem fora de Manaus, paguem a conta. 

Enfrentaremos severas escassez de água em regiões densamente povoadas, levando à morte das populações mais vulneráveis, interrupções industriais e impactos devastadores na agricultura, tornando essas áreas inabitáveis. 

“Após mais de duas décadas de desinformação consistente sobre o projeto, quase toda a população local agora o apoia, e questionar a iniciativa seria suicídio político para qualquer candidato.

“Repavimentar a rodovia BR-319 ligaria a relativamente intocada Amazônia central à região da AMACRO – um hotspot de desmatamento nomeado em homenagem aos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), ela se tornou um grande impulsionador do desmatamento na floresta amazônica”, ele acrescentou.

A BR-319, uma rodovia de 885 km, foi inaugurada em 1976 durante a ditadura militar do Brasil, mas foi abandonada em 1988. Em 2015, sob o governo de Dilma Rousseff, um programa de manutenção foi lançado para reviver a rodovia. Desde então, vários governos fizeram várias tentativas de reconstruir uma seção de 406 km da rodovia.

Sobreviver

O efeito espinha de peixe é resultado da abertura de ramais ilegais em ambos os lados da rodovia BR-319, criados por grileiros . Esse fenômeno já se desenrola ao redor da rodovia, com mais de 6.000 km de extensões ilegais, o que é mais de seis vezes a extensão da BR-319. 

Além disso, as estradas propostas ao longo da BR-319, como aAM-366 , dariam aos desmatadores acesso a uma vasta área de floresta tropical na região Trans-Purus, a oeste da BR-319.

A reconstrução da rodovia BR-319 pode levar a consequências catastróficas e irreversíveis , incluindo desmatamento generalizado, perda de biodiversidade e degradação ambiental. 

Também pode alimentar um aumento em atividades ilícitas, como crime organizado, extração ilegal de madeira, mineração e invasão de terras indígenas . Além disso, o risco de saltos zoonóticos e o surgimento de novas pandemias podem aumentar. 

Esses impactos podem levar a floresta tropical além de sua capacidade de sobrevivência, fazendo com que ela pare de funcionar como sumidouro de carbono e interrompendo seu papel como regulador climático regional e global.

Interrupções

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), discutiu o papel crítico dos rios voadores na regulação do clima.

Ele disse: “Nesta região florestal, ocorre um serviço ecossistêmico ambiental crucial, conhecido como rios voadores, que desempenha um papel crucial na regulação do clima do Brasil. A umidade do Oceano Atlântico é levada para o continente pela região Norte, onde entra na Amazônia. 

“A evapotranspiração da floresta preservada gera sistemas de alta pressão que produzem chuvas, que então viajam para o sul, fornecendo água para as regiões sudeste, centro-oeste e sul do Brasil. 

“Por exemplo, 70 por cento da precipitação que abastece o sistema Cantareira – responsável por fornecer água para São Paulo, a área mais densamente povoada da América do Sul – se origina dessa região florestal. No entanto, o desmatamento ao longo da BR-319 representa uma séria ameaça a esses rios voadores, e a destruição contínua pode levar a consequências devastadoras para todo o país.”

Ferrante continuou: “Enfrentaremos severas escassez de água em regiões densamente povoadas, levando à morte das populações mais vulneráveis, interrupções industriais e impactos devastadores na agricultura, tornando essas áreas inabitáveis. 

Extrair

“Essencialmente, o colapso dos rios voadores desencadeará o colapso dos setores econômicos do país, podendo causar perdas anuais de até US$ 500 bilhões (R$ 3 trilhões).” 

Um levantamento do Monitor de Incêndios do MapBiomas revela que de janeiro a setembro deste ano, o Brasil viu 22,38 milhões de hectares queimarem, marcando um aumento de 13,4 milhões de hectares em relação a 2023. Isso representa um aumento de 150% em relação ao ano anterior. Mais da metade da área queimada (51%, ou 11,3 milhões de hectares) ocorreu na Amazônia.

Comentando sobre os incêndios na Amazônia e em todo o Brasil, Ferrante declarou: “É crucial reconhecer que o Brasil superou suas metas de emissões de gases de efeito estufa, com os maiores níveis originados na Amazônia devido aos incêndios generalizados no bioma.”

Espera-se que os incêndios e a seca na Amazônia piorem devido às mudanças climáticas e outros fatores, incluindo a expansão desenfreada do agronegócio, especialmente a pecuária, a mineração legal e ilegal, a exploração madeireira e a produção de biocombustíveis em larga escala – especialmente com o recente aumento do mandato de biocombustíveis anunciado por Lula 

Isso é ainda mais intensificado pelo esforço de Lula para extrair “até a última gota” de petróleo. A rodovia BR-319 desempenha um papel central na facilitação desses desenvolvimentos na região.

Surto

A floresta amazônica é reconhecida como um dos maiores reservatórios de doenças zoonóticas. Cientistas alertam consistentemente que a reconstrução da rodovia BR-319, em conjunto com as mudanças climáticas, acelerará a degradação florestal causada pela expansão do agronegócio, mineração, exploração de petróleo e gás, atividades ilícitas e projetos de infraestrutura. 

Isso levaria ao aumento da mobilidade humana e da urbanização, aumentando o risco de contágios zoonóticos — doenças armazenadas na floresta que podem passar para os humanos, o que poderia desencadear uma pandemia global ou uma série delas.

O desmatamento ao longo da BR-319 já resultou em um aumento de 400% nos casos de malária na região, destacando os potenciais danos ambientais causados ​​por este projeto e seu papel no surgimento de uma nova pandemia global .

Um artigo na Nature relatou que a Amazônia ocidental brasileira está enfrentando seu maior surto confirmado do vírus Oropouche (OROV), com mais de 6.300 casos registrados entre 2022 e 2024. 

Fúngico

Pesquisadores identificaram uma nova variante genética do vírus e destacaram paisagens florestais fragmentadas e perda de vegetação causada pelo desmatamento e expansão de atividades agrícolas como fatores significativos que impulsionam sua transmissão. 

A maioria dos casos positivos de OROV em 2022–2023 se concentrou na região AMACRO, um ponto crítico de desmatamento.

Fearnside explicou: “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas ao aumentar o contato entre a vida selvagem da floresta tropical e a população humana e seus animais domésticos.

“Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições que favorecem o surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas.” 

Terras-devolutas

A rodovia BR-319 atenderá a uma gama cada vez maior de indústrias nacionais e internacionais, especialmente aquelas focadas nos lucros significativos que uma “bioeconomia” pode gerar.

Além disso, desempenhará um papel crucial na facilitação da exploração de petróleo e gás na região, incluindo as operações da Petrobras ao longo da margem equatorial, um projeto que tem total apoio de Lula .

A empresa russa de petróleo e gás Rosneft também se beneficiará do projeto BR-319, pois detém direitos de perfuração em 14 blocos de petróleo e gás situados a oeste da rodovia, a cerca de 35 km do Rio Purus, dentro da Bacia Sedimentar do Solimões . Essa área intocada é maior que o estado da Califórnia.

Outros setores também ganhariam com o projeto da BR-319, como a expansão do agronegócio, a pecuária , a mineração legal e ilegal, a exploração madeireira e o crime organizado.

Ferrante detalhou como a BR-319 está facilitando a expansão do agronegócio, da pecuária e da mineração: “A BR-319 está acelerando o crescimento do agronegócio na região, especialmente em terras devolutas”. 

Navegável

“Produtores de soja do Mato Grosso do Sul estão migrando para Rondônia, comprando terras de pecuaristas que, por sua vez, estão se mudando para o sul do Amazonas, dentro do corredor da BR-319. Essas terras são frequentemente ocupadas ilegalmente, seja por meio de grilagem, desmatamento ilegal ou despejo violento de comunidades tradicionais.

“Desde 2023, Manaus tem experimentado um aumento nos níveis de fumaça durante a estação seca, principalmente devido aos incêndios florestais que se espalham ao longo das seções recém-pavimentadas da BR-319, onde a pecuária está se expandindo rapidamente. A presença de asfalto acelera o desmatamento, e os incêndios são comumente usados ​​para limpar terras para pastagens.”

Ele acrescentou: “Além disso, há uma conexão bem documentada entre grileiros e crime organizado ao longo da BR-319. Grupos criminosos confiscam terras, expulsando proprietários legítimos e comunidades tradicionais, e frequentemente usam os lucros para forçar essas comunidades deslocadas a trabalhar em operações ilegais de mineração.”

Apoiadores do projeto da BR-319, incluindo políticos, empresas e indivíduos, apresentaram diversas justificativas para a reconstrução da rodovia, citando a seca atual na região. 

No entanto, Ferrante ressalta que, apesar da seca, o Rio Madeira continua navegável. Além disso, a BR-319 não se conecta a nenhum dos municípios impactados pela seca, pois eles estão localizados do outro lado do Rio Negro.

Agarrando

O Rio Madeira é há muito tempo a principal rota de transporte na região, correndo paralelo à rodovia BR-319 e oferecendo um meio mais seguro, limpo e econômico de transportar mercadorias.

Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, órgão ambiental brasileiro, disse ao AmazoniaReal em 14 de novembro que, sem uma boa governança, o projeto da BR-319 pode se tornar uma “grande frente de desmatamento”. Ele ainda observou que aqueles que constroem uma estrada não assumem a responsabilidade de administrar a área ao redor, o que continua sendo uma questão altamente controversa.

O governo brasileiro continua a defender a governança ao longo da BR-319, com apoio de algumas ONGs apoiadas por uma organização filantrópica internacional . Esses grupos, no entanto, se recusam a se opor ao projeto da BR-319. 

Enquanto isso, membros da Polícia Federal e do Exército brasileiros deixaram claro que qualquer cenário futuro de governança é irrealista , pois os órgãos de fiscalização não teriam os recursos necessários para monitorar a área devido ao seu vasto tamanho, complexidade e perigo.

O crime organizado já controla a grilagem de terras e a mineração na região, o que tem tido um impacto devastador nas comunidades tradicionais.

Unânime

Quem se beneficia do projeto BR-319? Os principais beneficiários são aqueles que financiam atividades ilícitas, como mineração ilegal e crime organizado, bem como a expansão do agronegócio, produção de biocombustíveis em larga escala, pecuária, exploração de petróleo e gás e o desenvolvimento de uma “bioeconomia”. 

Esses empreendimentos altamente lucrativos são financiados por partes interessadas nacionais e internacionais.

“O estudo de impacto ambiental (EIA) de 2009 indicou que os líderes empresariais não viam este projeto como uma prioridade para o centro industrial de Manaus”, disse Fearnside.

“Nos anos seguintes, o apoio político unânime ao projeto naturalmente levou os empresários a adotarem a mesma posição, dada sua dependência de apoio político.

Ecossistemas

“No entanto, estudos acadêmicos avaliando a viabilidade do projeto descobriram que ele é economicamente injustificável. Notavelmente, ele continua sendo o único grande projeto no Brasil sem um estudo oficial de viabilidade econômica (EVTEA), o que dificilmente é uma coincidência.” 

A reconstrução da rodovia BR-319 não conta com o estudo de viabilidade econômica (EVTEA) exigido pela Lei 5917/1973 e não realizou consultas cruciais com as comunidades indígenas, conforme estipulado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Lei Brasileira 10.088/2019 , tornando o projeto da BR-319 inconstitucional.

Após a apresentação de Ferrante no Ministério do Meio Ambiente em 29 de outubro destacando os impactos negativos do projeto BR-319, ele está pedindo a suspensão de todas as licenças e licitações até que sejam realizadas consultas com todas as comunidades indígenas afetadas. 

Além disso, ele pede a suspensão da licença de manutenção de toda a rodovia devido aos danos ambientais significativos já causados ​​pelo departamento nacional de infraestrutura de transportes (DNIT) aos ecossistemas, córregos e comunidades tradicionais. Ele ainda solicita a remoção dos ramais ilegais e a desapropriação de todas as áreas ocupadas ao longo da rodovia BR-319 desde 2008.

Eta autora 

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist